domingo, 10 de maio de 2015

A Dama e o Monstro (The Lady and the Monster, EUA, 1944)


Direção de George Sherman, cineasta mais conhecido pelos filmes de western, produção da “Republic” com fotografia em preto e branco, e história baseada no conto “O Cérebro de Donovan”, escrita em 1942 por Curt Siodmak. Teve outras duas refilmagens, “Experiência Diabólica” (Donovan´s Brain, 1953) e “The Brain” (1962).
Em “A Dama e o Monstro”, o “cientista louco” Prof. Franz Mueller (o austríaco Erich von Stroheim) está trabalhando em seu castelo no deserto do Arizona com experiências para tentar manter vivo o cérebro mesmo após a morte do corpo. Auxiliado por dois assistentes, o Dr. Patrick Cory (Richard Arlen) e a bela Janice Farrell (a atriz Tcheca Vera Hubra Halston), o cientista tenta obter sucesso utilizando animais como um macaco doente à beira da morte, mas seu interesse maior está em testar a experiência em seres humanos.
Após surgir a oportunidade com o cadáver de um famoso e misterioso milionário, William H. Donovan, morto no acidente com a queda de um pequeno avião, o Prof. Mueller consegue êxito em manter o cérebro vivo e ativo mergulhado numa solução química especial. Porém, continuando o projeto científico com a tentativa de comunicação com o cérebro, eles não imaginariam que o Dr. Cory seria controlado telepaticamente pelo cérebro de Donovan, obrigando-o inconscientemente a fazer suas vontades obscuras, colocando em risco a vida de todos.
A premissa central é de ficção científica bagaceira com elementos de horror, típica dos anos dourados do cinema fantástico das décadas de 40 a 60 do século passado, e nesse caso especificamente misturado com uma história policial. Com 82 minutos de duração e uma interessante atmosfera sinistra nas cenas no interior do castelo gótico, o filme apresenta os clichês característicos dessas divertidas tranqueiras. Temos o tradicional laboratório sombrio do “cientista louco”, que por sua vez tenta se convencer que seu trabalho traz resultados para o bem da humanidade, através da capacidade em manter vivo um cérebro separado do corpo morto, e com isso preservar o conhecimento, sabedoria e pensamentos de personalidades importantes como cientistas, inventores, escritores e estadistas.
Porém, apesar desses elementos do cinema bagaceiro de FC sempre garantirem a diversão, temos alguns fatores negativos que chegam a incomodar um pouco, mesmo para os apreciadores do estilo. A atuação forçada e sem expressão da atriz Vera Hubra Halston, que deixa claro que não possui as habilidades necessárias para a arte de atuar, e o roteiro que dá maior enfâse para uma história policial com um assassinato misterioso e pessoas interessadas em dinheiro, em detrimento do mais interessante que é a ficção científica com horror.
(Juvenatrix - 10/05/15)

sábado, 9 de maio de 2015

Megalópolis, Júlio Emílio Braz

Megalópolis, Júlio Emílio Braz. 100 páginas. Rio de Janeiro: Editora Rocco – Coleção “Jovens Leitores”, 2006.

