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sexta-feira, 27 de julho de 2018

De jogos e festas, José J. Veiga

De jogos e festas, José J. Veiga. 190 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

Desde 2015, quando se comemorou o centenário do nascimento do fantasista goiano José J. Veiga (1915-1999), e o catálogo do autor passou a integrar o acervo da Companhia das Letras, que iniciou a republicação de suas obras em uma coleção dedicada ao autor. Foram publicados em 2015 a coletânea Os cavalinhos do Platiplanto e os romances A hora dos ruminantes e Sombras de reis barbudos. Depois de um pequeno hiato, a coleção seguiu em frente em 2016 com o lançamento da coletânea De jogos e festas, publicada originalmente em 1980. O acabamento segue o padrão da coleção, com a capa ilustrada por Deco Frakas, mas sem capas duras desta vez.
Trata-se de uma seleta com apenas três textos, sendo duas novelas e um conto, além de um posfácio assinado por José Castello, em que comenta curiosidades sobre o autor e sua obra, principalmente a amizade com o também escritor João Guimarães Rosa.
Em respeito a opinião do autor, o volume não tem prefácio – o que é explicado por Castello –, e entra de cara na novela que dá nome ao livro e toma quase a metade de suas páginas. Esta é uma história de contornos realistas, em torno do mistério da morte de Vicente, cuja solução passa a ser o obsessão de seu irmão mais novo, Mário, que retornou à cidade natal depois de um período de afastamento. Há uma série de detalhes que o autor tece em torno desse mistério e de suas consequências familiares e sociais, mistérios estes que vão alterando a percepção e o comportamento de Mário que, aos poucos, vai assumindo a personalidade do irmão para tentar entender os motivos e o causador de sua morte, envolvendo-se com seus amigos, e demais pessoas de sue passado. A narrativa tem momentos oníricos característicos das obras de Veiga, mas sem a proposital indefinição do tempo da ação: desta vez, quando é sonho, sabemos que é.
Bem no centro do livro, temos o conto curto "Quando a Terra era redonda", o texto mais fantástico do volume. É escrito em forma de um artigo, como se fosse um texto de estudo acadêmico. Nele, o estudioso comenta, em algum momento do futuro distante, sobre as característica do mundo no tempo em que a Terra era redonda, pois em sua época ela não é mais: tornou-se chata assim com o tudo o que antes era arredondado. Assim, discute como, no passado, deveria ser a percepção de um mundo redondo, algo quase incompreensível para os habitantes do futuro. O texto é divertidíssimo, e dialoga com o clássico da ficção científica Planolâdia, do escritor britânico Edwin A. Abbott (1838-1926).
A segunda metade do volume é ocupada pela novela "O trono no morro", uma espécie de versão veiguiana a Grande Sertão: Veredas, de seu grande amigo Guimarães Rosa. O início do texto tem um tom de fantasia medieval, que vai se justificar ao final da leitura. A história é sobre Quintino que, quando jovem, foi "recrutado" pelo bando de Gumercindo Frade, cangaceiro violento que o inicia na arte da bala. Quintino sonha em voltar a vida pacífica e previsível de agricultor da qual foi sequestrado, mas seu talento com as armas acaba por torná-lo uma referência no grupo cangaceiro. Até o dia em que, depois de uma tocaia à traição que dizimou o bando, Quintino consegue escapar e se torna um pacato comerciante numa cidadezinha esquecida. O rumo da história muda radicalmente, saindo das correrias e tiroteios para uma relação social estável com a comunidade, onde Quintino vai encontrar o amor e a realização pessoal, bem como as tragédias da vida ordinária, que são tão ou mais dolorosas que aquelas enfrentadas no cangaço. Resta a Quintino a fuga para dentro de si mesmo.
Veiga nunca decepciona seus leitores. Trata-se de um verdadeiro gigante da narrativa, que faz emergir o maravilhoso das situações mais corriqueiras. Porque, afinal, a vida é por si só um milagre e cada detalhe dela é, em si, um fato tão fantástico quanto improvável, conforme o ponto de vista. Ponto de vista este que Veiga, como um experiente fotógrafo, é mestre em focalizar.
Cesar Silva

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Shiroma Matadora Ciborgue


Shiroma Matadora Ciborgue, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Nelson de Oliveira. Capa de Vagner Vargas. 241 páginas. São Paulo: Devir, 2015.

     
Desde 2008 Roberto de Sousa Causo escreve uma série de histórias no chamado Universo Galaxy, com aventuras militares espaciais na melhor tradição da space opera, com aventuras, intrigas políticas e muita tecnologia. De início elas foram pensadas para serem protagonizadas pelo Capitão Jonas Peregrino, mas pouco depois foi incorporada também uma segunda personagem, Shiroma, uma ciborgue treinada para matar.
Tanto Peregrino como Shiroma lideram histórias próprias dentro deste universo ficcional, não tendo, pelo menos até o momento, interagido um com o outro de forma direta. Habitam um mesmo contexto, situado no século XXV, em que a humanidade está profundamente envolvida na expansão e colonização da Via Láctea, nas chamadas Zonas de Expansão, sendo a região da Esfera a maior e mais rica, embora contestada pelos Tadai, alienígenas misteriosos que não mostram o seu rosto.
O universo ficcional de Peregrino e Shiroma contraria, em parte, o futuro de consenso, uma das convenções da FC norte-americana, de que no futuro a humanidade explorará o cosmos politicamente unida. A referência mais popular ao conceito é a série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek). Em parte, porque a humanidade continuou dividida politicamente, entre a América Latina – ao qual pertence o militar e a assassina –, os Norte-Americanos, os Asiáticos e os Euro-Russos. É de se pensar que, para que quatro alianças na Terra tenham condições de se expandir pelo espaço de forma autônoma, o nível de afluência econômica e de produção científico-tecnológica seja mais alto do que jamais chegou antes o capitalismo em sua história. Se em termos políticos, de fato, pode fazer mais sentido a continuidade da competição e conflito entre diferentes povos da Terra, em termos econômicos, por outro lado, uma solução de consenso – de juntar forças – faria mais sentido. A construção do consenso é muito difícil, mas a escassez de recursos poderá, talvez, levar, senão a uma união, a parcerias estratégicas em torno de objetivos comuns.
Embora Causo tenha desenvolvido bastante as aventuras de Peregrino, numa série intitulada “As Lições do Matador”, publicando ao menos quatro contos e o romance Glória Sombria (2009), em termos cronológicos de publicação a primeira aventura é de Shiroma, com o conto “Rosas Brancas”, em 2008. Isso porque, como afirma Causo no posfácio, ele escreveu este conto para a série de revistas “Portal”, de Nelson de Oliveira, embora ainda não tivesse consciência de que poderia partilhar o mesmo universo ficcional de Peregrino. Foi com a sequência dos seis contos publicados na série que ele incorporou Shiroma ao Universo Galaxys, acrescentando, assim, uma segunda protagonista e, mais interessante, com uma segunda linha narrativa – e levada à frente por uma mulher.
Shiroma Matadora Ciborgue reúne onze histórias com a personagem, cinco delas publicadas pela primeira vez neste volume. Elas estão dispostas em ordem cronológica das aventuras e não, necessariamente, na sequência em que foram publicadas. Foi uma decisão acertada, pois o leitor pode acompanhar de forma mais coerente os diferentes momentos vividos pela personagem e seu próprio desenvolvimento, muito embora algumas situações anteriores sejam lembradas em cada uma das histórias. Pode também ser considerado um romance fix-up, ao reunir diversas histórias de um mesmo universo ficcional.
Shiroma, na verdade não é seu nome de batismo. Quando criança chamava-se Bella Nunes, e foi sequestrada por um misterioso casal de criminosos Tera e Tiago, que passou a criá-la para torná-la uma espiã e matadora, a serviço dos seus interesses. A criança despertou atenção e cobiça pelo fato de ser um protótipo de um ciborgue com sistemas biocibernéticos supereficientes e indetectáveis. Sua primeira história “Rosas Brancas”, mostra como foi desenvolvida por seu pai, e retirada de sua mãe, morta por Tera e Tiago. O que fica claro desde o início é que Bella Nunes foi uma criança que perdeu a sua liberdade, ou nunca a teve, pois cresceu para se tornar um instrumento de interesses escusos.
A cada missão a rebatizada Shiroma mostra-se extremamente eficiente em eliminar seus alvos, fazendo uso tanto de suas habilidades como lutadora, como também de suas vantagens cibernéticas. De certo modo conta a seu favor também o fato de ser uma garota recém-saída da adolescência, surpreendendo seus oponentes que se deixam enganar por seu sexo e aparência frágil. Pois vemos esta situação se repetir em várias histórias, embora com a sucessão das missões seus oponentes passem a ver Shiroma mais segura e consciente do que representa. Isso se torna mais claro em histórias como “Arribação Rubra”, “Tempestade Solar” e, sobretudo a última, “Renegada”.
O que torna Shiroma uma personagem interessante é que ela não se transformou apenas numa máquina assassina, tão sem caráter quanto os criminosos que a criaram. Mesmo sendo utilizada para atividades ilegais, ela se ressente desta condição e se questiona a todo o momento. Sabe que o que faz é errado, que o casal que a criou não presta, e imagina como poderá, em algum momento, se desvencilhar desta situação de submissão. Recuperar, de certo modo, seu futuro que foi desviado, após o assassinato de sua mãe. Simbólico deste objetivo é a relação que estabelece com uma concha do mar, achada num planeta anônimo, ainda bem jovem. Sempre nos momentos difíceis ou de reflexão ela imagina falar com sua mãe ou com a criança inocente que foi um dia, ao ouvir a concha junto ao ouvido. Por onde vai, em cada missão num diferente canto da galáxia, a concha é a sua referência poética e ética do que poderia ter sido. Uma esperança de que poderá se libertar das garras que a aprisionam, e expressar sua verdadeira identidade.
Estas situações ambíguas de ilegalidade e retidão, força e fragilidade, violência e sonho, é o que estrutura a sua personalidade e a torna tão complexa e interessante, mesmo que seja difícil compreender como pôde conviver por tanto tempo com atividades tão vis sem se tornar também parte desta engrenagem de criminalidade e maldade. Lendo as histórias fiquei com uma sensação de que ela poderia romper este vínculo, sendo tão forte e hábil, não precisando se submeter ao casal de criminosos. Pois assim como ela amadurece como lutadora, também mudará sua relação de dependência com o casal, deixando seu destino aberto a novas possibilidades, conforme mostra a noveleta que encerra o volume, “Renegada”.
Uma história particularmente interessante é “A Extração”, pois é contada do ponto de vista de uma investigação no interior de uma nave espacial, para se descobrir o assassinato de um general num planeta gelado. É como se a missão de Shiroma fosse invertida, isto é, não se mostrou sua ação em si, mas as consequências do seu ato. Ela fica incógnita no interior da nave e é descoberta pelo diplomata Silvano Vieira de Mello, que terá suas próprias razões para decidir o que fazer com ela. Ele é o personagem principal desta história, uma homenagem ao renomado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, Alto Comissário dos Direitos Humanos da ONU, que estava cotado para se tornar Secretário-Geral, quando morreu num atentado da Al Qaeda no Iraque em 2003.
Numa comparação das duas linhas narrativas lideradas por Peregrino e Shiroma, constatamos que nas aventuras de Jonas Peregrino mostra-se mais o contexto macro, político, de disputa pelo poder e da ameaça representada pelos Tadais, que ameaçam a expansão humana. Neste cenário ele se coloca, muitas vezes, como se fosse uma espécie de referência ética involuntária, por força dos acontecimentos em que é envolvido, em meio às intrigas políticas e militares. Já com Shiroma temos o contexto mais miúdo das relações em sociedade, as culturas e o cotidiano dos lugares em que parte para realizar suas missões. Pois ela se insere num contexto marginal e criminoso, ao contrário do mais institucionalizado – embora não menos perverso – de Peregrino.
Na introdução Nelson de Oliveira disse que deseja ver Peregrino e Shiroma atuando juntos numa mesma história, e também compartilho desta possibilidade, muito embora acredite que Shiroma ainda tenha muito potencial próprio a desenvolver, talvez agora no formato de um romance, a partir do desfecho desta coletânea. Enfim, um ótimo exemplo de uma ficção científica espacial de primeira qualidade, pois para além do cenário espacial deslumbrante, ganha ainda mais relevo com as discussões éticas e políticas que dizem respeito, antes de mais nada, a nós mesmos.

