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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Essencial 2014 - Autores brasileiros

Até 2013, a fc&f no Brasil foi acompanhada de pertinho pelo Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica. Essa missão está agora disseminada num grande número de iniciativas de fãs e acadêmicos, de forma que há muitas interpretações e análises circulando, especialmente na internet. Contudo, minha análise pessoal ainda pode ter algum valor para aqueles que gostam de discutir os lançamentos mais expressivos da literatura especulativa no Brasil. Assim sendo, vou exercitar aqui a minha opinião baseada na lista do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica 2014 - Lançamentos, recentemente publicado aqui.
Começando pelos autores brasileiros, o gênero da fantasia segue firme e forte como o preferido de autores, editores e leitores, tomando pelo menos metade dos lançamentos de ficção fantástica. É claro que caberia discutir os limites de cada gênero e até mesmo questionar se um determinado título faz parte ou não do rol das obras especulativas – há muitas definições e algumas delas são diametralmente opostas – mas tomo a liberdade de usar a minha: se não é claramente fc ou terror, é fantasia. E entram na definição as histórias de realismo mágico e fantástico.
Dessa forma, destaco, na fantasia, os livros A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado pela Companhia das Letras, e Os sóis da América, de Simone Saueressig, publicado pela autora em quatro volumes ao longo de 2013 e 2014. Ambas são autoras experientes no gênero, com diversos títulos publicados por grandes editoras. Socorro investiu num romance regionalista moderno que trata de costumes e tradições bem brasileiras, enquanto Simone fez um romance de alta fantasia em um continente americano povoado por seres mitológicos inspirados nas culturas de diversos povos, entre os quais os brasileiros, embora estes não sejam predominantes.
Também destaco o segundo volume da coletânea Hiperconexões: Realidade expandida, organizada por Luiz para a editora Patuá. Trata-se de uma proposta que, se não é de toda original, é bastante rara: uma seleta de poemas de ficção científica de diversos autores, todos explorando o tema do pós-humanismo. O primeiro volume foi publicado em 2013, pela editora Terracota.

Na ficção científica, Luiz Bras também sustentou uma boa posição com Distrito Federal, publicado pela Patuá, romance que o autor prefere chamar de rapsódia, uma fantasia tecnológica sobre a corrupção e suas consequências.
Também vale destacar A lição de anatomia do temível Dr. Louison, de Enéias Tavares, publicação da LeYa Brasil/Casa da Palavra.
O romance foi vencedor da primeira edição do Prêmio Fantasy e inaugurou a coleção Brasiliana Steampunk.
Trata-se de uma ficção alternativa que reúne, numa mesma aventura, diversos personagens da literatura fantástica brasileira.
Entre as coletâneas, é impossível não voltar a Luiz Bras e sua Pequena coleção de grandes horrores, pela editora Circuito, um conjunto de narrativas muito curtas que brincam com ícones da cultura pop e dialogam com várias obras do gênero.

No horror, vale a pena buscar por As máscaras do pavor, do veterano escritor e roteirista R. F. Lucchetti, uma das maiores personalidades do gênero no país, muito conhecido por suas parcerias como o ilustrador Nico Rosso, nos quadrinhos, e com José Mojica Marins, no cinema. O romance é o primeiro de uma coleção do autor – conhecido como o homem dos mil livros – numa parceria das editoras Devaneio e Corvo.
Entre as coletâneas, vale registrar Flores mortais, de Giulia Moon, pela Giz Editorial e Sete monstros brasileiros, de Braulio Tavares, pela Casa da Palavra. A primeira reúne contos com as vampiras criadas pela autora, que é uma das melhores escritoras da Terceira Onda da ficção fantástica brasileira. A segunda é mais uma contribuição valiosa do experiente escritor paraibano Braulio Tavares, desta feita navegando no ainda pouco explorado panteão de criaturas assustadoras da mitologia nacional. 
Alguns dos títulos citados neste artigo dispõe de resenhas neste blogue, é só buscar pelos autores no índice de tags.
Cesar Silva

sábado, 29 de abril de 2017

Vinte anos no Hiperespaço

Vinte anos no Hiperespaço, Cesar Silva, org. Prefácio de Marcello Simão Branco. Capa: Cerito. Editora Virgo, São Caetano do Sul, 2003.
A ANTOLOGIA QUE FECHOU UM CICLO
O fanzine Hiperespaço, editado por Cesar Silva e, no início, também por José Carlos Neves e Mário Mastrotti, durou uns vinte anos. Quando resolveu encerrá-lo, Cesar organizou uma antologia comemorativa, que passo a comentar.
VINTE ANOS NO HIPERESPAÇO, Cesar Silva e Mário Mastrotti.
A capa do livro equivale a um conto em forma de noticiário em torno do personagem “Tripanossoma”, pirata galático criado por Mário Mastrotti, responsável pela parte visual da história. A notícia da captura do pirata e seu cúmplice Dodô é bem-humorada, mas infelizmente a colocação das colunas da notícia em posição inclinada fez com que algumas letras se perdessem, impossibilitando a leitura integral do trabalho.
A NOVA REVOLUÇÃO DOS BICHOS, Carlos Orsi Martinho.
Este é, a meu ver, o melhor trabalho da antologia. Com uma originalidade muito grande Carlos Orsi desenvolve uma fábula utópica e autópica que já começa com palavras intrigantes: “O maligno Humanoide observa, impotente, os Gorilas Selvagens de Chachka-Qun atacarem as paredes do Palácio de Tugstênio com brocas roubadas de diamante.” É um conto divertido, que prima pelo absurdo e narrado com grande engenhosidade, numa tessitura que se completa brilhantemente no desfecho, e ainda aproveita para uma referência a Animal farm de George Orwell (ao seu título no Brasil, A revolução dos bichos).
BACTÉRIA, Edgard Guimarães.
Conto sofisticado onde um sujeito especula sobre um hipotético micro-organismo que altera os textos impressos. É um conto bem escrito em termos de língua portuguesa mas esbarra com o problema de não conseguir passar a mensagem de humor que pretende na surpresa final, que de resto é previsível.
ANDROIDES ORGÂNICOS TERÃO CABELOS NO PEITO?, E. R. Corrêa.
História extravagante e de difícil compreensão, a começar pelo título esquisito e excessivamente comprido. Tudo gira em torno de um sujeito reles num botequim, no meio-dia de São Paulo, pensando em ataques terroristas e que, por fim, começa a desconfiar ser ele próprio um androide bomba. A linguagem “punk” prejudica muito o clima de terror induzido e o desfecho, anticlimático, é decepcionante.
PAULA, A ESTRANHA, Fernando Moretti.
Parece que o autor se inspirou, no título, na Carrie de Stephen King. A história porém segue a via da psicopatia, não a do terror puro. O que salta aos olhos é a gratuidade da violência narrada, uma história que segue a triste via do “brutalismo” que hoje infesta a literatura e o cinema.
COLEIRA DO AMOR, Gerson-Lodi Ribeiro.
Num entrecho mais longo – aliás esse autor costuma escrever contos bem mais longos – Gerson conta uma história que poderíamos chamar “passional-tecnológica”, exercitando sua habitual firmeza de estilo e habilidade em tecer tramas. No entanto, a ideia da manipulação dos próprios sentimentos mediante a implantação de nanorrobôs e a discussão se isso fere ou não o livre-arbítrio resulta numa discussão em jargão técnico que soa bem artificial e pesada para os leitores, principalmente aqueles que veem a ficção científica como lazer. Vejam este trecho: “Os chips de amor eterno não inserem novos padrões (...) Apenas reforçam as trilhas neurais que expressam sentimentos mútuos pré-existentes.” Em todo o caso creio que Gerson tem razão ao sugerir a possibilidade de loucura como consequência de tais manipulações.
V.I.R.T.U.A.L., Gian Danton.
Uma divertida vinheta que brinca com aquele clichê de “nada é o que parece ser”, tornado mais comum após a descoberta do mundo virtual. Fazendo lembrar o Hal – o computador inteligente de “2001: uma odisseia no espaço” – o pequeno conto de Gian Danton pode ser considerado perfeito, e admite vários níveis de leitura. O que é a realidade? O que é a auto-consciência?
O MONSTRO DO ARMÁRIO EMBUTIDO, Miguel Carqueija.
Uma espécie de conto lovecraftiano infantil, que se reporta aos clássicos terrores das crianças. Como se sabe, o folclore infantil fala nos monstros  que habitam os armários ou se emboscam embaixo da cama, nos amigos invisíveis e nos brinquedos que se movem e falam na ausência dos humanos. O protagonista-narrador, já adulto, relembra um fato traumatizante de sua meninice.
(observação: como sou eu o autor do conto não posso dar opinião sobre ele e limitei-me a explicar o enredo)
ARMAGEDOM EM MADUREIRA, Octávio Aragão.
Incursão no domínio do “non sense”, como nos velhos quadrinhos de Juarez Machado; porém com detalhes vulgares. A história começa com uma mulher sendo lambida pelo telefone (sic). Outros horrores vão acontecendo, culminando com uma explicação atroz a respeito de uma invasão do inferno. Esse é, de longe, o pior conto do livro.
PRÉ-NATAL, Roberto de Sousa Causo.
Os textos de Causo com frequência tratam de assuntos militares e políticos, e também polêmicos. No caso trata da luta contra a tirania, uma ditadura de algum país não identificado (mas que parece ser o Brasil), já que o autor tem a idiossincrasia de falar apenas no “Regime” e no “Ditador”. Uma criança em gestação deve ser contrabandeada e, para tanto, é implantada no abdômen de um homem, na suposição de que isto iludirá a vigilância do inimigo. O conto me parece pouco convincente do ponto de vista científico, pois não consegui entender como o bebê poderia sobreviver no corpo de um homem.
O ÚLTIMO SUSPIRO, Cesar Silva.
Um conto muito curto para o assunto, passado em época nebulosa, talvez num futuro distante, onde uma nova idade de gelo isola comunidades humanas e, numa delas, um dos habitantes tem a ideia de organizar torneios esportivos para evitar a degeneração da raça e manter a esperança de dias melhores; todavia os torneios só servem, afinal, para estimular o ódio entre as famílias. É um conto deprimente, com um final sombrio. Creio que a ideia básica daria para melhor desenvolvimento e um final menos pessimista. Em todo o caso, uma visão bastante ácida em relação à natureza humana.
Miguel Carqueija

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sagas 5: Revolução

Sagas, Volume 5: Revolução,  Cesar Alcázar e Duda Falcão, orgs. 96 páginas. Editora Argonautas, Porto Alegre, 2014.

