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quarta-feira, 27 de maio de 2020

O Parque Macabro / Carnaval de Almas (Carnival of Souls, EUA, 1962, PB)



“Ela era uma estranha entre os vivos

Os filmes que exploram fantasmas com um horror mais sutil e psicológico normalmente despertam grande interesse. “O Parque Macabro” (Carnival of Souls, 1962), de Herk Harvey, com roteiro de John Clifford, fotografia em preto e branco e produção de baixo orçamento, é um exemplo bem sucedido dentro dessa ideia. Com uma história sobrenatural no estilo típico da nostálgica série de TV “Além da Imaginação” (1959 / 1964), um pouco mais esticada para se enquadrar como um filme de longa- metragem.
A organista profissional Mary Henry (Candace Hilligoss) sofre um acidente traumático de carro numa ponte, com o veículo mergulhando nas águas escuras de um rio. Ela sobrevive misteriosamente, aparecendo desorientada nas margens. Ao receber o convite de um padre (Art Ellison) para tocar órgão numa igreja em outra cidade, ela viaja até o local. No caminho, visualiza perto da estrada um pavilhão abandonado, que no passado foi um movimentado balneário turístico e parque de diversões. De aspecto macabro e sombrio, o parque falido desperta na jovem um estranho fascínio, principalmente depois que ela é atormentada regularmente por alucinações e visões de um fantasma (o próprio diretor Herk Harvey, maquiado como um zumbi e não creditado), que parece querer se comunicar com ela e resolver alguma pendência entre o mundo dos vivos e mortos.
Mary é antissocial e reclusa, e se hospeda numa pensão de propriedade da Sra. Thomas (Frances Feist), onde conhece o jovem galanteador John Linden (Sidney Berger), que tenta conquistá-la sem muito sucesso. Ela recebe também conselhos de um médico, Dr. Samuels (Stan Levitt), sobre sua constante confusão mental talvez relacionada com o stress causado pelo acidente de carro. Mas, a mulher perturbada por fantasmas e obcecada pelo pavilhão abandonado precisa entender as visões sinistras que a assombram, e tenta de forma obstinada descobrir a relação entre o “parque macabro” e seus próprios demônios internos.
“O Parque Macabro” é aquele tipo de filme de horror sugerido, sem violência ou sangue, e apenas com visões oníricas sombrias e alucinações perturbadoras de fantasmas de pessoas que não fazem mais parte desse mundo. Com maquiagem simples, mas eficiente, todas as cenas com os zumbis perseguindo Mary são antológicas e carregadas de horror psicológico.
O filme é indicado para os apreciadores do cinema de horror com atmosfera desconfortável e sobrenatural, sem as barulheiras e correrias de histórias com fluxo narrativo acelerado e que cansam o espectador justamente por esses excessos.      
O diretor Herk Harvey (1924 / 1996) tem um currículo extenso, mas ficou mesmo conhecido através da grande repercussão ao explorar a temática do horror psicológico em “O Parque Macabro”. Ele revelou que, apesar de satisfeito com o sucesso desse filme, acharia mais justo ser reconhecido pelo conjunto de sua obra fora da temática, com muita experiência em centenas de filmes na área educacional, industrial e documentários.
Curiosamente, o filme ganhou dois títulos no Brasil, o oportunista “O Parque Macabro”, com a utilização de um adjetivo com forte ligação com o horror, e depois o correto “Carnaval de Almas”, uma tradução literal do original. Tem também uma versão disponível colorizada por computador e ganhou uma refilmagem lançada em 1998, dirigida por Adam Grossman.
Foi lançado em DVD por aqui com o nome “Carnaval de Almas”, pela “Versátil Home Video”, na Coleção “Obras-Primas do Terror – Volume 3”.

(Juvenatrix – 27/05/20)






domingo, 24 de maio de 2020

The Creeping Terror (EUA, 1964, PB)


No cinema fantástico bagaceiro temos uma infinidade de filmes extremamente ruins e mal feitos de forma não proposital, ou seja, o baixo orçamento e os recursos mínimos de produção resultaram em porcarias colossais que divertem (a maioria delas) justamente por esses motivos, com histórias óbvias e banais, elenco amador e patético, e efeitos tão toscos e paupérrimos que tornam-se hilários. E por isso essas tranqueiras têm uma legião de fãs e apreciadores do estilo. Uma dessas tralhas inacreditáveis é o filme americano “The Creeping Terror” (1964), com fotografia em preto e branco, dirigido, produzido e editado por A. J. Nelson, que também atuou com o pseudônimo Vic Savage.
Ele é o jovem xerife Martin Gordon, casado com Brett (Shannon O´Neil), responsável pela manutenção da lei e ordem numa pequena cidade americana, junto com o assistente Barney (Norman Boone). A calmaria do lugar muda drasticamente depois que um objeto voador não identificado cai numa floresta próxima, despertando a atenção do exército, sob o comando do Coronel James Caldwell (John Caresio).
Após descobrirem que se trata do pouso de uma nave espacial (usando a imagem real de um foguete decolando, mas num efeito reverso), é convocado o cientista Dr. Bradford (William Thourlby) para assumir o comando da investigação, ocultando as informações secretas do público após encontrarem uma criatura alienígenas monstruosa dentro da nave, presa nas ferragens. O objetivo do cientista é estudar o foguete extraterrestre, sua desconhecida liga metálica e tecnologia avançada, além de tentar comunicação com seus ocupantes.
Porém, outro alienígena, um monstro grotesco rastejante parecendo uma lesma gigante, conseguiu sair da nave logo após a aterrissagem, espalhando o horror na floresta e cidadezinha, devorando as pessoas em seu caminho, obrigando o cientista a unir forças com o xerife local e o exército para tentar deter a ameaça da criatura espacial.
“The Creeping Terror” certamente faz parte da galeria dos piores filmes de horror e ficção científica da história do cinema bagaceiro. Porém, é divertido se desconsiderarmos a história clichê e descartável resumida numa nave espacial que chega à Terra com criaturas monstruosas que engolem gente, para absorver as características dos humanos e enviar as informações para seu planeta preparar uma eventual invasão. E se também esquecermos a produção paupérrima e elenco péssimo de atores incapazes de interpretar os personagens rasos do roteiro. A diversão é garantida exclusivamente pela presença do monstro rastejante do título, que felizmente aparece em várias cenas com seus movimentos lentos à procura da carne de suas vítimas.
O ideal seria que o filme tivesse uma metragem menor (apesar de já ser curto, com apenas 77 minutos), retirando um monte de cenas desnecessárias, como o relacionamento de casal entre o xerife e sua jovem esposa, as reuniões descartáveis entre a polícia, o exército e o cientista (todos completamente incompetentes para lidar com a situação), e o excesso de tempo perdido num baile com as pessoas dançando (e prestes a virar comida de lesma), deixando apenas os momentos com a criatura, numa compilação dos ataques do monstro engolindo as pessoas.
Aliás, o bicho do espaço está entre os mais toscos e hilários já vistos nos filmes bagaceiros, filmado de longe para esconder os defeitos, parecendo um fantoche gigante de dragão chinês ou uma alegoria pobre de carnaval, feita com retalhos de panos e tapetes rastejando pelo chão, com pedaços de mangueiras na cabeça e várias pessoas escondidas por baixo da fantasia para realizar seus pesados movimentos. Totalmente bizarro e divertido.
As cenas de ataques do monstro são hilárias, e merecem registro o momento onde um homem se defende da criatura com golpes de violão, e a carnificina no salão de festas, com a lesma espacial se rastejando de forma extremamente lenta e ainda assim conseguindo devorar várias pessoas incompetentes para fugir.
A nave espacial pousada na floresta nunca é mostrada por inteiro, devido às dificuldades de orçamento da produção, com seu interior repleto de painéis com interruptores e mostradores analógicos, simulando uma tecnologia “avançada” de outro mundo, um clichê sempre explorado nesses filmes bagaceiros de invasão alienígena.
Sem contar que o filme tem uma narração maçante (de Larry Burrell, não creditado) que fica explicando as ações dos personagens durante a maior parte do tempo, num recurso irritante para driblar a falta de dinheiro para a captação do som.
Em 2014 foi lançado um documentário chamado “The Creeping Behind the Camera”, escrito e dirigido por Pete Schuermann, com os bastidores do filme e biografia do polêmico diretor A. J. Nelson (ou Vic Savage), conhecido por condutas condenáveis.     