– Marcello Simão Branco

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Essencial 2014 - Autores estrangeiros

No que se refere a livros de autores estrangeiros, a fantasia ainda é o gênero mais publicado, mas 2014 fica marcado pelo crescimento significativo dos títulos de ficção científica, enquanto a fantasia e o horror estiveram mais ou menos estáveis em relação a 2013. Esse crescimento particular da fc se reveste de importância ainda maior por conta da representatividade dos títulos publicados.
Na fantasia, o destaque vai para Elric de Melniboné: A traição ao imperador (Elric of Melniboné), do escritor britânico Michael Moorcock, publicado no Brasil pela Editora Évora no selo Generale. Trata-se do resgate oportuno de uma obra importante da fantasia mundial, originalmente publicada em 1972, de um dos mais expressivos autores do gênero, que andava esquecido pelas editoras brasileiras: o único livro do autor publicado aqui até então era A espada diabólica (Stormbringer), oitavo e último livro da mesma série, traduzido pela Francisco Alves nos anos 1970. Elric segue a linha da fantasia heroica que fez grande sucesso com Conan, de Robert E. Howard, embora os personagens sejam diametralmente opostos.
Contudo, as similaridades entre os dois universos são tantas que, nos quadrinhos, Elric chegou a contracenar com o bárbaro cimério. Stormbringer, a espada viva de Elric, é provavelmente a mais conhecida arma da literatura fantástica, ao lado de Excalibur. Também vale registrar a publicação de Discworld: Pequenos deuses (Small gods), de Terry Pratchett (1948-2015), pela Editora Bertrand Brasil, 13º volume dessa série de romances cômicos que é bastante conhecida dos leitores brasileiros.
Como já foi dito, 2014 foi o ano do ressurgimento ficção científica no Brasil, e a relação de livros essenciais é grande, a começar do megarromance Graça infinita (Infinite jest), de David Foster Wallace (1962-2008), publicado pela Companhia das Letras, ficção científica de contornos políticos e sociais considerada pela crítica como "o último grande romance do século 20" (ele é de 1996). Sua leitura é uma verdadeira maratona de mais de mil páginas, sem contar as 136 páginas do apêndice de notas, que é uma atração em si.
Graça infinita se insere na estética pós-moderna New Weird, assim como A cidade e a cidade (The city & the city), de China Miéville, que também chegou ao Brasil em 2014 pela Editora Boitempo, outro título reconhecido tanto pela crítica mainstream quanto pela especializada.
Battle royale, de Koushun Takami, pela Globo Livros, é outra publicação surpreendente. Primeiro porque é um dos raros exemplos da ficção científica japonesa traduzida no Brasil, segundo porque trata-se de um trabalho razoavelmente recente (o livro é de 1999) e extremamente violento, ao ponto de ter se tornado polêmico no país de origem. Apesar do brutalismo ser um estilo popular entre os autores brasileiros, o nível da violência em Battle royale extrapola todos os limites dos protocolos do gênero. Apesar disso – ou talvez por isso mesmo –, o romance fez uma bem sucedida carreira, com adaptações para os quadrinhos e para o cinema.
Mais ao gosto do leitor ocidental, a editora Intrínseca trouxe ao país, com tradução de Braulio Tavares, o romance Aniquilação (Annihilation), de Jeff VanderMeer, autor da moderna fc norte americana, publicado aqui meses antes de ganhar o prestigioso Prêmio Nebula. Trata-se do primeiro volume da trilogia Comando Sul, cuja segunda parte, Autoridade (Authority), já foi publicada em 2015 pela mesma editora. A história, repleta de mistérios, remete ao clássico Stalker, dos escritores russos Arkadi e Boris Strugastski, e é igualmente perturbadora.
Também surpreendeu a publicação de O círculo (The circle), de Dave Eggers pela Companhia das Letras, ficção científica na fronteira do mainstream, que discute com incômodo vigor a presença cada vez maior da vigilância tecnológica na sociedade moderna, sugerindo que os extremos denunciados por George Orwell em 1984 talvez não estejam tão longe de se tornarem realidade, se é que já não estão bem diante dos nossos narizes.
Dois clássicos inéditos no país marcaram presença nas livrarias em 2014: A nebulosa de Andrômeda (Andromeda nebula), livro de 1957 do escritor russo Ivan Efremov (1908-1972), pela pequena editora Polo Books, e a coletânea O salmão da dúvida (The salmon of doubt), trabalho póstumo e inacabado do britânico Douglas Adams (1952-2001), pela Arqueiro.
Para quem conhece estes autores, não há necessidade de maiores explicações: são leituras mais que obrigatórias.
No campo do horror, os destaques são pesos pesados: Doutor Sono (Doctor Sleep), de Stephen King – sequência ao clássico absoluto O iluminado (The shinning) –, pela Suma das Letras, e Outros reinos (Other kingdoms), um dos últimos trabalhos do sempre relevante Richard Matheson (1926-2013), pela Civilização Brasileira.
Este ano, um fato incomum revelou que há uma grande tempestade ao longe que pode mudar radicalmente o panorama da publicação de fc&f no Brasil. Nada menos que três editoras publicaram, simultaneamente, a coletânea The king in yellow, de Robert W. Chambers (1865-1933), influente clássico da literatura gótica publicado em 1895.
Pela Intrínseca e pela Clock Tower, o volume levou o nome de O rei de amarelo, e pela Arte & Letra, O sí­mbolo amarelo e outros contos. Isso aconteceu porque a obra de Chambers entrou em domínio público e as atentas editoras logo aproveitaram a oportunidade. Curioso é que todos os editores tenham escolhido justamente o mesmo título, sendo que Chambers, que foi um autor produtivo, tem muito mais para ser aproveitado. O fato é que todos estão esperando ansiosamente pelos grandes títulos estrangeiros caiam em domínio público, enquanto clássicos da ficção especulativa nacional seguem esquecidos. Decerto que há alguma lição para ser aprendida nisso tudo.
Cesar Silva

Essencial 2014 - Autores brasileiros

Até 2013, a fc&f no Brasil foi acompanhada de pertinho pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa missão está agora disseminada num grande número de iniciativas de fãs e acadêmicos, de forma que há muitas interpretações e análises circulando, especialmente na internet. Contudo, minha análise pessoal ainda pode ter algum valor para aqueles que gostam de discutir os lançamentos mais expressivos da literatura especulativa no Brasil. Assim sendo, vou exercitar aqui a minha opinião baseada na lista do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2014 - Lançamentos, recentemente publicado aqui.
Começando pelos autores brasileiros, o gênero da fantasia segue firme e forte como o preferido de autores, editores e leitores, tomando pelo menos metade dos lançamentos de ficção fantástica. É claro que caberia discutir os limites de cada gênero e até mesmo questionar se um determinado título faz parte ou não do rol das obras especulativas – há muitas definições e algumas delas são diametralmente opostas – mas tomo a liberdade de usar a minha: se não é claramente fc ou terror, é fantasia. E entram na definição as histórias de realismo mágico e fantástico.
Dessa forma, destaco, na fantasia, os livros A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado pela Companhia das Letras, e Os sóis da América, de Simone Saueressig, publicado pela autora em quatro volumes ao longo de 2013 e 2014. Ambas são autoras experientes no gênero, com diversos títulos publicados por grandes editoras. Socorro investiu num romance regionalista moderno que trata de costumes e tradições bem brasileiras, enquanto Simone fez um romance de alta fantasia em um continente americano povoado por seres mitológicos inspirados nas culturas de diversos povos, entre os quais os brasileiros, embora estes não sejam predominantes.
Também destaco o segundo volume da coletânea Hiperconexões: Realidade expandida, organizada por Luiz para a editora Patuá. Trata-se de uma proposta que, se não é de toda original, é bastante rara: uma seleta de poemas de ficção científica de diversos autores, todos explorando o tema do pós-humanismo. O primeiro volume foi publicado em 2013, pela editora Terracota.

