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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Essencial 2014 - Autores brasileiros

Até 2013, a fc&f no Brasil foi acompanhada de pertinho pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa missão está agora disseminada num grande número de iniciativas de fãs e acadêmicos, de forma que há muitas interpretações e análises circulando, especialmente na internet. Contudo, minha análise pessoal ainda pode ter algum valor para aqueles que gostam de discutir os lançamentos mais expressivos da literatura especulativa no Brasil. Assim sendo, vou exercitar aqui a minha opinião baseada na lista do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2014 - Lançamentos, recentemente publicado aqui.
Começando pelos autores brasileiros, o gênero da fantasia segue firme e forte como o preferido de autores, editores e leitores, tomando pelo menos metade dos lançamentos de ficção fantástica. É claro que caberia discutir os limites de cada gênero e até mesmo questionar se um determinado título faz parte ou não do rol das obras especulativas – há muitas definições e algumas delas são diametralmente opostas – mas tomo a liberdade de usar a minha: se não é claramente fc ou terror, é fantasia. E entram na definição as histórias de realismo mágico e fantástico.
Dessa forma, destaco, na fantasia, os livros A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado pela Companhia das Letras, e Os sóis da América, de Simone Saueressig, publicado pela autora em quatro volumes ao longo de 2013 e 2014. Ambas são autoras experientes no gênero, com diversos títulos publicados por grandes editoras. Socorro investiu num romance regionalista moderno que trata de costumes e tradições bem brasileiras, enquanto Simone fez um romance de alta fantasia em um continente americano povoado por seres mitológicos inspirados nas culturas de diversos povos, entre os quais os brasileiros, embora estes não sejam predominantes.
Também destaco o segundo volume da coletânea Hiperconexões: Realidade expandida, organizada por Luiz para a editora Patuá. Trata-se de uma proposta que, se não é de toda original, é bastante rara: uma seleta de poemas de ficção científica de diversos autores, todos explorando o tema do pós-humanismo. O primeiro volume foi publicado em 2013, pela editora Terracota.

Na ficção científica, Luiz Bras também sustentou uma boa posição com Distrito Federal, publicado pela Patuá, romance que o autor prefere chamar de rapsódia, uma fantasia tecnológica sobre a corrupção e suas consequências.
Também vale destacar A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares, publicação da LeYa Brasil/Casa da Palavra.
O romance foi vencedor da primeira edição do Prêmio Fantasy e inaugurou a coleção Brasiliana Steampunk.
Trata-se de uma ficção alternativa que reúne, numa mesma aventura, diversos personagens da literatura fantástica brasileira.
Entre as coletâneas, é impossível não voltar a Luiz Bras e sua Pequena coleção de grandes horrores, pela editora Circuito, um conjunto de narrativas muito curtas que brincam com ícones da cultura pop e dialogam com várias obras do gênero.

No horror, vale a pena buscar por As máscaras do pavor, do veterano escritor e roteirista R. F. Lucchetti, uma das maiores personalidades do gênero no país, muito conhecido por suas parcerias como o ilustrador Nico Rosso, nos quadrinhos, e com José Mojica Marins, no cinema. O romance é o primeiro de uma coleção do autor – conhecido como o homem dos mil livros – numa parceria das editoras Devaneio e Corvo.
Entre as coletâneas, vale registrar Flores mortais, de Giulia Moon, pela Giz Editorial e Sete monstros brasileiros, de Braulio Tavares, pela Casa da Palavra. A primeira reúne contos com as vampiras criadas pela autora, que é uma das melhores escritoras da Terceira Onda da ficção fantástica brasileira. A segunda é mais uma contribuição valiosa do experiente escritor paraibano Braulio Tavares, desta feita navegando no ainda pouco explorado panteão de criaturas assustadoras da mitologia nacional. 
Alguns dos títulos citados neste artigo dispõe de resenhas neste blogue, é só buscar pelos autores no índice de tags.
Cesar Silva

sábado, 13 de janeiro de 2018

Viagem à Europa (com alguma Ficção Científica e Política)

por Marcello Simão Branco

Faz três anos agora em janeiro que estive na Europa com minha esposa, a Rossana Arouck.[1] Foi minha primeira viagem ao velho continente e escolhemos como locais de visitação a Itália – por motivos sentimentais, afinal sou neto de italianos por parte de mãe – e a Alemanha, por causa da Sandra, uma amiga de muitos anos da Rossana, que mora por lá.
Viajamos num voo da Air France sob alguma tensão, pois dias antes Paris havia sofrido o brutal e covarde atentado que vitimou os cartunistas do jornal satírico Charlie Hebdo. Chegamos à cidade no domingo de 11 de janeiro, justamente no dia marcado para a grande manifestação de desagravo contra a barbárie e à liberdade de expressão e consciência convocada por François Hollande, presidente do país. A tentação de se juntar ao evento era obviamente grande, mas como o aeroporto Charles de Gaulle é longe do Centro e o tempo de conexão era de apenas algumas horas resolvemos ficar dentro do aeroporto. Vimos, contudo, soldados armados com fuzis no interior do local, o que certamente não é rotina, ilustrando o clima tenso que o país vivia. Pude, ao menos, pegar um exemplar de uma edição especial do Le Monde com a manchete “Marcher Contre La Terreur”, que era fartamente distribuído. Além disso, na livraria dentro do aeroporto não resisti e comprei o “Space Adventure Model Kit”, uma caixa com miniaturas da conquista da Lua, com o Saturno V, carros e jipes lunares, o módulo de descida, bandeirinhas e astronautas. Sem querer, começava também minha incursão espacial e de ficção científica que prosseguiria por toda a viagem.
Aterrisamos em Roma na noite do mesmo dia e por lá ficamos por mais três. Conseguimos visitar e conhecer o básico, como o Coliseu, as ruínas do Forum Romano e os jardins do Palatino, além de uma tarde no Vaticano. Roma pulsa nervosamente sua vida cotidiana como toda grande metrópole, mas tem em paralelo uma imponência e beleza histórica que impressiona. É uma sensação única entrar num lugar como o Coliseu, visitar as ruínas da residência de Augusto, o primeiro imperador, ou ainda contemplar arcos como os de Constantino e Tito. Nem precisaria, mas a enorme quantidade de turistas do mundo inteiro – especialmente chineses! – só reforça este sentimento. Apesar da fama de certa desorganização dos italianos – mais um clichê que não se confirma – a cidade é bem sinalizada, os serviços de apoio e informação aos turistas profissionalizados, e há um cuidado visível de manutenção dos marcos históricos. Inclusive, perto do Coliseu vimos um sítio arqueológico que soube ter sido descoberto recentemente, por onde passaria uma linha de metrô, que terá de ser desviada, pois lá estão as ruínas de parte da Domus Aurea, o antigo palácio de Nero.




Ficamos hospedados próximos ao principal terminal rodoviário, Termini, e lá pude visitar livrarias e bancas de jornais. Há uma quantidade expressiva de histórias em quadrinhos, sendo que Tex e Martin Mystére são muito presentes, assim como uma revista de suspense e horror chamada Diabolik. Achei exemplares mais recentes da coleção de ficção científica Urania. Na esperança de encontrar um livro de um autor italiano de FC publicado na coleção, Glauco de Bona, que com o romance Cuori Strappati venceu o Prêmio Urania 2014 para o melhor livro de FC nativa publicado no país, não comprei nenhum exemplar desta coleção em Roma. Mas não saí de mãos vazias, pois comprei num sebo o livro Roma Segreta, de Pierluigi Marrone, para aqueles que já conhecem bem os pontos históricos da cidade, e procuram por lugares menos conhecidos. Só para matar a curiosidade, claro, pois não é o meu caso.
Gostamos tanto da cidade que queríamos ficar mais um dia. Mas como não foi possível trocar de um dia para o outro a passagem de trem à Florença, partimos com vontade de voltar à capital eterna algum dia. Pelo menos cumprimos o ritual de jogar a moeda sobre os ombros na Fontana de Trevi – que, aliás, estava em reforma. Quem sabe?
Em duas horas estávamos no berço artístico do Renascimento, pois os trens que cruzam a Itália são muito rápidos, ainda que não sejam os famosos TGVs, como os de França e Japão.
Ao contrário de Roma, Florença é uma cidade pequena, e seu centro histórico é belíssimo com suas construções medievais, em especial as catedrais, museus e palácios que estão por toda parte. Ficamos três dias na cidade e pude, enfim, comprar exemplares de fantascienza – como é chamada a ficção científica na Itália. Primeiro procurei na rede de livrarias Feltrinelli mas, de forma surpreendente, não tinha exemplares da coleção Urania. Perguntei então pela seção de FC com a expectativa de conhecer alguma coisa da FC do país. Mas as estantes estavam lotadas mesmo é de traduções de autores tradicionais como Tolkien, Asimov, Lovecraft, King, Clarke, Heinlein, Dick, Pratchett, Adams. Havia também livros de autores anglo-americanos atuais como, por exemplo, Miélville, Doctorow, Scalzi, Stross e Alastair Reynolds. Mas deixei a livraria sem comprar nada, pois não vi nenhuma FC de autor italiano.
Circulando pelas ruelas históricas, achamos um túnel que é na verdade uma grande galeria de lojas. E lá encontrei um sebo com dezenas de livros da Urânia. Comprei apenas um Quando Due Modi si Incontrano (número 602, de 1973), uma antologia com duas novelas: “Quando Due Mondi si Incontrano”, de Robert Moore Williams e “Le Ragioni Degli Altri”, de Jack Vance. Mas no mesmo dia, achei numa banca de jornal próxima à estação ferroviária, o exemplar atual da coleção Urania, Astronave Mercenaria, de Mike Resnick (número 1614), e um livro que não havia visto até então, o Almanacco del Mistero. Pude finalmente adquirir exemplares da fantascienza publicada em janeiro de 2015, ou seja, o que de mais atual havia no momento da viagem.
Astronave Mercenaria (Starship Mercenary: Book Three) é o número 1614 da coleção Urania, que existe desde 1952! Historicamente publica autores estrangeiros, mas depois de instituir o Prêmio Urania, tem publicado autores nacionais que vencem o concurso de caráter anual. Basta lembrar que nos últimos anos revelou Valerio Evangelist, autor de prestígio na Europa, especialmente pelo romance steampunk Black Flag, lançado no Brasil pela editora Conrad em 2005.
Urania faz parte de uma tradição europeia centrada em coleções, assim como a Argonauta, de Portugal – que também teve início em 1953 e terminou em 2006, com 562 edições –, e a Fleuve Noir francesa, que existiu por meio século, de 1951 a 2001, publicando 2001 edições. Felizmente para os italianos a Urania mantém-se viva e forte, ao que parece, pois publica um livro por mês, e numa rápida pesquisa na internet constata-se que há todo um culto de fãs e leitores em torno da coleção. Vale lembrar que o próprio Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) teve como fonte inspiradora de criação a coleção Argonauta, por meio do livro Quem é Quem na FC, a Coleção Argonauta, Vol. 1, de R.C. Nascimento, em 1985. Na verdade o CLFC nasceu como uma associação de colecionadores da Argonauta. Mas curiosamente o culto era de brasileiros e não de portugueses.
Os livros da Urania valorizam o relacionamento com os fãs. Não havia seção de cartas – apesar de uma solicitação para isso do editor no texto de apresentação da edição –, mas além do romance, há resenhas de livros, artigo que discute os princípios científicos abordados na obra, chamadas para eventos de FC no país e o anúncio do Prêmio Urania. Não é um livro convencional, mas sim quase uma revista.
Surpresa mesmo tive com o Almanacco del Mistero. É uma publicação anual de variedades em torno de FC, fantasia e horror. Apresenta uma enorme HQ do personagem Martin Mistère em P&B como atração principal da revista, com 91 páginas, “Saturno Contro La Terra”, com texto de Alfredo Castelli e desenhos de Giancarlo Alessandrini. O restante é fartamente colorido com fotos e ilustrações de artigos sobre filmes, séries de TV, resenhas de livros, notícias e o tema da edição, a FC pulp, através da própria HQ e dos artigos “L´alba dei Fanta-Pulp: Tutte Le Strade Portano a Mongo”, de Maurizio Colombo e Graziano Frediani”, e “Alieni Divini: E Venne um Ufo!”, de Gianmaria Contro. Uma revista bonita, que em princípio lembra um pouco o Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica pela proposta, mas é mesmo um almanaque que junta diversas seções em torno da FC&F.