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heroica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.
Cesar Silva

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Solarium 3

Solarium 3, Frodo Oliveira, org. 220 páginas, capa de Natalia Caruso. Editora Multifoco, selo Anthology, Rio de Janeiro, 2014.

Em 2009, Frodo Oliveira organizou para a Editora Multifoco o primeiro volume da coleção Solarium, uma antologia de contos de ficção científica com textos de autores novos e algumas boas revelações. A parceria já rendeu três sequências, a mais recente delas é o volume quatro, publicada em 2016. O objeto desta resenha é o volume três, de 2014.
Solarium 3 manteve a proposta de apresentar autores novos no panorama da fc brasileira. O próprio organizador assina um dos 29 textos da edição, que também tem Aldo Costas, Anderson Dias Cardoso, Andrei Miterhofer Cutini, Bruno Eleres, Cesar Bravo, Cristiano Gonçalves, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, David Machado Santos Filho, Demetrios Miculis, Edgard Santos, Eduardo Alvares, Emerson D. E. Pimenta, Fabiana Guaranho, Fabio Baptista, Fernando Aires, Giovane Santos, Gutemberg Fernandes, Helil Neves, Ítalo Poscai, Jowilton Amaral da Costa, Lucas Félix, Marcelo Sant'Anna, B. B. Jenitez, Patrick Brock, Ricardo Guilherme dos Santos, Sheila Schildt e Thiago Lucarini.
Não seria produtivo comentar conto a conto aqui, pois a maior parte é amadora e carece de um desenvolvimento mais apurado mas, como sempre acontece em antologias, alguns textos se destacam e merecem ser observados mais detidamente.
"Olhos de Cronos", de Andrei Miterhofer Cutini, é uma ucronia sobre um homem ferido e sem memória que desperta nos arredores de um povoado arruinado pela guerra e habitado por aleijados e moribundos assolados por ladrões de órgãos. Em seus bolsos, alguns itens estranhos que vão se revelar as chaves da salvação do seu mundo. Fica patente a influência da obra de Philip K. Dick, especialmente do conto "O pagamento" (em Realidades adaptadas, Philip K. Dick, Aleph, 2012), mas Cutini demonstra habilidade na condução do enredo, sem replicar os maneirismos do autor americano.
"Contato secreto: Operação Forget", de Cristiano Gonçalves, é uma bem elaborada ficção ufológica na linha do seriado de televisão Arquivo X. Militar desmemoriado desperta no hospital depois de participar de uma ação secreta que o deixou em coma por alguns dias. Disposto a entender o que se passou, inicia uma investigação que irá levá-lo a uma evidente conspiração governamental.
"O agricultor", de David Machado Santos Filho, vai a um futuro no qual comer carne se tornou um crime. A engenharia genética desenvolveu, então, uma nova espécie de vegetais híbridos que replicam tecidos comestíveis para substituir a proteína animal na mesa dos consumidores. Entre simulacros de aves, boi, porco e até mesmo leite e ovos, a próxima aposta do agricultor é um novo tipo de carne que pode se tornar um grande negócio no futuro. Humor negro absurdista apresentado em detalhes instigantes e um desfecho surpresa bem construído – coisa rara –, este bom texto critica os extremos da moda do veganismo.
"Ogum S. A.", de Patrick Brock, é uma divertida space opera apresentada em forma de diário de um pouco honesto empreendedor do ramo dos transportes interplanetários, que relata os dramas e alegrias, sucessos e fracassos de sua vida atribulada. Um dos melhores textos do volume que, junto ao conto comentado no parágrafo anterior, usa de um protagonista sem caráter, típico da literatura brasileira, para especular sobre a nossa cultura e atitudes frente a vida.
"Só", de Ricardo Guilherme dos Santos – autor cujos préstimos me fez chegar às mãos este volume – também investe numa space opera na qual a inteligência artificial de uma espaçonave de gerações relata a história dramática do povo que a construiu e usou através dos séculos, em sua viagem em direção à eternidade. A personalização de espaçonaves e computadores, que é um dos temas recorrentes da ficção científica, tem aqui um exemplo de contornos poéticos que obteria resultados mais expressivos se o autor tivesse elaborado uma voz própria para a sua I.A., uma linguagem de máquina, digamos assim – perseguida por William Gibson e Bruce Sterling em A máquina diferencial, totalmente perdida na tradução brasileira, diga-se de passagem –, que daria ao texto um aspecto literário mais expressivo. Exemplo de construção de vozes próprias bem sucedidas na fc&f brasileira estão no conto "Meu nome é Go", de André Carneiro, publicado na coletânea A máquina de Hyerônimus e outras histórias (UFSCar, 1997), e nos textos da série A saga de Tajarê, de Roberto de Sousa Causo, vistos em A sombra dos homens (Devir, 2004), mas como não são especificamente vozes de máquinas, este é aparentemente um desafio ainda por realizar na fc brasileira.
Há potencial nos demais textos apresentados na antologia, que renderiam ótimas peças se tivessem uma orientação técnica especializada, mas é preciso ter em mente que, tal como suas edições anteriores, Solarium 3 é uma antologia de autores novos, muitos deles estreantes. A proposta da seleção não é publicar o melhor da fc nacional, mas abrir espaço ao exercício do gênero no país, uma missão legítima e digna geralmente feita por revistas e fanzines, pouco publicados neste momento. Encarado como um periódico literário, Solarium 3 não decepciona e, como tal, é uma iniciativa que deve ser valorizada.
Solarim 3 – bem como os demais volumes da série – pode ser encontrado no saite da Editora Multifoco, aqui.

sábado, 14 de janeiro de 2017

Páginas de Sombra Contos Fantásticos Brasileiros

Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros. Edição e apresentação de Braulio Tavares, 167 páginas. Ilustrações de Romero Cavalcanti. Rio de Janeiro: Editora Casa da Palavra, 2003.

