sexta-feira, 1 de maio de 2015

Complô Contra a América, Philip Roth

Complô Contra a América (The Plot against America), Philip Roth. 482 páginas. Tradução de Paulo Henriques Brito. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Philip Roth é considerado um dos grandes romancistas americanos de sua geração. Tem como temática recorrente a crônica urbana da vida novaiorquina, analisando especialmente a classe média judaica neste contexto, tanto de um ponto de vista comportamental, como do que poderíamos chamar de uma sociologia dos costumes. Estão aí romances importantes como O Complexo de Portnoy (1969) e Pastoral Americana (1997), entre outros.
Nesse quadro o romance Complô Contra a América se insere neste universo temático. A novidade, entretanto, é a incursão do autor pela História, e mais precisamente por um viés que nos é particularmente interessante, ou seja, pela via alternativa.
E Roth não faz por menos. Escreve um romance sobre o tema mais popular da história alternativa, a Segunda Guerra Mundial. E que já conta com um bom conjunto de romances seminais, como O Homem do Castelo Alto (1962), de Philip K. Dick, O Sonho de Ferro (1971), de Norman Spinrad e Pátria Amada, de Robert Harris (1992), entre outros. Todos mostrando como o mundo ficaria depois da vitória do III Reich.
Complô Contra a América, contudo, não fala do mundo depois da guerra, mas durante, após uma mudança histórica que ocorre na política norte-americana. O aviador Charles A. Lindbergh (1902-1974), primeiro homem a atravessar o oceano Atlântico Norte com um avião monomotor, em 1927, é eleito presidente dos Estados Unidos em 1940. Com sua vitória impede a entrada do país na Segunda Guerra Mundial, além de mostrar-se simpático a Hitler e seus objetivos.
A ação do romance se passa durante a guerra e é estruturalmente dividido em capítulos que retratam seu desenrolar com crescente dramaticidade. No primeiro deles, o autor mostra a ascensão de Lindbergh e sua adesão à causa nazista. Sua proposta de neutralidade divide o país na disputa presidencial e sua vitória na eleição deixa a comunidade judaica em pânico.
Isso no contexto político maior, pois o diferencial de Roth é narrar, sobretudo, como se inseriria uma família judia nesta época. Assim, a história é contada do ponto de vista de um personagem, chamado significativamente de Philip Roth. Seria ele mesmo quando criança? Ou parte dela? O autor não deixa claro, mas investe muito na caracterização do menino e sua família, a ponto de estar claro que o romance é, ao menos em parte, autobiográfico.

O medo domina estas lembranças, um medo perpétuo. Toda a infância, é claro, tem seus terrores, mas me pergunto se eu não teria sido uma criança menos assustada se Lindbergh não tivesse chegado à Presidência ou se eu não fosse filho de judeus.” (pág. 9).

Esta é a frase inicial do livro, absolutamente reveladora tanto da forma de narração escolhida, como do fato que justifica a criação da história. Muito eloquente, em ambos os sentidos. Tanto o recurso de contar a história no tempo passado, mas como se fosse no presente (embora no livro inteiro não fique claro em que momento posterior à guerra o já adulto personagem relembra suas memórias), e principalmente, narrar um evento da maior importância histórica deste ponto de vista pouco comum, é o que dá o interesse especial ao romance.
Ao optar por contar uma história ‘micro’ em um contexto ‘macro’, digamos assim, Roth confere riqueza à obra, pois entramos no lar de uma simples família americana de classe média e constatamos como o antissemitismo influi em suas vidas. E em especial na do menino.
Roth tem uma prosa fluente, e que prende a atenção, não só pelo enredo fascinante, mas pelo aprofundamento do texto em termos sociais e subjetivos, que expõe com desprendimento. Mostra uma pessoa que seria muito próxima de si mesmo, mas também das pessoas de sua provável família: O pai, um esforçado e politizado corretor de seguros; a mãe, uma típica dona de casa, porém uma mulher também informada e seguidora dos preceitos judaicos; um irmão, Sandy, um exímio ilustrador. Também as pessoas do entorno são bem caracterizadas, os vizinhos, parentes e poucos amigos, quase todos judeus. Ao narrar uma história alternativa que poderia mudar o destino do país – e do mundo –, Roth conta também como poderia ter sido sua própria história. Assim, a base da caracterização dos personagens e de passagens de suas vidas são, provavelmente, verídicos, isto é, do nosso mundo real.
A questão subjacente – ou uma delas – é a da identidade: afinal a minoria é mais uma nuance do ser americano, ou é um grupo com outras raízes culturais que convive dentro da sociedade americana? Esta é uma questão clássica e que é sempre colocada em dúvida tanto pelos grupos minoritários, como por aqueles que querem atingi-los de forma negativa.
O menino Philip, na condição inocente de explicitar um problema, expõe o dilema:

“Logo depois que o rabino Bengelsdorf invocou o nome de Lindbergh, senti-me mais confuso do que nunca. Um rabino era um rabino, mas enquanto isso Alvin estava num hospital do Exército canadense em Montreal aprendendo a andar com uma perna artificial depois de perder a perna lutando contra Hitler, e na minha própria casa – onde eu podia vestir qualquer roupa menos as roupas ‘boas’- haviam me obrigado a usar minha única gravata e meu único paletó para impressionar precisamente o rabino que ajudara a eleger presidente um amigo de Hitler. Como eu poderia não estar confuso, quando nossa vergonha e nossa glória eram uma coisa só? Algo de essencial fora destruído e perdido; estávamos sendo coagidos a ser outra coisa que não os americanos que éramos’”. (pág. 139).

