Mostrando postagens com marcador autor estrangeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador autor estrangeiro. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de agosto de 2019

Flash Forward


Flash Forward (idem), Robert J. Sawyer. Tradução de Ana Carolina Mesquita. Capa de Igor Campos. Rio de Janeiro: Galera Record, 2014. 382 páginas. Lançamento original de 1999.


Em julho de 2012 físicos do CERN (Centro Europeu de Pesquisa Nuclear), em Genebra, na Suíça, realizaram um experimento de aceleração de partículas com o objetivo de encontrar o Bóson de Higgs. Este componente supremamente ínfimo da natureza seria a peça fundamental que formaria as partículas subatômicas e, por extensão, toda a matéria do universo. O evento foi cercado por alguma polêmica, pois alguns grupos de esotéricos e religiosos temeram que o acelerador de partículas pudesse alterar a tessitura da realidade, talvez criando um miniburaco negro que pudesse engolir a própria Terra.
Em termos de ficção científica a concretização deste temor foi abordada de forma brilhante por David Brin em seu romance Terra (Earth), publicado em Portugal pela coleção Europa-América, nos. 182 e 183 (1991). Mas em Flash Forward, ocorre um outro fenômeno tão ou mais surpreendente e improvável: No ano de 2009, quando a experiência para a descoberta do Bóson de Higgs é realizada toda a humanidade perde os sentidos. Fica neste estado por dois minutos e dezessete segundos. E durante este período cada pessoa se vê 21 anos à frente, no qual cada um sente o fenômeno por meio de sua consciência no futuro, ou seja, em 2030.
Aqueles que estavam em movimento no momento do evento sofrem acidentes ou morrem: em escadas, carros, aviões etc. Milhares perdem a vida em todo o mundo. Mas afora esta tragédia imediata o evento altera de várias maneiras as vidas das pessoas em toda a parte. Pense: como você reagiria se pudesse saber como seria o seu futuro daqui a 21 anos? Para muitas pessoas o futuro é interessante: está com saúde, casou e tem filhos, progrediu na carreira, realizou algum sonho antigo. Mas para muitos outros os objetivos se mostraram um fracasso: sofre de doença grave, relacionamentos sem futuro, carreiras malsucedidas, e o pior: escuridão. Várias pessoas não viram nada, numa indicação de que, então, não terão futuro porque não estarão vivas.
Tal é o caso de um dos cientistas que participam da experiência, o grego Theo Procopides. Com apenas 28 anos, teria 49 duas décadas depois. Mas nada viu. Como vaticina de maneira lúgubre seu chefe, Lloyd Simcoe, é porque ele estará morto em 2030. Mas Simcoe também vê seus planos mais imediatos serem abalados: prestes a casar com Michico Tamura, sua assistente, constatou que sua visão o mostra numa cama com outra mulher, que ele ainda nem chegou a conhecer. E para piorar Tamiko, a filha pequena do primeiro casamento de Michico, morre atropelada por causa do flashforward. Você planejaria um futuro com alguém que não vai estar com você?
Mas as consequências também assumem contornos coletivos, em termos econômicos e tecnológicos. Como o evento ocorreu às 17 horas em Genebra, vislumbrou situações de possíveis vantagens econômicas (de saber como tal produto ou segmento estará) ou tecnológicas (com possíveis invenções). Isso porque boa parte das visões relatadas pelos habitantes da Ásia relatou situações desconexas e sem sentido. Claro, estavam dormindo, e viram seus sonhos. Por outro lado, morreram menos do que os ocidentais, acordados em sua maioria na hora do fenômeno.
No início não estava claro que o flashforward havia sido provocado pela experiência de alta energia, mas evidências indiretas foram sendo compostas até ficar claro de que se tratava de algum fenômeno estranho, que levou ao desmaio de sete bilhões de pessoas. Um dos efeitos secundários inquietantes é que nenhum aparelho de gravação registrou as pessoas desmaiadas ou os acidentes. Não filmou nada, só estática. Uma explicação oferecida pelos cientistas – mas que não me convenceu totalmente – é que com a ausência de qualquer consciência humana durante o flashforward, é como se a realidade tivesse ficado suspensa. Uma evidência do efeito observador na teoria quântica.
Depois de evitar realizar novamente o experimento e de ficar claro de que deviam alguma explicação pública para o ocorrido, Simcoe anuncia a provável conexão e, embora ele e o CERN não sejam imediatamente culpabilizados, é claro que há uma percepção geral de que alguma responsabilidade eles têm pelo que aconteceu.
Sawyer poderia ter desenvolvido a história numa espécie de mosaico, que pudesse mostrar o ponto de vista de vários personagens, em diferentes partes do mundo. Talvez reunindo seus destinos ou não, para mostrar as muitas nuances possíveis de como o fenômeno afetou as mais diversas vidas. Talvez com isso o romance ganhasse no desenvolvimento de dramas particulares, e o romance provavelmente seria maior. Contudo, ele optou por apresentar os dramas das pessoas diretamente envolvidas com a deflagração do evento: os físicos do CERN. De como afetou suas vidas pessoais e profissionais.
Neste aspecto, obviamente, o futuro mais inquietante é o de Procopides. Será mesmo que a escuridão representa a morte? Se sim, poderia haver alguma maneira de evitá-la, já que há um conhecimento prévio de sua ocorrência? Ele divulga publicamente seu problema na internet e encontra pessoas que teriam compartilhado a visão do momento de sua morte, como a de um menino de sete anos que daqui a 21 anos será o policial que investigará o seu assassinato. Mas o drama de Procopides não para aí. Seu irmão mais novo, um escritor talentoso comete suicídio ao descobrir que não teria o futuro de sucesso que imaginava.
Mas será que o futuro seria mesmo imutável? No fundo o livro faz uma ampla discussão sobre se existe livre-arbítrio ou tudo já está determinado. Talvez alguma contribuição religiosa ou mística também pudesse ser incluída, na voz de alguns personagens, mas a discussão fica restrita mesmo às teorias da física. Mesmo assim não deixa de ser altamente instigante acompanhar os diferentes argumentos a defender um ou outro ponto de vista. Acredito que o futuro é aberto, e cada um traça o seu destino, a cada segundo de vida. Mas quase fui quase levado a crer que a visão determinista prevalece, como defendida por Simcoe. Ele se baseou nas teorias de Minkowski, de que a estrutura da realidade seria uma espécie de bloco que conteria passado, presente e futuro. E ao transitarmos pelos diferentes trechos deste espaço poderíamos constatar o que já passou e o que irá ocorrer. Embora seja sugestiva, a observação de Michico ajuda a entender por que Simcoe, no seu íntimo, a defende: seria um álibi para todas as mortes ocorridas. Ele não teria tido responsabilidade porque já estava tudo traçado no continuum inscrito no bloco de Minkowski. Sobretudo pela morte da sua enteada, a razão maior da crise de relacionamento entre os dois, até mais do que a visão dele com outra mulher. Mas aos poucos alguns fatos vão mostrando que o futuro pode ser mudado. Principalmente quando pessoas dão cabo da própria vida, como o irmão de Procopides.
Então era preciso tirar tudo isso a limpo. Não principalmente para eles, mas a maioria das pessoas que ansiavam por uma nova visão que confirmasse ou não seu porvir. Com autorização da ONU a experiência é repetida, mas às 5 horas da manhã, em Genebra, ou seja, invertendo o horário da primeira vez e dando a chance ao Oriente de, eventualmente, vislumbrar mais seus futuros e eventuais ganhos em termos econômicos e tecnológicos. É claro que tudo desta vez é preparado para que as pessoas não sejam pegas de surpresa e se acidentem.
Mas será que haverá um novo vislumbre do futuro? E, afinal de contas, o que o teria provocado? Num laboratório de pesquisas físicas no Canadá, surge a hipótese de que o flashforward teria ocorrido por um súbito aumento da ocorrência de neutrinos na Terra no momento da experiência. Os neutrinos são partículas quase sem massa que vagam pelo universo sem nenhuma resistência. No sistema solar são produzidos principalmente pelas explosões nucleares no interior do Sol, e trilhões deles preenchem o nosso planeta – e nossos corpos – em frações de segundo, mas sem interação alguma com outros átomos e moléculas. Neste caso, contudo, o aumento repentino não teria sido provocado pelo Sol, mas pelo acréscimo de neutrinos ainda em vigência pela explosão da supernova 1987A, a maior de uma estrela observada pela humanidade em 383 anos, ocorrida em 1987 na estrela supergigante azul Sanduleak, na Grande Nuvem de Magalhães, a 170 mil anos-luz da Terra.
De certa forma, a não imutabilidade do destino e a descoberta da provável causa do flashforward, causa alívio nas pessoas, fazendo-as perder o receio de repetir a experiência, justamente na data: 21 de outubro de 2030. Mas como seria possível reproduzir o fenômeno, totalmente fortuito na interação dos neutrinos? É enviada uma sonda em direção aos restos da supernova, com um sistema de alerta para determinar o próximo pico de atividade dos neutrinos. Com isso haveria a chance de repetir um novo flashforward. Contudo, se o futuro não é imutável, parte das visões vislumbradas em 2009 se tornaram realidade. Inclusive para Simcoe, Michico e Procopides.
Flash Forward acrescenta mais um aspecto interessante ao tema da viagem no tempo, um dos mais clássicos da ficção científica. Se os viajantes não comparecem de corpo presente à outra época, eles têm visões do que pode vir a ocorrer com eles. Nesse sentido lembra um pouco o porviroscópio, uma máquina de visualizar o futuro, imaginada por Monteiro Lobato em seu romance O Presidente Negro (1926). Mas o que dá um ganho substancial à obra é o tratamento realista da premissa: O que aconteceria ao mundo se um fenômeno desses acontecesse? Além disso, uma narrativa vigorosa, que soma ao tema fascinante, personagens críveis e humanos que faz com que o interesse pela leitura só cresça a cada página.
O romance foi uma das sensações da ficção científica no final do século XX, embora não tenha vencido o Prêmio Nebula como afirma a Record na capa do livro, mas sim o Aurora, prêmio canadense de FC, em 2000. Foi adaptado numa cultuada série de TV entre 2009 e 2010, que durou apenas uma temporada. Mas o que este livro sobretudo demonstra é como o vigor das boas ideias bem desenvolvidas sustenta uma narrativa criativa e inteligente de ficção científica.