Esta foi a primeira das seis antologias que Braulio Tavares organizou para a editora carioca Casa da Palavra até 2015. E é, ao lado de Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica (2011), a mais significativa para a FC&F brasileira, pois se trata de obra de referência e formação de opinião, tanto para especialistas, como para fãs e leitores.
Ao pegar o volume já se percebe que o livro é especial. Não só pelos escritores selecionados, mas também pelo projeto gráfico bonito e arejado, enriquecido por ótimas ilustrações internas para cada história por Romero Cavalcanti.
O livro começa com um ensaio crítico chamado “Nas periferias do real ou o fantástico e seus arredores”, didático e ao mesmo tempo pessoal, apresentando alguns dos elementos centrais da chamada literatura fantástica, enriquecidas com uma interpretação própria do aqui crítico Braulio Tavares. Busca uma definição básica do fantástico, narra um pouco da trajetória e de algumas características do fantástico brasileiro, relacionando em seguida com o Horror e seus próprios pilares, como os fantasmas e o gótico. Para concluir com uma breve, mas instigante reflexão sobre a ausência de florescimento de uma literatura fantástica no Brasil, embora ela seja bem mais praticada em comparação com a ficção científica, por exemplo.
Ele argumenta que talvez seja porque a literatura brasileira ainda seja jovem – como o próprio país, aliás –, e que ela ainda está mais afeita por explicações calcadas no realismo, do que no fantástico, dada a urgência de problemas a serem resolvidos em nossa sociedade. É uma explicação pertinente mas que talvez seja insuficiente, especialmente se considerarmos como o Brasil vem mudando nestes últimos 25 anos, com uma profunda mudança em sua estrutura industrial e socioeconômica sem, contudo, alterar seu quadro de desigualdade social. E isto trouxe, será por coincidência?, em seu rastro, uma Segunda Onda da ficção científica, que tem sido a mais militante, produtiva e de melhor qualidade em comparação com qualquer outro momento histórico em nossa literatura, ainda que de alcance restrito no conjunto das letras nacionais.
De qualquer forma, uma antologia como esta ajuda a contextualizar o cenário histórico e recuperar algumas joias esquecidas (ou pior) não conhecidas pelos fãs mais jovens de ficção científica e literatura fantástica.
Assim, este livro traz 16 histórias que vão de 1884 a 1995, cobrindo praticamente um século de produção. Obviamente, toda escolha é arbitrária mas o organizador Braulio Tavares procurou, até onde foi possível, equilibrar o gosto pessoal com a representatividade de uma história ou de seu autor. E estas duas características ficam explícitas na pequena introdução a cada história, onde o organizador já apresenta o autor e sua relação com o fantástico, bem como em que a sua literatura em geral dá mostra, ainda que implicitamente, de insights e especulações nada realistas.
O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade abre a antologia com a despretensiosa “Flor, Telefone, Moça”, de 1951. Tem uma narrativa bela, melancólica e surpreendentemente sobrenatural, no relato de uma moça que retira uma flor de um jazigo e passa a receber estranhos telefonemas. O produtor e antologista da TV americana Rod Serling (1925-1975) certamente ficaria interessado em filmar o conto para uma de suas séries – Além da Imaginação ou Galeria do Terror – caso viesse a ler a história.
O conto a seguir é “A Podridão Viva”, de autoria de Amândio Sobral, um dos escritores esquecidos que são recuperados neste livro. A história, publicada originalmente em 1934, tem um clima bem construído, situando a ação no interior profundo de uma inexplorada e distante floresta africana. Uma das regiões mais exóticas do planeta – naquela época – e ainda hoje. O impacto dos detalhes da expedição e da aparição são muito reforçados pela adjetivação e pelo choque emocional sofrido pelo protagonista.
“Teleco, o Coelhinho” é o conto seguinte, assinado por um dos grandes fantasistas brasileiros, Murilo Rubião. Nesta história de 1965, uma fantasia em estilo clássico, muito bem narrada, com vívida imaginação e sentido alegórico. A situação absurda que se insere no cotidiano e passa a com ele conviver tem aqui um relato dramático e triste, mostrando personagens solitários em busca de compreensão e amizade.
Já o conto seguinte é de Berilo Neves, um escritor best-seller da literatura brasileira dos anos 1930, hoje também relegado ao pó das estantes e à leitura eventual de um pesquisador mais dedicado. Um deles, o escritor Roberto de Sousa Causo contribuiu para dirimir um pouco este ocaso, publicando uma edição temática sobre ele no seu fanzine Papêra Uirandê, há alguns anos. Em todo caso, “A Última Eva” é mais um esforço de recuperação de um autor realmente curioso. Sua ficção científica não é mais do que sátiras relativamente superficiais sobre casais apaixonados em suas andanças pelos planetas do Sistema Solar.
Porém a esta aparente ingenuidade se insere uma temática extremamente machista e misógina, tal como mostrado neste conto, onde uma misteriosa epidemia varre as mulheres do mundo, num tema relativamente frequente na ficção científica como, por exemplo, no instigante e irregular romance O Planeta Esparta, do americano A. Bertram Chandler, publicado no Brasil nos anos 1970, pela editora Nosso Tempo. No fim das contas, a presença de Berilo Neves se justifica mais por sua representatividade histórica do que por sua qualidade temática ou literária, exemplificado neste conto com um enredo forçado tanto no humor, quanto no desdobramento das situações.
Lília Aparecida Pereira da Silva é outra autora relativamente esquecida que dá as caras no livro com o curtíssimo “A Máquina de Ler Pensamentos”. Não muito mais do que uma espécie de variação feminina para o monstro de Frankenstein, com semelhantes descrições do que Braulio Tavares chama de ‘ciência gótica’ para textos deste tipo. Bizarro e com boa ambientação, não vai além da intenção de ser uma história efetiva, sendo verdadeiramente nada mais do que uma vinheta.
O que não é o caso, absolutamente, da história a seguir. Simplesmente “A Escuridão”, o maior clássico da ficção científica brasileira. André Carneiro consegue, com este texto de 1963, se ombrear com o que de melhor já se fez neste gênero em um nível internacional – tanto que é o seu texto mais publicado mundo afora.
Repentinamente as luzes desaparecem e a civilização mergulha nas trevas. Wladas procura primeiro entender o absurdo, para aos poucos lutar desesperadamente para superá-lo. Como aponta Braulio Tavares, o estilo distanciado e atemporal só acentua a estranheza da narrativa, bem como sua intensidade humana e dramática. A história tem uma fluidez demorada, outra peculiaridade que transmite uma sensação de angústia não só aos personagens, mas também ao próprio leitor. Um texto realmente bem escrito, em seus detalhes, primoroso no tratamento dos personagens e com um final inesquecível. Disparada a melhor história deste volume.

O maranhense Coelho Neto foi colocado depois da obra-prima de Carneiro, o que dificulta uma boa avaliação de sua história – aliás, como seria com qualquer outra das histórias desta antologia. Em todo caso, Coelho Neto é um dos mais notórios esquecidos da literatura brasileira, extremamente influente entre seus pares, e prolixo em seu tempo, da segunda metade do século XIX até as três primeiras décadas do século passado.
Seu romance A Esfinge (em 1908 foi lançada a primeira edição. A edição que eu tenho é da editora Lello & Irmão, Porto, 1925), deveria ser procurado e lido, pois é uma história forte e interessante, sobre um homem que recebe o transplante da cabeça de uma mulher, numa variação curiosa da chamada ‘ciência gótica’ à lá Frankenstein. Para esta antologia, Braulio selecionou o conto “A Casa ‘Sem Sono”, uma narrativa bem escrita e de tema misterioso, numa especulação diferente ao tema da casa assombrada. Poderia render mais, se tivesse explorado mais as situações apresentadas.
"A Gargalhada", de Orígenes Lessa, mostra como uma situação banal se transforma de forma inexplicável e surpreendente em fantástica. Uma risada generalizada, ininterrupta e coletiva acaba por se transformar num inusitado horror. Vale conhecer, ainda que como referência para a ficção científica, sua novela A Desintegração da Morte (1948, publicado, entre outras edições, pela Futurâmica, número 568), seja o seu texto principal e conhecido.
Adelpho Monjardim, outro autor pouco lembrado nos dias que correm, é ‘redescoberto’ neste livro com “O Satanás de Iglawaburg”, um conto que lembra bem o estilo das weird fictions publicadas nas pulp magazines norte-americanas dos anos 1930 e 1940. O conto tem um estrutura gótica assumida, com resquícios reconhecíveis de Edgar Allan Poe e seu clássico “A Queda da Casa de Usher”. Obviamente, a qualidade literária do autor capixaba fica a anos-luz do norte-americano de Boston, mas o mais importante neste caso, é que a narrativa tem um bom nível de entretenimento, envolvendo o leitor e mostrando um horror que se assume muito mais no plano psicológico do que no sobrenatural.
Uma situação semelhante ocorre no conto seguinte, “As Academias de Sião”, de Machado de Assis. Só que aqui o fantástico explícito se traveste de situações alegóricas, um recurso muito usado pelo autor em suas intermitentes incursões ao fantástico. A intenção inicial, no caso, é satirizar as acadêmicas literárias e científicas, tão em voga em fins do século XIX, mas o conto acaba tendo mais efetividade na situação prática vivida pelos dois personagens principais. Pois eles resolvem ‘trocar’ se sexo: um rei passa a ser mulher e uma rainha assume o papel masculino dentro da trama. Contudo, ainda que seja interessante pelo fato de ser de Machado de Assis, a história não consegue ser nada além de chata e mal concatenada em seus objetivos temáticos.
O que não é o caso do texto de Rubens Figueiredo, a noveleta “O Caminho do Poço Verde”. Partindo de uma premissa simples, temos o choque civilizatório do ‘interior profundo’, na experiência de uma mochileira. A história é rica em seus detalhes, como a descrição da natureza, das pessoas do meio rural e seus costumes rudes, sua linguagem peculiar – que por vezes, beira a dialetos nesse ‘brazilsão' interminável e desconhecido –, sua interação quase mágica com crenças oriundas do imaginário da natureza. É interessante também o fato de que todos os personagens ativos são mulheres: da viajante Diana às ‘bruxas’ do mato. E o tal do Aruê, é um mal que não se anuncia, mas se pressente, em meio a uma atmosfera sobrenatural que se acentua paulatinamente. E para fechar, temos o tal do ‘poço verde, como um lugar mítico, onde o mal pode ser derrotado.
Publicado originalmente em 1994 na coletânea O Livro dos Lobos – conforme é informado na introdução da história –, poderia ter disputado fortemente o então Prêmio Nova. Dado o desconhecimento do fandom, a história só agora nos chega e se coloca como uma das melhores histórias curtas do gênero fantástico publicadas no Brasil em 2003.
Depois de uma travessia intensa e surpreendente com a noveleta de Figueiredo, a próxima história – como já havia ocorrido com o conto que sucedeu a obra-prima de André Carneiro –, de saída sai prejudicada. Mas desconfio que neste caso nada poderia ajudar a melhorar a condição de “Íblis”, de Heloísa Seixas. Contando basicamente a história de uma pesquisadora vítima de uma maldição, o texto peca por ser muito empolado. Seixas sabe escrever, mas transmite um pedantismo e uma futilidade à flor da pele, de tal forma que passei a torcer pelo destino funesto da personagem. A história mais fraca de todo o livro.
Justamente (quase) o oposto do conto de Lygia Fagundes Telles, “As Formigas”. Um conto muito bem construído em sua trama e desenvolvimento, bem como na ambiguidade entre o real e o irreal que transmite, gerando uma situação de indeterminação, tanto no leitor, como nos próprios personagens. O mistério propriamente dito está por se insinuar – e recuar –, para depois se insinuar de novo, de forma mais sutil e efetiva, especialmente no trecho final da história. Competente.
Já a palavra para definir de saída o conto seguinte é sofisticação. Num texto muito bem trabalhado, tanto na forma, como nas imagens que transmite o “Luvibórix”, de Carlos Emílio Corrêa Lima, tem uma narrativa que provoca estranhamento não apenas pelo tema em si, mas pela prosa intrincada e caprichada que estrutura a história. Mesmo assim, do ponto de vista de uma narrativa mais fluente e que pede certa linearidade causal, o texto não consegue se completar, ficando a sensação conclusiva de uma prosa sofisticada sim, mas sem um objetivo temático claro.

