domingo, 8 de março de 2015

O pagamento, Philip K. Dick

O pagamento (Paycheck: Classics stories by Philip K. Dick), Philip K. Dick. 384 páginas. Tradução de Alexandre Raposo, Sylvio Gonçalves, Jorge Luiz Calife & E. Barreiros. Editora Record, Rio de Janeiro, 2004.

Desde que o cineasta Ridley Scott dirigiu Blade Runner: O caçador de andróides, baseado em um romance de Philip K. Dick, o autor tornou-se uma espécie de referência de fc no cinema, com diversas de suas histórias transpostas para as telonas. O próprio romance O caçador de andróides (Do androids dream of eletric sheep?) só chegou ao Brasil em 1983, pela Francisco Alves, após o lançamento do filme nas salas exibidoras. E não foi por outro motivo que a editora Record tomou a iniciativa de publicar o volume que é tema desta resenha: o lançamento do longa-metragem O pagamento, dirigido por John Woo.
Talvez seja por isso que a referida editora não demonstrou capricho na realização do volume, que teve produção gráfica digna de uma edição popular das mais simplórias, com a tradução – assinada por Alexandre Raposo, Sylvio Gonçalves, Jorge Luiz Calife e E. Barreiros – comprometida por uma revisão trágica; não se preocupou em inserir um desejável texto de apresentação para situar os contos da coletânea na obra do autor e nem mesmo fez constar seus títulos originais. Somado ao altíssimo preço de capa, só mesmo sendo fã de PKD para aguentar tanto descaso. Foi tanta a falta de confiança da Record nos atrativos da ficção de Dick que a editora fez questão de citar destacadamente na capa do volume não apenas o nome do diretor da versão cinematográfica do conto que batiza a coletânea, mas três dos seus atores também, como se isso fizesse alguma diferença num texto que PKD escreveu em 1953. E não só: citou, também na capa, a coletânea anterior, Minority report: A nova lei, cuja publicação, à sua época, também foi uma jogada de oportunismo da editora.
Apesar da forma claramente depreciativa com que a editora tratou o livro, a coletânea tem méritos. O primeiro deles é que onze dos doze contos de O pagamento estavam ainda inéditos em português, exceto por um deles, "O pai-coisa" que, de acordo com o Acervo bibliográfico em língua portuguesa de fc, de Ruby F. Medeiros, foi anteriormente visto somente na edição número 49 da obscura revista Suspense.
O segundo mérito é que, dentre os contos desta coletânea, há vários que podem ter perfeitamente sido os ensaios para os romances mais destacados de PKD. Pelos comentários a seguir, o leitor perspicaz certamente vai identificá-los. Entre os parêntesis está grafado o ano em que o conto foi publicado pela primeira vez.
"O pagamento" (1953)
Num futuro próximo, a sociedade civil mundial tornou-se um estado policial e apenas as corporações particulares ainda detêm uma certa independência. A Empreiteira Rethrick contrata, por tempo determinado, profissionais especializados para seus projetos internos e, completado o contrato, os trabalhadores são bem recompensados em dinheiro, mas suas memórias são apagadas para preservar o que eles viram e fizeram dentro da empresa do assédio da Polícia Secreta do governo. Jennings é um especialista em eletromecânica que acabou de cumprir seu contrato e ter a memória apagada mas, como pagamento recebe, ao invés da boa grana que esperava, apenas sete objetos ordinários e sem nenhum sentido, juntamente com uma carta de próprio punho em que ele mesmo pediu que esses objetos substituíssem o seu gordo cachê. Confuso e acreditando ter sido passado para trás pela empresa, Jennings mal tem tempo de se indignar porque, ao sair do escritório da empresa, é imediatamente detido pela PS para interrogatório e levado para a delegacia — e todos sabem que ninguém que uma vez entra na delegacia da PS é visto novamente. Poucos minutos depois, Jennings se vê usando cada um daqueles objetos para preservar sua integridade física. Sorte? Coincidência? O que haveria por trás dos dois anos em que Jennings passou na Rethrick?
"Babá" (1955)
A família Fields tem uma babá para cuidar de seus dois filhos pequenos. Ela é uma das maravilhas da tecnologia moderna, um robô compacto similar a um besouro, absolutamente confiável e eficiente, sempre pronto a atender qualquer necessidade das crianças. A babá dos Fields é um modelo discreto e depois de três anos de uso está no limite da obsolescência, mas é mantida no posto porque as crianças a adoram. Porém, as babás dedicam-se também a uma atividade obscura que vai levar a família Fields a entrar numa escalada consumista que, em tese, ela nunca desejou.
"O mundo de Jon" (1954)
A Terra está devastada pela guerra, uma guerra total que deixou o mundo em cinzas. Os sobreviventes, que se refugiaram na Lua, voltam as poucos e tentam reconstruir o planeta, mas o trabalho é difícil e progride lentamente. Por isso, os cientistas desenvolveram uma máquina do tempo, que irá ao passado resgatar os estudos do maior cientista da história humana e permitirá recuperar a perdida tecnologia dos robôs com cérebros artificiais que foram, a princípio, a ruína da Terra, mas que podem ser agora a sua redenção. O encarregado da missão é Caleb Ryan e ele tem um filho, Jon, um garoto que está enfrentando um momento difícil. Visões de um mundo pastoral o arrebatam cada vez com mais intensidade. Seu pai acredita que ele está tendo crises psicóticas e decide lobotomizá-lo antes de embarcar em sua viagem cronal. Caleb consegue resgatar os documentos que queria mas, no processo, altera dramaticamente o passado, colocando em risco a viagem de volta ao mundo em que o lobotomizado Jon o espera.
