sexta-feira, 3 de abril de 2015

Almanaque Jornada nas Estrelas

Almanaque Jornada nas Estrelas, Salvador Nogueira e Susana Alexandria. 272 páginas. Capa de Delfin. São Paulo: Editora Aleph, 2009.

A série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek) é um dos símbolos da cultura popular da segunda metade do século 20 e, nesse sentido, parte formadora de boa parte dos fãs que se tornaram leitores de ficção científica no Brasil, a partir do início dos anos 1980.
Este livro é o primeiro escrito e publicado no Brasil sobre o mais popular e influente seriado de TV de ficção científica[1] e, de quebra, de grande sucesso no país, em virtude de sua exibição quase contínua entre o fim dos anos 1960 ao início dos 1990, para ficarmos só na chamada TV aberta.
Os autores são conhecidos fãs da série e bastante ativos. Salvador Nogueira, um jornalista de divulgação científica, criou o bom site Trek Brasilis, uma das principais referências para a informação sobre a série no Brasil. Já Susana Alexandria é uma tradutora de recente destaque ao verter para o português clássicos como, por exemplo, Fim da eternidade, de Isaac Asimov, e tem atuado junto à Jornada através de seu interessante trabalho de pesquisa sobre as fontes literárias, principalmente de William Shakespeare, presentes nos episódios da série clássica. Inclusive, a presença de um capítulo no livro sobre isto é um dos pontos altos a ser ressaltado.
O livro é muito bonito e agradável, fartamente ilustrado – ainda que sem cores internas –, diagramado com desenvoltura e leveza. Além dos textos principais, há várias informações complementares e curiosidades em textos curtos, envoltos em balões e quadros, talvez para agilizar uma consulta rápida, como requer um livro identificado como um “almanaque”. E talvez por se aferrarem demais a este método, o livro acaba revelando suas fraquezas em termos de conteúdo e de prioridades.
Primeiro, o livro é claramente enfocado na série clássica. O início da série é recontado com um nível de detalhe muito bom e inclui também um guia de episódios das três temporadas – bem feito, mas que nada acrescenta aos vários à disposição do trekker brasileiro, inclusive em português.[2] Daí em diante, as demais séries são comentadas de forma resumida, ressaltando-se apenas os seus aspectos principais e algumas informações de bastidores. Mas onde está ao menos a lista dos episódios de cada série? Com relação aos filmes para o cinema, a ênfase se repete, pois comenta até o sétimo filme – onde termina a participação dos personagens da série clássica –, e os demais são apenas citados nominalmente. O mesmo procedimento acontece quando escrevem sobre histórias em quadrinhos e os livros publicados no Brasil. Um diferencial relevante seria publicação de uma listagem dos títulos lançados no país. Uma chance perdida. E mais estranho ainda é que nem os 23 livros da própria Aleph sobre a série são listados, mas sim os de outras editoras! Tomaria tantas páginas assim a publicação dos títulos? É o tipo de informação que deixaria o livro útil para o fã e colecionador.[3]
Mas a pior falha do almanaque é sua abordagem distorcida do fenômeno Star Trek no Brasil. Para começar, poderiam abordar a repercussão da série no país, estabelecendo um instigante paralelo com a da terra natal do seriado e com isso fugir do tradicional de contar como foi nos Estados Unidos. Eu mesmo tenho o recorte da revista Intervalo, de São Paulo, anunciando a estréia no país da série, pela TV Excelsior, em 1968.[4] O incêndio que acabou com esta emissora teve repercussão sobre a exibição da série no país, já que alguns rolos de episódios foram perdidos. Um tópico sobre os dubladores poderia ter sido abordado, falando das versões da AIC e depois da VTI. Isso está disponível na internet.[5]
O mais polêmico, porém, ficou reservado para o capítulo nove, “Trekkers!”, ao comentarem sobre a comunidade de fãs no Brasil. Eles escreveram na página 239:

“Foi durante as reprises das séries coloridas no Brasil, no início dos anos 1980, que toda uma geração de novos fãs veio juntar-se aos antigos. Mas, naqueles tempos pré-internet, pré-celular e pré-teve a cabo, a comunicação entre os fãs era muito precária – para não dizer inexistente. É muito comum ouvir histórias de trekkers que se achavam os únicos fãs brasileiros da série. Isso mudou quando surgiram os primeiros fã-clubes de Jornada nas Estrelas no Brasil, particularmente dois deles, que se tornaram conhecidos nacionalmente: o Jetcom, do Rio de Janeiro, e a Frota Estelar, de São Paulo. Ambos surgiram no mesmo ano em 1989.”