Humberto de Campos é outro autor recuperado pelo organizador da antologia, e que era, em seu tempo, possivelmente o mais popular e produtivo escritor brasileiro. Em “Os Olhos que Comiam Carne”, estamos diante de um tema muito bem explorado por um cineasta igualmente produtivo, o americano Roger Corman que produziu e dirigiu em 1963, o clássico B, O Homem dos Olhos de Raio X, numa interpretação classe A de Ray Milland. Se você já viu este filme, poderá esperar do conto de Campos uma temática e – principalmente –, um desfecho parecido. Mesmo sendo um motivo a menos para se surpreender, o texto vale uma lida pela maneira própria e singular que o autor brasileiro concebe uma interpretação para a história.
E fecha a antologia um clássico do horror brasileiro, “Demônios”, de Aluísio Azevedo. De um escritor que é considerado um dos principais expoentes do Naturalismo li, nos tempos do então Segundo Grau – atualmente Ensino Médio –, dois de seus principais livros dentro desta vertente, O Mulato (1881) e O Cortiço (1890). E depois de tantos anos, me recordo do quanto fiquei impressionado especialmente d’O Cortiço, pela verossimilhança dos personagens e pelo esforço bem-sucedido de ambientação social realizada pelo autor.
Já neste conto, temos a inversão desta lógica naturalista. Os caminhos aqui se esvaem de explicações cartesianas, vislumbrando um ambiente sombrio, nada aprazível. Numa narrativa carregada fortemente de dramaticidade, temos a construção de um complexo e profundo pesadelo, com a inevitável – porém descartável –, ‘pegadinha’ no fim. De novo, aqui – e bem antes do ponto de vista histórico, diga-se –, temos mais uma variação do ‘mundo da escuridão’, onde se dá total e inexplicável ausência de luz. E há momentos marcantes, como a sequência das transformações físicas, impressionando e causando um eficaz sense of horror.
Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros é uma antologia da melhor qualidade em seu conjunto, fazendo frente a uma dos mais difíceis desafios a toda antologia: equilibrar a qualidade média das histórias. Goste-se mais ou menos de um texto, mais ou menos de um autor, a concepção da obra atinge seus objetivos de passar uma idéia geral da história e das principais características do chamado ‘fantástico’ feito no Brasil.
Contudo, dois tipos de ausência chamam a atenção. Embora a seleção dos autores tenha sido, em geral, bastante criteriosa, causa espanto que dois autores maiúsculos da literatura brasileira não apareçam: José J. Veiga e Guimarães Rosa. Quero crer que Braulio Tavares os selecionou, o problema deve ter sido com os direitos autorais. Veiga é um prosador e contista do mais alto nível – e diretamente voltado ao fantástico – e Rosa, além de ser um dos grandes nomes da literatura brasileira de qualquer época, também se exprimiu em histórias fantásticas a certa altura de sua carreira. Aliás, o próprio Braulio tem se encarregado de divulgar esta temática do autor, publicando ensaios em jornais e fanzines sobre o assunto.
A outra ausência é a de nenhum escritor do chamado fandom literário de ficção científica destes últimos 20 anos. Braulio Tavares até justificou, dizendo que inicialmente havia pensado em incluir um ou outro autor. Poderia, até para evitar o equívoco de incluir um conto ruim como “Íblis”, por exemplo. Duas boas histórias fantásticas que não fariam feio neste livro: “Aprendizado” (1993), de Carlos Orsi Martinho e “A Nuvem” (1993), de Ricardo Teixeira. Isso para não recomendar histórias do próprio Braulio, que ele já publicou ou poderia escrever. Fica para outra oportunidade uma nova versão desta antologia, que inclua os autores brasileiros contemporâneos.

domingo, 25 de setembro de 2016

Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros

Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros, Braulio Tavares, org. Ilustrações de Romero Cavalcanti. Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2003.

Não é de hoje que alguns estudiosos buscam identificar claramente a evolução da literatura brasileira especulativa, mas a memória do fandom brasileiro, até bem pouco tempo, não ia além dos anos 1980. A maior parte do conhecimento a respeito da fc&f nacional era fruto da observação em primeira mão e o que veio antes era misterioso, desconhecido e até secreto.
Graças aos estudos de Braulio Tavares (Fantastic, fantasy and science fiction literature catalog, Biblioteca Nacional, 1992), Roberto de Sousa Causo (Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875 a 1950, UFMG, 2003), M. Elizabeth Ginway (Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, Devir, 2005), entre outros, a história da fc&f nacional começou a se revelar de forma mais profunda, motivando novos pesquisadores a trabalhar também em outros ambientes midiáticos, ampliando o alcance dos gêneros na cultura local.
Contudo, ainda há muito a ser redescoberto, especialmente o campo da ficção curta, muito mais difícil de identificar. É sobre esse formato que se debruçou Braulio Tavares ao montar a antologia Páginas de sombra: Contos fantásticos brasileiros. Provavelmente inspirado na antologia O conto fantástico, organizada por Jerônimo Monteiro, (Civilização Brasileira, 1959), Tavares garimpou ainda mais que o seu antecessor, para montar um panorama abrangente do fantástico na literatura nacional, no que foi muito bem sucedido.
A antologia é aberta por um detalhado ensaio chamado "Nas periferias do real ou O fantástico e seus arredores", do próprio organizador, que justifica e conceitualiza o trabalho de reunir os 16 textos que formam a coletânea, todos de autores consagrados no mainstream que não se furtaram em avançar no campo do fantástico quando julgaram relevante fazê-lo, e com resultados apreciáveis tanto no aspecto formal quanto no de conteúdo. Além disso, cada um dos contos vem precedido de uma breve contextualização do respectivo texto na história da literatura brasileira e na obra do autor, revelando detalhes e curiosidades saborosíssimas, uma atração a parte.
O primeiro conto é uma pequena joia: "Flor, telefone, moça", do mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), poeta maiúsculo da língua que também cometia ficções. Neste conto curto, publicado originalmente em 1951, uma é jovem assediada ao telefone – então uma revolucionária novidade tecnológica no país – por um suposto fantasma que exige que lhe seja restituída a flor subtraída por ela de seu túmulo.
"A podridão viva", de Amândio Sobral (1902-????), é um achado, de um autor tão obscuro que praticamente a única fonte de informações sobre ele é justamente a biografia que Tavares relatou na apresentação do conto. O texto foi publicado originalmente em 1934 e fala sobre um comerciante de marfim que testemunha o indizível numa malfadada expedição de caça na África.
O conto seguinte é de um autor já reconhecido pelo fandom, o mineiro Murilo Rubião (1916-1991), que construiu toda a sua carreira literária na fantasia. Tavares selecionou aqui o bizarro "Teleco, o coelhinho", publicado originalmente em 1965, no qual um homem recolhe em sua casa um ser metamorfo que muda de aparência conforme o estado de espírito. A princípio, a relação é divertida, mas deteriora-se ao longo do tempo até que a vida em comum se torna insuportável.
Outro autor que geralmente é lembrado pelos especialistas quando relacionam autores de fc&f brasileiros é o paraibano Berilo Neves (1901-1974), autor de sucesso em seu tempo, mas pouco lido pelas novas gerações. Dele temos "A última Eva", de 1934, tragicômico relato de ficção científica sobre a morte da última mulher – e, por conseguinte, da espécie humana – depois que uma praga varreu o gênero feminino do planeta.
Lilia A. Pereira da Silva é a primeira de três autoras publicadas por Tavares nesta antologia, e uma grata surpresa dentro do panorama da ficção fantástica nacional. Paulista de Itapira, Lilia publicou mais de noventa livros, entre os quais está a perturbadora coletânea Monstros e gênios, de 1965, de onde veio o conto "Máquina de ler pensamentos", no qual uma cientista que faz experiências com a mente a partir de estátuas decide passar a seres humanos e escolhe um menino de rua para ser sua primeira cobaia.
O texto seguinte é bastante conhecido dos leitores; trata-se da novela "A escuridão", do atibaiense André Carneiro (1922-2014), um dos textos mais lembrados entre especialistas, presente em inúmeras antologias nacionais e estrangeiras desde a sua primeira publicação, na coletânea Diário da nave perdida (1963). Conta a tragédia que se abate sobre a humanidade quando, repentinamente, todos ficam cegos. Ideia semelhante apareceu antes no romance O dia das trífides (The day of the triffids, 1951), do britânico John Windhan (1903-1969), mas neste clássico brasileiro o tema tem um tratamento mais maduro e sofisticado.
"A casa sem sono" é a contribuição do escritor maranhense Coelho Netto (1864-1934), conto publicado em 1923 no qual um homem é desaconselhado a adquirir uma linda mansão depois que seu amigo relata a experiência estressante que teve quando morou ali. Coelho Netto, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, também foi um autor de grande sucesso em sua época, que nos legou uma rica bibliografia especulativa, mas é praticamente desconhecido dos leitores de hoje.
O paulista Origenes Lessa (1903-1986) aparece com "A gargalhada", texto de 1963 de verve profundamente irônica, que relata o rápido desmoronamento da civilização a partir de um evento cômico, mas inegavelmente perturbador: uma gargalhada que irrompe, sem aviso, em meio às transmissões de rádio e televisão.
"O satanás de Iglawaburg", do capixaba Adelpho Monjardim (1903-????), envereda pelo horror gótico. Em algum momento antes da Primeira Guerra Mundial, uma pintura macabra aparentemente causa desastres num castelo medieval todas as vezes que alguém a tenta destruir. Monjardim se instala na categoria dos políticos escritores, pois foi Prefeito de Vitória, cumpriu pelo menos um mandato de Deputado Estadual e ainda encontrou tempo para escrever muitos livros de ficção especulativa, entre eles a coletânea A torre do silêncio (1944), na qual primeiro apareceu este texto.
Machado de Assis (1839-1908) não pode faltar em qualquer antologia de contos brasileiros e, para nossa sorte, não faltam contos de ficção especulativa em sua bibliografia. "As academias de Sião", publicado em 1884, é uma fantasia oriental com um surpreendente conteúdo feminista e transgênero. Conta a história de um rei sensível e inseguro e sua concubina decidida e autoritária, que decidem trocar de corpos através de um feitiço para confrontar as especulações filosóficas de duas academias rivais a respeito da sexualidade da alma.
"O caminho do poço verde", conto de 1994 do escritor carioca Rubens Figueiredo – já duas vezes vencedor do prestigioso Prêmio Jabuti –, é mais um achado do organizador. Conta as andanças de uma jovem mochileira em férias por rincões do interior sertanejo, onde experimenta o sobrenatural das comunidades isoladas. O conto não tem um componente fantástico explícito, mas o clima sombrio da narrativa, mesclado a alguma ambiguidade nas informações, é eficiente para criar um cenário mágico e misterioso, numa das mais intensas experiências literárias da antologia.
A carioca Heloísa Seixas é a segunda autora a aparecer na seleta, com o conto "Íblis", publicado em 1995, provavelmente na coletânea Pente de Vênus: Histórias do amor assombrado. Relata a experiência de uma acadêmica sofisticada em férias pela Europa, que tem um encontro ardente com a morte durante uma viagem de trem. Ainda que seja um texto curto, destaca-se por sua intensidade sensual.
A terceira autora do grupo é a também sempre lembrada Lygia Fagundes Telles. Paulistana de nascimento, esta grande dama da literatura brasileira quase sempre aparece nas antologias de gênero com "A caçada" ou "Seminário dos ratos", mas o organizador optou aqui pelo assustador "As formigas", conto de 1977 em que duas mulheres hospedadas num quarto de pensão, testemunham um exército de formigas, noite após noite, montarem o esqueleto de um anão abandonado ali em uma caixa.
"Luvibórix", do cearense Carlos Emílio Correia Lima, contribui à seleção com um contrastante texto pós moderno originalmente publicado em 1986. Conta sobre o momento sagrado em que o dragão místico Luvibórix, que dá forma à realidade com seu olhar, decide subir a superfície do planeta e, conduzido por um sacerdote, contemplar as ruínas da civilização que lhe serve de alimento.
"Os olhos que comiam carne", do maranhense Humberto de Campos (1886-1934) é um interessante exemplo da conjunção espontânea de ideias: publicado originalmente em 1932, antecipou a história do clássico filme de Roger Corman, O homem dos olhos de raio X (X: The man with the X-ray eyes, 1963). Conta sobre um homem cego que, submetido a uma cirurgia experimental revolucionária, recupera a visão de um modo traumático. Campos é, assim, mais um membro da Academia Brasileira de Letras que, ao lado de Machado de Assis, Coelho Netto, Antonio Olinto, Zora Seljan, Dinah Silveira de Queiroz e Rachel de Queiroz, entre outros, trabalhou bem com o fantástico em sua obra.
A edição é fechada pelo inolvidável "Demônios", do também maranhense Aluísio de Azevedo (1857-1913), um dos grandes clássicos da ficção especulativa brasileira, digno representante da estética da weird no País. Fantasia, horror e ficção científica se amalgamam para contar os últimos dias da humanidade depois que um estranho fenômeno apaga o sol e transforma as pessoas em seres rastejantes sem intelecto.
Páginas de sombra cumpre, assim, o importante papel de iluminar regiões fronteiriças da fc&f brasileira que, por muito tempo, se acreditou ser território exclusivo da ação de fãs desprezados pelo mainstream, mas, pouco a pouco, revela-se um campo de tradição muito maior e que precisa ser estudado. Fica claro que a literatura brasileira não ignorou a literatura de gênero, pelo contrário, a praticou com qualidade e aqui estão 16 inegáveis exemplos disso (sem esquecer também da ótima antologia Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizada por Lainister de Oliveira Esteves e publicada em 2010 pela Editora Escrita Fina, resenhada aqui). Muito ainda espera ser redescoberto e são pesquisas como esta que dão satisfação de ver que nunca estivemos sozinhos, e sim muito bem acompanhados: só é preciso olhar para o lado.
Cesar Silva