"Café da manhã no crepúsculo" (1954)
A família MacLean, pai, mãe e três filhos, desperta para mais um dia comum. Do lado de fora uma neblina muito forte impede a visão. Quando um dos filhos tenta sair para ir à escola, é impedido por um comando militar que invade a casa e subjuga toda a família. Os soldados estão atônitos e desconfiados: diante deles está uma família americana típica tomando prosaicamente o café da manhã numa residência igualmente típica que foi a única coisa a resistir ao bombardeio de saturação da noite anterior, numa guerra que já dura oito anos da qual a família MacLean nunca tinha ouvido falar.
"A cidadezinha" (1954)
Verne Haskel é um homem de meia idade que tem uma vida infeliz. Casado com uma esposa que não o ama, com um emprego do qual não gosta e um chefe que odeia, o único prazer de sua vida é um trenzinho elétrico que ele mantém montado no porão de sua casa, para o qual, ao longo dos anos, Verne construiu uma reprodução em escala da sua própria cidade, com todos os detalhes. Num acesso de frustração, ele arranca a miniatura do prédio da firma em que trabalha e a destrói, substituindo por outra miniatura sem correspondente real, e então percebe que poderia refazer toda a cidade de acordo com sua própria definição. Demite-se do emprego no dia seguinte e surpreende a esposa em adultério, mas não se abala: tranca-se no porão e dedica-se tão somente à reconstrução de sua cidadezinha, o que pode ter desdobramentos inesperados.
"O pai-coisa" (1954)
Charles Walton tem oito anos e está apavorado. Viu seu pai na garagem conversando com alguma coisa que parecia igualzinha a ele mesmo e agora sabe que o que está diante dele, na mesa do jantar, embora pareça seu pai, não é. Ele sai da mesa sem jantar e sem pedir licença, e seu pai-coisa promete-lhe castigo pela falta de modos. Charles foge pela janela do quarto e vai à garagem procurar pelo seu verdadeiro pai. O que ele encontra é apenas o início do terror.
"A Cerca de Cromo" (1954)
Don Walsh está com problemas. A sociedade em que vive está em conflito aberto por conta da pressão de um projeto de lei que pretende exigir compulsoriamente que todos os cidadãos não tenham mais odor corporal, mau-hálito e cabelos feios. E isso está causando conflitos sérios em varias partes do país, no qual Puristas (defensores da tal lei) e Naturalistas (defensores da natureza como ela é) lutam até à morte. Walsh tenta "ficar em cima do muro" o máximo de tempo possível, de forma a se afastar da violência, mas ela já se manifesta entre os membros de sua própria família. Mais cedo ou mais tarde ele terá de tomar uma atitude.
"Autofab" (1955)
Um grupo de humanos sobreviventes de uma guerra nuclear total quer paralisar a rede de fábricas automáticas de bens de consumo e suprimentos que a humanidade instalou durante a guerra para suprir os abrigos. Isso porque as fábricas estão esgotando os recursos do planeta e impedindo que os humanos voltem a cuidar de si próprios. Como não há argumentos que convençam as fábricas que, além de inexpugnáveis, são administradas e operadas por robôs auto-replicastes, eles elaboram um plano ousado para fazer com que as fábricas entrem em conflito umas com as outras.
"Os dias de Pat Prafrente" (1963)
Depois da guerra que destruiu o planeta, a humanidade sobrevivente reúne-se em pequenas comunidades isoladas, com pouco contato entre si. Sem contato físico, alienígenas marcianos arremessam ao solo, a partir de máquinas voadoras, os mantimentos que sustentam os últimos humanos sobre a Terra. Os suprimentos são fornecidos em quantidade além da necessária e a maioria é simplesmente abandonada onde caiu, servindo de alimento apenas aos estranhos animais mutantes que habitam as ruínas da civilização.
Os homens aproveitam uma ou outra coisa, sempre tendo em vista sua aplicação no tabuleiro de um jogo de representação que todos os adultos praticam, no qual Pat Prafrente, uma boneca no estilo Barbie, é a personagem principal. Todas as relações da comunidade giram em torno desse jogo e as coisas ficam confusas quando chegam notícias de um novo jogo que é praticado em uma comunidade mais distante, algo similar a Pat Prafrente, mas com outra boneca. Um casal aceita apostar seu bem mais valioso — a sua própria boneca Pat Preferente — para jogar contra os campeões desse novo jogo.
"Plantão" (1963)