   Júlio Emílio Braz é um caso raro na ficção científica brasileira. Para começar é negro, uma raridade no meio, integrado mais por descendentes de europeus. Além disso, é um escritor bem-sucedido no gênero, ao menos em comparação com outros autores. É que Braz investe em duas searas pouco exploradas pela maioria dos demais autores: o infanto-juvenil e os quadrinhos. Pois é nestes nichos que o autor tem se notabilizado, ora como roteirista de HQs, ora como escritor de ficção científica e policial para o público adolescente.
   E tem uma carreira extremamente prolixa com seus cerca de 80 livros publicados. É tudo isso mesmo, não se espante. Também já recebeu prêmios importantes no Brasil, como o Jabuti e alguns internacionais, ambos na área do infanto-juvenil. Pois estamos então diante de um autor tarimbado, que sabe se comunicar com o seu público preferencial. E que não é ocaso, curiosamente, do leitor de ficção científica ‘adulta’, que praticamente não acompanha o que se escreve e edita no infanto-juvenil.
   Uma oportunidade de vencer esta barreira é o novo livro de Braz, Megalópolis, lançado pela prestigiosa editora Rocco em sua coleção “Jovens Leitores”. O autor nos apresenta um mundo futuro em tempo indeterminado, mas percebe-se que não muito distante, ainda durante o século XXI. O título se refere a uma grande metrópole, com uma população de dezenas de milhões de pessoas, com uma arquitetura sofisticada, uma avançada tecnologia – com direito a hologramas, robôs e androides no cotidiano das pessoas – e com fronteiras não definidas e recortadas por diferentes regiões que não necessariamente estão interligadas, principalmente em termos sociais.
A    história é narrada em primeira pessoa por um investigador particular chamado Lino Sigma. Ele é contratado por uma mulher da parte rica da cidade para resgatar sua filha, que se encontra presa em um dos bairros periféricos da cidade por um grupo criminoso que controla o tráfico dos biostimuladores neurais. Isto é, a droga desta época.
   Embora Braz apresente um painel instigante no início, a novela não passa de um episódio da megalópolis. Um entre tantos outros milhões que ocorrem todos os dias em uma urbe extremamente segregada em termos sociais, a ponto de criar sub-culturas fechadas em si mesmas, nas quais nem a ação do Estado existe. Ora, mas isso não lhe é familiar?
Sim, há passagens inteiras que poderiam perfeitamente caber às nossas metrópoles de hoje, São Paulo e Rio de Janeiro, apenas retirando a ‘roupagem’futurista. Desigualdade social, pobreza, exclusão, falta de oportunidades, preconceitos mútuos e bandos criminosos. Alimentados, é claro, por uma fonte de poder econômica ilícita, o tráfico de drogas. Tudo isto existe hoje e continua presente nesta megalópolis do amanhã.
   Contudo, se o autor apresenta o contexto social, não discute as razões que o levaram a chegar a este ponto sem retorno possível de uma convivência civilizada. Seu foco está na ação do detetive Sigma e o que ele tem de fazer para retirar a garota dos infernos da periferia abandonada e entregue ao caos. É curioso que embora possa ser vista como uma história cyperpunk – por meio do contexto social degradado e dos hologramas, andróides e robôs que interagem com os humanos –, a narrativa é em si policial, por meio da ação do detetive. Mas ele não tem de desvendar mistério algum. Só precisa entrar no hotel do inferno – onde está presa a garota – e trazê-la de volta ao mundo burguês.
   Desta forma, embora a trama seja narrada na primeira pessoa de Sigma, o texto tem um ritmo ‘adrenalínico’, com muita ação em um estilo quase pictórico, semelhante ao que seria um roteiro de HQ ou mesmo um filme para o cinema, com muita ênfase em cenas com cuidado visual, principalmente de lutas, perseguições e tiroteios. Além disso, há uma profusão exagerada de nomes para lugares e os vários grupos sociais que o habitam, o que torna a leitura um pouco confusa. Ainda dentro deste contexto ilustrativo, o destaque vai para a bela ilustração de capa de Glenda Rubinstein. Que é complementada pela concepção claramente visual do livro inteiro, quase que tratado como se não fosse (ou não devesse ser encarado como) um objeto literário.
   Se as peculiaridades narrativas e editoriais com forte ênfase na imagem estão no primeiro plano da obra, sobra pouca oportunidade para uma caracterização melhor dos personagens, todos superficiais e próximos do estereótipo. É como se Braz quisesse apenas se divertir dentro de uma sociedade perturbadoramente pervertida em suas normas e valores. Como se nem valesse a pena discutir um pouco mais os rumos sombrios de uma convivência social deste tipo, porque o futuro estaria mesmo perdido. Nesse sentido é estranho que o autor se ausente de discutir um pouco mais este mundo, pois ele mesmo afirma no posfácio, ‘Referências de inspiração’, que esta obra é “Uma contribuição. Uma proposta em aberto. Meu jeito de ver o futuro que não verei.”
   Mesmo assim é possível dizer que o texto de Braz tem fluência, alguns bons diálogos e uma pitada de humor na voz do detetive Lino Sigma, embora tudo seja um pouco diluído pelo já citado excesso de perseguições e pela falta de dramatização ou de uma especulação um pouco mais caprichada do mundo que o autor imaginou.
  Megalópolis é uma novela para jovens que mostra um mundo sem esperança, entregue ao materialismo e ao individualismo mas que, talvez em nome da proposta mais infanto juvenil, perca uma oportunidade interessante de dramatizar e discutir assuntos de extrema relevância social e humana, inclusive para os jovens. Ou talvez principalmente para eles, os futuros adultos da megalópole que virá.


-- Marcello Simão Branco

Invasores Invisíveis (Invisible Invaders, EUA, 1959)


Produção em preto e branco com direção de Edward L. Cahn (1899 / 1963), o mesmo cineasta de outras divertidas tranqueiras do cinema bagaceiro como “O Cadáver Atômico” (1955), “Os Zumbis de Mora Tau” (1957) e “A Ameaça do Outro Mundo” (1958). No elenco temos John Agar (1921 / 2002), de pérolas como “Tarântula” (1955) e “O Cérebro do Planeta Arous” (1957), além do cultuado John Carradine (1906 / 1988), ator com forte relação com o cinema fantástico, tanto que ele aparece em destaque num dos cartazes originais do filme, mesmo com uma participação pequena apenas no início fazendo o papel de um “cientista louco”.
Alienígenas conquistadores oriundos de um planeta de outra galáxia invadiram a nossa lua há 20.000 anos e aniquilaram suas formas de vida, instalando uma base para suas naves espaciais. São criaturas invisíveis que adquiriram a capacidade de alterar a estrutura molecular de seus corpos. Até então, a Terra não interessava devido seu lento desenvolvimento tecnológico, mas depois que a humanidade entrou na era espacial, com testes de armas nucleares e foguetes para viajar pelo espaço, os alienígenas ditadores decidiram dominar nosso planeta tomando os corpos dos mortos para dizimar os vivos.
Com suas naves construídas com materiais que também poderiam tornar-se invisíveis, eles primeiramente se apossaram do cadáver do cientista Dr. Karol Noymann (John Carradine), morto numa explosão em seu laboratório. O zumbi visita seu colega veterano cientista Dr. Adam Penner (Philip Tonge), solicitando para avisar as autoridades militares para se renderem, ou seria iniciada uma invasão com destruições catastróficas, arrasando edifícios governamentais, unidades de comunicação, depósitos, arsenais de armas, estradas de ferro e aeroportos.
Desacreditado pelos governos e ridicularizado pela imprensa com manchetes pejorativas dos jornais, o alerta de rendição não funcionou e os alienígenas invisíveis iniciaram a invasão com uma guerra desproporcional. Restando ao cientista Dr. Penner, sua bela filha Phyllis (Jean Byron), o jovem cientista John Lamont (Robert Hutton, de “Eles Vieram do Espaço Exterior”, 1967) e o militar Major Bruce Jay (John Agar), se refugiarem num abrigo subterrâneo secreto e bem equipado, para tentarem encontrar um meio ou arma eficaz para deter os inimigos do espaço.  
Invasores Invisíveis” está situado dentro do sub-gênero da Ficção Científica que aborda invasões alienígenas com elementos de horror, explorando novamente o tema da guerra fria do período pós-Segunda Guerra Mundial, com a corrida armamentista e as consequências nocivas das experiências nucleares.  Para facilitar o baixo orçamento da produção, além da metragem curta com apenas 67 minutos de duração, o roteiro de Samuel Newman apresenta alienígenas invisíveis, com respiração ofegante e que deixam rastros no chão de terra ao caminharem, diminuindo os gastos com efeitos e maquiagem. Eles se apossam dos corpos de seres humanos mortos, transformando-os em zumbis assassinos, numa ideia que serviu de inspiração para George Romero conceber o clássico absoluto “A Noite dos Mortos-Vivos” (1968), que traz semelhanças tanto na concepção dos zumbis como na forma de caminharem.
O filme é mais uma preciosidade do cinema fantástico bagaceiro dos anos 50 do século passado, divertido justamente pela forma simplória e ingênua de condução da história, acontecendo tudo rapidamente e repleto de clichês. Não faltam os “cientistas loucos” cercados de aparelhos em experiências exageradas e os militares truculentos em ações de força. Também não poderia deixar de ter uma jovem mulher bonita sem função na história (a filha do cientista), com o objetivo de criar um triângulo amoroso em meio ao caos, e nesse caso incluindo o Dr. Lamont e o Major Jay. E com aquela tradicional mensagem de cooperação entre as nações do mundo para uma causa comum, deixando os conflitos entre si para unirem-se no combate ao inimigo maior na figura de alienígenas hostis, que por sua vez, são o alvo de uma crítica social contra as ações opressoras de ditadores conquistadores, com o uso de força e destruição.
Curiosamente, o ator Philip Tonge morreu aos 61 anos logo após completar suas filmagens e não conseguiu ver seu trabalho editado. E, ao longo do filme, um narrador conduz a história, com constantes informações sobre as ações dos alienígenas.
“Num prazo de três dias, os mortos exterminarão todos os vivos, e nós iremos governar a Terra. Para a raça humana, este é o fim de sua existência” – mensagem dos alienígenas invasores.
(Juvenatrix - 09/05/15)