Este trecho não condiz com a verdade. O primeiro fã-clube organizado sobre a série é a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST), criada em São Paulo, em 1982. O clube tinha reuniões semanais e publicava o fanzine Star News, que durou onze anos, em 48 edições. A SAST tinha sócios por todo o Brasil e contatos com grupos de fãs semelhantes no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e interior de São Paulo. Além de contatos no exterior, como nos Estados Unidos e em Portugal. Se Nogueira e Alexandria afirmam que havia fãs que se achavam os únicos, bem se vê que não era o pessoal da SAST.
A SAST foi retratada em mais de uma oportunidade por jornais, revistas e programas de TV da época.[6] Dizer que a comunicação era precária ou inexistente é um equívoco de julgamento risível e preconceituoso, como se o mundo sem as tecnologias de hoje praticamente não fosse viável. Além disso, Susana Alexandria manteve contato com a SAST durante um breve período.
Para os autores, ao que parece, a história organizada dos trekkers no Brasil começou com os clubes com os quais eles tiveram mais contatos e participação. Mas por que desconsideraram de maneira tão contundente os fãs dos anos 1980? E nem é possível dizer que não tinham como ter acesso a eles, porque alguns se integraram com destaque aos clubes que vieram depois e existe alguma literatura histórica já escrita sobre o assunto.[7]
É fato que com a Frota Estelar nos anos 1990 houve mais organização, visibilidade e repercussão, principalmente por conta das chamadas “convenções estelares” e do feito significativo de trazer três atores do elenco principal da série clássica para o país: Walter Koenig (Checov), George Takey (Sulu) e Leonard Nimoy (Spock). Mas é prematuro desconsiderar o movimento de fãs dos anos 1980, já que manteve o interesse sobre o seriado, com fãs articulados e ativos. E nunca é demais lembrar que a SAST é considerada uma das primeiras associações de fãs que assinalam o ressurgimento da própria ficção científica brasileira, a chamada Segunda Onda, ao lado do Clube de Ficção Científica Antares, de Porto Alegre, e do fanzine Hiperespaço, ambos de 1983. O que preocupa é que por este ser o primeiro livro sobre a série escrita no Brasil, a defesa da posição dos autores sirva como a versão oficial sobre o assunto.
Quando soube deste livro pensei no que ele poderia trazer de diferente para o trekker brasileiro, já que existem vários livros excelentes sobre a série publicados nos Estados Unidos, e mesmo no Brasil, se pensarmos em Jornada nas Estrelas Compendium, de Allan Asherman e as biografias de William Shatner e Leonard Nimoy. Ou seja, o Almanaque só seria útil como fonte de consulta se tivesse informações básicas completas, como listas de obras e episódios das séries e trouxesse algo brasileiro sobre o assunto. Talvez a obra não tenha sido concebida para o trekker, mas sim para o público em geral. Afinal, a Aleph tem adotado este princípio para os seus livros de ficção científica. Isso explicaria este almanaque light, ao invés de um com mais ênfase em informações de pesquisa. Se assim for, o interesse para o trekker é reduzido. Por tudo isso, embora o livro seja bem produzido, ainda se espera outro sobre a série que traga informações bibliográficas e de pesquisa e, principalmente, mais voltadas à rica – e ainda mal contada – história do movimento trekker no Brasil.
– Marcello Simão Branco



[1] Mas não é o primeiro abordando a série. Em 1993, Ana Creusa Zacharias escreveu uma novelização chamada A abadia, em edição independente.
[2] O mais completo, claro, é Jornada nas Estrelas Compendium, de Allan Asherman, publicado pela Sci-Fi Books, em 1999. Já em termos de guia produzido por brasileiros, o melhor é TV Séries – Jornada nas Estrelas: Guia de Episódios, edição especial da revista em seu ano II, número 16, outubro de 1998, num ótimo trabalho de Fernanda Furquim e Marta Machado.
[3] Talvez por desconhecimento, os autores deixaram de comentar sobre um álbum com 240 figurinhas colantes sobre Jornada nas Estrelas: A Nova Geração, publicado pela editora Abril Panini S/A, em 1991.
[4] O título da reportagem é “Lá em cima onde mora a aventura: Emoção e garotas bonitas, é o que promete ‘Jornada nas Estrelas’. Fotos dos episódios “Deste lado do paraíso” e “Miri” ilustram o texto.
[5] Veja o artigo “Jornada nas Estrelas (Star Trek): Uma dublagem através do tempo”, de Thiago Siqueira, publicado em http://universofantastico.wordpress.com/2009/04/11/jornada-nas-estrelas-uma-dublagem-atraves-do-tempo.
[6] Veja os títulos de algumas reportagens sobre os fãs dos anos 1980: “Um jeito trek de ser”, no Jornal do Campus da USP, n. 67, 1º de junho de 1988; “A guerra dos trekies brasileiros”, no Jornal da Tarde, de São Paulo, em 27 de maio de 1989. As duas com fotos de fãs. E também na revista Video Business, em 1988, com “Fãs além da imaginação”. Participaram também num programa sobre vídeo e cinema na Rede Bandeirantes, em São Paulo, em 1988, apresentado por Serginho Café. Exemplos que atestam que existia uma intensa atividade de fãs, ao contrário do que defende os autores do Almanaque.
[7] Escrevi uma história dos fãs da série no Brasil, de 1982 a 2006, “Os fãs de Jornada nas Estrelas no Brasil”, em http://www.scarium.com.br/artigos/simao02.htm.