A presidência dos Estados Unidos está ocupada, há uns bons anos, por um supercomputador infalível que detém o controle absoluto de todos os mecanismos sociais, econômicos, políticos e militares do país. Só por garantia, um cidadão indicado por um sindicato de classe ocupa o lugar de plantonista da presidência, para assumir o cargo no remotíssimo caso do computador falhar, o que nunca aconteceu. Para amenizar o impacto da perturbadora notícia de que uma frota de espaçonaves alienígenas foi identificada nas proximidades do Sistema Solar, o mais popular âncora jornalístico da televisão ("palhaço", de acordo com a tradução) decide pautar uma entrevista cômica com o novo indicado para essa desnecessária função burocrática. E é exatamente no momento em que a entrevista se inicia que, devido a intervenção dos alienígenas, o supercomputador presidencial falha. É hora do mais inútil dos americanos assumir o poder.
"Uma coisinha para nós, temponautas" (1974)
Os russos saíram novamente na frente dos americanos, enviando dois temponautas ao futuro e trazendo-os de volta. Para não ficar em desvantagem, o programa temporal americano envia três temponautas duas vezes mais longe, mas algo não sai bem e ocorre um acidente fatal na viagem de volta. Um dispositivo especial, chamado Atividade de Tempo de Emergência (cuja sigla o tradutor não se decidiu entre ATE ou ETA), permitiu que os temponautas voltassem ao continuum por tempo limitado, num momento posterior ao evento fatal, de forma a participarem de seus próprios féretros e contribuírem para uma propaganda mais favorável ao programa americano. Addison Doug, um dos temponautas, sofre de insistente sensação de déjà vu, como se estivessem todos presos num loop, repetindo indefinidamente os mesmos fatos. Ele acredita que a morte no acidente é única forma de interrompê-lo. Entretanto, um dos cientistas do programa sugere que é justamente o acidente fatal que está gerando o loop. Mas Addison decide garantir, talvez mais uma vez em seu loop eterno, que o acidente aconteça.
"As pré-pessoas" (1974)
Em algum momento num futuro próximo, as leis americanas pró-aborto extrapolaram: o aborto pode ser feito enquanto a alma não entrar no corpo da criança, e os burocratas decidiram que isso só acontece quando se domina álgebra, matéria que é ensinada quando as crianças têm aproximadamente dez anos de idade. Basta que os pais façam uma solicitação e uma viatura oficial — o caminhão do aborto — retira a criança indesejada de sua casa e a leva para um campo de concentração. Caso ninguém se interesse em adotá-la, será sacrificada (ou “abortada“). O oficial do caminhão de abortos detém, na estrada, um jovem que não tem os documentos obrigatórios que provariam que não é uma criança indesejada. Nesse momento, surge o pai do garoto, um homem de 35 anos que insiste que, por também não dominar a álgebra, não tem alma e deve ser igualmente abortado. Confuso, o oficial resolve levar ambos para a instalação municipal, e não imagina o problema que isso vai causar.
A coletânea é equilibrada e isso acontece não só porque PKD é um escritor acima da média, mas principalmente porque o organizador da antologia — que pode ter sido o próprio Dick, uma vez que não há nenhuma informação a respeito no livro — optou por apresentar os contos em ordem cronológica. Isso permite que o leitor acompanhe a evolução do estado da arte do autor, atingindo o clímax no conto final, de longe o melhor do conjunto. Também oferece trabalhos de vários matizes, tanto para agradar o leitor que prefere o modelo pulpish de fc — que lida com temas recorrentes que eram encomendados pelos editores das revistas que os publicavam — como aquele que aprecia obras autorais sofisticadas.
Uma das leituras que se pode fazer desta coletânea é que PKD teria um interesse especial nas viagens no tempo, com o que construiu uma espécie de história do futuro, porém isso não ocorre na mesma proporção no total da obra do autor. Nos romances, PKD investiu no tema apenas em Now wait for last year e de modo um tanto oblíquo em Counter clockworld (Regresso ao passado, Editorial Panorama). É possível que tal acúmulo de narrativas sobre viagens no tempo neste coletânea tenha sido proposital, talvez para reunir todas elas.
Mas há mais uma interpretação importante que se pode ter da leitura deste conjunto de contos e, desta vez, o restante da obra de PKD não a desmente. Ainda que a ideia de futuro de PKD seja pessimista em relação à humanidade como um todo, o autor demonstra insistência especial em desvalorizar a figura feminina, numa misoginia mal disfarçada. Em algumas histórias, as personagens femininas simplesmente inexistem, e na maioria assumem papel apenas coadjuvante ou de pouco significado. Mas o autor as trata de maneira declaradamente animosa em "A cidadezinha" e "As pré-pessoas". Nesta, em especial, há um discurso mais de uma página acusando as mulheres de "fêmeas castradoras" e de serem as principais interessadas na legalização do aborto. Dick casou-se nada menos que cinco vezes ao longo de sua vida e isso deve ter algo a ver com esse pensamento que é recorrente em sua obra.
Apesar de tudo, O pagamento é um livro altamente recomendável ao leitor que aprecia uma leitura inteligente, embora possa gerar perturbação psicológica e desvios na percepção da realidade. Mas essa é marca registrada de todos os trabalhos de PKD.
Cesar Silva

