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domingo, 3 de abril de 2016

Quebra-Queixo Technorama, Volume 1, Marcelo Campos, Octávio Cariello

Quebra-Queixo Technorama, Volume 1, Marcelo Campos, Octávio Cariello & ilustradores diversos. 80 páginas. Editora Devir, São Paulo, 2004.

Já recomendavam em 1922 os participantes da Semana de Arte Moderna que o caminho da identidade da arte brasileira deveria passar pela deglutição e posterior digestão dos produtos culturais estrangeiros. É inevitável que a cultura brasileira tenha que fazer isso, porque somos um povo formado pela justaposição de culturas locais e estrangeiras de quase todos os continentes. Não há praticamente nada brasileiro que não tenha pelo menos um dos pés em alguma tradição cultural ou mitológica estrangeira, em maior ou menor grau de dependência. Com a fc não poderia ser diferente e ainda mais com a fc em quadrinhos.
Temos uma tradição no que se refere a arte fantástica, mas ela não é suficientemente madura, tampouco foi suficientemente explorada, ao ponto de ter digerido por completo as influências estrangeiras, que aparecem vivamente nos produtos modernos, como é o caso de Quebra-Queixo.
Esta hq de fc apareceu pela primeira vez em 1991, na revista Pau-Brasil da Editora Vidente, que apresentou aos leitores várias séries, personagens e autores novos. Marcelo Campos, matogrossense de Três Lagoas, criador de Quebra-Queixo, apresentava desde então um potencial promissor como artista de quadrinhos. Já fizera carreira com personagens infantis nas revistas da editora Abril e desde 1989 fazia ilustrações para quadrinhos americanos. Campos foi um dos únicos que continuou a dedicar atenção ao seu personagem depois do cancelamento do periódico.
Quebra-Queixo é um super herói futurista que atua em Buracópolis, megalópole superpovoada, com altos níveis de desenvolvimento tecnológico e decadência moral. O herói é uma espécie de força da natureza, acionado pela polícia para manter tolerável a desordem da cidade. Brutal e sem qualquer escrúpulo, Quebra-Queixo manda porrada em tudo e em todos os que julgar merecedores do pesado punho da lei.
O clima geral das histórias é cômico e niilista, e remete ao seriado britânico Judge Dreed, ao seriado americano American Flagg e a vários trogloditas dos comics, tais como o Coisa, Hulk, Hellboy e similares.
Boas ideias de fc permeiam as aventuras de Quebra-Queixo. As histórias são crônicas urbanas extrapoladas: Buracópolis espelha desavergonhadamente os problemas da Grande São Paulo, que é, de fato, a personagem principal da história; Quebra-Queixo lá está apenas para permitir que conheçamos melhor as contradições deste absurdo urbano e essa boa sacada redime todo e qualquer pecado narrativo do autor.
Marcelo Campos convidou vários amigos para elaborarem as histórias que compões Quebra-Queixo Technorama, Volume 1. Ao todo são cinco histórias, três delas apresentam outros personagens que vivem nos bairros temáticos de Buracópolis: o ciborgue Zédulixo, o super técnico de manutenção Nego Simão, e a heroína virtual Abantesma Jones. Da mesma forma que Quebra-Queixo, estes paladinos são apenas coadjuvantes das maravilhas urbanas ensandecidas de Buracópolis.
"Seja você, sendo eu", com roteiro e desenhos de Marcelo Campos, abre o volume, recontando a primeira aventura do personagem publicada na Pau-Brasil. Foi totalmente refeita para incorporar as mudanças que o autor queria na história e para atualizar o estilo gráfico, uma vez que a versão anterior tendia mais para o pastiche de super heróis. A confusão se instala em Buracópolis quando a lei reconhece o direito das pessoas adotarem a identidade que bem entenderem, mesmo que sejam baseadas em personagens de ficção ou em pessoas reais, o que abre um perigoso precedente jurídico que precisa ser resolvido no tapa.
A segunda história é "Presente imperfeito" com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Rael Lyra. O ciborgue mutante Zédulixo, que é horroroso mas tem uma boa alma, tenta a seu modo ensinar uma jovem que há lugares em Buracópolis aonde pessoas "normais" não devem ir.
Abantesma Jobes é a protagonista de "A verdade confusa", com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Weberson Santiago. Abantesma é uma jovem milionária excêntrica que depois de testemunhar o assassinato de seus pais, guarda uma identidade secreta de paladina noturna – uma óbvia citação a você sabe quem. Sua zona de ação é uma espécie de mundo virtual que está um tanto confuso porque um vilão roubou a verdade.
"O ponto de fuga", com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Fernando Cintra, conta a história de Nego Simão, um técnico de manutenção de Buracópolis que, auxiliado por Andy, um novato na profissão, vai passar maus bocados para conter um vazamento de lubrificante que pode apagar a realidade.
O melhor episódio é o último, "Plano divino", com roteiro de Octávio Cariello e desenhos de Jefferson Costa. Mama Vodru, um pai de santo do mal, está fechando espiritualmente bairros inteiros de Buracópolis, transformando seus habitantes em zumbis. Para garantir que os impostos e taxas continuem fluindo, a administração da cidade envia Quebra-Queixo para acabar com a festa, mas os poderes de Mama Vodru são superiores: o herói é aprisionado e transformado em seu brinquedo sexual. Para sair dessa fria, só com a ajuda de outro pai de santo, o não tão poderoso mas do bem, Pai Santo Zambelê.
Cada história vem acompanhada de uma capa individual, textos de apresentação dos artistas do episódio e uma vinheta com um jogo de cartas inventado por Campos, citando regras tão absurdas quanto incompreensíveis, o que ilustra perfeitamente o conteúdo do trabalho.
Quebra-queixo é o que podemos chamar de uma fc pós cyberpunk muito refinada, que não tem pretensão se tornar um jogo de rpg ou um seriado de televisão. Não há racionalidade ou pontos de apoio e identificação confiáveis para o leitor dominar o universo de Quebra-Queixo. Neste caso, não é uma deficiência do autor, mas uma característica da urbanidade pós moderna em que tudo é tão fragmentado, incompleto e absurdo que a atitude arrasaquarteirão do herói passa a ser a única ligação com a normalidade conhecida. O que também não deixa de ser um absurdo.
Cesar Silva

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Glória Sombria, Roberto de Sousa Causo

Glória Sombria, Roberto de Sousa Causo. Ilustrações da capa e internas: Vagner Vargas. 168 páginas. São Paulo: Devir Livraria, 2013.

As histórias da série “Lição do Matador” vem sendo publicadas desde 2007, quando Jonas Peregrino apareceu nas páginas do fanzine Scarium.[1] De lá para cá mais três histórias foram publicadas, mas só agora em 2013 surge o romance Glória Sombria.[2]
Trata-se da primeira aventura do Capitão Jonas Peregrino, no qual é contado como ele, de um discreto posto como oficial júnior na Patrulha Colonial é recrutado para comandar uma força de elite secreta, os Jaguares, sob a liderança do Almirante Túlio Ferreira.
Peregrino é escolhido a dedo por Ferreira por suas comprovadas – mas nem sempre reconhecidas – habilidades nas chamadas operações especiais, missões militares extremamente arriscadas que exigem grande coragem e criatividade em batalha.
A missão de Peregrino é formar e treinar uma tropa especial de ataque, para resgatar os mukbukmabaksai, alienígenas de um planeta duplo ameaçado de extermínio pelos tadais, esta uma civilização alienígena belicosa e militarmente poderosa, envolta em mistério por atacar com naves- robôs e jamais ter mostrado o rosto.
Em Glória Sombria estamos no século XXV com a humanidade profundamente envolvida na expansão da Via Láctea. São quatro as Zonas de Expansão, mas é na região conhecida como a Esfera, a maior e a mais rica, que as histórias da série se passam.
Apesar de conviverem pacificamente com algumas espécies alienígenas, a humanidade continua politicamente dividida, entre a América Latina, os Norte-Americanos, os Asiáticos e os Euro-Russos. Nesse sentido, Causo problematiza um dos clichês comuns das histórias do sub-gênero space opera, o futuro de consenso, onde temos um governo mundial que pacifica a humanidade e se expande pelo universo. A referência pop mais conhecida é a da série de TV Jornada nas Estrelas (Star Trek).
Se aparentemente o maior desafio militar e econômico para a humanidade é o surgimento dos tadais, pois não se sabe a extensão do poderio militar e tecnológico desta civilização alienígena, e nem ao menos se ela é biológica ou remanescente de uma antiga civilização, Glória Sombria mostra que na verdade os inimigos mais insidiosos estão entre os próprios humanos.
Para além da rivalidade política entre os povos, Peregrino se vê envolto numa complexa teia de conflitos e disputas entre os próprios políticos e militares latino-americanos, por mais poder e influência. No princípio hesitante, o soldado adere aos objetos militares de Ferreira, que procura restaurar um espírito mais combativo e ético dentro da corporação, mais envolta nas politicagens internas e numa certa acomodação no cumprimento dos objetivos militares.
Boa parte da história se passa, portanto, no desenrolar destas intrigas, mas sem perder de vista o principal: a preparação para a missão que Peregrino deverá liderar para salvar os mukbukmabaksai do extermínio dos tadais. Nesse sentido, o romance é preciso no que se propõe, não derivando para temas paralelos que poderiam ser interessantes, mas secundários à trama principal. Como, por exemplo, um maior detalhamento dos povos alienígenas mostrados na história – mesmo nas outras histórias eles são muito superficiais –, uma maior reflexão sobre o que seriam os tadais, uma contextualização mais caprichada de como se deu a expansão humana pela galáxia e porque e como a humanidade manteve-se forte, mesmo dividida internamente. No fundo, são temas possíveis de serem elaborados em histórias futuras e uma série espacial como esta se presta mesmo à priorização da ação, e a abordagem destes temas secundários de forma escalonada, ao estilo de uma “História do Futuro”.[3] E na verdade, Causo se inspirou num universo ficcional deste tipo, a alemã Perry Rhodan, a maior e mais longa série da história da ficção científica que, inclusive, é lida por Peregrino durante a história, em seus momentos de folga.