(Juvenatrix – 24/05/20)




sexta-feira, 22 de maio de 2020

O Zumbi (The Ghoul, Inglaterra, 1933, PB)



O ator inglês Boris Karloff (1887 / 1969) é um dos ícones do Horror e Ficção Científica, com seu nome eternizado na história do cinema fantástico, mais lembrado por sua caracterização do “monstro de Frankenstein” nos filmes da produtora americana “Universal”, além de outros vilões e “cientistas loucos”. Em 1933 ele fez seu primeiro filme inglês, “O Zumbi” (The Ghoul), cuja história utiliza elementos que exploram o universo ficcional das lendas, mistérios, poderes pagãos e maldições da mitologia egípcia.
 Com direção de T. Hayes Hunter, na história o Prof. Henry Morlant (Boris Karloff) é um rico egiptólogo, excêntrico e recluso em sua imensa casa gótica. Ele gastou boa parte de sua fortuna comprando uma misteriosa joia chamada “Luz Eterna”, roubada no Egito pelo mercenário Aga Ben Dragore (Harold Huth). O precioso artefato tem o poder da imortalidade, quando utilizado num ritual com a estátua sagrada do deus Anúbis. Uma vez gravemente doente e imobilizado na cama, o Prof. Morlant orienta seu fiel mordomo Laing (Ernest Thesiger) para enfaixar a joia em sua mão, para que depois pudesse reviver após o sepultamento numa cripta sinistra ao lado de sua casa, com sua tumba sendo iluminada numa noite de lua cheia.
Porém, a joia desaparece e o bizarro Prof. Morlant retorna dos mortos, desfigurado e com a mente distorcida pelo ódio, como um zumbi assassino em busca de vingança contra várias pessoas que estão em sua casa. O grupo é formado por seus sobrinhos Ralph Morlant (Anthony Bushell) e Betty Harlon (Dorothy Hyson), que vieram em busca da herança do tio falecido, além do ganancioso advogado da família, Sr. Broughton (Cedric Hardwicke), de um padre charlatão, Nigel Hartley (Ralph Richardson), do já citado ladrão sofisticado Dragore, e da irritante assistente da Srta. Harlon, Kaney (Kathleen Harrison), responsável por um desnecessário alívio cômico na trama.
“O Zumbi” é o primeiro filme inglês de horror da era do cinema sonoro, que ficou perdido por muitos anos e felizmente foi encontrado e restaurado. Tem fotografia em preto e branco e pouco mais de 70 minutos de duração. Sua narrativa é lenta, característica comum para a época da produção, e o roteiro tem furos e situações que não se encaixam, diminuindo inevitavelmente o interesse nos momentos arrastados sem a presença de Boris Karloff.
Mas, ainda assim, é recomendado para os apreciadores de filmes góticos e fãs do grande ator de “Frankenstein”. Temos aquela tradicional atmosfera sombria no casarão antigo e decrépito, repleto de aposentos escuros iluminados por velas. Karloff fala pouco, apenas na sequência de abertura, doente numa cama, e também não aparece tanto quanto gostaríamos. Mas, ele sempre rouba as cenas quando surge das sombras, estando bem à vontade num dos papéis que costuma fazer com maestria, o assassino que volta do mundo dos mortos para matar todos em seu caminho, na busca da joia egípcia com o poder da vida eterna.
Curiosamente, o filme também é conhecido por aqui como “Dragore”, uma péssima escolha de título nacional, pois é apenas o nome do ladrão que roubou a joia egípcia e vendeu para o Prof. Morlant, tentando recuperá-la novamente, e o grande vilão é o Prof. Morlant, que voltou dos mortos como um zumbi perturbado, assassino e vingativo. Além desse nome, o site “IMDB” (imenso banco de dados sobre filmes) também informa outro título alternativo brasileiro ainda mais ridículo, “Dragore, o Fantasma”.
O filme ganhou uma refilmagem inglesa em 1961 conhecida pelos títulos “No Place Like Homicide!” ou “What a Carve Up!”, com elementos de humor negro.

(Juvenatrix – 22/05/20)





sábado, 16 de maio de 2020

Re-Juvenator (Rejuvenatrix, EUA, 1988)