– Marcello Simão Branco

sábado, 3 de agosto de 2019

O Manuscrito de Saragoça


O Manuscrito de Saragoça (Manuscrit trouvé a Saragose), Jan Potocki. Tradução de José Sanz. Capa de Benson Chin sobre arte de Gustave Doré. Orelha de Gumercindo Rocha Dorea. 165 páginas. São Paulo: Edições GRD/Devir Brasil, 2016. Original publicado entre 1804 e 1847.


Este é um dos livros mais estranhos que já vi. Talvez a história da obra seja tão misteriosa e fantástica quanto à do próprio livro. Tive o primeiro contato em junho de 1990 quando comprei a primeira edição publicada no Brasil, na coleção Literatura Fantástica, das Edições GRD, em 1965. Mas só em 2016 adquiri a edição ao qual esta resenha se baseia. Na verdade, tem o mesmo conteúdo e tradução, apenas com uma nova capa e tamanho. Estas duas edições da GRD foram entremeadas por uma de mesmo título publicada pela editora Brasiliense, em 1988.
O leitor pode perguntar por que passo estas informações, mas é que, de certa forma, elas estão de acordo com as peculiaridades do livro em questão. Isso porque O Manuscrito de Saragoça surgiu inicialmente em 1804, mas de forma incompleta. Em parte tal perda se deve ao suicídio do autor em 1815. Os originais franceses perderam-se, depois foram reivindicados por outros autores, novas partes surgiram, com contestações sobre a real autoria dos textos, até que em 1847 teria chegado ao conteúdo completo, numa versão traduzida para o polonês e publicada em Leipzig, na Alemanha, chegando às 66 narrativas que compõe a saga.
Mas as edições brasileiras têm apenas 14 destas narrativas, que foi a versão que se consolidou inicialmente após a morte do autor. Ora, estamos diante, então, de um livro muito incompleto. Confesso que me senti um pouco enganado e frustrado. Será que leria o livro se soubesse disso? Talvez não, mas se não o tivesse feito estaria perdendo uma das histórias mais fantásticas e saborosas que já me deparei.
Em meio às guerras de conquista de Napoleão, no início do século XIX, um oficial do Exército francês acha numa casa abandonada na cidade de Saragoça, na Espanha, um manuscrito com as páginas espalhadas pelo chão. Começa a ler e fica totalmente absorvido, mesmo estando escrito em espanhol, língua da qual ele pouco entende. Leva consigo os manuscritos, e logo depois é preso por inimigos espanhóis, e sob o julgo de um capitão, que descobriu que os manuscritos contavam a histórias de um de seus ancestrais. A pedido do prisioneiro o militar traduz a obra para o francês. E é a história deste manuscrito que nós leitores também passamos a ler.
Pelas terras da Espanha acompanhamos as aventuras de Alphonse van Horden, filho de um oficial de prestígio do reinado espanhol que sai de sua localidade em terras francesas para se apresentar ao rei. Mas durante a viagem se depara com situações que desafiam sua sanidade e fé no cristianismo. Por vários momentos ele se pergunta se de fato viveu os acontecimentos ou se não passaram de sonhos ou alucinações. De certa forma o leitor também fica em dúvida, pelo menos em alguns momentos, mas como o fantástico e o sobrenatural crescem na narrativa, acabam assumindo o protagonismo dos eventos e seus significados.
Alfhonse parte de uma estalagem em Venta Quemada com dois ajudantes. Apavorados por relatos de fantasmas e assassinatos na região desaparecem misteriosamente. Sozinho, Alphonse toma conhecimento do enforcamento de dois irmãos que roubavam e matavam nos arredores, fica em dúvida se prossegue, mas, em nome da honra de seu cargo e sua família, segue adiante. No Vale de Los Hermanos pernoita em um castelo, onde é surpreendido pela presença de duas lindas mulheres, Emina e Ziibeddé, que se dizem suas primas. Elas oferecem comida e hospedagem, e depois quando Alphonse se preparava para dormir o seduzem. Mas ele acorda pela manhã ao lado dos dois enfocados, sem rastros das duas mulheres. Teria mesmo as encontrado ou foi tudo um sonho?
A partir desta experiência começamos a adentrar no mundo fantástico da Espanha profunda, com seus castelos, igrejas, montanhas e cavernas secretas, isso sem falar nas figuras exóticas que surgem, interagem com Alphonse, e contam suas histórias, que se constituem em si novas narrativas que formam o contexto misterioso, oculto, sempre por se revelar, em torno da vida e da fé do oficial a serviço do rei cristão.
A estrutura do romance é comparada a outros dois clássicos da literatura universal, As Mil e Uma Noites (século IX), sem autoria definida, e O Decameron (1348-1353), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), com as histórias dentro de uma história, mas cada obra com suas particularidades. Nestas duas mais antigas, os próprios narradores é que contam as histórias, enquanto no livro de Potocki são as pessoas que o protagonista encontra pelo caminho é que relatam os eventos que estão indiretamente ligados ele. A atmosfera das aventuras contadas por suas primas, um padre ermitão, um ladrão fugitivo, um possuído pelo diabo, dois irmãos cabalistas, e por ciganos, são permeados pelo inusitado de situações e seres sobrenaturais. Assim, surgem fantasmas, demônios, vampiros, que se ora se travestem de belas mulheres ou homens que se apresentam como benfeitores para tentar confundir Alphonse. Chama a atenção também o erotismo presente em várias situações, seja entre homens e mulheres ou entre mulheres. Tudo com sugestão, mas com plena força de efeitos. Cada uma das histórias mostra a vida pregressa das pessoas que ele encontra e elas acabam por interagir com a própria trajetória dele que, de encontro em encontro percebe que não consegue avançar sempre voltando ao mesmo local de onde teve início a história.
De forma engenhosa Potocki nos insere numa teia de tramas e conspirações onde o conceito de real e irreal se confunde de forma crescente, e o recurso metalinguístico de estarmos diante de um manuscrito que é contado com histórias dentro de uma história só torna a leitura mais desconcertante. Em certos momentos parece que há uma perda da linha narrativa, mas ao final de cada relato percebemos que cada uma delas cumpre uma etapa no processo de compreensão do plano mais geral. Assim, é um livro que narra as quatorze narrativas que correspondem a quatorze dias de sua jornada, e é realmente uma pena que o livro termina ao final de uma delas sem conclusão alguma do que irá acontecer ou que tipo de destino aguarda Alphonse em sua jornada.
O Manuscrito de Saragoça é um romance gótico com forte apelo sobrenatural e religioso. A realidade apresentada é cristã e a fé de Alphonse é testada a todo o momento por meio de eventos sobrenaturais e, principalmente, por outras crenças que surgem nas jornadas, como a das primas mulçumanas, no casal de cabalistas, no padre que pede que ele confesse seus pecados ou no chefe cigano. De certa forma é como se estas outras formas de compreensão do mundo do além estivesse a cercar da fé cristã, numa espécie de conspiração mágica com o intuito de, através da eventual conversão de Alphonse a alguma delas, subjugar o cristianismo dele e do reino espanhol.
Escrito entre o fim do século XVIII e o início do XIX o livro também se situa numa espécie de transição de costumes e mentalidades entre o fim da Idade Média e o início da modernidade, e ele se expressa, justamente através da jornada do mundo antigo (interior rural, aldeias, líderes religiosos, eventos sobrenaturais) para outro pretensamente mais civilizado, de onde ele parte no início e espera concluir sua missão. Resta saber se Alphonse conseguirá manter sua fé cristã na jornada em direção a um mundo mais racional.
Nesse sentido vejam o que escreveu o editor Gumercindo Rocha Dorea (das Edições GRD) na dedicatória do meu volume da edição de 1965: “Marcello cuidado com este volume! O mundo que aí se encontra está tentando (se é que já não conseguiu) dominar o mundo.” É o velho temor do desafio à fé cristã e seus valores, num processo que se anunciava como de desencantamento do mundo, para usar a expressão com que Max Weber (1864-1920), interpretou a passagem do mundo sacro (tradicional) ao laico (moderno). Potocki tinha em mente sua época, mas esta ideia continua, em alguma medida, presente nos cristãos do mundo, desafiados, justamente pela modernidade que se instaurou e outras crenças que permanecem influentes como forma de interpretar e influenciar o mundo.
A obra recebeu duas adaptações. Uma produção polonesa ao cinema em 1965 – lançada em DVD no Brasil, mas já esgotada –, e uma minissérie de TV na França, em 1973. Raridades que se somam aos mistérios em torno da obra. Mas a boa notícia é a de que sim, está disponível em língua portuguesa a edição completa da obra. As 66 jornadas foram reunidas em dois volumes pela editora portuguesa Cavalo de Ferro, em 2010. Se você leitor que não leu o livro já se interessou a partir desta resenha, imagine para alguém que como eu leu apenas parte da narrativa. Mas seja por qual edição você se deparar, valerá, em primeiro lugar o prazer da leitura. É escrito com beleza e uma fruição acima da média e, também por isso, fadado a seduzir o leitor. Mas, cuidado. Sendo ou não cristão a advertência do Gumercindo faz sentido: pode abalar sua visão de mundo e os valores que têm como corretos. É um livro fascinante e provocador.

– Marcello Simão Branco 

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Um Dia Na Vida do Século XXI


Um Dia na Vida do Século XXI (July 20, 2019: A Day in the Life of the 21st Century), Arthur C. Clarke, organizador. Tradução de Heloísa Gonçalves Barbosa. Capa de Victor Burton. 304 páginas. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1989. Originalmente publicado em 1986.