Como parte bem-sucedida desta narrativa mais objetiva, pode-se ler quaisquer das histórias da série de maneira salteada, e um dos méritos de Glória Sombria é a força de um texto enxuto e que prende a atenção, com um personagem carismático e eticamente impecável, e um contexto político à beira de um abismo – externo (os tadais) e interno (as disputas políticas fratricidas entre a humanidade). Vale mencionar também a sólida pesquisa, tanto de aspectos militares, como de conceitos de física e astronomia, devidamente aplicados no contexto mais livre da ficção científica.
A série “As Lições do Matador” lida com temas caros e familiares ao autor e isso ajuda a reforçar uma sensação de verossimilhança e realismo, além do grande conhecimento dos lugares-comuns e tradições da ficção científica, o que faz com que as histórias não tenham a preocupação de mostrarem algo novo ou original. Tudo soa natural, seguro, na construção do universo ficcional e desenvolvimento dos personagens. Isso não é pouco, ainda mais no cenário de uma ficção científica brasileira que sempre (e ainda hoje) procura emular apenas os clássicos consagrados do gênero em língua inglesa.
Glória Sombria é um romance curto, pouco maior do que uma novela, e de sua aparentemente despretensão mostra que é possível problematizar os conceitos do gênero, no caso, da space opera militar, e inserir novos pontos de vista, mais relacionados com a posição brasileira – ou latino-americana – dentro do contexto literário e político internacional.
Fico na viva expectativa de que o novo livro com Jonas Peregrino, Mestre das Marés, nos traga mais aventuras vibrantes deste exemplo brasileiro de uma rica e provocativa visão multicultural da prática da ficção científica, típica deste século XXI.

– Marcello Simão Branco


[1] Com o conto “Batalhas na Memória”, no número 19, maio de 2007.
[2] As outras histórias são: “Descida no Maelstrom”, noveleta publicada na antologia Futuro Presente (2009), “Trunfo de Campanha”, noveleta publicada na antologia Assembleia Estelar: Histórias de Ficção Científica Política (2011) e a noveleta “A Alma de um Mundo”, publicada na antologia Space Opera II: Jornadas pelo Hiperespaço em uma Galáxia Não Muito Distante (2012).
[3] Em certo sentido, é possível encontrar já bons detalhamentos destas questões no site criado especialmente para promover a série, Galaxis: Conflito e Intriga no Século XXV: www.galaxis.aquart.com.br.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife

Trilogia Padrões de Contato, Jorge Luiz Calife. 648 páginas, capa de Vargner Vargas. Devir Livraria, São Paulo, 2009.

Padrões de contato faz parte do restrito conjunto de títulos seminais que são lembrados em primeiro lugar quando se fala em ficção científica brasileira. Da mesma forma o seu autor, o jornalista carioca Jorge Luiz Calife, que ganhou notoriedade quando o escritor britânico Arthur C. Clarke o citou em agradecimento no seu romance 2010: Uma odisseia no espaço II (1982). Calife era seu fã e correspondente, e sugerira num esboço os contornos gerais de uma continuação a 2001: Uma odisseia no espaço (1968), abrindo as comportas para uma série que Clarke julgava impossível. Seja como for, 2010 foi um grande sucesso editorial e cinematográfico, lançando o nome de Calife na grande imprensa. A então muito popular revista Manchete apressou-se em publicar o esboço que Calife enviara ao famoso escritor, nomeado de "2002". Logo, as editoras se interessaram pelo que aquele desconhecido jornalista tinha a dizer e, em 1985, Padrões de contato ganhou as livrarias pela editora Nova Fronteira.
No ano seguinte, pela mesma editora, veio a sequência, Horizonte de eventos. Articulados a um conjunto de circunstâncias, os dois romances inauguraram o que ficou conhecido como Segunda Onda de ficção científica brasileira, caracterizada pela formação de um grupo de fãs organizado, pela publicação de muitos fanzines, pelo desenvolvimento de uma consciência de corpo e pela busca de identidade para ficção científica nacional, que não existia até então.
Contudo, a maior importância de Padrões de contato/Horizonte de eventos é que se tratou da primeira ficção científica hard nacional, na qual os conceitos de astronomia e astronáutica foram tratados de forma precisa e rigorosa. A ficção científica brasileira tinha enfim o seu representante hard fiction e isso inspirou muita gente a seguir-lhe os passos.
Mas naqueles tempos de final de século, não era fácil publicar um livro e a maior parte da produção da Segunda Onda estava apoiada nos fanzines, com os quais Calife, mesmo depois de seus romances publicados, não se furtou em colaborar. Vários contos no mesmo universo do romance foram neles impressos. Em 1991, Calife ainda veria publicado um terceiro volume da série: Linha terminal, pela legendária editora GRD, com uma tiragem tão minúscula que, na prática, circulou apenas dentro dos muros do fandom.
Em 2009, próximo do momento em que Padrões de contato completaria 25 anos de publicação, a Devir Livraria reuniu os três romances em um único volume e recuperou para o público esta que é conhecida como a primeira trilogia da ficção científica brasileira, ainda que eu, particularmente, discorde do título. Afinal de contas, Calife não construiu uma trilogia, ele apenas publicou três livros, que podem ser mais se as editoras assim quiserem. Padrões de contato é, de fato, uma série aberta, um universo recorrente do autor que comporta, além desses três livros, uma boa quantidade de contos e noveletas publicadas ao longo dos anos em fanzines e antologias, incluindo ainda um quarto romance: Angela entre dois mundos, publicado em 2010 pela mesma editora.
A Devir fez um bom trabalho na compilação, que foi totalmente revisada e premiada com a belíssima capa de Vagner Vargas, que também executou ilustrações para a abertura interna de cada livro. O volume conta ainda com um prefácio do jornalista Marcello Simão Branco.
O primeiro livro, "Padrões de contato", está divido em quatro partes distintas. A primeira delas, intitulada "Estrela cadente (2426 AD)", narra o primeiro contato de um ser humano com a inteligência alienígena Tríade, na pessoa de Angela Duncan que, por isso, é agraciada com a juventude eterna. Desde então, Angela torna-se uma personalidade mundial numa Terra futura na qual a ciência respondeu a todas as dúvidas e acabou com todos os problemas da sociedade. Enquanto inteligências artificiais governam a civilização e grandes corporações lutam pelo domínio do espaço, a humanidade é sacudida pelas revelações apocalípticas de uma sonda alienígena vinda do espaço profundo.
Na segunda parte, "Luzes do abismo (2560 AD)", as inteligências artificiais foram literalmente para o espaço e uma geração pós-humana reforçada com todo tipo de upgrades biotecnológicos, pretende seguir o mesmo caminho. A imortal Angela vive numa estação instalada na atmosfera de Júpiter, onde os cientistas tentam contatar uma sociedade alienígena que ali reside.
Em "Fuga da eternidade (2701 AD)", a Tríade volta a Terra e absorve uma parte da humanidade que se preparara para isso voluntariamente. Sem mais nada de útil para fazer, um grupo de homens e mulheres requisitam uma espaçonave para também meter-se para sempre no espaço sideral.
"A filha dos deuses (3002 AD)" completa o livro. A bordo de uma espaçonave repleta de alienígenas em missão de pesquisa num buraco negro, Angela finalmente volta a se encontrar com a Tríade, que lhe revela o motivo de ter lhe dado vida, juventude e beleza eternas.
O segundo livro, "Horizonte de eventos", divide-se em três partes. A primeira, a melhor de toda a trilogia, é "Choque cultural", em que Angela Duncan e a também imortal jornalista Luciana Vilares viajam à bordo do mundo artificial Éden 6, a caminho do núcleo da galáxia. A certa altura encontram a Brasil, uma antiga espaçonave terrestre perdida. Lançada no século XXII, a Brasil usava uma tecnologia primitiva, viajando no espaço tridimensional em velocidades próximas à da luz, de modo que a tripulação só envelhecera duas décadas em oitocentos anos de viagem. A tripulação era formada por colonizadores brasileiros em busca de um planeta selvagem, mas um acidente no percurso os tirara da rota, levando ao poder uma guarnição de militares diretamente inspirados na nossa ditadura, que ali governavam com mão de ferro.
"Os dois lados do amanhã" é um típico período de interregno. Superados os problemas com a Brasil, Éden 6 segue sua jornada ao centro da galáxia, onde pretende encontrar-se com a Tríade. Dafne, neta de Angela e igualmente imortal, pesquisa alienígenas globulares e Luciana, na companhia de Fernando – um dos sobreviventes da Brasil – viajam à Terra para pesquisar as fichas dos náufragos, que deviam subexistir nos antigos registros preservados em velhíssimos bancos de memória.
"Horizonte de eventos" conclui este segundo livro. Lena, filha de Dafne, não herdou da mãe a dádiva da juventude eterna. Como todo o resto da humanidade, ela também vive no espaço sideral em constante trabalho de pesquisa científica. A expedição em que Lena participa a leva a expôr-se a uma desconhecida raça alienígena, os nictianos, que se revelam de natureza parasitária e invadem os corpos dela e de toda a equipe. Com a mente controlada pelos nictianos, Lena e seus companheiros atacam Éden 6, num mortal jogo de gato e rato em meio às estrelas do núcleo da galáxia.
"Linha terminal" fecha a trilogia retomando personagens e situações que haviam aparecido no primeiro livro e não tinham sido lembrados no segundo. Os pesquisadores descobrem uma antiga espaçonave terrestre orbitando um estranho planeta. Ali encontram evidencias da presença antiga dos djestares, civilização galáctica desaparecida que criou a Tríade. Enquanto isso, Angela Duncan, com recursos da Grande Comunidade Galáctica, passou as últimas décadas dedicada a construir uma enorme máquina do tempo, através da qual volta a época em que os djestares ainda existiam para descobrir uma forma de recuperar a saúde da Tríade, que está morrendo. Por acaso, a época em questão é justamente os anos 1980 e o local em que ela pretende encontrá-los é justamente o litoral do Rio de Janeiro.
A narrativa de Calife é equilibrada, com bons diálogos e ritmo agradável, sem vales profundos ou montanhas íngremes: o leitor passeia tranquilo e sem sobressaltos. Mas a reunião dos três romances tornou a leitura um fardo difícil de carregar. Primeiro, por causa do peso de suas quase 700 páginas que, se não estiver bem apoiado, em poucos minutos faz doer os braços mais musculosos. Depois, porque os romances foram escritos para serem lidos separadamente. Justapostos, tornam-se cansativos e redundantes. A falta de uma linha narrativa principal confunde o leitor que, quando chega ao meio do livro, já não se lembra mais do que aconteceu no início.
Irrita também a insistência do autor em convencer seus leitores da não existência de Deus, como obviamente ele mesmo acredita, pois o romance em si já seria suficientemente eloquente. Volta e meia, os alter-egos femininos do autor lascam um discurso antignóstico que beira o panfletário. A revisão bem poderia ter removido essas partes que, além de não fazerem falta nenhuma no enredo, empanam o brilho do que poderia ter sido uma perfeita peça de proselitismo ateu. Não que eu concorde necessariamente com a crença do autor mas, pelo menos o livro, como peça literária, teria subido alguns pontos na minha avaliação.
A falta de conflitos importantes e a fragilidade das personagens principais, todas muito parecidas, também enfadam o leitor que, na maior parte do tempo, depende unicamente das elaboradas descrições de imagens cósmicas para sustentar o interesse.
Quando Calife encontra um bom conflito para explorar, como é o caso do acidente de Angela nas nuvens de Júpiter (em Padrões de contato) e o conflito entre o mundo artificial Éden 6 e a totalitária Brasil (em Horizonte de eventos), o texto ganha fôlego e a leitura progride com vigor. Mas os problemas são rapidamente superados e o curso narrativo logo volta ao ritmo de cruzeiro, pacífico e preguiçoso.
Mas que não fiquem dúvidas: Jorge Luiz Calife e Padrões de contato merecem todas as homenagens que lhe cabem. Trata-se de uma obra pioneira em vários aspectos, com belíssimas e inspiradoras descrições de maravilhas do espaço profundo, coisa em que Calife é sem dúvida, imbatível.
— Cesar Silva