Entretanto, é possível argumentar que esta interpretação ‘de dentro’, poderia tirar alguma legitimidade das questões tratadas, pois estaria influenciada por uma visão intimista demais para servir como um exemplo viável para uma coletividade como um todo.
Por outro lado, este provável ‘autobiografismo alternativo’ confere mais verossimilhança à narrativa e às questões de fundo tratadas pelo autor. Não que não poderia ser realizado de outra forma, quer dizer, em um estilo, digamos, mais tradicional, de se contar a história em seu primeiro plano, o dos acontecimentos políticos em si, mas a opção metodológica de Roth de contar a história por ‘dentro’, confere robustez aos argumentos apresentados.
Assim é que na maior parte da narrativa vive-se o cotidiano da família Roth e a influência crescente que o cenário político causa em suas vidas. Reprova-se a eleição de Lindbergh, aumenta a desconfiança em relação aos gentios e ao governo americano, resguardando-se como uma espécie de pilar de segurança as instituições e a Constituição do país. De fato, mesmo com Lindbergh no poder, os Estados Unidos são um país com sólidas instituições democráticas e tradição de liberdade de expressão e direitos individuais. E é até por isso que chama muito a atenção o fato de um mandatário avesso a estes princípios ter chegado ao poder máximo da nação.
Gradativamente, quando o ambiente social e político tornam-se mais tenso, a partir de uma série de iniciativas do governo no sentido de prejudicar os judeus e mostrar mais que uma neutralidade, uma espécie de ‘aliança branca’ com os nazistas, a vida da família Roth e seus conhecidos vão se deteriorando, mesmo porque é entre os próprios judeus que se dão também cisões sobre apoiar ou não o governo de Lindbergh. E tudo isto pela ótica de um menino que, obviamente, pouco compreende da vida e dos perigos que ele e sua família correm em um ambiente social tão conturbado.
É no capítulo oitavo, “Tempos Difíceis” que ocorre um desenlace decisivo. Tanto para a família Roth, como para o destino dos Estados Unidos e da Segunda Guerra Mundial. Em cena temos o radialista judeu Walter Winchell (1897-1972) – mal comparando, uma espécie de Michel Moore[1] dos anos 40 –, que se candidatou à presidência e é assassinado por grupos antissemitas, dando início a uma onda de conflitos e agressões a judeus e suas propriedades por todo o país.
O presidente Lindbergh, muito criticado por sua omissão neste momento, pilota seu avião até a cidade de Louisville, estado de Kentucky e realiza um comício para milhares de pessoas, onde poucos dias antes havia ocorrido incidentes contra os judeus. Mas ao voltar para Washington some misteriosamente com seu avião e nunca mais é encontrado. A direita republicana, liderada pelo vice-presidente Burton K. Wheeler (1882-1975) assume o poder, e o ministro do interior, o empresário Henry Ford (1863-1947),[2] insuflada por antissemitas – especialmente os da Associação Teuto-Americana –, denuncia um ‘complô judeu’ contra os Estados Unidos e prende várias lideranças do país – inclusive o ex-presidente Franklin D. Roosevelt (1882-1945), num autêntico golpe de Estado.
De forma surpreendente, a ex-primeira dama Anne Morrow Lindbergh (1906-2001) reage em um discurso radiofônico e conclama as autoridades e a população a não dar ouvidos a nenhuma ‘teoria conspiratória judaica’ e retornar à legalidade constitucional. O país, em comoção, remove do poder os golpistas e retorna ao Estado de direito – por sinal, esta é uma passagem apressada e pouco crível. E a partir deste momento o autor cria um novo ‘ponto de divergência’, o da volta à nossa linha histórica: Roosevelt é reeleito para o terceiro mandato, e o país, finalmente, entra na guerra. Roth repete até os detalhes: os japoneses atacam Pearl Harbour – só que em 1942, um ano depois. E a Alemanha é, de fato, derrotada com a ajuda providencial dos americanos, em 1945.
Mas o incrível é a história por trás da história. Lindbergh teria apoiado Hitler porque este sequestrara o filho do aviador.[3] Assim o chantageou e manipulou. Primeiro para garantir a neutralidade dos Estados Unidos e depois para executar a ‘solução final’ aos judeus americanos. De saída é difícil entender como um plano tão absurdo poderia funcionar, pois na época do sequestro, Hitler e os nazistas nem tinham chegado ao poder, o que só se daria em 1933. A seguir, que garantia tinha os alemães de que Lindbergh conseguiria uma indicação do Partido Republicano para disputar a presidência da República? E em terceiro lugar, de que venceria a eleição?
De qualquer forma, é fato que o casal Lindbergh deixa os Estados Unidos em 1935 indo morar no interior da Inglaterra até 1939. Neste período Lindbergh é designado pelo governo americano (de Roosevelt) para conhecer e relatar os progressos da força aérea alemã. Ele não só faz o serviço, mas se aproxima dos nazistas, ao ponto de receber do próprio Führer a medalha de Cruz de Serviço da Águia Alemã. E ao voltar à América passar a defender com vigor a neutralidade do país e “as coisas boas que a ditadura alemã estava realizando para o seu povo”.
Mas além desta estratégia, digamos, eleitoral dos nazistas para terem uma espécie de títere no poder da maior democracia do Ocidente, a segunda parte do plano foi mais difícil de ser posta em prática. Lindbergh – apesar da citada postura de antipatia aos judeus e outras minorias, como negros e asiáticos –, não concordava com o nível de ódio que os nazistas tinham e seus objetivos bestiais. Até adotou algumas políticas públicas para ‘americanizar’ os judeus, como o programa da Agência de Absorção Americana, levando jovens judeus para conhecerem a ‘América profunda’ do Meio-Oeste e, mais adiante, transferindo a residência de judeus do Leste para o Oeste do país, minando, desta forma, a comunidade judaica, tornando seus laços mais fracos e os deixando à mercê de possíveis ações de antissemitas. Mas quando Hitler teria pressionado para que Lindbergh colocasse em prática a terceira e sinistra parte do plano, Lindbergh resistiu. E aí, teria sido eliminado em pleno espaço aéreo americano por nazistas infiltrados no país.
Este seria o ‘Complô contra a América’, revelado pela própria esposa de Lindbergh. Charles Jr. estaria sendo criado pelos nazistas e se não fossem obedecidas as suas ordens, seria enviado ao front para morrer no rigoroso inverno soviético. Com o desaparecimento do marido e vendo o país entrar em colapso, Anne Lindbergh não suportou mais a situação e reagiu, mesmo selando a sorte do seu filho.
Como o próprio autor personagem reconhece é “a história mais rocambolesca e mais inacreditável – ainda que não menos convincente.” (página 400). Talvez. Mas não convence, ainda mais por tentar uma espécie de justificativa para as ações de Lindbergh, como se seu comportamento no mundo real já não fosse o bastante para mostrar suas posições contrárias aos judeus. E o que poderia ter feito se, de fato, tivesse sido eleito.
Inclusive, porque, como revela o próprio Roth numa entrevista ao jornal inglês The Guardian em 2006, sua motivação para escrever o romance veio de um fato verídico. A ala direitista do Partido Republicano, no início de 1940, convidou Lindbergh para concorrer à presidência. Ou seja, o sujeito era amigo de Hitler, antissemita e isolacionista. Não haveria a necessidade de se construir esta ‘história atrás da história’ para justificar sua atitude.
Contudo, o que incomoda neste livro é a tentativa de ajeitar as coisas em termos históricos. Para que, no fim das contas, a história alternativa retornasse à história real. É como se Roth ponderasse que à história ‘rocambolesca’ e especulativa que ele concebeu já tivesse cumprido seus objetivos e fosse necessário voltar ao mundo ‘normal’, o da nossa linha histórica.
Mesmo com estes deslizes, o mérito maior está no recurso quase autobiográfico, apesar de Roth não pertencer a um domínio de conceitos próprios aos escritores de ficção especulativa em geral, e de história alternativa, em particular. Pois ainda assim, o livro venceu o principal prêmio internacional da história alternativa, o Sidewise Award e foi indicado ao prestigioso John Campbell Memorial Award, um prêmio conferido por acadêmicos para o melhor romance de ficção científica do ano publicado nos Estados Unidos.
Ao contar esta contra-história sobre a lembrança de um adulto em seus tempos de criança, Roth expõe a dramaticidade do preconceito vivido pela minoria ao qual pertence. Assim, o drama do pequeno Philip é mostrado na dupla condição do horizonte infantil e da necessidade brusca de compreender o mundo e o comportamento estranho dos adultos.
Complô Contra a América é também valioso por trazer de volta o debate sobre as eventuais conspirações que teriam levado o país a entrar na Segunda Guerra Mundial. Um plano que teria sido elaborado e executado pelo presidente Roosevelt – que não queria deixar o poder –, ao lado da comunidade judaica – temerosa com o avanço nazista – e os britânicos – desesperados ante a iminente invasão alemã. Livros e mais livros foram escritos sobre o assunto que, no entanto, nunca foi reconhecido pelo cânone da historiografia acadêmica norte-americana ou britânica.[4]
Este livro é também interessante de ser lançando neste início de século XXI, pois, provavelmente, a intenção do autor vai além da história do livro em si. Ou seja, é possível vê-lo com o intuito de incluí-lo na grande questão americana dos anos do governo Bush (2001-2009): sua linha conservadora e belicista. Nesse sentido, Roth afirmou na mesma entrevista citada acima que,