Na ficção científica, Luiz Bras também sustentou uma boa posição com Distrito Federal, publicado pela Patuá, romance que o autor prefere chamar de rapsódia, uma fantasia tecnológica sobre a corrupção e suas consequências.
Também vale destacar A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares, publicação da LeYa Brasil/Casa da Palavra.
O romance foi vencedor da primeira edição do Prêmio Fantasy e inaugurou a coleção Brasiliana Steampunk.
Trata-se de uma ficção alternativa que reúne, numa mesma aventura, diversos personagens da literatura fantástica brasileira.
Entre as coletâneas, é impossível não voltar a Luiz Bras e sua Pequena coleção de grandes horrores, pela editora Circuito, um conjunto de narrativas muito curtas que brincam com ícones da cultura pop e dialogam com várias obras do gênero.

No horror, vale a pena buscar por As máscaras do pavor, do veterano escritor e roteirista R. F. Lucchetti, uma das maiores personalidades do gênero no país, muito conhecido por suas parcerias como o ilustrador Nico Rosso, nos quadrinhos, e com José Mojica Marins, no cinema. O romance é o primeiro de uma coleção do autor – conhecido como o homem dos mil livros – numa parceria das editoras Devaneio e Corvo.
Entre as coletâneas, vale registrar Flores mortais, de Giulia Moon, pela Giz Editorial e Sete monstros brasileiros, de Braulio Tavares, pela Casa da Palavra. A primeira reúne contos com as vampiras criadas pela autora, que é uma das melhores escritoras da Terceira Onda da ficção fantástica brasileira. A segunda é mais uma contribuição valiosa do experiente escritor paraibano Braulio Tavares, desta feita navegando no ainda pouco explorado panteão de criaturas assustadoras da mitologia nacional. 
Alguns dos títulos citados neste artigo dispõe de resenhas neste blogue, é só buscar pelos autores no índice de tags.
Cesar Silva

sábado, 23 de setembro de 2017

O cão de caça e outras histórias, Lovecraft & Gou Tanabe

O cão de caça e outras histórias, (The hound e other stories) H. P. Lovecraft & Gou Tanabe, 176 páginas, Editora JBC, São Paulo, 2015

O escritor americano H. P. Lovecraft (1890-1937) tornou-se, ao longo dos últimos trinta anos, um dos autores literários mais adaptados para os quadrinhos, concorrendo em prestígio com Edgar Allan Poe e Ray Bradbury.
Na coletânea O cão de caça e outras histórias, traduzida em 2015 pela Editora JBC, encontramos ótimas adaptações de três histórias clássicas do mestre do horror, com roteiro e desenhos intensos do mangaka Gou Tanabe.
Em "O templo" ("The temple"), num raro cenário de guerra na obra de Lovecraft, o último sobrevivente a bordo de um submarino alemão naufragado se vê diante dos portões e escadarias de uma cidade perdida nas profundezas do mar. "O cão de caça" ("The hound", também conhecido no Brasil como "O sabujo"), conta a história de dois amigos em busca de emoções bizarras que, ao encontrar um raro artefato numa sepultura, são amaldiçoados para sempre. "A cidade sem nome" ("The nameless city") fecha a edição, com o relato de um explorador que encontra, sob as areias do deserto, a necrópole de uma antiga civilização que ainda mantém segredos terríveis em seu interior.
Tanabe, que tem em seu currículo as séries Kasane, Mr. Nobody e The outsider, é senhor de um traço acadêmico realista que combina perfeitamente com o estilo das histórias tenebrosas de Lovecraft, em nada lembrando as caricaturas dos mangás mais populares.
Por enquanto, só tivemos a felicidade de encontrar esta edição no Brasil, mas há notícias que Tanabe adaptou mais histórias de Lovecraft. Tomara que as editoras nacionais traduzam mais trabalhos dessa série, que é uma das melhores já realizadas a partir da obra do Cavalheiro de Providence.
Cesar Silva

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Escuridão total sem estrelas, Stephen King

Escuridão total sem estrelas (Full dark, no stars), Stephen King. Tradução de Viviane Diniz. 390 páginas. Editora Objetiva, selo Suma das Letras, Rio de Janeiro, 2015.

A dúvida mais frequente entre o público leigo sobre o gênero do terror é se há alguma diferença entre "terror" e "horror". É provável que os dicionários considerem os dois termos como sinônimos e é isso mesmo. Contudo, os especialistas aproveitaram a diferença de grafia para definir "terror" como o nome do gênero de forma geral, que inclui todos os tipos de histórias que aterrorizam independente do agente do medo, enquanto que "horror" define especificamente aquelas cuja emoção emana de um vetor sobrenatural. Porque, é claro, existem muitas histórias em que o monstro não vem da mitologia, de outra dimensão ou de outro planeta: são pessoas normais, homens e mulheres que, como vemos todos os dias no noticiário policial, podem ser tão maldosos e degenerados quanto qualquer monstro de fantasia.
Dessa forma, seriam "de terror" as histórias de psicopatas, assassinos seriais, violência doméstica, perversões, tragédias fatais, canibalismo, etc, e como "de horror" as histórias de fantasmas, vampiros, lobisomens, alienígenas, zumbis etc que, geralmente, têm níveis de leitura mais ricos no campo metafórico.
Os livros assinados pelo escritor norte americano Stephen King são usualmente associados ao horror. E muitos deles são de fato vinculados ao sobrenatural. Contudo, King dá a todos eles um aspecto naturalista tão palpável que facilmente somos levados a questionar se estão efetivamente instalados nesse campo. Histórias como O iluminado (The shining), um de seus maiores sucessos, ficam na fronteira dessa definição, contemplando tanto a leitura fantástica quanto a naturalista, conforme a interpretação do leitor.
É o que acontece com as quatro histórias do autor que compõe a coletânea Escuridão total sem estrelas, publicada originalmente em 2010 nos EUA e traduzida em 2015 no Brasil pelo selo Suma das Letras da editora Objetiva. São histórias em que o maravilhoso se confunde com o psicológico e tudo o que parece sobrenatural pode ser apenas fruto da imaginação perturbada do protagonista.
A primeira história, "1922", é a mais longa e pesada do conjunto. Conta como uma família comum do meio-oeste americano, que sempre viveu mais ou menos bem, desmorona por quase nada, embora pareça quase tudo a princípio. Um fazendeiro, pressionado pela esposa que pretende vender as terras que herdou para morar na cidade grande, temeroso por perder suas próprias terras, planeja e executa, com a concordância do filho adolescente, o assassinato da mulher. Todos os cuidados que toma para não ser incriminado dão certo, mas ele não contava com a imaturidade do filho que engravida a namorada a quem ama profundamente e que, em tese, foi o argumento usado pelo pai para convencer o filho a ser seu cúmplice; e alguém que matou a própria mãe para não ser afastado de sua amada certamente não terá escrúpulos de passar por cima de qualquer outra dificuldade. O narrativa tem uma estrutura recorrente na obra do autor, como  visto por exemplo no conhecido romance O cemitério (Pet sematary), em que uma decisão equivocada do protagonista, ainda que decorrente de circunstâncias com as quais o leitor compactua, desencadeia uma série de eventos que, passo a passo, levam-no à perdição completa.
O segundo conto é "Gigante do volante", que tem um interessante viés metaliguístico. Autora de uma popular série de livros de detetive, ao retornar de uma palestra numa cidadezinha próxima de onde mora, é atacada e estuprada por um maníaco – o Gigante do Volante do título –  que acredita que a matou. Mas ela sobrevive e inicia uma cruzada de justiça para terminar de vez com a onda de violência que a vitimou. Mas, para isso, terá de se tornar ela mesma um monstro.
A seguir, encontramos o curioso "Extensão justa", um conto de humor negro que também aborda a questão da justiça. Um homem com câncer terminal encontra-se com um estranho vendedor ambulante que lhe oferece uma barganha com o que ele chama de "extensões" numa prosaica e bem pouco séria barraquinha de rua. No caso, o homem está interessado em estender sua vida um pouco mais, mas o vendedor exige, além de uma comissão de 10% de todos os seus ganhos futuros depositados uma vez ao ano numa conta no exterior, que indique alguém que irá receber o refluxo do mal que será tirado dele. Este aparenta ser o texto mais sobrenatural do livro mas, ainda aqui, podemos fazer uma leitura realista em que a aparição bizarra não seja real e esteja apenas na imaginação desesperada do personagem. Mas os resultados parecem indicar um pouco mais do que isso.
Fechando o volume, "Um bom casamento" conta como as coisas se encaminham entre um casal que tem o que parece ser um casamento perfeito há mais de 25 anos – financeiramente próspero e com filhos adultos e bem criados – quando a esposa encontra, por acidente, provas de que seu marido talvez seja um famigerado psicopata que assassinou diversas mulheres e crianças ao longo das últimas décadas.
Como acontece nos livros deste mestre do horror, os contos fazem inúmeras citações da cultura pop, como canções, livros, filmes de cinema e televisão, que cria um ambiente confiável e realista, e, em alguns casos, são fundamentais para se compreender o enredo. Nada está ali por acaso e, como nas mais elaboradas histórias de mistério, todo detalhe será aproveitado no final.
King diz no posfácio que este volume, ganhador dos prêmios Bram Stoker 2010 e British Fantasy 2011 de melhor coletânea: "Tentei dar o meu melhor em Escuridão total sem estrelas para mostrar o que as pessoas poderiam fazer, e como poderiam se comportar, sob certas circunstâncias terríveis", e é justamente esta a costura que alinhava estas quatro trabalhos tão diferentes entre si.
O que nos assusta de verdade em Escuridão total sem estrelas não é a violência e as mortes, sempre descritas com riqueza de detalhes dignas de uma imagem em alta definição, mas sim o fato de que, sob a mesma pressão, talvez nós também tenhamos talento para realizar coisas igualmente terríveis. O inferno não é o outro; está dentro de nós pronto para emergir: é só ter o motivo certo. Como diz King ao final de seu posfácio: "...acredito que a maioria das pessoas é essencialmente boa. Sei que eu sou. É quanto a você que não tenho tanta certeza". Touchê!
Cesar Silva

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Objetos turbulentos, José J. Veiga

Objetos turbulentos: Contos para ler à luz do dia, José J. Veiga, 157 páginas, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 1997.