Deixamos Florença em 17 de janeiro e partimos para Veneza. Ficamos dois dias numa das mais surpreendentes e improváveis cidades, toda circundada por rios e canais que somada à sua arquitetura medieval e renascentista lhe dá um caráter sem igual. Tivemos a fortuna de ficarmos hospedados num modesto hotel que nos deu o privilégio de ao abrirmos a janela avistarmos os canais que circundavam o quarteirão. Claro que visitamos pontos turísticos tradicionais, como a Praça e a Basílica de San Marco, e viajamos de barco pelos canais – mas não de gondola, pois custava 80 euros! – mas o mais legal em Veneza é andar a pé e sentir a beleza singular da cidade.
Depois de Veneza passamos uma noite em Milão – principal centro industrial da Itália, na região da Lombardia – e logo cedo voamos para Copenhague, em conexão para Bremen, no norte da Alemanha. Na capital da Dinamarca uma surpresa: a moeda não é o Euro, mas a Coroa. Mas como o país integra a União Européia, não houve problema de aceitação da moeda. No início da noite estávamos em Bremen e pudemos sentir a diferença radical de temperatura: saímos de 10, 12º C na Itália para – 5º C. º.
Fomos recebidos e ficamos hospedados na casa de uma amiga da Rossana dos tempos da adolescência, que foi viver na Alemanha, e está casada e com filhos. Foi bom também porque o marido dela, embora alemão, fala bem português, pois morou alguns anos em Portugal.
Tivemos três dias inteiros no país, e em dois deles percorremos Bremen e no outro estivemos em Hamburgo, que fica apenas uma hora de trem de Bremen. É uma cidade portuária, mas semelhante à Florença no que diz respeito à sua arquitetura histórica, também medieval, mas com um caráter mais neogótico, em especial em suas muitas igrejas, muitas delas construídas a partir da reforma protestante, no século 16. É inverno e a noite chega cedo, por volta das 16 horas – na Itália, às 17h30 –, mas a cidade é animada, com vários artistas realizando performances na rua, e instrumentistas tocando música clássica. Tudo ao ar livre e de graça.
No dia seguinte conhecemos Hamburgo, a segunda maior cidade do país, e muito diferente de Bremen, pelo menos na parte da cidade em que estivemos. Próximo ao terminal ferroviário onde descemos, sem querer paramos no bairro da comunidade turca, enorme no norte da Alemanha. Parecia que nem estávamos mais no país mais rico da Europa, pois as pessoas tinham a pele morena e o cabelo escuro, além de não falar necessariamente alemão, mas sim sua língua natal. Com fome, almoçamos num restaurante turco e quase fomos expulsos, pois o garçom ficou ofendido quando pedimos cerveja. Não havíamos percebido, mas o restaurante não era apenas turco, mas também mulçumano. Mesmo assim ficamos, e a comida estava boa. (Sem comparações, contudo, com a comida alemã típica, e menos ainda com a italiana. Mas não vou entrar nesta seara, pois renderia outro texto sobre como os europeus comem bem.)
O que nos chamou a atenção também em Hamburgo – e de forma ainda mais surpreendente, pois estávamos no país de maior economia da Europa – é a pobreza, com pessoas pedindo esmolas na rua.  E vimos isso também em Roma e em Veneza. Isso sem falar na farta presença de indianos e africanos na península italiana, vivendo de bicos em situação ilegal. Em Veneza, inclusive, conversamos rapidamente com um ucraniano – em inglês – foragido da guerra em seu país que vivia na rua. Mas os mendigos que avistamos foram alemães e italianos mesmo. Apesar dos bem-estruturados sistemas de welfare state, os efeitos da grande crise econômica de 2007 ainda estão visíveis no coração da Europa.
Na segunda noite em Bremen, na companhia de Joaquim, o alemão que nos hospedou –,  entrei de bico numa festa do Partido Social-Democrata Alemão (SPD), que governa Bremen há 40 anos. Era pelo lançamento de um programa da prefeitura sobre a inclusão de pessoas com deficiência no serviço público do município. Ouvimos um ou outro discurso, bebemos vinho e saímos aquecidos e de volta para o frio quase polar. Estar na Alemanha em pleno inverno é como estar num freezer a ao ar livre, apesar dos quilos de agasalhos que temos que vestir. Apesar disso só vimos neve na região rural entre Bremen e Hamburgo. E soubemos que começou a nevar forte em Bremen um dia após nossa partida...


Depois de ter procurado Perry Rhodan em Bremen, acabei achando numa banca de jornal dentro da estação ferroviária de Hamburgo. Mas não era a coleção principal, e sim Perry Rhodan Neo, n. 87, “Ruckkehr der Fantan”, de Michelle Stern. É uma das coleções derivadas da série que procura reescrever o universo ficcional do herói espacial a partir de outras premissas, isto é, uma história alternativa que, em linhas gerais, situa a conquista ao espaço em 2036 e não em 1971, como na linha temporal tradicional da série. É um romance, portanto bem maior que as aventuras quinzenais, e também contém seções complementares, como de cartas, humor e artigos. Sai uma vez por mês.
Apenas no dia seguinte é que, novamente, em Bremen, pude comprar Perry Rhodan. Era o exemplar da quinzena, “Die drei Tage der Manta”, de Christian Montillon, número 2788. Isso mesmo, 2788! Já imaginou acompanhar uma série que esteja num número como este? Fantástico para quem acompanha, mas desanimador para quem pega a coisa pelo caminho. Em todo caso, talvez até mais que a coleção Urania italiana, Perry Rhodan é idolatrada na Alemanha. Inclusive, o vendedor exclamou: “Perry Rhodan!”. Disse mais algumas palavras em alemão, mas tive de cortar seu entusiasmo ao dizer, em inglês, que não falava alemão.
Se na Itália esperava comprar um livro da Urania, não podia estar na Alemanha e não comprar Perry Rhodan, mas fui surpreendido – assim como com o Almanacco del Mistero – com quatro séries de literatura de gênero vendidas no país. São revistas de formato semelhante à de Perry Rhodan, mas de outra editora, e que publicam séries de aventuras infanto-juvenis de FC, fantasia, horror e western. Comprei o exemplar de FC Bastei Maddrax die Dunkle Zukunft der Ende, com a aventura “Daa´Muren unter Sich”, de Lucy Guth, que já está no número 391, e tem periodicidade semanal!
Se na Itália um dos carros-chefes de sua FC é a coleção Urania, na Alemanha o pulp está vivo e forte em revistas de aventuras seriadas. Apesar do boom da FC&F brasileira nestes anos 2000, que inveja de ver livros e revistas populares sendo vendidas a preços baixos (de 2 a 5 euros) em bancas de jornais espalhadas pelos países. Isso sim ajuda a fortalecer um fandom, e permite o surgimento de novos autores, além de manter em parte as carreiras de outros autores. A FC brasileira tentou algumas vezes, mas o fato é que nunca fomos bem sucedidos neste seguimento de popularização e desenvolvimento da FC&F.
Depois de duas semanas intensas, partimos no dia 25 de Bremen para Paris e, de novo sem deixar o aeroporto para conhecer a cidade luz, rumamos de volta a São Paulo, Brasil. Foi muito legal, mas é bom estar de volta.





