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sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Anacrônicos, Luiz Bras

Anacrônicos, Luiz Bras. São Paulo: edição de autor, 2017

Um dia, sem maiores explicações, a sua mãe morta há anos ressurge na cozinha, repetindo continuamente uma ação do seu passado. Ela não interage com você; apenas revive a cena, como se fosse um filme antigo em realidade expandida. Ela pode ser tocada, mas aparentemente não sente o seu toque. A textura é estranha, borrachuda. Não pode ser ferida e não muda uma vírgula no roteiro. No começo, é emocionante mas, com o passar do tempo, torna-se dolorosamente insuportável. Outras pessoas começam a experimentar situações similares, com seus antepassados retornando da morte para interpretar repetidamente antigos papéis. Tudo se complica quando outros momentos dessa pantomima macabra começam a se sobrepor, com diversas cópias dos duplos ressurretos entrecruzando-se no espaço. E fica ainda pior quando mais personagens materializam-se do passado, numa cacofonia enlouquecedora. E quando ressurgirem personagens famosos, como Hitler e Jesus Cristo, onde o mundo irá parar?
Esta é a história que o escritor Luiz Bras oferece aos leitores no ebook Anacrônicos, um conto de ficção fantástica de 30 páginas, ao estilo New Weird, em que o autor retoma o tema da solidão, explorado em profundidade no romance Sozinho no deserto extremo (Prumo, 2012). Mas aqui a situação se inverte: ao invés do isolamento físico, a solidão emerge da multidão de pessoas alheias que impedem a interação social e emocional dos indivíduos. Também a questão dos personagens famosos ressuscitados dialoga com outras obras da ficção especulativa, como a série Riverworld, de Philip Jose Farmer, uma influência de peso que revela a possibilidade de uma exploração mais profunda no tema, que não foi o objetivo de Bras nesta obra.
Luis Bras é escritor de ficção fantástica, nascido na cidade imaginária de Cobra Norato, mas na verdade é uma persona do premiado escritor Nelson de Oliveira, que experimenta aqui os préstimos da edição digital através da plataforma de autopublicação da Amazon. A produção editorial é gráfica é do próprio autor, que também fez sua revisão e encomendou a Teo Adorno, a persona ilustradora de Oliveira, o ótimo desenho da capa. A produção interna também é minimalista, com pequenos toques coloridos nas aberturas dos capítulos. Tudo muito limpo e elegante.
A edição ainda está disponível no saite da livraria Amazon, aqui.
Cesar Silva

terça-feira, 30 de julho de 2019

Names


Names: Uma história policial sci-fi, de Dalton L. C. de Almeida. Dragonfly Editorial Ltda., São Paulo, 2016. Prefácio: L.H. Hoffmann (editor). Capa: Victor Caigue.

Muito original esta novela que estrutura um mundo futuro complexo e bem diferente do nosso, na verdade um mundo espacial e onde as paixões humanas continuam poderosas e impiedosas. Imensas naves espaciais atravessam o Cosmos, representando o conjunto de nações e continentes; um policial, Lucca Costa, da nave latina, investiga um crime que apresenta conotações peculiares. A Latina é uma das super-naves da Frota Real de colonização extra-solar. Sim, este futuro é monárquico, como aliás muitos mundos imaginados pela ficção científica.
A novela é hábil e instigante, porém admite alguns questionamentos. Por exemplo, por que o uso da expressão “sci-fi” — um estrangeirismo de pouco trânsito no Brasil — no subtítulo? E por que o próprio título da obra é “Names” e não “Nomes”? É um detalhe interessante que o nome que a pessoa usa, ou que deixa de usar, é algo de extraordinária importância na trama. Idem os meandros da política, onde nem tudo é o que parece, e onde a liberdade é posta em xeque por sutis manobras. Isso fica evidente quando Lucca e seus companheiros de investigação se vêem impotentes para dar solução definitiva ao caso.
É aos poucos que a gente toma gosto pela trama, que acaba num gancho excitante para uma possível continuação.
— Miguel Carqueija

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Mustafá Ali Kanso (1960-2017)

Deixou-nos, em 26 de junho último, aos 57 anos, o escritor curitibano Mustafá ibn Ali Kanso.
Bacharel em Química e Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Kanso teve uma carreira breve nas letras fantásticas, contudo produtiva e bem avaliada. Suas primeiras contribuições surgiram no início do século, durante as oficinas de escrita criativa ministradas na capital paranaense pelo saudoso escritor André Carneiro, que foi seu grande mentor. Após a morte do mestre em 2014, Kanso assumiu a direção da atividade.
O autor conviveu com grandes nomes do gênero e com eles compartilhou várias antologias: Futuro presente (2009, Record), organizada por Nelson de Oliveira, Contos imediatos (2009, Terracota), Proibido ler de gravata (2010, Multifoco), Sagas: Odisseia espacial (2012, Argonautas), Estranhas histórias de seres normais (2015, Illuminata) e Possessão alienígena (2017, Devir), além de algumas edições do Projeto Portal, organizadas e editadas por Luiz Brás em 2009 e 2010.
Seus livros solo foram a coletânea A cor da tempestade (2011, Multifoco) e o romance O mesmo sol que rompe os céus (2016, Fragmentos).
Vítima de um ataque cardíaco fulminante, seu passamento repentino e precoce surpreendeu todo fandom nacional de literatura fantástica. O corpo foi cremado no Crematório Vaticano, em Curitiba. Uma grande perda para a ficção científica brasileira.
Cesar Silva

sábado, 4 de maio de 2019

Tangentes da Realidade


Tangentes da Realidade, Jeronymo Monteiro. Capa de Pavel Kudis. Orelha de Jurandi Santos. São Paulo: Livraria Quatro Artes Editora, Série Infinito. 204 páginas. Lançamento original de 1969.