Il Coltello di Ghiaccio (Knife of Ice, Itália / Espanha, 1972)


O sub-gênero do cinema italiano que aborda histórias de assassinos em série ficou conhecido como “Giallo”, que significa “amarelo” em italiano, numa referência às capas amarelas das revistas populares de suspense e romance policial, com assassinatos sendo investigados por detetives. Esses tipos de filmes tiveram seu ápice entre as décadas de 70 e 80 do século passado, apresentando as ações de assassinos usando luvas pretas, com as vítimas na maioria das vezes sendo mulheres, e com a investigação policial tentando descobrir o mistério por trás das mortes, com a solução apenas no final e reservando surpresas.
Com o título original italiano “Il Coltello di Ghiaccio”, o espanhol “Detrás del Silencio” e o inglês “Knife of Ice”, o filme foi lançado em 1972 e dirigido por Umberto Lenzi, um cineasta italiano conhecido por outros significativos trabalhos dentro do Horror como os violentos “Os Vivos Serão Devorados” (80) e “Canibal Ferox” (81), sobre canibais, e “Nightmare City” (80), sobre zumbis.
Na história, Martha Caldwell (Carroll Baker) é uma mulher que perdeu a capacidade de falar após um evento traumático ocorrido quando era adolescente, através de um acidente ferroviário que matou seus pais num incêndio. Ela mora com seu tio inglês Ralph (George Rigaud) numa casa ao lado de um cemitério, localizada numa pequena cidade espanhola próxima de Barcelona. Ela recebe a visita de sua prima Jenny Ascot (Ida Galli, atuando sob o pseudônimo de Evelyn Stuart), uma cantora bem sucedida. Porém, mortes misteriosas começam a ocorrer na casa e proximidades, colocando pessoas do círculo de amigos e empregados da família numa lista de suspeitos, como o sinistro motorista Marcos (Eduardo Fajardo) e o médico Dr. Laurent (Alan Scott), além do próprio proprietário da casa, o idoso Ralph, um estudioso de ocultismo. Outro suspeito dos crimes é um jovem hippie viciado em morfina e simpatizante de cultos satânicos. Entre as candidatas a tornarem-se vítimas do misterioso assassino, temos a governanta Sra. Annie Britton (Silvia Monelli) e a adolescente Christina (Rosa-Maria Rodrigues), filha adotiva de um padre local, Martin (José Marco). E para tentar desvendar a autoria dos crimes e impedir mais mortes, o Inspetor Duran (Franco Fantasia) está na liderança das investigações.
O filme é um “Giallo” com as tradicionais características desse sub-gênero, tentando manipular o espectador no mistério que envolve os assassinatos, com pistas falsas, elementos de satanismo e investigação policial. Não é muito empolgante e as cenas com as poucas mortes são filmadas “off screen”, reduzindo a intensidade de violência. Mas, ainda assim, a história até desperta algum interesse, principalmente pela surpresa no final, com a esperada revelação da identidade e motivações do assassino.
Entre as curiosidades, podemos citar que o diretor Umberto Lenzi procurou mostrar muitas cenas evidenciando os olhos dos personagens, uma característica que ficou mais conhecida e associada com outro diretor italiano de filmes de horror, o cultuado Lucio Fulci. E, em determinado momento, a jovem Jenny recém chegada de viagem, presenteia seu tio Ralph, apreciador de ciências ocultas, com livros sobre feitiçaria, zumbis e demônios, e informa que são materiais raros comprados no Brasil. O cineasta Lenzi, que também participa do roteiro, talvez quisesse apenas citar nosso país como uma breve homenagem, mas com um resultado estranho, uma vez que não somos conhecidos por esses tipos de livros com temáticas não convencionais, principalmente sendo raros.          
(Juvenatrix - 03/04/15)

Sideral no buraco sem fundo de Parnarama, Ataíde Tartari

Sideral no buraco sem fundo de Parnarama, Ataíde Tartari. 56 páginas. Ilustrações de Rodrigo Alves. Capa de Alexandre Romão. Editora Nova Espiral, selo Embarque Nessa, São Paulo, 2012.