Obra derradeira do mestre da fantasia brasileira José J. Veiga (1915-1999), a coletânea Objetos turbulentos traz uma estrutura de tal modo coerente que é quase certo que foi, desde o começo, planejada para ser publicada e lida em bloco. São onze textos independentes entre si, mas solidamente amarrados, que revelam mistérios por trás de objetos comuns do cotidiano que, por alguma circunstância bizarra, assumem contornos quase sobrenaturais, muitas vezes levando tragédia a seus proprietários.
"Espelho" é um dos textos mais perturbadores do volume, embora o desdobramento da trama não leve a um destino especialmente nefasto. Casal é enfeitiçado por um espelho antigo adquirido em um antiquário. O tema não é novo e já apareceu mais de uma vez na literatura brasileira, mas ganha aqui um contorno naturalista.
"Cachimbo" também é um texto forte sobre o preconceito nosso de cada dia. Um negro, operador da bolsa de valores, tem uma vida boa e tranquila até que decide começar a fumar cachimbo, até que, apesar de suas convicções, decide pitar em público.
"Cadeira" traz um objeto assombrado para a vida de um decorador que por ela se apaixona. A piedade de seu proprietário original, um famoso bispo, influencia quem, nela se acomoda a ter crises profundas de tristeza e culpa.
"Manuscrito perdido" é o texto mais divertido do conjunto. Um escritor entra em crise criativa depois de perder, durante uma viagem, o manuscrito de um conto que ele avaliava como sua obra prima. Três anos depois, para sua alegria e desespero, o manuscrito retorna às suas mãos.
Em "Vestido de fustão", um vendedor de tapetes, ao visitar uma cliente, tem uma epifania ao cruzar com uma jovem desconhecida na escadaria do condomínio. Tenta, então, reencontrar a garota que parece não existir de fato.
"Caderno de endereços" narra a tragédia de um jovem estudante apaixonado pela Alemanha que, depois de muito preparo finalmente tem a chance de realizar o sonho de visitar o país. Porém, um prosaico e inocente caderno de endereços vai se tornar um grande problema quando ele chama a atenção do governo nazista.
"Cantilever" conta a história de um menino muito criativo e irrequieto, que tem a mania de inventar palavras.
Em "Luneta" um jovem fotógrafo torna-se voyeur ao se deparar com uma luneta de alta performance. Mas o que ele vai entender é que, quando olhamos muito para dentro da escuridão, a escuridão também olha dentro da gente...
"Tapete florido" é outro conto sobre um objeto enfeitiçado. Esposa, depois de muito insistir, finalmente consegue que o marido compre um tapete novo para a sala de visitas. Mas apesar de muito belo, a estampa do objeto tem o poder de levar a mulher a um estado alterado de consciência, no qual ela tem percepções do passado e do futuro, e sofrer de profunda melancolia. Este conto também dialoga com uma série de outros da nossa literatura, como o famoso "A caçada", de Liga Fagundes Telles.
"Pasta de couro de búfalo" mostra a ascensão de um jovem empresário que enriquece graças ao tino comercial inato. Mas, ao se envolver com uma famosa cantora de ópera, sua credulidade nos poderes de sua pasta de couro entra em choque com a paixão pela dama, levando-o a um destino trágico.
"Cinzeiro", que fecha a edição, também tem um viés cômico. Mostra como um jovem e destemido membro da brigada revolucionária gaúcha que acompanhou Getúlio Vargas ao Rio de Janeiro, constrói sua rede de influência na capital. De um de seus contatos, ganha um cinzeiro feito de uma granada desativada, pelo qual se apaixonou de imediato, pois era perfeito para acompanhá-lo em seus longos períodos de leitura de romances policiais e consumo de charutos. Mas o objeto trazia em si um risco inesperado.
Os contos são leves e, mesmo os mais trágicos, não chegam ao horror. A leitura sobrenatural, apesar de possível, é imprecisa, podendo ser percebida mais como fenômeno psicológico, como nos contos "Espelho", "Cadeira" e "Tapete florido". Temas recorrentes do autor aparecem aqui diluídos no tratamento leve e realista, sem o perfil de pesadelo e violência que aparecem em seus textos mais antigos, exceto por "Cachimbo" que, mesmo assim, não chega estabelecer um mistério inexplicável. Os cenários geralmente campestres e interioranos de Os Cavalinhos de Platiplanto e A estranha máquina extraviada também cedem lugar a ambientes cosmopolitas, nos quais os objetos adquirem mais relevância que os próprios personagens.
Objetos turbulentos é, portanto, um livro diferenciado, ainda que mantenha a poderosa carga psicológica característica da obra do mestre.
Cesar Silva

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Os cavalinhos do Platiplanto, José J. Veiga

Os cavalinho do Platiplanto, José J. Veiga. Edição original de 1959. Edição avaliada: Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2015.

Aprendi a admirar a literatura de José J. Veiga (1915-1999) quando era ainda adolescente. Incentivado por uma mãe bibliotecária, li muita ficção fantástica desde a infância e logo escrevi meus próprios contos. Alguns desses primeiros textos foram parar nas mãos do Dr. Miller, então Secretário de Cultura de Santo André, e foi este senhor que, ao me receber em sua casa, recomendou a leitura do autor. Os primeiros livros de Veiga que li  foram o romance A hora dos ruminantes (1966) e a coletânea Os cavalinhos do Platiplanto (1959), que a Editora Companha das Letras está oportunamente republicando em uma coleção caprichada em comemoração ao centenário de nascimento deste autor goiano (veja post aqui).
A nova edição de Os cavalinhos do Platiplanto – prefaciada por um excelente ensaio crítico de Silviano Santiago – reúne os primeiros contos escritos por Veiga, que estreou tardiamente na literatura, aos 44 anos de idade. São doze contos ao todo, que relatam situações ligadas a vida em pequenas comunidades do interior brasileiro, nas quais a fantasia e o inusitado de imiscui de forma natural e harmônica.
O primeiro conto, "A ilha dos gatos pingados", relata um momento na infância de três garotos que, para fugir da violência doméstica, constroem um refúgio secreto num banco de areia no meio do rio. Apesar do romantismo, o relato da violência pelo qual passa um dos personagens é de cortar o coração.
O segundo texto, "A usina atrás do morro", é uma história icônica na obra de Veiga, em muito similar a seu texto mais conhecido, o já citado A hora dos ruminantes. Conta a reação que a chegada de uma grande e misteriosa indústria causa numa pequena comunidade rural, relatada por um dos moradores, um jovem que tenta entender por quê a promessa de desenvolvimento teve de vir acompanhada de uma violência que beira à insanidade. Contudo, diferente da conclusão redentora do romance, o conto é muito mais duro e distópico.
O texto que empresta o nome ao livro também tem uma criança como narradora, que conta como a promessa frustrada de ganhar um cavalo do avô o leva a sonhar com uma fazenda mágica na qual os cavalos mais lindos do mundo são todos seus. O estilo de Veiga já se manifesta aqui, sem definir as fronteiras entre sonho e realidade, na forma como as crianças enxergam o mundo.
"Era só brincadeira" é o que poderíamos chamar de um texto absurdista. Durante uma pescaria, um homem resgata do rio um velho cano de espingarda que vai se transformar num bizarro caso de polícia com um final trágico. Ainda bem que era tudo brincadeira. Ou não?
"Os do outro lado" é uma história de fantasmas na tradição das casas mal assombradas. Mas, sendo Veiga, nada é exatamente o que parece.
"Fronteira" é o menor texto do livro, mas não menos potente. Conta como um menino, que tem a missão de conduzir os viajantes por caminhos nos quais só os meninos sabem andar, deixa de ser menino.
"Tia Zi rezando" fala de um menino que vive um mistério doméstico. Criado pelos tios, ele passa por diversas situações inexplicáveis, sempre ligadas a um segredo que ninguém tem coragem de contar.
"Professor Pulquério" conta a transformação de intelectual obcecado pela lenda de um tesouro enterrado em algum lugar nos arredores da pequena cidade onde mora. O final desconcertante é um dos raríssimos casos de final surpresa que não estraga o conto em si, antes pelo contrário, emprestando a ele uma leitura absolutamente diversa.
Em "A Invernada do Sossego" dois meninos irmãos esperam ansiosamente pela volta do cavalo de estimação que fugiu da fazenda. Mas o cavalo não volta nunca e eles terão de ir encontrá-lo na tal Invernada do Sossego, um lugar que talvez só exista na imaginação das crianças.
"Roupa no coradouro" é, de longe, a história mais melancólica da seleta e conta como a culpa pode se instalar para sempre no coração de uma criança inocente.
"Entre irmãos" relata o incômodo encontro de dois irmãos que não se conhecem, enquanto a mãe deles agoniza no quarto ao lado.
Em "A espingarda do rei da Síria", outra história de laivos absurdistas, um caçador que perdeu a espingarda encontra a redenção de sua tragédia pessoal numa realidade mágica.
Apesar de um predomínio de personagens juvenis e da narrativa singela, as histórias de Veiga não se limitam a esse público de forma alguma: todas tratam de temas complexos e espinhosos. Paralelos entre a fantasia e a violência, o sonho e a frustração, estão presentes em diversos textos do volume, sendo de fato uma assinatura estilística do autor.
Além de Os cavalinhos do Platiplanto e A hora dos ruminantes, A Companhia das Letras promete republicar toda a obra de Veiga, que inclui peças de horror, fantasia, ficção científica e até de história alternativa: A máquina extraviada (coletâna, 1967), Sombras de reis barbudos (romance, 1972), Os pecados da tribo (romance, 1976), O Professor Burim e as quatro calamidades (romance, 1978), De jogos e festas (coletânea, 1980), Aquele mundo de Vasabarros (romance, 1982), Torvelinho dia e noite (romance, 1985), A casca da serpente (romance, 1989), O risonho cavalo do príncipe (romance, 1993), O relógio Belizário (romance, 1995), Tajá e sua gente (romance, 1997) e Objetos turbulentos (coletânea, 1997). O que é uma bênção para os fãs de Veiga, pois as edições são luxuosas, impressas em papel pólem de alta gramatura, encadernadas em capas duras com ilustrações de Deco Farkas, além de trazerem valiosos ensaios discutindo a obra em questão e uma grande lista de leituras complementares. Sem dúvida, uma publicação importante que trata o autor e a obra com respeito e consideração que merecem.
Cesar Silva