Ao contrário do que tenho lido sobre ele (de que seja a minha grande história judaica), é o meu livro mais americano. É uma distopia americana.”

E assim sendo, ele pode ser interpretado dentro desta condição de obra para polemizar sobre a divisão que ocorria na América: A favor ou contra os objetivos do governo em sua guerra contra o terrorismo e quais os limites legais que o governo pode alterar e/ou obedecer em um país secularmente democrático.
Um momento que retoma a tradição de grandes cisões históricas do povo americano. Como na época da promulgação da Constituição, com os federalistas – defensores do texto – e os anti-federalistas – contrários a ele – no fim do século XVIII. Depois com a Guerra de Secessão – certamente o momento mais dramático da história do país –, que por pouco não o dividiu em definitivo – em meados do século XIX. E mais recentemente, a grande discussão da primeira metade do século XX: isolacionistas versus intervencionistas em relação à que posição o país adotar frente à Segunda Guerra Mundial.
Em resumo, o romance fala desta guerra sob um prisma alternativo, e procura mostrar que o tal complô foi outro – ou poderia ter sido. E com isso alerta para os riscos potenciais que pode sofrer uma nação excessivamente polarizada.
No final da obra, Roth inclui um Post-scriptiun com pequenas biografias dos principais personagens reais de seu livro e como se comportaram durante a guerra em nossa realidade. Normalmente não aprecio este tipo de recurso que procura inserir ‘realidade’ à criação ficcional. É como se o autor nos dissesse: “Bom, a história foi muito boa, mas voltemos à realidade”. Tem um viés conservador e potencial para diluir o impacto do texto imaginado, reduzindo a importância de suas implicações na mente do leitor.
Neste caso, entretanto, o recurso torna-se bem-vindo, e é mesmo saboroso, por nos inserir no ambiente daquele momento e revelando o que pensaram e fizeram os protagonistas. Permite um contraponto com as ações por eles cometidas na linha histórica alternativa.
O caso de Lindbergh é curioso, pois embora ele seja o personagem central, o que muda a História e se faça presente por todo o romance, aparece de forma distante, indireta, vista por terceiros hostis, nunca por ele mesmo – e muito pouco por seus muitos admiradores. Mas neste Post-scriptium Lindbergh finalmente atua de forma direta – ainda que obviamente sob o ponto de vista do autor da obra. Roth o põe para falar, reproduzindo um discurso do aviador contrário à entrada dos Estados Unidos na guerra.
Em comparação com os enredos mais especulativos e tematicamente ambiciosos de outras histórias alternativas pós-Segunda Guerra Mundial, Complô Contra a América é menos ousado, além de confuso quando tenta justificar o tal ‘complô’ e voltar ao ‘mundo real’. Mas por outro lado, dentro do recorte temático e de estilo escolhido pelo autor, ele o concebe de maneira notável – principalmente por ser, no fim das contas, um grande escritor –, e o livro pode ser visto como uma contribuição efetiva e original para este subgênero da ficção científica.