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Fantástico Homem Transparente (The Amazing Transparent Man, EUA, 1960)


* Fantástico Homem Transparente, O (1960)
Direção de Edgar G. Ulmer. Um presidiário perigoso, Joey Faust (Douglas Kennedy), especialista em arrombar portas e cofres, escapa da penitenciária com a ajuda da bela Laura Matson (Marguerite Chapman), que o aguarda de carro numa estrada próxima. A fuga faz parte de um plano do ambicioso Major Paul Krenner (James Griffith), que quer usar o criminoso como cobaia numa experiência de invisibilidade conduzida pelo cientista nuclear alemão Dr. Peter Ulof (Ivan Triesault), um refugiado da segunda guerra mundial, que trabalha contra sua vontade, sendo chantageado pelo militar americano que mantém sua filha como refém. O objetivo é formar um exército de soldados invisíveis para obter vantagem e lucros nas guerras. sendo chanteaadedogunda guerra mundial, ntistaadrtrada pr escapa da pro
Lançado em DVD no Brasil junto com “Um Mundo Desconhecido” (1951), “O Fantástico Homem Transparente” tem um título sonoro, produzido em preto e branco e sendo exageradamente curto (apenas 57 minutos), parecendo mais um episódio de alguma série de TV com elementos fantásticos no estilo “Além da Imaginação”. É tão rápido que a história carece de mais detalhes, onde tudo é apresentado com pressa e sem a intenção de explorar melhor as ideias. Os personagens são tão superficiais e mal apresentados que nem é possível imaginar com clareza suas origens e motivações. O tema central é novamente aproveitar os efeitos da guerra fria e a ameaça da era atômica para mostrar um cientista fazendo experiências malucas num laboratório secreto, com a finalidade de transformar homens em seres transparentes, obtendo assim vantagens em missões de espionagem. Mas aqui, ao contrário dos outros filmes similares sobre homens invisíveis, o roteiro nem se preocupou com detalhes e o presidiário tornava-se invisível juntamente com suas roupas, quando normalmente apenas o corpo deveria ficar transparente.
(RR - Juvenatrix - 12/11/09)

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Time out: Os viajantes do tempo

Time out: Os viajantes do tempo, Ademir Pascale, org. 120 páginas. Apresentação de André Carneiro. Capa: M. D. Amado, sobre foto de Denis Devekov. Fotos internas de diversos artistas estrangeiros. Editora Estronho, Belo Horizonte, 2011.