Quando comprei este livro fazia 20 anos que o homem pousara na Lua. Era 18 de julho de 1989 e passei por uma banquinha que vendia livros usados no fim da Avenida Paulista, próximo à Praça Osvaldo Cruz, em São Paulo. Estava no clima do assunto já que preparava a edição número cinco do fanzine Megalon, sobre a chegada do homem à Lua. Pensei em incluir uma resenha deste livro, mas estava muito em cima da hora. O livro ficou 30 anos (!) na estante até que, finalmente, o peguei para ler, em virtude agora dos cinquenta anos do pouso humano em nosso satélite natural.
Mas este livro não aborda temas relacionados à Lua, mas sim como estaria o mundo quando chegássemos a 20 de julho de 2019. Tanto é que o subtítulo é explicativo: “A vida na Terra e no espaço cinquenta anos depois da chegada do homem à Lua.” Nesse sentido foi até mais interessante esta espera toda pois pude ler o livro com os olhos de 2019 e comparar com as previsões que foram feitas, em meados dos anos 1980. Mais ou menos nesta época o ano 2000 era visto como a chegada do futuro: carros voadores, viagens espaciais, videofones, androides, inteligência artificial, cura de doenças e transplantes de órgãos, possível governo mundial, descoberta de vida extraterrestre etc. Tudo isso e mais está no cardápio de várias obras de ficção científica e até mais nas de divulgação científica e futurologia. Como esperado a especulação foi mais longe que a realidade na maioria das vezes. Mas não vejo isso como um demérito, mas de como a imaginação humana, em sua criatividade a ansiedade por resolver muitos dos nossos problemas, sempre está passos à frente do que é possível ou se torna concreto.
Como deixei este livro esquecido por décadas não atentei para o fato de que, na verdade, ele não foi escrito por Arthur C. Clarke. Na verdade, ele foi o organizador, com convidados a escrever sobre um assunto de sua especialidade. Contribuiu para este engano a desonestidade da editora Nova Fronteira. O livro é anunciado como de Clarke na capa, na orelha e na contracapa, inclusive com comentários elogiosos sobre ele, como a citação do poeta Esra Pound de que Clarke seria “a antena da raça”. Já no sumário os temas estão elencados dando a entender que teriam sido escritos por Clarke. Apenas nos agradecimentos o autor inglês cita o nome dos especialistas, mas sem deixar claro de que foram eles que escreveram os textos. Dá a impressão de que foram apenas consultados. Ora, qual seria o problema em publicar o livro tendo Clarke como organizador?
Em termos de conteúdo o livro cobre vários assuntos interessantes sobre como seria o mundo trinta anos depois de escrito. São quinze capítulos que dão um panorama bastante razoável de como estaria o mundo hoje, principalmente pelo fato de que parte relevante do que especularam se tornou realidade.
O texto “20 de julho de 1969: pouso da Apolo na Lua”, escrito em 1986, por Robert Weil, é muito lúcido sobre as causas da colonização espacial ter sido abandonada, depois da última alunissagem em 1972: o objetivo de pousar na Lua foi político, os custos se tornaram altíssimos e a opinião pública perdeu parte do interesse. Em julho de 2019 o homem estava de volta à Lua, depois de um recomeço do interesse no final dos anos 1990. Na verdade, nada disso aconteceu, e a Lua continua em compasso de espera. A próxima missão tripulada norte-americana anunciada está marcada para 2024, mas sujeita a cortes orçamentários, já que não é uma prioridade de “segurança nacional”. Talvez se a China colocar seus homens na Lua nos próximos anos, haja um recomeço mais consistente e duradouro para a exploração e colonização da Lua.
Os demais capítulos abordam temas bastante variados: medicina e saúde; o uso dos robôs e androides nas mais variadas situações; novos meios de transportes; o uso de tecnologias digitais e virtuais para modificar a forma como encaramos e interagimos com a arte, em pintura, cinema e música; as mudanças em vários esportes, com atletas mais bem preparados fisicamente, mudanças em regras e incorporação de tecnologias; casas e habitações em lugares incomuns, além do incremento de inteligências artificiais; relações sexuais aprimoradas com próteses, implantes e relacionamentos virtuais; novas concepções para a ideia de morte e de como lidar com ela.
Na maioria deste mosaico de temas, os especialistas não fazem feio. Alguns deles imaginam uma rede mundial de informações conectadas em computadores domésticos, mas nenhum deles chega a falar em algo tão complexo como se tornou a internet. Ora, mas ela já existia como uma rede interna das Forças Armadas dos EUA desde o fim dos anos 1960, e depois estendida para algumas universidades norte-americanas nos anos 1970. É de se lamentar que o tema das comunicações não tenha um capítulo próprio, mas abordado de forma lateral a outros assuntos.
O capítulo “Um dia no hospital” é um dos mais próximos de nossa realidade, apurando com bastante presciência vários dos avanços da medicina. Escrito por Patrice Adcroft, apresenta a rotina de hospitais ultrassofisticados que mais parecem hotéis de luxo. Ora, isso é realidade não só nos países desenvolvidos, mas até no Brasil, em alguns hospitais caríssimos em São Paulo. Mas o que incomoda é que a saúde neste 20 de julho de 2019 é quase toda privada. Paga-se por tudo e, como a própria autora admite, boa parte da população não teria acesso a todos os luxos e, mais importante, avanços da ciência médica. E ela não vê problema algum nisso.
Aliás, esta abordagem economicamente liberal é predominante nos vários capítulos do livro. Em si já seria polêmico, ainda mais num mundo capitalista que, se promove desenvolvimento tecnológico e prosperidade econômica, ao mesmo tempo provoca miséria e muita desigualdade. Mas é empobrecedor por não apresentar possíveis experiências que pudessem incluir mais pessoas, numa visão mais pública e humanista. De certa forma, esta ótica mais privada da vida neste século XXI está relacionada com o fato de que todos os capítulos abordam os cinquenta anos depois da chegada do homem na Lua nos Estados Unidos. É a vida dos norte-americanos, num chauvinismo que chama ainda mais a atenção porque a antologia foi organizada por um inglês. E que vivia no Sri Lanka, um país subdesenvolvido e com desigualdades de toda a ordem.
Os dois últimos capítulos destoam deste tom mais otimista. O penúltimo é “Guerra”. Escrito por T.A. Heppenmheimer – que também escreveu um muito bom sobre a vida na então futura estação espacial –, imagina um possível conflito militar entre os Estados Unidos e a União Soviética. Bom, de saída sabemos que desde 1991 não houve mais a superpotência socialista e o mundo entrou numa nova ordem capitalista e globalizada. Mas o texto é interessante do ponto de vista militar e o autor especula como poderia se dar uma guerra, com o uso apenas de armamentos convencionais. Quando se chegasse ao ponto de usar as armas nucleares seria assinado um armistício encerrando as hostilidades. Apesar do relato apresentar um suspense que prende o interesse, e ser bastante realista do ponto de vista dos armamentos e movimentações de tropas pelo interior do continente europeu, peca pela falta de verossimilhança ao imaginar que um conflito entre as duas superpotências pudesse tomar toda a Europa e o norte do oceano Atlântico sem o uso de mísseis intercontinentais com ogivas nucleares.
Para não dizer que Clarke escreveu apenas a breve introdução, ele também comparece no capítulo final, “Epílogo: Nações Unidas – 2019”. Aqui o mestre da ficção científica dá sua visão sobre as relações internacionais, reconhecendo a importância de uma organização multilateral que reduza um pouco os conflitos entre os países. Mas pontua de que: “não parece possível que em 2019 ainda tenhamos um número tão elevado de Estados soberanos independentes; mesmo hoje parecem estar nas últimas – política e economicamente”. Ora, e ele achava que teria menos países em 2019 do que os 51 quando da fundação da ONU em 1945! Hoje contamos com cerca de 206, sendo 193 filiados à entidade. Na verdade, um dos efeitos do fim da Guerra Fria, com a ascensão da globalização foi a divisão de países, com o ressurgimento de nações antes reprimidas por uma ordem internacional mais fechada em duas ideologias concorrentes e predominantes, em termos políticos e econômicos. Por outro lado, Clarke, observa com correção de que o Conselho de Segurança estaria anacrônico e precisaria ser revisto com a inclusão de mais países.
A visão final de Clarke sobre o futuro do concerto das nações em torno de uma entidade global é mais profícua e condizente com sua condição de escritor de FC: “Não vejo as Nações Unidas como mais do que um estágio de transição para uma época em que o próprio conceito de ´nação´perderá o significado. Talvez o maior agrupamento social do futuro seja a Tribo Eletrônica, cujos membros terão em comum interesses e códigos de acessos a redes de computador, mas raramente a geografia”. Não sei se chegaremos exatamente a isso, mas Clarke pressentiu uma tendência que é, em parte, uma realidade em construção em 2019.
Este livro foi lançado em 1986 nos Estados Unidos e chegou ao Brasil, corretamente penso eu, em 1989, assim como em Portugal com o título de A Vida no Século XXI, pela editora Europa-América. Mas cinquenta anos depois do maior evento tecnológico da história da humanidade o livro não foi relançado e, até onde eu sei, poucos foram lançados em nosso país. Isso dá conta de como a exploração do espaço deixou de entusiasmar as mentes e os corações de nossa época e, mais que isso, de como a ideia de futuro parece que entrou em decadência. Principalmente para aqueles que o imaginaram no século passado como algo que existiria no século XXI, mas que, em boa medida, se revelou uma decepção, com problemas tão ameaçadores como os do passado, mas de outra ordem. Os efeitos devastadores do aquecimento global que só deve piorar, a volta do crescimento da desigualdade social, a diáspora dos refugiados e o terrorismo, a crise da democracia, com o ressurgimento de líderes e ideologias políticas autoritárias, tudo a ameaçar uma convivência mais livre e civilizada entre os seres humanos na Terra.

– Marcello Simão Branco

sexta-feira, 24 de maio de 2019

O bazar dos sonhos ruins, Stephen King

O bazar dos sonhos ruins (The bazaar of bad dreams), Stephen King. 528 páginas. Tradução de Regiane Winarski. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2017.

