Mostrando postagens com marcador biografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador biografia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Maria Helena Bandeira (19??-2013)

No início deste ano, deixou o nosso convívio a artista plástica, poeta e escritora de ficção científica e fantasia Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira.
Carioca de nascimento, cuja data foi impossível precisar, era sobrinha-neta do escritor Antônio Bandeira, mas desenvolveu uma carreira independente do antepassado ilustre.
Maria Helena estudou pintura e psicologia, mas formou-se em jornalismo pela PUC/RJ. Era professora de desenho, pintura e história da arte, além de artista plástica, tendo participado de vários Salões Nacionais de Artes Plásticas e da Bienal Nacional, assinando como Maria Bandeira.
Como poetisa, resistia em publicar seus trabalhos. Contudo, seu livro Borboleta no chapéu recebeu uma menção especial no Prêmio Guararapes da União Brasileira de Escritores. Também deixou por publicar a coletânea Unicórnios no jardim.
Assinando como Bárbara Helena, colaborava regularmente com o saite Anjos de Prata, tendo participado das antologias Crônicas dos Anjos de Prata 235, publicadas pelo mesmo.
Sua estreia na ficção científica aconteceu em 1992, nas páginas da revista Isaac Asimov Magazine (Record), com o conto "Eu mesmo". Desde então, manteve uma produção continuada de contos, tendo aparecido em fanzines e revistas como ScariumSomnium Blocos, e nas antologias Paradigmas 1 (Tarja, 2009), Cyberpunk: Histórias de um futuro extraordinário (Tarja, 2010) e Space opera (Draco, 2011), FC do B: Panorama 2006/2007 (Corifeu, 2008), FC do B: Panorama 2008/2009 (Tarja, 2009), Portal Stalker (2009), Portal Fundação (2009), Portal 2001 (2010) e Portal Fahrenheit (2010), Antoloblogue (Portugal), Grageas (Argentina) e O planeta das traseiras (Portugal). Seus trabalhos individuais apareceram exclusivamente no formato virtual: A lei dos seios (Slev, 2004), Talvez, Helena (Slev, 2004) e O Especialista (E-Nigma, 2002), trabalho este indicado ao Prêmio Argos. Também mantinha uma produção significativa na internet, publicando nos saites E-Nigma e Oficina de Escritores.
Maria Helena não resistiu a uma cirurgia para extração de um tumor no intestino e faleceu no dia 6 de janeiro de 2013, deixando por publicar a anunciada mini-série policial Sonho Amazônico.

Quando o sol estiver menos intenso
E eu mais cheia de sombras 
Vou procurar unicórnios no jardim 
E vou achar que a vida tem sentido
Mesmo assim.” 

Maria Helena Bandeira
Unicórnios no jardim

domingo, 18 de janeiro de 2015

Ray Harryhausen (1920-2013)

Neste mês de maio, o mundo perdeu Ray Harryhousen, um dos mais importantes técnicos do cinema de ficção fantástica.
Nascido em Los Angeles, em 29 de junho de 1920, Harryhousen ficou fascinado pelo mundo do cinema aos treze anos de idade, ao ver o clássico King Kong (1933). Os impressionantes efeitos especiais executados por Willis O’Brien, que davam vida ao gorila gigante a partir de uma miniatura animada pelo processo do stop-motion, levaram o jovem Ray a dedicar toda a sua vida ao desenvolvimento dessa arte, que cria a ilusão de movimento a partir da fotografia, quadro a quadro, de miniaturas articuladas.
Harrihousen começou fazendo seus próprios filmes em sua casa, com uma câmera de 16 mm.
Começou a trabalhar profissionalmente em documentários de Frank Capra e nos filmes de George Pal, mas sua grande chance veio quando fez a animação para o filme Mighty Joe Young (1949), de Ernest B. Shoedsack, o mesmo diretor de King Kong, trabalhando ao lado de seu ídolo, Willis O’Brien. Ali ele também ajudou a desenvolver outros efeitos especiais que dominariam a indústria do cinema por muitas décadas, como o rear projection (montagens a partir de projeções) e o matte painting (pinturas realistas em vidro).
Harryhousen também fez os efeitos de vários filmes clássicos, como os dinossauros de The animal world (1956), o Kraken de It came from beneath the sea (1955), o Rhedosaurus de The beast from twenty thousand fathoms (1953), a invasão alienígena de Earth versus the flying saucers (1956) e o impressionante monstro Ymir, de Twenty million miles to Earth (1957). Contudo, Harryhousen costuma ser mais lembrado pelos efeitos que realizou na série de filmes de Simbad o marujo, personagem inspirado nas histórias de As mil e uma noites, com uma pletora de monstros mitológicos, tais como o pássaro Roca, o Grifo e o Ciclope.
Seu momento culminante certamente está nos efeitos especiais realizados para o clássico Jason and the argonauts (1963), com a Hydra, as harpias, os guerreiros-esqueleto e outras visões aterrorizantes dos mitos clássicos. O mais recente trabalho do mestre a impressionar os expectadores foi a primeira versão de Clash of the titans (1981), no qual a técnica do stop-motion atingiu uma qualidade nunca vista anteriormente.
Apesar de sua importância e influência, Harryhousen ganhou apenas um Oscar, justamente por seu primeiro trabalho, Mighty Joe Young, dividido com O'Brien. Em 1992, a Academia reconheceu sua obra com um Oscar honorário e, em 2005, Harryhousen foi incluido no Science Fiction Hall of Fame.
Harryhousen morreu no dia 7 de maio de 2013, aos 92 anos.
Foto: Carl Court/AFP