Seguindo a tendência iniciada em 2009, 2011 continuou a trazer à luz uma grande quantidade de antologias temáticas, que não deixam de ser uma tradição na fc&f brasileira. Algumas editoras têm de fato se especializado nisso, produzindo antologias em quantidade, embora de tiragens pequenas e memória ainda menor. A maior parte das dezenas de antologias publicadas nos últimos dois anos receberam pouquíssimas resenhas e já nem são mais lembradas. Mesmo assim, o ambiente de antologias continua aquecido, com muitos projetos em fase de montagem por diversas editoras, apresentando novos autores, ao lado de veteranos que também precisam de espaço para mostrar seus escritos. Afinal, a quantidade de lançamentos não significa que os mais experientes já tenham estabilidade editorial — pelo contrário, tudo continua incerto e imprevisível, e é preciso aproveitar as oportunidades.
A mineira Estronho é uma das editoras que têm trabalhado fortemente no segmento das antologias temáticas, e este ano investiu alguns cartuchos na ficção científica, mas exatamente no subgênero da viagem no tempo, com a antologia Time out: Os viajantes do tempo.
Organizada pelo escritor Ademir Pascale (O desejo de Lilith, Draco, 2009), um dos campeões em organização de antologias temáticas, Time out reúne oito contos de autores brasileiros, complementados por um ensaio sobre o tema e a apresentação do veterano escritor André Carneiro, uma autoridade no que se refere a ficção especulativa no Brasil.
O conto que abre a antologia é “Déjà-vu: O forte”, de Roberto de Sousa Causo, o texto de ficção mais elaborado do livro. Conta a história de uma mulher diagnosticada com doença terminal, que faz uma viagem sentimental pelo Brasil. Durante visita a um forte histórico, ela tem sua consciência arremessada para o passado, incorporando um soldado naquele mesmo lugar, durante o ataque de uma frota naval.
“A velha canção do marinheiro do futuro”, do próprio organizador, relata a situação incomum de um marinheiro que ficou preso num fenômeno espaço-temporal depois do navio em que estava ter sido usado em uma experiência mal-sucedida: o famoso experimento do USS Philadelphia, integrante da mitologia ufológica. Durante um de seus surtos, ele observa a distopia do mundo de 2075.
O melhor conto da antologia é “A difícil arte de lidar com os patrulheiros do tempo”, de Miguel Carqueija (autor de Farei meu destino; Giz, 2009), devido ao viés cômico que o autor manuseia muito bem. Um cientista meio maluco recebe, em pleno processo criativo, a visita de um jovem que se diz patrulheiro de uma polícia do futuro, que anuncia que vai matá-lo para evitar que invente alguma coisa muito ruim. Sem perder a fleuma, o cientista argumenta de forma a confundir seu assassino e mandá-lo de volta para onde veio.
“Pelas badaladas do tempo”, de Luciana Fátima, é o texto mais curto da antologia. Em clima de poesia, conta as visões de uma mulher ao escutar os sons de um sino.
Álvaro Domingues (autor de Sombras e sonhos; Balão, 2010) também envereda pelo humor em tons farsescos em “Modelo do ano”, em que dois amigos “nerds” que, quando jovens, sonhavam em construir uma máquina do tempo, reencontra-se depois de um afastamento de alguns anos. Um texto leve, mas com um travo machista que certamente não vai agradar as mulheres.
Ecos de Carl Sagan e H. P. Lovecraft se apresentam em “A máquina da insanidade”, de Estevan Lutz (o autor de O voo de Icarus, Novo Século, 2010), no qual um cientista enlouquecido que testou sua própria máquina do tempo, tenta contar sua história para a psicóloga do sanatório onde está internado.
Em “O último trem para as Plêiades”, de Allan Pitz (que escreveu A morte do cozinheiro, Above, 2010), um rapaz conta ao amigo incrédulo o sonho que teve no qual alienígenas o conduziram a uma viagem pelo espaço e pelo tempo, para mostrar-lhe que o fim do mundo está próximo. Texto pessimista e desesperançado, que contrasta com o tom galhofeiro da narrativa.
O último conto da antologia é “Contra o apagar das luzes”, de Mariana Albuquerque (autora de Coração de demônio, Writers, 1999), no qual um grupo de astronautas que testemunhou o fim do mundo cria uma máquina do tempo para voltar cinco anos no passado e tentar impedir a tragédia. Trata-se da mesma premissa do seriado de televisão Odyssey 5; uma fanfic, portanto.
Fecha a edição o breve ensaio “Viagens no tempo na ficção científica brasileira”, de autoria do pesquisador acadêmico Edgar Indalécio Smaniotto, que tem se especializado nesse tipo de texto para diversas antologias. Smaniotto cita Monteiro Lobato, Erico Verissimo e Jerônymo Monteiro, destacando a noveleta “A ética da traição” (1993), de Gerson Lodi-Ribeiro, e a antologia Intempol, além de outros textos de menor expressão, o que revela a pouca intimidade da fcb com o tema, embora o ensaísta afirme o contrário.
Da mesma forma, a antologia Time out: Os viajantes do tempo é tão leve e despretensiosa que mal arranha o tema. De suas 120 páginas, apenas 80 realmente têm texto, o restante é ocupado por imagens e vinhetas em uma apresentação gráfica sofisticada que merecia a companhia de mais conteúdo.
Cesar Silva

sábado, 2 de maio de 2015

Sagas 1, 2 e 3

Sagas volume 1: Espada e magia (144 páginas), Sagas volume 2: Estranho oeste (144 páginas); Sagas volume 3: Martelo das bruxas (128 páginas), Cesar Alcázar & Duda Falcão, orgs. Editora Argonautas, Porto Alegre, 2011.