Jeronymo Monteiro (1908-1970) fez um pouco de tudo na ficção científica brasileira, ao atuar como escritor, radialista, jornalista, fã e editor. É difícil encontrar alguém semelhante e que tenha atuado por tantos anos, do final dos anos 1930 até o início dos anos 1970. Não por acaso alguns o apelidam de “Pai da Ficção Científica Brasileira”.
Assim, embora ele pertença à Geração GRD, ou de forma mais acadêmica Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira (1958-1972), ele já atuava antes no gênero, ao contrário de outros autores de destaque, como André Carneiro (1922-2014), Fausto Cunha (1923-2004) e Rubens Teixeira Scavone (1925-2007). Mas o que também distingue Monteiro é o seu enfoque pessoal para a FC, uma perspectiva socialmente crítica e, principalmente, humanista. Esta virtude está presente em toda a sua obra, de romances e contos, mas é talvez neste Tangentes da Realidade – aliás, cá pra nós, que título bonito! –, que se mostra de maneira mais desenvolvida, madura.
Este livro é a sua única coletânea, e os contos nela publicados foram escritos em diferentes épocas, de 1947 a 1964, a maioria deste ano. Alguns dos mais antigos foram reescritos, mas é possível perceber que, reunidos, formam um todo coerente, embora sejam tematicamente bem diversificados: contatos com extraterrestres, exploração espacial, guerra nuclear, fenômenos psíquicos inexplicáveis, evolução humana etc. A coerência gira em torno da ideia de que alguma coisa sempre dá errada em todas as atividades exercidas pelo homem. Há um sentido de trágico, como se o que poderia dar certo, por causa de limitações da natureza humana, como a vaidade, a inveja, o egoísmo, a ambição, ou o simples azar colocasse tudo em risco. Mesmo com este sentido mais pessimista, por vezes, emerge também uma certa ingenuidade com relação às ações e comportamentos dos personagens, o que, se numa primeira vista não está de acordo com esta visão mais crítica, por outro, é como se mostrasse que o homem é também um ser voluntarista e, por vezes, altruísta com relação aos seus interesses e seus semelhantes.
A década de 1960 foi a última com produção do autor – que no fim da vida editou a revista Magazine de Ficção Científica, versão brasileira da prestigiosa Fantasy & Science Fiction –, com três livros: Fuga Para Parte Alguma (1961), talvez o seu melhor livro, uma FC de pesadelo em que formigas se reproduzem sem controle a ameaçam a vida humana na Terra; Visitantes do Espaço (1963) – sobre alienígenas que aterrizam em pleno planalto central brasileiro –, e Tangentes da Realidade (1969). Neste sentido, a coletânea é sua única obra publicada já sob o regime militar. Este detalhe é importante porque o livro é dos poucos da FCB que dá um testemunho do momento político sombrio que o país vivia – já no AI-5 –, na mesma época de sua ocorrência, e ainda por cima de um ponto de vista pessoal.
Em “O Copo de Cristal” (maio de 1964), narra-se a história de um copo que é reencontrado depois de muitos anos e as visões estranhas e perturbadoras que ele provoca. O protagonista – vivido pelo alter ego do autor – fala sobre sua prisão, possivelmente denunciado por algum apoiador da ditadura. Apesar de ser contada de passagem na noveleta é de um realismo assustador e expõe a revolta do autor com a violência que sofreu. De certa forma, então, o copo de cristal se presta a uma reflexão sobre o arbítrio e dos rumos possíveis de uma cultura autoritária, não especificamente no Brasil, mas na humanidade em geral. Visto no escuro o copo produz imagens sobre possíveis futuros, todos eles com cenas de violências e guerras. Nesta história, a melhor do livro, e incluída em Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2007), organizado por Roberto de Sousa Causo, está presente de maneira mais completa sua visão de mundo humanista. Monteiro, que viveu nos últimos anos de sua vida na pacata Mongaguá, no litoral sul de São Paulo mostra também no conto como valorizava uma vida despojada do consumismo e valores materiais. O mar simboliza esta simplicidade que harmonizava o humanismo com a natureza. “O Copo de Cristal” é uma obra-prima.
Outra noveleta notável é “Um Braço na Quarta Dimensão” (também escrita em maio de 1964), que conta a história de um pintor humilde vítima de um dom (ou maldição). Contratado para pintar a casa do alter ego de Monteiro, ele desaparece fisicamente quando fica em pânico por algum motivo. Justamente numa destas situações perdeu o seu braço, preso dentro de uma parece, após se materializar do sumiço. O dono da casa o convence a ir com ele a São Paulo para uma consulta com um hipnólogo. Ora, ninguém menos que o já citado escritor de FC André Carneiro que, de fato, atuou na área, tendo escrito dois livros sobre o assunto. Mas o encontro acaba por não ocorrer para o infortúnio do pobre pintor. Uma história que fica nas franjas entre a FC e o fantástico, e mostra suas muitas possibilidades temáticas. Não por acaso foi incluída na antologia Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica Brasileira: Fronteiras (2009).
Além destas o alter ego do autor ressurge em mais duas histórias, dando a entender que, de certa forma, estas aventuras tenham alguma coisa de autobiográfico – certamente o caso mais concreto é de “o Copo de Cristal”. Pois na terceira destas histórias, “A Incrível História de Tômas de Saagunto”, sugere-se que Monteiro ficcionalizou com as tintas do fantástico uma situação que teria testemunhado. Depois de muitos anos, Mendes – o nome da vez que representa o autor no livro –, reencontra um velho amigo dos tempos de juventude, que foi morar em Mongaguá. É um relato mais estranho do que fantástico sobre como um acidente trágico numa mina mudou para sempre a vida de seu amigo.
“O Sonho”, que fecha o livro (1950, reescrita em junho de 1964), é uma história de teor mais intimista, em que também o alter ego de sua esposa Car (de Carmen), reaparece, depois de participar em “O Copo de Cristal” e “Um Braço na Quarta Dimensão”. O casal oferece em sua casa de praia um churrasco aos amigos, em que um deles conta um estranho sonho sobre sua presença nos campos de batalha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. A força reside na verossimilhança do relato, extremamente realista e que serve para denunciar, mais uma vez, a insanidade e os horrores da guerra.
Como se vê ao menos metade das histórias são contadas de uma perspectiva bem pessoal, sugerindo que tenham sido escritas a partir de eventos vivenciados pelo autor. Já a outra metade das histórias apresentam temas mais tradicionais da FC, com uma verve mais voltada para a ação. Como, por exemplo, “Base Espacial Alfa” (1955, reescrita em 1964) – publicada em sua primeira versão na Antologia Brasileira de Ficção Científica (1961), organizada por Gumercindo Rocha Dorea. Versa sobre a impossibilidade da futura exploração do espaço devido a não superação das hostilidades políticas entre as nações. Outra nesta mesma linha é “Missão de Paz” (1955, reescrita em junho de 1964), sobre as dificuldades de superação de preconceitos com o anúncio da chegada à Terra de uma civilização extraterrena.
Duas histórias complementam o volume, e acentuam o aspecto trágico da condição humana. A primeira delas é “As Pedras Radiantes” (junho de 1964). Conta sobre um estranho comerciante que oferece diamantes a preços módicos às joalherias. Na verdade é um alienígena que procura testar os valores humanos, que não resistem à tentação das pedras, expondo toda a mesquinharia e egoísmo da condição humana, como uma civilização bárbara, não qualificada para frequentar uma comunidade de civilizações interplanetárias. Mais incisiva ainda é “O Elo Perdido” (de 1947, reescrita em 1964), sobre um casal que tem um filho que nasce com uma mutação, com características semelhantes a um neanderthal. Uma situação que teria sido provocada devido às doses de radioatividade que o pai teria recebido quando havia trabalhado num laboratório de física nuclear. Além do insólito do tema chamar a atenção, o mais forte é a não aceitação do pai, que passa a viver em constante conflito com a criança. Uma história, sobretudo, sobre como o preconceito pode ser mais forte do que o amor, mesmo que seja de um pai com relação ao seu filho.
Em suma, Tangentes da Realidade é uma obra madura, de conclusão da obra de Jeronymo Monteiro. Em termos de prosa, demonstra habilidade em envolver o leitor em suas tramas e tem como maior virtude os diálogos inspirados, que por vezes soam como se estivéssemos testemunhando ao vivo as situações. Já a partir dos temas, como já dito, ressalta a sua postura de vida simples, ilustrada pelas belas imagens da vida litorânea e pelo comportamento solidário com os amigos ou humildes. Falando de uma forma mais geral, temos com este livro mais um exemplo da principal característica e, diria, virtude dos autores da Primeira Onda: sua postura socialmente crítica e humanista. Alguns observadores da nossa FC defendem, não sem alguma frequência, de que a FC produzida nos anos 1960 não é muito atraente, sendo inferior ao que se fez posteriormente, em especial nos anos 1990, com o pessoal da Segunda Onda. Se estiverem se referindo ao grau de qualidade da especulação ficcional e da variedade dos temas tratados, talvez tenham razão, mas subestimam o que ela ofereceu de mais interessante e ainda não superado: a crítica social e a postura mais madura com que os autores daquele período refletiram sobre o mundo, as transformações tecnológicas e a condição humana.
– Marcello Simão Branco

sábado, 27 de abril de 2019

A fantástica jornada do escritor no Brasil

A fantástica jornada do escritor no Brasil, Katia Regina Souza. 178 páginas. Editora Metamorfose, Porto Alegre, 2017.