Clóvis Garcia (1921-2012)

Autor identificado com a chamada Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, Clóvis Garcia foi muito mais conhecido por sua atuação no teatro, arte na qual investiu a maior parte de sua vida, sendo cenógrafo, figurinista e ator.
Clóvis Garcia nasceu em 1921, na cidade de Taquaritinga/SP. Interessou-se por teatro desde a infância, depois de assistir um espetáculo da companhia do ator Procópio Ferreira em sua cidade natal. Em 1938, veio para São Paulo estudar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, mas interrompeu os estudos para alistar-se como expedicionário do Exército Brasileiro, indo lutar na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. Participou das batalhas de Monte Castelo, onde foi ferido por estilhaços de uma bala de canhão. Depois de um período no hospital, voltou a ativa e participou ainda da sangrenta batalha de Montese.
Retornou vitorioso ao Brasil e retomou os estudos na São Francisco, tendo se formado em 1942. O autor Paulo Autran foi seu colega de classe e tornaram-se sócios num escritório de advocacia. Ambos participaram de espetáculos montados na faculdade e começaram no Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Autran seguiu a carreira de ator, e Garcia, a de cenógrafo.
Garcia exerceu, por muitos anos, a função de crítico teatral na revista O Cruzeiro e nos jornais A NaçãoO Estado de S. Paulo e no Jornal da Tarde, e esteve entre os fundadores da revista Teatro Brasileiro, do Grupo de Teatro Amador - GTA e da Federação Paulista de Amadores Teatrais. Foi professor no curso de bacharelado em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo - ECA-USP, tendo recebido em 1999 o título de Professor Emérito.
Além de diversos ensaios em livros e publicações especializadas em teatro, Clóvis Garcia foi um autor de ficção científica bastante ativo durante os anos 1960. Teve textos publicados nas principais antologias de seu tempo: "O estranho mundo" (Antologia brasileira de ficção científica, GRD) "O paraíso perdido" (Histórias do acontecerá, GRD) e "O Velho" (Além do tempo e do espaço, EDART), além dos contos "O estranho", "O inimigo" e "A invasão", publicados no Magazine de ficção científica da editora Globo.
Debilitado por causa de uma queda e por uma pneumonia, Garcia morreu em São Paulo no dia 27 de outubro de 2012, aos 91 anos de idade.

Richard Matheson (1926-2013)

Importante escritor e roteirista norte americano, Richard Burton Matheson nasceu em Allendale, Nova Jérsei, no dia 20 de fevereiro de 1926, em uma família de imigrantes noruegueses. Formou-se em 1943 no Brooklyn Technical School e serviu na infantaria do Exército durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1949, formou-se em Jornalismo na Universidade do Missouri, mudando-se para a Califórnia em 1951, quando já estava publicando seus primeiros textos. Sua estreia editorial foi com o conto de ficção científica "Born of man and woman", publicado em 1950 no Magazine of Fantasy and Science Fiction.
Apesar de muito identificado com a ficção científica, Matheson tem trabalhos importantes em diversos outros gêneros, especialmente fantasia, horror e dramas épicos de guerra e faroeste. Sua produção reúne 25 romances e cerca de uma centena de contos.
Seus trabalhos mais conhecidos são as novelas O incrível homem que encolheu (The shrinking man, 1956) e Eu sou a lenda (I am legend, 1964), ambos adaptados com muito sucesso para o cinema, o segundo três vezes, com Vincent Price, Charlton Heston e Will Smith revezando no papel do protagonista Robert Neville, o último ser humano vivo em uma Terra devastada por uma praga de vampiros.
Matheson dedicou-se ao trabalho de roteirista e tornou-se um profissional respeitado e muito requisitado. Há histórias suas em seriados importantes como Além da imaginação (Twilight zone), Galeria do terror (Night gallery) e Jornada nas estrelas (Star trek). É dele o episódio-piloto de Kolchak e os demônios da noite (Kolchak: The night stalker), além de muitas adaptações das histórias de Edgar Allan Poe para produções de Roger Corman.
Matheson também é autor dos romance de fantasia Em algum lugar do passado (Bid time return, 1975), levado aos cinemas em 1980 com Christopher Reeve no papel principal, e de Amor além da vida (What dreams may come, 1978), filmado em 1988 estrelando Robin Williams. Outro texto importante do autor é Encurralado (Duel, 1971) que chegou ao cinema no mesmo ano, na estreia do então desconhecido diretor Steven Spielberg.
Matheson era um autor de opiniões controvertidas e, sempre que podia, não se furtava em criticar a falta de criatividade na tv e no cinema americanos. Sua ficção envolve principalmente os dilemas morais frente a situações limite, abordando de forma perturbadora questões psicológicas e sociológicas espinhosas, às vezes dramáticas, noutras satíricas, que lhe valeu o respeito de seus pares, sendo citado como referência por autores como Ray Bradbury, Stephen King e Anne Rice. Essa característica está presente, por exemplo, no seu famoso conto "O teste" ("The test", 1954), no qual um senhor idoso de uma sociedade futura tem que se submeter a um exame do governo para receber autorização para continuar vivendo.
No Brasil, o autor foi bem publicado, muito devido ao seu envolvimento com o cinema – um atrativo irresistível para os editores brasileiros – e alguns de seus títulos ainda estão em catálogo, como as antologias Eu sou a lenda e O Incrível homem que encolheu, além do romance de horror Hell houseA casa infernal (Hell house, 1971), todos em edição da Novo Século. Também podem ser encontrados com facilidade os romances Em algum lugar do passado (Bestbolso) e Amor além da vida (Butterfly Editora).
Entre os muitos prêmios que recebeu, estão o World Fantasy Award (1984), o Bram Stoker Award (1991) e a inclusão de seu nome no The Science Fiction Hall of Fame, em 2010. Seu romance mais recente é Other kingdoms, publicado em 2011 e ainda sem tradução no País.
Matheson morreu aos 87 anos, em sua casa, em Calabasas, Califórnia, no dia 23 de junho, de causa não revelada.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Frederik Pohl (1919-2013)