O fanzine de Horror e Ficção Científica “Juvenatrix” foi criado em Janeiro de 1991 (com mais de 200 edições e 5000 páginas já publicadas) e teve seu nome inspirado num filme americano obscuro e bagaceiro de 1988, lançado em vídeo VHS por aqui pela “Taipan Video” como “Re-Juvenator”. Com direção de Brian Thomas Jones, cineasta desconhecido com um currículo pequeno, e roteiro dele em parceria com Simon Nuchtern.
Uma atriz veterana e rica, Ruth Warren (Jessica Dublin), está depressiva pelo declínio de sua carreira, não recebendo mais convites para atuar em grandes filmes. Ele decide então patrocinar as pesquisas científicas do Dr. Gregory Ashton (John MacKay), que é auxiliado pela assistente Dra. Stella Stone (Katell Pleven). O projeto científico consiste na criação de um soro de rejuvenescimento, cuja fase experimental somente tem testes com animais, e ainda não é seguro para aplicação em seres humanos.
Porém, a atriz em decadência está tão ansiosa para voltar a ter uma nova vida mais jovem, que aceita os riscos e obriga o cientista a testar a fórmula nela mesmo, como cobaia. Depois de uma cirurgia plástica bem sucedida inicialmente, a mulher se transforma em jovem novamente, tanto que até mudou de nome para Elizabeth Warren (Vivian Lanko). E sempre ao seu lado para servi-la, está disponível o fiel mordomo Wilhelm (James Hogue).
Mas, para manter os efeitos do rejuvenescimento, ela precisa ingerir regularmente o tal soro que é obtido através da extração de líquidos dos cérebros de cadáveres, adquiridos ilegalmente pelo cientista. Despertando assim a desconfiança de um colega rival, Dr. Germaine (Marcus Powell), um desafeto que quer denunciá-lo e impedir seu trabalho científico.
Como o processo de rejuvenescimento está sempre se revertendo e a obtenção do soro está cada vez mais difícil, a atriz vai se transformando progressivamente num monstro disforme com a mente distorcida, desenvolvendo um brutal instinto assassino à procura do cérebro de pessoas vivas para a obtenção do soro.
“Re-Juvenator” é o típico filme bagaceiro de horror com elementos de ficção científica dos saudosos anos 80 do século passado, com baixo orçamento, mortes sangrentas e ótimos efeitos especiais com maquiagem “gore” na concepção da criatura mutante gosmenta com voz gutural, sem a utilização de imagens geradas por computador.
A história não tem novidades, porém trata-se de diversão garantida pela combinação de “cientista louco” em busca do bem para a humanidade (o soro da juventude), com “ser humano transformado em monstro” (uma mulher desesperada para voltar a ser jovem), tendo um resultado catastrófico para o projeto científico com uma cobaia humana grotesca assassina, sedenta pelo sangue e faminta pelo cérebro de suas vítimas.  
É verdade que demora um pouco para ocorrer a primeira morte, com quase sessenta minutos, e tudo acontece com mais intensidade no ato final, com o sangue jorrando e o monstro colecionando cadáveres, mas isso não é um problema, pois a história desperta o interesse o tempo inteiro.
O filme foi considerado como uma espécie de refilmagem de “A Mulher Vespa” (The Wasp Woman, 1960), de Roger Corman, pela similaridade da história que se situa dentro dos sub-gêneros do cinema fantástico que exploram “cientistas loucos” e “seres humanos transformados em monstros”.
Entre as curiosidades, a trilha sonora é da banda feminina de rock “Poison Dolly´s” (1986 / 1994), que aparece num show numa boate, e o filme recebeu vários títulos originais como “The Rejuvenator”, “Rejuvenatrix” ou “Juvenatrix – A Classic Tale of Terror”.

(Juvenatrix – 16/05/20)



quinta-feira, 14 de maio de 2020

A Noite dos Mortos-Vivos (Night of the Living Dead, EUA, 1990)



“Aí vem eles, erguendo-se do fundo dos túmulos, enchendo a noite de gritos, manchando a terra de sangue... Aí estão eles, caminhando ao ritmo da morte, limpando o sangue dos lábios...”
do livro “A Noite dos Mortos Vivos” (1974), de John Russo, baseado no roteiro do filme homônimo de 1968

Em 1968, o cineasta George Andrew Romero presenteou os apreciadores do cinema fantástico com um dos mais importantes filmes da história do gênero, o clássico absoluto “A Noite dos Mortos Vivos” (Night of the Living Dead), fotografado em preto e branco e com um orçamento reduzido, abordando o tema dos zumbis comedores de carne humana de forma definitiva, inspirando toda uma safra imensa de filmes posteriores influenciados por suas idéias.
Romero dirigiu depois mais cinco filmes de sua saga, “Despertar dos Mortos” (Dawn of the Dead, 78), “O Dia dos Mortos” (Day of the Dead, 85), “Terra dos Mortos” (Land of the Dead, 2005), “Diário dos Mortos” (Diary of the Dead, 2007) e “A Ilha dos Mortos” (Survival of the Dead, 2009), sendo alguns deles ótimos filmes de horror e com interessantes críticas sociais em seus argumentos. E em 1990, o conhecido técnico em maquiagem Tom Savini (de “Despertar dos Mortos” e “Sexta-Feira 13”, entre muitos outros filmes importantes do gênero), reuniu os principais envolvidos na produção do clássico de 68 (o próprio George Romero e ainda John Russo e Russ Streiner), e assumindo a direção lançaram juntos uma refilmagem, com a grande diferença de apresentar agora a violência dos mortos vivos em cores e através de técnicas de efeitos especiais mais modernas.  

Na história, um casal de irmãos, Barbara (Patricia Tallman, de “Comando Assassino”, 88) e Johnnie (Bill Mosley), está viajando de carro com destino para um cemitério onde está enterrada a mãe deles. Lá chegando, eles são surpreendidos pelo ataque de um homem com aparência grotesca. Barbara consegue fugir e vai pedir ajuda numa casa de campo, localizada numa fazenda próxima. Porém, enfrenta mais um ataque violento de um outro homem deformado, o obeso Tio Rege (Pat Logan), o dono da casa.
Paralelamente, chega também à propriedade rural um homem negro, Ben (Tony Todd, de “Candyman”, 92), guiando em alta velocidade uma camionete com pouca gasolina. Ele se encontra com Barbara e juntos tentam se defender dos mortos vivos, descobrindo que no porão ainda estão outras cinco pessoas refugiadas, o intransigente Harry Cooper (Tom Towles), sua esposa Helen (McKee Anderson), a filha ferida com uma mordida no braço, Sarah (Heather Mazur), e um casal de jovens, Tom Bitner (William Butler), sobrinho do Tio Rege, e sua esposa Judy Rose Larsen (Katie Finneran).
O grupo passa a enfrentar os perigos mortais de uma invasão de mortos vivos sedentos por seu sangue e famintos por sua carne, isolados no meio do nada e encurralados numa casa onde são vítimas de um perturbador sentimento de claustrofobia e incapacidade de fuga, além também de terem que administrar os impertinentes problemas de relacionamento (principalmente entre Ben e Harry, que estão constantemente em atrito), algo típico na raça humana e um fator negativo capaz de levá-los ao extermínio.

“Eles são nós. Nós somos eles, e eles são nós.”
Barbara, comentando decepcionada que não há diferença entre a selvageria dos mortos e a dos vivos

