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terça-feira, 3 de março de 2015

Jonathan Strange & Mr. Norrell, Susanna Clarke

Jonathan Strange & Mr. Norrell, Susanna Clarke. 818 páginas. Ilustrações de Portia Rosenberg, tradução de José Antonio Arantes. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2005.

Por volta de 1806 o Inglaterra passava por dificuldades dramáticas. Napoleão Bonaparte conquistara toda a Europa e estava às portas das ilhas britânicas. Havia dificuldades para o povo, que passava por tempos bicudos. Em York havia uma muito respeitada associação de magos, a Sociedade Culta dos Magos de York, que reunia-se periodicamente para discutir magia. Certo dia, um jovem membro da confraria, chamado Secundus, ousou fazer a pergunta fatídica: “por que não se praticava mais magia na Inglaterra?”
É claro que tal pergunta causou embaraço aos magos. Afinal, todo mundo sabia que apenas o estudo da história da magia era algo respeitável. Não era de bom tom praticar magia, coisa de trapaceiros, espertalhões e vagabundos que faziam truques baratos nas ruas para ganhar trocados dos transeuntes crédulos. Isso posto, voltaram aos seus estudos e discussões, deixando o pobre Secundus abandonado em seu canto. Mas um daqueles homens veneráveis acabou por compartilhar da dúvida dele. Mr. Honeyfoot aproximou-se de Secundus e ambos planejaram procurar a opinião de um mago recluso, um tal Mr. Norrel, que morava numa herdade afastada em Hurtfew Abbey. Depois de trocarem algumas cartas combinando o encontro, foram visitá-lo. Mr. Norrell residia numa casa severa, mas confortável, e possuía a maior biblioteca de livros de magia que qualquer mago jamais vira. Era, de fato, um fanático por livros e passava todas as horas de seus dias enfiado nessa biblioteca. Livros raríssimos ali estavam, muitos centenários, exemplares únicos escritos a mão por seus próprios autores. Livros sobre magia que encantaram Mr. Honneyfoot, mas também muitos livros DE magia, escritos por magos antigos e esquecidos pelo mundo. Ao ser questionado sobre o motivo de não haver mais magia na Inglaterra, Mr. Norrel preferiu aceitar o desafio de ele mesmo realizar um ato de magia. Para isso, marcou data, hora e local, a igreja de York. No dia e hora marcados, todos os desconfiados membros da Sociedade Culta dos Magos de York compareceram à igreja para testemunhar, na hora exata, a pretensa manifestação de magia de Mr. Norrell. O mesmo, porém, não se apresentava ali. Enviara apenas um criado, Mr. Childermass, pois para realizar magia não era preciso que o mago estivesse presente. Nem mesmo Childermass era necessário ali. Ele compareceu apenas para trazer um tipo de contrato que todos os magos da Sociedade deveriam assinar. Ele condicionava que, em caso de uma demonstração satisfatória, a Sociedade Culta dos Magos de York deveria ser dissolvida e todos os seus membros deveriam abandonar imediatamente os estudos de magia.
Aceita a condição, todos reuniram-se na nave da igreja e testemunharam, boquiabertos, cada uma das estátuas de pedra ­ santos, gárgulas, e até os rococós barrocos e os motivos florais ­ ganharem uma súbita e voluptuosa loquacidade, discursando, cantando, dançando e toda a gama possível de coisas que uma estátua viva poderia fazer, inclusive contando segredos que deixaram os magos de cabelos em pé. Era o fim da Sociedade Culta dos Magos de York.
Assim principia a saga de Jonathan Strange & Mr. Norrell no surpreendente universo alternativo que a escritora britânica Susanna Clarke criou e desenvolveu até os seus mínimos detalhes, e lhe valeu o merecido Prêmio Hugo de melhor romance de 2005. O volume massivo, com mais de 800 páginas, assusta, mas não são páginas difíceis de devorar e, como em toda boa novela, voam uma pós a outra até que o leitor se vê desejando que elas não acabem nunca.
O livro foi dividido em três tomos principais, mais ou menos autônomos. No primeiro, chamado " Mr. Norrell", acompanhamos o ressurgimento da magia inglesa através das ações de Norrell em sua busca por estabelecer uma esfera de influência na corte, e cada um dos pequenos detalhes necessários à construção da maior parte dos personagens importantes à trama, bem como ao entendimento desse universo em tudo semelhante ao nosso, exceto pelo fato da magia ser uma força funcional, esquecida, mas passível de ser recuperada. A autora recria a história pregressa da  Inglaterra, contando sobre um reino autônomo no norte da ilha no qual, por algumas centenas de anos, imperou um mago poderoso, o Rei Corvo, chamado entre os homens de John Uskglass, que desapareceu repentinamente em certa altura.
Nos tempos do Rei Corvo, as estradas entre o mundo dos homens e o mundo encantado estavam francamente abertas, homens e seres mágicos circulavam livremente entre os mundos. Na ausência do Rei Corvo, essas ligações foram desaparecendo e caindo no esquecimento. Durante esse período, ainda existiram magos práticos, que fizeram maravilhas e deixaram livros com suas instruções. Foram os magos áureos, que usavam as estradas do Rei Corvo e mantinham servos mágicos, o que lhes garantia um acréscimo significativo de poder. Depois deles vieram os magos argênteos, bem menos poderosos, geralmente dedicados a estudos acadêmicos da magia e, seguido-se a eles, mais de 200 anos de esquecimento. Porém, muitos dos homens das terras do norte esperam a volta do Rei Corvo e mesmo aqueles que dele não se recordam, comungam dessa mesma esperança em seu íntimo mais profundo. Além do que, as terras do norte estão ainda encharcadas do poder da magia adormecida do rei Corvo e, eventualmente, coisas inexplicáveis acontecem.