A ficção científica tem, no Brasil, algumas idiossincrasias curiosas. Uma delas é ter, entre seus os autores mais destacados, escritores que pouco foram publicados aqui. Esse é o caso de um dos mais importantes nomes do gênero, Frederik Pohl.
Frederik George Pohl Jr. nasceu em 26 de novembro de 1919 na cidade de Nova York. Passou a infância morando em diversas regiões do Texas, Califórnia, Novo México e Panamá, até que sua família fixou residência no bairro do Brooklyn, em sua cidade natal. Ainda adolescente, Pohl ajudou a fundar o lendário grupo de fãs de ficção científica Futurians, do qual também fez parte o escritor Isaac Asimov, a quem ajudou no início de sua carreira. Durante a Segunda Guerra Mundial, Pohl serviu no 456º Grupo de Bombardeiros, na Itália.
Pohl trabalhou como agente literário de alguns e seus colegas e foi editor de várias revistas do gênero, sendo premiado diversas vezes pelo seu trabalho à frente das revistas If Galaxy, nos anos 1960. Teve sua própria coleção na Bantan Books, a Frederik Pohl Selections, e dedicou-se intensamente à diversas instituições ligadas à fc.
Como escritor, estreou na Amazing Stories em 1937 com o poema "Elegy to a dead satellite: Luna", publicado sob o psedônimo Elton Andrews. Pohl desenvolveu muitos trabalhos em parceria, principalmente com seu amigo futuriano Cyril M. Kornbluth, também com Jack Williamson, e até concluiu um romance inacabado de Arthur C. Clarke, The last theorem, publicado em 2008. Sua ficção tem características de crítica política e social – reflexo de suas convicções socialistas – e, não raro, de um tom acidamente satírico.
Seus trabalhos mais importantes são os romances Man plus (1976, vencedor do Nebula), Gateway (1977, Hugo e Nebula) e Jem: The making of an utopia (1979, National Book Award); nenhum deles teve edição no Brasil. Tivemos aqui apenas três trabalhos do mestre: Dia milhão (Day million, 1970), Nave escrava (Slave ship, 1956) e Os mercadores do espaço (The space marchanters, 1953, em parceria com Kornbluth), em edições pela José Olympio, Hemus e Edart, respectivamente, todas esgotadas. O que fez de Pohl um autor conhecido no Brasil foram as muitas traduções portuguesas, especialmente pela Coleção Argonauta, que teve aqui inúmeros leitores. Algumas de suas ficções curtas também apareceram em antologias e revistas.
O autor esteve pelo menos duas vezes no Brasil. A primeira, no lendário I Simpósio Internacional de Ficção Cinetífica, realizado em 1969 no Rio de Janeiro em 1989 pelo Instituto Nacional do Cinema, e novamente em 1989, a convite da Editora Aleph. Ao lado da esposa, Elisabeth Anne Hull, e do então editor da Locus Magazine, Charles N. Brown, o autor se encontrou com leitores e fãs em São Paulo e Rio de Janeiro.
Em 1992, Pohl foi nomeado Grande Mestre pela Science Fiction Writers of America e, em 1998, entrou para o Science Fiction Hall of Fame. Seu último trabalho foi a novela All the lives he led, publicada em 2011.
Seu interesse pela ficção científica sempre teve um importante componente de fã e, mesmo como autor consagrado e influente, recebeu em 2012 um prêmio Hugo pelo trabalho de escritor-fã que realizava no blogue The Way the Future Blogs.

Os livros de Frederik Pohl no Brasil

Frederik Pohl morreu na tarde do dia 2 de setembro, aos 93 anos, após uma grave crise de insuficiência respiratória. Sua importante obra ainda está por ser descoberta pelos editores brasileiros e, principalmente, pelos leitores das novas gerações.

Jack Vance (1916-2013)