– Marcello Simão Branco


[1]  Cineasta americano que é um opositor feroz do governo Bush, com documentários como Tiros em Columbine (2002) e Fahrenreit 9/11 (2004).
[2] Henry Ford, grande líder industrial e inovador do ramo automobilístico aparece no livro como aliado de Lindbergh também com um pé na realidade. Antissemita militante, curiosamente também cogitou candidatar-se à Presidência dos EUA, em 1923. Segundo Ken Silverstein (2000), no artigo “Ford e o Führer”, a empresa americana colaborou com Hitler no esforço de guerra por meio de sua subsidiária alemã até oito meses depois dos EUA declararem guerra à Alemanha.
[3] De fato, o filho do casal Lindbergh, Charles, Jr. foi sequestrado e morto em maio de 1932.
[4] O escritor americano Gore Vidal (2000) defende o argumento de que houve a tal conspiração e que Lindbergh teria sido manipulado por ambos os lados – pró e contra a guerra –, decidindo-se pela neutralidade e difamado pelos apoiadores. Assim, segundo Vidal, Lindbergh não seria o antissemita proposto, mas um sincero defensor de uma América neutra. Creio que fica difícil de concordar com Vidal, após os fatos que provam a aproximação do aviador com os líderes nazistas e suas declarações públicas contra os judeus e outras minorias.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Jamie Marks Está Morto (Jamie Marks Is Dead, 2014)


Filme americano dirigido e escrito por Carter Smith, baseado em livro de Christopher Barzak, “Jamie Marks Está Morto” é um drama sobrenatural com elementos sutis de horror que foi exibido no Brasil na “38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo”, em Outubro de 2014.
Um adolescente que está sempre isolado e sofre bullyng na escola, Jamie Marks (Noah Silver), é encontrado morto misteriosamente na beira de um rio gelado numa pequena cidade dos Estados Unidos, descoberto pela jovem Gracie Highsmith (Morgan Saylor), enquanto procurava pequenas pedras para sua coleção. Como um fantasma desorientado, ele fica perdido entre os mundos dos vivos e mortos, precisando de um amigo para ajudar a guiá-lo pelo túnel para o outro lado, que parece ser Adam McCormick (Cameron Monaghan), esportista bem sucedido na escola e que não participava das sessões de bullyng.. O fantasma de Jamie Marks podia ser visto apenas por Gracie e Adam, criando uma relação estranha e misteriosa entre eles.
Melancólico, depressivo, uma história de fantasma perturbado em busca de paz. Com uma narrativa lenta, mas não entediante, como um bom roteiro deve ser, sem precisar apelar para sangue, violência ou sustos fáceis, nem efeitos especiais mirabolantes e artificiais. Não é para todos os públicos, sendo um típico filme para exibição em festivais, com pequeno apelo comercial e por isso difícil de ser exibido nos cinemas em geral.  
A química de amizade formada por Jamie e Adam funciona bem e de forma convincente, mantendo a atenção do espectador e o interesse pela condução da história. Curiosamente, a bela atriz Liv Tyler, também conhecida por ser filha de Steven Tyler, o líder da banda “Aerosmith”, e que esteve em filmes populares como “Armageddon” (1998), a trilogia “O Senhor dos Anéis” (2001 / 2002 / 2003) e “O Incrível Hulk” (2008), tem uma participação menor no papel da mãe de Adam, num momento meio frio de sua carreira, com poucos trabalhos.
(Juvenatrix - 29/04/15)

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Muitas peles, Luiz Bras

Muitas peles, Luiz Bras. 128 páginas. Ilustração da capa de Teo Adorno. Terracota Editora, São Paulo, 2011