Essa refilmagem de 1990 é honrada e digna do original, principalmente porque os envolvidos no projeto são as mesmas pessoas, de George Romero, passando por John Russo, a Russ Streiner, e com a direção nas mãos do famoso maquiador Tom Savini, um profissional especialista no gênero Horror, e que na vida real foi fotógrafo na sangrenta Guerra do Vietnã, onde testemunhou mortes violentas e corpos destroçados de soldados nos campos de batalha.
Na nova versão de “A Noite dos Mortos Vivos” não faltam as cenas carregadas de sangue e mutilações e a tradicional legião de mortos vivos deformados e pútridos, ingrediente indispensável na temática do filme. Mas, com a diferença do visual em cores e as maquiagens mais bem produzidas.
Eu particularmente ainda prefiro o original de uma forma geral, principalmente pela ousadia de George Romero e equipe em se fazer um filme extremamente perturbador com violência explícita e poucos recursos no final dos anos 60, há quase meio século atrás, num trabalho precursor tanto no cinema de horror mais violento, quanto no subgênero de mortos vivos devoradores de carne humana. Mas a refilmagem de 90 também é um ótimo filme, procurando respeitar a história original em seu argumento básico, apesar da inevitável liberdade de criação artística que alterou o final, sendo que o filme de 68 apresentou um desfecho bem mais interessante e surpreendente.
Uma das coisas que mais fascina na história é justamente a ideia de um caos instaurado repentinamente no mundo graças ao domínio dos mortos que são reativados misteriosamente e buscam se alimentar dos vivos. Os personagens inicialmente não sabem as origens desse fenômeno e ficam especulando sobre as causas dos cadáveres se levantarem de seus túmulos, atribuindo a onda de violência para uma suposta fuga de prisioneiros ou uma contaminação química, descobrindo-se apenas mais tarde que poderia talvez se tratar de uma infecção trazida do espaço. Imaginem o choque que qualquer ser humano teria se de repente estivesse no meio de uma horda de zumbis querendo devorá-lo impiedosamente, e que toda a civilização estaria fatalmente afetada por uma histeria crescente que colocaria em risco a vida humana no planeta, pois além dos cadáveres voltarem a andar e terem como principal cardápio a carne humana dos vivos, as criaturas ainda tem o poder de transformar pessoas sadias em outros mortos vivos, através de um vírus contagiante.

“Não tente encontrar os amigos ou a família. Não tente ir às estações de resgate já identificadas, pois podem estar fora de operação. Estamos repetindo o aviso do órgão de prevenção de emergências das 23:00 horas do dia 23 de Agosto de 1989. Foi confirmado que os corpos dos mortos estão sendo reativados por forças desconhecidas. Estes corpos são fracos e sem coordenação, mas capazes de causar danos às pessoas e às propriedades. São considerados perigosos, especialmente quando em grupos. Podem ser inutilizados somente de uma maneira: pelo cérebro. Estes corpos reativados atacam animais de sangue quente de todas as espécies, incluindo seres humanos, sem nenhuma provocação, devorando a carne. Foram confirmados homicídios e canibalismos durante o dia de 23 de Agosto de 1989, atribuído, pelo menos em parte, a esses corpos reativados...” Mensagem de alerta das autoridades, transmitida pelo rádio

“A Noite dos Mortos Vivos” foi lançado em DVD no mercado brasileiro pela “Columbia Tristar Home Entertainment”, num disco de duas faces, sendo o lado “A” com as imagens em “widescreen”, e o lado “B” em tela cheia. Entre os materiais extras temos o comentário em áudio do diretor Tom Savini, um documentário de 25 minutos de duração chamado “The Dead Walk – Remaking a Classic”, escrito, produzido e dirigido por Jeffrey Schwartz, com depoimentos de Tom Savini, George Romero, Russ Streiner, John Russo, Tony Todd e Patricia Tallman, entre outros, além de trailers de um minuto com “A Noite dos Mortos Vivos” (90) e de dois minutos e meio com “Força Diabólica” (The Tingler, 59), produção em preto e branco de William Castle e com Vincent Price, e notas sobre a equipe de produção e os principais atores, destacando Tom Savini, George Romero, Tony Todd e Patricia Tallman. O fato negativo de todo esse interessante material extra é que tudo está disponível apenas na versão original em inglês, sem a opção de legendas em português.
Entre as curiosidades podemos citar que o produtor Russ Streiner (tanto do original quanto da refilmagem), que participou do filme de 1968 na seqüência de abertura no cemitério, como Johnny, o irmão gozador de Barbara, também apareceu rapidamente no filme de 90, próximo ao final, como um homem sendo entrevistado para a televisão, falando das façanhas ao exterminar os zumbis, sendo de forma não creditada em ambos os casos. E o ator Bill “Chilly Billy” Cardille apareceu também como um repórter em ambas as versões, tanto de 68 como a de 90.
A cena próxima do final, onde vários zumbis estão pendurados numa árvore e servindo de alvo para tiroteios dos sádicos caçadores de mortos vivos, estava prevista para aparecer no filme original, mas teve que ser cortada por causa das tensões raciais que agitavam os Estados Unidos na época, e a inclusão dessa cena na refilmagem foi uma homenagem.  
No documentário “The Dead Walk”, Tom Savini revelou que várias cenas violentas onde os mortos vivos eram alvejados na cabeça, evidenciando o sangue em profusão, foram censuradas e tiveram que ser substituídas na edição final por outras menos chocantes, além também de outras cenas fortes que foram cortadas, com os momentos mais perturbadores de horror gráfico aparecendo apenas “off screen”.

“Isto é alguma coisa que ninguém jamais ouviu falar a respeito, e ninguém jamais viu antes. Isto é Inferno na Terra” – Ben, definindo o caos instaurado pela invasão dos mortos

A Noite dos Mortos Vivos (Night of the Living Dead, Estados Unidos, 1990). Columbia Pictures. Duração: 86 minutos. Direção de Tom Savini. Roteiro de George A. Romero, baseado no roteiro original do filme homônimo de 1968, escrito por John A. Russo e George A. Romero. Produção de John A. Russo e Russ Streiner. Produção Executiva de Menahem Golan e George A. Romero. Música de Paul McCollough. Fotografia de Frank Prinzi. Edição de Tom Dubensky. Desenho de Produção de Cletus Anderson. Direção de Arte de James C. Feng. Efeitos Especiais de Everett Burrell e John Vulich. Elenco: Tony Todd (Ben), Patricia Tallman (Barbara), Tom Towles (Harry Cooper), McKee Anderson (Helen Cooper), William Butler (Tom Bitner), Katie Finneran (Judy Rose Larsen), Bill Mosley (Johnnie), Heather Mazur (Sarah Cooper), Pat Logan (Tio Rege), David Butler, Zachary Mott, Pat Reese, William Cameron, Berle Ellis, Bill “Chilly Billy” Cardille.   

(Juvenatrix - 13/11/2005)

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Minority Report - A Nova Lei (Minority Report, EUA, 2002)