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Xenocídio, Orson Scott Card

Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card. 536 páginas. Tradução de Sylvio Monteiro Deutsch. Capa: Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Orson Scott Card está entre os autores estrangeiros mais bem relacionados com o fandom brasileiro de ficção científica, o que é uma grande sorte nossa. Card morou no Brasil durante algum tempo nos anos 1970, como missionário, aprendeu a falar o português com desenvoltura e nutre pelo Brasil um carinho especial. Mesmo depois de sua temporada missionária, ele voltou pelo menos duas vezes ao Brasil, numa delas tivemos a oportunidade de compartilhar sua companhia num encontro de autores e editores em Sumaré*, no interior do Estado de São Paulo.
O autor promoveu então o lançamento de um de seus livros no país, mais exatamente o clássico O jogo do exterminador (Ender's game), publicado em 1990 pela editora Aleph inaugurando a coleção Zenith. Logo também seria publicada a sua sequência, O orador dos mortos (Speaker for the dead, 1990), pela mesma editora. Ambos os romances realizaram o feito de ganhar, por dois anos consecutivos, os mais importantes prêmios da fc mundial, o Hugo (1985 e 1986) e o Nebula (1986 e 1987), sendo o Card o único autor a realizar esse feito.
De Card também foram traduzidos, ainda nos anos 1990, os romances Um planeta chamado Traição (Treason, Record, 1993), A odisseia de Worthing (The Worthing saga, Record, 1994) e a novelização O segredo do abismo (The abyss, Record, 1989), além de diversos contos em revistas e antologias, entre eles o conto que deu origem ao romance O jogo do exterminador, também ganhador do Hugo, publicado pela revista Issac Asimov Magazine. Card ainda colaborou, por muitos anos, com diversos fanzines brasileiros. Contudo, a partir dos anos 1990 o autor ausentou-se do cenário editorial brasileiro, com raríssimas aparições. Até que a editora Devir Livraria decidiu republicar o clássico O jogo do exterminador, em 2006, o que, a princípio, não considerei uma boa ideia. O mercado literário de fc no Brasil estava em baixa e, na minha visão, um livro que havia sido anteriormente publicado em grande tiragem, ainda que estivesse esgotado, poderia não ter uma boa receptividade. Acreditava que, caso a Devir sofresse um revés logo de saída (o título inaugurou sua Coleção Pulsar), poderia não ter interesse de seguir adiante. Estava ainda bem viva na minha memória as críticas dos leitores quando a então editora PECAS (depois batizada Ano-Luz) decidiu publicar, em 1998, o romance Tropas estelares (Starship troopers), de Robert Heinlein que, apesar de inédito no Brasil, tinha uma antiga edição portuguesa, dos anos 1960.
Para sorte de todos, queimei minha língua e a Devir não só republicou em 2007 o segundo volume da saga, O orador dos mortos, mas finalmente, em 2010, traduziu a terceira parte da saga, inédita em língua portuguesa, Xenocídio, um romance aguardado com expectativa desde a publicação de O orador dos mortos em 1990.
Os vinte anos de espera foram longos, mas amplamente recompensados pela excelente edição da Devir, com a ótima tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e a bela capa de Vargner Vargas.
Quem leu os primeiros livros sabe que Ender Wiggins, quando criança e sem que ele soubesse, foi treinado exaustivamente numa escola militar para ser usado como o estrategista de uma guerra de extermínio contra uma civilização alienígena, os abelhudos, um tipo de inseto inteligente e de hábitos gregários, que vive em colmeias.
O segundo volume conta o que aconteceu com Ender depois que a guerra acabou. Vagando pela galáxia em velocidades acima da luz, Ender assumiu a tarefa de orador dos mortos e, por isso, teve sua vida relativisticamente estendida. Enquanto a raça humana se espalhava pelo universo em dois mil anos de história, Ender não envelheceu mais do que quarenta anos. Em suas andanças, ele chega ao planeta Lusitânia, onde uma colônia científica formada por brasileiros encontrou uma raça inteligente de seres que são um curioso caso de interação entre animal e planta.
Xenocídio retoma a história da colônia em Lusitânia, onde os cientistas brasileiros tentam encontrar uma cura definitiva para o descolada, vírus nativo do planeta cuja letalidade é tamanha que ninguém que uma vez lá tenha pousado pode sair. Ender constitui família com uma das brasileiras do colônia e, secretamente, estabelece uma colmeia dos abelhudos a partir de um ovo de rainha que ele guardou cuidadosamente ao longo dos anos em que vagou pela galáxia.
As notícias sobre a virulência do descolada assustaram o corrupto Congresso Estelar, que decidiu enviar à Lusitânia uma frota de extermínio armada com o Doutorzinho, uma bomba destruidora de planetas, e garantir de uma vez por todas que a doença nunca saia de Lusitânia. A única forma de evitar que um novo xenocídio tenha lugar é encontrar a cura do descolada e, para ganhar tempo, Ender pede a Jane, uma inteligência artificial que o acompanha há tempos, para interromper todas as comunicações com a frota de extermínio.
Enquanto isso, no planeta Caminho, colonizado por chineses, Han Qing-jao, uma garotinha dotada de uma enorme inteligência é encarregada pelo Congresso de descobrir como e por quê a frota de extermínio desapareceu dos radares, e sua investigação, associada à relação conturbada com seu pai, ambos vítimas de um violento transtorno obsessivo compulsivo, assim como de ambos com a pajem Si Wang-Mu e Jane – a inteligência artificial de Ender – serão a chave da libertação de dois planetas e das três únicas raças alienígenas inteligentes conhecidas. Ou, quem sabe, quatro.
Um dos grande trunfos de Card, contudo, não é de sua lavra. Trata-se do ansível, um aparelho de comunicação subespacial primeiramente citado pela escritora americana Ursula LeGuin, que permite a comunicação instantânea com qualquer ponto da galáxia, independente de sua distância. É o ansível que dá sustentação a toda trama da saga de Ender, que ganha relevos cosmológicos a partir de Xenocídio. E essa discussão cosmológica é um dos grandes méritos do romance, que constrói uma intrincada teoria digna das mais elaboradas hardfictions, com desdobramentos em várias perspectivas, especialmente religiosas. O romance também traz outra grande discussão sobre bioética e ecologia, numa profundidade que só encontra paralelo nos romances da série Duna, de Frank Herbert.
Card é um autor que não evita temas polêmicos e não extirpa a face religiosa de sua ficção, o que desagrada uma ampla parcela de leitores mais afeitos à ficção científica de ação e entretenimento. Não que Card não tenha habilidade para tal. Tanto tem que Xenocídio apresenta vários momentos de ação e violência intensa, mas os melhores momentos da trama são filosóficos, na forma de diálogos tensos entre os muitos protagonistas deste que é, sem dúvida, um dos melhores romances de ficção científica publicado no Brasil em muitos anos. O fato dele não ter repetido o desempenho de suas prequelas no que diz respeito aos prêmios, embora tenha sido indicado para o Hugo e para o Locus, não representa uma queda de qualidade, muito pelo contrário. Todas as discussões travadas no romance são intensas e bem articuladas, e sua riqueza é muito bem explorada pelo autor.
A Devir Livraria publicou, em 2013, o romance Filhos da mente (Children of the mind), quarto e último romance do primeiro arco de histórias, e abre a possibilidade de que, no futuro, além da série completa de Ender – que tem mais quatro romances e uma coletânea –, possamos receber outras bem sucedidas séries que Card publicou nos EUA, como Homecoming e Tales of Alvin Maker, assim como mais de sua ficção curta que é de extrema qualidade.
— Cesar Silva

* Trata-se da I InteriorCon, acontecida em 1990.

terça-feira, 24 de março de 2015

Anjo de Dor, Roberto de Sousa Causo

Anjo de Dor, Roberto de Sousa Causo. 207 páginas. Capa de Vagner Vargas. Introdução de Rubens Teixeira Scavone e texto da orelha de Braulio Tavares. São Paulo: Devir Livraria, 2009.