Paulinho Sideral é um jovem cosmopolita dos nossos dias, que ama a ciência. Por isso, ele gosta de discutir com seu tio Roque, major da Aeronáutica cujo trabalho é investigar todo tipo de ocorrências estranhas. Desde muito criança, Paulinho se acostumou a escutar as histórias malucas do tio, sobre objetos voadores não identificados e outras coisas misteriosas, e, ao mesmo tempo que se encantava, questionava a autenticidade dos relatos, pois Paulinho é, acima de tudo, um cético. E é por causa de seu ceticismo somado ao conhecimento científico – que adquiriu lendo vorazmente todo tipo de livros – que, certo dia, seu tio o convidou para ajudá-lo numa investigação, coisa que o jovem logo se interessou. Resolvidos os problemas com a família, Paulinho e o tio embarcam num avião que os leva diretamente a uma região entre o Maranhão e Piauí, onde se localiza o município de Parnarama, área de muitas ocorrências fenomenológicas desconhecidas. Depois de uma viagem cansativa e tribulada, na companhia de uma equipe de técnicos da Aeronáutica, Paulinho se vê diante de um caso realmente bizarro. No meio de um matagal, onde há alguns dias foi avistada uma grande luz, está um buraco aparentemente sem fundo. O que é esse buraco e para onde ele leva é o que o tio quer saber, e Paulinho vai ter que usar todo o seu conhecimento para desbravar as profundezas desse abismo e enfrentar os eventos estranhos que ainda estão em curso naquele lugar.
Esta noveleta, que se lê com agilidade e prazer, está entre uma das mais interessantes ficções ufológicas publicadas no período da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira. Apareceu primeiro na edição número 69 no fanzine de ficção científica Megalon, em junho de 2003, quando teve boa acolhida entre os leitores e, desde então, mantinha-se inacreditavelmente inédita em edição comercial. O que mais surpreende no texto de Tartari, autor de amplos recursos técnicos, é o discurso em primeira pessoa emulando um “causo” narrado pelo próprio protagonista, usando a linguagem dos jovens com muitas expressões pitorescas próprias de um adolescente. O personagem é consistente e o relato soa deliciosamente natural.
Tartari confidenciou-me que, quando escreveu essa história, tinha a real intensão de fazer um texto juvenil e a adoção da linguagem foi um recurso que então julgou apropriado:
“Eu tinha recentemente desenvolvido esse estilo de prosa – que chamei de 'voz do garoto' – para a antologia Estranhos contatos, organizada por Roberto de Sousa Causo (editora Caioa, 1998). A partir daí, escrevi Sideral justamente com a intenção de entrar no mercado juvenil. Ingenuamente, eu não sabia que a voz de um garoto era imprópria para garotos”. Explico: para ser publicado, a editora Nova Espiral fez uma série de intervenções no texto, de modo a suavizar as opiniões e o linguajar do narrador, talvez não muito adequadas às exigências do mercado.
Tartari continua: “A ideia era escrever uma série com o mesmo personagem e com o mesmo material de pesquisa, o livro Mistérios do Brasil de Pablo Villarrubia Mauso.” Então, se o título for bem nas livrarias, é provável que, em breve, tenhamos mais histórias de Paulinho Sideral e seu tio. Também não há nenhum segredo sobre o livro inspirador do trabalho. Já em sua publicação original, em 2003, o autor fez constar uma referência ao livro de Villarrubia, publicado em 1997 pela Editora Mercuryo.
Ataide Tartari tem uma larga experiência na literatura. Seu romance de estreia foi EEUU 2076 D.C., publicado pela Edicon em 1987, assinado com o pseudônimo A. A. Smith. Participou de diversas antologias e foi cronista do Jornal da Tarde, de São Paulo. Também publicou dois romances para o mercado estrangeiro, Amazon (iUniverse, 2001) e Tropical shade (iUniverse, 2003), ambos sem tradução no Brasil.
Além de Sideral no buraco sem fundo de Parnarama, a editora Nova Espiral publicou simultaneamente a coletânea O triângulo de Einstein, reunindo alguns dos contos de Tartari vistos em antologias, um volume que, sem dúvida, também merece toda a recomendação.
Cesar Silva

Protetores, Duda Falcão

Protetores, Duda Falcão. 176 páginas. Capa de Ronaldo Alves. Editora Underworld, Baependi, 2012.