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira

Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, Lainister de Oliveira Esteves. 256 páginas. Editora Escrita Fina, Rio de Janeiro, 2010.

Muitas vezes, a diferença entre uma impressão e uma certeza pode ser mínima. E a impressão que a ficção especulativa sempre fez parte da literatura brasileira era uma convicção que eu tinha comigo. Mas sempre foi difícil argumentar com precisão quando se tratava de citar exemplos. Mas tenho que confessar que, afora alguns títulos e autores mais destacados que sempre são lembrados nesses momentos, dava até a mim mesmo a sensação que talvez estivesse forçando a tese para além do que ela poderia se sustentar.
A antipatia da crítica especializada pela ficção de gênero, que sempre desconsidera essa classificação para textos de autores canônicos, mantinha as referências à distância, sempre que possível. Parecia ser necessário um prolongado e exaustivo trabalho de pesquisa acadêmica para tirar esses trabalhos dos cofres da memória, esquecidos em livros obscuros e jornais antigos, como tem feito o pesquisador Braulio Tavares em diversas antologias recentes, como Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros (2003) e Páginas do futuro: Contos brasileiros de ficção científica (2011), ambos publicados pela editora Casa da Palavra.
A estes volumes junta-se agora Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira, organizado por Lainister de Oliveira Esteves para a Editora Escrita Fina. Na verdade, este trabalho foi publicado em 2010, mas somente agora o descobri. Esteves é um pesquisador carioca, doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e especializado em História Cultural, e este trabalho ilustra muito bem o carinho que o organizador tem para com a literatura brasileira.
Como o nome já diz, a antologia é formada por treze textos de horror de autoria de nove escritores canônicos já em domínio público: Álvares de Azevedo (1931-1852), Bernardo Guimarães (1825-1884), Machado de Assis (1839-1908), Aluísio de Azevedo (1857-1913), Thomaz Lopes (1879-1913), João do Rio (1881-1921), Gonzaga Duque (1886-1911), Humberto de Campos (1886-1934) e Lima Barreto (1881-1922). Destes autores, quatro já são bastante conhecidos entre os leitores de ficção fantástica: Álvares de Azevedo, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis e Lima Barreto, mas os demais são gratas novidades no arcabouço da ficção fantástica nacional.
O primeiro conto selecionado pelo organizador, que decidiu dar ao volume um tratamento mais ou menos cronológico, é "Bertram", uma das cinco sangrentas histórias que formam Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, o trabalho de horror mais conhecido das letras nacionais publicado originalmente em 1885. É justamente o texto mais forte do conjunto, com a história de um conquistador que vai até as últimas consequências por um rabo de saia. O estilo elegante de Azevedo reporta diretamente a Edgar Alan Poe.
"A dança dos ossos", de Bernardo Guimarães, publicado no livro Lendas e romances, de 1871, é uma sequência de três pequenos 'causos' de assombração, confrontando o racional e o irracional a partir de um assassinato brutal motivado por ciúmes.
Machado de Assis comparece com dois textos. Em "Sem olhos", publicado em 1876 no Jornal da Família, o narrador conta a história mórbida de seu vizinho de pensão, um homem incomum enlouquecido pela proximidade da morte. É curioso notar uma certa similaridade deste trabalho, em especial, às narrativas de H. P. Lovecraft, autor norte-americano que desenvolveu sua obra posteriormente, sem os componentes intolerantes deste, contudo. "A causa secreta", publicado 1875 na Gazeta de Notícias, é menos sobrenatural e, por isso mesmo, mais perturbador, pois trata de um distúrbio psicológico algo comum, o sadismo. A narrativa se resume a fatos simples, mas assustadores, que permeiam a vida de um casal e um amigo, num triângulo amoroso insuspeito.
Aluísio de Azevedo também comparece com dois textos. "O impenitente", publicado em 1898 na coletânea Pegadas, é uma narrativa clássico de horror gótico, em que um padre descontrolado pela paixão por uma mulher, tem uma experiência aterrorizante durante uma noite de insônia. O segundo texto do autor é o clássico "Demônios", a narrativa mais longa do volume, publicado em 1893 na coletânea de mesmo nome. É uma história surrealista, que flerta com a ficção científica, antecipando diversos temas do gênero. Conta a transformação por que passa o protagonista e toda a sua realidade a partir do momento em que as estrelas começam a se apagar.
"O defunto", publicado em 1907 por Thomaz Lopes, explora um tema recorrente no gênero: o enterrado vivo. Um homem desperta de seu sono cataléptico aprisionado em uma cripta de pedra e mármore. Ainda que tenha alguma liberdade para se deslocar, ar para respirar e a luz do sol que ilumina o lugar por uma pequena fresta, todos os seus esforços não permitem que ele saia dali. Conforme os dias passam, a fome e a sede ganham contornos cada vez mais mais desesperadores.
João do Rio era um autor que eu conhecia só de ouvir falar, e fiquei surpreso com a força dos dois textos de sua autoria que o organizador selecionou para esta antologia. Em "Dentro da noite", um homem conta aos companheiros de uma viagem de trem noturna, como sua vida desmoronou por causa de uma compulsão bizarra, e o excelente "O bebê de tartalana rosa", que conta a experiência desconcertante de um libertino durante a madrugada de uma quarta-feira de cinzas. Os dois trabalhos foram publicados respectivamente em 1906 e 1908 na Gazeta da Noite.
Gonzaga Duque é outra grata novidade, com o conto "Confirmação", uma história de fantasma com pendões de ficção científica, publicada originariamente em 1914 na coletânea Horto das mágoas. Conta o que acontece durante um experimento conduzido por um cientista em uma sessão de espiritismo.
Os dois textos de Humberto de Campos exploram a linha do terror, ou seja, o medo gerado a partir de um evento não sobrenatural, ambos publicados coletânea O monstro e outros contos, de 1932. "O juramento" acompanha ao relato de um bêbado louco que conta como sobreviveu a captura de uma tribo de índios antropófagos, e "Retirantes" mostra a dor e o desespero de uma velha matrona decadente cuja única escapatória à seca terrível que assola sua terra é ir embora dali. Mas, para isso, ela precisa de roupas.
Lima Barreto, autor que tem vários outros textos ligados a ficção fantástica, fecha a seleta com o conto "O cemitério", publicado em 1956 na coletânea Marginália, no qual um homem passando por um cemitério se encanta com a fotografia de uma jovem ali sepultada.
A antologia ainda conta com os ensaios "Uma literatura envolta em sombras", que contextualiza os contos selecionados, e "Sobre os autores", com biografias breves de cada autor apresentado, ambos assinados pelo organizador.
Percebe-se a evolução do gênero ao longo dos textos, que começam com o recorrente medo do morto e da morte, que também caracterizou as primeiras obras do gênero em outras culturas, avançando para questões psicológicas e patológicas conforme a morte se desmistificou, chegando até a especulações de ordem científica, o que demonstra que a literatura brasileira não esteve alheia ao gênero e fez uso dele de forma consistente. Percebe-se também que o exercício do gênero esteve intimamente vinculado a literatura popular publicada nos periódicos, que se define assim esse como o espaço "pulp" que a literatura nacional não experimentou plenamente.
Além de muito divertido, Contos macabros: 13 histórias sinistras da literatura brasileira é um volume valioso para aqueles que buscam entender o desenvolvimento da literatura de gênero no Brasil e seu valor dentro do cânone nacional.
Cesar Silva

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Ficção de Polpa - Volume 1

Ficção de polpa – Volume 1, Samir Machado de Machado, organizador. 132 páginas. Editora Fósforo. Porto Alegre: Editora Fósforo, 2007.