O romance Anjo de dor é, provavelmente, o trabalho mais elaborado, persistente e estimado da carreira de Roberto de Sousa Causo. Como ele afirma nos agradecimentos começou a escrevê-lo em 1990 e só dezenove anos depois foi finalmente publicado. É certo que em quase duas décadas muito da concepção da história foi modificada, mas acredito que a demora só a fez melhorar, tornando-se mais aperfeiçoada e madura, tanto do ponto de vista literário, como do desenvolvimento do enredo e caracterização dos personagens.
Não me recordo em que momento desta longa trajetória eu tive contato com a obra, mas lembro-me de ler uma de suas várias versões e ter feito uma ou outra observação. Mesmo depois de anos do primeiro contato, porém, a leitura do formato final mais me recordou alguns aspectos gerais da trama, do que me surpreendeu com algum desdobramento novo. E isso só reforça, do meu ponto de vista, o quanto Anjo de dor deixou marcas na primeira vez que o li.
É um romance forte, de impacto. Costuma-se dizer, não sem certa razão, que um autor escreve melhor sobre aquilo que conhece. Para um autor de ficção especulativa, esta afirmação soa, aparentemente, como uma crítica mas encaixa-se bem para o tipo de história que Causo criou para o seu romance de suspense e horror.
E a razão é que para quem o conhece e leu boa parte de sua obra, transparece alguns aspectos autobiográficos além de peculiaridades do protagonista que se aproximam do escritor – ex-servidor militar, vegetariano, adepto do espiritismo. Mas longe de sugerir alguma verdade nas entrelinhas, está claro que é uma criação ficcional, baseada, isto sim, em verossimilhança. Assim, não surpreende que o panorama do enredo seja realista e o fantástico se insinue pelas margens até assumir relevância nos momentos decisivos da história. Por sinal, esta característica é das mais recorrentes na ficção do autor, e se por um lado reforça uma identidade temática, de outro soa como um pouco repetitiva a esta altura de sua carreira. Neste particular a demora na publicação de uma obra burilada há tanto tempo talvez tenha diluído a novidade deste tipo de abordagem.
O romance conta a chegada da misteriosa cantora Sheila Fernandes à pequena cidade de Sumaré, interior de São Paulo. Contratada para apresentações numa casa noturna da cidade, ela é recepcionada pelo barman, Ricardo Conte. Apesar da antipatia mútua do contato inicial, parece haver certa atração não apenas sexual entre os dois, além de mais familiaridades do que se supõe.
Sheila foge de um passado perigoso e incriminatório e Ricardo também procura esquecer alguns incidentes de sua passagem pela Força Aérea. Apesar de jovens, ambos estão à procura de um caminho sempre recomeçando, ou em um novo trabalho, ou em um novo lugar. Aos poucos se tornam obcecados um pelo outro, embora seja difícil a ambos admitir e demonstrar isso, com atitudes que procuram mais esconder do que revelar. Tomado por esse impulso, Ricardo volta a pintar e desenha um retrato de Sheila. Não como ela era, mas como ele queria que ela fosse. Insônia e estranhas visões supostamente emanadas pela figura do retrato começam a perturbar a vida de Ricardo. O que seria a manifestação da Sheila do quadro? Pesadelo, alucinação ou um fantasma sobrenatural?
Sheila se torna um sucesso na região, mas quer manter-se avessa a qualquer publicidade. Tem motivos para isso, mas depois que um anúncio é publicado em São Paulo, o algoz do seu passado aparece para acertar as contas. É seu ex-patrão, na verdade um cafetão que quer vingança pelo fato dela tê-lo prejudicado no passado. Junto com alguns capangas o tal Ferreirinha desorganiza a vida da pacata Sumaré e, principalmente, de Sheila, Ricardo e da família do dono da boate.
O romance fica especialmente interessante da segunda parte em diante, com o aumento da tensão e do suspense, além da presença das manifestações sobrenaturais percebidas por Ricardo, decisivas na conclusão da história.
Causo consegue com Anjo de Dor reunir várias qualidades de um bom contador de histórias. Primeiro, equilibra a moldura realista e autobiográfica com os elementos fantásticos, sobrenaturais, tornando-os mais do que meros acessórios: eles são parte da construção e transformação de Ricardo e do próprio entendimento de quem seria Sheila Fernandes. Em segundo lugar, e talvez ainda mais importante, é que a boa caracterização dos personagens se harmoniza com o ritmo crescente dos acontecimentos, tornando a leitura uma experiência estimulante, difícil de ser deixada de lado – e mesmo na ausência da leitura, que os fatos fiquem remoendo na mente do leitor, como se o drama dos personagens tivesse uma dimensão real, palpável.
Embora tenha sido escrito antes, este é o segundo romance publicado de Causo, depois da boa fantasia contemporânea A Corrida do Rinoceronte (2006), mas é o trabalho mais ambicioso do autor, em que se percebe o maior investimento em termos de aprimoração da técnica literária e amadurecimento da trama e dos personagens. Causo afirma que tinha poucas esperanças de um dia publicar Anjo de Dor e talvez esse pessimismo, ou melhor seria dizer, desprendimento, tenha contribuído para tornar melhorar o romance, já que transparece o sentimento, de algo que precisava ser exposto para o mundo exterior, como uma parte dele mesmo.
Anjo de Dor é, bom deixar claro, uma história que incomoda, pois não apresenta soluções fáceis e reconfortantes, ainda mais depois de páginas repletas de suspense e violência. Pois, para uma obra que pretende deixar de ser apenas mais uma entre tantas, é uma aposta bem cumprida por Causo. Especialmente pelo fascínio da dúvida suscitada do anjo de dor de Ricardo Conte também ilustrar o quanto uma obra que é aparentemente entretenimento de qualidade – o que já não seria pouco – pode iluminar (ou tornar ainda mais complexo) aspectos da personalidade humana, para além das interpretações mais superficiais a que o gênero horror está acostumado a ser relacionado. E estes motivos tornam Anjo de Dor uma obra importante, tanto para o autor, como para os caminhos que abrem para uma literatura de gênero de qualidade e, em especial, de horror escrita por brasileiros.

– Marcello Simão Branco
  

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política, Marcello Simão Branco org. 408 páginas. Capa Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2011.

Depois de quase dois anos de trabalho entre os primeiros convites aos autores e o lançamento do volume, a antologia Assembleia estelar chegou bem mais parruda do que se imaginava a princípio, com quatorze textos, entre contos e noveletas, incluindo trabalhos dos importantes autores norte-americanos, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin.
A ideia nasceu do envolvimento do organizador com a política, uma vez que Marcello Simão Branco, além de respeitado estudioso de ficção científica, é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor na Unifesp nessa disciplina. Nada mais natural, portanto, que se lançasse à tarefa de aproximar suas duas paixões. Branco editou por muitos anos o prestigioso fanzine de ficção científica e horror Megalon e organizou uma das mais importantes antologias temáticas brasileiras, Outras copas outros mundos, publicada em 1998 pela Editora Ano-Luz. Desde a suspensão do Megalon, em 2004, Branco vinha se dedicando exclusivamente ao Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual é um dos autores, e sua volta à atividade editorial criou muita expectativa.
Política é um tema que sempre recebeu interesse dos autores de fc. Obras clássicas e maiúsculas no gênero, como Tropas estelares (Starship troopers, 1959) e Estranho numa terra estranha (Stranger in a strange land, 1961) de Robert A. Heinlein, O mundo de Zero-a (The world of Null-a, 1948), de A. E. van Voght, Admirável mundo novo (Brave new world, 1932) de Aldous Huxley, 1984 (Nineteen eighty-four, 1949) de George Orwell, A muralha verde (We, 1920), de Evgeny Zamiátin, e Os despossuídos (The dispossessed: An ambiguous utopia, 1974), de Ursula Le Guin, entre outros, atestam o vigor que o tema detém dentro do gênero. Contudo, no Brasil, há poucos exemplos nessa linha, e os que existem pertencem à produção de autores do mainstream, que o abordaram de maneira transversal e alegórica, como Zanzalá (1936), de Afonso Schmidt, Não verás país nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, Fazenda Modelo (1974), de Chico Buarque de Holanda, e Sombras de reis barbudos (1972), de José J. Veiga. Faltava mesmo que alguém demonstrasse que o tempo da censura e das perseguições políticas passou e podemos voltar a falar abertamente sobre política no Brasil, especialmente dentro do ambiente especulativo, que permite um leque amplo de abordagens criativas.
Além dos estrangeiros já citados, aos quais também se une o escritor português Luiz Filipe Silva, Branco selecionou textos de autores brasileiros cujos nomes já são bastante associados ao gênero, como André Carneiro e Daniel Fresnot. Contudo, a maior novidade da antologia é um texto do autor mainstream Fernando Bonassi, um verdadeiro achado do antologista.
O volume abre com um longo ensaio “Afinidades eletivas entre ficção científica e política”, do organizador, contextualizando a proposta e detalhando exemplos históricos na literatura estrangeira e nacional.
O primeiro conto é “A queda de roma, antes da telenovela”, de Luís Filipe Silva, um dos grandes nomes da fc lusitana, numa história sobre o ocaso do último político “à moda antiga”, ou seja, que atua num sistema representativo, uma vez que a atividade política se transferiu para uma nova tecnologia, não exatamente melhor conforme o ponto de vista.
Em seguida temos o excelente “Anauê”, de Roberval Barcellos, provavelmente o autor brasileiro mais politizado de sua geração. É uma história alternativa de um Brasil governado por uma ditadura nacionalista, visto através de um burocrata do Partido Integralista que tem de optar entre manter o seu status quo ou sua integridade moral frente a um terrível programa de higiene social.
“Gabinete blindado”, do veterano autor da Primeira Onda, André Carneiro, é o melhor texto da antologia. Com um estilo elegante e surpreendente, que muitos ainda acreditam não ser possível usar nos gêneros especulativos, Carneiro revive os Anos de Chumbo da ditadura militar, na história dos integrantes de um aparelho de guerrilha em plena operação.
“Trunfo de campanha”, de Roberto de Sousa Causo, é um texto do ciclo de Jonas Peregrino, space opera que o autor vem desenvolvendo em episódios espalhados por diversas publicações.  Aqui, Jonas tem que enfrentar as intrigas políticas de um figurão que quer se aproveitar de sua imagem de herói de guerra, numa história se assemelha às aventuras de espionagem ao estilo James Bond, porém com raios laser.
“Diário do cerco de Nova York”, do franco-brasileiro Daniel Fresnot, já é um clássico, visto na coletânea O cerco de Nova York e outras histórias (Alfa-Ômega, 1984). Conta a história de um escritor francês que tenta sobreviver em meio ao fogo cruzado da uma nova guerra civil nos Estados Unidos, que eclodiu depois que o prefeito da cidade de Nova York, apoiado por seus eleitores, decide descumprir ordens que recebe da União. A cidade é cercada por forças federais e atacada de forma avassaladora, o que a transforma numa reedição do gueto de Varsóvia.
Ataíde Tartari constrói uma alegoria às eleições majoritárias brasileiras de 2010 em “Saara Gardens”, na qual uma grande empresa tenta destruir o prestígio de uma candidata ambientalista que pode ser um grande problema, caso seja eleita.
Miguel Carqueija se apresenta com o curtinho “Era de aquário”, que não foge a seu estilo humorístico e irônico, sobre um tempo em que o esporte nacional brasileiro é assassinar políticos em atentados públicos.
Em “A evolução dos homens sem pernas”, Fernando Bonassi também investe na ironia e no humor para descrever os motivos que levaram os homens do futuro a desenvolverem mutações bizarras, mas talvez esses homens já estejam aqui, agora mesmo.
Assembleia estelar traz para os novos leitores a nova versão da noveleta “A pedra que canta”, de Henrique Flory, originalmente visto na coletânea de mesmo nome publicada pela Editora GRD em 1991. Trata-se da história de um jovem que recebeu um implante especial e pode literalmente fazer a “pedra cantar” numa ação que vai acabar com a guerra entre o Brasil e a Argentina.
Em “O dia antes da revolução”, Ursula K. Le Guin volta ao universo de seu romance Os despossuídos com uma prequela que mostra os últimos dias de Laia Odo, pensadora política que construiu o sonho anarquista de Anarres. Tal como o romance, este conto foi premiado com Hugo e Nebula, e é certamente o texto mais importante desta antologia. O conto foi originalmente visto em 1974 na revista Galaxy e recebeu tradução de Roberto de Sousa Causo.
A Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira está aqui representada por “O grande rio”, do autor mineiro Flávio Medeiros Jr, que elaborou uma ucronia intrincada para contar sua versão do assassinato do presidente John F. Kennedy.
O texto mais longo da antologia é a novela “O originista”, de Orson Scott Card, que também investe numa prequela, porém não de um romance próprio como fez Le Guin, mas ao clássico Fundação, de Isaac Asimov. O texto fez parte da antologia Foundations friends, organizada em 1989 por Martin H. Greenberg. Conta, de forma muito íntima, como o intelectual Hari Seldon, criador da Fundação e da Psico-História, desenvolveu o plano secreto de resistência ao governo totalitário do Império Galáctico a partir de um gigantesco mecanismo de pesquisa eletrônica que se parece muito com o Google moderno. A tradução é de Carlos Angelo.
“Questão de sobrevivência”, um dos textos mais publicados do escritor jundiaiense Carlos Orsi, também se insere no conflito entre um grupo de resistência e um governo totalitário.
A chave de ouro que fecha a antologia é “Vemos as coisas de modo diferente”, conto do papa cyberpunk Bruce Sterling, originalmente publicado em 1989 na coletânea Semiotext[e] sf.  A história faz uma extrapolação do conflito ocidente-oriente contando sobre um jornalista de um próspero mundo árabe que vem aos Estados Unidos – que está mergulhado em uma profunda crise econômica – para entrevistar um superstar do rock. A tradução é de Roberto de Sousa Causo.
Como se vê, trata-se de um livro de peso, tanto pelos autores quanto pelos textos reunidos, sendo uma das mais importantes antologias de ficção científica publicadas no Brasil nos últimos anos.
Cesar Silva