Um dos escritores mais conhecidos e respeitáveis na literatura mundial de ficção científica é o americano Philip Kindred Dick (1928-1982). Em seu currículo figuram dezenas de romances e contos e algumas de suas histórias foram adaptadas para o cinema, tendo como destaques os filmes “Blade Runner – O Caçador de Andróides” (Blade Runner, 1982), dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, e “O Vingador do Futuro” (Total Recall, 1990), de Paul Verhoeven e com Arnold Schwarzenegger.
Dessa vez, é um conto escrito em 1956 que foi filmado e estreou nos cinemas brasileiros em 02/08/02. Trata-se de “Minority Report – A Nova Lei” (Minority Report), um thriller de ficção científica dirigido pelo especialista em entretenimento Steven Spielberg e protagonizado pelo astro Tom Cruise, na primeira vez em que trabalham juntos.
A história é ambientada numa Washington DC futurista onde em 2054 o índice de criminalidade é zero não ocorrendo assassinatos há seis anos devido à ação de uma divisão de elite da polícia chamada de “Pré-Crime”, que prende os infratores antes deles cometerem seus delitos. Isso é possível graças às informações de premonição captadas através de três paranormais mutantes denominados “Pré-Cogs”, frutos de um programa experimental secreto, onde suas visões são digitalizadas e utilizadas para identificar as futuras vítimas e respectivos assassinos antes da consumação efetiva dos crimes.
Liderando essa equipe especial está John Anderton (Tom Cruise), que acredita veementemente na credibilidade do sistema devido aos resultados obtidos e por questões pessoais já que teve uma tragédia familiar envolvendo seu filho e que culminou com a separação da esposa, Lara (Kathryn Morris), e com o início de seu vício em drogas para suportar seus conflitos interiores, e com a “Pré-Crime” ele poderia ajudar a eliminar a criminalidade.
Porém, tudo repentinamente muda quando ele próprio é denunciado como um futuro assassino, ao mesmo tempo em que um detetive do Departamento de Justiça, Danny Witwer (Colin Farrell), surge para questionar o sistema avaliando sua eficácia para uma possível implantação no resto dos Estados Unidos. Anderton é acusado de um futuro assassinato dentro de 36 horas de uma pessoa que ele nem conhece, e então passa a ser perseguido por seus ex-companheiros de polícia, liderados pelo oficial Fletcher (Neal McDonough).
Após muita correria, perseguições, tiroteios, fugas espetaculares, reviravoltas e surpresas na trama, a única saída de Anderton é tentar descobrir a verdade dos fatos, procurando respostas seqüestrando até a principal “Pré-Cog”, Agatha (Samantha Morton), e questionando agora a eficiência do sistema que ele sempre defendeu ou provar a existência de uma possível conspiração.
“Minority Report” é um thriller bem movimentado e complexo mostrando um futuro próximo com belíssimos prédios, estradas e carros que incitam nossa imaginação (apesar do acelerado ritmo de modernização tecnológica em curso, acho particularmente difícil atingirmos o estágio proposto no filme daqui há 50 anos). Tom Cruise é um bom ator e está novamente muito bem no papel do policial atormentado pela perda do filho que passa de caçador à caça devido à acusação do programa de “Pré-Crime” que tanto ele defendeu, e o elenco ainda tem as presenças marcantes do veterano Max Von Sydow como Lamar Burgess, o diretor da organização e personagem com importante participação na trama, de Peter Stormare como o debochado cirurgião de transplantes ilegais de olhos (nessa época todos os cidadãos são reconhecidos pela leitura da íris ocular), e da veterana Lois Smith como a Dra. Iris Hineman, a criadora do projeto experimental dos “Pré-Cogs”.
Os efeitos especiais são de grande qualidade, principalmente na visualização em tela de cristal das imagens premonitórias dos videntes, na reprodução da imponente cidade futurista e na seqüência onde várias pequenas aranhas cibernéticas invadem um prédio à procura de John Anderton utilizando suas funções de reconhecimento dos olhos de todos os moradores.
Uma curiosidade é o fato do personagem de Tom Cruise ter seu rosto deformado novamente, nesse caso para ajudar em sua fuga utilizando o efeito temporário de uma química injetada na face, pois em seu filme anterior, o igualmente thriller de ficção científica “Vanilla Sky”, um fato similar aconteceu com o personagem David Aames que sofreu um acidente de carro e teve seu rosto desfigurado. 
“Minority Report” é uma bem sucedida parceria entre o rei de bilheterias Steven Spielberg e o astro Tom Cruise, que vem mostrando cada vez mais suas qualidades interpretativas (como na refilmagem de “Guerra dos Mundos”, em 2005, também de Spielberg). É uma produção longa em seus 146 minutos, porém com uma história inteligente baseada em obra do escritor Philip K. Dick, evidenciando um roteiro ágil, interessante, movimentado e repleto de situações que prendem a atenção do espectador, apresentando a complexidade de um futuro possível para a humanidade, e garantindo um excelente entretenimento.              

Observação: O filme foi exibido pela primeira vez na televisão aberta em 26/12/05, pela TV Globo, na sessão “Tela Quente”. 

(Juvenatrix - 2002)

terça-feira, 12 de maio de 2020

O Tesouro do OVNI (Top Line, Itália / Colômbia, 1988)


É inegável que boa parte do cinema fantástico bagaceiro italiano é divertido, pois temos uma infinidade de filmes tranqueiras com roteiros repletos de absurdos, para a satisfação dos apreciadores do estilo. Um exemplo disso é a tralha “O Tesouro do OVNI” (Top Line, 1988), já começando pelo título brasileiro no mínimo hilário. É uma co-produção entre Itália e Colômbia (as filmagens ocorreram em Cartagena, na região caribenha do país sul americano) dirigida por Nello Rossati (sob o pseudônimo Ted Archer), e que apesar da grande semelhança com meu sobrenome, não é meu parente.
A história é uma salada misturando elementos de aventura com ficção científica, explorando diversas temas como civilizações perdidas (o ouro dos astecas) com queda de disco voador, passando por robôs assassinos e alienígenas gosmentos hostis que querem invadir nosso planeta, além de conspiração governamental envolvendo o serviço secreto americano (CIA) e russo (KGB). Sem esquecer que a polícia e o exército colombianos são corruptos e ainda tem um nazista colecionador de tesouros.
Para completar, vale citar alguns nomes importantes que agregam muito valor ao elenco, como o ator italiano Franco Nero, com um currículo tão extenso que passa dos 200 filmes, e o veterano americano George Kennedy (1925 / 2016), outro rosto conhecido pela imensa carreira. Depois de tudo isso, dá para imaginar o nível de bizarrice, atiçando a curiosidade para ver o filme.
Um escritor falido e alcoólatra, Ted Angelo (Franco Nero), está na Colômbia pesquisando materiais para um livro sobre a história das civilizações que foram colonizadas pelos espanhóis nos séculos XV e XVI. Depois de ter contato com uma adaga asteca, ele decide procurar mais artefatos preciosos nas montanhas de Cartagena. Ele encontra uma caverna com uma caravela espanhola e uma nave espacial em seu interior, além de muitos objetos de ouro dos astecas.
A partir daí, o escritor aventureiro se envolve numa perigosa rede de intrigas e conspirações, acompanhado da jovem June (Deborah Barrymore), que conheceu depois do assassinato misterioso de seu amigo vendedor de antiguidades Alonso Quintero (William Berger). Eles são perseguidos por mercenários interessados no tesouro e agentes secretos interessados em ocultar a existência do OVNI, enfrentando problemas com sua editora, a ex-esposa americana Maureen De Havilland (Mary Stavin), com um perigoso nazista antiquário, Heinrich Holzmann (George Kennedy), e um robô alienígena assassino (Rodrigo Obregón).  
“O Tesouro do OVNI” é uma produção de baixo orçamento e roteiro hilário de tão ruim. Começa basicamente como um filme comum de aventura tendo o primeiro terço meio arrastado, apesar dos tiroteios e perseguições, e um destaque é a perseguição insana entre jipes numa estrada estreita nas montanhas. Porém, o que realmente irá despertar interesse para os apreciadores do cinema bagaceiro está na metade para o final, onde temos uma maior relevância para os elementos de ficção científica tranqueira, garantindo a diversão com uma grande quantidade de bizarrices. Principalmente com um ciborgue tosco no estilo “Exterminador do Futuro” e um alienígena gosmento (filmado propositalmente com cenas escuras para esconder os defeitos), concebido com aqueles efeitos especiais típicos da década de 80 do século passado, sem o artificial uso de imagens geradas por computador.
O filme foi lançado no Brasil na época dos vídeos VHS, pela VIC e também recebeu o nome alternativo original “Alien Terminator”.