Essa superestrutura pseudo-histórica é construída ao longo de todo o livro, tanto nas ações e diálogos do texto principal, quanto em numerosas e deliciosas notas de pé-de-página, algumas bastante extensas, que formam um livro a parte dentro do romance e emprestam a ele uma sensação de realismo eficiente. Muitas dessas pequenas histórias são tão interessantes que, bem desenvolvidas, cada uma delas resultaria em um romance muito bom.
Na sequência dos fatos desta primeira parte, Mr. Norrel, confiante na notoriedade adquirida com o sucesso de sua demonstração de magia em York, transferiu-se para Londres para estabelecer-se, junto a sociedade londrina como o único mago em atividade na Inglaterra. Pretendia oferecer seus serviços à Coroa e servir ao país na guerra, usando suas habilidade e conhecimentos mágicos para enfrentar Napoleão. Mas os militares não estavam dispostos a aceitar esse tipo de ajuda, na qual não confiavam. Foi quando Norrel, já um tanto deprimido, teve a chance de demonstrar mais uma vez seus poderes quando a jovem noiva de um figurão faleceu. Chamado com urgência, Norrell foi encarregado de ressuscitá-la e, muito a contragosto, o fez, selando para isso uma pacto com um ser mágico que viria a se tornar um grande problema não apenas para o próprio Norrell, mas para toda a comunidade britânica.
Na segunda parte do livro, chamada "Jonathan Strange" , somos enfim apresentados ao protagonista do romance. Herdeiro de uma grande fortuna e absolutamente incompetente em quase tudo o que um homem pode fazer, Jonathan decidiu finalmente que seria um mago. Passou a pesquisar por conta própria e, apesar da pouca oferta de literatura adequada – afinal, TODOS os livros de magia estavam seguramente guardados na biblioteca de Norrell – conseguiu executar alguns encantamentos notáveis que logo o elevaram a categoria de segundo maior mago da Inglaterra.
Isso bastou para que Norrel quisesse conhecê-lo e, apesar de todos esperarem que os dois magos não se simpatizariam, acabaram se entendendo muito bem um com outro, de modo que desde então Strange passou a ser aprendiz de Norrell. É claro que havia segundas intenções de parte a parte. Enquanto Strange via em Norrell a única oportunidade de lhe ser franqueado o acesso a mais completa e relevante literatura sobre magia disponível na Inglaterra, Norrell queria orientar seu pupilo na sua própria filosofia mágica e evitar que ele restabelecesse, como era evidente que faria, o tipo de prática mágica do desaparecido John Uskglass, que Norrell abominava.
Quando Strange é convocado para servir a Inglaterra junto ao Lorde Wellington contra as tropas de francesas em Portugal, é que a história deste livro finalmente começa. Strange tem que improvisar no campo de batalha e, aos poucos, com erros e acertos, conquista o respeito e a confiança de Wellington, retornando para a Inglaterra como herói nacional. Quando Napoleão realiza uma grande investida final, Strange é novamente convocado para a batalha. Desta vez os combates são ainda mais ferozes e Strange novamente prova ser uma peça de importância na sangrenta batalha de Waterloo.
Com a Europa pacificada, Strange retorna a Inglaterra para passar algum tempo em férias com sua esposa Arabella e escrever seu primeiro livro. Durante uma temporada em sua residência natal, Arabella é raptada pelo ser mágico que auxiliara Norrel em sua magia necromante, e usa de astúcia para fazer Strange acreditar que ela morreu. A partir desse episódio, a vida de Strange, bem como seu equilíbrio emocional, vão se complicando, decorrente das ações tomadas por ele mesmo e por outros antes dele, inclusive o acomodado Norrell.
A terceira parte, chamada "John Uskglass", é a mais sombria de todo o volume e caracteriza uma história dark fantasy típica. Nela, é lançada a primeira edição do livro de Strange, no qual ele se investe da vocação mágica do Rei Corvo. Isso desgosta profundamente Mr. Norrell e a relação entre os dois magos fica estremecida. Strange rompe com Norrell e viaja para a Itália.
Em Veneza, Strange descobre os mais profundos segredos da magia do Rei Corvo, o destino verdadeiro de sua esposa e a única forma de realmente adquirir poder suficiente para resgatá-la do domínio de perigoso ser mágico que está disposto a matar todos os magos da Inglaterra. Para isso terá de encontrar O LIVRO, o mais poderoso compêndio de magia jamais escrito, de autoria nada menos do próprio Rei Corvo e escrito numa língua exclusiva, por ele inventada. Mas este não é um livro como outro qualquer, pois ele vaga pela Inglaterra, na forma de um homem. Esse torvelinho ainda apresenta outros perigos vindo do mundo encantado, o surgimento de um novo rei para a Inglaterra e a uma tremenda maldição que vai acompanhar Strange até o final de seus dias, quem sabe.
Susanna Clarke prova ser uma excelente construtora de personagens cativantes e profundos. Mesmo aqueles que aparecem apenas durante algumas páginas deixam sua marca na narrativa. Cada detalhe deixado solto em algum lugar é retomado e enovelado cuidadosamente antes de se virar a 817ª página. A autora também demonstra muita habilidade com a pesquisa e a ambientação histórica, e seu romance fica na fronteira entre a fantasia e a história alternativa, gozando plenamente das qualidades de ambos os gêneros.
Cesar Silva