Este lançamento foi a maior surpresa no mercado editorial brasileiro em 2007, com relação aos autores nacionais. Menos pelo conteúdo e mais pela proposta. A começar é, fundamentalmente, um livro que procura resgatar um espírito pulp para a literatura nacional que, como lembra o organizador, nunca existiu da maneira como nos Estados Unidos aqui no Brasil. E a proposta vai fundo no que se propõe, pois a própria edição é em formato das revistas pulps americanas, a não ser pelo tamanho, que era maior. A ilustração de capa de Gisele Oliveira, com uma linda loura acorrentada prestes a ser atacada por um maníaco, era a norma destas revistas. Abrindo as páginas, vemos que os textos estão divididos em duas colunas, como também ocorria nas revistas, há ilustrações internas para alguns contos e por aí vai. Se não por qualquer outro motivo, a iniciativa já seria elogiosa, pela criatividade e competência em recriar uma típica pulp magazine. Mas vamos ao principal, o conteúdo.
O organizador situa a proposta e os temas a serem apresentados na antologia e já observa que “a maior parte dos textos pendeu para o lado do horror, mesmo que dentro de um contexto fantástico ou de ficção científica”.  Esta informação ajuda também a situar melhor a qual gênero as 16 histórias pertencem, pois pela capa os três gêneros eram igualmente anunciados.
O primeiro conto pertence ao organizador e chama-se “O homem que criava fábulas”. É a história de um sujeito que vai passar um fim de semana numa fazenda de uma amiga de sua falecida vó. Lá ele conhece animais produzidos por manipulação genética, inspirados na fantasia e mitologia universal, como o unicórnio e o pégaso. Mas as coisas começam a dar errado um dos animais ataca o marido da amiga da avó. A prosa é fluente e o texto mantém o interesse, sendo mais efetivo por isso do que tema, mais uma variação sobre os monstros do Doutor Moreau de H.G. Wells.
O segundo conto é “Carne”, de Guiherme Smee. Um sujeito acorda com fome e dor de cabeça. Logo percebe que não conhece o lugar onde está. Além disso, tudo ao seu redor está desarrumado e destruído. A forme e o mal estar só aumentam e ele precisa de carne. Aos poucos e de maneira convincente percebe-se que o autor subverte o ponto de vista das histórias de mortos-vivos. O mundo foi devastado e a história é contada de um ângulo diverso do convencional. Muito bom, intenso e ousado.
O próximo é “Lingüista”, de Rodrigo Rosp. História de gosto duvidoso sobre um casal que tem um sexo intenso, especialmente com o uso da língua. A sensação de desconforto não é pelas cenas de sexo, mas do que passa a ocorrer quando ele resolve deixá-la por sentir-se submisso nas relações sexuais. Basta dizer que ela estudava e, literalmente, colecionava línguas mortas.
Um conto na linha absurdista é “Cosmologia ou de como uma simples coceita pode mudar a vida de alguém”, de Marcelo Juchem. Um sujeito tem uma coceira na orelha, vai coçando, mas ela só aumenta. Desesperado, nota que algo grande e inexplicável vai saindo do seu ouvido.
Mais um conto que trabalha com uma situação estranha e inusitada é “Os estranhos”, de Gustavo Faraon. Um menino é o último a aguardar a chegada da mãe na saída da escola. Como ela demora, resolve ir ao banheiro e se depara com pessoas estranhas – vestidos como médicos – que fazem exames nele e em outras crianças. Os aprovados são liberados e os reprovados ficam retidos dentro da escola. Quando percebe já é dia e ele tem de ir para a sala de aula, como se nada tivesse acontecido. Ele ouve sons estranhos de uma construção na escola, mas sabe que são daqueles que ficaram presos. É um conto com uma atmosfera angustiante, que trabalha na questão da imaginação de uma criança, não ficando claro se tudo aconteceu mesmo ou não.
Já “Dias de fome, noite de cão”, de Sérgio Napp é uma história aparentemente convencional na figura de um sujeito que vem à cidade grande em busca de emprego, não encontra e vive faminto pelas ruas. A certa altura entra em uma casa aparentemente desabitada e encontra o horror absoluto na forma de um enorme cão preto.
Rafael Spinelli assina “O homem dos ratos”. Um sujeito não consegue se desfazer de nada. Acumula tudo e isso vira um problema grave para sua mulher, em meio a lixo e bugigangas pela casa toda. Embora soe como loucura, vez por outra são noticiados casos semelhantes. Mas talvez não com o desfecho deste conto.
O próximo é uma eficaz cena de terror psicológico. “Tempestade em Coney Island”, de Rafael Kasper narra uma fortíssima tempestade e os efeitos que provoca em uma mulher enquanto o marido sai para comprar cerveja. Tão bem narrado que fica no limite entre o suspense e o horror quase sobrenatural.
Na seqüência temos “Ventre”, de Roberta Lorini. Um filho mal cuidado por seus pais, mata a mãe, retirando-lhe o útero. E assim prossegue tornando-se um psicopata. Ao mesmo tempo, o texto é intercalado por um delegado solitário e bem-sucedido, disposto a não só prender, mas matar o criminoso. Uma história curta e bem narrada, em que mesmo o final surpresa encaixa-se bem dentro do contexto.
“Fungui”, de Luciana Thomé segue a tendência, com uma situação bizarra acontecendo e invertendo o próprio sentido do terror. Cogumelos nascem por toda casa, deixando uma mulher primeiro sedenta e depois tomada de puro desespero.
Alessandro Garcia é o próximo autor com o seu “Vãos”, o texto mais longo do volume. Contada em tons intimistas, os sentimentos do protagonista dão o tom, ao relatar seus problemas pessoais, como um mau casamento, a morte mal explicada de um funcionário de sua fazenda, um filho mimado e de comportamento misterioso. É um suspense psicológico que se anuncia como sobrenatural, mas fica no plano realista, pois não há nenhum elemento fantástico. O que mantém o interesse é a prosa habilidosa e as intenções subjetivas dos personagens, deixando ‘vãos’ de expectativas para o leitor.
A seguir temos “A meia-noite do fim do mundo”, de Fernando Mantelli.  Digo que o melhor está no título. A história não passa de um pastiche pouco inspirado e previsível de H.P. Lovecraft. Talvez funcionasse em um fanzine, não deveria ser publicado nesta antologia.
Já “Cabeça-de-arroz”, de Annie Piagetti Müller, explora mais uma história bizarra. Agora é a vez de Nilce, uma mulher viciada em arroz (!). O conto tem o mérito de ser o primeiro do livro a não ser narrado em primeira pessoa até aqui, pois o recurso estava repetitivo e cansativo. Contudo, a narrativa é previsível quanto ao desfecho, aliás na mesma toada de outros contos.
Assim como também “Fígado”, de Silvio Pilau. Uma outra premissa absurda, quando um fígado bate à porta de um alcoólatra dizendo que vai matá-lo por maltratá-lo por tantos anos. Talvez o personagem estivesse tendo deliriuns tremens ou algo do tipo, mas o conto não faz questão de sutilezas em sua proposta moralista sobre o vício da bebida.
“O desvio”, de Antônio Xerxeneski é como “Carne”, um conto que brinca com os clichês, procurando subvertê-los. Um viajante solitário em uma estrada deserta dá carona a uma garota, vestida no estilo gótico. Tudo vai bem, até que um anuncia ao outro que é o diabo. Paira uma certa dúvida durante a leitura, mas o fato é que um estava assustando o outro. Porém, um desvio os espera numa próxima curva que nunca aparece para, provavelmente, definir o destino de ambos. Ótimo conto.
Mas o melhor trabalho ficou para o final. Refiro-me a “Quando eles chegaram”, de Rafael Bán Jacobsen. O argumento é simples e dos mais retratados: Uma invasão extraterrestre em nosso planeta. De início pacíficos, misturam-se aos humanos na condução do poder e dos negócios e por fim revelam suas reais intenções de nos transformarem um fonte de sua alimentação. Até aí também sem novidades, há ecos de O fim da infância, de Arthur C. Clarke e da minissérie televisiva V, a batalha final. Mas a força da narrativa impacta e choca por sua frieza e indiferença com que a matança é realizada e a total impotência com que os humanos são dominados, submetidos e eliminados. Muito efetivo também é o uso da primeira pessoa, com o protagonista contando a tragédia de seu ponto de vista.
Ficção de polpa ainda reserva uma seção chamada de “Faixa bônus”, que dá ainda mais charme à sua proposta pulp, apresentando um conto de H.P. Lovecraft, “O cão de caça”, o primeiro a mencionar o Necronomicon e um making-off interessante mostrando o processo de criação da ilustração da capa.
Vale mencionar também que esta é uma antologia regional e, mais que isso, gaúcha. Quase todos os autores lá nasceram ou moram lá há muito tempo. São em sua maioria relativamente jovens, entre os 20 e 30 anos e atuam no campo literário ao lado de ocupações profissonais na área de comunicação e ciências exatas. Estes fatos certamente significam algo para a comunidade brasileira de ficção científica, pois mostra que existe grupos de autores atuando por fora de suas fronteiras, talvez como efeito da internet e da própria decadência do fandom em integrar os novos interessados, principalmente de uns dez anos para cá.
É curioso que este livro tenha aparecido justamente em meio a uma polêmica sobre as virtudes de uma ficção pulp, como defendida por Ana Cristina Rodrigues e Alexandre Lancaster, em artigo publicado no fanzine Scarium n.19, de junho de 2007.[1] Que este tipo de história tem seus encantos é indiscutível, mas não a concepção pulp dos autores do artigo que entendem que sua simples expressão prescindiria de uma busca por qualidade literária, desqualificando mesmo propostas pretéritas e atuais que procuram conciliar uma boa história com um bom texto. Ora, este Ficção de polpa, acaba por ser uma resposta involuntária, pois afirmando uma proposta pulp, procurou primar por um vocabulário e estilos relativamente elaborados, mostrando que é não só possível como desejável contar boas histórias através da busca por uma boa literatura. É certo que o resultado do livro é um pouco desigual, mas percebe-se o esforço dos autores em produzir pulps com algo mais do que simples pulps, à maneira do que faziam os americanos nos anos 20 e 30 do século passado e que, a dupla de autores do referido artigo, quer parecer ressussitar.
Samir Machado de Machado já divulgou os autores e os contos de uma segunda edição do livro, prevista para publicação em 2008. Se o resultado geral desta antologia é de razoável para bom, com muitos contos semelhantes quanto à temática e um pendor por vezes exagerado para o escatológico e o sensacional, o saldo é positivo pela iniciativa em si, abrindo uma boa expectativa de que no mínimo, o mesmo nível possa ser mantido na próxima edição.