Stephen King é provavelmente o autor mais presente na minha vida de leitor. Desde minha juventude tenho acompanhado sua obra e é interessante observar como ele tem se tornado um autor cada vez mais mainstream sem perder o apelo de uma ficção fantástica, mesmo quando não tem nada de fantasiosa. Esse caráter já pode ser claramente percebido no coletânea Escuridão total sem estrelas, resenhada aqui, mas fica ainda mais evidente na nova coletânea O bazar dos sonhos ruins, publicada em 2017 pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Diferente da coletânea anterior, formada principalmente por novelas, esta é mesmo uma seleção de contos, com vinte textos distribuídos em suas 528 páginas.
Os momentos mais expressivos do autor neste volume são justamente os contos não fantásticos, que demonstram que King tornou-se um sensível cronista da América decadente.
Não comentarei todos eles, pois isso tornaria a leitura desta resenha um tanto enfadonha - uma vez que não tenho, nem de longe, a habilidade do mestre para entreter o leitor. Então, falarei sobre aqueles que mais me empolgaram, embora nenhum texto da seleta possa ser classificado abaixo de bom. De fato, a maior parte está entre muito bom e excelente, com picos de excepcionalidade, que serão aqueles que vou comentar.
"Batman e Robin têm uma discussão" é uma pequena obra prima. Apesar do título, não tem nada a ver com quadrinhos e os personagens do título não aparecem na história, que conta sobre um almoço entre pai e filho num restaurante. Nada muito especial, exceto pelo fato de que o pai sofre de alzheimer, e este pequeno ritual, repetido semanalmente, é um momento de extrema ternura entre ambos. Contudo, ao retornar para a casa de repouso onde o pai vive, algo ruim acontece e a ficção vai assumir um caráter imprevisivelmente realista.
"Ur" conta uma história com a qual qualquer leitor moderno vai se identificar. Um professor de literatura algo tecnofóbico, num momento de indignação extrema depois de uma discussão com a namorada que o acusa de ser quadrado, resolve comprar um kindle, o leitor de ebooks da Amazon. Contudo, o aparelho que é entregue em sua casa algumas horas depois não é exatamente o que nós conhecemos como um kindle. É igual na forma e na operacionalidade, mas além de uma cor rosa absurda, tem um ícone a mais no menu que dá ao seu usuário acesso a livros que nunca foram escritos - pelo menso não na nossa realidade.
"Blockade Billy" tem aquele delicioso formato de alguém que conta um causo. Trata-se de uma história de esporte, sobre beisebol, um jogo com os qual os brasileiros, com raras exceções, não têm nenhuma empatia. Contudo, o que acontece dentro das "quatro linhas" - ou do diamante, com diriam os fãs de beisebol - não é diferente do que acontece em qualquer outro esporte coletivo: vitórias, derrotas, camaradagem, antagonismos, violência acidental ou não, juizes parciais, angústias e alegrias, é isso que faz com que quem gosta de algum esporte, mesmo não sendo o beisebol, curta a história. Trata-se do surgimento de um novo craque que vai levar o time a um patamar inédito de conquistas. Mas, sabendo quem é o autor da história, dá para imaginar que não há apenas glória e ouro no fim do arco-íris.
Em "Mr. Delícia" o elemento fantástico está presente, mas é tão impreciso que poderia ser classificada como uma história realista. Estamos mais uma vez entre gente idosa numa casa de repouso. Entre eles, dois amigos compartilham a montagem de um quebra-cabeças. Um deles conta ao outro sobre Mr. Delícia, alguém que ele conheceu quando era muito jovem e aparentemente está de volta a sua vida.
"Trovão de verão" é o texto que fecha a coletânea, um conto pós-holocausto de extrema delicadeza. Não há zumbis, nem canibais, nem correrias, nem explosões. A frase "o mundo não acaba numa explosão, mas num suspiro", poderia ser usada aqui mas, de fato, o mundo acaba mesmo é com um trovão em pleno verão.
Além dessas excelentes histórias, a coletânea tem muito mais a oferecer, um carro antropófago, uma duna que revela quem vai morrer, o que há depois da morte, um exorcismo bastante assustador, uma desconfortável história sobre obituários, uma corrida armamentista, um demônio em forma de menino, e pelo menos dois poemas, que é uma raridade na obra do mestre do horror.
Cada conto vem precedido de uma contextualização feita pelo autor, que revela detalhes de sua concepção e desenvolvimento, muito interessantes e efetivamente úteis para a leitura.
O bazar dos sonhos ruins é um grande livro que prova que Stephen King continua sendo um ótimo contista. Com e sem fantasia.
— Cesar Silva

sábado, 23 de março de 2019

O Terror


O Terror (The Terror: A Novel), Dan Simmons. Tradução de Alexandre Martins. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2017. 751 páginas. Lançamento original em 2007.


Em 1845 partiram da Inglaterra os navios HMS Erebus e o Terror da Marinha real com o objetivo de descobrir e atravessar a Passagem Noroeste, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico através do Círculo Polar Ártico, situada no extremo norte do Canadá.
A chamada Expedição Franklin, nome dado por causa do comando do capitão Sir John Franklin, do Erebus, contava com uma tripulação de mais de cem homens, equipamentos modernos e provisões para cerca de três anos. Estavam, portanto, preparados para a travessia e a viagem pelo Pacífico adentro. Mas tiveram o infortúnio de serem surpreendidos por um inverno rigoroso fazendo com que os dois barcos ficassem encalhados em meio a massas de gelo colossais e temperaturas dezenas de graus abaixo de zero.
O enorme romance, de mais de 700 páginas que retrata um dos acontecimentos históricos mais dramáticos da Marinha real britânica, é narrado de forma não linear, entremeando os capítulos num vai e vem, entre o início da expedição e o drama que passam a viver quando os navios encalham. Apenas mais ou menos da metade em diante a história assume uma linha narrativa mais convencional, embora sempre abordada do ponto de vista de um personagem, que recebe o nome do capítulo. E é por meio deste recurso que a história é contada principalmente através do capitão Francis Crozier, do Terror, que é quem de fato assume o comando da expedição após a morte do capitão Franklin, em meados de 1847. Outro personagem interessante é o Dr. Goodsir, que relata em um diário tudo aquilo que sente e testemunha, principalmente do ponto de vista médico. Assim, o nível dos detalhes dos problemas que enfrenta, como doenças e cirurgias são bastante detalhados e às vezes indigestos para quem não está acostumado a lidar com situações deste tipo. Esta escolha do autor dá ao livro uma perspectiva mais particular do drama geral, ganhando em verossimilhança das situações e intimidade com os personagens, tornando-os quase como confidentes junto ao leitor.
Chama a atenção também o grau profundo e bem documentado com que Simmons narra o drama naval, com muitas informações e detalhes sobre a rotina dos navios, suas características de trabalho e funcionamento, bem como das funções de cada tripulante. Mas, acima de tudo, do clima atmosférico tenebroso – sim, esta é a melhor palavra que encontro – que se instaura na vida dos cento e poucos homens. Frio extremo, escuridão que dura meses, alimentos de má qualidade e estragados, ferimentos e doenças em profusão, racionamento do carvão que mantém os navios minimamente aquecidos, e uma moral cada vez mais baixa entre os tripulantes, o que só torna o convívio mais tenso e perigoso, inclusive para a linha de comando.
Este drama durou três invernos e com a perda do Erebus, que afundou parcialmente, e a constatação de que o Terror teria poucas chances de voltar a navegar mesmo com um degelo, as tripulações dos dois navios partem rumo ao sul (arrastando sobre a neve trenós e pequenos barcos), para tentar encontrar uma saída para sobreviverem.
Como já dá para perceber este drama já é, por si, terror. E ainda mais pungente quando sabemos que tudo isso ocorreu de verdade. Mas a este contexto o autor acrescenta seu toque ficcional, tornando a história algo mais do que um romance histórico competente. Pois os homens são também aterrorizados pela presença de um monstro, quase invisível, pois é branco como a neve, e que fica à espreita e só aparece no momento final do ataque, quando é tarde demais. Descomunal, tem quatro metros de altura e por ser muito parecido com um urso polar, confunde ainda mais suas vítimas.
A fera, que surgiu não se sabe de onde, circunda os navios e costuma atacar quando os tripulantes têm de sair deles por alguma razão. Mas aos poucos também começa a atacar as embarcações, matando com muita facilidade e devorando suas vítimas. Sim, ela adora carne humana.
Embora não afirme nos “Agradecimentos” é possível aludir que Simmons se inspirou no conto clássico “Quem Anda Aí?[1] (“Who Goes There?”, 1938), de John W. Campbell, Jr., adaptado três vezes ao cinema, como O Monstro do Ártico (The Thing, 1951), O Enigma de Outro Mundo (The Thing, 1982), e A Coisa (The Thing, 2011). Mas ele chega, ao menos, a incluir entre àqueles que dedica o livro, o diretor Christian Nyby e o produtor Howard Hawks, da primeira versão para o cinema. Nas duas primeiras versões o monstro é um alienígena predador que ficou congelado por milhares de anos até ser despertado, inadvertidamente, por uma expedição no Ártico. Na terceira é encontrado numa nave espacial sob o gelo num planeta – um pouco semelhante ao clássico Alien, o Oitavo Passageiro (Alien, 1979), de Ridley Scott.
Mas ao invés, Simmons investe numa perspectiva sobrenatural para justificar a existência do monstro, chamado de Tuunbaq pelos nativos inuits da região, remetido à mitologia de criação do mundo deles. E isso fica exemplificado quando o capitão Crozier, depois de ferido em uma emboscada por um grupo de tripulantes amotinados, é salvo por Lady Silêncio, uma esquimó que havia sido adotada pela expedição após perder seu companheiro, e que recebeu este nome porque, misteriosamente, não tinha língua. Pois ela não é atacada pela fera, ao contrário, interage amistosamente. De acordo com a mitologia, os ataques aos homens brancos, forasteiros, seria uma forma do monstro proteger a cultura e a vida dos inuit.
Embora longo o livro não decai em interesse, e é mesmo notável como Simmons não enrola, pois em todos os capítulos, não só aspectos particulares são contados, mas também novas e dramáticas situações surgem. Há sempre um sentimento de apreensão sobre o que virá, e o livro está repleto de cenas visualmente poderosas, difíceis de esquecer. Os ataques furtivos e cruéis de Tuunbaq, as descrições do inverno escuro e rigoroso, as tempestades de raios, a aurora boreal, os sonhos premonitórios do capitão Crozier – ele mesmo com tendências à paranormalidade –, o encontro inesperado do tripulante John Irving com um grupo de esquimós, o destino cruel de vários personagens. Neste último caso, inclusive, chega-se a um ponto em que a leitura fica penosa, pois vários personagens morrem, um a um, seja de doenças, de frio, de fome, dos assassinatos ou pelas garras da fera sobrenatural.
Há também certa ambiguidade com o título do livro. Afinal, de que terror mesmo se refere? A do navio que curiosa e estranhamente chama terror? Do frio terrível que inviabiliza tragicamente a expedição? – como aconteceu na vida real –, ou do monstro assassino, não por acaso, apelidado pelos tripulantes de O Terror?
O romance foi finalista do British Fantasy Award em 2008 e recebeu uma adaptação na TV – que foi o que motivou a Editora Rocco a traduzir o livro, como informa, inclusive, na capa. Produzido por Steven Spielberg e Ridley Scott a série de mesmo nome foi ao ar em 2018 pelo canal fechado AMC, com oito episódios. Não vi o seriado, mas o livro já me bastou para considerar Dan Simmons como um dos mais talentosos contadores de história especulativa das últimas décadas. Autor da premiada série de FC espacial Hiperyon (1989), dele antes havia lido o forte e sofrido A Canção de Kali (Song of Kali, 1985), publicado em Portugal pela Editora Saída de Emergência, em 2009.
O que fica da leitura de mais de um mês de O Terror é que Simmons, para além da narrativa clara e fluente que prende o leitor, dos personagens vivos e complexos – semelhantes aos dos craques Stephen King e Peter Straub –, tem como maior virtude a capacidade de nos tornar próximos, cúmplices mesmo dos personagens, seus sonhos, medos, dramas, esperanças, e nos fazer sentir tudo isso com eles. Sobretudo por isso, O Terror não é apenas um livro grande, mas um grande livro.