[1] Este texto foi escrito logo após minha volta ao Brasil, em janeiro de 2015, a pedido de Roberto de Sousa Causo que pretendia publicá-lo em seu fanzine Papêra Uirandê. Como não há perspectiva de uma nova edição  do zine resolvi publicar o artigo aqui no Almanaque.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Brasil, Potência Interplanetária: As Crônicas das Viagens, de L. Sprangue de Camp

Prof. Dr. Edgar Indalecio Smaniotto

As Crônicas das Viagens é um universo ficcional criado pelo escritor norte-americano Lyon Sprague de Camp (1907-2000). Nesse universo ficcional, o Brazil (grafado com Z) é a potência dominante na Terra, inclusive é a nação que controla a corporação semiestatal Viagens Interplanetárias, única empresa terrestre que tem tecnologia para fazer viagens entre os diversos mundos habitados nesse universo ficcional.
L. Sprague de Camp utiliza diversas palavras em português em seus contos de As Crônicas das Viagens para dar o ar de dominação cultural do Brasil, como ocorre atualmente com relação aos EUA, que, por ser a potência dominante, impõe o inglês como língua “universal”. Esse recurso estilístico dá maior realismo ao cenário desenvolvido. Na tradução brasileira, as palavras que originalmente estavam em português são marcadas com asterisco.

L. Sprague de Camp 


Neste texto resenharemos os dois livros publicados em português que reúnem as Crônicas das Viagens: “Os Dentes do Inspetor” e “Construtores de Continentes”, ambos traduzidos por Cézar Tozzi e publicados pela Francisco Alves em 1976 e 1977, respectivamente, na coleção Mundo Fantástico (ressaltamos que esse é o material disponível no Brasil, sendo que o autor escreveu outras obras nesse mesmo cenário). “Os Dentes do Inspetor” corresponde ao segundo volume da coleção, e “Construtores de Continentes” ao quarto volume, sendo que o volume três da coleção é a coletânea “Contos da Taberna”, de Arthur C. Clarke. Ambas as coletâneas contam com a mesma introdução, escrita por Isaac Asimov.
Nessa introdução, Asimov relata seu primeiro encontro com L. Sprague de Camp, sendo Asimov um escritor iniciante, e Sprague de Camp um escritor já reconhecido. Asimov descreve Sprague como dotado de uma “erudição exótica e heterogênea”... “um historiador de quase tudo”... “capaz de escrever com graça e competência tanto sobre o mito de Atlântida, magia ou feitiçaria, a malograda era industrial dos tempos helênicos ou a Itália ostrogoda, armamento naval ou falsificações, sob a forma de história aprazível ou romances históricos com excelente base de pesquisa”.
Asimov chama a atenção também para o fato de Sprague ser linguista e foneticista, tendo publicado artigos nessa especialidade científica, além de ter escrito sobre outros temas, como dinossauros e lei de patentes (nos contos “Moto-contínuo”, “Acabou” e “Vam’bora!”, aqui resenhados, Sprague faz uso de seu domínio sobre leis de patentes).
No decorrer da II Guerra Mundial, juntamente com os também escritores de ficção científica Isaac Asimov e Robert A. Heinlein, Sprangue de Camp trabalhou como pesquisador para Philadelphia Naval Yard, já que era engenheiro aeronáutico, enquanto Heinlein era formado na Academia Naval, e Asimov também era cientista. Essa concentração de três grandes escritores de ficção científica no mesmo lugar de trabalho no decorrer da Guerra gerou diversas histórias sobre trabalhos com “armas secretas”, que sempre eram desmentidas pelos autores — que estavam envolvidos em atividades bem mais corriqueiras (Ver: https://www.kirkusreviews.com/features/asimov-de-camp-and-heinlein-naval-aviation-experim/. Acesso em 14/12/2014).



Robert A. Heinlein, L. Sprague de Camp e Isaac Asimov, numa base da US Navy1944.


Acredito que esse tipo de história de envolvimento de escritores de ficção científica com o aparato técnico-militar foi aproveitado no romance Invasão, de Larry Niven e Jerry Pournelle (Francisco Alves, 1989), em que, perante uma invasão extraterrestre, o governo americano utiliza escritores de ficção científica como consultores. Futuramente resenharemos esse romance nesta coluna.
L. Sprague de Camp também escreveu biografias, dentre as quais se destacam Lovecraft: a Biography (1975) e Dark Valley Destiny: the Life of Robert E. Howard (1983). Em conjunto com Lin Carter, Camp deu continuidade ao legado de Robert E. Howard, criador do personagem Conan, o Bárbaro; seja publicando as histórias originais de Howard ou completando histórias inacabadas. No Brasil, as histórias de Conan, com introdução e notas explicativas realizadas por L. Sprangue de Camp, foram publicadas pela editora Mercuryo (selo Unicórnio Azul) na coleção de livros de bolso Conan, Espada e Magia em 1995.
Os dois livros que resenhamos neste texto, “Os Dentes do Inspetor” e “Construtores de Continentes”, reúnem sete contos e uma novela no universo ficcional das Crônicas das Viagens. Os dois são a tradução da edição americana “The Continent Makers and Other Tales of the Viagens”, de 1953, publicado pela Twayne Publishers.
Na resenha a seguir, após o título de cada conto, consta a data fictícia em que se desenvolve a história. Entre parênteses consta o título original, a data de publicação nos Estados Unidos e o planeta em que se desenvolve a trama principal. Dividiremos o texto a seguir em duas partes, de acordo com o material publicado em cada livro, sendo que a introdução de Isaac Asimov se repete em ambos os livros.




L. Sprangue de Camp. Os Dentes do Inspetor. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

Constam desse volume seis contos, que resenhamos a seguir:

Os dentes do inspetor – 2054-2088 D.C. (The Inspector's Teeth – 1950 – Planeta Terra): inicia-se com uma reunião que pretende criar um Conselho Interplanetário entre as espécies alienígenas; o objetivo é impedir guerras interplanetárias. Para tanto, a Terra, cuja potência dominante é o Brasil, pretende inicialmente estabelecer um tratado com os osirianos, espécie inteligente do planeta Osíris, que tem domínio tecnológico semelhante ao terrestre. Os osirianos são descritos como pequenos dinossauros. A trama se desenvolve em torno de Hithafea, embaixador sha’akhfiano (como os osirianos se autodenominam), cuja experiência de estudante universitário na Terra será decisiva para a criação do Conselho Interplanetário. Um bom conto, mas não o melhor do livro. Acredito que a escolha desse conto para dar título ao livro tenha sido muito mais por ter o melhor título da coletânea.

Traje de verão – 2114-2140 D.C. (Summer Wear – 1950 – Planeta Osíris): é uma história muito divertida, com um final muito interessante, ao tratar da questão de como trocas culturais ocorrem em mão dupla. A história é centrada na disputa entre dois comerciantes terrestres que apelam a todo tipo de trapaça para atingir seu objetivo: criar uma demanda artificial para um produto totalmente inútil aos osirianos. Qualquer relação com as campanhas de marketing que incentivam o gosto com bugigangas inúteis não é mera coincidência.

Acabou – 2114-2140 D.C. (Finished – 1949 – Planeta Krishna): ocorre em uma época em que o Conselho Interplanetário está solidamente constituído. O Conselho mantém um forte bloqueio tecnológico ao planeta Krishna, que apresenta desenvolvimento social e tecnológico comprável ao da Europa Medieval. Uma vez que os krishnianos são extremamente belicosos, o Conselho Interplanetário pretende impedir uma revolução industrial nesse mundo que possa levar krishnianos a terem armamentos capazes de ameaçar a paz na Galáxia. Assim, a corporação Viagens Interplanetárias desenvolve uma estratégia minuciosa para impedir a contaminação tecnológica em Krishna, que envolve não apenas impedir a importação de produtos industrializados, como também de literatura técnica. Na história acompanhamos as peripécias do príncipe Ferreian, de uma das várias nações de Krishna, para obter acesso à tecnologia terrestre. Outro conto que apresenta um final bastante interessante, que mais uma vez remete à importância que mudanças culturais podem ter no desenvolvimento social, econômico e tecnológico de um povo. Talvez o melhor conto da coletânea, com direito a uma empolgante descrição de batalha naval. Aqui temos também uma cidade terrestre em Khishna, de nome Novarecife, e uma espaçonave chamada Maranhão, mais uma vez demostrando o domínio do Brasil.

O apito de Galton – 2117 D.C. (The Galton Whistle – 1951 – Planeta Vishnu): em um mundo com duas espécies inteligentes, os dzlierianos, descritos como centauros, e os romelianos, espécie de gorila de seis membros, ambas as espécies se encontram ainda, comparadas à cultura terrestre, na idade pré-histórica, vivendo em tribos. O contato com os terrestres é feito sem que se permita contaminação tecnológica, até que o terrestre Sirat Mongkut, um siamês, é tomado por um deus pelos nativos dzlierianos e elabora um esquema para armar a tribo que o venera e se tornar líder de todo um planeta. Tudo envolvendo um simples apito. A cidade humana neste mundo se chama Bembom.

A fábrica dos biscoitos em feitio de animais – 2120 D.C. (The Animal-Cracker Plot – 1949 – Planeta Vishnu): estamos novamente em Vishnu, um mundo em que duas espécies, os dzlierianos e os romelianos, vivem em guerra pelo seu controle. Tudo tende a piorar quando o trambiqueiro terrestre Darius Koshay abre uma fáabrica de biscoitos e incentiva o início de uma guerra mágica entre os nativos. Caberá ao xenólogo (um antropólogo de alienígenas) Luther Beck resolver a questão e, para tanto, entender a cultura dos nativos.

Vam’bora! – 2135-2148 D.C. (Git Along! – 1950 – Planeta Osíris): dois trapaceiros terrestres tentam introduzir um parque temático ao estilo faroeste entre os osirianos, mas, como sociedade entre trapaceiros não tem vida longa, o empreendimento se transforma em disputa, e tudo se complica quando os nativos começam a tomar as narrativas ficcionais sobre o Velho Oeste como modelo de legislação penal. Um ótimo conto que também trabalha muito bem com a apreensão de sistemas culturais. Com esse trabalho se encerra a primeira parte das Crônicas das Viagens.