A produção de não-ficção no ambiente editorial fantástico brasileiro não é grande, mas tem se mantido estável, com dois ou três publicações por ano. Contudo, geralmente são textos oriundos de trabalhos de graduação acadêmica, com toda a parafernália que caracteriza os ensaios de pesquisa científica universitária: muitas citações, notações de referência e notas de pé de página, o que torna a leitura fragmentada e cansativa, sem esquecer que são textos voltados a provar uma tese, ou seja, são construídos em torno de um objetivo específico e o perseguem até que seja atingido; afinal, se isso não acontecesse, o trabalho seria rejeitado pela banca e seu autor teria de refazê-lo até obter esse resultado. São, portanto, leituras pragmáticas, de interesse específico, que depois de defendidas, aprovadas e publicadas, ficam nas estantes esperando que futuros pesquisadores acadêmicos as tomem para buscar referências e citações para seus próprios trabalhos.
Mas, algumas vezes, surgem títulos que não foram produzidos para o ambiente acadêmico e tornam-se trabalhos de leitura mais fluida para o leitor leigo, como por exemplo O que é ficção científica (Brasiliense, 1986) e Um rasgão no real (Marca de Fantasia, 2005), ambos de autoria de Braulio Tavares.
E também é o caso de Muitas peles, primeiro livro de não-ficção de Luiz Bras, publicado pela Editora Terracota com recursos do ProAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo), distribuído gratuitamente pelo autor. Trata-se de uma coletânea que reúne os melhores artigos de Luiz Bras, publicados na coluna “Ruído branco” do jornal literário Rascunho, de Curitiba, PR.
Luiz Bras notabilizou-se nos últimos anos por uma atitude de militância no gênero da ficção científica, atuando como escritor e ensaísta, com propostas de impacto e provocações que transcendem o fandom e ecoam no mainstream literário como nunca antes foi conseguido pelos escritores do gênero. Isso porque Luiz Bras é a persona autoral de Nelson de Oliveira, escritor multipremiado no mainstream que, há alguns anos, optou por se retirar em favor de seu alter ego mais identificado com a literatura especulativa.*  Bras tem sido extremamente ativo, publicando vários livros a cada ano, sempre de qualidade acima da média, tendo sido extensamente entrevistado pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica em sua edição referente a 2010, ano em que teve publicada a ótima coletânea de contos Paraíso líquido, pela mesma Terracota.
Além de Muitas peles, Bras publicou em 2011 o romance infanto-juvenil Sonhos, sombras e super-heróis, na coleção Jovem Leitor da editora Ciranda das Letras, além de, como Nelson de Oliveira, ter participado da organização da antologia As cidades indizíveis (Llyr Editorial), ao lado do também escritor Fábio Fernandes.
Não por acaso, Muitas peles traz na capa um desenho de Teo Adorno, o mesmo artista que ilustrou a capa de Paraíso líquido, e isso até pode confundir o leitor, mas trata-se de um trabalho completamente diferente.
São 16 textos que discutem questões interessantes ligadas ao ato da escrita e da crítica literária, bem como sobre os valores da literatura de gênero, especialmente a ficção científica, frente aos caminhos do mainstream.
Entre os textos está o importante “Convite ao mainstream”, no qual Bras convida todos os autores brasileiros a experimentarem a ficção científica como uma alternativa ao engessamento estilístico da literatura brasileira, um texto que já se tornou basilar no ambiente da fc&f nacional.
Mas o livro tem muito mais a oferecer. Além de “Convite ao mainstream”, Muitas peles traz outros artigos que ampliam a percepção do leitor tanto para a literatura de gênero quanto para o mainstream, como por exemplo “Duas elites”, no qual Bras confronta lucidamente os parâmetros analíticos que predominam nos ambientes da ficção de gênero e do mainstream. O artigo é composto por breves depoimentos de Ana Cristina Rodrigues, Braulio Tavares, Fabio Fernandes, Guilherme Kujawski, Marcello Simão Branco, Roberto de Sousa Causo e Tibor Moricz, todos nomes vinculados ao fandom brasileiro de fc&f, ampliando o leque de opiniões expostas. Faltou, contudo, a contraparte mainstream para configurar um bom debate.
Os demais artigos que compõe o volume são: “O infinito: um delírio?”; “Fim do papel, fim da poesia”; “Escolha um futuro”; “Cinco erros”; “Três leis”; “Sabedoria secreta”; “Olha, mãe, uma cor voando!”; “Encontro com o autor-personagem”; “O autor e seu editor”; “Elogio do acaso”; “Paraíso perdido: a infância”; “Morte e imortalidade” e “Crítica é cara ou coroa”. A coletânea também abre espaço para o artigo “Um bárbaro que se preze não vem para o chá das cinco”, de Roberto de Sousa Causo, escrito a convite de Bras.
Muitas peles é um livro ágil, de leitura leve e agradável, mas de impacto contundente. Sem dúvida, uma das mais importantes publicações do gênero nos últimos anos.
— Cesar Silva

* Nelson de Oliveira permanece assinando textos de crítica e a organização de antologias.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dinosaur From the Deep (França, 1993)


Inacreditável “filme Z” francês de orçamento quase inexistente, escrito, produzido, editado e dirigido por N. G. Mount (Norbert Moutier), que também atua sob o pseudônimo Bert Goldman. Ele é o responsável por outras porcarias como “Mad Mutilator” (1983) e “Le Syndrome d´Edgar Poe” (1995). Tem ainda a participação no elenco do veterano cineasta e roteirista francês Jean Rollin (1938 / 2010), que interpreta o papel de um “cientista louco”. Rollin teve uma vasta carreira no cinema com uma infinidade de bagaceiras de horror, atuando também em muitas delas, com seu nome tornando-se associado ao gênero.
Em 2004, um futuro para a época da produção em 1993, e um passado para nosso momento atual, a pena de morte para criminosos violentos está abolida e então a polícia decide enviar um perigoso prisioneiro junto numa expedição científica para o passado na época dos dinossauros. A missão é comandada pelo cientista Prof. Nolan (Jean Rollin), e o objetivo é estudar os gigantescos animais pré-históricos. O criminoso seria levado junto com seus carrascos para ser executado nesse passado sem lei. No retorno da nave que é uma máquina do tempo, um ovo de dinossauro é trazido à bordo e um pequeno monstro desperta, atacando os tripulantes com mortes sangrentas.  
Em “Dinosaur From the Deep” tudo é ruim ao extremo, nada se salva, nem a presença de Jean Rollin. A história é ridícula, com algumas piadas sem resultado, os atores são péssimos, e a edição com cortes bruscos é horrível. O diretor claramente demonstra não possuir qualquer tipo de conhecimento sobre como fazer cinema. Sem contar a música totalmente deslocada e que apenas contribui para aumentar o sentimento de rejeição do espectador. Até os créditos são extremamente amadores. Mas, o pior de tudo são os efeitos patéticos, que vão da nave espacial tosca, uma maquete estática paupérrima, aos dinossauros feitos de papel e com alguns movimentos num péssimo “stop motion”, que crianças em idade escolar do ensino fundamental conseguem fazer bem melhor e de forma mais convincente. É até difícil descrever a colossal ruindade geral desse filme.
Curiosamente, em determinado momento há uma citação irônica para “Parque dos Dinossauros” (Jurassic Park), de Steven Spielberg, lançado na mesma época em 1993, onde o criminoso condenado à morte e que conseguiu escapar de seus executores, encontra uma “mulher das cavernas” e afirma que agora é o “Rei do Parque Jurássico”.
Produzido diretamente para o vídeo, o filme está disponível no “Youtube” na íntegra em francês sem legendas.
(Juvenatrix - 22/04/15)

terça-feira, 21 de abril de 2015

Espectra: Histórias de fantasmas

Espectra: Histórias de fantasmas, Tomo 1, Georgette Silen, org. 240 páginas, Capa de Dimitri Uziel, prefácio de Simone O. Marques. Editora Literata, Praia Grande, 2011.