(Juvenatrix – 12/05/20)




sexta-feira, 8 de maio de 2020

Cujo (EUA, 1983)


“Agora existe um novo nome para o terror”

O popular escritor Stephen King, autor de dezenas de livros de sucesso de horror, também é um dos que mais possui histórias adaptadas para o cinema. Ainda no início dos anos 80, um de seus primeiros trabalhos literários transformado em filme foi “Cujo” (Cujo, 1983), a partir de seu livro homônimo escrito dois anos antes, com direção de Lewis Teague, veterano cineasta nascido em 1938 e responsável por filmes como “Alligator – O Jacaré Gigante (80) e “Olho de Gato” (85), este também baseado na obra do “mestre do horror moderno”.

Cujo é o nome de um imenso cão da raça São Bernardo, aquele conhecido por suas características de resgate e salvamento de pessoas em regiões ermas, e com a imagem associada ao fato de levar um pequeno barril no pescoço. O cachorro é o animal de estimação de um garoto chamado Brett Camber (Billy Jayne), que vive num sítio nas proximidades de uma pequena cidade do interior no norte dos Estados Unidos, em Castle Rock, no Estado do Maine (local onde se passa a maioria das histórias de King). O garoto mora com sua mãe, Charity (Kaiulani Lee), uma mulher infeliz no casamento com Joe (Ed Lauter), um mecânico de automóveis egoísta que só está preocupado com seus interesses pessoais, deixando a família para segundo plano.
Ao perseguir um coelho pelo mato, Cujo acaba entrando com a cabeça numa caverna infestada de morcegos doentes, onde um deles morde seu nariz e lhe transmite a terrível raiva. Aos poucos, o anteriormente dócil cachorro vai se transformando num monstro assassino, com os olhos vermelhos, babas e gosmas escorrendo pela boca, e com o pêlo todo sujo e manchado de sangue, num aspecto extremamente ameaçador.
Enquanto isso, a ação volta-se paralelamente para uma família comum formada pelo casal Vic Trenton (Daniel Hugh Kelly), um publicitário bem sucedido mas que está enfrentando uma crise no trabalho, e pela bela Donna (Dee Wallace Stone), uma esposa adúltera que está tendo um romance com um marceneiro que presta serviços para a família, Steve Kemp (Christopher Stone). Eles ainda tem um filho pequeno, Tad (Danny Pintauro), que insiste em dizer que seu armário oculta um monstro imaginário.
Após a ocorrência de uma série de eventos coincidentes, a mãe e seu filho acabam tornando-se prisioneiros em seu próprio carro do raivoso cachorro, ávido por sentir o sabor de suas carnes na boca gosmenta. Os proprietários do sítio estão fora de casa, com Charity Camber indo visitar sua irmã com o filho Brett, e com Joe indo gastar o dinheiro ganho numa loteria numa viagem para Boston com o amigo Gary Pervier (Mills Watson), onde na verdade eles foram brutalmente atacados por Cujo antes de viajarem. Já Vic Trenton descobre a traição de sua esposa e decide fazer uma viagem de negócios, e Donna aproveita a oportunidade para levar seu carro com problemas mecânicos para o sítio de Joe, na intenção de consertá-lo.
A partir daí, o cachorro doente e assassino passa a ameaçar violentamente Donna e seu filho Tad, obrigados a ficarem presos em seu próprio carro quebrado, isolados num sítio distante e sem ninguém para socorrê-los, tendo ainda o agravante do menino sofrer de crises respiratórias que colocam ainda mais sua vida em risco, além do imenso cão tornar-se cada vez mais insano e agressivo com o passar do tempo e principalmente em reação ao barulho dos gritos de suas vítimas desesperadas.

Enfatizando a tagline promocional do filme, reproduzida no início desse texto, realmente “Cujo” faz por merecer seu nome associado ao terror, pois todas as cenas envolvendo sua participação como um cão assassino enlouquecido são de tirar o fôlego e causar pesadelos. Basta imaginar a terrível transformação de um animal de estimação inicialmente manso para uma criatura enraivecida e descontrolada, avançando mortalmente com os dentes afiados contra o pescoço de seus donos e todos que o cercam, passando de “o melhor amigo do Homem” para seu maior carrasco.
A longa sequência de claustrofobia em que uma mãe e seu filho estão presos dentro do próprio carro com pane mecânica, isolados e sem ter como fugir, sendo ferozmente vigiados o tempo inteiro e atacados por um cão que quer matá-los, é o grande destaque do filme, reservando ótimos momentos de tensão e suspense (aqueles em que o cão choca-se violentamente contra a porta do carro, na tentativa insana de entrar em seu interior, e arrebentando sua própria cabeça contra a superfície sólida do veículo são especialmente perturbadores). 
As cenas de mortes são poucas, mas carregadas de intensa violência de um animal enfurecido rasgando a carne de suas vítimas. Com seu pêlo todo ensanguentado e sujo de lama, e sua boca expelindo fluídos gosmentos, sua aparência assustadora contribui significativamente para associá-lo à figura de uma monstruosa fera assassina.      

“Cujo” foi lançado no mercado brasileiro de DVD no início de 2004, distribuído em bancas com preço popular, encartado na revista “DVD Collection” ano 2, número 15, da Editora “Van Blad”. O disco traz apenas o filme em formato de tela “Fullscreen” e legendas em português, sem nenhum material extra.
Seguem algumas curiosidades. Numa cena podemos ver o desenho animado “Scooby-Doo”, criado em 1969 pela dupla William Hanna e Joseph Barbera, sendo exibido na televisão para a audiência do garoto Tad. Outra curiosidade é que o filme teve locações nas cidades de Mendocino, Petaluma e Santa Rosa, no Estado da California, conforme informa os créditos de agradecimento dos produtores nos letreiros finais. A atriz Dee Wallace Stone, protagonista principal de “Cujo”, nasceu em 1949 e foi casada com Christopher Stone (que coincidentemente fez o papel de seu amante Steve no filme). Ela foi creditada sem o sobrenome Stone, e seu marido morreu em 1995, vítima de um ataque cardíaco. Sua filmografia é bastante significativa dentro do gênero fantástico, tendo atuado em filmes como “Quadrilha de Sádicos” (77), “Grito de Horror” (81), “E.T. – O Extraterrestre” (82), “A Hora das Criaturas” (86), “Popcorn” (91) e “Os Espíritos” (96). Já o veterano ator Ed Lauter, nascido em 1940, tem quase 120 filmes em seu currículo, e entre eles, “Tropas Estelares 2” (2004), continuação do sucesso do cinema em 1997 e lançado em DVD no Brasil, onde faz o papel de um general. 