L. Sprangue de Camp. Construtores de Continentes. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976.

Nesse volume temos a segunda parte das Crônicas das Viagens – um conto e uma noveleta.

Moto-contínuo – 2137 D.C. (Perpetual Motion – 1950 – Planeta Krishna): outro conto que se passa no mundo medieval de Krishna, em que o bloqueio tecnológico atraiu os mais diversos tipos de espertalhões terrestres que pretendem quebrar o bloqueio e obter lucro. Aqui acompanhamos o trambiqueiro profissional Felix Borel tentando introduzir a loteria em uma comunidade krishniana governada por uma ordem religiosa de cavalaria (ao estilo Ordem dos Templários). Mas, como os nativos estão interessados mesmo em tecnologia, Felix Borel arma todo um esquema, se utilizando da famosa lenda tecnológica terrestre da máquina de moto-contínuo, para arrancar algum dinheiro dos nativos. Um conto muito bom, no qual vale destacar a excelente narrativa do autor dos duelos de cavalaria.

Construtores de Continentes – 2153 D.C. (The Continent Makers – 1951 – Planeta Terra): imagine uma Terra superpopulosa, se é que precisamos imaginar, em que se torna possível erguer um continente no meio do oceano Atlântico Sul, entre Brasil e África. Parece uma boa ideia, principalmente se a humanidade já dispõe de conhecimento tecnológico para realizar tal proeza sem maiores riscos. Acontece que tudo poderia se resumir a um pacato empreendimento científico, se não fosse uma conspiração envolvendo extraterrestres para dar um novo rumo ao megaprojeto de engenharia.
Aqui temos uma novela, portanto com muito mais páginas, em que o autor descreve com maiores detalhes a geopolítica terrestre, tendo o Brasil como superpotência, em meio a uma história de espionagem e intrigas interplanetárias e com direito a um romance entre uma alienígena e um cientista terrestre.
Além dos osirianos, nesse texto são apresentados os seres de Thot, descritos como sendo uma espécie de “macaco-rato” de “pouco mais de um metro”, o que lembra o fiel amigo de Perry Rhodan, Gucky.
A ação se desenvolve em três diferentes cenários, sendo um deles a cidade do Rio de Janeiro, descrita como a “mais bela metrópole do mundo”; entretanto, L. Sprangue de Camp não deixa de fazer críticas a um elemento sensível da cultura institucional brasileira, a burocracia. Em certo momento da trama, as personagens precisam fazer uma via sacra entre diversas instituições policiais brasileiras para conseguir ajuda. É difícil para os personagens entender a existência de tantas forças policiais em um único país, sendo que todas evitam tomar providências, por julgar que a área de atuação seria de outra força policial, e não dela mesmo. A mais longa e também melhor história dos dois livros.

Se existe uma moral nos trabalhos de L. Sprague de Camp reunidos nesses dois livros, é que não importa a boa vontade dos governos em tentar não contaminar tecnológica e culturalmente espécies alienígenas com a cultura terrestre, pois os próprios terrestres serão os primeiros a tentar quebrar esse tipo de bloqueio para obter algum lucro exportando suas tecnologias e cultura.
Apesar de serem encontradas apenas em sebos, vale muito a pena ler essas duas seleções de trabalhos de Sprague de Camp.


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Publicado anteriormente na revista Perry Rhodan, da SSPG. 

sexta-feira, 17 de março de 2017

Uma Introdução aos Prêmios de Ficção Científica e Fantasia

Marcello Simão Branco

Quem disse que é só o cinema americano que tem o seu Oscar? Se a festa maior do cinema acontece no último domingo de fevereiro, a da ficção científica dos Estados Unidos acontece no primeiro domingo de setembro, com a entrega do Hugo. Assim como a Sétima Arte, a Arte do Amanhã também tem vários prêmios de diferentes matizes.
Se no cinema americano o Oscar foi instituído em um momento decisivo, em 1928, com o surgimento dos filmes falados, com relação à ficção científica americana deu-se um fenômeno semelhante.
Era o início dos anos 1950, e o gênero começava a ganhar ares industriais, passando do ambiente dos pulp magazines (revistas baratas vendidas em bancas de jornais e supermercados), para a das grandes editoras, que começavam a publicar regularmente os primeiros livros de ficção científica, aproveitando os autores mais populares dos anos 1940, na chamada Golden Age: Isaac Asimov (1920-1992), A.E. Van Vogt (1912-2000), Robert Heinlein (1907-1988) e Frederik Pohl (1919-2013).
É nesse clima de expansão comercial que surgem os primeiros prêmios voltados à ficção científica. O primeiro deles foi o International Fantasy Award (IFA), criado na Inglaterra, por um grupo de fãs e escritores em 1951. Escolhiam os vencedores alguns nomes importantes da ficção científica britânica. A primeira obra vencedora foi o romance Só a Terra Permanece (Earth Abides), do escritor americano George R. Stewart (1895-1980), um clássico.
Mas o IFA acabou superado por aquele que viria a ser o prêmio mais popular da ficção científica em todo o mundo, o Hugo. Ele foi criado em 1953 pelo fã Hal Linch e apresentado na Convenção Mundial de Ficção Científica daquele ano, na Filadélfia. O primeiro vencedor é outra obra clássica da ficção científica, O Homem Demolido (The Demolished Man), de Alfred Bester (1913-1987). A partir de 1955 na WorldCon realizada em Cleveland até o prêmio a ser entregue este ano em San José (California), o Hugo vem sendo entregue todos os anos aos melhores e mais populares da ficção científica em língua inglesa.
A exemplo do Oscar, o Hugo - com o troféu ao lado -, é entregue em várias categorias, tais como romance, novela, conto, filme, editor, ilustrador etc., refletindo mais tendências populares do que propriamente critérios artísticos. Também como o principal prêmio do cinema, seu nome deriva de uma homenagem carinhosa. Só que ao contrário do Oscar, que ninguém sabe realmente quem foi, o Hugo lembra a figura do editor Hugo Gernsback (1884-1967). Ele foi o sujeito que publicou a primeira revista dedicada inteiramente à ficção científica em todo o mundo, Amazing Stories, a partir de 1926 e também cunhou o termo “science fiction”.
Os vencedores em cada categoria são escolhidos por eleição dos fãs, votando tanto aqueles que comparecem às WorldCons, tanto aqueles que mandam seus votos por correspondência. A partir do ano 2000 passou a ser aceito votos enviados pela Internet. Nos últimos anos o Hugo tem enfrentado polêmicas relacionadas a grupos ou escritores que dizem representar minorias e, por se sentirem prejudicados, adotam ações de lobby ou sabotagem para prejudicar o prêmio. Mesmo assim ele segue inabalável como o mais representativo do campo da FC.

Escritores
Se o Hugo é o prêmio dos fãs, surge em 1965 um prêmio mais rigoroso quanto à escolha dos vencedores. É o Prêmio Nebula, criado pela Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFFWA), uma associação de escritores norte-americanos. Votam no Nebula apenas os autores associados e as categorias são apenas literárias: Melhor romance, novela, noveleta, conto e, mais recentemente, roteiros de cinema e televisão. O primeiro vencedor do Nebula, foi um dos clássicos absolutos da ficção científica, Duna, de Frank Herbert (1920-1986), que também conquistou o Hugo no mesmo ano.
A partir de 1974 o Nebula passou a ser entregue também a um escritor com destacada carreira e influência dentro da ficção científica, o chamado Grande Mestre, rebatizado posteriormente como Damon Knight Memorial Grand Master, em homenagem ao escritor e crítico Damon Knight (1922-2002), também agraciado com o título em 2002. O primeiro homenageado foi Robert Heinlein (1907-1988). Arthur C. Clarke (1917-2008), Isaac Asimov e Ray Bradbury (1920-2012) também já ganharam. No total 33 autores já foram lembrados, e em 2017 o prêmio será entregue para Jane Yolen, autora ainda inédita no Brasil.  

Não demorou muito para a indústria editorial americana explorar o filão dos autores e obras vencedores do Hugo e Nebula. Livros que vencem estes prêmios têm edições extras, seus autores são mais bem pagos, editam-se várias antologias com os contos vencedores de ambos os prêmios. E, de mais a mais, não deixa de ser um critério objetivo de qualidade para o leitor na hora de escolher que livro de ficção científica levar para casa.
Sendo a sociedade americana extremamente competitiva e diversificada, não demorou em surgir outros prêmios, de características mais específicas. Entre eles, podemos citar, o World Fantasy Award, um equivalente do Hugo para o gênero fantasia; dois prêmios que levam o nome de John W. Campbell, Jr (1910-1961), o mais influente editor da história da FC dos EUA: o John Campbell Award, entregue ao autor revelação do ano, e o John Campbell Memorial Award, para o melhor romance de FC do ano nos EUA, agraciado pela Kansas Science Fiction and Fantasy Society; o prêmio entregue pela principal revista sobre ficção científica no mundo, a Locus, que leva o seu nome; além de dois prêmios britânicos tradicionais, entregue por associações de fãs e escritores: British Science Fiction e o British Fantasy.
E sem esquecer de citar os prêmios que recebem nomes de escritores consagrados, como Philip K. Dick, Arthur C. Clarke e Theodore Sturgeon. O primeiro para o melhor romance em formato pocket (bolso) publicado anualmente nos Estados Unidos; o segundo para o melhor romance publicado na Grã-Bretanha; e o terceiro para o melhor conto norte-americano do ano.