– Marcello Simão Branco



[1] Publicado na antologia O que Será o Futuro? (The Future in Question), organizada por Isaac Asimov, Coleção Argonauta no. 327, Portugal, 1984.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nova era, Chris Weitz

Mundo novo 3: Nova era (The revival), Chris Weitz. 216 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, Selo Seguinte. São Paulo, 2016.

Com este livro, originalmente publicado em 2016 nos EUA, chega ao fim a saga da tribo de adolescentes novaiorquinos que sobreviveu ao apocalipse depois que um vírus altamente agressivo dizimou toda a população adulta na América.
Nos volumes anteriores, Mundo novo (2014) e Nova ordem (2015), vimos como Jefferson, Donna, Petter, Crânio e seus amigos tentam, a todo custo, encontrar uma cura para a praga antes que todos cheguem a idade fatal. Para isso, abandonaram a segurança de sua aldeia protegida por barricadas e algumas armas, e lançaram-se numa jornada de esperança pela Nova York devastada e ocupada por adolescentes violentos, psicopatas, antropófagos, escravagistas e outros tipos igualmente perigosos. A cura foi enfim encontrada, mas ela era apenas o começo do verdadeiro problema que se desenrolava em outras partes do mundo. Na Europa e na Ásia, uma vacina foi produzida e os adultos sobreviveram, bem como toda a parafernália tecnológica a qual estamos acostumados. Mas o desaparecimento dos EUA no cenário mundial causou grandes mudanças no equilíbrio político do mundo e agora todos querem dominar o que sobrou de útil na América, o que significa "arsenal nuclear". A ideia dos governos estrangeiros, especialmente a Inglaterra, é esperar que todos morram na América para então agir com mais liberdade e segurança. Mas a cura de Jefferson os obriga a acelerar seus planos, ainda mais porque há grupos dissidentes que não querem que a nova ordem mundial seja construída sobre uma hegemonia britânica. Um desses grupos, conhecido como Reconstrução, se alia aos garotos na cruzada para salvar o que restou da América. Mas, enfim, as coisas não eram exatamente o que pareciam.
Neste terceiro e último volume, Jefferson e seus companheiros têm de lutar mais um pouco para salvar seus amigos. De volta a Nova York, o plano de Jefferson de unir as gangues em torno da cura fracassou. Traído pela Reconstrução, a "Bola de futebol" e o "Biscoito", os dispositivos de lançamento de mísseis nucleares encontrados no prédio da ONU onde haviam sido abandonados no auge da crise, acabam nas mãos da tribo de Uptown, um grupo belicoso e muito bem armado liderado por um psicopata chamado Evan. Caçado pelos garotos de Uptown, Jefferrson tem de fugir e encontrar algum apoio, e ele vem na pessoa de Donna que, finalmente, retorna à Nova York acompanhada de um comando militar britânico altamente equipado cuja missão é resgatar os dois equipamentos que estão com Evan. A chama do amor entre Jeff e Donna foi severamente afetada pelos eventos do volume anterior. Ainda há uma fagulha, mas nada pode prosperar enquanto o mundo estiver a beira do desastre nuclear total. Contudo, não é uma opção permitir que os dispositivos caiam nas mãos dos britânicos, nem os russos ou dos chineses, que também enviaram tropas para a ilha com o mesmo fim. A esperança repousa na tribo do Harlen, que Jefferson traiu no passado, e o reencontro entre eles pode ser imprevisível.
Weitz, que tem experiência como roteirista e diretor de cinema, desenvolve sua trama através de depoimentos e registros pessoais de personagens-chaves, de modo que, apesar na narrativa ser linear, o leitor obtém uma visão tridimensional do ambiente e das relações entre os diversos núcleos narrativos. O autor tem grande habilidade em modular as vozes dos personagens, mas a produção gráfica ajuda dando a cada um deles uma tipografia diferente, que combina com sua psicologia. E Weitz fez questão de dar personalidade variada a eles, adotando uma linha inclusiva que privilegia minorias e as trata com dignidade. Por exemplo, Petter, que é negro e homossexual, finalmente ganha neste volume seu próprio núcleo narrativo.
Também percebe-se que Weitz se esforçou por atualizar o ambiente, referindo-se a fatos e personalidades mais recentes, como Donald Trump, o Estado Islâmico, por exemplo, que não chegaram a ser citados nos volumes anteriores. Para uma leitura atual, por certo que tais citações acrescentam realismo, mas são elementos datados que podem envelhecer com o passar dos anos.
Apesar de toda a violência, Nova era é um livro para leitores jovens, de leitura fácil e sem grandes complexidades filosóficas, a não ser nas entrelinhas, pois o ambiente permite insights mais sofisticados aqui e ali.
Em toda grande história, vale mais a jornada do que a chegada, e não é diferente com a trilogia de Chris Weitz. Se é preciso um final, então que seja. Por mim, eu estaria muito disposto a seguir acompanhando as desventuras de Jeff e os sobreviventes de sua tribo nesse mundo desfigurado pela peste. Quem sabe, talvez não tenha sido mesmo o The end definitivo.
Cesar Silva

sábado, 2 de fevereiro de 2019

O Mundo Perdido


O Mundo Perdido (The Lost World), Arthur Conan Doyle. Capa de Antonio Jeremias. Tradução de Luiz Horácio da Matta. 238 páginas. Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, no. 28. Original de 1912 e edição brasileira de 1982.