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Associação Judaica de Polícia, Michael Chabon

Associação Judaica de Polícia (The Yiddish Policemen's Union), Michael Chabon. 472 páginas. Tradução de Luis Antônio de Araújo. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2009.

O escritor americano Michael Chabon impactou o ambiente literário com seus livros anteriores, Garotos incríveis (Wonder boys, 1995), As incríveis aventuras de Kavalier & Clay (The amazing adventures of Kavalier & Clay, 2001, prêmio Pullitzer) e Summerland (2002), livros que margeiam a literatura de gênero. E ninguém diria que Associação Judaica de Polícia fosse um texto fantástico. Afinal, não seria de surpreender caso existisse mesmo uma Associação Judaica de Polícia. Mas o livro chegou ao Brasil referendado pelos prêmios Hugo, Nebula e Sidewise, portanto, deve estar instalado em algum lugar entre a ficção científica e a fantasia. O interessante é que não dá para dizer exatamente onde. Há uma premissa de história alternativa, mas ela é apenas uma base cenográfica, já que está claro que o que importa a Chabon não é fazer exercícios acadêmicos de historiografia.
Trata-se da história do detetive de polícia Meyer Landsman que, tarde da noite, é chamado pelo gerente do hotel decadente onde mora para ver o que aconteceu a outro morador, um jovem viciado em heroína que foi executado em seu quarto. O estranho morto a tiro é um judeu, como são todos ali em Sitka, cidade litorânea do estado do Alasca. Ao seu lado, um tabuleiro de xadrez com as peças distribuídas numa organização improvável. O detetive faz seu trabalho meticulosamente, aciona o polícia técnica e decide assumir a investigação do caso porque, afinal, ninguém devia ter matado um vizinho dele. Landsman se coloca assim no rastro de um plano terrorista que envolve um atentado a cidade de Jerusalém, o advento do messias dos judeus, a descoberta dos reais motivos da morte de sua irmã alguns anos antes, e a redenção de sua vida miserável.
Na realidade dessa linha histórica, a segunda guerra mundial teve um desfecho ligeiramente diferente. Chabon não detalha essas condições mas, num certo momento, cita uma explosão nuclear em Berlim. Mas o grande efeito visível é que o estado de Israel não foi implementado na Palestina, como em nossa realidade. Sem pátria, os judeus espalhados pelo mundo foram abrigados temporariamente no Alasca, com alguma autonomia política, mas a hora de devolver o território aos EUA se aproxima e a maioria daqueles quatro milhões de judeus não tem a menor ideia para onde ir, uma vez que Israel não existe e ninguém parece muito ansioso em receber esse contingente sem-teto.
O instável estado político reflete-se nas reações entre as personagens. Ali desfilam dramas e idiossincrasias de uma comunidade judia em desconstrução, com rabinos mafiosos, um agrimensor que tem a estranha tarefa de tornar santos os caminhos do judeus ortodoxos, jogadores de xadrez (o único jogo que um judeu pode praticar), enxadristas que mais parecem espiões da guerra fria, milícias paramilitares e um casca-grossa chefe de polícia indígena.
Aos poucos conhecemos a personalidade de Landsman, seus amigos e parentes, como seu parceiro Berko Shemets, um enorme índio tlingit mestiço judeu, que carrega um martelo de guerra que faz tremer o mais valente dos capangas. E sua ex-esposa Bina Gelbfish que, não por acaso, acaba por ser sua chefe de departamento. Landsman ainda nutre algum carinho por ela, mas que os pecados do passado dificultam uma reaproximação.
Está explícita a inversão de valores que Chabon faz com o atentado de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas de Nova York. A imagem das colunas de fumaça negra elevando-se de uma Jerusalém destruída, transmitidas em rede mundial de televisão e sendo festejada às lágrimas pelos militantes judeus, é bastante reveladora. Onde você estava quando Jerusalém queimou?
Chabon adota neste livro um projeto similar ao que vimos em Laranja mecânica (A clockwork orange, 1962), de Anthony Burgess, com um amplo uso de neologismos e gírias inventadas a partir de palavras iídiches e alemãs, associadas ao inglês americano. Um pequeno dicionário ao final ajuda na compreensão desse linguajar. A narrativa é naturalista e seca, de humor irônico muito ácido, com influências óbvias do romance policial de Dashiell Hammett e Raymond Chandler. Traz imagens detalhadas que transportam o leitor aquele ambiente setentrional e, em alguns momentos, flerta até com o faroeste.
Na falta de uma classificação precisa, vamos dizer que Associação Judaica de Polícia seja uma peça de história alternativa. Só para facilitar a percepção de que, de fato, não é.
O romance foi bem recebido no mainstream e teve os direitos reservados para o cinema pelos respeitados irmãos Joel e Ethan Coen.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Obra completa, Murilo Rubião

Obra completa, Murilo Rubião. 232 páginas. Capa: Jeff Fisher. Coleção Companhia de Bolso, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2010.