Cinema
Mas se estamos falando dos prêmios literários, é importante lembrar que existem também prêmios para o cinema de ficção científica, tal como o Saturno - com o troféu ao lado -, e o Avoriaz, este entregue no festival espanhol de cinema de mesmo nome. Mas a referência principal no cinema também é o Hugo. A categoria “Dramatic Presentation”, que representa séries de TV e filmes para o cinema é a mais concorrida e votada todos os anos.
Algumas obras seminais que mudaram o destino do gênero na TV e cinema ganharam o Hugo, tais como a série Além da Imaginação (por três anos), Jornada nas Estrelas (clássica, dois anos), 2001: Uma Odisséia no Espaço, Guerra nas Estrelas, Os Caçadores da Arca Perdida, Blade Runner, Truman Show e, no ano passado, Perdido em Marte, como longa-metragem, e um episódio da série Jessica Jones.
Mas não é só nos States e no Reino Unido que os prêmios de ficção científica proliferaram. Países como França, Austrália, Rússia, Itália, Espanha e Japão também entregam prêmios importantes no ambiente local de sua produção literária de ficção científica.

Brasil
Mas e nós? No Brasil, os prêmios de ficção científica também existem e vieram a refletir o desenvolvimento do gênero no fim dos anos 1980. Assim surgiu o Prêmio Nova, criado pelo fã e escritor Roberto de Sousa Causo em 1987. O objetivo foi homenagear os trabalhos de destaque em cada ano e incentivar a competição e o aprimoramento entre os escritores, editores e ilustradores de ficção científica no Brasil. Desta forma, o Nova mudava o número de categorias quase todos os anos e também o critério de votação, refletindo o que se produzia em termos de ficção científica brasileira. Embora restrito à comunidade de fãs, o Nova durou dez anos – até 1996 – é uma tradição em nossa história, além de ter legado um herdeiro nos dias atuais, o Prêmio Argos.
Entregue pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), entre 2000 e 2003, é escolhido pelo voto dos sócios foi o primeiro e único prêmio brasileiro de ficção científica, que remunerou os vencedores – em suas duas primeiras edições. Depois de ausente alguns anos retornou em 2012 e mantém-se ativo no momento.
Outros prêmios foram criados e descontinuados. Ainda nos anos 1990, o fanzine Megalon promoveu a entrega do Prêmio Tapìraì, entre 1992 e 1994, votado pelos leitores da publicação; também originário dos anos 1990, o Prêmio SBAF, da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica, era concedido a uma pessoa em particular por serviços relevantes para o desenvolvimento da ficção científica no Brasil. Não era concedido  necessariamente todo ano, mas apenas quando seu júri entendia que alguém havia se destacado o suficiente. O último premiado foi o escritor Roberto de Sousa Causo, em 2003,  com seu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (1875-1950). De certa forma, anda que não oficialmente, este prêmio foi substituído pela seção de entrevista “Personalidade do Ano”, do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, edição coordenada por Marcello Simão Branco e Cesar Silva, publicado entre 2004 e 2013.
 Alguns outros prêmios foram extemporâneos como o Prêmio Fantasticon, entregue apenas em 2011, durante o simpósio literário de mesmo nome; o “Melhores do Ano”, em votação realizada apenas na internet, entregue em 2010; o Codex de Ouro, de caráter bianual, também apurado no ambiente da internet. Sua última premiação foi em 2015.
Se no Brasil os prêmios não tem repercussão comercial e nem chegam a incentivar a carreira dos vencedores, tem sim sua importância, no sentido de fazer um registro do melhor da produção do gênero entre nós, ao longo dos anos. Além de revelar as tendências temáticas premiadas no gosto do leitor brasileiro e estimular uma pequena, mas renhida competição em algumas categorias já tradicionais, como ficção curta e fanzine. É pouco? Em termos de mercado profissional, sem dúvida. Mas em termos de instituição de uma tradição e reconhecimento do trabalho entre os brasileiros que produzem ficção científica e gêneros afins, é um serviço vital e que deve ser mantido e aperfeiçoado, e ampliado com a criação de mais prêmios.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O quadrinho brasileiro de fc&f em 2004

Ficção científica não é uma tradição na arte dos quadrinhos brasileiros, e isso é um fato. Poucos são os autores que destacaram-se na hq nacional com histórias ou personagens claramente vinculados a fc. Mas isso não significa que não exista uma tradição razoavelmente forte em outros gêneros fantásticos, principalmente o horror e a fantasia, dentro dos quais podemos identificar um bom número de trabalhos antigos e recentes.
Entretanto, em 2004 nenhum desses gêneros foi muito prestigiado pelos autores brasileiros e reunir os títulos que formam a lista de lançamentos no ano foi uma tarefa árdua, sendo necessária alguma permissividade quanto ao alcance dos gêneros. E mesmo assim, foi um ano muito fraco.
O conteúdo dos trabalhos publicados não superou o óbvio e não aconteceu o lançamento de nenhum bom trabalho inédito. As revistas publicaram histórias de personagens já vistos, sendo algumas apenas compilações do que já havia sido publicado em outros tempos. Entre os fanzines houve estreias de personagens, mas sem inovação quanto a forma e conteúdo que continuaram a imitar o que é visto nos quadrinhos estrangeiros, especialmente americano e japonês.
Entre os velhos personagens que retornaram em edições novas tivemos As aventuras do Leão Negro, da dupla Ofeliano e Cynthia, fantasia publicada nos anos 1980 em tiras no jornal carioca O Globo e em álbum pela Meribérica Brasil, e nos anos 1990 na revista Saga (Escala). Retornou numa coleção com edição por demanda comercializada pela internet, republicando as tiras saídas no jornal citado há pouco.
Quebra-queixo, personagem de ficção científica criado por Marcelo Campos para a revista Pau Brasil (Vidente) em 1991, e com uma edição especial publicada pela editora Brainstore em 1999, ganhou em 2004 o álbum Quebra-queixo: Technorama, Volume 1, pela editora Devir, com histórias elaboradas por diversos autores convidados.
Dungeon crawlers, de Marcelo Cassaro e diversos ilustradores, publicado pela Editora Mythos, conta a história de Aurora, uma humana versada nas artes mágicas que quer chegar a Lenórienn, a cidade perdida dos elfos, um local de grande conhecimento mágico que foi tomado por hordas de hobgoblins que de lá expulsaram seus ocupantes originais. Aurora pretende resgatar livros que lhe ensinem conhecimentos secretos. Para isso é acompanhada da humana Brigandine e do elfo Fren, que se uniu a elas no caminho.
Em tese, Dungeon crawlers é uma série nova, mas parece vinculada de muitas maneiras aos trabalhos anteriores do autor, especialmente a série Holy avenger, publicada inicialmente pela editora Trama e depois pela Talismã. Ambas são histórias de fantasia que usam boa parte do imaginário do romance O senhor dos anéis, porém com o desenho imitando o estilo dos quadrinhos japoneses, também muito populares no Brasil nesse ano.
Apesar de realizado com competência técnica, não há nada de muito original a ser destacado.
Mais ou menos no mesmo estilo vimos Ethora, de Beth Kodama, Karina Erica Horita e Elton Azuma, publicada pela Talismã. Os personagens apareceram anteriormente com histórias curtas na revista periódica Tsunami e esta edição apresenta-se como um especial. Raposa é um meio elfo fora da lei, que está viajando com a jovem ladra Satine. Ela roubou um livro de magias que é cobiçado por outros magos. Eles são atacados na estrada por dois desses magos e o livro é retirado deles. Uma história um tanto inconclusiva para uma edição especial. Há uma ligeira personalidade dark fantasy na narrativa, mas o fundo heroico unido aos desenhos em estilo japonês tornam muito difícil a percepção de uma identidade realmente original, o que talvez tenha sido proposital.
Ainda imitando o estilo gráfico japonês, foi distribuído nas bancas brasileiras o almanaque Banzai, publicado pela editora Escala. Uma única edição com várias histórias inéditas de artistas experientes, tais como Mozart Couto, Watson Portela e Paulo Yokota. O material publicado tem alguma qualidade mas a precária produção editorial da publicação deu pouca visibilidade a mesma, que mal foi vista inclusive pelos fãs dos mangás.
Brado retumbante, produzida e publicada independentemente por uma cooperativa de autores emergidos dos fanzines, apresenta várias séries de autores diversos. As histórias seguem o modelo dos super heróis americanos, tanto no estilo narrativo quanto na plástica. Não há muito o que se destacar nas histórias, mas alguns dos ilustradores surpreendem.
No final de 2004, apareceu nas bancas a revista Kaos!, publicada pela Manticora, editora especializada em jogos de representação (RPG) em sua primeira incursão nos quadrinhos. A revista apresenta cinco histórias curtas de vários autores, entremeadas por entrevistas com artistas dos quadrinhos. Entre os autores das hqs publicadas aparecem os nomes de Sam Hart e Roger Cruz, quadrinhistas brasileiros com carreiras bem sucedidas nos exterior. Nem todas as histórias são de fc&f, mas isso não lhe tira os méritos.
Entre os fanzines observa-se o mesmo predomínio de fantasias em estilo mangá e de super-heróis, mas duas publicações destacam-se entre eles, porém sem serem novidades.
Uma delas é O martelo, editado por Erick Lustosa em Recife. O fanzine é dedicado aos quadrinhos de horror brasileiro clássico, lançou três edições em 2004 republicando histórias anteriores a 1980, de autores como Rubens Lucchetti, Nico Rosso, Toninho Lima, José Menezes, Renato Silva e Francisco Armond, com comentários relevantes do editor. Ainda que não tenha trazido nada de novo aos leitores, isso não impediu que O martelo fosse uma das mais expressivas publicações de quadrinhos fantásticos brasileiros em 2004, por conta de seu caráter documental.
O outro fanzine que se destacou em 2004 foi Aventura, editado em Valença por Luiz Eduardo "Luga" de Castro, com mais uma história da saga do Lôbo, personagem de fc que tem muitos fãs entre os leitores que acompanham os fanzines brasileiros. Lôbo é um oficial militar cheio de bons princípios que tenta sobreviver sem perder a dignidade em um Brasil destruído pela guerra num futuro próximo. O personagem foi criado na década de 1980 e teve a maior parte de suas edições então, mas autor esteve ausente do cenários dos fanzines por longo tempo, só voltando em 2001, com edições espaçadas e sem periodicidade fixa. Por isso, é sempre bom registrar a sua publicação, ainda que desta vez a história tenha sido bem curtinha.
2004, portanto, foi um ano no qual a hq brasileira de fc&f andou pouco e para o lado. Talvez tenha sido inibida pela publicação massiva de quadrinhos estrangeiros, entre eles muitos títulos de qualidade indiscutível vindos do Japão. Há uma gangorra histórica entre os quadrinhos nacionais e estrangeiros em ação no país: quando um está em alta, o outro está em baixa. Este ano foi a vez dos quadrinhos brasileiros ficarem na posição inferior, infelizmente.
Cesar Silva