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Trilhas do tempo, Jorge Luiz Calife

Trilhas do tempo, Jorge Luiz Calife. 176 páginas. Capa de Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2012.

Jorge Luiz Calife é um patrimônio da ficção científica brasileira. O nome do autor já se tornou marca de qualidade e sua literatura está entre as mais republicadas do gênero. Desde que a Devir Livraria o contratou, tem sido um dos autores brasileiros mais editados na casa, com uma linha quase que exclusiva para seus romances. A editora parece estar disposta a publicar sua obra completa, já tendo em catálogo a Trilogia padrões de contato (2009), reunindo os romances Padrões de contato, Horizonte de eventos e Linha terminal, mais a “prequência” Angela entre dois mundos (2011) e, publicado no finalzinho de 2012, a coletânea Trilhas do tempo, a segunda do autor. A primeira foi As sereias do espaço, publicada em 2001 pela editora Record.
Trilhas do tempo reúne textos que Calife escreveu para diversas revistas ao longo dos anos 1990, principalmente as masculinas EleEla e Playboy, o que a princípio pressupõe um livro com forte pendão erótico. Contudo, também aparecem textos vistos nas revistas Isaac Asimov Magazine e SciFi News Contos, ambas especializada em fc, e até uma novela inédita exclusiva da edição.
Ao todo são sete ficções, mais um posfácio e um levantamento cronológico para a série Padrões de contato, também escritos por Calife. A seleta é apresentada por Clinton Davisson, autor do romance Hegemonia: O herdeiro de Basten, que confessa ser fã de Calife e o cobre de elogios, como não poderia deixar de ser. Embora não o sejam necessariamente, todos os textos parecem inseridos no universo de Padrões de contato, pois dele guardam as mesmas característica e textura geral.
Abre a coletânea o conto “O primeiro voo para as estrelas”, originalmente publicado na revista EleEla em 1987. Conta a história da primeira viagem a um planeta distante, realizado por uma grande tripulação a bordo uma espaçonave convencional. A viagem é feita em velocidades relativísticas e, quando finalmente chega ao seu destino, encontra o lugar habitado por homens que chegaram lá muito antes deles.
“Trajetória de fuga”, publicado nem 1984 na mesma revista, conta a história de uma jovem e promissora atriz de cinema que, por causa de um defeito numa espécie de simulador de realidade virtual, tem sua alma absorvida por uma espaçonave e, dessa forma, avança imortalizada rumo ao infinito.
“A sereia do espaço”, primeiro publicado em 1992 na extinta Isaac Asimov Magazine, conta a aventura de uma jovem astronauta que, em missão burocrática nas luas de Netuno, tem um inesperado contato imediato com uma entidade alienígena que a modifica definitivamente. Tornada em uma trans-humana imortal, ela volta à Terra para resgatar seu amante e levá-lo em sua companhia para viajar eternamente pelas estrelas.
A história se repete em “A espada de Herschel”, noveleta assumidamente inserida na série Padrões de contato, releitura para o clássico 2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke. Conta a aventura de uma adolescente em missão às luas de Saturno a bordo de uma espaçonave movida por bombas atômicas. Chegando lá, a garota, e somente ela, entra em um portal que a leva para mil anos no futuro, de onde volta em seguida para alertar a humanidade contra uma grande catástrofe cósmica que se aproxima. A primeira publicação desta novela aconteceu em 2001 na também extinta SciFi News Contos.
O conto seguinte é “Viagem ao interior do Halley”, que a Playboy publicou em 1985, explorando o interesse pela passagem do famoso cometa. Este é único conto pessimista de toda a antologia e provavelmente de toda a carreira do autor. Conta o destino de uma malfadada missão de salvamento ao Halley, prestes a se fragmentar e desaparecer para sempre. Calife sugere que a tragédia não foi um acidente, mas uma manobra calculada pela inescrupulosa megacorporação Norland (o que mais se aproxima de um vilão na saga de Padrões de contato), tão somente para explorar os recursos minerais do Halley em seu próprio benefício.
“A estrela e o golfinho” é uma noveleta inédita, também inserida na cronologia de Padrões de contato. Enquanto Angela Duncan faz sucesso intergaláctico como cantora de um conjunto musical, a Terra está sendo visitada por uma entidade alienígena que parece manipular a radiação solar. Este texto contrasta asperamente com o anterior, porque Calife parece ter se arrependido ao vilanizar a Norland. Num diálogo final, uma executiva da empresa, que nesta história já não é mais uma simples iniciativa privada, mas o governo central da humanidade, faz um discurso positivista que não soa muito bem.
O último conto do livro é “A derradeira paixão”, uma história quase mística, se é que podemos usar esse termo para descrever um texto de Calife. Publicada em 1984 na EleEla, conta também sobre uma tragédia, esta fortuita, causada pela incapacidade humana de entender completamente o universo – um conceito também pouco comum na ficção do autor. A bordo de uma nave capturada por um buraco negro, um casal de jovens amantes tem sua última relação sexual estendida pela eternidade por conta do efeito relativístico.
Completa o volume o ensaio “Arthur C. Clarke, mulheres nuas e a ficção científica”, no qual Calife contextualiza os textos reunidos na coletânea.
Apesar das tentativas explícitas, os textos de Calife aqui reunidos não são mais eróticos que a ficção científica corrente que lemos em toda parte. As longas e detalhadas descrições das espaçonaves e suas tecnologias, bem como a beleza estonteante dos fenômenos cósmicos frente às recatadas cenas de sexo e nudez feminina, revelam onde está a verdadeira paixão destes textos.
Trilhas do tempo é um tributo de Calife à ciência redentora e à imortalidade que um dia, ele acredita, a tecnologia permitirá de uma forma ou de outra.
Cesar Silva

domingo, 22 de fevereiro de 2015

A sombra dos homens, Roberto de Sousa Causo

A saga de Tajarê, Livro 1: A sombra dos homens, Roberto de Sousa Causo. Introdução de Bráulio Tavares. 120 páginas. Devir Livraria, São Paulo, 2004.