terça-feira, 15 de novembro de 2016

O Incrível Homem que Encolheu

O Incrível Homem que Encolheu (The Incredible Shrinking Man), Richard Matheson. 343 páginas. Tradução de Jacqueline Valpassos. Capa de Rodrigo Valpassos. Osasco: Editora Novo Século, 2010.


Nos últimos anos a editora Novo Século fez um ótimo trabalho ao publicar no país boa parte da obra de Richard Matheson. Primeiro republicou seu livro mais conhecido, o clássico Eu sou a Lenda (I am Legend, 1954), em 2007, no embalo do lançamento da terceira adaptação cinematográfica da história, acompanhado por vários dos seus melhores contos, num volume um tanto incomum, ao misturar um romance seguido por narrativas curtas. Já em 2009 lançou o inédito Hell House: A Casa Infernal (Hell House, 1971), romance impactante de horror, que também foi bem adaptado para o cinema, no início dos anos 1970. E em 2010 surgiu no Brasil outro texto clássico: O Incrível Homem que Encolheu, que também é seguido por vários dos seus notáveis contos de ficção científica, numa história por ele adaptada ao cinema. Sob a direção de Jack Arnold, é um dos melhores da safra gloriosa de filmes de FC da década de 1950.
Norte-americano nascido em 1926 e falecido em 2013 Richard Matheson foi um dos mais talentosos autores do gênero surgidos a partir dos anos 1950, ainda que não tenha ganhando tantos prêmios e popularidade como contemporâneos seus como, por exemplo, Philip K. Dick e Robert Silverberg. O autor, ao que parece, seguiu uma trajetória peculiar, semelhante à de Ray Bradbury, embora mais constante, de escrever textos excelentes em gêneros afins, como a ficção científica, a fantasia sombria e o horror, sendo que boa parte deles recebeu competentes adaptações para o cinema e a televisão, realizadas por ele mesmo. Não é à toa, por exemplo, que Matheson e Bradbury roteirizaram episódios para séries cultuadas como Além da Imaginação e Galeria do Terror, entre outras.
Este volume traz, além de O Incrível Homem que Encolheu, mais nove histórias curtas, entre contos e noveletas. Embora a motivação para esta resenha seja o romance, aproveitarei para analisar também as outras histórias.
Mesmo não sendo o seu primeiro romance publicado, O Incrível Homem que Encolheu (de 1956) tornou o autor mais conhecido, devido à versão para o cinema, em 1957. Mesmo assim, em termos de estrutura narrativa, é mais semelhante a um conto do que a um romance. Existe uma ideia principal que é explorada à exaustão: num belo dia, o infortunado Scott Carey recebe uma nuvem radioativa num passeio de barco e pouco depois começa a encolher inexoravelmente. Mesmo com esta estrutura talvez mais afeita a um texto mais enxuto, a extensão da história nos dá a chance de acompanhar de forma comovente os detalhes da profunda transformação da vida do personagem, em todos os aspectos: biológico, social, sentimental, existencial.
De seus 1m 82 cm, Scott Carey vai continuamente diminuindo de tamanho para espanto e assombro de sua esposa, de seu irmão, de sua filha e dos médicos que tentam curá-lo de todas as maneiras. Por fim, descobrem a causa de seu encolhimento, uma mistura entre pesticidadas e radiação numa combinação específica, mas mesmo retardá-la mostra-se uma tarefa frustrante e impossível.
Ao invés de contar a história de uma forma linear, como a realizada pela adaptação cinematográfica, o leitor é surpreendido com dois momentos: Dele já minúsculo, definhando dos centímetros para os milímetros e preso no interior de um agora gigantesco porão, e ao seu processo contínuo de diminuição em que aos poucos perde o emprego, tem seu feliz casamento destruído, torna-se vítima de toda sorte de infelicidades e crueldades, como quando tem de ser livrar de um pedófilo, de um grupo de adolescentes que o humilha e ao tornar-se atração do jornalismo sensacionalista. Desta maneira, Matheson deixou o drama mais intenso, além de enriquecer os dois momentos, num processo gradativo de aproximação entre um e outro.
Nesta história, Matheson retoma o tema do herói solitário e desafortunado que tem de lutar contra um mundo inteiro, tornando-se ele o diferente da norma. Mas se o Robert Neville, de Eu Sou a Lenda transforma-se um pária dentro de uma nova realidade, a Scott Carey nem isso é possível, pois ele é o único ser humano a conviver numa realidade cada vez mais macroscópica e hostil, numa dimensão de solidão e desamparo ainda maior.
Stephen King, que sempre o cita como uma de suas grandes influências, tentou realizar algo semelhante quando escreveu, sob o pseudônimo de Richard Bachman, o romance A Maldição do Cigano (Thinner, 1984), adaptado para a TV. Aqui com uma premissa de horror, um sujeito obeso atropela por acaso a mãe de um cigano e este o amaldiçoa com a perda inexorável de peso. Assim como Carey, Billy Halleck procura por todos os meios cessar o processo, primeiro com a ciência, depois com o sobrenatural. King adota uma narrativa linear, ao contrário de Matheson, mas a linha dramática da história é semelhante.
Por sua crueza e fatalismo, O Incrível Homem que Encolheu é mais triste e assustador, ainda que não seja depressivo. É que não há como deixar de se compadecer do drama e das agruras crescentes de Scott Carey em sobreviver nesta autêntica maldição que o acometeu. Se no ambiente externo, social e familiar, ele se torna uma aberração, encolhendo diariamente, tornando-se um anão e menos que isso, no porão tem de enfrentar dificuldades mais vitais, como alimentos, roupas e abrigo e meio a um ambiente selvagem e surpreendentemente inóspito. Sua grande batalha é com uma aranha viúva-negra que tenta arrastá-lo para a sua teia durante a maior parte da história. Por sinal, a capa da edição brasileira deixa de representar este combate mais importante para se fixar no gato da casa que não chega a representar uma grande ameaça a Carey. Ainda que a capa não seja ruim, acredito que não tenha sido a melhor decisão retirar a aranha da ilustração principal, conforme vista nas primeiras edições do romance e no cartaz do filme.
Já o texto é efetivo em sua simplicidade, fluência e exatidão descritiva, longe de perder-se numa autopiedade emocional e em grandes introspecções. Dentro deste contexto, há passagens dramáticas também belas, especialmente quando Carey conhece uma linda anã num circo e percebe que continua tendo os desejos de um homem além de, mais adiante, redescobrir outro sentido para a vida, depois de encolher a ponto de não ser mais visto a olho nu.
Scott Carey não se deixa abater – apesar de cogitar o suicídio algumas vezes –, e é em sua luta por sobrevivência que a narrativa adquire um grande alcance moral. Viver, continuar a despeito das maiores dificuldades e sofrimentos. Até que a sua nova e ínfima condição tenha uma justificativa própria, como ele mesmo atesta ao descobrir que o seu processo de diminuição não o torna menos inteligente e, sobretudo, menos humano. O Incrível Homem que Encolheu é um romance com premissa de ficção científica de dimensão metafísica e um desenvolvimento de pleno horror e superação, na jornada de Carey rumo ao desconhecido.

*
Depois de ler uma história tão forte o melhor teria sido colocar o livro de lado e deixar-se absorver por suas emoções e implicações despertadas. Pelo menos é isso o que costumo fazer após a leitura de um livro especialmente interessante, como este que contém O Incrível Homem que Encolheu. Porém, o livro continua com mais nove histórias e isso provoca uma sensação de estranheza e certo desconforto, pois queria reter a última impressão do volume após ler a história título.
É possível que a intenção da Novo Século tenha sido de economizar, pois deve ter comprado alguns volumes de contos junto com os romances e ficou com receio de lançar as coletâneas como títulos próprios. Pode fazer sentido, mas seria melhor para o leitor saber desde o início que teria em mãos uma coleção de histórias curtas e não um romance seguido delas. Se foi este o motivo, não deveria haver receio com um autor deste calibre.