Mais conhecido e aclamado pelos contos e romances em torno do personagem Sherlock Holmes é certamente uma injustiça que os demais textos de Arthur Conan Doyle (1859-1930) tenham sido relegados a um segundo plano. Resultado de uma crítica elitista, pois podemos afirmar que pelo menos um de seus romances sempre foi muito popular e influente, O Mundo Perdido (The Lost World).
Esta aceitação foi imediata quando em 1912 a história foi publicada em partes na revista britânica Strand Magazine, e logo a seguir como livro próprio. O autor tinha plena ciência do perfil dos seus leitores, pois afirma antes de iniciá-la: “Terei realizado meu plano simples se der uma hora de prazer ao menino que é meio homem ou ao homem que é meio menino.” Sem nenhum demérito foi um livro escrito para entreter, em alto nível de aventura e especulação, a imaginação de leitores comuns, e não críticos e literatos nem sempre tão abertos a uma narrativa que prioriza a ação e o suspense. Mas Conan Doyle não produziu apenas bom entretenimento – o que já não seria pouco – mas um bom romance que equilibra de forma admirável rigor científico e a sensação do maravilhoso. Passa uma sensação de que ser cientista é uma das atividades humanas mais excitantes, misturando pesquisa com aventuras por terras incógnitas, onde a descoberta traz, além da satisfação pessoal e contribuição ao conhecimento, um prestígio que poucas profissões são capazes de oferecer.
O Mundo Perdido foi escrito no início do século XX período no qual o tema de mundos e civilizações perdidas estava na ordem do dia. Na verdade um pouco mais de tempo, já que, pelo menos, desde a segunda metade do século XIX a literatura popular havia produzido algumas histórias marcantes. Exemplos, entre outros, Viagem ao Centro da Terra (Voyage au Centre de la Terre, 1864) de Julio Verne (1828-1905), O Povo da Névoa (The People of the Mist, 1884), de H. Rider Haggard (1856-1925), A Ilha do Dr. Moreau (The Island of Dr. Moreau, 1896), de H.G. Wells (1866-1946), Tarzan, o Filho das Selvas (Tarzan fo the Apes, 1912), de Edgar Rice Burroughs (1875-1950), e os brasileiros A Amazônia Misteriosa (1925), de Gastão Cruls (1988-1959), e República 3000 (1930), de Menotti del Picchia (1892-1988), dois clássicos da nossa FC que nada ficam a dever às histórias estrangeiras. Todas tratam, em linhas gerais, de povos e mundos perdidos, esquecidos mas que, surpreendentemente, são redescobertos, com efeitos espantosos para os personagens e, principalmente, os leitores.
A contribuição específica de Conan Doyle para o que se tornou mesmo um subgênero da ficção científica é o achado de um platô escondido na selva amazônica que revela que os dinossauros não foram extintos por completo. A elevação, inspirada no Monte Roraima, teria ficado isolada por milhões de anos, mantendo uma autonomia ecológica responsável pela sobrevivência dos dinossauros. Além disso, neste lugar insuspeito também convivem duas sociedades humanoides, uma mais próxima de ancestrais evolutivos humanos e outra plenamente humana, indígena. Talvez um leitor mais exigente possa torcer o nariz, e mesmo na época já se sabia que os humanos nunca haviam convivido com animais do período jurássico. De qualquer modo, na história os personagens especulam que os mamíferos humanoides vieram de fora deste mundo perdido, indo lá habitar com os saurópodes e terópodes de eras imemoriais.
O enredo acompanha a expedição liderada pelo professor George Challenger. Depois de uma primeira missão à Amazônia ele volta à Londres, mas sem ter provas concretas do que encontrou, é ridicularizado pela comunidade científica. Desafiado num congresso acadêmico, Challenger propõe uma nova expedição, que teria como participante o professor Summerlee, seu grande detrator. A eles se juntam o aventureiro Lorde John Roxton, e o jornalista Ed Malone. Assim, eles partem em direção à selva amazônica.
O personagem principal é o professor Challenger, mas o condutor da narrativa é Ed Malone, pois a história é contada em primeira pessoa por ele, relatando os acontecimentos em missivas enviadas ao Dayle Gazette, o jornal em que trabalha. Chama a atenção de que a expedição procura confirmar o que já foi descoberto. Ou seja, não há um suspense sobre o que poderá vir. Mas sim da extensão do que virá pela frente. Isso me soou meio estranho e com certa expectativa desfeita sobre o potencial da aventura. Mas a forma como Conan Doyle a narra evitou plenamente algum sentimento de decepção. O texto é repleto de situações de perigo e desafio para os expedicionários, que têm suas vidas colocadas em risco quase que a cada página. Muito estimulante também é a força descritiva da selva amazônica em si, os rios enormes e caudalosos, a floresta fechada, os animais que a todo o momento surgem. Mesmo com algumas imprecisões geográficas perfeitamente compreensíveis, está quase na plenitude a exposição de uma selva indomável, misteriosa e cheia de surpresas. Tal como é a maior floresta da Terra e tudo aquilo que ela sempre suscitou na curiosidade científica ou na especulação artística ou crença sobrenatural.
Após chegaram ao platô nossos heróis são sabotados por um dos membros da equipe de apoio que corta a ponte que ligava o penhasco ao platô. Uma vingança contra Lorde Roxton que teria matado seu irmão numa expedição anterior. Agora eles estavam sem ter como descer, com poucas provisões e à mercê de descobertas ao mesmo tempo incríveis e arriscadas. O único apoio que passaram a ter foi a presença de Zambo, um dos empregados que ficou na superfície.
Mas é quando ficam efetivamente isolados que eles descobrem o tal mundo perdido: plantas exóticas, pequenos animais nunca vistos e o mais espantoso: espécies de répteis que deveriam estar extintos há dezenas de milhões de anos. Estegossauros, pterodáptilos, plessiossaurus e os terópodes carnívoros. Curiosamente, o Tiranossaurus Rex não é nomeado, mas supõe-se que se refira a ele, tal o seu tamanho e agressividade.
O romance se situa também no espírito do seu tempo com relação à posição do homem branco ocidental com os outros da selva amazônica, os negros e os mestiços. Sem surpresa os ingleses são mostrados como mais civilizados e inteligentes, superiores aos povos que os servem, retratados em mais de uma ocasião como inferiores e devotados à servir os súditos da rainha. Mas não há um racismo explícito, apenas a constatação de como o povo europeu, inglês em especial, se sentia e relacionava com culturas e comunidades ao redor de um mundo que, em boa parte, havia sido invadido por ele.
Podemos afirmar que a era da ficção científica espacial teve início a partir dos anos 1930, se desenvolvendo plenamente a partir da Golden Age dos anos 1940, estabelecendo mesmo um futuro de consenso, de que a nova e última fronteira estava no espaço sideral. Como apontado acima, a época em que O Mundo Perdido foi escrito o limite do desconhecido a ser desbravado ainda estava situado em nosso próprio planeta. Havia mesmo uma crença popular, embora não levada muito a sério pela comunidade científica, de que em regiões ainda inexploradas do planeta pudesse haver espécimes que sobreviveram às transformações geológicas e biológicas. Além disso, indo um pouco mais longe na imaginação, com a chance de haver alguma civilização perdida, apartada da história convencional. Tais histórias se filiam numa corrente da FC conhecida como romance planetário, embora possamos encontrar histórias deste tipo também situadas em outros planetas. Neste contexto, como já dito, O Mundo Perdido foi publicado, mas embora não tenha sido uma obra pioneira, mantém-se como uma das mais influentes para o gênero e a cultura popular ainda hoje.
Prova disso é que já em 1925 foi produzida a primeira versão para o cinema, ainda mudo. Irwin Allen (1916-1991) produziria o filme mais conhecido em 1960, estrelado por Claude Rains (1889-1967), Michael Rennie (1909-1971) e David Hedison, mais conhecido como o Capitão Lee Crane da série Viagem ao Fundo do Mar (Voyage to the Bottom of the Sea, 1964-1968). No Reino Unido ocorreram duas dramatizações radiofônicas, em 1938 e 1944 e, mais recentemente, entre 1999 e 2002 foi ao ar pela TNT uma série de TV, com três temporadas. Antes disso Land of the Lost foi produzida pela NBC, entre 1974 e 1976. Chamada no Brasil de Elo Perdido foi livremente inspirada na obra de Conan Doyle e muito exibida no país, durante os anos 1980 e 1990. Aqui as aventuras na Amazônia de outra era são vividas por um pai, seus filhos e um cachorro.
Em termos editoriais O Mundo Perdido tem recebido diversas edições em língua portuguesa. A primeira brasileira saiu pela Cia. Editora Nacional, em 1958 e a mais recente em 2018, num volume caprichado da Editora Todavia. Afora estas duas, mais a edição da Francisco Alves Editora em que me baseei para escrever esta resenha – aliás,  com a mais bela capa de todas as que pude ver em pesquisa na internet –, mais quatro saíram no Brasil. Sete no total, portanto. Por sinal o mesmo número de edições vistas em Portugal, a mais recente pela Publicações Europa-América, em 2003. São, simplesmente, 14 edições diferentes da mesma obra!
Já conhecia O Mundo Perdido através do filme de Irwin Allen, que vi diversas vezes numa época em que a “Sessão da Tarde” da Rede Globo exibia várias produções de FC. Talvez por isso, resisti em ler o livro, pois achava que como já conhecia a história não haveria grandes atrativos. Como quase sempre acontece com bons livros, felizmente me equivoquei, pois o romance de Arthur Conan Doyle é muito mais interessante, por apresentar personagens críveis e carismáticos, uma descrição competente da floresta e do mundo perdido, além do equilíbrio virtuoso entre o conhecimento da época e uma especulação destemida, como a que deve ser realizada pela melhor ficção científica.

– Marcello Simão Branco

domingo, 6 de janeiro de 2019

A Bandeira do Elefante e da Arara, Christopher Kastensmidt

A Bandeira do Elefante e da Arara (The elephant and macaw banner), Christopher Kastensmidt. 330 páginas. Tradução de Roberto de Sousa Causo e Christopher Kastensmidt. Editora Devir Livraria, São Paulo, 2016.