Um grupo de pessoas problemáticas reúnem-se numa mansão gótica em Porto Alegre. Seu anfitrião se apresenta como Antônio Vilemun e informa ao grupo cada um deles foi escolhido para fazer parte do grupo Protetores, uma antiga sociedade secreta de caçadores monstros sobrenaturais.
Cada um dos presentes guarda algum tipo de experiência paranormal e por elas estão indelevelmente marcados: um caçador de vampiros, uma sensitiva, uma pesquisadora do oculto, uma mulher a procura do marido vampirizado, uma lutadora marcial que detém duas espadas mágicas e um enorme índio amazônico com um demônio de estimação.
Vilemun ainda esclarece que, caso aceitem o trabalho, serão muito bem remunerados, mas que o trabalho é duro e o perigo de morte não está descartado. Todos aceitam a oferta porque, mais que o dinheiro, estão interessados em desvendar seus próprios mistérios pessoais.
O grupo é imediatamente enviado a sua primeira missão numa casa nos subúrbios da cidade de onde chegou, por telefone, um pedido de socorro. Lá eles irão encontrar um quebra-cabeças macabro, que vai exigir o melhor de cada um para a sobrevivência do grupo.
Assim inicia Protetores, romance de horror que marca a estreia de Duda Falcão em livro solo, autor gaúcho mais conhecido pelos contos publicados em diversas antologias desde 2005. Falcão é professor, graduado em História e mestre em Estudos Culturais, sendo ainda um dos editores do periódico Sagas, da editora Argonautas.
Protetores não esconde sua origem inspirada nos jogos de representação, os conhecidos rpgs (Roling Playing Games). O início aqui narrado demonstra todas as características desse tipo de dinâmica, no qual um grupo de jogadores dotados de habilidades especiais é reunido por um mestre de jogo e lançado numa missão de alto risco sem nenhuma informação prévia, sendo o sucesso ou o fracasso das ações de cada jogador decididos por lances de dados. Pode ser que o autor tenha realmente usado esse recurso para definir a narrativa de forma geral, mas isso não chega a incomodar porque Falcão tem habilidade na descrição dos cenários e no desenvolvimento dos personagens. O romance é movimentado, com boa fluência narrativa e um clima geral de horror juvenil, sem aprofundamentos filosóficos complexos.
O livro é formado por uma série de aventuras mais ou menos independentes, cada uma delas com um conjunto diferente de personagens, que se revezam com outros agentes que já faziam parte da milícia paranormal de Vilemun.
Temos de tudo um pouco em Protetores: fantasmas, psicopatas, demônios, vampiros, lobisomens, mortos-vivos, possessões, cemitérios, casarões, esgotos, cavernas... Falcão não deixa nada de fora. As aventuras são intercalas por rápidos interlúdios nos quais o autor desenvolve algumas relações entre os personagens, e apresenta o novo “cenário de jogo”. Dessa forma, acompanhamos como cada um dos protagonistas apresentados no início do livro, encontra as respostas que procura, nem sempre de forma totalmente satisfatória ou preservando sua integridade física e moral.
Apesar de ser um livro de horror, a leitura é leve e divertida, deixando a sensação de que a história não acaba na última página deste volume. Os Protetores de Vilemun provavelmente ainda terão muito trabalho pela frente.
Cesar Silva

Os deuses do mar, Simone O. Marques

Marina e os tesouros da tribo de Dana: Os deuses do mar, Simone O. Marques. 244 páginas. Capa de Marina Avila. Ilustrações de Patrícia Kovacs. Modo Editora. Rua Guatemala, Campo Grande, MS, 2012.