Em 2016, recebi o telefonema da jornalista Katia Regina Souza que queria colher depoimentos sobre minha atividade editorial com ficção fantástica. Tinha ficado com a impressão que era para um artigo de algum jornal de Porto Alegre, que é a terra da jornalista, por isso fiquei positivamente surpreso quando soube que se tratava de um trabalho acadêmico sobre o mercado de fc&f no Brasil e que geraria um livro. E fiquei ainda mais impressionado quando um exemplar de A fantástica jornada do escritor no Brasil, publicado pela editora Metamorfose, desembarcou aqui em casa, gentilmente enviado pela autora, a quem agradeço duplamente: pelo volume em si, que é muito bacana, e também porque muitas de minhas falas estão fielmente reproduzidas ali. Mas o significado do livro vai muito além de uma massagem no ego.
Ocorre que o volume é, de fato, um profundo ensaio de 178 páginas, cuidadosamente elaborado com detalhes colhidos em dezenas de entrevistas que a autora realizou ao longo de mais de um ano, com autores e editores de várias regiões do país que atuam no segmento: Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, André C. S. Santos, André Vianco, Anna Fagundes Martino, Artur Vecchi, Bárbara Morais, Becca Mackenzie, Camila Fernandes, Camila Guerra, Carlos Orsi, Celly Borges, Cesar Silva, Christopher Kastensmidt, Cirilo Lemos, Clara Madrigano, Claudia Dugim, Clinton Davisson, Cristina Lasaitis, Duda Falcão, Eduardo Kasse, Eduardo Spohr, Eric M. Souza, Eric Novello, Erick Sama, Fábio M. Barreto, Felipe Castilho, FML Pepper, Gianpaolo Celli, Giulia Moon, Helena Gomes, Jana P. Bianchi, Jim Anotsu, Ju Lund, Karen Alvares, Lauro Kociuba, Marcella Rossetti, Marcelo Amado, Marcus Barcelos, Martha Argel, Nikelen Witter, Peterson Rodrigues, R. F. Lucchetti, Regina Drummond, Richard Diegues, Roberta Spindler, Roberto de Sousa Causo, Rodrigo van Kampen, Rosana Rios, Simone O. Marques, Simone Saueressig e Thais Lopes.
As entrevistas foram fragmentadas e suas partes distribuídas ao longo de oito capítulos: "O papel do editor"; "A publicação tradicional"; "A publicação independente"; "Panorama da literatura fantástica brasileira; "O processo criativo"; "Divulgando o trabalho"; "Como sobreviver às críticas negativas" e "O fim da jornada?". O texto é agradável, otimista e com brilho jornalístico, sem o peso que se espera de um texto acadêmico.
Apesar da proposta da autora de produzir um manual para novos autores – confissão expressa na primeira orelha –, o resultado é um valioso instantâneo do estado da ficção fantástica brasileira contemporânea, que pode servir como farol para autores e editores em atividade, sejam eles novos ou veteranos. Este é realmente um livro que todos precisam ler.
— Cesar Silva

sábado, 30 de março de 2019

Mistério de Deus, Roberto de Sousa Causo

Mistério de Deus, Roberto de Sousa Causo. 600 páginas. Devir Livraria, São Paulo, 2017.

Há anos esperava que o meu amigo Roberto de Sousa Causo trouxesse à luz a história de Mistério de Deus, do qual fui leitor beta. A espera acabou em 2017, com o lançamento do romance pela Devir Livraria.
Mistério de Deus não é continuação nem spin-off de Um anjo de dor, romance de horror de Causo publicado em 2009 pela mesma Devir Livraria. Mas há pontos de contato entre as duas histórias, a começar pelo cenário de Sumaré, cidade no interior paulista onde o autor passou boa parte de sua juventude.
Tenho na memória, muito nitidamente, a maioria das cenas do romance, que conta a história de um ex-presidiário, leão de chácara num inferninho de Sumaré nos idos de 1991, que é levado pelas circunstâncias e por um profundo senso de justiça, a intervir nas ações de um grupo criminoso que aterroriza a região a bordo de um maverick preto envenenado. Mas não é só isso, há algo sobrenatural em torno das ações do bando, e o rapaz vai ter que levar sua determinação ao limite para tirá-los de cena.
A história tem um contorno realista que dialoga com um modelo literário que está muito em voga, como o do romance vencedor do prêmio São Paulo de Literatura Barba ensopada de sangue, de Daniel Galera (Companhia das Letras, 2012), um drama policial de contornos regionalistas que aos poucos assume os protocolos das histórias de horror.
Seguindo as orientações de mestres do gênero, especialmente Stephen King, Causo não se furta a mostrar a cara do monstro no momento adequado e com toda a crueza possível. Porém, a elegância narrativa não permite que a história assuma caminhos demasiadamente apelativos, com sangue e tripas espirrando na cara do leitor, como seria de se esperar no estilo brutalista tão popular no gênero atualmente.
O livro tem 600 páginas – é provavelmente o livro mais volumoso já publicado pelo autor – e traz na capa uma ilustração agressiva de Vagner Vargas, que tem sido parceiro constante de Causo em suas publicações.
Roberto de Sousa Causo é Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo e mantém um intensivo trabalho como autor de ficção especulativa, com diversos livros de ficção e não ficção publicados no Brasil – alguns deles premiados – e dezenas de contos publicados no exterior em países como Portugal, Argentina, França, China e Cuba. Entre seus trabalhos mais importantes, está o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil – 1875 a 1950 (UFMG, 2003).
Mistério de Deus vai agradar vários tipos de público: desde o leitor de horror, que é óbvio, mas também os de histórias de mistério policial e principalmente os fãs de muscle cars, um público ainda pouco explorado pela literatura nacional.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Contos de terror

Contos de terror, Camilo Prado, org. 166 páginas Ilustrações internas e capa de Angelo Agostini. Edições Nephelibata, Desterro, 2016.

O gênero do horror sempre teve uma convivência mais íntima com o mainstream literário brasileiro, e não é difícil para o leitor atento identificar obras sombrias na bibliografia de uma infinidade de autores consagrados. Isso acontece devido a uma fase importante da arte literária, que acorreu entre o final do século 19 e o início do século 20, que os pesquisadores chamam de Decadentismo. Esse movimento artístico, herdeiro tardio do gótico, que em tudo reflete aos protocolos do horror como o conhecemos hoje, foi bastante popular na Europa – especialmente na França – e, por conseguinte, sua influência atingiu o Brasil em cheio, daí a razoável prodigalidade com que esse tipo de texto foi praticado, em comparação a outros gêneros da literatura especulativa.
Contos de terror, antologia organizada pelo pesquisador Camilo Prado para a editora independente Nephelibata, buscou reunir uma amostra da escola decadentista brasileira, para o que o organizador estabeleceu uma regra de ouro: só publicar contos em que os elementos tétricos fossem decorrentes de uma ação natural. Ou seja, nada de assombrações, demônios e outras manifestações do sobrenatural. Trata-se, portanto, de uma antologia de terror no sentido estrito, em que são apresentadas as faces mais sombrias do ser humano a partir da arte de autores renomados, quase todos em domínio público, numa tiragem muito pequena: apenas 70 exemplares numerados produzidos artesanalmente pelo editor. Este volume é uma espécie de lado B de uma publicação anterior, a antologia Contos decadentes brasileiros, já esgotado, mas que a editora pretende dar sequência com dois novos volumes que estão no prelo.
Outro aspecto interessante adotado pelos editores foi a manutenção da grafia da época, ou seja, os textos são apresentados da mesma maneira em que foram vistos originalmente, com as regras ortográficas da virada do século 19, o que dá um sabor especial à leitura, assim como as ilustrações do jornalista ítalo brasileiro Angelo Agostini, um dos primeiros ilustradores editoriais do país.
São quinze os textos presentes neste volume, de autoria de quatorze autores: Coelho Netto, Lucilo Varejão, Viriato Corrêa, Domicio da Gama, João do Rio, Julia Lopes, Humberto de Campos, Théo-Filho, Rodrigo Octavio, Monteiro Lobato, Carlos de Vasconcelos, Baptista Junior, Gastão Cruls e Medeiros e Albuquerque.  Alguns nomes são identificados com a literatura especulativa – como Humberto de Campos, João do Rio, Coelho Netto, Gastão Cruls e Monteiro Lobato –, mas a maior parte dos nomes é mesmo uma grata novidade. O organizador cuidou para que cada um deles fosse devidamente apresentado ao leitor numa breve biografia que antecede cada um dos contos, e ajuda bastante a contextualização do que será lido.
O conto que abre a seleta é "Na treva", de Coelho Netto, autor extremamente popular em sua época, dono de um estilo rebuscado com pendão para o inusitado, que conta a história vertiginosa de um grupo de passageiros a bordo de um trem noturno aparentemente desembestado.
Outro texto de destaque é "A peste", de João do Rio, que desenvolveu em seus contos um importante trabalho de registro da cultura carioca de sua época. Neste, o drama hospitalar sobre um surto de varíola.
"Madrugada negra", de Viriato Corrêa, não é de todo desconhecido. Trata-se de um relato em primeira pessoa, em que um homem conta a um grupo de amigos uma história de grande infortúnio. Contar uma história dentro de outra é um formato recorrente neste tipo de narrativa, e o autor de Cazuza, membro da Academia Brasileira de Letras, desfia aqui uma tragédia advinda da covardia de um homem.
Julia Lopes é a única mulher no grupo, e também única a comparecer com dois textos. "Sob as estrellas" envereda pela trágica relação de amor de um casal separado pela insensibilidade do homem, e "As rosas" é a história triste e tétrica de um jardineiro que perdeu a filha.
Outra história bastante antologizável é "O juramento", de Humberto de Campos, sobre um homem que testemunhou a amada ser devorada por índios canibais.
Gastão Cruls, autor do importante romance A Amazônia misteriosa, aparece aqui com "G.C.P.A.", também uma narrativa hospitalar sobre um homem que padece de uma doença rara.
"Bugio moqueado" é o texto de Monteiro Lobato, um dos maiores clássicos do terror brasileiro, originalmente publicado na coletânea Negrinha (1920), com o relato sobre a técnica educativa de um homem muito mau.
Também vale comentar aqui o texto de Rodrigo Octavio, "Gongo Velho (Cousas de outro tempo)", uma história pungente de exploração e preconceito que, ainda que tenha sido publicada em 1932, tem forte apelo em nossos dias.
A antologia é muito equilibrada e demonstra o quanto o Decadentismo foi prolífico no Brasil. Sabemos que muitos desses autores não se negavam a avançar nos domínios do sobrenatural quando lhes convinha, como se pode perceber na leitura de antologias como Páginas de sombra (Casa da Palavra, 2003) e Contos macabros (Escrita Fina, 2010). Mesmo sem o componente metafísico, Contos de terror junta-se a elas para contribuir com o estudo da presença da ficção de horror na literatura brasileira. Sem esquecer que também é, por si mesma, uma leitura perturbadora e, porque não, divertida.
Cesar Silva