Em todo caso, após o desconforto inicial, o prazer da leitura é reiniciado, pois as demais histórias mantém o ótimo nível. São contos e noveletas escritas nas décadas de 60 e 70, as mais produtivas de sua carreira. Algumas delas são mesmo chocantes ao explorar os limites da miséria humana como em “O Teste”, “O Distribuidor” e “A Caixa”. No primeiro, em um futuro próximo, devido a uma superpopulação de idosos eles começam a ser eliminados quando se mostram senis ou inúteis para a sociedade. A narração enfoca o tema a partir de um filho que vê seu pai prestes a passar pela sinistra prova. Já a segunda mostra a figura de um sujeito que muda para uma vizinhança e procura se mostrar simpático e prestativo demais, até que suas reais intenções começam a se revelar de forma insidiosa. É uma curiosa variação sobre a figura do diabo. E na terceira história um estranho pacote é deixado na porta da casa de um casal. Após descobrirem que podem lucrar com uma caixa contida no seu interior, nem que com isso provoquem a morte de estranhos, a mulher é vencida pela curiosidade com consequências surpreendentes. Este conto recebeu uma boa adaptação para o cinema em 2009, estrelado por Cameron Diaz.
A maioria destas histórias está mais próxima do horror, não necessariamente sobrenatural e sim mais psicológico, com situações extremas a que são colocados os personagens, em especial em “Encurralado”. Muito conhecida através da adaptação para a TV norte-americana realizada pelo então jovem desconhecido Steven Spielberg, o texto de Matheson mantém o suspense de tirar o fôlego, numa história arrepiante. Uma obra-prima.
Neste volume, Matheson mostra, invariavelmente, pessoas lidando com grandes adversidades, ou em alguns casos, sendo o agente dela. No fundo, o mundo é um lugar muito hostil e indiferente às necessidades e dramas humanos; mas também o homem pode, por vezes, agir neste mesmo mundo para torná-lo ainda mais cruel para as outras pessoas ou seres vivos.

Marcello Simão Branco

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escuridão Total sem Estrelas

Escuridão Total sem Estrelas (Full Dark, No Stars), Stephen King. 390 páginas. Tradução de Viviane Diniz. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015.


Quando vi o livro em uma livraria pensei que se tratava de mais uma obra sobre a ausência de luz. Afinal, Escuridão Total sem Estrelas sugere isso, ainda mais pelo design do livro, com capa e contra-capa preta e as folhas pintadas de preto em sua espessura. E o efeito é marcante. Se assim fosse, faria companhia a autores tão bons e diversos como o nosso André Carneiro (1922-2014), o inglês John Wyndham (1903-1969) e o português José Saramago (1922-2010).
Tal impressão me agradou pela perspectiva de ver um autor como King abordar o tema, mas se desfez quando percebi que as quatro histórias – duas novelas e duas noveletas – tratavam, isto sim, da escuridão da alma humana. Nas sombras que habitam em cada um de nós, nos pensamentos escuros, ruins que temos vez por outra, especialmente quando diante de grandes problemas ou dificuldades. Normalmente afastamos rapidamente tais pensamentos – nos reprimindo por tê-los –, mas nas narrativas deste livro, King mostra como tais alternativas más podem, eventualmente, se tornar tentadoras, e aflorarem. Para a ilusão de um alívio imediato que se transforma num pesadelo de proporções inimagináveis.
Este fato é especialmente verdadeiro no caso da primeira história, “1922”. Por causa de uma disputa em torno da herança de uma propriedade, um casal se desentende, pois ele quer incorporar o terreno à fazenda em que já vivem, e ela quer vender para recomeçar a vida na cidade. De saída já sabemos que as coisas tiveram o pior desfecho, já que ele, num quarto de hotel, anos depois escreve uma confissão de como tramou com o filho adolescente a morte da sua esposa e mãe de seu filho. Colocar esta novela como a primeira do livro foi muito arriscado pois é extremamente chocante, tanto pelo ato em si, pela violência desencadeada e, principalmente, pelo que acontece depois na vida do pai e do filho. Confesso que tive de parar a leitura em certos momentos e, embora ficasse com a narrativa remoendo na cabeça durante o dia, me incomodava a perspectiva de enfrentá-la depois, mesmo querendo saber o que iria acontecer. Tudo vai mal para os dois, e a tentativa de escrever a confissão parece sugerir uma certa expiação do pai pelo ato em si e por ter incluído o pobre do fillho. Além de ser uma história pesada e violenta é muito triste. Dos textos mais fortes que li de Stephen King. E olha que li boa parte do que ele já escreveu.
“Gigante do Volante” conta a história de uma escritora que após apresentar uma palestra em uma biblioteca numa cidadezinha do interior do Maine, é surpreendida quando um pneu de seu carro fura na estrada. Até aí nada demais, mas surge um homenzarrão para ajudá-la. Sim, ele troca o pneu, mas não fica só nisso. Ela é estuprada e espancada, e só escapa porque finge estar morta. Para seu horror é colocada dentro de um cano de esgoto num matagal ao lado dos corpos de outras vítimas do monstro. A partir daí ela descobre que existe uma outra persona de si mesma, como se nascesse uma nova, pois o que faz nada tem a ver com a pacata escritora de histórias de suspense adocicado. Mas o mais inacreditável ainda está por vir, na figura da bibliotecária que a havia contratado, e sua ligação com o estuprador. Embora King não defenda que se faça justiça com as próprias mãos é uma história que toma partido da vítima e a justificativa para seus atos.
De certa forma isto ocorre também – e de forma ainda mais terrível – na novela que fecha o volume, “Um Bom Casamento”. Num dia qualquer uma mulher vai até a garagem da casa em busca de um par de pilhas para o controle remoto da TV, e descobre que seu amado e fiel marido é um serial killer. Ela encontra casualmente os documentos de uma das vítimas do famoso assassino que se identifica como Beadie. O que fazer? Esta pergunta a move durante todo o tempo, principalmente depois que o próprio marido descobre que ela soube de seu segredo, e nada faz contra ela. Como que a pedir um pacto em nome do casamento, dos filhos e, claro, pela própria vida dela. A solução encontrada pode ser discutível, mas é amplamente justificada. Principalmente em nome das muitas mulheres que ele estuprou, mutilou e assassinou ao longo de quase quarenta anos.
A terceira narrativa é a única com um elemento sobrenatural. Em “Extensão Justa”, um doente de câncer vê a chance de sobreviver ao fazer um acordo improvável com um camelô à beira da estrada. Ele nota que o vendedor nada vende, apenas fica sentado em uma cadeira e expõe sobre uma mesinha uma plaquinha com os dizeres: “extensão justa” que, no caso, se trata de oferecer um período a mais daquilo que mais se deseja. Pode ser tempo, dinheiro, carreira, amor, saúde. Claro que existe uma contrapartida, e deve haver uma transferência. No caso, alguém deve ser prejudicado, uma pessoa que seja odiada pelo beneficiado. Após uma breve hesitação ele afirma que é seu amigo de infância que deve receber tudo de ruim que paira sobre ele. Afinal, roubou sua primeira namorada e é muito mais bem sucedido economicamente. Com o pacto o câncer vai embora, sua vida financeira melhora, e seu amigo perde a esposa – a mesma antiga namorada – de câncer, um de seus filhos morre num acidente e outro fica seriamente doente, além da vida financeira da família piorar muito. O que espanta nesta história é como o personagem que faz o acordo com o Diabo é insensível a tudo o que acontece com seu amigo, com o qual ele continua convivendo. Ele vai ficando mais saudável e feliz quanto mais desgraças acontecem com o objeto de seu ódio.
Como observa Stephen King no seu ótimo posfácio, a pergunta recorrente que inspirou cada uma destas histórias é a de que ninguém conhece verdadeiramente outra pessoa, por mais presente, íntima ou amada que ela seja. Claro que o desconhecimento não precisa ser sobre algo necessariamente ruim, mas esta é a premissa do livro, quer dizer, mesmo de quem jamais desconfiaríamos coisas muito más podem surgir. É o que descobre a mulher brutalmente morta em “1922”; o que a escritora descobre sobre si mesma após ser violentada; a esposa feliz que, de repente descobre que seu marido é o oposto radical do que acreditava; e o cara que também descobre em si mesmo o bem estar de fazer o mal a alguém que sempre lhe foi bem próximo. Ora, em “1922” o tema motivador das ações é a ganância; em “Gigante do Volante” é a vingança; em “Extensão Justa” é a inveja e em “Um Bom Casamento” estamos diante de uma situação de ilusão, de auto-engano.
Para nossa fortuna Stephen King escreve muito e é profusamente publicado no Brasil. A qualidade de sua obra é acima da média, ou seja, mesmo um King menor muitas vezes é mais interessante do que outros autores no melhor de sua forma. Escuridão Total sem Estrelas recebeu os prêmios Bram Stoker e British Fantasy em 2010 na categoria “melhor coletânea”, e se distingue como um grande momento do autor. As quatro narrativas propõe uma questão fundamental e como cada personagem vai responder de acordo com suas circunstâncias e motivações. Um livro com histórias poderosas, que desestabiliza os personagens, transformando de forma definitiva suas vidas e, sobretudo, incomoda e perturba o leitor. Quantos escritores são capazes disso?

– Marcello Simão Branco

sábado, 16 de julho de 2016

O Livro dos Contos Enfeitiçados

 O Livro dos Contos Enfeitiçados, Martha Argel. 166 páginas. São Paulo: Landy Editora – Coleção “Novos Caminhos: Literatura Fantástica”, 2006.