 Marcello Simão Branco






[1] O artigo é “Ficção científica popular”.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Hyperfan: Cinco anos de fanfic

Hyperfan: Cinco anos de fanfic, Lucio Luiz, organizador e editor. Ilustrações de J. J. Marreiro, 130 páginas. 2006.

Antologia comemorativa aos cinco anos de publicação do site de internet Hyperfan, que se alinha à prática da fc&f brasileira de publicar antologias temáticas. Um tema um tanto aberto, contudo, pois trata-se de universo compartilhado ainda sem estrutura, que o organizador planejou montar a partir do simples elencamento dos contos selecionados. O Novo Universo Hyperfan, assim chamado, é de inspiração assumidamente vinculada ao cânone dos super-heróis. O organizador/editor confessa, na apresentação do livro, que isso foi feito tão somente porque seria temerário utilizar um universo que tivesse os direitos reservados. Ou seja, apesar de original, o Novo Universo Hyperfan é um pastiche, o que nestes tempos de rede mundial é chamado de fanfic.
Fanfic é a contração do termo fanatic fiction ou, traduzindo para o português, ficção de fã, o tipo de texto realizado por fanáticos em algum personagem ou série de aventuras. Há bibliotecas gigantes disponíveis na internet com fanfics dos apreciadores de Star trek ou Harry Potter, por exemplo.
Dentre todos os temas possíveis, o das histórias em quadrinhos de super-heróis é o que oferece o material de base mais maleável: a falta de parâmetros realistas permite que os autores-fãs façam qualquer coisa sem parecer demasiado absurdo. Mas a maioria dos fanfics de super heróis não arrisca ir além, pois os autores querem justamente repetir os moldes tradicionais de seus personagens favoritos, não subvertê-los. Portanto, a decisão do editor de Hyperfan, ainda que não por esse motivo, foi muito acertada. A obrigação de criar novos personagens deu liberdade aos autores para construírem histórias que nunca seriam contadas com heróis de contornos anglo-americanos, ainda que alguns deles não tenham aproveitado essa chance em sua totalidade.
A antologia é formada por treze contos irradiados a partir de um conto-base, o ponto de partida para a criatividade de cada autor. São, portanto, histórias de "origem", o tipo menos interessante de histórias de super-heróis. Os contos são curtos e não progridem muito além da simples apresentação dos personagens. Ainda assim, alguns trabalhos logram bom resultado e podem render romances curiosos, se continuados.
O conto que propõe ser a espoleta dos eventos narrados nos demais contos é "Energia do vácuo", assinado por Carlos Orsi. O autor é conhecido no meio da fc&f brasileira, presente em várias antologias e com várias coletâneas individuais publicadas. Praticamente uma vinheta, conta apenas como uma energia estranha se esparramou pela Terra depois que um objeto cósmico atingiu o planeta, produzindo um poço estreito e profundo numa ilha perdida. A ilha remete-se a que serve de cenário ao seriado de tv Lost, e o objeto lembra a esfera luminosa do longa de animação Heavy metal: Universo em fantasia. Sua função deveria ser costurar os episódios numa sensação de unidade. Mas a presença do conto na antologia não chega a se justificar, uma vez que nenhum dos contos selecionados importou-se em articular-se a ele. Ficou cada um por si.
"Fã", de Danilo Anastácio, abre a série. Thimothy é um universitário nerd que desconfia das atividades de um de seus professores. Obcecado por super-heróis, veste-se como um e decide abordar o docente de forma direta, mas acaba sendo um tanto indiscreto: como ganhou super-poderes reais, acaba fazendo um grande estrago. Uma divertida brincadeira com a autoimagem dos fãs, sem maiores pretensões.
A seguir, "Sombra", de Marcelo Augusto Galvão. Um suicida fracassado desenvolve uma segunda personalidade que mata e devora partes de seu sócio e de sua namorada quando descobre que eles o traíram. História moralista e sem muita originalidade.
"Romaria e Prece", de J.B. Uchôa, é um dos melhores contos da antologia. Uma prostituta descobre, em pleno expediente, que tem o poder de curar aqueles a quem toca. Seu então cliente, um político importante, ao ver-se curado de uma doença grave, revela o fato à imprensa. Agora todos acreditam que a prostituta é uma santa e ela tem que fugir para reencontrar alguma paz. Bem ambientado na cidade de Salvador, é um dos contos que merece maior atenção.
Rodrigo Nunes assina "Emoções". Depois de uma tentativa de assalto, uma jovem médica descobre que pode sentir as emoções das pessoas que estão à sua volta. Suas atitudes estranhas fazem com que seus pais acreditem que ela enlouqueceu. A ideia é boa mas a realização, ruim, pois o autor abusa de frases curtas, num texto telegrafado e enfadonho.
Em "O detetive do sobrenatural", de Rafael Monteiro, um detetive trapaceiro descobre que pode falar com os mortos, e faz um acordo com um fantasma para ajudá-lo no serviço. Conto muito fraco, que transcreve as primeiras cenas do filme Espíritos, de Robert Tinnell.
"Supertia", de Lucio Luiz, mostra personalidade e bom ritmo. Uma estudante secundarista tem a oportunidade de dar aula numa pré-escola. Depois de um início tumultuado com uma turma muito difícil, descobre que pode controlar as crianças dando-lhes ordens diretas. Apesar de ter uma classe obediente, as crianças passam a depender cada vez mais de suas ordens, até que acontece uma tragédia. A narrativa em primeira pessoa é divertida, porque a jovem professora é uma completa cretina. Apesar disso, fica uma sensação de que algo está errado em seu conceito, já que o autor sugere que toda a arrogância da garota decorre do fato dela acreditar nos estudos.
"Prólogo", de Conrad Pichler, é uma espécie de Cidade de Deus de terror. Conta como um homem muito mau, morto numa briga de gangues, volta do inferno para vingar-se. Mas ele não esperava que os seus desafetos ainda vivos tivessem super-poderes para enfrentá-lo. Derrotado o espírito do mal, os sobreviventes decidem continuar a luta contra as trevas. Um conto confuso, difícil de compreender e com um grau de violência que não se justifica.
O conto seguinte é "Prata da casa", de Rony Gabriel. Assassino profissional se vale da capacidade de ser esquecido para despistar seus algozes. Entre eles, uma policial que é imune ao seu poder. Mas ela acaba sendo auxiliada por ele, depois de sofrer um atentado praticado por seu próprio parceiro. O conto não disfarça a inspiração no personagem Questão, sem mais a acrescentar.
"Freaklândia", de Robson Costa, é de longe o melhor conto da antologia. Muito bem construído, conta a história de uma médica em crise profissional que aceita trabalhar numa operação sigilosa do governo, em uma cidade no interior de Mato Grosso do Sul onde várias pessoas subitamente desenvolveram estranhas mutações. Depois de algumas semanas de trabalho, ela acaba envolvida pela irmandade desses mutantes e torna-se ela mesma um deles depois do contato com uma bolha de luz que os mutantes guardam como um tesouro. A narrativa distancia-se da mitologia dos super-heróis por conta da utilização de uma narração típica da fantasia latina e da presença intimidante da repressão políticomilitar patrocinada por forças internacionais, o que fala muito ao imaginário brasileiro.
"The world is blue", de Eduardo Sales Filho, mostra como um empresário ambicioso enriquece utilizando sua capacidade de influenciar a mente das pessoas. Frívolo e arrogante, repentinamente vê-se ajudando uma mulher que estava sendo vítima de um sequestro-relâmpago. Apesar de desprezar as pessoas comuns, ele aprecia a sensação de poder sobre elas. Talvez uma sequência à história pudesse corrigir a inversão de valores que este conto sugere, mas a introdução, infelizmente, não anima muito.
"Vítima", de Cesar Rocha Leal, fala sobre um investigador de polícia dotado de poderes extra-sensoriais. Por usá-los em suas investigações, é ridicularizado pelos colegas. Mas ele não apenas resolve todos os mistérios do crime proposto no conto como também identifica o criminoso, tudo sem precisar sair da sala. O conto parece homenagear mais os seriados televisivos de histórias policiais e os romances de Sherlock Holmes do que os quadrinhos de super-heróis e, por isso, destaca-se dos demais. Mas a falta de virtuosismo literário compromete, resultando num trabalho de pouco brilho.
"Incógnitos", de Rafael Borges, conta a história de uma banda de rock famosa – os Incógnitos do título – cujos integrantes têm superpoderes. No meio de um show em Tóquio, são atacados por um dragão e têm de improvisar para derrotá-lo. O público delira ao ver o combate e o show continua depois dele. O conto faz rir, que é o que o autor queria, mas pelos motivos errados, pois expõe o ridículo das histórias de super-heróis num livro que pretende ser uma homenagem a eles.
"Salão de espelhos", de Alexandre Mandarino, encerra a antologia. Trata de um jovem que ganha todos os poderes imagináveis e, usando-os, molda o mundo a sua imagem. Então, cheio de tédio, desfaz tudo e abandona o mundo, indo para as estrelas. Mandarino demonstra domínio da língua e apresenta um conto bem trabalhado mas, apesar das virtudes, a antologia teria ficado melhor se o seu conto não fosse o último do volume. Isso porque ele passa uma forte impressão de escárnio sobre gênero dos super-heróis e sobre própria antologia em si, sintoma que se reforça por dar-lhe os contornos finais. É como se o editor, ao deixá-lo por último, quisesse levar o leitor a sentir-se tolo por ter investido o seu tempo na leitura do volume. Pelo menos foi essa a impressão que causou em mim.
Além dos contos, é importante citar o trabalho de J. J. Marreiro, que demonstra domínio sobre o gênero ao realizar as ilustrações que emolduram cada um dos contos e o índice, aproximando o livro dos leitores habituados apenas com quadrinhos e dando-lhe uma jovialidade bem-vinda.
Os interessados podem, possivelmente, reencontrar esses personagens no saite Hyperfan e acompanhar o que cada um deles fez depois dessas aventuras iniciais.
— Cesar Silva