O escritor norte-americano Jack Vance foi outro gigante da ficção fantástica que nos deixou neste ano, mais exatamente no dia 26 de maio. Desde então, estou devendo aqui a sua biografia. Vou agora pagar essa dívida.
John Holbrook Vance nasceu em 28 de agosto de 1916, em São Francisco, no estado da Califórnia, mas logo mudou-se com sua mãe e irmãos para a fazenda de seus avós, próxima a Oakley, depois que seus pais se separaram. Com a morte dos avós, Vance teve que deixar os estudos para trabalhar e ajudar nas despesas da casa. Mais tarde, estudou engenharia, física e jornalismo na Universidade da Califórnia, quando escreveu sua primeira história de ficção científica para um trabalho no curso de Inglês, e recebeu do professor a sua primeira crítica preconceituosa.
Vance trabalhou como eletricista em Pearl Harbour e deixou o emprego pouco antes do ataque japonês. Não foi aceito nas forças armadas devido a problemas na visão, mas tornou-se marinheiro mercante, profissão da qual herdou o gosto pela navegação marítima, que praticou por toda a vida. Vance também era músico de jazz, tocava banjo, trompete, gaita e muitos outros instrumentos. Tanto a música quanto o mar foram temas constantes em suas histórias.
Vance era amigo pessoal de Frank Herbert e Poul Anderson, a ponto de terem juntos construído um barco, com o qual navegavam nos rios e lagos da região onde moravam. Um pouco por influência desses importantes autores de fc foi que Vance passou a também escrever e publicar no gênero. Sua primeira história foi "The world-thinker", publicada em 1945 na revista Thrilling Wonder Stories, mas ele também escreveu histórias de mistério e fantasia, inclusive três livros sob o famigerado pseudônimo coletivo Ellery Queen. Vance era membro da Swordsmen and Sorcerers' Guild, comunidade de escritores comandada por Lyn Carter, dedicada a promover o gênero Espada & Feitiçaria.
Seus maiores sucessos foram as séries de fantasia The dying Earth, e de ficção científica The demon princes. Foi premiado pelos romances The dragon masters (1963; Hugo) e The last castle (1967; Hugo e Nebula). Também ganhou um Edgar (o Nebula do mistério) por The man in the cage (1961), bem como dois World Fantasy, um em 1963, por Lyonesse: Madouc, e outro, em 1984, pelo conjunto da obra. Entrou para o Science Fiction Hall of Fame em 2001 e ainda ganhou mais um Hugo, em 2010, por sua autobiografia This is me, Jack Vance!
Muitos de seus livros foram publicados no Brasil, entre eles o premiado The dragon masters (O planeta dos dragões). Também foram traduzidos três dos cinco títulos da série The demon princesStar king (The star king), A máquina de matar (The killing machine) e O palácio do amor (The palace of love). Da série The dying Earth foi editado apenas um, A agonia da Terra (The dying Earth); e da série Alastor foi traduzido apenas o segundo volume, Marune: Alastor 933 (Marune: Alastor 933). E ainda, os romances independentes O planeta duplo (Maske: Tahery) e o divertidíssimo Ópera interplanetária (Space opera), bem como uns poucos contos em antologias. Outros títulos também podem ser encontrados em edições portuguesas.
Cego desde 1980, Vance não parou de escrever, sendo seus últimos trabalhos o romance de ficção cientifica Lurulu, publicado em 2004, e a já citada autobiografia, publicada em 2009.
Vance morreu de causas naturais em sua residência, em Oakland, no dia 26 de maio de 2013, aos 96 anos.

Doris Lessing (1919-2013)

A ficção científica não convive mais com uma de suas autoras mais ilustres. No dia 17 de novembro de 2013 morreu Doris Lessing, escritora e poetisa britânica cuja obra foi reconhecida com o Prêmio Nobel em 2007.
Tive um caso de amor profundo com Doris Lessing no início dos anos 1990. Comecei com Shikasta, primeiro de cinco volumes da série de ficção científica Canopus in Argos: Archives, que conta, através de uma mosaico de pequenas narrativas nem sempre fáceis de interpretar, a tragédia humana sob o olhar de um grupo de observadores alienígenas que, ao longo da história, aqui realizam experimentos nem sempre benfazejos. Através desse olhar "externo", a autora desnuda detalhes perturbadores da natureza humana e sua doentia relação com a natureza e com seus semelhantes, de uma forma que somente ela poderia realmente fazer.
Doris Lessing, batizada Doris May Tayler, nasceu em 29 de outubro de 1919 em Kermanshah, no Curdistão iraniano, que então era parte da Pérsia. Sua naturalidade britânica foi herança dos pais, Alfred e Emily Tayler, nascidos na Inglaterra. Quando Doris estava com seis anos, a família mudou-se para a Rodésia do Sul, atual Zimbábue, indo morar na fazenda de milho e tabaco adquirida por seu pai. Ela frequentou uma escola de freiras que abandonou aos 13 anos, completando os estudos como autoditada. Interessada em literatura, começou a escrever aos 15 anos, mas as coisas não foram muito bem na fazenda e a vida difícil levou a jovem até a se prostituir para sustentar a mãe.
Entre 1939 e 1943, Doris foi casada com Frank Charles Wisdom, a quem deu um casal de filhos, criados pelo pai. Foi mais uma vez casada, entre 1945 e 1949, com Gottfried Lessing, alemão comunista que, mais tarde, viria a ser embaixador da RDA em Uganda. Doris teve mais um filho, Peter, que levou consigo para a Londres, onde iniciaria sua carreira como escritora. Seu primeiro livro foi The grass is singing, publicado em 1949.
Suas públicas opiniões políticas contra o apartheid e a favor do feminismo e do desarmamento nuclear a tornariam uma personalidade conhecida, a ponto de ser banida da África do Sul e da Rodésia. Doris recusou o título de Dama, mas aceitou diversos outros méritos do Governo britânico, e em 2007, aos 87 anos, tornou-se a pessoa mais idosa a receber um Prêmio Nobel de Literatura.
Apesar de ser autora de muitos romances importantes, tais como The golden notebook (1962), Briefing for a descent into hell (1971) e The good terrorist (1985), que tratam de temas espinhosos como política, psicologia e feminismo – termo que ela rejeitava veementemente –, aqueles que Lessing dizia mais apreciar eram justamente os seus textos de ficção científica, gênero que ela classificou como a "melhor ficção social dos nossos tempos". São eles: Shikasta (1979), The marriages between Zones Three, Four and Five (1980), The sirian experiments (1980), The making of the representative for Planet 8 (1982), The sentimental agents in the Volyen Empire (1983), nos quais a autora desenvolve uma cosmologia inspirada no sufismo para mergulhar na natureza humana e sua relação com o universo. Além destes livros, Lessing tem pelo menos mais um romance que flerta com o gênero, Memoirs of a survivor (1974), no qual uma senhora observa o progressivo esvaziamento de sua cidade a partir da janela do apartamento, trabalho que se instala nas franjas da escatologia, ao lado de "The Ones Who Walk Away from Omelas", de Ursula K. Le Guin, Earth abides, de George R. Stewart, e The road, de Cormac McCarty.
Nem seria preciso dizer que a crítica mainstream detesta a ficção científica de Doris Lessing, pois deixou isso bem claro em diversas resenhas. Contudo, neste aspecto, ela não está sozinha. Com raríssimas exceções, a crítica especializada no gênero também não elogia o trabalho da autora, que considera desconexo e demasiadamente depressivo, características evitadas pelas revistas pulp que estabeleceram os protocolos de um gênero geralmente mais interessado em entreter consumidores.
Doris viria a lamentar o Nobel que recebeu, por ele ter causado uma tal demanda por entrevistas e aparições públicas que literalmente a impediram de continuar escrevendo.
Seu último livro, Alfred and Emily, foi publicado em 2008.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Marien Calixte (1935-2013)