Romance de aventura mitológica e especulativa de Roberto de Sousa Causo, escritor nascido em São Bernardo do Campo que desde muito jovem optou pelos temas fantásticos, principalmente a ficção científica. São seus livros a antologia A dança das sombras (Caminho Editorial, Lisboa, 1999), o romance Terra verde (editora Cone Sul, São Paulo, 2000) e o ensaio Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950 (editora UFMG, Belo Horizonte, 2003).
A sombra dos homens reúne dois contos já vistos na revista Dragão Brasil (ed. Trama) mais uma noveleta inédita, resultando num dos poucos exemplos autênticos de fix-up na literatura fantástica brasileira, uma vez que não é comum no Brasil a publicação avulsa de contos em revistas (fix-up é um romance que resulta da compilação de contos originalmente independentes que, justapostos, formam uma trama única e coerente).
Tajarê, o protagonista da história, é um índio sul americano que vive numa época pré-cabralina. Dotado de poderes espirituais e mágicos, Tajarê é usualmente convocado pelas forças da natureza para dar cabo de qualquer ameaça à integridade da mesma, as quais sempre atende embora não aprecie o uso da força que tem de lançar mão para cumprir a tarefa, principalmente quando por conta disso possam acontecer mortes. Portanto Tajarê é um herói infeliz na sua condição de protetor.
A história do primeiro conto, que dá nome ao livro, inicia-se quando Tajarê é convocado a defender sua terra de invasores perigosos vindos de outro continente. O índio é conduzido pelos seres mágicos até uma praia, onde vê desembarcar um grupo pequeno de guerreiros vikings. Eles protegem Sjala, sacerdotisa que pretende localizar e libertar o deus Loki que está aprisionado em algum lugar na Amazônia. Fazendo uso de seus atributos físicos surpreendentes, Tajarê derrota todos os guerreiros vikings e captura a sacerdotisa, pela qual se apaixona.
O segundo conto é o mais curto do livro. "A Benção das Águas" é a narrativa de um monólogo interior de Sjala. Algum tempo adiante e ainda cativa, ela vive com Tajarê em sua aldeia e dele espera um filho. Apesar de ser prisioneira e sentir um amor paradoxal por seu captor, a sacerdotisa espera a oportunidade ideal para escapar e cumprir a missão que a trouxe para tão longe de sua terra.
A noveleta a seguir é divida em duas partes. A primeira, chamada "Sangue no Grande Rio", mostra exatamente o momento em que a oportunidade da fuga se apresenta a Sjala, anos mais tarde. Niadorã, o filho de Sjala e Tajarê, já é um curumim crescido. Ao pressentir o ataque de uma onça ao seu filho, Sjala usa seus poderes para salvá-lo, irritando a tribo que já não via com muito gosto a presença da cativa branca entre eles. A decisão do chefe tribal, aproveitando a presença de uma comitiva comercial de guerreiras brancas — as ferozes icamiabas — é o banimento de Sjala, que é entregue às amazonas.
Tajarê, que não estava na aldeia, retorna quando o fato já está consumado. Tomado de angústia, parte imediatamente em busca da mãe de seu filho. Depois de uma perseguição exaustiva muitos quilômetros rio acima e com a ajuda de algumas entidades mágicas da natureza, Tajarê ataca o barco das icamiabas que leva Sjala, mas as guerreiras reagem fazendo uso de atributos mágicos, ferindo o guerreiro gravemente. Ainda assim, Tajarê insiste na batalha mas, no momento em que imaginava ter conseguido resgatar Sjala, ela se transforma numa garça e literalmente foge de seus braços, voando em direção da aldeia fortificada das icamiabas, a montante do grande rio. Tajarê não sabe que, apesar de todo o seu amor por ele e Niadorã, Sjala agora está decidida a cumprir sua missão original: libertar Loki e promover o Ragnarok.
A segunda parte da noveleta, chamada "Olhos de fogo", arremata o volume em grande estilo, não deixando nada a dever aos grandes momentos de ação dos grandes livros estrangeiros de fantasia. Sjala, ainda transformada em garça, chega a aldeia das icamiabas, uma cidadela fortificada construída sobre o rio. É recebida pelas guerreiras com um misto de desconfiança e fascinação. As amazonas, que dizem ser descendentes dos atlantes, dominam uma série de instrumentos de tecnologia desconhecida, trunfos contra os muitos inimigos que têm. Mas agora cobiçam o talento de se transformar em ave demonstrado por Sjala que, por isso, é aprisionada até que se recupere o bastante para ensinar-lhes o encanto. Mesmo contida pela magia da cidadela, Sjala elabora um novo plano de fuga, convocando mentalmente para ajudá-la o monstro do mar Kraken. Enquanto as icamiabas esperam que a sacerdotisa viking se recupere, Tajarê planeja o ataque definitivo à cidadela. Para isso, usa todos o expediente de magia que tem a sua disposição, arregimentando um grande número de entidades da natureza, entre elas o poderoso Mboitatá, uma gigantesca cobra que lança fogo pelos olhos. Mas nada lhe será dado sem um preço, e Tajarê sabe que pode não sobreviver a esse custo. Mas seu amor a Sjala e a Niadorã fala mais alto; com o coração apertado pelas mortes que irá causar, Tajarê aceita seu destino, seja qual for.
Causo mostra competência na construção deste enredo, que é dramático sem ser piegas e violento sem ser gratuito. Explora com competência uma mancheia de lendas e mitologias indígenas, dando ao livro um sabor brasilianista poucas vezes visto na fc&f. O excesso de ufanismo que isso poderia sugerir é compensado com referências à mitologia nórdica que, felizmente, não sobressaem. A forma como o autor aproveitou uma variedade de animais nativos da Amazônia, incorporando-lhes atributos mitológicos, é uma das melhores qualidades da obra. Não é definitiva, mas dá um bom exemplo aos demais autores brasileiros das ricas possibilidades ainda por explorar.
Entretanto, apesar do que a apresentação gráfica do volume sugere, com a ilustração de capa assinada por Lourenço Mutarelli, ilustrações e vinhetas gráficas do próprio autor ao longo de todas as páginas internas, e a própria narrativa de fantasia heróica, A sombra dos homens não é um livro infantojuvenil. O texto não apresenta leitura fácil, com a fluidez adequada para crianças e jovens, pois Causo elaborou uma estrutura linguística criativa para modular a identidade dos diversos personagens e culturas, usando palavras incomuns e construções gramaticais exóticas em maior ou menor grau conforme a "indianização" dos mesmos. Resultou, mas esse instrumento exige uma concentração de leitura que pode dificultar a aceitação do texto por leitores pouco tolerantes. A complicada gramática criada pelo autor não é muito elegante, além de ser contraditória em si. Uma língua que não gerou a ideia de uma primeira pessoa do singular não iria permitir insigts de individualidade por parte de seus interlocutores.
Um problema adicional que pode incomodar o leitor exigente é a falta de profundidade do protagonista. Uma vez que Tajarê segue o arquétipo do herói, isso já lhe dá dificuldades para ser "redondo", pois um arquétipo que ganha profundidade deixa imediatamente de ser um arquétipo. Mas o mais visível é que, apesar de ser obviamente um índio, Tajarê não apresenta nacionalidade específica. É um índio genérico, que tanto poderia ser Tupi-Guarani, Tapajó, Xavante ou Caiapó. É de esperar que, aos olhos dos homens brancos, os índios pareçam todos iguais, mas eles não são. Elaborar um índio brasileiro autêntico é tão difícil quanto um viking, talvez mais. Isso não implicaria em conspurcar o arquétipo do protagonista, pois os traços culturais indígenas mais visíveis estão na arquitetura das moradias, na religião, na língua, nos costumes sociais e alimentares, etc. Causo deu pouca atenção a isso, infelizmente, passando muito rápido pelas descrições que poderiam colaborar no estabelecimento dessa identidade, dando ainda ao trabalho alguma profundidade antropológica. Esse descuido não atrapalha a narrativa, mas enfraquece o valor da obra, que poderia ter sido muito enriquecida por uma pesquisa mais profunda.
Ainda assim, superada a dificuldade inicial com a gramática heterodoxa, A Sombra dos Homens é um trabalho que se lê com prazer e que se reveste de dimensão significativa no panorama da FC&F brasileira; um trabalho que deve ser lido e discutido por suas muitas contribuições e sugestões ao gênero.
Ainda vale ressaltar a introdução luxuosa que o jornalista, compositor e escritor Braulio Tavares cedeu ao volume, um ensaio sobre o mito do herói, o herói realista, o herói brasileiro e o aproveitamento que Roberto Causo faz disso no texto que se segue.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Cidade e as Estrelas, Arthur C. Clarke

A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars), Arthur C. Clarke, 278 páginas. Tradução de Hélio Pólvora. Arte de capa: Vagner Vargas. Devir Livraria, Coleção Pulsar, 2012.