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Almanaque Entrevista



Nelson de Oliveira fala sobre o livro Fractais Tropicais e a ficção científica brasileira

por Marcello Simão Branco


Já pelo final de 2018 foi lançada a antologia de contos Fractais Tropicais: O Melhor da Ficção Científica Brasileira, pela Sesi-SP Editora, com organização de Nelson de Oliveira. Não é um volume de contos qualquer, pois reúne 30 contos dos mais representativos da história da ficção científica brasileira. Além disso, pela primeira vez, um livro publica autores das três ondas históricas do gênero no país, tornando-se, desde já, uma referência indispensável para quem quer conhecer e pesquisar sobre a ficção científica brasileira.
O responsável pelo projeto é Nelson de Oliveira (e seu pseudônimo Luiz Bras), um autor com carreira prévia consolidada no mainstream, que tem sido um dos mais atuantes e provocadores nomes do gênero no país neste século XXI, na condição de crítico, blogueiro, editor, antologista e escritor. Escolhido “Personalidade do Ano de 2010” pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, já inclui, ao menos um livro seminal em nossa FC, a coletânea Paraíso Líquido (Editora Terracota, 2010). Na entrevista a seguir ele fala sobre os detalhes da edição da antologia, da condição favorável da ficção científica brasileira atual e suas perspectivas, de seu fascínio pelo gênero, e de uma nova antologia já em gestação que abordará, na mesma perspectiva de Fractais Tropicais, o fantástico brasileiro.

“Fractais Tropicais” é a mais abrangente antologia de ficção científica brasileira já organizada, pois reúne contos das três ondas do gênero. Nos fale da ideia do projeto e o que espera com ele.



A antologia nasceu de minha paixão pela ficção científica brasileira e do desejo de contaminar outros leitores com o vírus dessa paixão. O volume ficou mais abrangente porque tive a sorte de encontrar na equipe da Sesi-SP Editora a parceira ideal. Quando apresentei a ideia, eram apenas quinze autores. Quem propôs fazermos uma antologia mais ampla foi o pessoal da editora. A ficção científica brasileira está voltando a viver um ótimo momento. Eu realmente gostaria que o leitor brasileiro começasse a prestigiar mais os autores brasucas de FC. Espero que essa antologia desperte o interesse principalmente dos jovens leitores que até pouco tempo atrás nem sabiam que nós também escrevemos e publicamos ótima ficção científica. Gostaria que Fractais Tropicais se tornasse um best-seller e abrisse caminho pra outras antologias, provando que nossa FC também pode ser um empreendimento comercialmente viável.

A divisão dos contos por ondas em “Fractais Tropicais” é um tanto quanto desigual. Por que alguns autores importantes da segunda onda (como Henrique Flory, Roberto Schima, Simone Saueressig, José dos Santos Fernandes) e, sobretudo, da primeira onda (Levy Menezes, Nilson Martelo, Domingos Carvalho da Silva) ficaram de fora?

A historiografia da ficção científica brasileira é longa. Já passou quase um século e meio desde que O Doutor Benignus, de Augusto Emílio Zaluar, foi publicado, em 1875. Não daria pra fazer justiça a essa historiografia apenas com uma antologia de trinta autores. Seriam precisos mais um ou dois volumes. Minha proposta aos leitores é que Fractais Tropicais seja considerada junto com “Os melhores contos brasileiros de ficção científica”, Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras e As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica, antologias organizadas por Roberto de Sousa Causo para a editora Devir, e Páginas do Futuro, antologia organizada por Braulio Tavares para a editora Casa da Palavra. Tanto a pesquisa historiográfica quanto a produção literária desses dois autores-organizadores me inspiraram bastante, durante a elaboração da Fractais Tropicais. Gosto de pensar que todas as antologias disponíveis somam forças, em vez de competirem entre si. Todas convergem em nome de uma causa comum.

O livro tem recebido uma boa divulgação, com resenhas nos dois principais jornais de São Paulo, algo raro em se tratando de FC brasileira, se é que já ocorreu. Você atribui isso ao fato da antologia ter sido organizada por você – um autor e antologista de prestígio – ou também porque, aos poucos, podemos dizer que a FCB está saindo de sua invisibilidade, com mais reconhecimento junto ao mainstream literário e o jornalismo cultural?

Podemos afirmar, com segurança, que a ficção científica brasileira está saindo de sua proverbial invisibilidade. A boa recepção da antologia, pela grande imprensa, talvez seja o coroamento de uma equação virtuosa envolvendo muitas variáveis. Quando a Netflix estreou a primeira temporada da série 3% (2015) eu percebi que a ficção científica brasileira estava começando a viver outro ótimo momento. Mas eu sinto que a FC brasuca precisa chegar às camadas mais altas do mercado editorial e conquistar as grandes instâncias legitimadoras: os prêmios e as feiras importantes, as grandes editoras, o prestígio acadêmico. Ainda estamos longe do cenário que eu considero o cenário ideal para os livros de FCB. Ainda não vi, por exemplo, a reedição de dois dos melhores romances do último quartel do século 20: Piscina Livre e Amorquia, de André Carneiro. Ainda não vi obras de FCB vencendo os principais prêmios literários: Jabuti, Oceanos, São Paulo, Biblioteca Nacional. Ainda não vi os autores de FCB participando dos principais eventos cult: Flip, Jornada Nacional de Passo Fundo, Flima, Flipoços, Flop. Ainda não vi os autores de FCB participando do Conversa com Bial ou protagonizando uma matéria do Fantástico.

Gostaria que você explicasse um pouco qual foi o critério de escolha dos contos selecionados. Foi sua preferência como organizador, ou foi levando em conta também o interesse do autor selecionado? Isso porque, em minha opinião, contos muito bons de alguns autores ficaram de fora. Procurou-se levar em conta também a diversidade temática ou textos mais recentes, talvez no intuito de divulgar o que certos autores vêm escrevendo?

O critério de escolha obedeceu a uma diretriz histórica (a divisão em três ondas) e uma diretriz puramente afetiva (meu autores e ficções prediletos). É por isso que a Primeira Onda tem menos textos do que a Segunda e a Terceira. Confesso que eu respeito, mas não sou muito fã da obra dos pioneiros de nossa ficção científica. Aprecio bastante os livros do André Carneiro, e um ou outro conto da Dinah Silveira de Queiroz, do Fausto Cunha, do Jeronymo Monteiro e do Rubens Teixeira Scavone. Mas gosto muito mais dos livros dos ficcionistas contemporâneos. Outro detalhe importante: tendo em vista a convergência de antologias, eu preferi não repetir contos já incluídos nas antologias do Causo e do Braulio. A exceção foi o conto do Ademir Assunção, porque esse autor do mainstream até hoje só escreveu um conto de ficção científica. O conto “Quinze Minutos”, do Ademir, também aparece na antologia Páginas do Futuro.