Sempre que alguém decide relacionar os mais significativos fantasistas da literatura brasileira, o nome do mineiro Murilo Rubião (1916-1991) é um dos primeiros a serem lembrados. E é surpreendente que seja assim, considerando que é um autor pouco lido, cuja obra é reduzida, limitando-se a apenas 33 contos publicados entre 1947 e 1991.
O fato de Rubião ser tão lembrado talvez seja efeito direto da força de seus textos, emotivos, perturbadores e extremamente bem escritos. Era um perfeccionista que nunca dava um texto por terminado. A cada republicação – suas coletâneas sempre traziam republicações ao lado de inéditos – ele os revisava como um joalheiro caprichoso.
Seu primeiro livro foi O ex-mágico, publicado em 1947. Depois vieram A estrela vermelha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias e O convidado (ambos de 1974). Antes de sua morte, ainda publicou A casa do girassol vermelho e O homem do boné cinzento, em 1991. Seus livros foram traduzidos para o inglês, alemão, espanhol, tcheco e publicados em diversos países.
O fantástico de Rubião é muito pessoal. O absurdo surge de forma natural, sendo aceito placidamente pelos personagens, como nas histórias de Franz Kafka (1833-1924). Não se trata exatamente de uma ficção de gênero e é de difícil classificação. Tal como os textos de outro importante fantasista brasileiro contemporâneo, o goiano José J. Veiga (1915-1999), Rubião não segue protocolos específicos. Há um amálgama de ficção científica, fantasia, horror e realismo mágico, num naturalismo muitas vezes desconcertante e, quase sempre, exasperante.
Rubião afirmava ter sido influenciado pela leitura de Machado de Assis e da Bíblia Sagrada. Tanto que, cada um de seus contos traz uma epígrafe bíblica que dialoga intimamente com o contexto, as vezes sendo eles mesmos a chave do entendimento da história ou da ampliação desse entendimento para outras interpretações.
Obra completa, publicado na coleção de bolso da Companhia das Letras, apresenta num único volume todos os 33 contos que Rubião publicou em vida (ele deixou alguns trabalhos inéditos), pintando o mais amplo panorama da obra desse escritor.
Destaco aqui alguns daqueles que mais me impressionaram, embora nenhum dos 33 possa ser preterido. Cada conto de Rubião encerra um universo completo a ser explorado e supera qualquer escala de avaliação que eu possa um dia ter sonhado estabelecer.
"O pirotécnico Zacarias" abre a coletânea  e é provavelmente o seu conto mais conhecido. Um homem morre atropelado na beira de uma estrada, mas ressuscita e segue sua existência, mantendo as mesmas atividades de quando ainda vivia.
Em "O ex- mágico da Taberna Minhota" um homem ressente-se da sua habilidade natural de realizar magia verdadeira e vive infeliz por não conseguir ter uma vida normal. Busca desesperadamente pelo anonimato, sempre fracassando, uma vez que não tem controle sobre seus poderes. Um dia, porém, a magia acaba.
"Bárbara" narra o martírio de um homem que faz de tudo para satisfazer os pedidos absurdos de sua esposa. E quanto mais ele a adula, mais ela engorda.
Em "A cidade", um caixeiro viajante chega de trem a uma cidade estranha e, quando pede uma informação banal, é preso, porque a polícia estava na captura de um homem perigoso cuja única identificação era que ele fazia perguntas. Desesperado, o homem vê que fica cada vez mais difícil explicar sua inocência, pois cada pergunta reforça sua culpa.
"Os dragões" conta a história de um homem que adota dois filhotes de dragão e os cria como se fosse seus filhos, passando por muitos problemas na educação dos mesmos.
"Teleco, o Coelhinho" é um dos textos mais bizarros da coletânea. Um homem recolhe em sua casa um estranho ser metamorfo, que muda de aparência conforme seu estado de espírito. A princípio a relação é divertida, mas deteriora-se ao longo do tempo até que a vida em comum se torna insuportável.
"O edifício" conta como é executado um ousado projeto arquitetônico: um edifício com centenas de andares. Depois de séculos de trabalho, quando o prédio já atinge 900 andares, o projeto entra em colapso financeiro, desestabilizando a vida de toda a sociedade.
"A fila" é o melhor texto do livro. Um homem do interior vai à cidade grande levando para um industrial importante uma mensagem que só pode ser entregue pessoalmente. Mas a fila de atendimento nunca acaba e sua vida vira um verdadeiro inferno.
Em "O bloqueio" um homem recentemente separado da esposa dominadora, esconde-se no apartamento de um prédio que parece estar sendo demolido.
"A diáspora" conta a história de um grupo de trabalhadores que chega a uma pequena cidade onde se pretende construir uma ponte, mas a população local se recusa a permitir que a obra seja executada.
"Epidólia" tem um componente lovecraftiano perturbador. Conta a história de um homem que persegue obsessivamente a mulher que o abandonou. A busca o leva a um lugar cuja geografia tem um comportamento bizarro, onde ele obtém estranhas revelações sobre a vida da moça.
"O convidado" é um texto que o autor afirma ter passado vinte anos escrevendo. Um homem vai a uma recepção misteriosa, feita em homenagem a um convidado desconhecido. Aborrecido com as pessoas dali, ele tenta ir embora, mas simplesmente não consegue afastar-se do lugar.
Um conceito similar envolve "Os comensais", texto que fecha a coletânea. Um homem faz suas refeições num restaurante em que todos os demais frequentadores estão imóveis. Dia após dia, ele percebe que os rostos mudam, embora ele nunca veja ninguém entrando ou saindo do lugar. Garçons trocam os pratos continuamente, mas apenas ele come o que é servido. Perturbado, ele tenta racionalizar o que acontece, mas quanto mais se envolve na questão, menos sentido encontra.
Como se pode perceber, a obra de Murilo Rubião é vultosa em significados, um amplo cabedal de ideias ainda a ser estudado. Um monumento praticamente desconhecido tanto do grande público quanto do fandom brasileiro, apesar do nome do autor estar na ponta da língua dos comentaristas.
Rubião é, certamente, um dos melhores modelos para uma ficção fantástica brasileira, que ainda se debate em busca de sua fisionomia.
Cesar Silva

sábado, 17 de janeiro de 2015

As miniaturas, Andréa Del Fuego

As miniaturas, Andréa Del Fuego. 128 pgs. Capa de Kiko Farcas e Thiago Lacaz. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2013.