Desde a sua morte em 2008 Arthur C. Clarke tem recuperado parte de seu merecido espaço no mercado editorial brasileiro. Seus três livros mais importantes foram relançados no país desde então. A editora Aleph trouxe de volta O Fim da Infância (em 2010) e Encontro com Rama (em 2011), em duas edições caprichadas. E em 2012 foi a vez da Devir também fazer um trabalho editorial de relevo – a começar pela belíssima capa – ao relançar o cultuado A Cidade e as Estrelas.
Talvez o leitor estranhe chamar o livro de cultuado. É que, para além do prestígio que o livro adquiriu quase que imediatamente quando lançado em 1956, tornando-se um clássico nos anos seguintes, eu tenho uma relação pessoal com este livro.
A Cidade e as Estrelas foi o livro que inaugurou minha sequência de leituras regulares de FC, que vem desde o distante ano de 1985, quando tinha os meus 17 anos. É provável que todo leitor de FC tenha aquele livro que o fisgou em definitivo para o gênero. Pense no seu. No meu caso foi justamente A Cidade e as Estrelas.
O relançamento da Devir é oportuno pelo fato da última edição no país ter sido da Abril Cultural, em 1984. Mas para mim também foi interessante porque me permitiu reler o livro e, inevitavelmente, comparar com as impressões que tive quando o li pela primeira vez.
Alguns dizem – não sem razão – que reler um livro de que se gostou na juventude é arriscado, pois o livro pode ter envelhecido, ou mais provavelmente o leitor é que se tornou mais amargo. O que posso dizer é que reler A Cidade e as Estrelas me surpreendeu de novo. Não imaginava sentir o mesmo sense of wonder, mas se tal não foi o caso esteve próximo.
A Cidade e as Estrelas conta a história de Diaspar, uma cidade em forma de cúpula, hipertecnológica, que se isolou do resto da Terra, e do Universo. Criou uma utopia em que viceja o bem-estar material a ponto de abolir a própria morte. A construção desta cidade, governada por um supercomputador, é envolta em mistérios perdidos num tempo suficientemente longo para toda verdade ficar esmaecida: um bilhão de anos no futuro. Os humanos teriam conquistado a galáxia, mas sido expulsos de sua glória estelar por outra raça, chamada de Invasores. Não seríamos destruídos se nos recolhêssemos ao nosso planeta. Diaspar, portanto, seria o resultado desta guerra perdida. O recolhimento pelo medo da extinção, que se tornou o receio do desconhecido, não para além da Terra, mas para além dos próprios limites de Diaspar.
Os habitantes de Diaspar tinham uma vida praticamente imortal, pois depois de centenas de anos “adormeciam” para renascerem em novos corpos a partir dos dados pessoais armazenados por um banco de memórias ativados pelo Computador Central. Os criadores da cidade, contudo, queriam, de tempos em tempos, incutir alguma variação à monotonia da utopia. Programaram, então, o nascimento dos Únicos. Pessoas diferentes, sem passado anterior – pois os demais habitantes lembravam de suas vidas passadas –, que trariam consigo um valor humano esquecido: a curiosidade, o desbravamento do desconhecido. Alvin vem cumprir este papel, tornando-se o único que tirará os habitantes de Diaspar de seu conforto letárgico e os confrontará com verdades incômodas, mas necessárias à sua sobrevivência. Como parte disso, Alvin foge e descobre a pastoral comunidade de Lys, uma outra construção utópica humana na Terra, mas com valores distintos: reina a vida simples, o ciclo normal de vida e morte e a capacidade telepática, talvez o grande trunfo deste outro povo. Contudo, também cultivam a solidão e o medo do desconhecido.
A Cidade e as Estrelas permite muitas leituras. Uma delas é da dicotomia entre dois modos de vida, representados por Diaspar e Lys. No fundo o que Clarke sugere é que as duas utopias não se bastam a si mesmas, mas o que mais lhes falta só pode ser encontrado no seu oposto. Contudo, o centro do romance está na figura de Alvin, um personagem admirável em sua coragem e ingenuidade, representando de forma clara, o sentido de especulação e curiosidade inata da própria ficção científica como forma de expressão artística. Creio que poucos personagens expressaram tão bem o sentido de mudança tão caro ao gênero. Outra interpretação possível é ver em Alvin a figura de um enviado – neste caso seria de alguém programado –, um messias que altera de forma radical e definitiva a vida e os valores de todos.
Este romance de Clarke teve uma versão anterior publicada em 1946 chamada de Anti-Crepúsculo (Against the Fall of Night). Uma novela que Clarke reconhecia carecer de mais contextualização sobre as ideias e tramas que criara. E assim ele o reescreve e transforma, dez anos depois, no romance A Cidade e as Estrelas. De fato uma obra mais bem trabalhada e acabada, tanto em termos narrativos como no desenvolvimento do enredo.
Em A Cidade e as Estrelas, Clarke mostra sua visão de mundo cósmica, de como deverá ser inevitável para o homem – em algum momento de sua história – ter de lidar com o Universo, com todas as possíveis implicações científicas, filosóficas e religiosas. Mas talvez possamos afirmar que esta visão clarkeana da transcendência cósmica do Homem têm um aspecto mais, digamos, luminoso e otimista, do que visto, por exemplo, no romance O Fim da Infância (Childhood´s End, de 1953). Pois neste o homem, prestes a alcançar o espaço, é surpreendido pela chegada dos Senhores Supremos que o impedem de sair da Terra e o tiraniza. Constróem uma outra utopia social, mas esmagam os sonhos humanos de liberdade e exploração  do universo. É curioso que em A Cidade e as Estrelas ocorre o inverso: o homem teria chegado aos confins da galáxia, mas também devido ao contato com uma inteligência alienígena, fora obrigado a se recolher no seu casulo, a Terra.
O sentido mais otimista de Clarke em A Cidade e as Estrelas se dá pelo tom abertamente exploratório do livro, de excitação pela descoberta do desconhecido, a despeito – ou até por causa – da estrutura social contrária solidamente estabelecida há um bilhão de anos. Alvin lidera a Terra à sua redescoberta e, mais que isso, a suas verdades perdidas nas brumas do tempo.
Por contraste, vemos em O Fim da Infância uma visão pessimista do destino do homem. De como nossa instabilidade política e imaturidade social nos renega a saída para o espaço e nos aprisiona para um fim alheio ao nosso livre-arbítrio, nas mãos de civilizações extraterrenas misteriosas e com objetivos obscuros. Em certo sentido o romance (e o filme), 2001, Uma Odisséia no Espaço (ambos de 1968), recupera uma certo sentido de redenção cósmica menos sombria, ainda que não clara sobre o destino final do homem.
Já em A Cidade e as Estrelas, Clarke estava, de fato, muito inspirado, não só em termos filosóficos e cognitivos, mas também em termos narrativos, com algumas passagens absolutamente admiráveis. Como quando Alvin e seu companheiro Hilvar chegam aos Sete Sóis, nos confins da galáxia; quando as verdades ocultas sobre o passado distante são reveladas, pela enigmática mente pura de Vanamonde; em momentos simples, mas líricos como, por exemplo, quando Alvim visualiza a chegada da noite nos limites da cúpula de Diaspar.  Uma epifania. Além disso, Clarke também especula com sagacidade sobre temas como realidade virtual, inteligência artificial, controle climático, imortalidade e telepatia com uma elegância poucas vezes retomada na literatura de FC. Enfim, um livro magnífico.
Alguns críticos o acusam de pender para soluções pulp em algumas passagens, especialmente na conclusão do livro. Pode até ser, pois a história se situa no contexto do tipo de FC padrão que se praticava na época, a Golden Age, possuindo um ritmo de aventura e voluntarismo que soa pouco verossímil em algumas passagens, como quando algumas questões são resolvidas rapidamente, como que para não atrapalhar o ritmo principal do enredo narrado. Mas não creio que isso diminua a obra, pois poucas vezes um livro de FC apresentou tal riqueza de ideias e profusão de soluções interessantes. Clarke estava no auge da criatividade e do seu lirismo como autor. E isto transparece página após página, num processo de crescimento até o clímax.
Se me arrependi de alguma coisa nesta releitura de A Cidade e as Estrelas foi ter ficado tantos anos sem relê-lo. O arrepio na pele que senti ao encerrar a leitura me lembrou o da adolescência, e isso só realça porque, ao menos para mim, este é um dos mais belos livros de ficção científica já escritos. 
Marcello Simão Branco

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Anjos, mutantes e dragões, Ivanir Calado