O livro do cemitério, Neil Gaiman

O livro do cemitério (The graveyard book), Neil Gaiman. 336 páginas. Ilustrações de Dave McKean. Tradução de Ryta Vinagre. Coleção Jovens Leitores, Editora Rocco,  Rio de Janeiro, 2010.

O autor britânico Neil Gaiman, desde que voltou sua carreira prioritariamente para a literatura – antes ele se dedicava mais aos quadrinhos – vem arrebatando os mais cobiçados prêmios da FC&F internacional, como os Hugo, Nebula e Locus, às vezes com contos, outras com novelas e romances. Por conta disso, Gaiman apareceu no Anuário 2008 com a antologia Coisas frágeis, e no Anuário 2006 com o romance Os filhos de Anansi, ambos publicados no Brasil pela Editora Conrad. Em 2010, a editora Rocco publicou, em sua coleção Jovens Leitores, O livro do cemitério que, em 2009, recebeu o prêmio Hugo de Melhor Romance. A história apareceu primeiro como um conto na antologia M is for magic (2008) e recebeu o prêmio Locus de melhor noveleta.
O livro conta a delicada história de Ninguém Owens, um bebê que, numa noite trágica, escapa de seu berço e gatinha pela rua até ter a atenção atraída por um cemitério antigo. Enquanto o bebê faz sua viagem de exploração, Jack, um assassino implacável e perfeccionista a serviço de uma organização muito misteriosa, chacina seus pais e irmãos. Quando chega ao berço para completar o serviço, o encontra vazio. Furioso, parte para a rua na intenção completar a tarefa.
O espírito recém desencarnado da mãe assassinada, nos poucos momentos de que dispõe, implora aos fantasmas do cemitério que protejam o seu bebê. Ele é escondido e o assassino vai embora frustrado, mas resoluto em terminar o trabalho no futuro.
O pequeno é adotado pelo falecido casal Owen que, como não sabe seu nome, o chama de Ninguém. Silas, um estranho morador da capela do cemitério, que não é fantasma mas também não está exatamente vivo, aceita proteger o menino e é ele quem proporciona, a partir de então, alimento, roupas e outras necessidades básicas da criança. Sua educação, contudo, fica ao cargo da população desencarnada que ali habita, gente de diversas épocas, algumas mortas há centenas de anos. Nin, como é carinhosamente chamado,  vive escondido no cemitério, sem contato com os vivos, pois os fantasmas temem que, caso ele saia, seja atacado pelo assassino. Contra todos os prognósticos, Nin cresce e se desenvolve nas artes fantasmagóricas, adquirindo poderes que geralmente só os fantasmas têm.
Muitos outros personagens intrigantes aparecem na história, entre eles a Sra. Lupescu, membro dos Sabujos de Deus, por quem a princípio Nin não nutre muita simpatia, mas que se revela sua mais dedicada protetora.
As aventuras de Nin dentro do cemitério têm um aspecto épico grandioso. É um mundo à parte, com regras especiais e uma beleza que só mesmo um fantasma pode apreciar. Uma das tumbas, por exemplo, guarda a entrada do mundo dos ghouls, os devoradores de cadáveres, assim como uma estranha e assustadora cripta encravada nas profundezas do cemitério, onde habita uma entidade tão antiga quanto poderosa.
Certo dia, Nin conhece Scalett, uma menina viva que vai brincar no cemitério. Ela não fica por muito tempo, mas Nin desenvolve por ela uma afeição especial e acaba iniciando-a nos mistérios de sua estranha vida. Nem ele, nem ela e nem mesmo os leitores podem imaginar a importância que a garota terá no desfecho desta história.
Os fantasmas tentam, mas não conseguem refrear a curiosidade e a iniciativa do menino quando ele começa a explorar o exterior do cemitério. Sua aparência desgrenhada e roupas estranhas chamam a atenção e logo Jack está de volta para concluir o serviço inacabado.
O Livro do Cemitério tem muitos atributos para agradar o leitor, além da riqueza de seus personagens, todos memoráveis – incluindo Jack – e do enredo movimentado e surpreendente. O maravilhamento emana mais intensamente das coisas que não chegam a ser mostradas e explicadas, como a imensa cidade fortificada dos ghouls, as motivações da estranha corporação que quer Nin morto, a natureza incógnita dos protetores de Nin, além das histórias fascinantes de cada um dos fantasmas daquele cemitério.
Gaiman constrói um ambiente britânico de intenso clima gótico e, espertamente, adota o mesmo artifício que Stephen King e Peter Straub usaram em O talismã, encerrando a história quando o menino atinge a idade em que não será mais um menino, deixando ao leitor a perspectiva de imaginar como seria uma possível sequência. Não sei se Gaiman resistirá em contá-la ele mesmo; King e Straub não conseguiram evitá-lo.
As ilustrações são uma atração à parte. Dave McKean é parceiro histórico de Gaiman desde seu primeiro trabalho americano, a minissérie em quadrinhos Orquídea Negra, depois como capista de todas as edições de Sandman. Seu estilo está intimamente identificado com a arte de Gaiman, de forma que não poderia ter sido uma escolha melhor. McKean trabalhou aqui apenas com nanquim negro, num desenho repleto de contrastes dramáticos que lembram o cinema expressionista alemão.  A presença das ilustrações reforça o objetivo juvenil da edição, porém a história de infância de Nin Owen no cemitério guarda segredos suficientes para causar interesse nos adultos também. E o estilo arrojado de McKean contribui para dar-lhe os contornos visuais adequados.
 Gaiman tem tantas qualidades como contador de histórias que não é de estranhar, portanto, que o livro tenha sido premiado com o Hugo, numa votação popular de fãs de ficção científica. Além do Hugo, O livro do cemitério recebeu a Newbery Medal, a Carnegie Medal e foi indicado ao prêmio Locus de Melhor Novela Juvenil, sendo assim um dos mais premiados trabalhos recentes da fc&f.
Cesar Silva