Não há dúvida que o gênero preferido dos fãs de ficção fantástica é o horror. Neste momento, há um grande rebuliço com a fantasia por conta dos sucessos internacionais como O senhor do anéis, Harry Potter e A guerra dos tronos, mas o horror sempre esteve na ordem do dia. Mesmo quando a fantasia era interesse apenas de uns poucos nerds jogadores de rpg e a ficção científica dominava o cenário editorial, o horror estava lá, firme e forte, com seus fãs fiéis e ardorosos que sempre responderam bem aos produtos em todas as mídias.
Talvez seja por isso que, apesar de não predominar no formato de romance, as antologias do gênero são tão abundantes e voluptuosas. Em 2010, das 59 antologias inéditas publicadas no ano, 30 eram de horror, conforme dados divulgados no Anuário brasileiro de literatura fantástica 2010, e em 2011 não foi diferente.
Alguns organizadores especializaram-se na montagem de antologias de horror, como Ademir Pascale, M. D. Amado e Georgette Silen. Esta organizou para a editora Literata o volume Espectra: Histórias de fantasmas, que promete ser o primeiro de uma série.
O livro reúne em 240 páginas nada menos que 31 contos de 28 autores, boa parte deles estreantes. Como o título já diz, trata-se de uma antologia temática dedicada às histórias de fantasmas e assombrações. E no livro há um pouco de tudo: demônios, poltergeists, aparições, casarões e, é claro, fantasmas aos montes. É até estranho que com tanto fantasma por aí, eu nunca tenha visto um só sequer.
Seria exaustivo comentar todos os contos, mas vale a pena destacar alguns deles.
“Inferno particular”, de Sheilla Liz Cocconello, uma veterana nas antologias de ficção fantástica, conta o cotidiano de uma jovem suicida que, condenada a uma eternidade infernal, resiste em abandonar o local de sua morte. Mas não importa o quanto protele seu destino, o inferno sempre estará esperando por ela e não está com pressa.
Taiane Gonçaves, que estreou na antologia Tratado secreto de magia (Andross, 2010), participa desta seleta com três textos. O melhor deles é “As treze almas”, sobre um jovem que, ao visitar uma tia no interior, se vê as voltas com o fantasma de um assassino psicopata.
O conhecido autor-fã Adriano Siqueira, autor da coletânea Adorável noite (Estronho, 2011), foi especialmente convidado para o livro e também oferece um texto interessante e divertido. “70 Km por hora” relata, em clima de videogame, uma noite de trabalho de um detetive especializado em casos bizarros. Aqui, o de um automóvel assombrado que coloca toda a cidade em risco.
“Anga”, de Carlos Gaiten, outro autor experiente em antologias, investe numa história de laivos políticos, na qual um vidente recebe de um fantasma a localização de uma vala onde estariam enterradas várias vítimas da ditadura militar.
“A gameleira”, de Carmelo Ribeiro, é o melhor texto da coletânea. Trata-se de um “causo” contado a moda antiga, sobre dois homens valentes que se desafiam mutuamente a enfrentar a maldição de uma velha árvore.
Outro bom texto é “Altar de ossos”, de Marcelo Augusto Claro. Um pai e seu filho, cuja profissão é caçar fantasmas, vão enfrentar um dos piores numa velha casa de fazenda.
Gian Danton, premiado roteirista de quadrinhos e um dos autores mais experientes do grupo, participa com o conto “Lembranças de sangue”, sobre um jovem estudante que se hospeda na casa de uma senhora simpática, mas vai descobrir, da pior forma possível, que o lugar é assombrado por lembranças de sangue e morte.
Além destes, o livro ainda traz textos de Marcelo Augusto Claro, Sória Celestino, Bruno Anselmi Matangrano, Vicente Reckziegel, Eduardo Bonito, Suzy M. Hekamiah, Jéssica Schiavetto Linhares, Michele C. Marchese, Debby Lenon, Marjorie Tolentino, Rosi Caobiano, Cecília Torres Nogueira, Rubens Alves, Sandra Françoso, Débora Jeronymo, Andrea Betoldo, Mariana Albuquerque, MBlannco, Celso Correa de Freitas, da prefaciadora Simone O. Marques e da própria organizadora, Georgette Silen.
Apesar da grande quantidade de autores e ampla variedade de estilos, a antologia é equilibrada e fácil de ler. Não chega a ser assustadora; está mais para divertida, como geralmente são as histórias populares de terror, e representa bem o estado da arte no ambiente dos fãs do gênero.
Na falta dos fanzines, quase todos extintos, as antologias têm cumprido a função de permitir o exercício editorial de novos autores, dessa forma são uma espécie de incubadora de talentos. Esperemos que, futuramente, alguns deles desdobrem suas asas e arrisquem voos solo. Aí sim, ninguém vai segurar essa turma.
— Cesar Silva

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O Homem que Viu o Disco Voador, Rubens Teixeira Scavone

O Homem que Viu o Disco Voador, Rubens Teixeira Scavone. 221 páginas. São Paulo: Editora Melhoramentos, Série “Escape”, São Paulo. Edição de 1975. Lançado originalmente em 1958.