Anjos, mutantes e dragões, Ivanir Calado. 296 páginas. Capa: Benson Chin. Introdução de Sylvio Gonçalves. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Ivanir Calado, escritor carioca de Nova Friburgo, é dono de um trabalho significativo dentro dos gêneros fantásticos. Estreou em 1985, com os romances infantojuvenis O grilo do grilo e A salamandra de jade.
Em 1990 publicou A mãe do sonho, jornada de horror ao estilo de Stephen King, com mitologia indígena em doses generosas. Em 1992, publicou a novela juvenil O lago da memória e o romance histórico A imperatriz do fim do mundo que, embora seja pouco lembrado dentro do fandom, teve boa acolhida no mainstream e serviu de referência para a minissérie global O quinto dos infernos.
Depois de um período de dez anos sem um novo livro, Calado publicou em 2002 o romance de fantasia A caverna dos titãs e mais cinco anos depois, O mundo das sombras: O nascimento do vampiro. Os longos intervalos entre os livros foram ocupados com a publicação muitos contos publicados em diversas antologias.
Anjos, mutantes e dragões é resultado da reunião desses contos em um único volume. O livro, publicado pela Devir Livraria em sua Coleção Pulsar, foi dividido pelo organizador Roberto de Sousa Causo, em cinco capítulos distintos, cada um voltado para um momento específico do trabalho do autor.
O primeiro comporta um único conto, o perturbador "Paradoxo de Narciso", publicado originalmente em 1991 no extinto periódico Isaac Asimov Magazine. O texto narra um encontro muito íntimo de um viajante do tempo consigo mesmo.
A segunda parte apresenta três noveletas, que foram publicadas em 1994 na coleção Fatos e Relatos, da Ediouro. Os contos foram escritos por encomenda a partir de sugestões da organizadora da coleção, Helena Rodarte. "O refém" parte de uma premissa algo convencional na literatura moderna, a violência urbana e a marginalidade. Uma dupla de delinquentes invade um apartamento e faz um garoto como refém. Assustado, o menino tem sua mente perturbada por uma aventura imaginária na qual ele é o piloto de uma espaçonave sendo sequestrado por alienígenas beligerantes. As duas narrativas vão se sobrepondo até o leitor ter dúvidas sobre qual delas é a real.
"Tia Moira" é mais lírica, mas não deixa de guardar uma certa familiaridade com o naturalismo mainstream. Conta o drama de uma família de classe média que se vê agitada pelas previsões de Moira, uma tia solteirona viciada em telenovelas. O imponderável surge quando um dos filhos nota que as previsões da Tia Moira sobre uma telenovela estão se manifestando em sua própria vida. A ideia não é inédita na fc, mas é realizada com muita classe e identidade, sendo um dos pontos altos do volume.
Em "O anjo", Calado volta ao tema das viagens no tempo, contando a história do principal líder da sociedade de um Rio de Janeiro futuro e utópico, que acredita que seu sucesso é fruto das desgraças passadas de sua vida. O dilema se impõe quando chega a ele um artefato revolucionário que pode permitir que evite suas tragédias pessoais, arriscando porém a integridade do futuro positivista que ajudou a construir. Tal como em "O refém", o leitor será parte importante no desfecho da narrativa.
A terceira parte da antologia é composta por sete contos curtos dedicados a cada um dos pecados capitais. Os textos também foram resultado da encomenda de Helena Rodarte, e publicados em 1995 na coleção Eles são sete, da Ediouro. Quatro contos acontecem no mesmo universo. "Bobo (A ira)" é uma história pungente, sobre uma civilização alienígena dominada por um governo totalitário em que uma casta de humoristas propositalmente deformada apresenta um espetáculo autorizado de crítica ao governo. "O dia do dragão (Preguiça)" é quase uma releitura de O hobitt, de J. R. R. Tolkien. Numa aldeia escravizada por um dragão, um jovem é escolhido para ser a oferenda anual que vai alimentar o monstro. Decidido a não morrer sem luta, resolve atacar o dragão de surpresa e matá-lo. Em "Kilumbo (Orgulho)" e "A volta do dragão (Avareza)", um ancião de uma raça alienígena conta ao neto histórias de seu passado. São estas duas narrativas que amarram as quatro num único contexto cenográfico.
As outras três histórias são independentes. Em "Operação Lobo (A gula)" ex-espiões da guerra fria trocam confidências numa mesa de bar e um deles conta uma de suas aventuras mais secretas. "Não é por inveja (Inveja)" é uma narrativa em primeira pessoa, na qual um estudante e seu melhor amigo passam pela vida acadêmica numa relação de amor e ódio que, por falta de sinceridade, pode culminar em tragédia. "Avthar (Luxúria)" fecha o capítulo como o melhor conto dessa série. Um menino chega a puberdade e desenvolve o poder de restaurar a vida animal e vegetal a sua volta quando tem orgasmos. Porém, os sacerdotes do lugar não concordam com o valor de seus milagres e o banem para uma ilha deserta até que ele consiga purificar seu poder.
A quarta parte da antologia traz dois contos publicados em 2000 na coleção Aventura no tempo, da Editora Record, em referência aos 500 anos do descobrimento do Brasil. "Foi assim (Talvez)" é uma interessante reconstrução do Brasil pré-cabralino e romantiza o encontro dos hoje extintos Homens do Sambaqui com uma desconhecida raça de índios mais forte e melhor equipada. O segundo conto é "A carta do filho da puta", uma narrativa epistolar na qual um grumete analfabeto escreve uma carta imaginária a sua mãe, igualmente analfabeta, contando seus sofrimentos, dissabores e alegrias vividos durante a viagem da esquadra de Cabral ao Brasil, em 1500, da qual ele fazia parte.
A quinta e última parte apresenta dois textos, sendo o primeiro o único texto inédito da antologia, o conto "Eleanor Rigby", inspirado numa canção da banda britânica The Beatles, originalmente escrita para compor uma antologia temática de autores fãs nos anos 1980, que nunca foi publicada. O texto destaca-se também por ser o único no qual o autor fez experiências formais, com frases inacabadas e períodos truncados.
Fecha o volume a notável novela cyberpunk "O altar dos nossos corações", publicado originalmente na antologia lusófona O Atlântico tem duas margens (Caminho, 1993), que consagrou Ivanir entre os grande nomes da fc&f nacional.  A história fala sobre a corrupção do governo brasileiro, as trapaças, armações, acordos escusos e o controle da verdade pela mídia, em meio a uma sociedade desonesta e violenta controlada pelo crime organizado. Escrita há duas décadas, a novela continua atual e impactante.
Ivanir Calado que, além de escritor, é músico, compositor, tradutor e diretor de teatro, confirma nesta antologia todas as qualidades autorais demonstradas em seus romances. Um trabalho que agrada tanto aos jovens quanto aos veteranos leitores de fc&f, pois navega em todos os gêneros com desenvoltura e qualidade. Um volume que certamente vai satisfazer até aos leitores mais exigentes.
Cesar Silva

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Tempo fechado, Bruce Sterling


Tempo fechado (Heavy weather), Bruce Sterling. Tradução de Carlos Angelo. Capa de Vagner Vargas. Devir Livraria, São Paulo, 2008.

O escritor texano Bruce Sterling é um dos baluartes de um movimento estético e conceitual da fc que ficou conhecido como cyberpunk. Teve publicado anteriormente no Brasil apenas o romance Piratas de dados (Islands in the net, 1988) pela editora Aleph, além de alguns contos. O estilo de Sterling é arejado, agradável de ler, sem afetações e bastante interessante no que se refere aos temas propostos.
Tempo fechado conta a história dos irmão Alejandro (Alex) e Juanita (Jane), herdeiros de uma enorme fortuna mas que tiveram o azar de ter um pai controlador e nascer num mundo em processo de demolição por conta de incontornáveis prejuízos ambientais causados pela ação humana desregrada. As fronteiras internacionais praticamente não existem para eles, que vivem de uma forma selvagem, deslocando-se ilegalmente, escondendo-se do pai e um do outro. No início da história, Alex – que sofre de bronquite crônica aguda – está em tratamento de saúde numa clínica ilegal no México, gastando os tubos com medicamentos experimentais. Ele passa a maior parte do tempo drogado, mas Jane tem outros planos para o irmão. Com um equipamento de espionagem sofisticado, ela invade a clínica, resgata Alex e o carrega, num veículo todo-terreno que mais parece um robô, até uma região no meio-oeste americano onde há grande incidência de tornados – que têm sido cada vez mais violentos depois que as alterações climáticas interferiram no equilíbrio ambiental do mundo inteiro. Jane faz parte da Trupe Intempestiva, uma equipe de especialistas em tornados, cujo líder, Jerry, previu através de ensaios matemáticos a formação de um super-tornado que pode devastar toda a região e alterar definitivamente o clima global. Ninguém acredita que esse tornado possa acontecer, mas toda a Trupe espera que sim e se prepara caçando e estudando tornados menores. As previsões de Jerry indicam que o fenômeno deve acontecer dentro de alguma semanas e, por isso, todos estão ansiosos. Aos poucos, entendemos que Jane arriscou-se tirando o irmão da clínica mafiosa porque, no final das contas, estava completamente falida e esperava que o irmão pudesse suprir as necessidades financeiras da Trupe com a sua parte da herança familiar. Mas Alex vai além. Apesar da saúde comprometida, prova ser suficientemente rústico para se dar bem na Trupe. Ele realmente espera morrer no supertornado e assim dar algum sentido à sua vida. Mas a aventura pode ser um pouco mais complicada. Sempre é.
Conheci Sterling pessoalmente em 1997, durante a V InteriorCon, em Sumaré. Um cara muito simples e acessível, apreciador de churrasco e caipirinha, e penso que Alex é uma espécie de alter-ego dele. Como seus personagens, Sterling vive em deslocamento, cada hora num país diferente – quando esteve no Brasil, por exemplo, estava vindo de um temporada na Rússia. Apaixonado por culturas exóticas, aproveita para colocar essa rica experiência em sua literatura, o que acabou por caracterizar também o movimento cyberpunk como um todo. Ler Sterling acrescenta camadas de entendimento sobre o cyberpunk, que vai muito além de jargão tecno, brutalismo e óculos espelhados.
Sterling conta histórias que se passam no futuro tão próximo que mal chega a ser fantástico. Fala de coisas que já estão no dia-a-dia, que vemos ao nosso redor. Há seres humanos de verdade nas suas histórias, em situações que poderiam estar acontecendo de fato. 
Tempo fechado é uma história no seu tempo certo, colocando em debate a nossa responsabilidade coletiva, ou a falta dela, no cuidado com a natureza, o meio ambiente e o próprio homem. Afinal de contas, o tal supertornado pode até não acontecer, mas sabemos que a realidade sempre supera a ficção.
Cesar Silva

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Zeladores, Nathan Cornes & Mr. Guache


Zeladores, Nathan Cornes & Mr. Guache. 64 páginas. Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Um dos derradeiros recursos dos quadrinhos no Brasil é o financiamento estatal. Já não é de hoje que as Secretarias de Cultura de diversos Estados dedicam recursos públicos para socorrer a cada vez menor publicação de quadrinhos brasileiros. Em São Paulo, o programa mais em voga é o Proac que, a cada ano, seleciona através de um burocrático edital, um punhado de projetos que julga merecedores da verba, que atrai o interesse das editoras.
Foi o caso do álbum Zeladores, publicado em 2010 pela Devir Livraria, baseado numa série publicada na internet, disponível  aqui.
O desenho de Mr. Guache (Anderson Almeida) é moderno e de cores vibrantes, com uma estilização forte e angulosa. O argumento, do espanhol Nathan Cornes, tem contornos míticos e cosmológicos de textura lovecraftiana, lembrando imediatamente Hellboy, personagem de aventuras tenebrosas do norte americano Mike Mignola, com elementos dramáticos que também remetem aos romances do britânico Neil Gaiman, Os filhos de Anansi (Conrad, 2006) e Deuses americanos (Conrad, 2002).
O herói da história é a entidade sobrenatural Zé Pilintra, protetor da cidade de São Paolo (com "o" mesmo). Pilintra detém uma bengala que lhe dá força espiritual para cuidar da cidade.
Ramalho, um ex-traficante de escravos que adquiriu a imortalidade e, para variar, quer dominar o mundo, pretende libertar o deus Anhagá, aprisionado em um lugar desconhecido. Para localizá-lo e libertá-lo, Ramalho precisa da bengala. Ele já teve a bengala uma vez, quando conseguiu a façanha de matar Zé Pilintra, e agora ambos terão de se confrontar novamente para um tirateima.
Um aspecto que enfraquece a história é que o teoricamente astuto Zé Pilintra demonstra não ter força e habilidade suficientes para enfrentar o medíocre e falastrão Ramalho, e até precisa da ajuda de outras entidades para não morrer outra vez.
A história até começa bem e assim vai até mais ou menos a metade, quando a narrativa perde o fôlego. Falta-lhe o aspecto humano: o leitor não se identifica com qualquer dos personagens, todos entidades sobrenaturais impiedosas, verdadeiros monstros. Também falha na tentativa de fazer humor negro, descambando para a paródia e comprometendo a frágil credibilidade da trama.
O que resgata o trabalho do simples pastiche são as citações à mitologia brasileira de fundo africano e indígena, que deve ser o que garantiu a simpatia da Secretaria da Cultura para aprovar o financiamento da obra. Mas poderia ser melhor.
Cesar Silva