O Demônio Imortal (Yilmayan Seytan, Turquia, 1973)


Filme obscuro, tanto pela produção tosca quanto pela história clichê e quantidade de bizarrices que desfilam para todos os lados, mas principalmente por ser da Turquia, numa bagaceira com elementos de espionagem, humor pastelão e ficção científica tranqueira. “O Demônio Imortal” (“Yilmayan Seytan” no original turco e “The Deathless Devil” nos Estados Unidos) tem direção de Yilmaz Atadeniz (que utilizou o óbvio pseudônimo de Robert Gordon na versão americana), e roteiro bagaceiro de seu irmão Orhan Atadeniz.
O jovem Tekin (Kunt Tulgar) recebe de seu pai a notícia que foi adotado, e que o verdadeiro pai morreu, sendo conhecido como um vigilante super-herói mascarado. Para combater o crime, ele é convencido então a personificar o justiceiro mascarado “Serpente”, com um patético laço vermelho no pescoço. Com a ajuda do atrapalhado Bitik (Erol Gunaydin), o alvo principal é combater o vilão bigodudo Dr. Seytan (Erol Tas), uma cópia barata do mais famoso “Dr. Fu Manchu” (interpretado várias vezes pelo ícone Christopher Lee). O vilão pretende roubar uma invenção militar do cientista Prof. Dogan (Yalin Tolga), um dispositivo capaz de controlar aviões no ar e a descarga de bombas em alvos planejados. Sua intenção maléfica é tornar-se um governante tirano do mundo, auxiliado também por um robô assassino criado por ele, e que serviria de protótipo para a construção de um exército. E para completar a enxurrada de clichês, não poderia faltar a presença da tradicional mocinha, Sevgi (Mine Mutlu), a bela filha do Prof. Dogan, que é obviamente apaixonada pelo herói Tekin.
Assistir esse filme em seu idioma original turco não é fácil, pois soa muito estranho e nem um pouco convidativo. Para ajudar na bizarrice como um todo, temos ainda uma história ridícula e entediante, num imenso convite ao sono. A narrativa até que não é lenta, e ao contrário é bem frenética, mas isso não impede o desinteresse, com cortes bruscos na edição. As atuações são patéticas ao extremo, e as cenas de lutas e perseguições do herói contra os capangas do Dr. Seytan são hilárias de tão ruins. É uma mistura de espionagem com piadas horríveis do panaca ajudante do herói e elementos toscos de ficção cientítica, onde o robô provavelmente é um dos piores de todos os tempos (com um ator dentro de uma fantasia que não tem palavras para definir a tosquice). A duração de uma hora e vinte e cinco minutos poderia ser reduzida para um filme de curta metragem de não mais que trinta minutos, e talvez isso pudesse funcionar para despertar algum interesse.
Curiosamente, “O Demônio Imortal” é considerado uma refilmagem do americano “O Misterioso Dr. Satã” (Mysterious Doctor Satan, 1940), um seriado produzido em preto e branco dividido em quinze capítulos.
Mas, de uma forma geral, esse filme turco é um daqueles ruins que são mais chatos que divertidos, diferente da maioria das outras bagaceiras do cinema fantástico de baixo orçamento, onde os clichês e excesso de situações bizarras com efeitos toscos tornam-se justamente o diferencial que leva ao entretenimento.
(Juvenatrix - 08/03/15)