A estreante Modo Editora, empresa baseada na cidade de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, inaugurou seu catálogo privilegiando a literatura fantástica, com um toque romântico e feminino. Entre os autores da casa, quem mais recebeu atenção foi a paulistana Simone O. Marques, escritora de sólida formação acadêmica, com gradução em psicologia e mestrado em educação, que já havia publicado diversos romances em edição própria. Em 2012, a Modo relançou dois de seus títulos principais, Paganus e Agridoce, e o inédito Marina e os tesouros da Tribo de Dana: Os deuses do mar. Trata-se de um episódio de uma longa saga iniciada com o já citado Paganus – primeiro publicado como Gênese pagã (2008) – seguido dos romances Triskle (2009), Tribo de Dana (2009) e Era de aquário (2010), este publicado em dois volumes. A série acompanha a história de uma dinastia de sacerdotisas celtas e suas dificuldades em praticar sua fé num mundo cristão.
Pelas resenhas disponíveis na internet, trata-se de um trabalho para leitoras adultas, mas esse não parece ter sido o público-alvo do episódio aqui resenhado. Os deuses do mar é claramente um texto para leitoras adolescentes: a linguagem é simples e de características juvenis, com muita ação e romance.
Marina é uma jovenzinha de dezesseis anos, encarnação de uma trindade de antigas deusas celtas. Devido a sua natureza divina, é diligentemente protegida pela Tribo de Dana, comunidade isolada na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. Ela é ali conhecida como a Pequena Dana, vigiada dia e noite por guardas-costas exclusivos, que ela chama de Sombras.
Ressentida com a falta de liberdade, Marina está sempre se metendo em enrascadas nas mais diversas armadilhas que a floresta esconde. E é justamente numa dessas oportunidades que ela e dois jovens Sombras, Brian e Arthur, vão parar numa terra estranha depois de cair num buraco dentro de uma espécie de túmulo ancestral. Nesse País das Maravilhas celta, localizado nos subterrâneos no planalto central do País, há duendes e harpias, frutas e animais encantados, deuses e deusas de intenções ambíguas. Para voltar a salvo para a tribo, o trio terá de reunir um determinado conjunto de objetos mágicos cuja função não é explicada. Enquanto correm daqui para lá tentando escapar dos perigos dessa terra desconhecida, Marina rende-se aos encantos de Brian, que corresponde o interesse. As cenas de romance são recatadas mas verdadeiramente emocionantes, com Arthur, o segundo guarda-costas, funcionando como o elemento que impede desdobramentos mais picantes na relação. A história, contudo, não é conclusiva e encerra sem que os jovens consigam reunir todos os objetos e voltar ao seu mundo, o que talvez só aconteça na sequência Fadas e druidas, anunciada na última página do livro.
A produção gráfica do volume é elegante, sendo a capa assinada por Marina Avila, que também organizou a apresentação visual interna, com entrelinhamento largo e muitas vinhetas retiradas de detalhes da imagem vista na capa. Quatro ilustrações de Patrícia Kovacs espalham-se pelo livro: realizadas na estética dos quadrinhos japoneses, dialogam bem com o leitor jovem, mas não se integram adequadamente à proposta gráfica da edição, que sugere algo mais místico.
Excetuando-se as licenças próprias às histórias de fantasia, como fato de existir uma tribo celta vivendo incógnita em meio ao cerrado de um parque nacional, tudo estaria muito bem, mas há um insistente subtexto proselitista que não é possível ignorar. Ele fica claro na leitura do prólogo, que faz um resumo dos episódios anteriores da série, e mantém-se ao longo da narrativa em insistentes citações da autora.
O prólogo informa que, alguns anos antes e com um simples desejo, Marina eliminou todas as armas de fogo e bombas nucleares do mundo, assim como os recursos para recriá-las. Por isso, tornou-se alvo do ódio, não das agências de segurança internacionais como seria de se supor, mas da igreja cristã, que montou um exército para caçá-la. No confronto final, às portas da aldeia, a Tribo de Dana foi socorrida pelas divindades celtas e derrotou não apenas o exército cristão, mas também o próprio Deus, dando início a uma nova ordem mundial em resgate à vida simples e à preservação da natureza. Há alguma ingenuidade aqui, pois não se sabe o que foi feito de todas as demais religiões que existem no mundo. E todas essas boas intenções não aplacaram a paranoia da Tribo de Dana que, como se percebe na leitura do romance, segue armando e treinando exaustivamente seus guerreiros.
Dependendo da forma com que o leitor receber esse subtexto, podem ser anulados todos os méritos da obra como literatura fantástica. Mesmo assim, Os deuses do mar pode ainda ser uma experiência divertida.
Cesar Silva

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Legend of Dinosaurs and Monster Birds (Japão, 1977)