Lançamentos de quadrinhos de fc&f de autores brasileiros publicados no Brasil em 2004
Álbuns e revistas:
Fantasia
- Dungeon crawlers, Marcelo Cassaro/Daniel HDR/Ricardo Riamonte, Mythos
- As aventuras do Leão Negro, Ofeliano de Almeida/Cynthia, Vitor Moura, ed.
- Ethora, Beth Kodama/Karina Erica Horita/Elton Azuma, Talismã
- Brado retumbante (antologia), Leonado Santana, org., dos autores
- Kaos! (antologia), Gisele Roth Saiz, Fabio Akio Fugikawa, eds., Manticora
- Banzai (antologia), Franco de Rosa, ed., Escala
Ficção científica
Quebra-Queixo: Technorama, Volume 1, Marcelo Campos, Devir
Fanzines:
Fantasia
- Máscara de Prata, Cleber Cachoeiras, ed.
- Power of the dreams, Marco/Cris/ Vanessa, eds.
- Demônios lendários, Júlio Cesar da Silva Costa, ed.
- Tormenta, Eduardo Manzano, ed.
- Projeto Continuum, Rafael de Melo Tavares, Daniel Siqueira e Adriano Sapão, eds.
Ficção científica
- Aventura, Luiz eduardo de Castro, ed.
- Freedom, Fabrício Santos e Gleison Santos, eds.
- A maldição, Reciney Rodrigues, ed.
Horror
- O martelo, Erick Lustosa, ed.
- Trindade, Pablo Augusto da Silva, ed.
- Canibais, Michael Kiss, ed.
- Assombração, Michael Kiss, ed.
- Demônios, Eudes S. Lopes, ed.

Obs: Este artigo relata o que se pode encontrar nas bancas de São Paulo em 2004, mas muitas das publicações citadas trazem datas anteriores. Isso acontece porque a publicação de quadrinhos no Brasil não é cuidadosa com as datas que faz estampar – quando o faz –, por isso muitas revistas apresentam disparidades. E a distribuição setorizada pode fazer uma publicação demorar a chegar as bancas em certas regiões, dificultando os registros mesmo entre testemunhas oculares.

sábado, 19 de março de 2016

Arthur C. Clarke (1917-2008)



por Marcello Simão Branco

Um dos mais conhecidos e influentes escritores da história da ficção científica, o inglês Sir Arthur C. Clarke faleceu em 19 de março de 2008, aos 90 anos, em Colombo, Sri Lanka, vítima de problemas cardiorrespiratórios. O autor tinha saúde frágil há muitos anos, fruto de uma síndrome pós-poliomielite que se manifestou depois de adulto, já no início dos anos 1960. A partir daí, passava a parte do tempo em cadeira de rodas. Em 2008, o autor lançou seu último romance The last theorem, em co-autoria com outro decano, o americano Frederik Pohl.
Clarke ficou mundialmente conhecido e associado ao filme 2001, uma odisséia no espaço (2001, a space odissey),  dirigido por Stanley Kubrick (1928-1999), em 1968. Ambos trabalharam juntos no roteiro, a partir de um convite de Kubrick, que terminou por resultar num romance de mesmo nome e no filme que mudou a face da ficção científica no cinema. Para os aficcionados, porém, Clarke já era um nome respeitado há, pelo menos, desde o início dos anos 1950.
Na melhor tradição de uma ficção científica antecipatória, Clarke previu a descoberta do satélite geoestacionário de comunicações em 1945 – que posteriormente recebeu o nome de “Órbita de Clarke”. Como um especialista e visionário esteve na linha de frente nas ideias que inspiraram o projeto espacial dos Estados Unidos nos anos 1960. Muito desse sentimento pode ser ilustrado com sua declaração para a Sociedade Interplanetária Britânica, em 1946: “nossa civilização não é mais do que a soma de todos os sonhos das idades anteriores. E tem de ser assim, pois, se os homens deixarem de sonhar, se voltarem as costas às maravilhas do Universo, acabará a história de nossa raça.”
Arthur Charles Clarke nasceu em 16 de dezembro de 1917 em Minehead, condado de Somerset, Inglaterra. Viveu a infância na fazenda da família e foi um ativo fã de ficção científica nos anos anteriores à Segunda Guerra Mundial, no qual serviu na Real Air Force (R.A.F.), como instrutor de radar. Depois da guerra, presidiu por duas vezes a Sociedade Interplanetária Britânica, graduou-seem física e matemática e publicou em 1946 sua primeira história profissional, o conto “Loophole”, na revista americana Astounding Science Fiction. A esta seguiu-se sua primeira história importante – e hoje clássica –, a noveleta Missão de salvamento (Rescue party), em que uma missão extraterrestre vem à Terra para resgatar a humanidade de uma destruição iminente, mas já encontra o planeta evacuado pelos humano. Aqui no já aparecia o seu tema principal, a projeção do ser humano no cenário cósmico. Clarke evocava as idéias de dos autores ingleses que o precederam H.G. Wells (1866-1946) e Olaf Stapledon (1886-1950), que abordaram muito a questão da evolução humana, alinhando-se, nesse sentido, com o impulso pioneiro da ficção científica norte-americana e o futuro de consenso desenvolvido nas revistas do gênero na época.
Com o sucesso inicial, não demorou muito para o promissor cientista passar a ser cada vez mais requisitado para escrever. Seja ficção ou divulgação científica. Como a maior parte dos autores do gênero da época começa a publicar regularmente nas revistas, como  Anti-crepúsculo (Againt the fall of night), em Startling Stories, em 1948. Sua primeira história de ficção científica a aparecer como livro foi Prelude to space, em 1951, rapidamente seguida por Areias de Marte (The Sands of Mars), de 1951, Ilhas no céu (Islands in the sky), 1952, e os clássicos A cidade e as estrelas (The city and the stars), 1956 – que é uma versão ampliada de Anti-crepúsculo – e O fim da infância (Chilhood’s end), de 1953. Estes dois últimos livros e mais as suas celebradas obras de não-ficção  Interplanetary flight (1950) e A exploração do espaço (The exploration of space), de 1952 – uns dos primeiros livros a popularizar os conceitos de astronaútica e defender a ida do homem ao espaço como algo factível tecnologicamente – estabeleceram uma carreira de prestígio, com uma reputação nos dois campos, tornando-o uma liderança intelectual, tanto para a ficção científica como para jovens cientistas ligados à astronáutica.
         
O fim da infância fala sobre o impacto na vida humana, caso ocorresse uma invasão extraterrestre, por uma supercivilização tecnológica adiante da nossa. Para além dos efeitos imediatos, o livro especula as consequências filosóficas e religiosas frente a este acontecimento. Já A cidade e as estrelas, mostra como estará a Terra daqui a um bilhão de anos, vivendo entre duas utopias: uma calcada na técnica e outra no humanismo. Deste confronto gira um desenrolar lírico e altamente especulativo.

Também nos anos 1950 Clarke escreveria algumas das narrativas curtas mais marcantes, como “A sentinela” (“The sentinel”, 1951), “Todo o tempo do mundo” (“All the time in the world, 1952), “Os nove bilhões de nomes de Deus” (“The nine bilion names of God”, 1953) – premiado com um retro Hugo, em 2004 –, “Encontro no amanhecer” (“Encounter in the dawn”), “A estrela” (“The star”, 1956) – que lhe valeu seu primeiro prêmio na ficção científica, o Hugo de 1956 –, entre outros, reunidos em duas excelentes coletâneas, O outro lado do céu (The other side of the sky, 1958) e Sobre o tempo e as estrelas (Of time and stars, 1972).
Depois de um casamento de apenas seis meses, em 1953 com Marilyn, uma jovem diretora de atividades sociais em um clube na Flórida, muda-se em 1956 de Londres para Colombo, na ilha de Sri Lanka, ao sul da Índia. Longe de se isolar, como em princípio parecia, o autor sentiu-se mais livre para escrever seus livros e praticar outras de suas paixões, a fotografia e o mergulho submarino que, segundo ele, era o mais próximo que poderia chegar da sensação de flutuar no espaço sideral.
Em 1962 publica a obra de não-ficção Perfil do futuro (Profiles of the future) e recebe o prêmio Kalinga, da Unesco, por sua contribuição em popularizar a ciência. Este livro traz uma linha do tempo que vai até o ano de 2010, descrevendo invenções e ideias, como uma “biblioteca  global” em 2005 e a existência de um presidente mundial em 2010. Também neste livro estão as suas chamadas “Três Leis: 1) Quando um respeitado, mas idoso cientista diz que algo é possível, ele está, quase certamente correto. Quando ele diz que algo é impossível, ele está, muito provavelmente, errado; 2) A única maneira de descobrir os limites do possível é se aventurar um pouco além deles e penetrar no impossível; e 3) Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível de magia.”
Em abril de 1964 começa sua parceria com o cineasta Stanley Kubrick, na preparação do roteiro de 2001, em que dividiriam a autoria. Clarke é tão responsável pelo filme maior da ficção cientifica como o seu genial diretor. A obra é uma síntese da visão de mundo do autor. Se Kubrick deu uma moldura estilística quase que perfeita, Clarke entrou com a substância. A combinação entre a convicção na capacidade de realização do homem e a transcendência cósmica em busca de uma causa maior para a nossa existência e o universo. O filme estréia em 2 de abril de 1968 nos Estados Unidos e sua polêmica repercussão confere uma grande notoriedade ao autor britânico. Quando a Apollo 11 chega à Lua em 20 de julho de 1969 ele é o comentarista convidado da rede de televisão americana CBS, ao lado do lendário apresentador Walter Cronkite e do astronauta das missões Mercury Wally Schirra. Seria a primeira das várias participações de Clarke, comentando cada uma das missões Apollo posteriores.