As comemorações natalinas ficarão para sempre marcadas com um fato triste para os fãs da ficção científica brasileira. No último dia 25 de dezembro, aos 78 anos, deixou-nos o escritor e jornalista Marien Calixte, conhecido como o inovador da imprensa capixaba.
Filho de uma professora primária e de um jardineiro francês, Calixte nasceu no dia 20 de outubro de 1935, no bairro do Méier, no Rio de Janeiro. Aos dez anos de idade, mudou-se para o estado do Espírito Santo, onde passou toda a vida.
Autodidata, iniciou-se profissionalmente nos anos 1950, como radialista na Rádio Espírito Santo, apresentando o programa Cinelândia Capixaba, sobre cinema e trilhas sonoras, mas seu programa mais conhecido foi O Som do Jazz, que comandou por mais de cinquenta anos.
Em 1955, um contrato no periódico A Tribuna inaugurou sua carreira no jornalismo. Atuou também nos jornais O Diário A Gazeta, onde chegou a ser diretor de Redação, e foi correspondente do Jornal do Brasil e das revistas SenhorO Cruzeiro e Visão. Também desenvolveu trabalhos como publicitário e tinha interesse especial pelas artes, que praticou intensamente. Foi poeta, diretor de teatro, músico, pintor e escritor. Publicou dezenas de livros, entre biografias, poemas e prosa. Nos anos 1970, ao lados dos escritores Milson Henriques e Celso Mathias, criou uma coleção de livros infantis para a editora Sem Fronteiras. No final dos anos 1960, ocupou a cadeira de Secretário de Turismo de Vitória, durante a gestão de Setembrino Pelissari.
Interessado por ficção científica, venceu um concurso literário com o conto "O visitante", depois publicado a revista Ficção e na sua primeira coletânea Alguma coisa no céu – originalmente publicada em 1985 pela editora Riomarket. A respeito dela, disse o escritor Renato José Costa Pacheco no prefácio à sua primeira edição: "vejo que seus textos têm duas notas comuns: a presença dos chamados OVNI e, pela primeira vez em nossa literatura, a paisagem capixaba – nossas praias, o interior, Meaípe, Manguinhos, Rio Novo do Sul e Cachoiero do Itapemirim. Todos de uma leitura agradável de enredo simples, prontos a conquistar a afeição da maioria dos leitores, que buscam num livro suas horas de prazer, mais que um profundo diálogo filosófico-telúrico." Dez anos depois, a coletânea recebeu uma segunda edição pela editora GRD. Apesar de ser o único livro de Calixte inequivocamente ligado a ficção científica, o autor escreveu pelo menos mais um livro de textos fantásticos: Contos desiguais, publicado em 2003.
Teve alguns de seus contos traduzidos para o alemão e o italiano, e recebeu a atenção também no seu país, aparecendo nas antologias Estranhos contatos (1998) e Melhores contos brasileiros de ficção científica (2010).
Vítima do Mal de Parkinson, Calixte faleceu devido a um súbito agravamento da doença. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Jardim da Paz, no município de Serra, no Espírito Santo.
Mais sobre a vida e a obra do autor no blogue Memória Marien Calixte.

José Ortiz (1932-2013)