Esta coletânea de Martha Argel reúne sete contos que podemos classificar entre a fantasia tradicional e a sombria (dark fantasy), mas antes de analisar as histórias, chamo a atenção para a qualidade gráfica e editorial do livro. Uma bela ilustração de capa de Camila Mesquita, plenamente de acordo com a proposta da obra. Também a diagramação moderna e o tamanho do volume, em formato pocket, não muito habitual no mercado editorial brasileiro. Vale destacar ainda a pequena introdução da autora, didática e inteligente, situando e justificando o tema central da obra, a magia, tanto para o mundo racional, como para o fantástico.
    A noveleta “Amarelo... Amarelo” abre a coletânea. Nos mostra uma mulher que é obrigada a cuidar temporariamente de sua sobrinha de apenas três anos, depois da morte de seus pais em um acidente de carro. Pessoa solitária e egoísta, detesta a situação mas aos poucos se impressiona com uma certa semelhança da criança com ela própria. Contudo, o elemento fantástico da trama é a cor amarela. Beatrix, a menina, só gosta de amarelo e tem   poderes de transformar o que deseja nesta cor.
A narrativa acontece com muita desenvoltura e segurança, o que a torna interessante e agradável de se ler. O tema em si não é tão criativo e é possível que nas mãos de um autor menos sensível deixasse a desejar, o que não é o caso da autora.
      O conto seguinte é uma pérola, “Eu Detesto Futebol”. Um grupo de bruxas com nomes de flores e que se reúnem em um Jardim, resolvem acabar com o futebol, pois é um rival com a qual não podem competir pela atenção de seus maridos. Contudo, há os efeitos inesperados e invariavelmente perversos, afinal retirado o futebol fica o quê no lugar?
     Pois seus maridos inventaram outras ocupações ‘desagradáveis’, como clube do charuto, boxe e pinturas psicodélicas nas paredes da casa, para suprir a ausência do tão amado esporte bretão. Assim, elas resolvem recolocar as coisas nos seus lugares, pois, afinal, o problema não é, de fato, o futebol. Narrado em primeira pessoa por uma das bruxas, o texto remete diretamente ao contraste entre o universo subjetivo e misterioso das mulheres e o universo expansivo e mundano dos homens.
     Escrito em 1974, a história é rica por suas nuances, como os costumes alimentares e culturais da época, especialmente nostálgico para quem a viveu. Gostaria muito de ter publicado este conto em minha antologia Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998) e, se tiver a chance de relançá-la um dia, esta história está, desde já, selecionada.
     “O Verdadeiro Poder” vem a seguir e nos conta sobre a experiência de uma bruxa que ajudou um bruxo a salvar sua amada das garras de um demônio. A história se ancora em duas máximas: 1) Em troca do poder que possui os bruxos não podem amar e 2) o amor é o verdadeiro poder. Ou seja, eles alteram a realidade exterior com poderes sobrenaturais, mas o poder interior de transformação só os humanos mortais têm.
     É um conto em que o fantástico assume o primeiro plano, embora trabalhe com temas humanos, como o amor e a solidão. Apesar do texto correto, a história não entusiasma, talvez por parecer um pouco forçada no propósito de mostrar como poderia ser a atividade de feiticeiros em nosso cotidiano contemporâneo.
     O que já não é o caso do próximo conto, “O Olho Vermelho”. Esta uma história mais pendente para o horror, no qual o sobrenatural está a espreita, se insinua, mas não de forma explícita, sempre deixando uma dúvida no ar. E isso enriquece a trama. Uma velhinha que aluga um quarto, nele instala um alarme, o tal do ‘olho vermelho’, que acende quando algo se movimenta no interior do cômodo. Pois um novo inquilino fica obcecado, depois de ver no escuro, sozinho e deitado em sua cama, o tal do olho acender, indicando que alguma coisa estaria dentro do aposento. Sem saber se é sonho ou realidade, o fato é que ele não é o primeiro a passar por esta experiência no quarto.
     “Final Feliz” é uma espécie de sátira ao clichê do título e da vida supostamente idílica e romântica que uma jovem princesa teria. Sim, porque ao se opor aos estereótipos – não é bonita e encantadora – procura um Bruxo da Mata para conseguir um par.
    A exemplo de “Verdadeiro Poder” esta é uma história plena de fantasia. E, como tal, nada acrescenta, pois é apenas uma variação sobre temas por demais repetidos, ainda que tente, em seu desfecho, um final feliz diferente do convencional. Talvez mais atinado com a mulher emancipada desde começo de século XXI.
     A mesma questão da ‘variação sobre um tema’ é encontrada no próximo relato, justamente o que dá o título ao livro. Mas “O Livro dos Contos Enfeitiçados’ – outra história dark fantasy –, consegue ter um interesse próprio, nos jogos de imagens, no horror insinuado, no conceito sempre fascinante da biblioteca gigantesca e misteriosa, que abriga um livro capaz de horrores e encantamentos.
     Este conto demonstra a opção da autora por um público que creio, já lhe seja cativo, ou esteja em vias de: o leitor jovem, adolescente ou recém-adulto. Mas insisto que os temas não precisam, necessariamente, serem baseados em repetições com teores infantilóides. É possível escrever para qualquer público de maneira criativa e provocadora. O que não é o caso da terceira história com este perfil no livro, embora, como dito acima, ela seja boa por si mesma, graças ao despojamento narrativo com que ela é trabalhada.
   Uma novela fecha a coletânea, “Sofia”. Situa-se nos tempos atuais, no qual uma jovem é surpreendida por um estranho, ao ser abordada e raptada. E ele lhe diz ainda que ela é uma bruxa concebida para cumprir uma profecia. No mundo desta e de outras histórias deste volume fica clara a defesa da ideia de que humanos mortais e bruxos poderosos convivem. Só que a maioria dos primeiros não crê na existência dos bruxos. Ou quando acreditam, os veem de forma pejorativa e perigosa. De outro lado, nem todos os bruxos sabem que são bruxos e tomam-se apenas como humanos, como o caso de Sofia. Talvez haja nesta segunda ideia a tentativa de agradar uma comunidade de pessoas que acredite que possua poderes sobrenaturais, como quiromantes e clarividentes. Não é preciso pesquisar muito com pessoas do nosso próprio entorno social para achar alguém que crê ter tais talentos. Uma busca na internet, então, revela diversas comunidades de pessoas que se creem especiais.
     Sofia seria uma espécie de representante delas? Talvez, tanto é que na história tudo já estava escrito para chegar a este momento crucial de sua vida. Que é uma batalha duríssima com uma velha e poderosa bruxa. Esta, como se percebe no texto, maligna, sim, pois elas também existiriam.
Em resumo, sob a defesa deste argumento ou não, estamos diante de mais uma história com caracterização tradicional. O interesse maior pode estar na qualidade do texto da autora, de fato, novamente em alta, como exemplificado no primeiro parágrafo:

“O sol filtrava-se, oblíquo e persistente, entre as nuvens escuras, e dava mais vida ao verde da grama e às azaleias e hibiscos floridos. No fim da tarde de sábado, parecia que a praça tentava impregnar-se ao máximo da energia luminosa, como se soubesse que chegava ao fim a breve trégua da chuva naquele inverno especialmente úmido.” (página 109).

     Tem uma bela poesia por trás dos motivos naturais, com palavras e frases bem escolhidas, o que faz com que, de saída e de forma irresistível, sejamos despertados pelo prazer da leitura e interesse pela história, mesmo que logo depois nos deparemos com mais uma narrativa com tema padrão e sem maiores impactos.
    Em síntese esta é uma coletânea de qualidade razoável em temos temáticos e boa em termos literários. Martha Argel sugere ser uma escritora melhor do que os temas da maioria das histórias que mostra neste livro. Escreve bem, tem sensibilidade apurada, um estilo ora despojado, ora coloquial, que agrada a leitura e transmite verossimilhança. Por todas estas qualidades é possível esperar que nos apresente no futuro uma obra que traga um maior equilíbrio entre o conteúdo e seu estilo. Talvez com temas mais maduros ou com tratamentos menos convencionais.

Marcello Simão Branco

quarta-feira, 16 de março de 2016

Vitrais e As ilhas imaginárias, Jose Ronaldo Viega Alves

Vitrais, Jose Ronaldo Viega Alves. 60 páginas. Editora Opção 2, Porto Alegre, 2005.
As ilhas imaginárias, Jose Ronaldo Viega Alves. 58 páginas. Editora Opção 2, Porto Alegre, 2005.

Não há muitas dúvidas quando ao tipo de abordagem que os leitores brasileiros de fantástico mais apreciam. Ray Bradbury é uma unanimidade porque é mestre em elaborar personagens e cenários líricos. Mesmo os leitores de ficção científica hard aceitam bem os seus textos porque sua poesia compensa totalmente a falta de rigor científico.
Da mesma forma, os textos fantásticos brasileiros que mais agradam aos leitores são justamente aqueles nos quais os autores conseguiram inserir mais lirismo. Porém, essa prática não está atualmente na moda por aqui. Ao contrário, há uma supervalorização estilística da agressividade e da violência crua, talvez reflexo direto dos tempos duros que vivemos.
Não que inexistam poetas em atividade, ao contrário, o movimento poético brasileiro é intenso e tão marginal quanto a fc&f brasileira.
Mas parece ser uma impossibilidade teórica tanto para os poetas quanto para os escritores combinarem poesia e ficção científica em especial, com raríssimas exceções como o caso de André Carneiro. Outro exemplo é Jose Ronaldo Viega Alves que produz não somente uma poesia sensível e criativa, mas também impõe em seu repertório uma dose generosa de fantasia e ficção científica.
Alves nasceu em Sant'Ana do Livramento (RS) em 1955. É bancário, também produz contos e crônicas e participa do fandom brasileiro há algum tempo, embora tenha sido pouco publicado nos fanzines. Sua produção tem sido dirigida para concursos – em muitos dos quais foi premiado –­ e para as mais de cinquenta antologias poéticas das quais participou. Também apresenta seus trabalhos em coletâneas individuais, tendo mais de vinte títulos publicados.
Em 2005, o autor lançou duas coletâneas pela Editora Opção 2 de Porto Alegre: Vitrais e As ilhas imaginárias, com algumas dezenas de poemas, a maior parte muito curtos, de um estilo que se não chega a ser tradicional, tampouco pode ser classificado como experimental. Alguns tomam até duas páginas, mas a maioria não passa de poucas linhas.
Ambos os títulos tem trabalhos assemelhados e não há uma abordagem diferenciada entre eles, que bem poderiam formar um volume único.
A leitura é rápida e agradável com muitos momentos expressivos. Nem tudo é fantasia, é claro, há um bocado de realismo romântico, mas tudo acaba alinhavado pela continuidade dos poemas que ora falam de robôs, teletransporte e viagens no tempo, ora de memórias da infância, sonhos, amor etc.
Não é possível fazer uma resenha convencional dos livros de Jose Ronaldo Viega Alves. Quando se trata de poesia, o melhor mesmo é lê-la.
Cesar Silva

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A cidade invisível, José Ronaldo Viega Alves

A cidade invisível, José Ronaldo Viega Alves. 58 páginas. Editora Opção2, Porto Alegre, 2006.