quinta-feira, 5 de março de 2015

The Bat People (1974)


Também conhecido como “It Lives by Night” ou pelo título nacional “Morcegos Humanos” (conforme informação do blog “Cine Space Monster”), de download de filmes bagaceiros, “The Bat People” está situado dentro do sub-gênero conhecido como “Man Into Monster” ou “Homem Transformado em Monstro”, um segmento extremamente divertido do cinema tranqueira de Horror e Ficção Científica, justamente pelas situações absurdas, roteiros distantes de qualquer tipo de lógica e produções toscas ao extremo.
Um casal formado pelo médico Dr. John Beck (Stewart Moss) e sua bela esposa Cathy (Marianne McAndrew), que curiosamente são casados também na vida real, está tentando fazer uma segunda lua de mel. Numa visita turística pelo interior de uma caverna, o homem é acidentalmente mordido por um morcego infectado pela raiva. Uma vez hospitalizado e tomando fortes medicamentos para o tratamento da doença, supervisionado pelo colega médico Dr. Kipling (Paul Carr), ele começa a ter ataques de fúria descontrolada e agir de modo estranho, transformando-se aos poucos num monstro assassino com características de morcego. As várias mortes misteriosas e violentas de pessoas próximas ao Dr. John despertam a atenção da investigação policial do Sargento Ward (Michael Pataki). O xerife fica em seu encalço o tempo inteiro, enquanto o médico doente luta desesperadamente contra as crises de loucura e metamorfose emocional, física e mental, se aproximando cada vez mais de um animal conhecido pelo sentimento de medo e repugnância que desperta nos humanos.
Bagaceira obscura dos anos 70 do século passado que traz como maior curiosidade o fato de ser um dos primeiros trabalhos de maquiagem do cultuado técnico em efeitos especiais Stan Winston (falecido em 2008). Ele foi o responsável pela concepção do homem transformado em morcego, provavelmente se inspirando nos macacos criados por John Chambers na saga “O Planeta dos Macacos”, iniciada em 1968. Numa espécie de homenagem ao próprio Winston, em determinado momento do filme, o transtornado Dr. John Beck invade o hospital e se identifica falsamente como Dr. Winston, para conseguir localizar uma bolsa de sangue e matar sua sede de morcego.
No elenco, conseguimos reconhecer os rostos de atores com presença regular em diversas séries de TV do período como Paul Carr, ou filmes igualmente bagaceiros e divertidos como “O Túmulo do Vampiro” (72), “Zoltan – o Cão Vampiro de Drácula” (78) e “Os Mortos-Vivos” (81), como Michael Pataki.
Entre os destaques podemos citar as cenas com dezenas de morcegos reais nos pesadelos e alucinações do protagonista amaldiçoado na transformação de monstro, mas em compensação negativa, temos a horrível trilha sonora escolhida nos momentos de perseguições e ataques do assassino, totalmente deslocada eliminando a tensão de forma patética.
Vale lembrar que o cinema bagaceiro de Horror e FC possui uma galeria imensa de produções tranqueiras de “humanos transformados em monstros”, utilizando a mistura com animais, insetos e até plantas, que é bem difícil catalogar. Alguns exemplos são “A Mosca da Cabeça Branca” (58), “O Jacaré Humano” (59), “A Mulher Vespa” (60), “A Serpente” (66), “O Homem Cobra” (73), “Estranhas Mutações” (73) e “A Ilha do Dr. Moreau” (77, e com várias outras versões). E mais recentemente tivemos diversas produções da produtora picareta “Nu Image” como “MosquitoMan” e “Sharkman” (ambos de 2005), entre outras.       
(Juvenatrix - 27/01/15)