Fractais Tropicais é importante também pela grande representatividade de temas que apresenta, mostrando que a FCB já abordou quase todos os temas importantes do gênero. Contudo, chamou a atenção a ausência de dois temas: histórias de fim do mundo e de histórias alternativas, sendo que há ótimos contos sobre ambos os assuntos. Alguma razão para isso?

Podemos classificar essas ausências na categoria “contingência inevitável”. Foram contemplados catorze subgêneros da ficção científica. Mas a antologia teria resultado mais didática se realmente todos os ramos da FC tivessem sido contemplados com um conto. O problema é que existem muito mais de trinta ramos e eu não consegui evitar repetições. Por exemplo, um dos ramos mais importantes do momento, ausente da Fractais Tropicais, é o afrofuturismo. Também faltaram: império galáctico e mundo perdido. Prometo incluir esses subgêneros numa próxima antologia.

Ao final do livro, no texto “Sobre o Organizador” é informado que Luiz Bras deverá organizar uma antologia equivalente sobre o fantástico no Brasil. Como está o projeto? Terá o mesmo recorte histórico e temático mostrado em Fractais Tropicais?

A ideia é essa mesmo: reunir trinta dos melhores contos de nossa ficção fantástica, de autores modernos e contemporâneos. De um lado: André Carneiro, Aníbal Machado, Edla van Steen, Jamil Snege, José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Murilo Rubião, Rosário Fusco, Victor Giudice… Do outro: Alex Xavier, Carlos Emílio Corrêa Lima, Fábio Fernandes, Flávio Moreira da Costa, Ignácio de Loyola Brandão, Ivan Carlos Regina, João Paulo Parisio, Lygia Bojunga, Maria Helena Bandeira, Modesto Carone, Paulo Sandrini, Romy Schinzare, Santiago Santos, Veronica Stigger… Ainda estou lendo e selecionando os contos. É importante lembrar que, no excêntrico mundo de Luiz Bras & Nelson de Oliveira, a ficção fantástica − às vezes chamada, na América Latina, de “realismo mágico” − é diferente da ficção sobrenatural, geralmente sobre feiticeiros, vampiros, lobisomens, fantasmas, zumbis etc. Pra maiores explicações sobre minha definição particular de ficção científica, ficção fantástica e ficção sobrenatural, eu recomendo a leitura do manifesto “Convite à Convergência”, publicado recentemente no jornal Rascunho. Num de seus parágrafos o autor escreve:

§

O que mais me agrada na ficção fantástica e na ficção científica é a subversão das leis da natureza.
Num conto ou num romance, adoro quando a causalidade, a força da gravidade, a biologia, a geologia, a atmosfera, enfim, o tempo, o movimento planetário, os minerais, as plantas e os animais, as pessoas e as estações do ano passam a funcionar de maneira diferente da nossa familiar realidade.
Isso acontece também na ficção sobrenatural.
Na ficção sobrenatural, as pessoas se metamorfoseiam, ficam invisíveis, interagem com os mortos, trocam de corpo, viajam no tempo ou enfrentam criaturas impossíveis por meio de feitiços, maldições e encantamentos, ou seja, graças à magia.
Na ficção científica, as pessoas fazem as mesmas coisas por meio da engenharia genética, da mecânica quântica, da inteligência artificial etc., ou seja, graças à ciência e à tecnologia.
Na ficção fantástica, ao contrário, as pessoas fazem as mesmas coisas extraordinárias graças a nada e ninguém. Não há feitiços ou máquinas, feiticeiros ou cientistas, por trás dos fenômenos insólitos. Apenas as leis da natureza são diferentes.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

O Teorema das Letras


O Teorema das Letras, André Carneiro. Capa: Claudio Takita. Posfácio de Ramiro Giroldo. 166 páginas. São Paulo: Devir, Coleção Pulsar, 2016.

Este é o quinto livro de contos publicado pelo autor, o único de forma póstuma, já que ele faleceu em novembro de 2014.
Assim, a coletânea reúne a parte final dos seus escritos em prosa, o que mostra a vitalidade e longevidade de sua criação literária, iniciada em 1949 com o volume de poesias Ângulo e Face. Também em termos de ficção científica é o autor brasileiro que escreveu por mais tempo, já que seu primeiro livro do gênero, a coletânea Diário da Nave Perdida, é de 1963.
Mas O Teorema das Letras é mais do que o encerramento de uma carreira longa e reconhecida no campo da FC – no Brasil e no exterior –, e na poesia. Suas cinco histórias exploram de forma arrojada, surpreendente e mesmo incômoda questões relativas à sempre problemática condição humana: sua solidão, dificuldade de conexão com o outro, necessidade de expressar a liberdade como forma de afirmação de uma humanidade mais autêntica. Ainda mais se confrontada com súbitas e desnorteadoras mudanças sociais a partir de inovações tecnológicas ou a partir de regimes políticos não democráticos. Esta última questão particularmente aguda na vida de Carneiro, um libertário humanista em meio a uma sociedade tão conservadora como a brasileira.
Como bem observa Ramiro Giroldo no posfácio, O Teorema das Letras segue a tendência de seu livro anterior, a enorme coletânea de 27 contos Confissões do Inexplicável (2007), “com contos onde se intensificam a indefinição entre o real e o imaginário e a incerteza quanto ao narrado. A narrativa pode se reconstruir e se fazer outra de um momento a outro, abalando a certeza que a mera observação dos fatos possa levar à compreensão deles – os próprios sentidos a decodificar o mundo ao redor são indignos de confiança (...) estamos em um terreno de incertezas e paradoxos.”
Que fique claro, portanto, de que não estamos diante de uma prosa que prime pela convencionalidade e respostas facilitadas para o leitor. Quem conhece André Carneiro de outras obras já parte deste princípio, mas mesmo assim ele não deixa de soar algo insólito nas nuances que vão se insinuando a cada frase de seus contos. Assim, exige-se do leitor uma postura aberta ao novo e improvável, uma expectativa de estranhamento sempre à postos. Mas longe de tornar a leitura difícil é um estímulo, um desafio intelectual frente às situações incertas e ambíguas apresentadas, muitas vezes, em cada história.
Os dois primeiros contos “Alice e Roberval” e “Zinska” são os menores e servem como uma espécie de prólogo a esta complexidade temática que se assume como mais desenvolta nas três noveletas posteriores.
“Alice e Roberval” mostra um futuro em que é possível fazer predições sobre o futuro através dos cálculos de um computador. Mas ao contrário da psicohistória de Isaac Asimov (1920-1992), vista em sua série Fundação, em que a estatística está a serviço de predizer o comportamento coletivo de grandes populações, aqui se antevê o que poderá acontecer com a vida individual do consulente. É como se a matemática desnaturalizasse o esoterismo místico ao racionalizar o porvir, das dúvidas e ansiedades no rumo de sociedades ou na vida de pessoas.
Em “Zinska” temos a mesma toada da materialização tecnológica a tentar responder necessidades humanas. Estamos diante da construção de uma androide com capacidades telepáticas e seu relacionamento com os cientistas da empresa onde foi criada. Neste ambiente supostamente racional e asséptico se sobressai a inveja, a intriga e o ciúme em torno de Zinska e de liderança na empresa. No limite, homens lutando por atenção sexual e disputa de poder. Nada mais primevo, e humano.
A noveleta seguinte é a mais desconcertante do livro. “From Veronika Volpato” apresenta uma narrativa misteriosa sobre um casal que recebe algumas missões previamente desconhecidas por eles. Supõe-se trabalharem para alguma organização secreta ou clandestina a lutar contra um regime político opressor. Mas isso não fica propriamente claro. Lugares, pessoas e fatos se sucedem, e ainda mais enigmáticos com as mudanças de nomes do casal – uma peculiaridade recorrente em sua obra fruto de sua própria experiência pessoal durante a ditadura militar.
Para ilustrar como as impressões se desfazem mais adiante sai (ou perde importância) a possibilidade de atuarem junto a uma organização com fins políticos, para participarem da experiência de criação de um novo mundo. Uma nova realidade a ser vivida por seres humanos emancipados, mutantes. É uma história fascinante, tanto pelo suspense onipresente, pela sensação de estar sempre a faltar algo à espera de uma explicação, que nunca vem plenamente. Foi uma história que li e reli, me abrindo a cada leitura novas interpretações sobre o transcurso e o desdobramento final.
E o que dizer de “Sonho Lúcido”? Rodolfo anda triste e sem muito prazer nas coisas da vida. Para escapar, sonha. Faz do sonho uma atividade ansiada, talvez para explicar os seus problemas existenciais. Anota os sonhos logo que acorda, lê livros sobre psicanálise para entender mais sobre o assunto e a si mesmo. E é quando surge Ruth, uma mulher misteriosa por quem se apaixona. Vem não se sabe de onde, nem o que faz, nem para onde vai na sua ausência. Pois ela passa a dominar sua vida, com resultados perturbadores. Mais uma história incomum e aberta a muitas interpretações.
A última história é “O Bairro dos Tatus”. Um rapaz se muda para o tal bairro. Na verdade se refere aos tatuadores e não ao animal rastejador, como ingenuamente ele chegou a pensar.
Depois de fazer uma tatuagem de um pterodáptilo logo abaixo do umbigo, ele passou a ser desejado por várias mulheres – que homem não gostaria disso? –, pondo à prova seu relacionamento com Nissa, sua namorada. Mas também em relação à sua própria vida, depois dela sofrer um acidente automobilístico grave. Uma narrativa forte e triste, que procura refletir sobre as consequências voluntárias e involuntárias de nossos atos.
Como já disse o livro se encerra com o pósfácio de Ramiro Giroldo, professor de literatura brasileira na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS). Em “André Carneiro entre os Quânticos da Incerteza”, ele, que também defendeu um mestrado sobre a a distopia na obra de Carneiro,[1] na verdade é bem mais do que um texto de encerramento do livro. Fazendo um balanço cronológico e, por meio, dele, dos temas e características da obra de Carneiro, realiza um trabalho de análise literária não menos que notável. Pelo conhecimento, pela sutileza de suas análises e contextualização da condição do autor frente à ficção científica, à poesia e à literatura brasileira. É, desde já, um dos trabalhos mais completos sobre um autor de ficção científica escrito em língua portuguesa, uma referência para quem for estudar, principalmente, a vida e a obra de André Carneiro e, por extensão, a ficção científica brasileira.
Sabe-se que na última década de sua vida Carneiro sofreu com problemas de saúde, especialmente a visão. Com glaucoma, tinha apenas 10% restante e, mesmo assim, e por meio de aparelhos que amplificavam sua leitura, não esmoreceu. Continuou escrevendo e com qualidade e uma liberdade temática talvez ainda mais ousada. Isso só valoriza ainda mais O Teorema das Letras, uma obra que inspira e desafia, como poucas em nossa FC, a inteligência e a imaginação do leitor.
– Marcello Simão Branco