A cada ano que passa, a arte das histórias em quadrinhos fica mais empobrecida de seus grandes expoentes. 2013 foi especialmente triste para os amantes da Nona Arte, que perdeu Moebius, Joe Kubert, Sérgio Topi e, no finalzinho do ano, o espanhol José Ortiz, um dos principais nomes ligados à arte dos quadrinhos dos gêneros fantásticos.
Dono de um traço personalíssmo e expressivo, Ortiz ficou conhecido no Brasil nos anos 1970, quando por aqui foi publicada a revista Kripta, com histórias de horror traduzidas da editora americana Warren. Algumas das histórias mais lembradas pelos leitores foram ilustradas por ele, como, por exemplo, a quadrilogia do Apocalipse ("Fome", "Peste", "Guerra" e "Morte"), e as séries "Jackass" e "Coffin".
José Ortiz Moya nasceu em 1 de setembro de 1932, em Cartagena, e começou a publicar muito jovem, depois de vencer, aos 16 anos, um concurso de arte da revista Chicos. Nos anos 1950, já publicava tanto em seu país como em jornais ingleses, principalmente histórias de guerra.
Em 1974, iniciou a carreira na já citada Warrren – a primeira editora americana a se aproveitar do abrandamento do famigerado código de ética – produzindo histórias de horror de alto impacto artístico, principalmente para as revistas CreepyEerie e Vampirella.
Com o encerramento da Warren, Ortiz voltou para a Europa e iniciou, em 1981, uma produtiva parceria com o roteirista espanhol Antonio Segura, com quem realizou seus maiores sucesso autorais, como as séries de ficção científica "Hombre" e "Burton & Cyb", entre outras. Para a revista britânica 2000 AD, produziu histórias para as séries "Rogue Trooper" e "Juiz Dredd".
Em 1982, unido a outros artistas dos quadrinhos, ajudou a fundar a editora Metropol, pela qual publicou as revistas MetropolMocambo e K.O. Comics.
Nos últimos anos, Ortiz foi colaborador frequente da editora italiana Sergio Bonelli, onde demonstrou todo o seu virtuosismo plástico fazendo histórias para a série de faroeste Tex, em várias edições especiais e um dos primeiros volumes da prestigiada coleção Tex Gigante. Também ilustrou histórias de Ken Parker e Mágico Vento, da mesma editora.
Apesar de seu trabalho exuberante, Ortiz nunca foi reconhecido pelos maiores prêmios da indústria dos quadrinhos, tendo recebido apenas o Grande Prêmio do Salão de Quadrinhos de Barcelona, em 2012.
Vitimado por um problema cardíaco, Ortiz faleceu aos 81 anos, em Valência, no dia 23 de dezembro de 2013.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Colin Wilson (1931-2013)

Polêmico e crítico desde a juventude, Colin Wilson desenvolveu uma ampla obra vinculada à filosofia e à psicologia. Sua estreia na literatura aconteceu aos 24 anos, com The outsider (1956) — seu livro mais conhecido —, no qual toma a vida trágica de Vincent Van Gogh e outros artistas e pensadores para analisar o espírito da modernidade. Mais tarde, Wilson enveredaria pelo ocultismo, ufologia, literatura policia e ficção científica, sempre com com trabalhos notáveis.
Colin Henry Wilson nasceu no dia 26 de junho de 1931 em Leicester, na Inglaterra, onde passou a infância. Abandonou a escola aos 16 anos para trabalhar, mas voltou aos estudos mais tarde. Serviu na Real Força Aérea, de onde foi expulso depois de uma falsa acusação de homossexualismo. Foi para Londres em 1954, com a firme intenção de se estabelecer como escritor e, durante algum tempo, sua casa foi um saco de dormir, período em que escreveu uma história de crime inspirada em Jack o Estripador, que só foi publicada em 1960 sob o título de Ritual in the dark. Em 1956, ano em que publicou The outsiders, Wilson fundou com o dramaturgo John Osborne, a sociedade dos Jovens Furiosos (Angry Young Men), que reuniu vários escritores britânicos de sua geração. Outro título do autor muito lembrado é O oculto (The occult), de 1971, um compêndio histórico sobre santos, magos e sociedades secretas.
Seu envolvimento com a ficção científica começou a partir do contato com August Derleth, depois que Wilson criticou duramente, no livro The strength to dream: Literature and the imagination (1961), o trabalho de H. P. Lovecraft, que acusou ser um escritor ruim e ultrapassado. Indignado, Derleth o desafiou a escrever um romance no gênero, e Wilson criou então Parasitas da mente (The mind parasites).
Publicado em 1967, o livro toma os mesmos aspectos que caracterizam a mitologia lovecraftiana para construir uma história de horror que chegou a ser classificada como sádica. A história toda é relatada pelo próprio autor no prefácio do romance, que revela que, apesar da má impressão sobre a pessoa e o estilo de Lovecraft, o quanto as ideias do autor americano o impressionaram.
Wilson voltaria ao gênero fantástico em 1976 no romance de ficção científica Vampiros do espaço (The Space vampires), que conta o que acontece depois que astronautas encontram uma espaçonave abandonada com um casal de alienígenas congelados, uma história assustadora que também ecoa influências lovecraftianas. Em 1985, o livro foi adaptado para o cinema por Tobe Hooper, no longa metragem Força sinistra (Lifeforce), com muitas alterações no enredo.
Ao longo de sua produtiva carreira literária, que conta com mais de cem livros publicados, Wilson escreveu outros textos curtos de fc&f — alguns deles vinculados aos Mithos de Cthulhu — como "The return of the Lloigor" (1974), que fala do mitológico Necronomicon, também citado na novela "The tomb of the old ones" (2002).
Sugundo a revista Locus, outros títulos do autor vinculados à ficção fantástica são A gaiola de vidro (The glass cage, 1967), The philosopher’s stone (1969, dedicado a Jorge Luis Borges), The personality surgeon (1985) e a série Spider world (1987-2003). Contudo, sua produção principal seguiu focada em textos de não-ficção, especialmente sobre parapsicologia e estados alterados de consciência.
Colin Wilson sofreu um derrame em 2012, quando perdeu a capacidade de falar, e morreu no dia 5 de dezembro de 2013, aos 82 anos.