A Editora Argonautas, de Porto Alegre, como muitas outras editoras novas, é fruto da iniciativa de fãs de literatura de ficção científica e fantasia, no caso os escritores Duda Falcão e Cesar Alcázar. Entusiastas da clássica coleção portuguesa de fc&f Argonauta, da Editora Livros do Brasil, decidiram não apenas dar o mesmo nome à editora, mas estrear com uma publicação que segue a mesma tradição, a coleção Sagas, formada por livros de bolso com antologias temáticas. Trata-se de uma pequena joia em meio à barafunda que se tornou o espaço editorial da fc&f no Brasil, coalhado por antologias temáticas montadas a toque de caixa.
A primeira edição, dedicada à fantasia, foi publicada ainda em 2010, mas as edições 2 e 3, faroeste e bruxaria, respectivamente, saíram em 2011. A edição é cuidadosa e as capas, ilustradas por Nathan Milliner e Fred Macêdo, remetem aos quadrinhos e às revistas pulps.
Sagas volume 1: Espada & magia, tem 144 páginas, prefácio do escritor Roberto de Sousa Causo, e traz textos de autoria de Georgette Silen, Rober Pinheiro e dos próprios editores, explorando enredos na linha das histórias de Conan, O Bárbaro, e de Elric de Melniboné*.
O volume é despretensioso em sua proposta e equilibrado na organização. Os contos são simples, mas correspondem bem à proposta da edição, que é homenagear a Weird Fiction. O melhor texto do conjunto é “A cidadela de Ellan”, de Georgette Silen; de fato é o melhor texto da autora que já tive a oportunidade de ler, com elementos feministas e um enredo que escapa das convenções do gênero. Conta a história de uma guerreira psicologicamente problemática, que precisa recuperar um artefato que está sob a guarda de um velho conhecido, líder de um grupo de salteadores no momento escondidos num castelo. Velhos sentimentos vão emergir em meio à missão que tem tudo para resultar em tragédia.
Sagas Volume 2: Estranho oeste tem prefácio de Thomas Albornoz e apresenta, em suas 144 páginas, cinco histórias macabras de Alícia Azevedo, Christian David, Duda Falcão, M. D. Amado e Wilson Vieira, todas ambientadas no Velho Oeste norte-americano. Trata-se de um tema muito rico, pois no mesmo período podem ser contadas histórias em variados cenários e personagens: com nativos, dramas familiares em fazendas nas planícies, militaria da Guerra Civil, a Guerra da Independência, ou nas guerras indígenas, histórias com os pioneiros, sobre freakshows, sobre a corrida do ouro na Califórnia e no Alasca, sobre as caravanas, sobre os cowboys que atravessavam o país conduzindo seus rebanhos, sobre a construção das linhas de trens, caçadas de baleias, e até dramas urbanos vitorianos nas grandes metrópoles do leste, e muito mais. Mas faltou intimidade dos autores com o gênero. Todos acabaram contando histórias de pistoleiros metidos em confusões em saloons.
O melhor conto do volume é “Aproveite o dia”, de Christian David, com um protagonista patife e espirituoso que traz um colorido diferenciado à monocromia dos demais contos. Ele é um jogador que se mete numa situação da qual não terá chance de sair vivo, a não ser com muita sagacidade e um bocado de sorte.
A edição tem seus méritos, pois o tema é dos mais espinhosos para os autores brasileiros. Tanto que há apenas dois livros brasileiros nesse gênero, e são recentes: os romances Areia nos dentes, de Antônio Xerxeneski (2008), e O peregrino, de Tibor Moricz (2011). Uma alternativa bastante razoável seria trocar o cenário do faroeste pelo cangaço, ou por bandeirantes, ou por jagunços modernos. As histórias poderiam ser exatamente as mesmas, mas ganhariam um colorido mais autêntico e imprevisível.
Finalmente, Sagas volume 3: Martelo das bruxas é o melhor da série, com 128 páginas e contos de Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, Christopher Kastensmidt, Douglas MCT e Duda Falcão, com prefácio de Simone O. Marques.
“Cada história tem...”, de Christopher Kastensmidt, escritor norte-americano que vive no Brasil e aprecia trabalhar com os temas nativos, narra o duelo entre uma feiticeira e um caçador de bruxas no Brasil colonial, ambos acreditando estarem certos em seus pontos de vista. É o melhor conto publicado na série e, apesar do clima dramático, foi inevitável lembrar da épica luta entre Merlin e Madame Min no clássico desenho animado A espada era a lei (1963), de Walt Disney.
Ana Cristina Rodrigues também se apresenta com um bom trabalho. A história “O quão forte pode um gigante gritar” é ambientada na Irlanda medieval, onde o último sobrevivente de uma raça mágica envolve-se numa situação de risco para salvar uma jovem que está sendo torturada. O maior mérito do conto de Ana Cristina é a história de fundo, que demonstra riqueza suficiente para sustentar um texto bem mais longo. “Encruzilhada”, de Douglas MCT, apesar de não ser tão empolgante quanto os contos anteriores, destaca-se pelo estilo narrativo diferenciado. Conta a história de duas irmãs, meninas ainda, que precisam cumprir um ritual mágico de sacrifício mas, para isso, terão de enfrentar adversários poderosos.
A coleção é muito simpática, bem feita e dispõe de espaço para crescer no mercado. Contudo, depois do início alvissareiro, deu uma freada e só lançou mais dois volumes nos três anos seguintes: Sagas volume 4: Odisseia espacial e Sagas volume 5: Revolução, publicados em 2013 e 2014, respectivamente. O que não deixa de ser uma boa notícia em comparação a suas concorrentes diretas: a coleção Paradigmas foi descontinuada com o encerramento da editora Tarja, e Ficção de polpa, da Não Editora, tem uma periodicidade ainda mais elástica.
Sagas é o tipo de publicação que poderia se dar bem nas bancas, pena que a distribuição brasileira é um jogo de cartas marcadas no qual editoras pequenas como a Argonautas, infelizmente, não têm vez.
Cesar Silva
*Criações respectivas de Robert E. Howard e Michael Moorcock.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Complô Contra a América, Philip Roth

Complô Contra a América (The Plot against America), Philip Roth. 482 páginas. Tradução de Paulo Henriques Brito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Philip Roth é considerado um dos grandes romancistas americanos de sua geração. Tem como temática recorrente a crônica urbana da vida novaiorquina, analisando especialmente a classe média judaica neste contexto, tanto de um ponto de vista comportamental, como do que poderíamos chamar de uma sociologia dos costumes. Estão aí romances importantes como O Complexo de Portnoy (1969) e Pastoral Americana (1997), entre outros.
Nesse quadro o romance Complô Contra a América se insere neste universo temático. A novidade, entretanto, é a incursão do autor pela História, e mais precisamente por um viés que nos é particularmente interessante, ou seja, pela via alternativa.
E Roth não faz por menos. Escreve um romance sobre o tema mais popular da história alternativa, a Segunda Guerra Mundial. E que já conta com um bom conjunto de romances seminais, como O Homem do Castelo Alto (1962), de Philip K. Dick, O Sonho de Ferro (1971), de Norman Spinrad e Pátria Amada, de Robert Harris (1992), entre outros. Todos mostrando como o mundo ficaria depois da vitória do III Reich.
Complô Contra a América, contudo, não fala do mundo depois da guerra, mas durante, após uma mudança histórica que ocorre na política norte-americana. O aviador Charles A. Lindbergh (1902-1974), primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico Norte com um avião monomotor, em 1927, é eleito presidente dos Estados Unidos em 1940. Com sua vitória impede a entrada do país na Segunda Guerra Mundial, além de mostrar-se simpático a Hitler e seus objetivos.
A ação do romance se passa durante a guerra e é estruturalmente dividido em capítulos que retratam seu desenrolar com crescente dramaticidade. No primeiro deles, o autor mostra a ascensão de Lindbergh e sua adesão à causa nazista. Sua proposta de neutralidade divide o país na disputa presidencial e sua vitória na eleição deixa a comunidade judaica em pânico.
Isso no contexto político maior, pois o diferencial de Roth é narrar, sobretudo, como se inseriria uma família judia nesta época. Assim, a história é contada do ponto de vista de um personagem, chamado significativamente de Philip Roth. Seria ele mesmo quando criança? Ou parte dela? O autor não deixa claro, mas investe muito na caracterização do menino e sua família, a ponto de estar claro que o romance é, ao menos em parte, autobiográfico.