[1] Publicado como Ditadura do Prazer: Sobre Ficção Científica e Utopia, pela Editora UFMS, 2013.

sábado, 1 de dezembro de 2018

"Names", novela de Dalton Almeida


Names: Uma história policial sci-fi, Dalton L. C. de Almeida. Dragonfly Editorial, S.Paulo, 2016. Prefácio de L. H. Hoffmann (editor). Capa: Victor Caigue.

Muito original esta novela que estrutura um mundo futuro complexo e bem diferente do nosso, na verdade um mundo espacial e onde as paixões humanas continuam poderosas e impiedosas. Imensas naves espaciais atravessam o Cosmos, representando o conjunto de nações e continentes; um policial, Lucca Costa, da nave latina, investiga um crime que apresenta conotações peculiares. A Latina é uma das super-naves da Frota Real de colonização extra-solar. Sim, este futuro é monárquico, como aliás muitos mundos imaginados pela ficção científica.
A novela é hábil e instigante, porém admite alguns questionamentos. Por exemplo, por que o uso da expressão “sci-fi” — um estrangeirismo de pouco trânsito no Brasil — no subtítulo? E por que o próprio título da obra é “Names” e não “Nomes”? É um detalhe interessante que o nome que a pessoa usa, ou que deixa de usar, é algo de extraordinária importância na trama. Idem os meandros da política, onde nem tudo é o que parece, e onde a liberdade é posta em xeque por sutis manobras. Isso fica evidente quando Lucca e seus companheiros de investigação se vêem impotentes para dar solução definitiva ao caso.
É aos poucos que a gente toma gosto pela trama, que acaba num gancho excitante para uma possível continuação.
Miguel Carqueija, Rio de Janeiro, 12 de julho de 2018.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

FCF&H brasileira essencial em 2017

Como fiz com outros anos, relacionarei a seguir os títulos de livros de autores brasileiros de fantasia, ficção científica e terror que se destacaram entre os lançamentos de 2017. Cabe, antes de iniciar, dar alguns esclarecimentos sobre o método empregado.
Em primeiro lugar, a lista segue padrões pessoais de relevância, ou seja, trata-se de um recorte pessoal e absolutamente arbitrário. Dentro dessa premissa inicial, optei por evitar sequências, uma vez que toda sequência está necessariamente vinculada a uma publicação de um ano anterior, mas algumas vezes isso é incontornável. Também desconsidero republicações e reedições porque obviamente não são inéditas. E finalmente, só me interessam aqui os autores que escrevem em português e publicam no Brasil. Ou seja, livros publicados fora do país, mesmo que de autores brasileiros, assim como livros de autores estrangeiros traduzidos aqui não entram nesta lista. Confesso que senti vontade de não considerar os ebooks mas, devido a significância de alguns títulos, essa premissa não foi observada. Não há hierarquia de preferência e os títulos estão apresentados em ordem alfabética dentro de sua classificação.

Iniciando pelos romances e, dentro deles, pelo gênero fantasia, destaco cinco títulos. Aimó: Uma viagem pelo mundo dos orixás (Companhia das Letras), de Reginaldo Prandi, é uma obra superlativa e surpreende que o autor não tenha sido percebido há mais tempo. Conta a história da alma desmemoriada de uma menina que busca por recuperar sua história no mundo dos orixás para, dessa forma, ter a oportunidade de reviver. O que mais impressiona é a clareza do autor em apresentar o panteão africano - a mitologia mais viva do mundo moderno - e contextualizar a doutrina do candomblé.
Raphael Draccon sempre fará parte das listas de essenciais quando tiver um novo livro publicado, e ele sempre tem. Trata-se de um dos maiores vendedores de livros de fantasia no Brasil, que conta com uma legião de admiradores. Ainda não parece ter alcançado a estatura da influência de André Vianco - outro nome sempre presente nestas listas -, mas também é bastante respeitado pelos seus pares e leitores. Em O coletor de espíritos (Rocco), um psicólogo retorna ao seu antigo vilarejo para enfrentar os fantasmas da juventude.
Ordem vermelha: Os filhos da degradação, de Felipe Castilho (Intrínseca), foi lançado com pompa e circunstância edição 2016 da Comic Con Experience, em São Paulo, numa campanha de marketing nunca antes vista na literatura fantástica brasileira. Trata-se de uma fantasia medieval maniqueísta inspirada no modelo tolkeniano, em que um grupo de paladinos enfrentam a potestade maligna dque domina uma cidadela.
Sherlock e os aventureiros, de André Cordenonsi (Avec), é uma história na linha "juventude de Sherlock Holmes", um tipo de fanfic muito praticado em todo mundo, que até já teve uma versão para o cinema nos anos 1980. Nesta história, o lendário detetive une-se a conhecidas personalidades de fato e de ficção para salvar o mundo de conspirações sinistras.
Cordenonsi também aparece, ao lado de Enéias Tavares e Nikelen Witter, no romance escrito a seis mãos Alcova da morte: Um caso da Agência de Detetives Guanabara Real (Avec), em que um grupo de investigadores  – que são avatares dos próprios autores – se envolve numa aventura ao molde steampunk durante a inauguração da estátua do Corcovado. Alguns poderiam dizer que este título deveria estar entre os livros de fc, mas como a história extrapola bastante o gênero, fica melhor mesmo como fantasia.