Cujo” (Cujo, Estados Unidos, 1983). Duração: 91 minutos. Direção de Lewis Teague. Roteiro de Don Carlos Dunaway e Lauren Currier, a partir de história homônima de Stephen King. Produção de Daniel H. Blatt e Robert Singer. Fotografia de Jan de Bont. Música de Charles Bernstein. Edição de Neil Travis. Desenho de Produção de Guy J. Comtois. Efeitos Especiais de Rick Josephsen. Efeitos Visuais de Peter Knowlton. Elenco: Dee Wallace Stone (Donna Trenton), Danny Pintauro (Tad Trenton), Daniel Hugh Kelly (Vic Trenton), Christopher Stone (Steve Kemp), Ed Lauter (Joe Camber), Kaiulani Lee (Charity Camber), Billy Jayne (Brett Camber), Mills Watson (Gary Pervier), Sandy Ward, Arthur Rosenberg, Jerry Hardin, Merritt Olsen, Terry Donovan Smith, Robert Elross, Robert Behling, Clare Nono, Daniel N. Blatt.

(Juvenatrix - 11/07/2004)

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O Peixe Assassino (Killer Fish, Itália / França / Brasil, 1979)


Entre meados dos anos 70 e 80 do século passado, foram lançados muitos filmes explorando o tema de animais marinhos assassinos, inspirados pelo sucesso comercial de “Tubarão” (Jaws, 1975), de Steven Spielberg. Além da própria franquia criada por esse filme que se tornou um clássico, com três sequências lançadas em 1978, 1983 e 1987, tivemos ainda vários outros filmes como “Orca: A Baleia Assassina” (1977), “Piranha” (1978), “Piranhas 2: Assassinas Voadoras” (1981), “O Último Tubarão” (1981), “O Peixe Assassino” (Killer Fish, 1979), entre outros.
Esse último é uma bagaceira co-produzida pela Itália, França e Brasil, com direção de Antonio Margueriti (sob o pseudônimo Anthony M. Dawson), cineasta responsável por divertidas tranqueiras italianas de ficção científica dos anos 60 como “Destino: Espaço Sideral” e “O Planeta dos Desaparecidos”, lançadas num único DVD por aqui pela “Works Editora” por volta de 2007. As filmagens ocorreram em Angra dos Reis (RJ), e no elenco temos nomes conhecidos do cinema americano como Lee Majors (o ciborgue da nostálgica série de TV “o Homem de Seis Milhões de Dólares”, 1974 / 1978), James Franciscus (“De Volta ao Planeta dos Macacos”, 1970), e Karen Black (“A Casa dos 1000 Corpos”, 2003).
Na história, um grupo de ladrões americanos de joias está no Brasil, formado principalmente por Lasky (Lee Majors) e Kate Neville (Karen Black), além do mentor Paul Diller (James Franciscus), ex-funcionário de uma refinaria de óleo que tem esmeraldas guardadas num cofre. Eles roubam as pedras preciosas após explodirem reservatórios de combustível na usina, aproveitando a confusão do incêndio. Para despistar as autoridades policiais, eles escondem as pedras no fundo de um lago, para retirarem somente depois que os movimentos de busca diminuíssem.
Mas, o lago está repleto de piranhas, causando atritos e desconfiança no grupo de ladrões e espalhando o horror para quem entrasse nessas águas, incluindo um barco de turismo que ficou à deriva depois de enfrentar a fúria de um tornado. O barco estava levando entre seus passageiros uma equipe profissional de sessão de fotos, com o fotógrafo irritante Ollie (Roy Brocksmith), a modelo Gabrielle (Margaux Hemingway) e sua empresária Ann (Marisa Berenson).
“O Peixe Assassino” tem um roteiro muito simples e cheio de clichês, contando uma história banal sobre ladrões de joias, com intrigas e traições entre eles, e com o elemento de horror como pano de fundo através de piranhas assassinas comendo gente num lago (aproveitando a onda no cinema naquele período, explorando criaturas aquáticas carnívoras). O primeiro terço do filme é bastante arrastado, até que finalmente acontece a primeira morte sutil provocada pelas piranhas. Mas, infelizmente elas somente irão sangrar a tela com um pouco de violência mais para o final. Aliás, num total de 100 minutos de projeção, poderia ter uma redução de pelo menos 15 minutos, eliminando vários momentos tediosos sem envolver os peixes assassinos, que certamente são o maior interesse no filme.
Os efeitos especiais são bem toscos, mas garantem alguma diversão com as filmagens utilizando maquetes e miniaturas no desastre da refinaria, e no rompimento de uma barragem por um tornado falso, com uma consequente inundação que espalhou piranhas para todos os lados. Também tem o fato hilário da performance totalmente desinteressada de Lee Majors, um dos principais nomes do elenco, que no meio de cenas que deveriam ser carregadas de tensão, com a ameaça mortal das piranhas, ele parece excessivamente tranquilo e alheio ao perigo, eliminando qualquer credibilidade nos momentos de ataques.  
O filme recebeu também outro título por aqui, “Perigo no Lago”, quando foi exibido na televisão. É uma produção de baixo orçamento com história ambientada no Brasil e tem algumas curiosidades como a menção ao dinheiro da época (final dos anos 70), o cruzeiro, e a aparição no desfecho de um avião comercial da Varig, empresa que controlou boa parte da aviação brasileira e que agora não existe mais. O ator italiano Anthony Steffen (1930 / 2004), conhecido pelas inúmeras participações em filmes do gênero “spaghetti western”, também fez parte do elenco de “O Peixe Assassino”.
Apesar de todos os muitos defeitos, “O Peixe Assassino” ainda vale uma conferida pelas cenas sangrentas com as piranhas e pela curiosidade geral da ambientação da história no Rio de Janeiro.

(Juvenatrix – 07/05/20)





sexta-feira, 1 de maio de 2020

Devorado Vivo (Eaten Alive, EUA, 1976)