O Demônio de Fogo (Night of the Big Heat, 1967)


Tranqueira de horror com elementos de ficção cientítica, produzida pelo estúdio inglês “Planet Film” em 1967 e que traz como atrações a direção do especialista Terence Fisher e a presença sempre carismática da dupla de ícones do gênero Christopher Lee e Peter Cushing.
Em pleno inverno rigoroso na Inglaterra, uma ilha misteriosamente apresenta um calor imenso que desperta a curiosidade de seus moradores e em especial do cientista Godfrey Hanson (Lee). Homem de poucas palavras, ele está hospedado num hotel de propriedade do escritor Jeff Callum (Patrick Allen) e sua esposa Frankie (Sarah Lawson), e está realizando observações na ilha com experiências secretas em seu quarto. Suas ações estranhas também chamam a atenção do médico local, o Dr. Vernon Stone (Cushing). Além do calor infernal e crescente, para tumultuar ainda mais o lugar, surge uma bela jovem, Angela Roberts (Jane Merrow), que se apresenta como secretária do escritor Callum, mas na verdade é sua amante. Após a ocorrência de algumas mortes com os corpos misteriosamente carbonizados, eles são obrigados a unirem forças para combater criaturas alienígenas gosmentas e rastejantes que precisam de calor para sobreviver, e estão utilizando a ilha para realizar testes adaptando o ambiente para uma invasão.
O roteiro de “O Demônio de Fogo” é baseado no livro “Night of the Big Heat” de John Lymington, e apesar de contar com o cineasta Terence Fisher, especialista em filmes góticos da “Hammer”, esse é um filme menor da dupla Lee e Cushing. A ideia da história é bem bagaceira e até interessante, mas a narrativa em geral é arrastada, e somente perto do desfecho ocorre uma movimentação maior, com a participação mais intensa dos monstros gosmentos motivando as reações do elenco, principalmente do cientista interpretado por Lee, pois infelizmente Cushing aparece pouco. Devido às notórias dificuldades de orçamento, os efeitos dos alienígenas são toscos ao extremo, tornando-os mais hilários do que ameaçadores. Mas, é inegável que apenas o fato da participação do trio Terence Fisher, Christopher Lee e Peter Cushing, já garante a conferida. Curiosamente, o filme também é conhecido pelo sonoro título alternativo de “Island of the Burning Damned”.
(Juvenatrix - 04/01/15)

A Fúria das Feras Atômicas (The Food of the Gods, 1976)