E por falar em fc, a lista continua agora nesse gênero, com Anacrônicos, de Luiz Bras (@Link), noveleta publicada em volume independente que conta como o fim do mundo chega através do surgimento inesperado de milhões de réplicas de todas as pessoas que já viveram, incapacitando a continuidade da vida como a conhecemos.
Dunya, o primeiro ebook desta relação, tem autoria de Tibor Moricz (em edição do próprio autor) é um romance de ficção espacial sobre um grupo de colonos num planeta inóspito habitado por uma raça hostil. Apesar de ser um enredo já bastante explorado, Moricz é um dos melhores autores da Terceira Onda da fc brasileira e seus textos sempre merecem a atenção dos leitores.
Extemporâneo é o novo romance de Alexey Dodsworth (Presságio), um dos nomes favoritos entre os votantes do Prêmio Argos, que já lhe tributaram comendas em 2015 e 2017. Neste romance, o protagonista salta, aparentemente sem controle, de uma realidade a outra, experimentando vidas de todos os tipos. O tema também não é original, mas é preciso reconhecer a importância de Dodsworth no cenário atual da fc brasileira.
Eric Novello, um dos autores da Terceira Onda mais elogiados pelos leitores, publicou em 2017 seu primeiro título pela prestigiosa editora Companhia das Letras. Trata-se do romance Ninguém nasce herói, jornada adolescente numa São Paulo alternativa dominada pelo ódio, intolerância e integralismo religioso.
Gerson Lodi-Ribeiro é um nome reconhecido dentro do fandom, ativo desde os anos 1980 tanto como autor como organizador de antologias. Seu romance Octopusgarden (Draco) também se passa no espaço sideral, em um planeta aquático habitados por octópodes que recebe a visita de uma nave com golfinhos inteligentes terrestres, e a interação das espécies não vai ser muito pacífica.


No gênero do horror, finalmente chegou ao mercado O mistério de Deus, de Roberto de Sousa Causo (Devir), uma história que une carros envenenados, boxe e demônios assolando Sumaré, pequena cidade do interior de São Paulo onde o autor passou toda a sua juventude, o que garante descrições naturalistas que contrastam vividamente com o sobrenatural.
Neve negra, de Santiago Nazarian (Companhia das Letras) conta a história de um artista plástico que se depara com o insólito quando, depois de longa ausência, retorna sua residência na serra catarinense numa rara noite de nevasca.
Também pela Companhia das Letras, recebemos Noite dentro da noite, de Joca Reiners Terron, relato perturbador que observa o Brasil a partir de um garoto que sofreu um acidente grave e tem de tomar medicamentos que nublam a percepção da realidade, ou talvez não.
André Vianco aparece aqui com o romance Penumbra (LeYa), que conta a história de uma menina que desperta numa dimensão sombria onde encontra uma velha senhora que será sua nêmesis e também sua única amiga.
Antônio Xerxenesky trouxe o romance As perguntas, publicado pela Companhia das Letras. Conta sobre uma especialista em ocultismo que se envolve na investigação de um crime que vai abalar sua confiança e convicções.
Quero lembrar agora alguns títulos entre antologias e coletâneas porque, além da produção de ficção curta ser tradição brasileira, é geralmente nas seletas que florescem novos autores. Dessa forma, destacarei quatro títulos em cada gênero.


Na fantasia, é necessário conhecer o Dicionário de línguas imaginárias, de Olavo Amaral (Companhia das Letras), em que o autor reúne textos de sua própria autoria, todos de um viés metalinguístico que se desdobra nos diversos subgêneros especulativos, sempre tendo como base a comunicação ou a falta dela.
Giulia Moon, que também é uma personalidade obrigatória entre o essencial, aparece desta vez ao lado de Walter Tierno como organizadora da antologia Fantásticas: Contos de fantasia protagonizado por mulheres (Giz), que como diz o título, pretende dar maior presença feminina à literatura do gênero, proposta que por si só é digna de nota.
O já citado Tibor Moricz aparece mais uma vez nesta relação com a coletânea Filamentos iridescentes, autopublicada em forma de ebook, que reúne alguns de seus melhores trabalhos na ficção curta, algo que realmente faltava na bibliografia do autor.
A mais destaca autora no último prêmio Argos, Ana Lucia Merege organizou este ano mais uma antologia sobre contos de fantasia medieval, Magos: Histórias de feiticeiros e mestres do oculto (Draco) que, ao lado de Excalibur e Medieval, forma um amplo painel do subgênero no país.


O espaço das antologias de ficção científica foi dominado por Luiz Bras, que organizou três dos quatro títulos lembrados aqui. Foram os volumes gêmeos de Hiperconexões, realidade expandida: Sangue & titânio e Carbono & Silício (Patuá), que são seletas de poemas, algo extremamente raro dentro do gênero no Brasil. Brás também publicou a coletânea pessoal A última árvore (Livros-Fantasma), ebook que reúne sua ficção curta mais recente. Pela qualidade de suas coletâneas anteriores, esta certamente é leitura obrigatória.
A quarta coletânea do gênero tem o singelo título de Memórias pós-humanas de Quincas Borba e outras histórias alternativas muito além do País do Futuroebook de Sid Castro publicado pelo autor, um veterano da Segunda Onda da fc brasileira que apresenta agora uma seleta autoral com textos interessantes de diversas propostas.


No gênero do horror, destacam-se a coletânea Comboio de espectros, de Duda Falcão (Argonautas/Avec), autor que tem se estabelecido junto ao fandom a partir de trabalhos nesse gênero, especialmente contos, que seguem um estilo gótico clássico, com uma pitada de humor, negro é claro. Camila Fernandes, autora da Terceira Onda que estava ausente há algum tempo, retornou em 2017 com a coletânea Contos sombrios (Dandelion), num estilo mais intimista. Raphael Draccon, cujo romance já foi citado no início deste artigo, contribui também no horror, ao lado da esposa Carolina Munhóz e dos escritores Frini Georgakopoulos e Rafael Montes para compor a antologia Criaturas e criadores: Histórias para noites de terror (Record), com releituras de histórias clássicas do gênero. E, ainda, Crimes fantásticos, organizada por Cesar Alcázar e Duda Falcão (Argonautas), antologia que tem o mérito suplementar de recuperar a arte de R. F. Lucchetti, um dos grandes mestres do horror brasileiro.

Para fechar esta lista, três títulos de não ficção que são obrigatórios para aqueles que querem ter uma visão mais apurada da literatura fantástica no Brasil: A a Z: Dicas para escritores, do veterano da Segunda Onda, tradutor e acadêmico Fabio Fernandes, um ebook autoeditado com orientações divertidas para novos autores de gênero, mas que também são úteis para os leitores; A fantástica jornada do escritor no Brasil, reveladora pesquisa de Kátia Regina Souza (Metamorfose) apoiada em uma série de entrevistas com personalidades da ficção fantástica brasileira, e Fantástico e seus arredores: Figurações do insólito, compêndio acadêmico editado em forma de ebook pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, organizado por Maria Zilda da Cunha e Ligia Menna, com artigos sobre a literatura brasileira e sua relação com o fantástico.
Pinçamos aqui trinta títulos importantes publicados ao longo de 2017 (quinze romances, doze coletâneas e três não ficção) que devem ser observados com carinho tanto pelos leitores como pelos estudiosos dos gêneros fantásticos no Brasil. Como foi dito no início, por ser uma seleção arbitrária, decerto que permite recortes alternativos dentro da relação total de lançamentos no ano que integralizou 235 títulos. Essa relação pode ser conferida no Almanaque da Arte Fantástica Brasileira: Lançamentos literários de ficção científica, fantasia e horror no Brasil em 2017, que pode ser encontrada para leitura online e download aqui e aqui. Assim, cada um poderá fazer sua própria lista de essenciais.
Cesar Silva

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

As melhores histórias brasileiras de horror

Este é um convite oficial para o lançamento do livro que ajudei a organizar, As melhores histórias brasileiras de horror, publicado pela Devir Livraria.
As melhores histórias brasileiras de horror tem a intenção de mostrar o quão rica e assustadora é esta trajetória, com uma seleção caprichada que vai de 1870 a 2014, ou seja, cobre 144 anos, quase toda a trajetória independente da vida nacional. Procuramos escolher histórias representativas, em especial as que abordam mais de perto a cultura brasileira, além de se destacar pela qualidade literária. Nesse sentido o conjunto dos autores selecionados é demonstrativo do interesse de parte dos melhores autores brasileiros, de diferentes épocas: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa, Afonso Arinos, João do Rio, Gastão Cruls, Thomaz Lopes, Tabajara Ruas, Braulio Tavares, Márcia Kupstas, Roberto de Sousa Causo, Júlio Emílio Braz, Carlos Orsi, M. Deabreu, Walter Martins e Gustavo Faraon.
Um mosaico do que a ficção de horror brasileira já fez de mais interessante em cada época, permitindo uma experiência de leitura rica e diversificada. Aparecerão temas como canibalismo, feitiçarias e misticismos, catalepsia, erotismo sobrenatural, fantasmas e assombrações, fim dos tempos, epidemia, rituais pagãos, pactos e possessões, paranoias e conspirações. Um variado leque para despertar a imaginação e deixar os sentidos alertas. Pois o horror poderá estar à espreita em cada linha, em cada página. E certamente em todas as histórias.
Ficaremos felizes com a sua presença.