Por vários motivos este livro tem importância na história da ficção científica brasileira. Marcou a estreia profissional de Rubens Teixeira Scavone (1925-2007), que iria se tornar pelas décadas seguintes um dos mais importantes autores brasileiros dedicados ao gênero. Representou também o início da chamada “Geração GRD”, o primeiro momento expressivo em termos de obras e movimento literário da ficção científica em nosso país.[1] E, de certa forma, também simboliza o diálogo deste gênero literário com a ufologia, tão mal afamada e incompreendida naquele tempo e ainda hoje.
Publicada originalmente pela editora Palácio do Livro, de São Paulo, a obra chama a atenção já na capa, ao lermos o nome do autor. Um certo Senbur T. Enovacs. Talvez por algum tempo este nome tenha prevalecido na autoria desta obra, mas a verdade é que ele é um anagrama – nome escrito ao contrário –, de Rubens T. Scavone.
O que levou Scavone, filho de Maria de Lurdes Teixeira e José Geraldo Vieira, autores de prestígio junto ao mainstream nacional, a ocultar o seu nome? Talvez o tema, muito polêmico à época, além da marginalização que a ficção científica também desfrutava. De qualquer forma, tornou-se um detalhe sem grande importância nos anos seguintes, pois O homem que viu o disco voador, foi um best-selller, republicado em várias edições, e já com o nome verdadeiro do autor.
O livro tem um objetivo claramente didático e não esconde isso em sua estrutura narrativa e no desenvolvimento da ação e do perfil e comportamento dos personagens, um pouco estereotipados e sem profundidade maior. E está dividido em três partes distintas e complementares.
Na primeira, intitulada de “O mistério”, temos a exposição direta de dois contatos com objetos voadores não identificados (Ovnis). Logo de saída, o aviador Eduardo Germano de Rezende não entende a pane nos instrumentos de seu avião, quando estava prestes a pousar no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Semanas depois testemunha um avistamento concreto, próximo a uma das asas de um avião que pilotava. Trata-se de um estranho objeto circular, que inunda o interior da nave com uma luz intensa. Ao contrário do primeiro fenômeno, este é testemunhado pela tripulação e todos os passageiros.
Neste segundo contato, Eduardo conhece um renomado cientista, que expõe a ele de forma rápida o seu profundo conhecimento sobre o assunto. Aos dois, se junta a comissária de bordo, Leila, que não esconde a afeição íntima pelo comandante. Depois de voltar desta viagem, o aviador é perseguido por um homem que deixa em seu apartamento um estranho aparelho. É um visor-transmissor que faz um comunicado dos seres responsáveis pelos dois contatos e que deseja um terceiro, para lhe revelar os segredos de sua origem e as suas intenções. Em princípio abalado e confuso, Eduardo terá a ajuda de sua namorada e do cientista Augusto Vaugirard para saber como proceder frente à convocação. O encontro deve acontecer na ilha de Trindade, próximo à costa atlântica brasileira, a cerca de 1600 km do litoral capixaba. Aos três se junta um colega de trabalho de Eduardo e Leila, o radiotelegrafista Santos, pois ele é dono de um barco apropriado para a viagem.[2]
A segunda parte do romance tem o nome de “Ilha” e narra o fantástico encontro de terceiro grau do grupo com os seres misteriosos. O disco voador aparece no horizonte da noite estrelada sobre a ilha, paira sobre eles e depois de alguns minutos aterrissa. As cinco páginas que descrevem a aparição e a reação das pessoas é o momento principal da obra, pois é narrada com precisão e emoção ao mesmo tempo, com muita verossimilhança, como se Scavone tivesse narrando uma experiência que tivesse realmente vivido.[3]
Um ser humanóide de nome Alik sai do disco e se comunica com o grupo. Convida-os para entrar na nave e lá explica parte de suas intenções. Talvez o mais surpreendente é que ele diz que não é extraterrestre, mas sim intraterrestre. Ou seja, é um ser humano que habita o interior da Terra. Há milhares de anos parte da população da superfície teria entrado em túneis e cavernas e, a partir daí, desenvolvido uma tecnologia que os permitisse perfurar o interior do planeta e construir o mundo de Agarta, composto por sete cidades interligadas. Os avistamentos de discos voadores ocorreriam há milhares de anos, com o intuito de monitorar as atividades dos humanos da superfície.[4] Mas embora não se anunciassem publicamente, teriam ido mais longe, pois alguns deles estariam misturados junto aos habitantes da superfície e teriam recrutado colaboradores que serviriam aos seus planos de união a longo prazo das duas civilizações. Eduardo e seus companheiros seriam apenas mais alguns recrutados para esta missão. Contudo, se eles revelassem publicamente o que agora sabiam seriam “anulados”.


A terceira parte, chamada de “A ameaça”, versa fundamentalmente sobre os desdobramentos deste contato. A vida dos quatro muda inteiramente e eles têm de se manter unidos em seu segredo, pois temem o que pode vir a ser esta “anulação”. Contudo, Santos distoa do restante, ao questionar a origem dos intraterrenos, seus objetivos e ameaças. Então conta o que sabe aos jornais de São Paulo e a vida dele e dos outros três passa a correr risco. É muito curioso como os jornais aceitam e publicam a história de uma pessoa, sem maiores questionamentos. É verdade que eles ocorrem depois que a história é publicada, mas é muito irrealista o comportamento da imprensa neste episódio. Santos relata que a experiência foi vivida apenas por ele e Vaugirard, deixando de fora o casal. O raditelegrafista é devidamente “anulado”, com o sumiço de seu avião em pleno vôo. Já a polêmica que se segue acaba com a reputação do cientista e leva Eduardo e Leila, numa próxima viagem a uma decisão radical de cortar o contato com os seres do disco voador. Com isso acaba não acontecendo a próxima etapa do recrutamento do grupo e nem o avanço dos objetivos dos seres de Agarta, tudo terminando com a manutenção mistério, da dúvida e do segredo do que seria de fato os tais discos voadores.
Embora a parte final seja repleta de um suspense que mantém o interesse, o romance partiu para um anticlímax, pois o momento principal da história foi vivido no meio do livro. Para quem esperava o aprofundamento do contato, a história retrocede quase que a um ponto inicial, a não ser pelo segredo agora partilhado pelos sobreviventes do contato. De certa forma, isso seria um reforço conservador para o mundo tal e qual conhecemos, deixando de lado situações que possam fugir ao nosso controle.
Scavone contou em uma entrevista que O Homem que Viu o Disco Voador foi escrito por volta de 1955 e 1956 para o seu filho, que gostava das aventuras de Julio Verne.[5] Além disso, nessa época, ele também tinha interesse pelo assunto. Então, talvez possamos afirmar que o romance didático e algo esquemático nasce de sua própria motivação de entender um pouco mais sobre o fenômeno dos Ovnis, já nos anos 50 bastante popular nos céus de todo o mundo. Isso talvez explique também porque a história não avance muito, só insinue – e até de forma surpreendente, como na revelação da origem do disco –, mas não tenha muito interesse em extrapolar para uma história de grandes especulações, como chegou a sugerir que faria na metade da obra.
Contudo, mesmo com estas limitações de método, tema e desenvolvimento de personagens, a obra tem brilho próprio, pois nota-se o talento em formação de Scavone, que iria se tornar um dos mais estilosos e certamente o mais erudito dos escritores brasileiros de ficção científica. Para se notar como o tema era caro ao autor, retornaria a ele em mais duas histórias curtas, “O número transcendental”, na coletânea Diálogo dos mundos (1961) e “O grande eclipse”, publicada nas antologias Sete faces da ficção espacial (1992) e Estranhos contatos (1998). E, por fim, ainda produziria em sua maturidade, a obra-prima O 31o peregrino (1993), numa história de abdução por extraterrestres em plena Inglaterra do século 14.
Por tudo isso e mais vale a pena voltar nossa atenção crítica ao primeiro livro de Scavone, para ilustrar como a tradição deste segmento temático dentro da ficção científica brasileira ainda está viva e em contínua renovação, como atesta o lançamento em 2008 do romance De Roswell a Varginha, de Renato A. Azevedo, pela Tarja Editorial. Pois queiram os puristas ou não, o fato é que Scavone inaugurou uma tradição que se manteve ao longo dos anos com outras obras[6] e que tem enriquecido com um dos olhares mais particulares, a maneira como o brasileiro escreve e interpreta os temas associados direta ou indiretamente à ficção científica.
Marcello Simão Branco