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Páginas do Futuro, Braulio Tavares

Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica, Braulio Tavares, organização e apresentação. 156 páginas. Capa e ilustrações de Romero Cavalcanti. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.

Esta antologia era aguardada há alguns anos, mas não deixou de surpreender ao ser lançada na virada de 2011 para 2012. O escritor Braulio Tavares, um dos nomes mais importantes da ficção científica brasileira, tem consolidado uma carreira de antologista tão notável quando a do escritor talentoso que despontou no fim da década de 1980, ainda no ambiente do fandom.
Nestes primeiros anos do século xxi, Tavares tem coordenado a coleção “Contos Fantásticos”, pela editora carioca Casa da Palavra. Em 2003, lançou Páginas de Sombra Contos Fantásticos Brasileiros, e em 2005 e 2007, organizou respectivamente duas ótimas antologias internacionais voltadas a duas personalidades próximas ao fantástico: Contos Fantásticos no Labirinto de Borges e Freud e o Estranho: Contos Fantásticos do Inconsciente. Já em 2009, no contexto comemorativo do bicentenário de nascimento do mestre americano do horror, apresentou a antologia Contos Obscuros de Edgar Allan Poe.
Páginas do Futuro: Contos Brasileiros de Ficção Científica é, portanto, a sexta antologia da série e demarca uma proposta formativa dentro da literatura brasileira que procura o diálogo entre a literatura de gênero e o chamado mainstream literário. Como disse, era aguardada há anos pelos fãs e críticos da fc brasileira. Mas, ao que parece, chegou no melhor momento, depois de uma certa maturação dentro da própria coleção e no contexto intelectual do mainstream, mais favorável nestes anos recentes a uma maior abertura para a ficção científica e gêneros afins.
Tanto é assim que a esta antologia somam-se outras que vem sendo organizadas com perfil de informação e formação semelhante, a série “Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica”, iniciativa do escritor Roberto de Sousa Causo junto a Devir Livraria.[1]  Mas se em Causo o aspecto histórico e mais próximo aos temas tradicionais da fc, em Tavares a proposta segue uma linha mais conceitual em termos de definição e panorama, ao apresentar para os não aficcionados uma espécie de arco de possibilidades, tanto em termos temáticos, como de estilo.
Nesse sentido, Páginas do Futuro apresenta uma sucinta mas robusta apresentação em que Tavares situa o gênero nos seus termos mais gerais, para em seguida voltar-se a uma profícua reflexão sobre as suas características no Brasil, além de suas possibilidades enquanto literatura que acrescente alguma coisa para além do ambiente restrito do fandom, como quando afirma:

[...] a fc brasileira não pode abrir mão de um conhecimento da fc internacional, sob o risco de deixar de ser fc, e não pode abrir mão de um conhecimento equivalente da literatura brasileira do nosso país, sob o risco de deixar de ser brasileira. (pág. 16).

Esta posição apresenta novidade em relação ao pensamento do autor em anos anteriores — quando ele era mais voltado à valorização literária do gênero, se posso colocar assim —, e chega num momento especialmente sensível da produção de fc no país, marcado por resultados ainda incertos de uma nova geração de autores surgidos neste início de século xxi. Um cenário com muitos títulos publicados por autores novos sem grande experiência e conhecimento literário, principalmente em termos de fc. É certo que o chamado à responsabilidade se dirige aos autores contemporâneos de Tavares, dos anos 1980 em diante, mas olhando o cenário de maneira geral, é mais do que necessário que os autores novos sejam incluídos dentro dessa perspectiva que dialoga tanto com os temas de fronteira da fc internacional, como com as tradições mais concretas da literatura nacional.
Coerente com essa proposta, a antologia apresenta uma dúzia de histórias bastante diversificadas, em termos históricos, temáticos e de estilo. Difícil mesmo puxar na memória uma antologia de alcance tão abrangente quanto esta, nesses três quesitos. Em certo sentido, Páginas do Futuro é quase que uma antologia de intervenção, ao conceituar, refletir e apresentar um leque de histórias que objetiva formar um debate sobre a ficção científica praticada no Brasil.
Não há, porém, um caráter didático ou prescritivo: o tom é leve e descontraído, com textos que antes de mais nada primam pelo bom gosto e pelo entretenimento provocativo, que procuram tirar o leitor do convencional, do lugar comum. Pode parecer óbvio esperar isso de uma antologia de ficção científica, mas nem sempre o processo de seleção realizado em antologias reflete plenamente este objetivo. O projeto gráfico já consagrado também contribui para o êxito final, com ótimas ilustrações de Romero Cavalcanti.
O leitor brasileiro sem grande intimidade com a fc, mas também o leitor assíduo que nem sempre olha com atenção para o gênero de próprio país, é apresentado a nomes que surpreendem, como Joaquim Manuel de Macedo e Rachel de Queiroz — esta com “Ma-Hôre” (1961), uma pequena joia de encontro com alienígena, de perspectiva tipicamente brasileira —, ou nomes conhecidos apenas no ambiente do fandom, como os contemporâneos Ataíde Tartari, Finisia Fideli e Fábio Fernandes; ou ainda nomes que se consagraram nos anos 1960 e servem de norte à evolução do gênero no país, como André Carneiro e Jerônymo Monteiro.
O livro inclui um conjunto de temas que explora concepções que, em certo sentido, contemplam uma visão do gênero em cada época. Por exemplo, no caso de uma abordagem mais ligeira ou irônica da ciência típica do início do início do século xx — como no divertido “O Inimigo Gaseificado, ou a Vingança do Sr. Concreto” (1923), de Oswald Beresford —, ou mais socialmente contestadoras e literariamente arrojadas, como no surpreendente (mas falho) texto de Ruben Fonseca, “O Quarto Selo (Fragmento)” (1967), ou no delirante “Vanessa von Chrysler” (1992), de Fausto Fawcett, um autor caótico que parece querer brigar sonoramente com as palavras.
Há também narrativas que apresentam prosas mais convencionais, mas com uma especulação mais segura e informada sobre a ficção científica em si, como no clássico “Exercícios de Silêncio” (1983), de Fideli, talvez a única história à lá Golden Age do livro, ou ainda no humanista “O Copo de Cristal” (1969), de Monteiro. Por outro lado, inversões da noção de realidade e exercícios temáticos que utilizam a própria estrutura narrativa estão bem representados no conto de André Carneiro e na obra-prima de Luiz Bras, “Déjà-vu” (2010), uma história candidata a clássica da nossa fc.
Mesmo bem amarrada em termos de proposta, a antologia entretanto, apresenta uma certa irregularidade, principalmente em termos de preferências temáticas. Poder-se-ia escolher outras histórias de perfis um pouco diferentes, mas isso depende do critério crítico de cada organizador e não tira o mérito destas escolhas específicas, pois para além da mera seleção em si, joga a favor esta proposta que procura formar e aproximar dois círculos literários ainda estranhos um ao outro: o do fandom de fc e o do mainstream literário. Não é apenas com Páginas do Futuro que este hiato será preenchido, mas trata-se sem dúvida uma das mais relevantes contribuições que poderiam ser realizadas. Que a sequência do trabalho de antologista de Braulio Tavares possa consolidar a aproximação destes dois mundos menos distantes do que parecem.

– Marcello Simão Branco



[1] São elas: Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica (2007), Os Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica: Fronteiras (2009) e As Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica (2011).