Este é mais um dos casos incomuns em que não é possível definir com precisão se estamos diante de uma obra nacional ou estrangeira. Isso porque ambas as origens concorrem neste romance. O autor, Christopher Kastensmidt, é texano e está radicado no Brasil desde 2001. Sua origem norte-americana não é nenhum segredo, mas é preciso que ele o diga para que a gente descubra, porque fala português com fluência perfeita, sem esquecer que compôs praticamente toda sua obra literária em solo tupiniquim. Por outro lado, o texto foi originalmente redigido em inglês e precisou ser traduzido, trabalho brilhantemente desenvolvido pelo escritor Roberto de Sousa Causo, com a supervisão do próprio autor. Isso porque Kastensmidt não se sente suficientemente à vontade com o português para escrever diretamente na Flor do Lácio, que é considerada por muitos linguistas como um dos idiomas mais difíceis do planeta. Mas a pendenga não para aí: o tema do romance não poderia ser mais brasileiro, pois toda a história se passa nas selvas de um Brasil colonial mítico, em que seres fantásticos têm existência real e palpável, para desespero dos colonos portugueses.
O modelo não é inédito, autores nativos já se aventuram por esse tema espinhoso com ótimos resultados, como Ivanir Calado (A mãe do sonho) Simone Saueressig (aurum Domini: O ouro das missões), Felipe Castilho (Ouro, fogo e magabytes), Tabajara Ruas (O fascínio), e o já citado Roberto de Sousa Causo (A sombra dos homens). Contudo, essa não é a regra. Entre os autores brasileiros de fantasia e ficção científica, ainda domina o preconceito em relação a nossa própria cultura e história, bem como dificuldades com a pesquisa, e a insegurança em desrespeitar a tradição folclórica, o que até se justifica em alguns casos. Talvez tenha sido justamente por não ser brasileiro e não compartilhar dessas amarras, que o autor de A Bandeira do Elefante e da Arara ousou embrenhar nesse ambiente difícil.
O resultado é favorável: não há nada a reprovar em A Bandeira do Elefante e da Arara. A história é movimentada e com muita ação, os personagens são redondos e sem cacoetes, os seres mitológicos são fiéis aos originais e há um tratamento responsável e respeitoso com relação a todos os protagonistas e suas origens, sem preconceitos ou estereótipos.
O romance é o que se chama, nos EUA, de fix-up, ou seja, a reunião de textos independentes que formam um todo coerente. Tanto é que os três primeiros capítulos, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", "A batalha temerária contra o capelobo" e "O desconveniente casamento de Oludara e Arani" tiveram anteriormente, de fato, edições independentes na coleção Duplo Fantasia Heroica, publicada pela mesma Devir Livraria, e já comentados aqui.
Kastensmidt explora com habilidade a construção do ambiente selvagem brasileiro. A abertura de cada capítulo apresenta um animal típico de nossa fauna, que também é lembrado no final. Para um brasileiro pode parecer pouco relevante, mas imagino a sensação que as descrições precisas e coloridas causam nos leitores estrangeiros, que nunca viram animais como esses. Não é por acaso que o primeiro capítulo, "O encontro fortuito de Gerad van Oost e Oludara", foi indicado ao prestigioso Prêmio Nebula em 2011.
Nas primeiras histórias, somos apresentados aos protagonistas, Gerad e Oludara, bem como ao seu nêmesis, o bandeirante Antônio Dias Caldas, que vai aparecer em diversos momentos da trama.   Acompanhamos como o aventureiro holandês Gerad conhece o príncipe africano escravizado Oludara e, juntos, fundam a sua bandeira de dois homens, o primeiro encontro com o Saci Pererê, a feroz luta contra o Capelobo, o confronto com o Curupira e seu gigantesco porco do mato, além da tribo dos Tupinambás, a segunda casa dos protagonistas, onde Oludara conhece, se apaixona e casa com a nativa Arani.
Em seguida, temos outras sete noveletas, cujos títulos, além de toda pompa e circunstância, são por si bastante reveladores: "O impropício retorno de Antônio Dias Caldas", "Uma série inconcebível de capturas e calamidades", "Uma tumultuosa convergência de desajustados, monstros e franceses", "A ameaçante aparição da Mula sem Cabeça", "O doloroso nascimento de Tainá", "Um caso audacioso em Olinda" e o impactante "O catastrófico final das façanhas brasileiras de Gerard e Oludara", que fecha o romance com um grande clímax onde não falta destruição, lutas e surpresas que vão colocar em cheque a boa relação entre os heróis. Nessas histórias, vamos também conhecer versões assustadoras dos mitos brasileiros, que não deixam de fora nem mesmo a Cuca e o beligerante Pai do Mato; mas percebe-se que ficaram muitos outros monstros de reserva para o futuro. Por certo que Kastensmidt não contou tudo de propósito. Além das adaptações para os quadrinhos – cujo primeiro volume foi publicado pela Devir Livraria em 2014 –, foi lançado pela mesma editora um jogo de tabuleiro no universo do livro que, tudo indica, é fato inédito no Brasil. Mais informações sobre isso podem ser obtidas no saite oficial do romance, aqui.
Por tudo isso é que A Bandeira do Elefante e da Arara é um livro obrigatório não só para os que gostam de boas aventuras, mas também para que autores e editores descubram que não há nada de errado com a mitologia brasileira. Assim como os nomes dos personagens em português, que ainda é tabu para alguns autores brasileiros, a cultura, os cenários, a história e a mitologia nacionais são ambientes ricos e interessantes, que devem e precisam ser melhor aproveitados.
Longa vida a A Bandeira do Elefante e da Arara!
Cesar Silva

Boris Strugatsky (1933-2012)

No dia 20 de novembro de 2012, o mundo perdeu mais um grande nome da literatura especulativa: Boris Strugatsky, escritor russo que, ao lado do irmão mais velho Arkady Strugatsky (1925-1991), construiu uma sólida bibliografia no gênero da ficção científica, extremamente popular entre os soviéticos e reconhecida internacionalmente como clássica do gênero, sendo traduzida em mais de 30 idiomas.
Nascido em 14 de abril de 1933, Boris Natanovich Strugatsky passou sua infância em Leningrado e lá estava quando a cidade foi sitiada pelo exército nazista. Em 1955, formou-se em astronomia pela Universidade de Leningrado (atual São Petersburgo) e trabalhou como matemático no Observatório de Pulkov.
Os primeiros trabalhos da dupla eram profundamente influenciados por outro grande nome da ficção russa, Ivan Efremov (1908-1972), com uma visão positivista e ingênua da ciência, mas com o passar do tempo, os textos ficaram mais críticos e satíricos. O romance de estreia foi From beyond (Извне), publicado em 1958, e o primeiro grande sucesso editorial veio em 1962, com a publicação de Meio-dia: Século 22 (Полдень, XXII век), romance fix-up formado por várias histórias curtas interligadas.
A enorme aceitação dos leitores russos permitiu que, a partir de 1966, os irmãos Strugatsky se dedicassem à escrita em tempo integral. No total, a dupla publicou cerca de 30 romances e dezenas de contos e novelas.
Muitos de seus livros estão disponíveis em língua portuguesa, especialmente em edições lusitanas, tais como Prisioneiros do poder (Обитаемый остров, 1969), Que difícil é ser deus (Трудно быть богом, 1964) e Um besouro no formigueiro (Жук в муравейнике, 1980), entre outros.
Contudo, quase nada foi publicado no Brasil. Além do conto "O cone branco de Alaíde" ("Белый конус Алаида", 1959), visto nas antologias Rotas para o amanhã (s/d, Editora Bruguera) e 5 novelas de antecipação soviéticas (1964, Editora Estúdios Cor), somente dois romance foram traduzidos: Certamente, talvez (За миллиард лет до конца света, 1977), publicado em 1980 pela editora Civilização Brasileira – que explora um polêmico conceito científico sobre a ação da própria natureza para equilibrar o Universo no caso de descobertas científicas ameaçarem estabelecer paradoxos irreversíveis –, e o maior sucesso da dupla, o romance Piquenique na estrada (Пикник на обочине, 1972), publicado em 2017 pela editora Aleph, sobre exploradores ilegais que entram em um território perigoso e proibido com o intuito de resgatar artefatos abandonados por alienígenas em parada temporária, para vendê-los num ávido mercado negro. A história inspirou um longa-metragem Stalker, dirigido pelo respeitado cineasta Andrey Tarkovsky em 1979.
Diversos outros romances dos Strugatsky chegaram a telona, entre os quais Certamente, talvez, filmado por Alexander Sukorov cujo título americano é Days of eclipse; Prisioneiros do poder, dirigido por Feodor Bondarchuk sob o título The inhabited island, e Que difícil é ser deus, filmado por Peter Fleishmann com o nome de Hard to be a god.
Após a morte de Arkady, em 1991, Boris publicou mais dois romances assinados como S. Vititsky: Busca da predestinação ou o 27º teorema da ética (Поиск предназначения, или Двадцать седьмая теорема этики, 1994) e Os incapazes deste mundo (Бессильные мира сего, 2003).
Boris Strugatsky morreu em São Petersburgo, aos 79 anos, de causa incerta, provavelmente de problemas cardíacos, dos quais o escritor já sofria há algum tempo.
Cesar Silva

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

O problema dos três corpos, Cixin Liu

O problema dos três corpos (三体), Cixin Liu. 316 páginas. Tradução de Leonardo Alves da edição em inglês The three-body problem. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016.

Histórias de contato estão entre as mais praticadas dentro do gênero da ficção científica. Algumas delas são muito criativas quanto aos problemas inerentes da troca de informação entre raça humana e alienígenas, em que quase sempre o que é dito por um não é bem compreendido pelo outro, gerando muitos desentendimentos. Mas, em algum momento, o diálogo se estabelece e as coisas se acertam. A não ser naqueles casos – bastante frequentes diga se de passagem – em que uma das partes quer destruir a outra. Aí temos uma história de invasão, que também é um tema muito explorado pelo gênero.
Sabe-se que toda a história de invasão ou de contato, remete-se à comunicação entre os próprios seres humanos, em que as barreiras linguísticas, culturais e econômicas geram situações de opressão incontornáveis para a parte tecnologicamente mais fraca do diálogo. E é muito difícil escapar dessa interpretação, mesmo que o autor diga que não se trata de uma metáfora. Inclusive no caso de O problema dos três corpos, romance do escritor chinês Cixin Liu, vencedor do prêmio Hugo de melhor romance em 2015. O Hugo é o mais importante prêmio da fc internacional, promovido pelo fandom norte-americano e votado durante suas convenções anuais. Foi o primeiro romance de um autor não anglófono a obter o mérito, mas ele não veio por acaso: Cixin Liu já tinha o reconhecimento de seus conterrâneos, visto ter ganhado oito vezes o Galaxy Award, o mais importante prêmio chinês do gênero.
A história inicia durante os conflitos da Revolução Cultural. As primeiras cenas são chocantes e relatam o assassinato de um acadêmico por seus próprios alunos, diante da filha que assiste a tudo sem poder intervir. Essa estudante, chamada Ye Wenjie, será protagonista de um cabo de guerra entre a humanidade e uma raça alienígena, mas ela ainda não sabe disso. Por hora, é apenas uma jovem solitária e traumatizada, também perseguida pelo governo chinês. Às portas da execução, recebe a oferta de ser poupada em troca de  trabalhar num programa ultra-secreto do governo, cujo objetivo é buscar o contato com alguma civilização extraterrestre. Ela aceita, apesar de saber que será prisioneira num laboratório remoto, chamado Base da Costa Vermelha, e que talvez nunca mais saia de lá.
Anos depois, em nossos dias, cientistas destacados em suas áreas começam a desaparecer em todo o mundo, causando estagnação no avanço da ciência. Alguns deles chegaram a se suicidar depois de concluir que a ciência é inútil. O pesquisador chinês Wang Miao, especializado em nanotecnologia, é assediado por um grupo de homens do governo que pretende recrutá-lo para algo que eles chamam de "guerra", embora não exista nenhuma guerra sendo travada no momento e ninguém fale claramente a respeito.
Entre o grupo está o detetive de polícia Shi Quiang, que passa a ser a sombra de Miao pois desconfia que ele pode ser uma futura vítima. A suspeita recai sobre um  grupo de fiéis de uma religião integralista que se une em torno de um sofisticado jogo de imersão total online chamado "O problema dos três corpos", no qual filósofos do passado da Terra que vivem num mundo que orbita um sistema de três sóis, tentam desenvolver uma teoria que preveja, com exatidão, os drásticos fenômenos climáticos que assolam o planeta, de forma a permitir que a civilização se proteja antecipadamente dos cataclismos mortais que a abatem periodicamente. Nessas circunstâncias, a civilização desaparece e o jogo acaba, para retornar em outro momento da história quando for feito novo login.
Quando Miao passa a enxergar no fundo dos olhos uma aterrorizante contagem regressiva que mais ninguém vê, busca ajuda com uma envelhecida Ye Wenjie, e acaba por se envolver com o estranho jogo. Com a cientista anciã, fica sabendo o que aconteceu na Base da Costa Vermelha, bem como o significado do problema dos três corpos – que ele ajuda a solucionar – e como tudo isso se relaciona com as mortes dos cientistas e a iminente invasão alienígena na Terra.
Cixin Liu é engenheiro, chinês de nascença, e ainda reside na China onde desenvolve uma bem sucedida carreira como escritor de ficção científica, gênero do qual se declara fã desde a juventude.
Diz o autor no posfácio que fecha a edição: "não uso minha ficção como um modo mascarado de criticar a realidade do presente. Acho que o maior atrativo da ficção científica é a criação de diversos mundos imaginários fora da realidade". Contudo, é impossível não ver em O problema dos três corpos uma série de metáforas muito bem assetadas. Sinal de que, como sempre me pareceu correto pensar, as obras têm pretensões próprias que nem sempre são compatíveis com as de seus autores. O leitor experiente também vai perceber uma série de homenagens sutis que o autor faz à importantes obras da ficção científica. Fica a dica para quem quiser se divertir identificando cada uma delas.
O problema dos três corpos funciona muito bem como obra única, mas trata de uma trilogia, cujo título geral em inglês é Remembrance of Earth’s past. Além do primeiro volume, originalmente publicado em 2007, as sequências são A floresta sombria (The dark forest, 2008) publicado em 2017 no Brasil pela mesma editora, e Death's end (2010), que foi anunciado para ser publicado aqui em 2018, mas foi adiado.
Cesar Silva