Com isso, Clarke torna-se a face pública da ficção científica no mundo, um ícone que combinou rigor intelectual com uma visão otimista e utópica, quase mística, das possibilidades de progresso humano. A despeito disso, Clarke não era ingênuo e considerava-se como “modestamente otimista” acerca da possibilidade da humanidade sobreviver aos sombrios tempos da Guerra Fria, com suas milhares de ogivas nucleares.
Em 1971 publica a noveleta “Encontro com Medusa” (“A meeting with Medusa”), que lhe confere o prêmio Nebula. Outros prêmios seguiriam dentro da ficção científica nos anos 1970, como conferido ao romance Encontro com Rama (Rendesvous with Rama), com o Hugo, Nebula, Locus, John Campbell Memorial e British Science Fiction, o que o tornou, na época, o mais premiado romance da história do gênero. É um tour-de-fource de rigor conceitual e especulação ousada sobre o que ocorreria se chegasse ao Sistema Solar uma gigantesca nave extraterreste, aparentemente desabitada. E em 1979 com o magnífico As fontes do paraíso (The fountains of paradise), também vencedor do Hugo e Nebula, em que imagina a construção de um elevador que iria da superfície da Terra até um satélite em órbita. Uma idéia que vem sendo estudada pela Nasa. Também nos anos 1970, publica Terra imperial (Imperial Earth, 1975), pioneiro por abordar em profundidade a questão da clonagem humana, muito antes deste assunto ser relevante.
A partir dos anos 1980 a dedicação do autor à escrita diminui em vista dos seus outros interesses e à demanda por sua colaboração em diversos projetos de preservação ambiental e fomento à ciência e tecnologia. Em 1981, por exemplo, apresenta a série de televisão para a rede britânica Yorkshire, Mysterious world, que em 1984 teria a seqüência Arthur Clarke’s world of strange powers. Nas duas dá explicações racionais para fenômenos incomuns, vistos como sobrenaturais. Um livro com o resumo dos  temas e episódios saiu no Brasil: O mundo misterioso de Arthur C. Clarke (Arthur C. Clarke’s mysterious world), de Simon Welfare e John Fairley.
Depois de receber uma carta do escritor brasileiro Jorge Luiz Calife e uma milionária oferta de adiantamento de US$ 2 milhões de sua editora nos Estados Unidos, Clarke escreve uma continuação para o clássico 2001. Em 1982 chega às livrarias 2010, uma odisséia no espaço II (2010: Odissey two), que se não tem a mesma relevância do original, ao menos é um bom livro e rendeu uma igualmente boa adaptação ao cinema, em 1984.
Com o aumento de sua requisição para vários interesses, Clarke passa a usar seus livros como um meio de arrecadação para entidades científicas. Com isso, sua carreira literária entra numa segunda fase, com uma queda na qualidade bastante visível. Repete-se os temas ou serializa-se histórias e em parcerias com outros autores. Uma tendência verificável é que sua obra assume um tom mais realista, a par com o conhecimento científico do momento, o que empobrece um de suas melhores virtudes, a capacidade de estrapolação visionária, vista em suas obras clássicas dos anos 1950 a 1970. Dois de seus livros mais notórios viram séries, como três continuações para 2001 e três para o romance original Encontro com Rama. Destes livros, destaca-se pelo menos dois com mais criatividade, O fantasma das grandes banquisas (The ghost from the grand banks, 1991) – sobre um resgate ao Titanic – e O martelo de Deus (The hammer of God, 1993) – sobre uma missão espacial que tenta desviar um asteróide em rota de colisão com a Terra. Este rendeu-lhe um Prêmio Nova, como “Melhor Livro de Autor Estrangeiro” no Brasil, em 1993.


Em consequencia de sua popularidade e influência recebe grandes homenagens. No campo da ficção científica britânica é instituído em 1987, o Prêmio Arthur C. Clarke, para o melhor livro publicado na Grã-Bretanha. Um ano antes é distinguido Grande Mestre Nebula, pela Science Fiction and Fantasy Writers of America e vence em sua carreira quatro prêmios Hugo e três Nebula, entre outros. A Nasa também o homenageou, primeiro com o nome de Odyssey ao módulo de comando da Apollo 13 e depois com a missão marciana de 2001, chamada de Mars Odissey. Clarke ainda tem o nome de um asteróide, assim como de uma espécie de dinossauro herbívoro, o Serendipaceratops arthurclarkei, descoberto em Inverloch, Austrália. Ele também recebeu títulos reais, como o de Commander of the British Empire (C.B.E.), das mãos da rainha Elisabeth II, em 1989 e o de Sir, no ano 2000. Antes de receber este último viu-se envolvido em uma acusação de pedofilia pelo jornal inglês The Sunday Mirror. Após investigação do caso, nada foi provado e o jornal se retratou em 2000.
A queda de qualidade a partir da década de 1980 leva alguns críticos a questionarem se, de fato, Clarke era um grande escritor. A seu favor pode-se dizer que seus melhores romances, O fim da infância, A cidade e as estrelas e Encontro com Rama, e contos como “Missão de salvamento”, “Encontro no amanhecer” e “A estrela”, entre outros, são obras-primas. E se por um lado não era virtuoso no sentido literário do termo – apesar da limpidez e lirismo em seus melhores momentos –, e não deixou em sua obra a marca de grandes personagens, o mais complexo deles talvez seja o computador Hal 9000 de 2001. Por outro foi ousado em relação a um dos argumentos mais caros à literatura de gênero: as ideias. Nisso levou a ficção científica a um patamar poucas vezes visto, talvez só superado por H.G. Wells antes dele.
         Se Clarke era um autor afinado com o racionalismo iluminista e via o desenvolvimento humano à luz da ciência, cultivava, ao mesmo tempo, uma visão quase mística e religiosa, na sua postura de transcendência humana diante dos mistérios do universo. Como se a busca interior pelo sentido da existência – amparada por doutrinas filosóficas e principalmente religiosas – estivesse destinada a ser encontrada na vastidão cósmica desconhecida que nos espera, caso consigamos deixar o nosso berço, como diria o cientista russo Tsiolkovsky.
        Especialmente para aqueles que o leram entre as décadas de 1960 a 1980, quando a exploração espacial tinha um grande apelo, sua ficção científica tornou-a mais emocionante, ao colocá-la em sua maior perspectiva, no qual os feitos de uma época se encaixam numa visão de dimensões épicas, estendendo-se milênios no futuro. Não é por acaso que duas gerações de escritores e cientistas foram afetados por seu trabalho. Deixa o seu irmão Fred e a família adotiva com quem vivia em Colombo. Sir Arthur Charles Clarke se vai como um símbolo da ficção científica e da cultura do século XX, mas ainda deve influenciar este novo século.


             No Brasil
             No auge do sucesso de 2001 ele esteve no Simpósio Internacional do Filme, realizado no Rio de Janeiro em março de 1969, onde recebeu um troféu em forma de monolito, o artefato alienígena do de 2001 e chegou a proferir uma palestra “O futuro não é mais o que costumava ser”, publicada no livro sobre o evento FC Simpósio/SF Simposium, editada pelo organizador, José Sanz. Voltou em 1972, para participar de um congresso internacional de informática, na PUC, de Porto Alegre. No começo dos anos 1980 recebeu uma carta de um escritor carioca,  Jorge Luiz Calife, com uma sugestão para continuar 2001, que incluia o conto “2002” – depois publicado em uma edição da revista Manchete, em 1984 e na revista Quark, n. 3, 2001. Clarke não só o atendeu, mas ainda o agradeceu no posfácio da obra. Isso permitiu que a carreira de Calife tivesse início, com a publicação de sua trilogia Padrões de contato, entre 1985 e 1991 – relançada em 2009 num único volume. Calife tem sido um fiel seguidor da prosa e dos temas de Clarke como também em alguns contos de sua coletânea As sereias do espaço (2001). No início dos anos 1990 havia um conjunto de autores que praticava ficção científica hard, chamados em um artigo no fanzine Somnium, de “Os filhos de Clarke”. Nem todos seguiram carreira efetiva, mas entre os que mais se destacaram estão Henrique Flory, no romance Projeto evolução (1989) e José dos Santos Fernandes, na coletânea Do outro lado do tempo (1990). Mais recentemente, Clinton Davisson, no romance Hegemonia: O herdeiro de Basten (2007) também recebe alguma influência do autor inglês. (M.S.B.).