sábado, 20 de outubro de 2018

O essencial de 2016 - Autores brasileiros

Apesar da crise, 2016 foi um ano favorável para a ficção especulativa brasileira. Não na quantidade, que está em queda livre, mas pelo menos a qualidade do material publicado tem se sustentado, o que aumenta o desempenho médio da produção nacional.  Também observamos o esboço de um núcleo semi-profissionalizado no segmento, com a presença recorrente de determinados autores com novos livros nas livrarias, o surgimento de periódicos sérios, inclusive de natureza acadêmica. Ainda que não necessariamente proveitosos do ponto de vista financeiro,  é importante a conquista desses espaços, que acenam com um futuro alvissareiro a longo prazo, especialmente quando esta crise passar – e ela vai passar.
No que se refere a ficção nacional, os romances ocupam a linha de frente, com treze títulos inéditos e uma republicação importante. Como tem sido a tendência, o gênero da fantasia continua a ser o mais praticado e no qual os autores parecem se sentir mais a vontade. Dois contumazes best-sellers aparecem aqui, ambos pela Editora Rocco: André Vianco, com Dartana, pelo selo Fábrica 231, uma história dark fantasy no ambiente medieval, e Carolina Munhóz, com Por um toque de sorte, segundo volume da série Trindade Leprechaum, pelo selo Fantástica, uma história contemporânea que, assim como Vianco, se desenvolve em torno de mitologias europeias.
Flávia Muniz também é uma autora que podemos classificar como best-seller. Embora seu nome não seja tão lembrado quanto os dois autores acima citados, Flávia está em ação desde os anos 1980 e seu livro Os noturnos é muito bem sucedido comercialmente. A autora publicou em 2016 o romance O manto escarlate, pela editora SESI-SP, que também envereda pela dark fantasy medieval.
Entre os estreantes, há três ótimos destaques. Santiago Santos, autor do saite de microcontos Flash Fiction, publicou seu primeiro romance, Na eternidade sempre é domingo, pela editora Carlini & Cantato, romance fix-up formado por várias narrativas independentes em forma de relato de viagem pelos Andes boliviano e peruano.
Alex Mandarino publicou O caminho do Louco, primeira parte da série Guerras do Tarot, pela editora Avec, ágil aventura de fantasia urbana com toques de mistério. E Caio Alexandre Bezarrias, com Shimandur: A cidade da chuva, pela editora Devir Livraria, fantasia passada na metrópole paulistana assolada por uma chuva interminável.
Antes de passar adiante, convém destacar aqui um livro de estremo valor, que precisa estar nesta relação, apesar de ter autor, em tese, estrangeiro. Trata-se do texano Christopher Kastensmidt, americano radicado no Brasil que aqui tem desenvolvido sua carreira como escritor, privilegiando uma ficção de caráter brasilianista que poucos autores nacionais ombreiam. Depois de publicar vários contos em antologias, Kastensmidt lanço em 2016, pela Devir Livraria, o romance fix-up de fantasia A Bandeira do Elefante e da Arara, que compila todos os dez contos do ciclo das aventuras de Gerard e Oludara, um holandês e outro africano, enfrentando seres mitológicos ao longo de uma ampla peregrinação pelo território do Brasil colonial.
A ficção científica tem se recuperado nos últimos anos, depois de um período de estagnação em que pouco se publicou no gênero. Os representantes de 2016 também são pesos pesados do segmento: Alexey Dodsworth, que em 2015 foi reconhecido pelos fãs com o prêmio Argos, lançou O esplendor, pela editora Draco, história cósmica sobre um planeta de luz eterna que é agitado quando surge um menino que pode dormir e sonhar.
Mustafá Ali Kanso, que é também um nome reconhecido no fandom, publicou O mesmo Sol que rompe os céus, pela editora Fragmentos, com uma história sobre o encontro de dois personagens com experiências bizarras.
Luiz Brás – reconhecido em alguns círculos como o multipremiado Nelson de Oliveira – tem mantido uma forte produção de fc&f nos últimos anos e, em 2016, apresentou aos leitores Não chore, pela editora Patuá, uma ficção anarquista que discute o sistema prisional. Pela mesma editora, Oliveira republicou o esgotado Subsolo infinito, originalmente publicado em 2000, uma perturbadora fantasia urbana sobre a identidade.
O horror é um ambiente razoavelmente assentado no mercado, sempre com uma produção equilibrada e estável. Rosana Rios é uma dama da literatura especulativa nacional, com dezenas de títulos publicados ao longo de sua produtiva carreira iniciada em 1988. Em 2016, lançou Olhos de lobo, pela editora Farol Literário, com uma história que mistura licantropia e nazistas no Rio Grande do Sul.
Pedro Cesarino, reconhecido pesquisador acadêmico da cultura dos povos nativos, vencedor do Jabuti com sua tese de doutorado Oniska: Poética do xamanismo da Amazônia, estreou em 2016 na ficção com Rio acima, pela editora Companhia das Letras, que aproveita sua experiência no tema para contar uma história de terror nas selvas do Xingu, na linha Coração das trevas, de Joseph Conrad.
Também a Companhia das Letras publicou Jantar secreto, de Raphael Montes, uma história de terror urbano deste autor que tem sido muito comentado nos últimos anos por sua ficção de aspectos sombrios.
Coletâneas e antologias representam um papel importante no ambiente da fc&f nacional. Como há poucas revistas publicando ficção, esse modelo editorial, que reúne num mesmo livro textos curtos de diversos autores e estilos, tem sido a sustentação do exercício criativo e revelado muitos autores de qualidade, sem esquecer que é na ficção curta que os autores brasileiros geralmente têm os melhores resultados.
Como em quase tudo, 2016 testemunhou uma forte queda no número de antologias e coletâneas publicadas no país, mas ainda assim é preciso reconhecer o esforço dos editores em investir no formato.
Entre as coletâneas – livros que reúnem textos de um único autor –, o destaque vai para O teorema das letras, título póstumo de André Carneiro (1922-2014), o mais bem sucedido autor brasileiro de ficção científica, que traz cinco contos inéditos que representam a intensa criatividade de Carneiro, mesmo no fim da vida.
No gênero do horror, o ótimo Carlos Orsi apresentou Mistérios do mal, pela editora Draco, que traz contos que unem mitologias e cosmologias típicas da weird fiction, amalgamadas a cenários e personagens brasileiros, como é característico em sua obra.
Também é no horror sobrenatural que se apresenta o escritor gaúcho Duda Falcão, com a coletânea Treze, pela editora Avec (publicada com data de 2015), não por acaso com treze contos ao estilo pulp fiction, com muito sangue, monstros, bruxas e demônios.
Entre as antologias – livros que publicam trabalhos de autores diferentes – os destaques da fantasia são Estranha Bahia, organizada Alec Silva, Ricardo Santos e Rochett Tavares para a editora EX!, com sete contos cujo fio condutor é, como já diz o título, o estado da Bahia.
E também Medieval: Contos de uma era fantástica, organizada por Ana Lúcia Merege e Eduardo Kasse para a editora Draco, com nove textos de autores bem avaliados, todos obviamente num cenário medieval, uma espécie de segundo volume a antologia Excalibur, dos mesmos organizadores e editora, publicada em 2013.
A antologia essencial na ficção científica em 2016 é Dinossauros, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro para a editora Draco, um tema recorrente em antologias nacionais e estrangeiras, mas que traz 16 histórias inéditas de autores experientes e conhecidos no fandom.
Fechando esta seleção, a antologia Contos de terror, organizada por Camilo Prado para a editora Nephelibata, com 15 textos curtos, quase todos em domínio público, numa seleta de histórias tenebrosas de viés realista, por autores clássicos da literatura brasileira que pode surpreender os leitores menos avisados, num modelo que tem recebido razoável atenção dos antologistas nos últimos anos.
Cesar Silva