A produção é do especialista em bagaceiras Samuel Z. Arkoff, da “American International Pictures”, a direção é de Bert I. Gordon (“Mister B.I.G.”, ou “senhor grande” numa tradução do inglês para as iniciais de seu nome), cineasta conhecido por seus inúmeros filmes com monstros, animais e pessoas gigantes, e a história é parcialmente inspirada em livro do popular escritor de Ficção Científica H. G. Wells. “A Fúria das Feras Atômicas” tem um título nacional sonoro para o original “The Food of the Gods” (“O Alimento dos Deuses”).
Um jogador profissional de futebol americano, Morgan (Marjoe Gortner), vai com seu amigo também jogador Davis (Chuck Courtney) e seu empresário Brian (Jon Cypher), para uma ilha canadense com o objetivo de descansar alguns dias e caçar. Porém, eles enfrentam o ataque de vespas, galinhas e ratos gigantescos, que ficaram enormes e violentos após ingerirem uma misteriosa gosma branca que surgiu nas terras da fazenda do Sr. e Sra. Skinner (John McLiam e Ida Lupino, respectivamente). A descoberta do estranho alimento despertou o interesse comercial do empresário ganancioso Jack Bensington (Ralph Meeker), que juntamente com a jovem bacteriologista Lorna Scott (Pamela Franklin), visita a fazenda para comprar os direitos do misterioso “alimento dos deuses”. Em paralelo, um casal em passeio pelo lugar num motor home, Thomas (Tom Stovall) e sua esposa grávida Rita (Belinda Balaski), sofre um acidente com o carro e todos juntos ficam encurralados na casa da fazenda, lutando por suas vidas contra um ataque de dezenas de ratos imensos famintos por suas carnes.
Os ataques dos ratos assassinos foram realizados com animais reais filmados como se fossem gigantes em meio a maquetes de carros e casas. E muitos deles foram mortos para a obtenção do realismo das cenas. Já para os momentos de confrontos diretos com os atores, foram utilizadas cabeças mecânicas de ratos imensos. Quando o grupo de pessoas está encurralado na casa de campo sob o ataque enlouquecido dos roedores, não faltaram os tradicionais conflitos internos num ambiente sob forte pressão psicológica na luta pela vida, com diferenças de opiniões entre os sobreviventes sobre as ações a serem tomadas, além de constantes questionamentos pela liderança. Os ataques das vespas e galinhas gigantes ficaram bem toscos e até hilários, mas por outro lado, as imensas ratazanas garantem bastante tensão em suas investidas ferozes, com interessantes efeitos simulando seus tamanhos descomunais e as agressões sangrentas contra as pessoas. 
Curiosamente, o cultuado escritor H. G. Wells teve muitas de suas divertidas obras adaptadas para o cinema em várias versões, como “Daqui a Cem Anos”, “O Homem Invisível”, “A Ilha do Dr. Moreau”, “A Guerra dos Mundos”, “A Máquina do Tempo” e “Os Primeiros Homens na Lua”.
O multifuncional Bertram Ira Gordon ficou conhecido como diretor, roteirista, produtor e técnico em efeitos especiais de inúmeros filmes com criaturas gigantes, como “King Dinosaur” (55), “O Começo do Fim” (1957), “A Maldição do Monstro” (57), “O Monstro Atômico” (1957), “Attack of the Puppet People” (58), “War of the Colossal Beast” (58), “A Maldição da Aranha” (58), “A Cidade dos Gigantes” (65) e “O Império das Formigas” (77). E por isso ganhou o apelido de “Mister BIG” do lendário editor, colecionador e pesquisador de cinema de ficção científica e horror Forrest J. Ackerman.
No elenco temos Pamela Franklin, que foi uma garotinha no clássico de fantasmas “Os Inocentes” (1961), e também esteve em “O Feiticeiro” (1972) e “A Casa da Noite Eterna” (1973), além da presença dos experientes Ida Lupino (1918 / 1995) e Ralph Meeker (1920 / 1988).
(Juvenatrix - 11/01/15)

A Essência da Maldade (The Creeping Flesh, 1973)


Filme inglês estrelado pela dupla Christopher Lee e Peter Cushing, dois dos maiores ícones do cinema de horror de todos os tempos, e dirigido por Freddie Francis, de preciosidades como “O Monstro de Frankenstein” (64), “A Maldição da Caveira” (65) e “As Torturas do Dr. Diabolo” (67), entre outras.
O cientista Dr. Emmanuel Hildern (Cushing) retorna de uma viagem para a Papua-Nova Guiné, na Oceania, trazendo na bagagem o esqueleto de uma criatura ancestral e desconhecida, que possui um crânio imenso. Ao chegar à Inglaterra vitoriana, ele inicia os estudos de sua nova descoberta, na esperança de conseguir dinheiro para as dívidas e manter o conforto de sua única filha, a jovem Penelope (Lorna Heilbron). Seu irmão ambicioso, James (Lee), é o diretor de um asilo penal para pacientes mentalmente insanos, e também tem grande interesse nas pesquisas do cientista, fazendo questão de manter um clima de rivalidade entre eles. O paleontólogo alega a descoberta de um vírus que seria responsável pela “essência do mal” (daí o bem escolhido título nacional), que deveria ser tratada como uma doença que poderá aniquilar a humanidade. Porém, ele é desacreditado e a situação perde o controle quando o esqueleto se recobre novamente de carne após contato com a água, fugindo após um acidente e espalhando o horror.
Em “A Essência da Maldade” encontramos os elementos do horror gótico típico do cinema inglês, similar às produções da “Hammer” ou “Amicus”. Porém, aqui dessa vez a produção é da “Tigon Pictures” em parceria com a “World Film Services”. Peter Cushing interpreta novamente um cientista abnegado que trabalha incansavelmente à procura de descobertas científicas que possam ajudar a humanidade, e que se transforma em vítima pela ousadia em invadir os domínios da ciência desconhecida. E Christopher Lee é o vilão inescrupuloso despreocupado com o ser humano e interessado apenas em projeção pessoal, não se importando em cometer crimes para a obtenção de seus objetivos. O monstro, um esqueleto que volta a ter carne após contato com água, é tosco ao extremo e diverte justamente por essas características. Recomendável para fãs de Cushing & Lee e apreciadores em geral de bagaceiras antigas, especialmente o horror gótico inglês.
(Juvenatrix - 31/12/14)