O diretor americano Tobe Hooper (1943 / 2017) é um nome bastante conhecido no cinema de Horror, mas teve uma carreira irregular, alternando entre filmes significativos e sempre lembrados pelos fãs, com outros de qualidade menor e geralmente esquecidos. Seu maior trabalho certamente é o eterno clássico “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), com sua história sangrenta que iniciou uma extensa franquia e contribuiu como inspiração e influência para uma grande produção que veio a seguir.
Sua filmografia inclui títulos como “Poltergeist, o Fenômeno” (1982), apesar que nesse caso os rumores indicam que boa parte da direção foi do produtor Steven Spielberg, além de outros filmes divertidos como o “slasher” “Pague Para Entrar, Reze Para Sair” (1981), a ficção científica “Força Sinistra” (1985), e o violento “Devorado Vivo” (Eaten Alive, 1976).
A história desse último é bem simples. Numa pequena cidade americana, um veterano soldado perturbado, Judd (Neville Brand, rosto conhecido pela série de TV de Western “Laredo”), é o dono de um hotel fuleiro chamado “Starlight”, localizado num pântano com um lago sinistro habitado por um enorme crocodilo sempre faminto e à espera da carne de animais ou dos eventuais hóspedes do hotel.
Para entrar no cardápio do réptil assassino, temos uma família em crise formada pelo estranho pai, Roy (William Finley), a histérica mãe Faye (Marilyn Burns, que já tinha sido a “scream queen” de “O Massacre da Serra Elétrica”) e a filha pequena Angie (Kyle Richards). Além também de Harvey Wood (Mel Ferrer), um pai de família com uma doença terminal, que junto com a filha Libby (Crystin Sinclaire), está procurando desesperadamente sua outra filha desaparecida, Clara (Roberta Collins). Para completar o time de hóspedes (ou vítimas), ainda temos o jovem arruaceiro Buck (Robert Englund, que mais tarde seria o popular vilão Freddy Krueger na franquia “A Hora do Pesadelo”) e sua namorada Lynette (Janus Blyth). E para investigar as mortes misteriosas temos o Xerife Martin (Stuart Whitman, da série de TV de Western “Cimarron”, e que faleceu em 16/03/2020 aos 92 anos).
Com o sucesso de “O Massacre da Serra Elétrica”, o diretor Tobe Hooper ficou em evidência e criou-se grande expectativa para seu próximo filme. Porém, numa comparação, é inevitável salientar que o conjunto da obra de “Devorado Vivo” é bem inferior. Mas ainda assim, o filme é bastante divertido e um destaque na carreira de Hooper pela alta dose de violência nas mortes sangrentas, pelas cenas de nudez gratuita e pelo elenco interessante, com muitos rostos conhecidos e atores experientes, pois além de todos os nomes já citados anteriormente, ainda temos Carolyn Jones, a Morticia da série de TV “A Família Addams”, no papel da Srta. Hattie, a proprietária de um bordel.
O roteiro, co-escrito por Kim Henkel (também de “O Massacre...”), foi inspirado num caso real de um “serial killer” que supostamente matava pessoas e alimentava seus jacarés de estimação com os cadáveres. Em “Devorado Vivo”, quase todas as ações se passam no hotel, com os hóspedes sendo violentamente atacados pelo perturbado Judd, portando uma enorme foice, lutando para não servirem de comida para o crocodilo. Os efeitos também são bem toscos, apesar que o réptil carnívoro de borracha ainda é muito mais interessante que os similares artificiais gerados por computador vistos numa infinidade de filmes modernos.
As filmagens foram feitas em estúdio, com pouca iluminação e a montagem dos cenários de um hotel barato e uma piscina simulando um lago onde vive o crocodilo falso, com o uso de muita névoa artificial para criar uma atmosfera sinistra e ajudar a esconder os defeitos de uma produção de baixo orçamento. O filme teve vários outros nomes alternativos como “Death Trap”, “Horror Hotel”, “Slaughter Hotel” e “Starlight Slaughter”.

(Juvenatrix – 01/05/20)





sexta-feira, 24 de abril de 2020

A Besta de Yucca Flats (The Beast of Yucca Flats, EUA, 1961, PB)


No cinema fantástico bagaceiro existem aqueles filmes que de tão ruins e mal feitos acabam proporcionando entretenimento hilário, sendo cultuados ou constantemente lembrados pelos apreciadores do estilo, justamente pela produção paupérrima, roteiros absurdos, elencos inexpressivos e efeitos toscos, tudo de forma não proposital. E também tem outros filmes com todas essas mesmas características, mas nem ao menos conseguem divertir. “A Besta de Yucca Flats” (The Beast of Yucca Flats, 1961) faz parte desse último grupo, e a única coisa que garante um pouco de diversão é a presença do grandalhão Tor Johnson, sem dizer uma palavra, como o monstro do título. Tanto a direção quanto o roteiro são de Coleman Francis (1919 / 1973), que também colocou sua família, esposa e filhos, para participar do filme, tornando o resultado final ainda mais patético.   
 Na verdade não existe um roteiro, apenas um fiapo, um esboço mal desenvolvido. A história é sobre um cientista soviético, Joseph Javorsky (Tor Johnson, de outras bagaceiras dos anos 50 como “A Noiva do Monstro”, Plano 9 do Espaço Sideral” e “Noite das Assombrações”), que vai para os Estados Unidos no auge da guerra fria, entregar documentos secretos para os americanos, sobre a chegada da União Soviética na Lua. Mas, ele sofre um atentado por agentes espiões da “cortina de ferro” no deserto de Yucca Flats, no Estado de Nevada, onde são realizados testes de armas atômicas. Com a explosão de uma bomba nuclear, o cientista desertor é afetado pela exposição à radiação e se transforma na fera irracional do título.
Vagando a esmo pelo deserto e matando pessoas inocentes pelo caminho, o monstro persegue uma família em férias no local formada pelo pai, Hank Radcliffe (Douglas Mellor), a mãe Lois (Barbara Francis), e os dois filhos pequenos, Art (Alan Francis) e Randy (Ronald Francis). Porém, o cientista distorcido é caçado por uma dupla de policiais, Joe Dobson (Larry Aten) e Jim Archer (Bing Stafford).
“A Besta de Yucca Flats” só tem defeitos, nada se salva, e talvez vale a curiosidade em conhecer essa tranqueira apenas pela presença hilária do ator sueco Tor Johnson no papel da besta assassina. Um narrador (o próprio diretor Coleman Francis) tenta explicar a história, explorando a ideia da paranoia nuclear do conturbado período da guerra fria entre Estados Unidos e a antiga União Soviética, com o medo constante de explosões de bombas atômicas e seus efeitos devastadores, seja diretamente nas ondas de choque ou na exposição de radiação.
Tem uma cena inicial extremamente bizarra e completamente aleatória, não tendo relação com a história. É o assassinato de uma mulher por estrangulamento num quarto, logo após o banho. Só existe para mostrar uma mulher pouca vestida. O excesso de narração é cansativo. As filmagens não tiveram som, todos os poucos diálogos foram inseridos na pós-produção, e não estão sincronizados com as falas dos personagens. O filme é muito curto, apenas 54 minutos, mas que parecem intermináveis. As filmagens tem planos muito longos e arrastados, numa história em que não acontece nada de interessante, passando para o espectador um inevitável sentimento de tédio.
A esposa do diretor, Barbara Francis, faz o papel da mãe da família perseguida pelo monstro. Ela é péssima atriz, sempre agindo como um zumbi, não expressando emoções nem quando os filhos estão desaparecidos, perdidos no deserto. O cientista transformado em monstro pela radiação poderia (e deveria) ser muito mais ameaçador e cruel, e não tão patético. A maquiagem de Tor Johnson deve ser uma das mais paupérrimas da história dos filmes bagaceiros.
Curiosamente, tem uma referência direta para o clássico de Alfred Hitchcock “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959), com Cary Grant, na cena onde um avião em baixa altitude persegue um homem correndo por sua vida pelo deserto.      

(Juvenatrix – 23/04/20)