Regresso à Vida


Regresso à Vida (Recalled to Life), Robert Silverberg. Tradução de José Lourenço Galego. Publicações Europa-América, coleção Ficção Científica no. 29, 1982, 176 páginas. Lançamento original em 1958.

Quando Silverberg escreveu este romance ele estava no auge de sua produtividade. Os anos 1950 foram o de maior quantidade de textos escritos e publicados, principalmente contos, e de aventuras espaciais, embora já estivesse latente, também, sua versatilidade em abordar diferentes temas dentro da ficção científica.
Talvez por isso e também para atenuar sua imagem de escritor de contos curtos, rápidos e sem grande mérito literário, ele escolheu um tema mais difícil, procurando uma abordagem mais realista, conforme ele explica na introdução:
“Tinha a intenção de que este livro tivesse a textura de um romance linear, com um conteúdo nada extraordinário, à exceção da grande hipótese que o faria entrar para o campo da ficção científica e que seria a espinha dorsal de todo o enredo: e se a morte pudesse tornar-se um processo reversível? Queria explorar as consequências sociais de uma descoberta assombrosa; e queria explorar essas consequências não no terreno asséptico de um universo de ficção científica, mas num mundo pouco diferente, nas suas reações fundamentais, do que conhecemos agora.”
Mesmo que história tenha sido primeira publicada em duas edições da revista Infinity Science Fiction, em junho e agosto de 1958, ela enfrentou dificuldades em ser aceita posteriormente para o formato de livro. Pois, de acordo com Silverberg, os editores a achavam “muito séria” e com riscos de “deprimir os leitores”.
Contudo, não é um romance mainstream. Afinal estamos diante da possibilidade de ressurreição após a morte. O que aconteceria se a ciência descobrisse uma maneira de reviver os que morreram? Já parou para pensar nisso? Afinal a morte é dada como uma coisa inevitável e definitiva. E de certa forma somos mesmos condicionados a acreditar e, mais que isso, aceitar este fato.
Mas no campo das hipóteses que só uma ficção especulativa como a científica pode oferecer, o livro nos apresenta esta possibilidade e discute suas consequências, principalmente do ponto de vista social, político e religioso.
Estamos em 2033 e a história é contada a partir de James Harker, advogado que tenta retomar sua carreira, após uma experiência frustrante como governador do estado de Nova York. Isso porque ele tentou implementar algumas reformas políticas que acabaram custando sua reeleição e mesmo sua permanência na vida pública.
Ele é procurado por um representante do misterioso Laboratório Beller para ser o seu conselheiro jurídico e porta-voz. Utilizando a herança deixada por um multimilionário, o laboratório usou o dinheiro para realizar pesquisas que pudessem, finalmente, vencer a morte.
Uma equipe de médicos e cientistas desenvolveu uma tecnologia capaz de reviver pessoas que tenham morrido há até vinte e quatro horas, e com o corpo em bom estado de conservação e sem grandes traumas nos órgãos internos. Não havia a chance de ressuscitação em casos mais complicados, como câncer em estágio avançado e acidentes que danificassem gravemente o corpo.
Contrariado e descrente a princípio Harker testemunha a ressuscitação de cães e, posteriormente, de um ser humano, e aceita o emprego. É uma chance de servir a uma causa importante e se redimir politicamente perante a opinião pública.
 Mas o tema está longe de ser recebido com entusiasmo. Vários setores da sociedade veem com descrença e heresia a possibilidade de reviver alguém que morreu. Primeiramente há a dúvida de que tal procedimento seja possível, a seguir se ele deve realmente ser realizado, pois não seria dado aos homens interferir num desígnio divino, de haver criado o homem como um ser mortal. Adicionalmente, se a pessoa morre a alma sai do corpo, mas se ele revive, estaria sem a sua alma, sendo não mais que um espectro, um zumbi, indigno de conviver novamente com os vivos.
No fundo tais reações estão no campo da religião e suas diferentes crenças e dogmas, semelhantes a outras descobertas revolucionárias da ciência, como a de que a Terra é uma esfera, de que não somos o centro do universo e de que fazemos parte de um processo evolutivo dos seres vivos do nosso planeta. Mas concordo que o tema da ressurreição seria ainda mais controverso.
Estas dúvidas também estão com Harker, mas assumidas principalmente como uma dor interior intensa, já que ele perdera sua filha Eva, alguns anos atrás. Teria sido possível salvá-la do afogamento, mas a tecnologia chegou tarde demais.
Então também por este motivo pessoal Harker tem interesse que a descoberta seja aceita e legalmente regularizada. Mas enfrenta batalhas, antes de tudo, internas, no interior do próprio laboratório, pois dois de seus integrantes divulgam a notícia antes que a técnica estivesse totalmente segura, causando, além da negação de ordem moral e religiosa, também outra de caráter prático. Isso porque de cada seis pessoas revividas uma recuperou suas funções fisiológicas, mas não as do cérebro.
A história envereda por uma batalha política pela luta ao reconhecimento e legalidade do procedimento, em torno dos dois partidos políticos nos Estados Unidos do século XXI: o Partido Nacional-Liberal e o Partido Conservador. Como se vê sucessores dos Democratas e Republicanos, que teriam sido dissolvidos numa crise política no início dos anos 1990.
Ao situar o assunto num recorte mais político-partidário, ao que parece, Silverberg está refletindo, ainda que de maneira indireta e implícita, sobre as opções e valores dos dois maiores partidos norte-americanos, numa fase de grandes contestações e mudanças em seu país: os direitos civis das mulheres e os direitos políticos dos negros, sobre o aborto, drogas liberdade sexual, meio-ambiente. Mas creio que nada chegaria perto do que aconteceria se a possibilidade de ressuscitar a vida fosse possível.
Entre o final dos anos 1960 e início dos 1970 Silverberg estava novamente em uma fase de grande criatividade, mas desta vez com contos, novelas e romances de enorme ousadia temática e qualidade literária. Para citar alguns exemplos: o conto “Passageiros” (“Passengers”, 1967), a novela “Asas da Noite (“Nigthwings”, 1968) e o romance Uma Pequena Morte (Dying Inside, 1971). Nesse contexto imaginou relançar Regresso à Vida, mas após receber o sinal verde para enviar o original a uma editora percebeu outra possível razão para que a história tivesse sido rejeita por algumas editoras no início dos anos 1960: estava mal escrita e com várias cenas melodramáticas. Assim, pela primeira vez em sua carreira, Silverberg reescreveu o livro inteiro, mantendo-o como um texto relativamente curto (é pouco mais do que uma novela), mas bastante centrado sobre as discussões a respeito do tema principal. E é esta a versão, de 1971, que foi traduzida e publicada em língua portuguesa. Ao leitor que porventura procure pelo livro, atenção. Saiu uma outra edição em Portugal com o título de Regresso à Vida, mas trata-se da tradução de outra obra do Silverberg, o romance To Live Again (1969), publicado pela Galeria Panorama, em sua Colecção Antecipação no. 47.
Não li a versão original de Recalled to Life, mas pode-se perceber que estamos diante de um texto fluente e com boa densidade dramática, embora pudesse, já que o reescreveu, ter avançado mais em sua estrutura – com a introdução de mais personagens e outras linhas narrativas, como, por exemplo, de como seria a nova vida de um ressuscitado. Em todo caso, a boa recepção desta nova versão o incentivou a publicar a novela premiada com o Nebula de 1975 “Born with the Dead” (1973), que ele mesmo considera uma espécie de continuação desta sua primeira investida no tema da ressurreição.

– Marcello Simão Branco