No centro de São Paulo, em frente a Praça da Sé, tem e não tem um edifício chamado Midoro Filho. Por falta de definição melhor, uso a do próprio livro: "...ninguém vê este obelisco espelhado, assim como Napoleão não é par ou ímpar porque essa propriedade não é aplicável, o Midoro Filho não é visível ou não visível, isso não é aplicável". Mas este é um detalhe secundário na narrativa insólita que a escritora paulista Andréa Del Fuego imprime às páginas de As miniaturas, novela de ficção fantástica – quase científica –publicada em 2013 pela Editora Companhia das Letras.
Dentro das inúmeras salas do Edifício Midoro Filho, um batalhão de burocratas indefiníveis, conhecidos como oneiros, prestam um serviço valioso à população da cidade. São eles que, armados com miniaturas plásticas e uma técnica exclusiva, sugerem às pessoas o que sonhar. Todos os dias, cada oneiro atende cerca de 30 sonhantes, sonâmbulos que adentram a sala, sentam na cadeira e são conduzidos em sua jornada onírica.
Há muitas regras no importante ofício dos oneiros. Uma delas é que eles não devem se envolver com os sonhantes. Mas, se já é difícil cumprir esse mister, fica impossível para um deles quando, por um erro na burocracia do edifício, percebe que entre seus sonhantes estão mãe e filho, o que desperta nele emoções irreprimíveis e nada aconselháveis para um oneiro honesto.
A mãe, motorista de táxi quarentona abandonada pelo marido, esforça-se para encaminhar na vida o único filho adolescente, arrumando para ele emprego de frentista no posto de gasolina de seu amante. Entre a luta na praça para ganhar a vida e as incertezas do jovem que ainda acredita na volta do pai, o oneiro vai se perdendo. Sua queda logo é detectada pelos administradores do Midoro Filho, desequilibrando a dinâmica de todo o edifício.
Andréa Del Fuego apresenta um quebra-cabeças intrigante porque não entrega todas as peças, visto que não explica o mecanismo desse improvável atendimento tão fundamental ao ser humano. Nem mesmo os próprios oneiros sabem quem ou o quê são. Eles nunca saem do edifício Midoro Filho, não comem nada além de leite instantâneo e tudo que conhecem chega através do semanário Algodão, publicação interna do edifício que informa tudo e apenas o que eles precisam saber.
A estrutura da novela é fragmentada, intercalando capítulos que focalizam ora a mãe, ora o filho, ora o oneiro mas, no geral, segue uma narrativa cronológica linear. Os capítulos são sempre narrados em primeira pessoa e percebe-se que houve uma sincera tentativa de individualizar a voz de cada personagem, embora isso não fique muito claro na simples leitura – o que realmente funciona é a titulação dos capítulos de acordo com seus respectivos narradores.
As miniaturas sugere bons textos com o qual o leitor pode dialogar. Pelos aspectos formais e a problemática urbana – focada numa relação familiar sob intervenção corporativa –, lembramos de Poeira, demônios e maldições, último romance assinado por Nelson de Oliveira, publicado em 2010 pela editora Língua Geral e agraciado com o prêmio Casa de las Americas; enquanto a imagem onipresente e incompreensível do edifício Midoro Filho e seus oneiros reporta à burocracia opressiva de Asilo nas torres, romance de ficção científica de Ruth Bueno publicado em 1979 pela Editora Ática.
Apesar de suas respeitáveis qualidades e origem – Andréa Del Fuego ganhou em 2010 o prêmio Saramago de literatura – As miniaturas não é um livro pedante nem difícil. Lê-se com prazer e em poucas horas, uma vez que se trata de um novela ágil e bastante interessante, sem os exageros que a fantasia brasileira recente tem insistido oferecer.
As miniaturas é herdeira da autêntica linha evolutiva da ficção fantástica brasileira, repleta de atrativos tanto para o leitor que busca uma história com muitos elementos de estranhamento, quanto aquele que deseja um voo sobre os mistérios da natureza humana.
Cesar Silva

Laços de sangue, Richelle Mead


Bloodlines: Laços de sangue (Bloodlines), Richelle Mead. 432 páginas. Tradução de Ana Ban. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte. São Paulo, 2013.

Não há dúvida que a grande contribuição de Gengis Khan para a cultura ocidental moderna foi a inspiração para o mito do vampiro. O medo das barbaridades creditadas ao conquistador de "além das florestas" circulava à boca pequena nos saraus e espalhou-se pela sociedade, logo assumindo um caráter mitológico ainda mais assustador, como é comum entre o povo inculto. Se até animais comuns da natureza viram feras antropófagas no imaginário popular, nem é preciso imaginar o que Khan virou: ele foi o protótipo do vampiro, mais tarde trabalhado por artistas que lhe deram feições mais europeias e requintadas, aproveitando outros personagens. O vampiro ficou cheio de charme, embora ainda aterrador.
Contudo, autores modernos esforçaram-se em tirar do mito os seus contornos mais tenebrosos, no que foram muito bem sucedidos diga se de passagem. A atual imagem de memória dos vampiros foi devidamente processada e homogenizada, e não oferece risco maior para os seres viventes do que aqueles que já corremos nas mãos de nossos iguais.
A escritora norte americana Richelle Mead é uma dessas autoras "amantes dos vampiros", como ela mesma nomeia a protagonista no primeiro romance da série BloodlinesLaços de sangue, lançamento recente da editora Companhia das Letras através do selo Seguinte, com tradução de Ana Ban. O romance é sequência direta da série bestseller Academia de vampiros, também publicada no Brasil.
A mitologia vampírica de Richelle Mead baseia-se nas ações de uma sociedade secreta chamada de Alquimistas, cuja função é manter o segredo da existência dos vampiros na sociedade. Tal como 'homens de preto', os Alquimistas limpam a sujeira dos vampiros, divulgando versões plausíveis para explicar o rastro de mortes que eles geralmente deixam.
Os vampiros, por sua vez, são divididos em duas linhagens. Os Morois são suficientemente civilizados para viver em meio a sociedade humana e, apesar de terem alguns poderes sobrenaturais e não sofrerem das tradicionais limitações dos vampiros clássicos – podem sair ao Sol, tomar banho, aparecem nos espelhos e nas fotografias, envelhecem normalmente e podem até se reproduzir sexualmente –, são apresentados como criaturas irresponsáveis e frágeis, que precisam da tutela tantos dos alquimistas quanto dos dampiros, lutadores descendentes do cruzamento entre Morois e humanos, conhecidos como Guardiões.
Por terem um importante valor político, os Morois também precisam ser protegidos dos seus 'primos', os Strigois, raça degenerada, sádica e violenta, que se alimenta tantos de humanos quanto de Morois. Os Strigoi são mais parecidos com o mito tradicional, ferozes, perigosos e imortais.
Sydney Sage é uma jovem alquimista recém saída da adolescência, que é requisitada por seus superiores para fazer a proteção da linda, magra e pálida Jill Mastrano, princesa Moroi que precisa ser mantida a salvo de uma conspiração política que pretende assassiná-la. Para isso, ambas são enviadas incógnitas para um colégio interno em Palm Springs, região ensolarada que deve manter os Strigois relativamente à distância. Junto a elas vai o guardião Eddie Castile, dampiro destemido, hábil e totalmente dedicado à Jill.
Contudo, Palm Springs é a área de vigilância do Alquimista canastrão Keith Darnell, com quem Sidney tem uma relação pouco afetuosa. E a princesa terá que ser levada pelo menos uma vez por semana para se alimentar de sangue humano na residência de uma família Moroi na cidade, onde moram o velho meio gagá Clarence Donahue, seu filho Lee – que tem uma certa queda por Jill – e o misterioso e fútil Adrian Ivashkov.
Enquanto Sidney tenta cumprir o papel de babá de Jill, uma série de eventos suspeitos começam a se revelar, como a moda de tatuagens que dá estranhos poderes aos estudantes do grande colégio, assassinatos sucessivos de garotas Morois e o bulling que Jill começa a sofrer por conta de sua aparência invulgar, entre outros problemas da vida acadêmica.
Richelle Mead monta, assim, o cenário para uma história de aventura tipicamente adolescente, com um pouco de ação, um pouco de romance, um pouco de mistério e absolutamente nada do horror que aparentemente sugere. Os vampiros de Mead são belos, glamourosos, relaxados e positivos, mais até que os próprios humanos com quem Sidney parece ter muita dificuldade de se relacionar. A temida ameaça Strigoi praticamente não se apresenta em Laços de sangue, com apenas uma breve participação no trecho final.
O estilo narrativo é suave e naturalista, sendo a maior parte mostrada em forma de diálogo. Mesmo com pouquíssimas cenas de ação, a história se desenvolve com agilidade e suas 430 páginas podem ser lidas em poucas horas. A apresentação do livro é confortável e elegante, com relevos na capa, corpo do texto amplo no miolo em papel pólen soft, que deixa o volume bem leve, apesar da considerável quantidade de páginas.
Em suma, Laços de Sangue é uma história de vampiros perfeitamente recomendável para leitores jovens e, principalmente, para aqueles não gostam de terror: pesadelos não fazem parte do pacote.
Cesar Silva