O medo domina estas lembranças, um medo perpétuo. Toda a infância, é claro, tem seus terrores, mas me pergunto se eu não teria sido uma criança menos assustada se Lindbergh não tivesse chegado à Presidência ou se eu não fosse filho de judeus.” (pág. 9).

Esta é a frase inicial do livro, absolutamente reveladora tanto da forma de narração escolhida, como do fato que justifica a criação da história. Muito eloquente, em ambos os sentidos. Tanto o recurso de contar a história no tempo passado, mas como se fosse no presente (embora no livro inteiro não fique claro em que momento posterior à guerra o já adulto personagem relembra suas memórias), e principalmente, narrar um evento da maior importância histórica deste ponto de vista pouco comum, é o que dá o interesse especial ao romance.
Ao optar por contar uma história ‘micro’ em um contexto ‘macro’, digamos assim, Roth confere riqueza à obra, pois entramos no lar de uma simples família americana de classe média e constatamos como o antissemitismo influi em suas vidas. E em especial na do menino.
Roth tem uma prosa fluente, e que prende a atenção, não só pelo enredo fascinante, mas pelo aprofundamento do texto em termos sociais e subjetivos, que expõe com desprendimento. Mostra uma pessoa que seria muito próxima de si mesmo, mas também das pessoas de sua provável família: O pai, um esforçado e politizado corretor de seguros; a mãe, uma típica dona de casa, porém uma mulher também informada e seguidora dos preceitos judaicos; um irmão, Sandy, um exímio ilustrador. Também as pessoas do entorno são bem caracterizadas, os vizinhos, parentes e poucos amigos, quase todos judeus. Ao narrar uma história alternativa que poderia mudar o destino do país – e do mundo –, Roth conta também como poderia ter sido sua própria história. Assim, a base da caracterização dos personagens e de passagens de suas vidas são, provavelmente, verídicos, isto é, do nosso mundo real.
A questão subjacente – ou uma delas – é a da identidade: afinal a minoria é mais uma nuance do ser americano, ou é um grupo com outras raízes culturais que convive dentro da sociedade americana? Esta é uma questão clássica e que é sempre colocada em dúvida tanto pelos grupos minoritários, como por aqueles que querem atingi-los de forma negativa.
O menino Philip, na condição inocente de explicitar um problema, expõe o dilema:

“Logo depois que o rabino Bengelsdorf invocou o nome de Lindbergh, senti-me mais confuso do que nunca. Um rabino era um rabino, mas enquanto isso Alvin estava num hospital do Exército canadense em Montreal aprendendo a andar com uma perna artificial depois de perder a perna lutando contra Hitler, e na minha própria casa – onde eu podia vestir qualquer roupa menos as roupas ‘boas’- haviam me obrigado a usar minha única gravata e meu único paletó para impressionar precisamente o rabino que ajudara a eleger presidente um amigo de Hitler. Como eu poderia não estar confuso, quando nossa vergonha e nossa glória eram uma coisa só? Algo de essencial fora destruído e perdido; estávamos sendo coagidos a ser outra coisa que não os americanos que éramos’”. (pág. 139).