Bibliografia em língua portuguesa:

Ficção científica:

= Anti-crepúsculo (The lyon of Comarre and against the fall of night, 1948), Editorial Panorama (Portugal), n. 29. Novelas.
= Areias de Marte (The sands of Mars, 1953), Editora Bestseller, 1960 e Argonauta (Portugal), n. 162. Romance.
= Ilhas no céu (Islands in the sky, 1952), Argonauta, n. 466. Contos.
= O fim da infância/A idade do ouro (Childhood’s end, 1953), Nova Fronteira/Argonauta, n. 26)/Aleph. Romance.
= Expedição à Terra (Expedition to Earth, 1953), Europa-América (Portugal), n. 143. Contos.
 = Luz da Terra (Earthlight, 1955), Bestseller, 1973. Romance.
= A cidade e as estrelas (The city and the stars, 1956), Coleção FC GRD 1967/Nova Fronteira/Abril/Devir. Romance.
= Encontro com o futuro (Reach for tomorrow, 1956), Pallas, 1975. Contos.
= Contos da taberna (Tales from the white hart, 1957). Francisco Alves Editora, “Mundos da Ficção Científica”, n. 3. Contos.
= Odisséia no mar/A sexta parte do mundo (The deep range, 1957). Bestseller, 1974/Argonauta n. 239. Romance.
           = O outro lado do céu (The other side of the sky, 1958), Nova Fronteira. Contos.
           = Histórias de dez mundos (Tales of tem worlds, 1962). Nova Fronteira. Contos.
           = Os náufragos do Selene/S.O.S. Lua e Náufragos da Lua (A fall of moondust, 1961), Nova Fronteira/Argonauta nos. 94 e 95. Romance.
           = A sonda do tempo, org.  (Time probe, 1966). Nova Fronteira. Antologia com vários autores.
           = 2001, odisséia espacial/2001, odisséia no espaço (2001, a space odissey, 1968). Expressão e Cultura/Europa-América, n.197/Europa-América Nebula, n.8./Aleph. Romance.
= Mundos perdidos de 2001 (The lost worlds of 2001, 1972), Hemus, 1972. Não-ficção.
= Sobre o tempo e as estrelas (Of time and stars, 1972), Nova Fronteira. Contos.
            = O vento solar: histórias da era espacial (The wind from Sun, 1972). Globo (RS), 1973. Contos.
           = Os dias futuros (The best of Arthur C. Clarke, 1937-1955, 1972), Argonauta, n. 334. Contos.
           = Encontro com Rama/Rendes-vous com Rama (Rendesvous with Rama, 1973), Nova Fronteira/Argonauta n. 317/Europa-América Nebula, n. 45/Aleph. Romance.
           = Terra imperial (Imperial Earth, 1975). Nova Fronteira/Argonauta nos. 281 e 282. Romance.
           = As fontes do paraíso (The fountains of paradise, 1979). Nova Fronteira/Edições 70 (Portugal)/Aleph. Romance.
= 2010, uma odisséia no espaço II/2010: Segunda odisséia (2010: Odissey two, 1982). Nova Fronteira/Europa-América, n. 210/Europa-América Nebula, n. 4. Romance.
= As canções da Terra distante (The songs of distant Earth, 1986). Nova Fronteira/Europa-América n. 176/Europa America Nebula, n. 20. Romance.
= 2061, uma odisséia no espaço III/ 2061: Terceira odisséia (2061, odissey three, 1988). Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 26. Romance.
= O berço dos super-humanos/Berço (Cradle, 1988). Nova Fronteira/Europa-América Nebula n. 35. Romance.
= O fantasma das grandes banquisas/O fantasma dos grandes bancos (The ghost from the grand banks, 1991), Siciliano/Europa-América Nebula n. 42. Romance.
            = O enigma de Rama/Rama II (Rama II, 1991), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 48. (Co-autoria de Gentry Lee). Romance.
            = O jardim de Rama (The gardem of Rama, 1991), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 59. (Co-autoria de Gentry Lee). Romance.
            = Rama revelado/A revelação de Rama (Rama revealed, 1993), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 62. (Co-autoria de Gentry Lee). Romance.
           = O martelo de Deus (The hammer of God, 1993), Siciliano/Europa-América Nebula, n. 56. Romance.
           = Richter 10 (Richter 10, 1996), Mandarim. (Co-autoria com Mike McQuay). Romance.
           = 3001, a odisséia final (3001: The final odissey, 1997), Nova Fronteira/Europa-América Nebula, n. 63. Romance.

Antologias, revistas e jornais com contos e artigos de sua autoria:

= Playboy, n. 88, novembro 1982. “2010 – Odisséia II (1a parte).
= Playboy, n. 8, dezembro 1982. “2010 – Odisséia II (2a. parte).
= Vruum, n.1, 7 de junho 1976. “Acidente em Ícaro”(1a. parte).
= Vruum, n. 2, 21 de junho 1976. “Acidente em Ícaro” (2a parte).
= Errantes entre as estrelas. Exposição do Livro, sem data. “A beira do mar”.
= Playboy, n. 45, abril 1979. “Em busca de um corpo”.
= Seleções n. 210, novembro 1988. “Uma carga explosiva”.
= Ele/Ela, n. 246, dezembro 1980. “Carta do futuro”.
= Mistério Magazine Ellery Queen, n. 140, março 1961. “Um crime em Marte”.
= Vruum, n. 3, 5 de julho 1976. “Dentro do cometa” (1a. parte)
= Vruum, n. 4, 19 de julho 1976. “Dentro do cometa” (2a. parte).
= Vruum, n. 5, 2 de agosto 1976. “Um dia inesquecível” (1a. parte).
= Vruum, n. 6, 16 de agosto 1976. “Um dia inesquecível” (2a. parte).
= Máquinas que pensam. L&PM, 1985 e 2005. “Disque F para Frankenstein”.
= De Júlio Verne aos astronautas. Coleção Argonauta, n. 100. “A estrela”.
= Ficção científica para quem não gosta de ficção científica. Editora Cruzeiro, Coleção Galáxia 2000, n. 3, 1969. “A estrela”.
= Imaginação Ltda. Editora Quatro Artes, 1965. “A estrela”.
= Zero Hora, 14 de agosto 1969, Porto Alegre (RS). “A estrela”.
= FC Simpósio/SF Simposium. Instituto Nacional do Cinema, 1969. “O futuro não é mais o que costumava ser”. Palestra.
= O Estado de S. Paulo, 6 de janeiro de 1999. “Um incentivo para viagens espaciais”. Artigo.
= Seleções, n. 227, abril 1990. “O inimigo esquecido”.
= Alguns dos melhores contos de ficção científica, volume 1. Moraes Editores, Coleção Aventura Interior, n. 4, Portugal, 1978. “Uma lição de história”.
= Best seller de ficção científica. Portugal Press, n. 10, 1972. “Lição de história.”
= O que é ficção científica? Editora Atlantida, Coleção Centauro, n. 4, 1959. “Lição de história.”
= Para entender os anos 70. Editora Bloch, sem data. “O melhor ainda está por vir”. Artigo.
= Antologia cósmica. Francisco Alves Editora, Coleção Mundos da Ficção Científica, n. 22, 1981. “Missão de salvamento”.
= Arquitetos do futuro. Expressão e Cultura, 1972. “O náufrago”.= A nave espacial. Clube do Livro, 1977. “A nave espacial”.
= Homem, n. 1, agosto 1975. “A passagem da Terra”.
= ... Para onde vamos? Editora Hemus, 1979. “Os pastos submersos”.
= Mensagens do futuro. Coleção Argonauta, n. 320. “Quem está aí?”
= Espaço, n. 4. Editora Verbo, sem data. “Quem está aí?”.
= Uma infinidade de estrelas. Editora Deaga, Coleção DH-Ciência, n. 8. “Regata no espaço”.
= A sonda do tempo. Editora Nova Fronteira, 1979. “Respire fundo”.
= Rumo à Vega. Editorial Bruguera, Coleção Urânia, n. 18, 1971. “Reviravolta”.
= Correio do Povo, 7 de dezembro 1968, Porto Alegre (RS). “A sentinela”.
= Seleções, n. 202, março 1988. “A sentinela”.
= Dinossauros! Editora Aleph, Coleção Zenith, n. 6, 1993. “Seta do tempo”.
= Ross Pynn – Antologia de Mistério, n. 6. “Silêncio, por favor!”.
= Arte futura. Editorial Bruguera, Coleção Urânia, n. 10, sem data. “Teste de segurança”.
= Os melhores contos de ficção científica de 1972. Editora Deaga, Coleção DH-Ciência, n. 18. “A trajetória da Terra”.
= Espaço, n. 2. Editora Verbo, sem data. “Verão em Ícaro”.
= Homens e estranhos. Edições Mundo Musical, 1973. “Vindo do Sol”.
= Terrestres e estranhos. Editorial Panorama – Antologias, n. 1, sem data. “Vindo do Sol”.
= Histórias de ficção científica. Editora Ática, 2006. “A estrela”.
= A Descronização de Sam Magruder, George Gaylord Simpson. Introdução: "A Exploração do Tempo".

Divulgação científica
= A exploração do espaço (The exploration of space, 1952), Melhoramentos, 1959.



= Perfil do futuro (Profiles of the future, 1962), Vozes, 1970.
= O terceiro planeta (Report on planet three, 1972), Hemus, 1972.
= O mundo misterioso de Arthur C. Clarke (Arthur C. Clarke’s mysterious world, 1980), com Simon Welfare e John Fairley. Francisco Alves Editora, 1982.
= Um dia na vida do século XXI (July 20, 2019: A day in the life ot the 21st century, 1986),    Nova Fronteira, 1989.

Sobre o autor (livros e revistas):
= “Ficção científica: A nova mitologia – Ensaio para uma análise estrutural”, Franciso Antonio Doria. Tempo Brasileiro, nos. 15/16. Editora Revista dos Tribunais, 1973. (O artigo analisa o romance A cidade e as estrelas.)
= “A idade de ouro, Arthur C. Clarke, 1953”, L. David Allen, No mundo da ficção científica. Summus Editorial, 1975.
= 2001, uma odisséia no espaço, Amir Labaki. Publifolha – Coleção Folha Explica, n. 15, 2000.
= Arthur C. Clarke: Ficção das origens, Jesus de Paula Assis, editor. Scientific American – Exploradores do Futuro. Editora Duetto, 2005.
= “Assim falou Arthur C. Clarke...”, Marcello Simão Branco. Discutindo Literatura, ano 3, n. 18, 2008. Editora Escala Educacional.
= "Arthur Clarke em 2001", da "Salon" (revista norte-americana). Folha de S. Paulo, "Mais!", 14 de janeiro de 2001.
= "Mil Anos à Frente", Laurentino Gomes (resenha de 3001: A Odisséia Final). Veja, 23 de julho de 1997.