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O livro das lendas, Shoham Smith


O livro das lendas, Shoham Smith. 128 páginas. Ilustrações de Vali Mintzi. Editora Companhia das Letras, selo Companhia das Letrinhas. São Paulo, 2013.

Há um grande interesse da pedagogia moderna pela pesquisa de lendas vindas de todas as culturas. Não é incomum que me cheguem às mãos livrinhos, publicados pelas mais variadas editoras para serem distribuídos nas escolas públicas, com histórias da tradição chinesa, japonesa, indiana, árabe, africana etc. Mas ainda não tinha encontrado nenhum sobre as lendas judaicas. Talvez porque pareça, aos olhos ocidentais, que todas as histórias judaicas já estão narradas na Bíblia Sagrada. Mas é claro que não é assim. Ainda que a Bíblia contenha, de fato, grande parte da tradição oral judaica e tenha sido, por muito tempo, o livro maior da sua estante, há muito mais que a ela não registra. É não estou falando dos evangelhos apócrifos que fazem tanto sucesso por aí, uma vez que os evangelhos não fazem parte da tradição judaica em questão, que se limita, de fato, aos livros do Antigo Testamento, mas sim das histórias de sabedoria popular.
Shoham Smit é uma escritora de Jerusalém, especialista no campo e conta, na apresentação de O livro das lendas – publicado há poucos meses pela Companhia das Letrinhas com tradução de Paulo Geiger –, que também sentia falta de um compêndio que apresentasse às novas gerações as lendas e costumes judaicos numa linguagem acessível, sem perder a beleza literária dos textos tradicionais.
Inspirada pelo trabalho feito no início do século vinte pelos pesquisadores Bialik e Ravnitzki, da Ucrânia, que então publicaram um compêndio de lendas hebraicas para os jovens, conhecido como Sefer haagadá, ou O livro da lenda, ela decidiu seguir o mesmo caminho. Selecionou histórias diretamente do Talmude e as recontou, auxiliada pelos belos e coloridos desenhos da ilustradora romena Vali Mintzi. O resultado é um atlas cultural com um panorama belíssimo da tradição judaica a través de suas lendas e fábulas milenares.
O livro, que tem 128 paginas, está dividido em três partes principais. Em "Histórias da Bíblia", são contadas lendas de personagens e fatos bíblicos, tais como a Criação, Caim e Abel, Noé e a arca, o dilúvio, a torre de Babel, Abraão, Moisés e Salomão. Não são as histórias que estão na Biblia, mas lendas que falam sobre os interstícios delas como, por exemplo, o que comiam os animais na arca de Noé, como surgiram vários provérbios famosos, por que Moisés era gago, o confronto de sabedoria entre Salomão e a Rainha de Sabá, e muitas outras, algumas delas realmente emocionantes.
Em "Lendas de sábios", a autora vai buscar as histórias de personagens do período do segundo templo, como Choni, Hilel, Chanina ben Dosa, Iehoshua ben Chanina e Ravi Akiva. São narrativas divertidas e curiosas, algumas nitidamente fantasiosas mas, ainda assim, ricas de significados.
A parte final, "Fábulas", conta histórias de sabedoria com homens e animais, algumas delas antecessoras de fábulas europeias mais famosas. Tudo é ainda comentado em notas laterais tão interessantes quanto os textos a qual se referem.
A edição original de O livro das lendas é de 2011, que garante o frescor estilístico de um texto leve e confortável para leitores de todas as idades. Altamente recomendado.
Cesar Silva

Medo: Histórias de terror


Medo: Histórias de terror, Helène Montardre. 240 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2013.

Surgiu nas redes sociais uma corrente na qual os missivistas desafiam-se para relacionar os dez livros mais importantes de suas vidas. A brincadeira, além de divertida, é ótima pra sugerir leituras e dar uma insuspeita profundidade às relações que, nessa mídia, não passam do superficial. É interessante observar como títulos simples, alguns até relegados ao esquecimento, foram determinantes na construção cultural de indivíduos que hoje são formadores de opinião no ambiente literário. Por isso, sempre fui entusiasmado pela literatura infanto-juvenil, que é aquela que, geralmente, inicia o jovem no prazer da leitura.