Iain M. Banks (1954-2013)

Escocês, Iain Menzies Banks nasceu em 16 de fevereiro de 1954 em Dunfermline, Fife, estudou inglês, filosofia e psicologia na Universidade de Stirling. Seu livro de estreia foi The Wasp Factory, lançado em 1984, um romance de crime e horror. Sua produção de ficção científica seguiu em paralelo com uma bem sucedida carreira mainstream, sendo que o autor usava a inicial do nome do meio apenas para assinar os trabalhos de fc.
Seu primeiro romance de fc foi Pense em Phlebas (Consider Phlebas), publicado em 1987, primeiro da série The Culture, que conta com nove livros (o último deles publicado em 2012), uma space opera de fortes componentes políticos. Este título foi publicado em Portugal em 1991 pela Clássica Editora, volume 4 da coleção Limites, sendo o único trabalho do autor traduzido para a língua portuguesa.
Além das histórias dessa série, Banks escreveu os romances de fc Against a dark background (1993), Feersum Endjinn (1994), The algebraist (2004, finalista do Hugo) e duas coletâneas de contos.
Entre seus muitos prêmios, estão dois British Science Fiction Association Award: em 1994, por Feersum Endjinn, e em 1996, por Excession. No total, Banks publicou 27 romances, sendo o último deles, The quarry, lançado postumamente, em 2013.
Banks também era poeta e compositor, e mantinha uma forte atividade política, sendo publicamente favorável à criação de um estado palestino e à independência da Escócia.
Em abril de 2013, o próprio Banks anunciou em seu saite que havia sido diagnosticado com um câncer terminal na vesícula biliar, e que não viveria mais do que um ano. Banks morreu no dia 9 de junho de 2013, aos 59 anos.

Marcelo Grassmann (1925-2013)

Num país em que a tradição do fantástico é tão tênue como no Brasil, é importante que nos lembremos de todos os artistas que dedicaram suas carreira a construção de um imaginário especulativo iminentemente nacional.
É o caso do artista plástico Marcelo Grassmann que, através de ilustrações de seres fantásticos e imaginários, criou um ambiente repleto de maravilhamento que dialoga intimamente com os conceitos de ficção fantástica nacional, especialmente aquela desenvolvida pelos autores da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira.
Grassmann nasceu no dia 23 de setembro de 1925, em São Simão, São Paulo. Entre 1939 e 1942, estudou entalhe em madeira para móveis na Escola Profissional Masculina do Brás mas, já em 1943, passou a produzir ilustrações em xilogravuras, e foi na gravura que desenvolveu a maior parte de sua obra.
Ainda nos anos 1940, trabalhou como ilustrador em diversos jornais importantes, como Diário de São PauloO Estado de S. Paulo e Jornal do Estado da Guanabara. Mais tarde, estudaria a arte da gravura em metal, com Henrique Oswald (1918-1965), e litografia, com Poty (1924-1998). Um prêmio no Salão Nacional de Arte Moderna de 1953 o leva a estudar na Academia de Artes Aplicadas, em Viena, na Áustria.
Os desenhos de Grassmann são de um detalhismo impressionante e retratam cavaleiros medievais, seres mitológicos, dragões, harpias, demônios, monstros e criaturas híbridas. Sobre sua obra, disse o escritor Braulio Tavares em um artigo publicado no blogue Mundo Fantasmo: "É curioso que numa época como a atual, em que a Fantasia Heróica vem conquistando tantos leitores no país (através de séries como O Senhor dos anéisGame of thrones e outras) a obra de Grassmann estivesse meio esquecida. Porque ele descobriu esse universo meio século atrás, e o cultivou com sensibilidade estética e uma certa sensualidade, que corria paralela com os monstros, com o lado tenebroso.  Foi o nosso grande fantasista, criando uma obra pessoal, sombria, mas cheia de inventividade, retornando, numa espiral insistente, aos temas, paisagens e seres que mais o atraíam".
Em 1969, a obra completa de Grassmann passou a integrar o acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. A casa em que ele nasceu, em São Simão, foi tombada em 1978 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo-Condephaat e é hoje um museu dedicado à sua memória.
Grassmann morreu no dia 21 de junho de 2013, aos 88 anos, depois de uma crise aguda de pneumonia.

A. C. Crispin (1950-2013)

A arte de escrever novelizações não é muito respeitada no fandom brasileiro, mas não acontece o mesmo nos Estados Unidos, em que a International Association of Media Tie-In Writers-IAMTW reconheceu, em abril de 2013, o valor da obra da escritora A. C. Crispin, concedendo a ela o título de Grandmaster.
Ann Carol Crispin nasceu em 5 de abril de 1950, em Stamford, Connecticut, e em 1972 graduou-se em Literatura pela Universidade de Maryland. Chegou a ser vice-presidente da Science Fiction Writers of America-SFWA, e em 1988, ao lado de Victoria Strauss, fundou a Writer Beware, uma instituição que oferece suporte jurídico para escritores se defenderem de editores e agentes literários inescrupulosos.
Crispin publicou cerca de 26 romances, a maior parte novelizações das franquias de cinema e tv Star TrekStar WarsVAlien e Piratas do Caribe. Seus trabalhos mais autorais são as séries Starbridge – space opera que conta com sete romances – e Witch world, formada por dois romances de fantasia escritos em parceria com Andre Norton.
Nos anos 1990, duas novelizações de Crispin apareceram no Brasil dentro da coleção Star Trek publicada pela editora Aleph: O filho de Spock (Time for yesterday) e Portal do tempo (Yesterday's son). Outros dois títulos,em parceria com Howard Weinstein e vinculados à série V, foram publicados pela editora Europa-América, sendo estes os quatro livros da autora disponíveis em língua portuguesa.
Crispin morreu no dia 6 de setembro de 2013, aos 63 anos, depois de uma longa batalha contra o câncer.