Entretanto, é possível argumentar que esta interpretação ‘de dentro’, poderia tirar alguma legitimidade das questões tratadas, pois estaria influenciada por uma visão intimista demais para servir como um exemplo viável para uma coletividade como um todo.
Por outro lado, este provável ‘autobiografismo alternativo’ confere mais verossimilhança à narrativa e às questões de fundo tratadas pelo autor. Não que não poderia ser realizado de outra forma, quer dizer, em um estilo, digamos, mais tradicional, de se contar a história em seu primeiro plano, o dos acontecimentos políticos em si, mas a opção metodológica de Roth de contar a história por ‘dentro’, confere robustez aos argumentos apresentados.
Assim é que na maior parte da narrativa vive-se o cotidiano da família Roth e a influência crescente que o cenário político causa em suas vidas. Reprova-se a eleição de Lindbergh, aumenta a desconfiança em relação aos gentios e ao governo americano, resguardando-se como uma espécie de pilar de segurança as instituições e a Constituição do país. De fato, mesmo com Lindbergh no poder, os Estados Unidos são um país com sólidas instituições democráticas e tradição de liberdade de expressão e direitos individuais. E é até por isso que chama muito a atenção o fato de um mandatário avesso a estes princípios ter chegado ao poder máximo da nação.
Gradativamente, quando o ambiente social e político tornam-se mais tenso, a partir de uma série de iniciativas do governo no sentido de prejudicar os judeus e mostrar mais que uma neutralidade, uma espécie de ‘aliança branca’ com os nazistas, a vida da família Roth e seus conhecidos vão se deteriorando, mesmo porque é entre os próprios judeus que se dão também cisões sobre apoiar ou não o governo de Lindbergh. E tudo isto pela ótica de um menino que, obviamente, pouco compreende da vida e dos perigos que ele e sua família correm em um ambiente social tão conturbado.
É no capítulo oitavo, “Tempos Difíceis” que ocorre um desenlace decisivo. Tanto para a família Roth, como para o destino dos Estados Unidos e da Segunda Guerra Mundial. Em cena temos o radialista judeu Walter Winchell (1897-1972) – mal comparando, uma espécie de Michel Moore[1] dos anos 40 –, que se candidatou à presidência e é assassinado por grupos antissemitas, dando início a uma onda de conflitos e agressões a judeus e suas propriedades por todo o país.
O presidente Lindbergh, muito criticado por sua omissão neste momento, pilota seu avião até a cidade de Louisville, estado de Kentucky e realiza um comício para milhares de pessoas, onde poucos dias antes havia ocorrido incidentes contra os judeus. Mas ao voltar para Washington some misteriosamente com seu avião e nunca mais é encontrado. A direita republicana, liderada pelo vice-presidente Burton K. Wheeler (1882-1975) assume o poder, e o ministro do interior, o empresário Henry Ford (1863-1947),[2] insuflada por antissemitas – especialmente os da Associação Teuto-Americana –, denuncia um ‘complô judeu’ contra os Estados Unidos e prende várias lideranças do país – inclusive o ex-presidente Franklin D. Roosevelt (1882-1945), num autêntico golpe de Estado.
De forma surpreendente, a ex-primeira dama Anne Morrow Lindbergh (1906-2001) reage em um discurso radiofônico e conclama as autoridades e a população a não dar ouvidos a nenhuma ‘teoria conspiratória judaica’ e retornar à legalidade constitucional. O país, em comoção, remove do poder os golpistas e retorna ao Estado de direito – por sinal, esta é uma passagem apressada e pouco crível. E a partir deste momento o autor cria um novo ‘ponto de divergência’, o da volta à nossa linha histórica: Roosevelt é reeleito para o terceiro mandato, e o país, finalmente, entra na guerra. Roth repete até os detalhes: os japoneses atacam Pearl Harbour – só que em 1942, um ano depois. E a Alemanha é, de fato, derrotada com a ajuda providencial dos americanos, em 1945.
Mas o incrível é a história por trás da história. Lindbergh teria apoiado Hitler porque este sequestrara o filho do aviador.[3] Assim o chantageou e manipulou. Primeiro para garantir a neutralidade dos Estados Unidos e depois para executar a ‘solução final’ aos judeus americanos. De saída é difícil entender como um plano tão absurdo poderia funcionar, pois na época do sequestro, Hitler e os nazistas nem tinham chegado ao poder, o que só se daria em 1933. A seguir, que garantia tinha os alemães de que Lindbergh conseguiria uma indicação do Partido Republicano para disputar a presidência da República? E em terceiro lugar, de que venceria a eleição?
De qualquer forma, é fato que o casal Lindbergh deixa os Estados Unidos em 1935 indo morar no interior da Inglaterra até 1939. Neste período Lindbergh é designado pelo governo americano (de Roosevelt) para conhecer e relatar os progressos da força aérea alemã. Ele não só faz o serviço, mas se aproxima dos nazistas, ao ponto de receber do próprio Führer a medalha de Cruz de Serviço da Águia Alemã. E ao voltar à América passar a defender com vigor a neutralidade do país e “as coisas boas que a ditadura alemã estava realizando para o seu povo”.
Mas além desta estratégia, digamos, eleitoral dos nazistas para terem uma espécie de títere no poder da maior democracia do Ocidente, a segunda parte do plano foi mais difícil de ser posta em prática. Lindbergh – apesar da citada postura de antipatia aos judeus e outras minorias, como negros e asiáticos –, não concordava com o nível de ódio que os nazistas tinham e seus objetivos bestiais. Até adotou algumas políticas públicas para ‘americanizar’ os judeus, como o programa da Agência de Absorção Americana, levando jovens judeus para conhecerem a ‘América profunda’ do Meio-Oeste e, mais adiante, transferindo a residência de judeus do Leste para o Oeste do país, minando, desta forma, a comunidade judaica, tornando seus laços mais fracos e os deixando à mercê de possíveis ações de antissemitas. Mas quando Hitler teria pressionado para que Lindbergh colocasse em prática a terceira e sinistra parte do plano, Lindbergh resistiu. E aí, teria sido eliminado em pleno espaço aéreo americano por nazistas infiltrados no país.
Este seria o ‘Complô contra a América’, revelado pela própria esposa de Lindbergh. Charles Jr. estaria sendo criado pelos nazistas e se não fossem obedecidas as suas ordens, seria enviado ao front para morrer no rigoroso inverno soviético. Com o desaparecimento do marido e vendo o país entrar em colapso, Anne Lindbergh não suportou mais a situação e reagiu, mesmo selando a sorte do seu filho.
Como o próprio autor personagem reconhece é “a história mais rocambolesca e mais inacreditável – ainda que não menos convincente.” (página 400). Talvez. Mas não convence, ainda mais por tentar uma espécie de justificativa para as ações de Lindbergh, como se seu comportamento no mundo real já não fosse o bastante para mostrar suas posições contrárias aos judeus. E o que poderia ter feito se, de fato, tivesse sido eleito.
Inclusive, porque, como revela o próprio Roth numa entrevista ao jornal inglês The Guardian em 2006, sua motivação para escrever o romance veio de um fato verídico. A ala direitista do Partido Republicano, no início de 1940, convidou Lindbergh para concorrer à presidência. Ou seja, o sujeito era amigo de Hitler, antissemita e isolacionista. Não haveria a necessidade de se construir esta ‘história atrás da história’ para justificar sua atitude.
Contudo, o que incomoda neste livro é a tentativa de ajeitar as coisas em termos históricos. Para que, no fim das contas, a história alternativa retornasse à história real. É como se Roth ponderasse que à história ‘rocambolesca’ e especulativa que ele concebeu já tivesse cumprido seus objetivos e fosse necessário voltar ao mundo ‘normal’, o da nossa linha histórica.
Mesmo com estes deslizes, o mérito maior está no recurso quase autobiográfico, apesar de Roth não pertencer a um domínio de conceitos próprios aos escritores de ficção especulativa em geral, e de história alternativa, em particular. Pois ainda assim, o livro venceu o principal prêmio internacional da história alternativa, o Sidewise Award e foi indicado ao prestigioso John Campbell Memorial Award, um prêmio conferido por acadêmicos para o melhor romance de ficção científica do ano publicado nos Estados Unidos.
Ao contar esta contra-história sobre a lembrança de um adulto em seus tempos de criança, Roth expõe a dramaticidade do preconceito vivido pela minoria ao qual pertence. Assim, o drama do pequeno Philip é mostrado na dupla condição do horizonte infantil e da necessidade brusca de compreender o mundo e o comportamento estranho dos adultos.
Complô Contra a América é também valioso por trazer de volta o debate sobre as eventuais conspirações que teriam levado o país a entrar na Segunda Guerra Mundial. Um plano que teria sido elaborado e executado pelo presidente Roosevelt – que não queria deixar o poder –, ao lado da comunidade judaica – temerosa com o avanço nazista – e os britânicos – desesperados ante a iminente invasão alemã. Livros e mais livros foram escritos sobre o assunto que, no entanto, nunca foi reconhecido pelo cânone da historiografia acadêmica norte-americana ou britânica.[4]
Este livro é também interessante de ser lançando neste início de século XXI, pois, provavelmente, a intenção do autor vai além da história do livro em si. Ou seja, é possível vê-lo com o intuito de incluí-lo na grande questão americana dos anos do governo Bush (2001-2009): sua linha conservadora e belicista. Nesse sentido, Roth afirmou na mesma entrevista citada acima que,