Filme japonês de monstros gigantes com um título sonoro, dirigido por Junji Kurata e produzido pela “Toei”. Com o nome original “Kyoryu Kaicho no Densetsu”, podemos traduzir o título em inglês para algo como “A Lenda dos Dinossauros e Pássaros Monstruosos”.
Na história, acompanhamos os esforços de um geólogo, Ashizawa (Tsunehiko Watase), acompanhado de sua namorada, a fotógrafa submarina Akiko (Nobiko Sawa), na tentativa de desvendar para o mundo a existência de um gigantesco réptil marinho. O plesiossauro estaria vivendo nos lagos do Monte Fuji (algo como “O Monstro do Lago Ness” japonês), e deveria ser o responsável pela ocorrência de mortes misteriosas e violentas na região. Em paralelo, uma caverna de gelo é descoberta em local próximo e em seu interior um ovo pré-histórico traz à vida um enorme pássaro monstruoso. As criaturas esquecidas pelo tempo inevitavelmente se encontram numa floresta e travam um confronto mortal no meio de um terremoto com a erupção de um vulcão.
Os monstros desses filmes bagaceiros são sempre uma atração, independente da qualidade da história, justamente por sua concepção tosca ao extremo, numa época sem computação gráfica, e onde os esforços da equipe de produção devem ser valorizados pela intenção séria de apresentar monstros gigantescos atacando os humanos ou em combate entre si. Mesmo fazendo parte de histórias repletas de situações absurdas com elementos fantásticos.
Porém, no caso específico de “Legend of Dinosaurs and Monster Birds”, pouca coisa se salva, principalmente por causa da péssima trilha sonora, irritante e totalmente deslocada, convidando o espectador a desistir de acompanhar o roteiro ruim com atores medíocres. A duração de pouco mais de uma hora e meia de projeção poderia ser reduzida para minimizar o tédio, pois as únicas exceções ficam por conta de alguns poucos momentos sangrentos com vítimas desmembradas, e pelas cenas com os monstros. Aliás, eles aparecem pouco na maior parte do filme e se enfrentam no desfecho numa sequência mais longa que acaba tornando-se a mais interessante.      
(Juvenatrix - 31/03/15)

A Estrada, Cormac McCarthy

A Estrada (The Road), Cormac McCarthy. 234 páginas. Tradução de Adriana Lisboa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva – selo “Alfaguara”, 2007.