[1] Ao lado da antologia Maravilhas da ficção científica, organizada por Mário da Silva Brito, para a editora Cultrix, de São Paulo, no mesmo ano. A Geração GRD, também nomeada de Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, teria perdurado até 1972, com o fim da publicação da revista Magazine de Ficção Científica, da editora Globo, de Porto Alegre.
[2] Pouco antes do livro ser publicado aconteceu um fenômeno de observação ufológica nesta ilha, em 16 de janeiro de 1958, onde um fotógrafo a bordo de um navio da marinha brasileira tirou seis fotografias de um OVNI. Como observa Roberto Causo em Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (pág. 103, nota 29): “Como o romance de Scavone foi publicado no segundo semestre de 1958, haveria tempo do escritor incorporar a repercussão do avistamento.”
[3] Inclusive, na contracapa da edição de 1975 utilizada para esta resenha, há uma ótima ilustração desta cena, de autoria de Myriam R. da Costa Araújo. Deveria mesmo ter sido a da capa.
[4] Ora, esta é a tese de algumas teorias paracientíficas ou místicas sobre como seria de fato o interior do planeta e a origem dos discos voadores. Uma obra relevante sobre o tema é a de Raymond Bernard, A Terra oca: A descoberta de um mundo oculto (The hollow Earth, 1969), publicado pela editora Record no início dos anos 1980. Talvez Scavone tenha bebido desta fonte a partir da suposta experiência do Contra-almirante Richard Byrd, dos Estados Unidos, que afirma ter entrado com mais alguns tripulantes com um avião, 3.700 Km no interior do planeta, a partir do Polo Sul, em janeiro de 1956. O livro de Bernard conta esta suposta aventura com detalhes.
[5] Concedida a David Lincoln Dunbar, Unique motifs in brazilian science ficion. É o primeiro trabalho acadêmico sobre a ficção científica brasileira, defendida na Arizona State University, em 1976. Esta citação foi retirada do livro ainda inédito, Depois do Sputnik: O debate cultural sobre ficção científica no Brasil, organizado por Roberto de Sousa Causo.
[6] Vários livros no sub-gênero “ficção científica ufológica” tem sido publicados nas últimas décadas, a maioria deles, é verdade, desvinculados de uma indentificação com o gênero, de cunho mais supostamente testemunhal ou mesmo espiritualista. Na tradição do gênero, os melhores exemplos – para além dos de Scavone – são a coletânea de Marien Calixte, Alguma coisa no céu (1985) e a antologia de autores nacionais e estrangeiros, Estranhos contatos, organizada por Roberto de Sousa Causo, em 1998.

sábado, 18 de abril de 2015

Eles Vieram do Espaço Exterior (They Came From Beyond Space, Inglaterra, 1967)


Direção de Freddie Francis. Uma misteriosa chuva de meteoritos ocorre numa fazenda no interior da Inglaterra, chamando a atenção do governo, que convoca o cientista Dr. Curtis Temple (Robert Hutton) e sua namorada e assistente Lee Mason (Jennifer Jayne), entre outros, para estudar o fenômeno. Porém, todos que entram em contato com os meteoros que vieram do espaço exterior são possuídos por alienígenas formando uma conspiração que trabalha secretamente na fazenda com objetivos obscuros. Exceto pelo Dr. Temple, que por ter uma placa de prata no cérebro por causa de um grave acidente de carro, se mantém ileso do poder mental dos extraterrestres.
Produção inglesa da “Amicus”, de Max J. Rosenberg e Milton Subotsky, a grande rival da “Hammer” durante os anos 60 e meados dos 70. A direção é de Freddie Francis, o mesmo cineasta de preciosidades como “O Monstro de Frankenstein” (1964), “As Torturas do Dr. Diabolo” (1967), “Drácula, O Perfil do Diabo” (1968), “Contos do Além” (1972), “A Essência da Maldade” (1973), entre outras. Tem também a participação, apesar de pequena apenas nos dez minutos finais, do malaio Michael Gough (interpretando o líder dos alienígenas), um ator com um rosto conhecido em diversos filmes significativos como “O Vampiro da Noite” (1958) e “O Fantasma da Ópera” (1962).
Lançado em DVD por aqui pela “Works”, junto com “O Invasor Galáctico” (1985), vale registrar uma atenção especial com um tremendo spoiler incluso na sinopse que está disponível no menu do disco, revelando o objetivo dos alienígenas ao manipular os seres humanos, um detalhe que é melhor apreciado se descobrirmos vendo o filme.
(Juvenatrix - 12/11/09)