Ao contrário do que tenho lido sobre ele (de que seja a minha grande história judaica), é o meu livro mais americano. É uma distopia americana.”

E assim sendo, ele pode ser interpretado dentro desta condição de obra para polemizar sobre a divisão que ocorria na América: A favor ou contra os objetivos do governo em sua guerra contra o terrorismo e quais os limites legais que o governo pode alterar e/ou obedecer em um país secularmente democrático.
Um momento que retoma a tradição de grandes cisões históricas do povo americano. Como na época da promulgação da Constituição, com os federalistas – defensores do texto – e os anti-federalistas – contrários a ele – no fim do século XVIII. Depois com a Guerra de Secessão – certamente o momento mais dramático da história do país –, que por pouco não o dividiu em definitivo – em meados do século XIX. E mais recentemente, a grande discussão da primeira metade do século XX: isolacionistas versus intervencionistas em relação à que posição o país adotar frente à Segunda Guerra Mundial.
Em resumo, o romance fala desta guerra sob um prisma alternativo, e procura mostrar que o tal complô foi outro – ou poderia ter sido. E com isso alerta para os riscos potenciais que pode sofrer uma nação excessivamente polarizada.
No final da obra, Roth inclui um Post-scriptiun com pequenas biografias dos principais personagens reais de seu livro e como se comportaram durante a guerra em nossa realidade. Normalmente não aprecio este tipo de recurso que procura inserir ‘realidade’ à criação ficcional. É como se o autor nos dissesse: “Bom, a história foi muito boa, mas voltemos à realidade”. Tem um viés conservador e potencial para diluir o impacto do texto imaginado, reduzindo a importância de suas implicações na mente do leitor.
Neste caso, entretanto, o recurso torna-se bem-vindo, e é mesmo saboroso, por nos inserir no ambiente daquele momento e revelando o que pensaram e fizeram os protagonistas. Permite um contraponto com as ações por eles cometidas na linha histórica alternativa.
O caso de Lindbergh é curioso, pois embora ele seja o personagem central, o que muda a História e se faça presente por todo o romance, aparece de forma distante, indireta, vista por terceiros hostis, nunca por ele mesmo – e muito pouco por seus muitos admiradores. Mas neste Post-scriptium Lindbergh finalmente atua de forma direta – ainda que obviamente sob o ponto de vista do autor da obra. Roth o põe para falar, reproduzindo um discurso do aviador contrário à entrada dos Estados Unidos na guerra.
Em comparação com os enredos mais especulativos e tematicamente ambiciosos de outras histórias alternativas pós-Segunda Guerra Mundial, Complô Contra a América é menos ousado, além de confuso quando tenta justificar o tal ‘complô’ e voltar ao ‘mundo real’. Mas por outro lado, dentro do recorte temático e de estilo escolhido pelo autor, ele o concebe de maneira notável – principalmente por ser, no fim das contas, um grande escritor –, e o livro pode ser visto como uma contribuição efetiva e original para este subgênero da ficção científica.

– Marcello Simão Branco


[1]  Cineasta americano que é um opositor feroz do governo Bush, com documentários como Tiros em Columbine (2002) e Fahrenreit 9/11 (2004).
[2] Henry Ford, grande líder industrial e inovador do ramo automobilístico aparece no livro como aliado de Lindbergh também com um pé na realidade. Antissemita militante, curiosamente também cogitou candidatar-se à Presidência dos EUA, em 1923. Segundo Ken Silverstein (2000), no artigo “Ford e o Führer”, a empresa americana colaborou com Hitler no esforço de guerra por meio de sua subsidiária alemã até oito meses depois dos EUA declararem guerra à Alemanha.
[3] De fato, o filho do casal Lindbergh, Charles, Jr. foi sequestrado e morto em maio de 1932.
[4] O escritor americano Gore Vidal (2000) defende o argumento de que houve a tal conspiração e que Lindbergh teria sido manipulado por ambos os lados – pró e contra a guerra –, decidindo-se pela neutralidade e difamado pelos apoiadores. Assim, segundo Vidal, Lindbergh não seria o antissemita proposto, mas um sincero defensor de uma América neutra. Creio que fica difícil de concordar com Vidal, após os fatos que provam a aproximação do aviador com os líderes nazistas e suas declarações públicas contra os judeus e outras minorias.