Pessoalmente, iniciei por romances de aventura e ficção científica – que, ainda hoje, ocupam um espaço importante nas minhas leituras –, e só bem mais tarde fui conhecer o terror através dos contos de Edgar Allan Poe (1809-1849). Mas muitos podem iniciar com esse gênero e Medo: Histórias de terror (Mille ans de frissons) é um livro adequado para maravilhar o leitor em formação, sem deixar de apresentar atrativos também para o leitor maduro. Trata-se de uma antologia de contos de horror escritos por autores do século 19 selecionados por Hélène Montarde, publicada pela Editora Schwarcz através do selo Companhia das Letrinhas.
Como se trata de uma edição original francesa, o volume destaca os autores dessa língua, entre os quais aparecem apenas dois estrangeiros: Poe e os irmãos Grimm, dos EUA e Alemanha, respectivamente. Mas isso não significa que a seleção não seja representativa, pelo contrário.
Dividida em cinco partes, cada uma está dedicada a um tema distinto. A antologia inicia com "Histórias inverossímeis", que trata de fantasmas, aparições e espectros. Abre a seleção "O pé da múmia", de Theóphile Gautier (1811-1872). Trata-se de uma história que une misticismo e egiptologia na aventura fantástica de um homem depois que compra um incomum peso de papéis num antiquário. Este conto, em especial, foi resumido para facilitar o entendimento pelos leitores jovens.
O segundo texto, bem mais sombrio, é "Visão de Carlos XI", um dos primeiros escritos por Prosper Mérimée (1803-1870), que relata a visão de um tétrico tribunal do passado durante uma noite assombrada em um castelo em Estocolmo.
"Aparição" é o primeiro de cinco contos de Guy da Maupassant (1850-1903) selecionados nesta antologia, autor que dedicou boa parte de sua carreira ao gênero fantástico. Na técnica de uma história dentro de outra, o conto fala sobre um jovem corajoso que, para ajudar um amigo, encara o fantasma de sua falecida esposa. O texto seguinte, "A mão" – também de Maupassant –, é sobre a investigação de um crime impossível, no qual um homem foi, aparentemente, assassinado por um dos seus, digamos, troféus de caça.
Além dos contos assinados, a antologia inclui textos colhidos da tradição oral, adaptados aqui pela escritora infanto-juvenil Geneviève Noël. Nesta primeira parte temos dois desses relatos: o conhecido conto "A noite no castelo mal-assombrado", no qual um homem enfrenta, com coragem e inteligência, os fantasmas de um castelo abandonado; e "A dama da neve", conto japonês sobre um homem imprudente que, atraído por uma linda mulher, se perde na floresta durante uma tempestade de neve.
A segunda parte da seleção, "Com mil demônios", elenca contos com o diabo. Gautier volta com "Dois atores para um papel", no qual um ator de talento que interpreta Mefistófeles, tem um encontro com o próprio, que o desafia a fazer melhor. A seguir temos "Inverossímil", único texto de Alexandre Dumas (1802-1870) nesta antologia, com a história de um médico apaixonado por sua cliente que retorna da morte para uma noite de amor com ela. Gérard de Nerval (1809-1855) assina "O monstro verde", sobre um policial corajoso que enfrenta um ataque fantasmagórico, mas não escapa de suas sinistras consequências. "O violino, o baralho e o saco" é uma adaptação de um conto dos irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), uma das muitas versões do viajante valente que enfrenta fantasmas em um castelo, como no já citado "A noite no castelo mal-assombrado".
A terceira parte, "Silêncio mortal", apresenta duas histórias sobre cemitérios. "A morta", de Maupassant, conta sobre uma mulher que é vitimada por um mal desconhecido. O viúvo, desconsolado, passa a noite junto ao túmulo da amada e, a certa altura, se vê rodeado de fantasmas e descobre que há segredos que talvez seja melhor nunca saber. O conto seguinte, "A morte de Olivier Bécaille", de Émile Zola (1840-1902) – um dos melhores da antologia –, narra o drama angustiante de um homem acometido por uma crise de catalepsia, que o leva a testemunhar seu próprio velório e enterro.
"Bicho de sete cabeças", a quarta parte, agrupa história com animais. A primeira delas é a conhecida "O gato preto", de Edgar Allan Poe, sobre um homem que assassina sua esposa e é acusado pelo fantasma de um gato que também matou. "O lobo e o violinista" é a adaptação de outro relato popular sobre um músico descuidado que decide atravessar a floresta à noite e é perseguido por um lobo. O bicho ataca novamente em "O lobo", de Maupassant, sobre dois irmãos valentes que aceitam o desafio de caçar um animal que parece ter poderes sobrenaturais. "O olho da serpente fantástica" é adaptação da lenda de um homem que enfrenta e mata uma cobra gigantesca e se apropria de seu olho – uma enorme pedra preciosa –, uma vitória que ele não poderá comemorar.
A parte final, "Descida aos infernos", reúne histórias sobre os reino dos mortos. Poe retorna com o sensacional "A máscara da morte vermelha", clássico da horror gótico que conta a história de um rei e sua corte que de encerram num castelo para sobreviver a um surto de peste mortal. Segue-se de "Sobre a água", mais um texto de Maupassant, um conto delicado sobre um barqueiro que fica preso no meio do rio durante uma assombrosa noite de neblina. "O segredo do cadafalso", único texto de Phillipe Auguste Mathias de Villiers de L'Isle-Adam (1838-1889) presente nesta antologia, é um exemplo do que podemos chamar de proto-ficção científica. Conta sobre um cientista que, ao saber que um de seus colegas de academia será guilhotinado, propõe a ele que seja cobaia de uma experiência mórbida em troca de eternizar-lhe o nome como baluarte da ciência.
Fecha a seleta "A ceia dos enforcados", mais um texto de Gérard de Nerval que, apesar do clima de horror, trata-se de uma peça de humor negro.
Como se vê, há uma grande variedade de temas e cenários, que revelam o estilo do narrativa que era popular nos século 19, na qual a figura da morte, ou do morto, é explorada como único elemento de suspense, sendo que muitas dessas histórias sequer são sobrenaturais. Os monstros não assumem um caráter tão ameaçador quanto o próprio homem, algoz muito mais cruel e efetivo, e o clima de horror é obtido mais pelo estilo da narrativa do que pelo temor do desconhecido. O leitor jovem talvez se impressione com alguns destes relatos e até experimente aquele arrepio na espinha típico, que provavelmente irá levá-lo a buscar, depois, por outros trabalhos do gênero. Mas ao leitor experiente interessa muito mais a arqueologia literária realizada pela organizadora Hélène Montarde, principalmente quanto aos textos mais obscuros da seleção. Além de que cada conto vem acompanhado de um breve comentário sobre o autor e a obra, com informações interessantes sobre suas publicações originais, além das ótimas ilustrações de Gwen Keraval, Anaïs Massini, Guillaume Renos e Olivier Balez, que também assina a bela capa.
O volume, de 240 páginas, tem tradução de Julia da Rosa Simões e uma excelente revisão, que segue o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Um livro que, sem dúvida, eu recomendaria para iniciar o jovem leitor no fascinante universo da literatura.
Cesar Silva