A cidade invisível é uma coletânea de crônicas inspiradas na história, nas paisagens e nos personagens da cidade de Sant´Ana do Livramento, onde Viega Alves reside desde o nascimento. Crônicas são peças raras na produção de ficção fantástica brasileira e é surpreendente a quantidade de boas ideias que o autor encontra em seus devaneios, muitas delas perfeitamente funcionais em qualquer outra cidade do Brasil ou do mundo. São 30 textos, todos entre 50 e 250 palavras, cada um discorrendo sobre um aspecto da cidade e do valor que imprimiu no imaginário do autor.
Algumas dessas crônicas também tratam do fascínio que Viega Alves nutre pelo cinema, seja pelos filmes como pelas salas exibidoras e as pessoas por detrás delas, tanto das películas quanto as que trabalham no cinema.
A edição artesanal é simples, mas revela muito carinho por parte do editor.
Um trabalho necessário num ambiente que, ao optar pela prosa mais convencional da pulp age, ignora formatos literários igualmente legítimos, como a poesia e a crônica que podem ser vistas aqui.
 Cesar Silva

Natureza móbile, José Ronaldo Viega Alves

Natureza móbile, José Ronaldo Viega Alves. 54 páginas. Ilustrações de José Ronaldo e Arthur Filho. Editora Opção 2, Porto Alegre, 2006.

Natureza móbile é uma coletânea poética de José Ronaldo Viega Alves, publicada em 2006 pela editora portoalegrense Opção 2, num acabamento artesanal simples e intimista.
Traz 28 poemas curtos, construções concretistas e haikais. Este formato já garante, por si, uma variação importante aos trabalhos de ficção fantástica publicados no Brasil, em que predomina a prosa. Mas não é apenas o aspecto formal que destaca Viega Alves, mas a sutileza que ele demonstra ao observar os detalhes do cotidiano à luz do maravilhamento próprio de quem aprendeu a se emocionar com as batalhas espaciais das histórias de ficção científica.
As poesias não são todas classificáveis como fantásticas, mas o conceito que as sustenta é muito identificado com aquele que se percebe nas histórias de fc&f. Como, por exemplo, neste pequeno poema chamado “Viajantes no tempo”: Quantos desses seres humanos / Com quem cruzamos / nas ruas diariamente / vivem no presente? Ou nesta frase, retirada de “O livro das 1001 perguntas”: Máquina do tempo enferruja?
Assim, de surpresa em surpresa, Viega Alves nos presenta em Natueza móbile sua visão de um mundo que mostra o maravilhoso no cotidiano.
O volume se une a outros títulos já publicados do autor, formando um mosaico multicolorido de impressões emocionantes de se contemplar.
Cesar Silva

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O 3o. Planeta, Levy Menezes

O 3º Planeta, Levy Menezes. 124 páginas. Prefácio de Antonio Olinto. Capa de Juarez Paraiso e ilustrações internas de Levy Menezes. Edições GRD – Coleção Ficção Científica GRD, n. 18, Rio de Janeiro, GB. Lançamento original em 1965.

O 3º. Planeta foi o antepenúltimo livro lançado pela clássica coleção do editor Gumercindo Rocha Dorea e o sexto e último de um autor exclusivamente brasileiro. O niteroiense Levy Menezes (1922-1991), um conhecido artista plástico e arquiteto, foi apresentado a Dorea por ninguém menos do que Antonio Olinto, escritor e, sobretudo, crítico literário de muito prestígio na época e que mais tarde seria imortalizado na Academia Brasileira de Letras. Se a indicação foi de peso, a responsabilidade sobre a obra também seria equivalente. Foi nutrindo esta expectativa que comecei a leitura desta coletânea de onze contos.
Se a maioria das coletâneas costuma trazer o título de uma das histórias para nomear o livro, o que se nota é que este não é o caso do livro de Menezes. A proposta não muito comum é que temos em mãos uma coletânea temática. Sim, porque os contos fazem referência a situações dramáticas do passado ou futuro da humanidade e do planeta Terra. Este diferencial torna a obra de saída interessante.
O livro ecoa os sentimentos e assuntos candentes dos anos 1960, na chave da ficção científica pura, isto é, com tons assumidamente legados da Golden Age, embora com uma reflexão crítica e humanista que podemos caracterizar como do autor e de uma tendência semelhante seguida por outros autores brasileiros que praticaram FC na época, como André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz e Rubens Teixeira Scavone, entre outros. A transformação da sociedade agrária exportadora em complexos urbano-industriais recebe uma visão desencantada, pouco entusiasmada e mesmo desconfiada, tanto quanto à eficácia dos avanços, como de sua extensão para a maior parte da sociedade.
Em alguns contos visitantes extraterrestres sondam a Terra e não são bem-sucedidos em seu contato com os terráqueos, que são ou caipiras do interior do Brasil, como no divertido “Ukk”, ou no passado muito distante, com homens que vivem em tribos e cavernas, mas que nutrem uma dureza crua que ameaça a sofisticação tecnológica de seres fisicamente frágeis do espaço, como na pungente narrativa de “Ugulú”. Estes dois contos, inclusive, estão entre os melhores do livro.
Por outro lado, Menezes assume um caráter crítico sobre a responsabilidade humana não só a respeito dos recursos naturais da Terra, como de outros mundos, como os casos de “Floralis” e “Pax Circense”, histórias de predação da vida nativa em respectivamente Vênus e Marte. Nesse aspecto, Menezes demonstra uma preocupação ambiental precoce dentro do panorama brasileiro da FC, já nos anos 1960. E com uma sensibilidade crítica aguda.
A conquista espacial estava na ordem do dia e não poderia faltar uma história sobre a chegada à Lua, como “Projeto ´Olho Lunar´”, em que uma equipe de cientistas instala um supertelescópio no satélite natural da Terra mas em sua primeira missão tem de desviá-lo para objetivos militares, dentro da lógica da Guerra Fria. Os cientistas rebelam-se e ganham apoio da opinião pública internacional, mudando mesmo o curso da disputa política. Narrado com vigor, talvez um exercício idealista, mas obviamente ingênuo e implausível.
Experiências científicas em seres humanos, como em “O Estranho Caso do Dr. Lebenthal” e no relacionamento entre homens e máquinas, mostrado na boa noveleta “Terra Prometida” dão um outro viés de reflexão sobre a condição humana em seu planeta natal. O primeiro, eivado de um humor que não se leva a sério, os humanos passam a ter uma cauda, com todas as consequências sociais e fisiológicas imagináveis. E em “Terra Prometida”, uma civilização de robôs ovóides terraformiza a Terra para torná-la totalmente metalizada, até que um grupo de androides se rebela e parte em busca de seus antepassados, chamados de “divinos”, os humanos que vivem em Marte depois da Terra ter se tornado inútil devido a um holocausto nuclear. Com mais desenvolvimento poderia render um bom romance.
Este volume contém ainda aquele que pode ser considerado o melhor conto de Levy Menezes, “O Último Artilheiro”. Também no contexto de fim de mundo, um solitário sobrevivente de uma praga radioativa acha um canhão poderoso junto a uma casa abandonada. Angustiado e só, ironicamente ele aprende a armar e atirar com o artefato, como se quisesse devolver ao mundo insano a violência dirigida contra ele e seus semelhantes que pereceram. Narrada em contagem regressiva e com sarcasmo e amargura, não há esperança para o sobrevivente e para a humanidade como um todo. Este conto foi selecionado por Roberto de Sousa Causo na sua celebrada antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (Devir, 2007), uma importante referência para o gênero no país.
Como em todo livro de contos há certa irregularidade na qualidade, mas no conjunto temos em mãos um livro que agrada e mantém alguma atualidade em temas que são atemporais, como o destino do planeta e da humanidade que o habita. Com relação à prosa, por vezes é meio truncada, endurecida quanto à construção de frases e com um encadeamento confuso de situações. Por outras vezes demonstra leveza e despojamento, principalmente quando insere humor e certo coloquialismo provincial, diria mesmo carioca.
Dentro do contexto dos anos 1960 e da “Geração GRD”, Levy Menezes tem uma voz própria e mereceria ser mais lido, conhecido e debatido. É certo que talvez seja prematuro analisar o autor por um único livro, mas ele demonstra ser um autor interessante, criativo quanto às ideias – o livro é bem diversificado a despeito de partir de uma premissa comum –, e criticamente especulativo com relação ao comportamento do homo sapiens, sempre girando em torno do conflito entre atitudes egoístas e dilemas morais.

– Marcello Simão Branco