André Carneiro (1922-2014)

É sempre difícil dizer adeus a um amigo e, mais ainda, quando esse amigo é mestre justamente no tipo de arte que escolhemos para estudar e amar.
André Carneiro é, sem dúvida nenhuma, o mais importante nome brasileiro no que se refere à ficção científica. Autor de textos sofisticados e perturbadores, de abordagens raras e estilo sempre inovador, Carneiro não evitava temas polêmicos, pelo contrário, os perseguia com afinco. Tanto em prosa, na qual é o autor mais lembrado pelos leitores dentro e fora do País – especialmente pela novela "A escuridão" –, mas também em verso, sendo um dos poucos poetas brasileiros que não teve receio de versejar ficção científica. Carneiro também se destacou na elaboração de estudos sobre o gênero, com seu obrigatório ensaio Introdução ao estudo da 'science fiction', publicado em 1967 que, ainda hoje, é importante fonte de referência acadêmica.
André Granja Carneiro nasceu 9 de maio de 1922 em Atibaia, cidade do interior paulista. Formou-se em jornalismo e foi fundador do importante jornal literário Tentativa, publicado entre 1949 e 1951, um dos mais completos registros do grupo de poetas que ficou conhecido como Geração 45, do qual o próprio Carneiro faz parte.
Seu primeiro livro foi a antologia poética Ângulo & face, publicada em 1949. O envolvimento com a literatura especulativa iniciou-se na Antologia brasileira de ficção científica, organizada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea em 1961, com o conto "O começo do fim". No mesmo ano teve publicado, pelo mesmo editor, o conto "A organização do Dr. Labuzze", na antologia Histórias do acontecerá. Seu primeiro livro solo no gênero viria a ser Diário da nave perdida, coletânea publicada em 1963 pela editora Edart, na qual aparece pela primeira vez o famoso conto "A escuridão". Também a sua segunda coletânea, O homem que adivinhava, foi publicada pela Edart, em 1966.
Carneiro participou ativamente do lendário Simpósio de Ficção Científica, realizado no Rio de Janeiro em 1969, no qual cumpriu a função de chair-man a convite de José Sanz, organizador geral do evento.
Por iniciativa do tradutor e agente literário Leo Barrow que "A escuridão" foi publicado no mercado norte-americano, assim como mais de duas dezenas de outros textos. A primeira publicação em inglês de "The darkness" foi na antologia Best SF 1972, organizada por Harry Harrison e Brian Aldiss. Mais tarde, este o outros textos de Carneiro seriam publicados em diversas outras línguas, tornando-se a obra da fc brasileira mais conhecida no exterior.
Carneiro tinha muitos interesses além da literatura. Foi artista plástico, fotógrafo, cineasta e dedicou muita atenção a arte do hipnotismo, assunto sobre o qual também escreveu diversos livros. Sendo um intelectual em plena atividade, foi perseguido pelas forças militares do golpe de 1964. Carneiro gostava de contar sobre a sala secreta que tinha em sua chácara, de sua participação em grupos de guerrilha e da operação que roubou o famoso "cofre do Adhemar". Apesar da militância, nunca foi preso, mas as experiências que viveu serviram de combustível poderoso para sua ficção.
Uma das temas mais recorrentes da obra de André Carneiro é o feminismo e a revolução sexual. Muitos de seus trabalhos curtos tratam desse tema em maior ou menor grau, mas foi na ficção longa que Carneiro ousou mais, em seus romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991).
Por causa de problemas de saúde, Carneiro transferiu-se para Curitiba em 1999, para ficar próximo a seus filhos, Maurício e Henrique. Mesmo assim, continuou ativo, realizando diversas oficinas literárias e contribuindo para a formação de um núcleo de autores de fc&f na capital paranaense. Um problema progressivo nos olhos dificultou ainda mais a vida de André Carneiro mas, mesmo com menos de dez por cento da visão, continuou a escrever contos e poemas. São dessa fase a coletânea de contos Confissões do inexplicável e a coletânea poética Quânticos da incerteza, ambas de 2007. Seu último livro publicado foi André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas (2009), mas o autor deixou prontas pelo menos uma coletânea de contos inéditos e uma coletânea de crônicas que, talvez, ainda sejam, editadas.
André Carneiro nos deixou no dia 4 de novembro de 2014, aos 92 anos, vitimado por problemas cardiorrespiratórios. Seu corpo foi cremado e as cinzas depositadas ao pé de uma árvore.

Os livros do mestre
Ângulo & face. São Paulo: Edart, 1949. Poesia.
Diário da nave perdida. São Paulo: Edart, 1963. Contos.
Espaçopleno. São Paulo: Clube de Poesia, 1963. Poesia.
O homem que adivinhava. São Paulo: Edart, 1966. Contos.
O mundo misterioso do hipnotismo. São Paulo: Edart, 1963. Não-ficção.
Introdução ao estudo da 'science fiction'. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1967. Não-ficção.
Manual de hipnose. São Paulo: Editora Resenha Universitária, 1978. Não-ficção.
Piscina livre. São Paulo: Editora Moderna, 1980. Romance.
Pássaros florescem. São Paulo: Editora Scipione, 1988. Poesia.
Amorquia. São Paulo: Editora Aleph, 1991. Romance.
A máquina de Hyerônimus e outras histórias. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 1997. Contos.
Sem memória. São Bernardo do Campo: Edições Hiperespaço, 2005.
Confissões do inexplicável. São Paulo: Editora Devir, 2007. Contos.
Quânticos da incerteza. Atibaia: Redijo, 2007. Poesia.
André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas. São Paulo: Pantemporâneo, 2009.