Apesar de não ser um autor ligado à ficção científica, este romance de Cormac McCarthy era um dos mais aguardados lançamentos para o mercado brasileiro, desde que foi lançado nos Estados Unidos em 2006.
De muito prestígio nas letras americanas, McCarthy venceu o mais importante prêmio literário de seu país, o Pulitzer de 2007, com A Estrada. Já entre os prêmios mais importantes da ficção científica do mesmo país, o livro não alcançou o mesmo impacto. Talvez porque o tema não seja novidade para os iniciados no gênero, pois ‘fim do mundo’, ‘terra devastada’ ou ‘pós-holocausto nuclear’ estão entre os mais explorados pelos especialistas no gênero, com clássicos indiscutíveis como, por exemplo, Só a Terra Permanece (1949), de George R. Stewart e Um Cântico para Leibowitz (1959), de Walter M. Miller Jr.
Mesmo assim, entre os sub-gêneros da ficção científica mais abordados pelos autores mainstream está o tema do fim dos tempos. E não é para menos, especialmente entre as décadas de 50 e 80 do século passado quando sob a vigência da Guerra Fria, o mundo esteve por mais de uma vez às portas de uma guerra final. Exemplos são romances como A Hora Final (1957), de Nevil Shute e Após o Fim (1960), de Alfred Coppel.
Não sei as razões que levaram McCarthy a escrever um livro com este tema neste início de século XXI, mas apesar do apocalipse nuclear não estar mais nas manchetes diárias dos jornais, o mundo pode sim vir a viver uma catástrofe de dimensões próximas ou semelhantes, por outras razões. Seja por um novo supervírus com contínuas mutações, um sério desequilíbrio ecológico ou mesmo o impacto de um corpo celeste no planeta em que vivemos.
Curioso também é que A Estrada trata do tema do fim da civilização e do mundo natural como o conhecemos sem nos dizer claramente o que afinal aconteceu. É verdade que lá pela página 47 o homem que segue peregrinação com seu filho relembra o que teria acontecido, ao ouvir o som de uma grande explosão, seguida de outros menores e terremotos. Ele não volta a especular sobre o que ocorreu, mas pela descrição do estado do que sobrou intui-se que tenha sido o resultado de um conflito nuclear. Afinal o planeta foi devastado, as cidades em ruínas, as florestas queimadas ao ponto de se transformarem em cinzas, uma grande quantidade de fuligem pelo ar, o que impede uma maior incidência da luz do Sol e, por consequência, do calor. Os mares mortos, escuros e estéreis.
O cenário é aterrador, mas o verdadeiro enredo e drama estão centrados na história de um homem e seu filho que percorrem uma longa, triste e perigosa jornada em direção ao Sul, em busca de um pouco menos de frio e, quem sabe, alguma coisa melhor do que a destruição com que passaram a conviver. Munido de um mapa velho e tendo como referência uma estrada principal e algumas secundárias eles seguem seu caminho sob neve intensa, frio e chuva, juntando em um carrinho de supermercado o pouco que aparece pelo caminho para comer e se proteger – produtos enlatados, roupas e um revólver – e deparando-se, vez por outra, com outros sobreviventes. E o encontro com estes revela-se sempre o mais potencialmente perigoso.
Além do aspecto prático há também um forte simbolismo na escolha da estrada como condutora da jornada. Pois ela representa ao mesmo tempo liberdade e busca pela fronteira do desconhecido. O sentido de desbravamento e conquista é muito caro ao imaginário ocidental – e norte-americano em particular. Mas em um mundo como esse o único sentido que resta à estrada é o da busca de salvação à queda. Pois a civilização caiu, não existe mais Estado, nem leis e ordem, e a moral é a individual de cada um, baseada, no fim, numa luta dramática em permanecer vivo. E mais por instinto do que por razão. Pois o ser humano está reduzido à sua crua condição de animal num verdadeiro estado de natureza à lá Hobbes, para quem ‘o homem é o lobo do homem’. Pelo caminho, pai e filho são “os caras do bem” – na tocante definição do menino – à procura de outros “caras do bem” que, em princípio, só pode caber na fantasia do menino.
A prosa é fluente, direta e ao mesmo tempo intimista, contada por um narrador onisciente, num tom marcado pela desesperança ante o caos estabelecido. É, nesse sentido, uma história muito triste e fatalista, mas não necessariamente depressiva. Vale a pena acompanhar a viagem rumo a não se sabe o quê de um pai e seu filho, aí a verdadeira força da história, na luta desesperada pela sobrevivência, mesmo que objetivamente falando, não haja futuro nenhum para os dois, especialmente para uma criança. Pois em um mundo como este é como se não houvesse sentido para a juventude, já que o mundo não tem mais nada a oferecer.
Talentoso como é, McCarthy tira muita emoção da história também pela maneira como a conta. Não há capítulos, apenas pequenas pausas de páginas em páginas, acentuando um caráter de continuidade e fruição que reforça o sentido da busca angustiosa e sem pausa pelos dois personagens. Também os diálogos estão entremeados ao texto, sem nenhum tipo de indicação, dando a impressão de que tanto a narrativa, quanto as falas misturam-se mutuamente, o que ilustra o caráter psicológico e de proximidade do drama dos personagens junto ao leitor.
Pai e filho só tem um ao outro. Sabe-se que a mãe não aguentou o horror. Se o homem mantém sua integridade moral ela deve-se, em boa parte, ao menino. É bonito ver como ele é cuidadoso e amoroso, não só em cuidar da saúde do filho, como também em incutir nele valores nobres em um mundo que perdeu o rumo. E, claro, há passagens marcantes, como quando o menino vê outro menino e pede ao pai para adotá-lo, mas este nega; ou ao encontrarem um velho maltrapilho e o alimentarem. E em momentos especialmente perigosos ou horríveis, como quando encontram saqueadores, num depósito subterrâneo com prisioneiros a serem abatidos para alimento. Sim, o canibalismo viceja neste mundo degradado, como em mais de uma oportunidade eles têm a oportunidade de se deparar.
Impressiona na narrativa a sensação de morte iminente do pai e seu filho. O leitor é conduzido a cada página e parágrafo – ainda mais porque não há capítulos, como disse –, ao suspense de que algo novo e horrível pode acontecer. Ainda mais porque tanto o pai como o filho nos transmitem de maneira vívida este medo e angústia, tornando o leitor uma espécie de testemunha participante do drama.
Em termos de ficção científica strictu sensu esta história não inova em termos temáticos. A sensação macro de transformação dramática, apocalíptica que o mundo pode passar, no caso de vivenciar um armageddon, comum nos clássicos, está presente, mas não de forma prioritária no plano narrativo. Talvez porque o próprio autor tivesse isso em mente, de que seria bobagem querer acrescentar algo deste tipo a esta altura de desenvolvimento do gênero. Assim, partiu para uma abordagem mais íntima e individualizada, centrada no relacionamento de duas pessoas em um mundo destituído de sentido. Por esse aspecto o romance é mais efetivo, pois ao situar o drama deste ponto de vista, o torna mais próximo da situação que cada um de nós poderia, eventualmente, passar numa situação limite e trágica como esta.
Com isso, A Estrada faz a diferença e encontramos a sua grandeza humana e artística, ao iluminar a especificidade do relacionamento muito próximo e especial que existe – ou pode existir – entre um pai e seu filho. Pois mesmo neste cenário terrível, ainda prevalece o amor como um valor importante entre duas pessoas. Neste sentido o livro emociona – e para além do período de sua leitura – tanto em seu desenvolvimento como, principalmente, pelo desfecho brilhante e inesquecível que está reservado para o destino da jornada de um homem e seu menino num mundo moribundo.
Marcello Simão Branco