Tabuleiro dos deuses, Richelle Mead

O mercado internacional de literatura fantástica é uma bem-vinda novidade no Brasil. Como colônia cultural, o País sempre recebeu os produtos dessa indústria de forma irregular, em descompasso com os mercados estrangeiros melhor estabelecidos. Os romances chegavam por aqui com décadas de atraso, se chegavam, de forma que não se notavam suas peculiaridades sazonais de modo tão evidente quanto hoje.
Diferente da tradição local, em que o sucesso editorial depende apenas do carisma da pessoa do autor, a indústria editorial internacional pulsa ao ritmo dos bestsellers.
Quando o grande sucesso mundial era uma história de fantasia infantil (a série Harry Potter), surgiram dezenas de versões genéricas de maior ou menor qualidade. Nenhuma delas ombreou esse campeão de vendas, mas faturaram bem ou, pelo menos, o suficiente para justificar os investimentos das editoras. Em seguida, testemunhamos, já em primeira mão, o fenômeno da chiclit vampírica (a saga Crepúsculo), que detonou uma nova onda de lançamentos similares que, depois de algum tempo, acabou derivando para a chiclit erótica, afastando-se do mercado de fc&f.
O que se percebe é que existe uma corrida constante em busca do novo fenômeno comercial das livrarias. Atualmente, experimentamos o frenesi editorial pela ficção dita distópica, colocada em foco a partir do sucesso da série Jogos vorazes.
Cabe aqui um parêntesis. Apesar do sucesso de Jogos vorazes, o termo "ficção científica", gênero ao qual o romance inegavelmente pertence, foi desprezado em favor de "ficção distópica", que tem textura de novidade, "só que não", como dizem os jovens. Desde as suas origens, a ficção científica é movida pela tensão entre os polos utopia-distopia; este é o motor do gênero. Praticamente toda a produção do gênero pode ser dividida entre esses dois polos, com um avassalador predomínio da distopia, é claro, que é muito mais dramática e divertida. Dessa forma, que me perdoem os fãs, não vou evitar aqui o termo ficção científica, porque isso não faz nenhum sentido. Queiram ou não, ficção distópica nada mais é que um modo esnobe de dizer ficção científica. Fecha parêntesis.
Aos poucos, surgem no Brasil mais e mais títulos explorando a ficção científica, que andava em crise desde os anos 1980. Em 2012, a fc mostrou sinais de recuperação e voltou a crescer em 2013, assumindo a segunda posição na tríade 'fantasia-fc-horror'. Dentre os muitos romances surgidos no nicho, destaco Tabuleiro dos deuses, lançamento da Editora Companhia das Letras através do selo Paralela, primeiro volume da série A era de X, de autoria da norte-americana Richelle Mead, bastante conhecida entre os fãs de horror pela extensiva e bem sucedida série Academia dos vampiros. Temos aqui um bom exemplo de uma seguidora que superou a referência original.
A história de Tabuleiro dos deuses gira em torno da investigação de uma série de assassinatos de características ritualistas que assolam a República da América do Norte Unida (RANU), estado fechado e supertecnológico, ilha de progresso e conforto em meio ao caos econômico e climático que se abateu sobre o mundo. O governo da RANU praticamente aboliu a criminalidade a partir do controle genético e da implementação de um estado policial extremamente controlador. Contudo, ao perceber-se incapaz de identificar os criminosos, o governo decide convocar um de seus cidadão mais inteligentes, Justin March, que há quatro anos fora expulso do país por motivos misteriosos. Desde então, Justin reside no Panamá, lugar decadente e violento como é, enfim, qualquer lugar fora da RANU.
Para repatriá-lo, é convocada a pretoriana Mae Koskinen, supersoldado federal que, equipada com o mais avançado conjunto de recursos biotecnológicos de combate, é praticamente uma arma viva, característica que faz os pretorianos temidos por todos os cidadãos do mundo. Apesar dos implantes e do rigoroso treinamento, Mae está psicologicamente abalada pela morte de seu antigo amante, o que a torna especialmente vulnerável aos encantos de Justin, um canalha viciado em entorpecentes lícitos e ilícitos, com o histórico de manipular as pessoas para obter o que deseja.
Contudo, o que ninguém sabe é que Justin não é apenas inteligente, observador e desprezível. Ele está em contato direto com entidades sobrenaturais, os Corvos, seres incorpóreos que com ele dialogam mentalmente todo o tempo. E que a relação entre Justin e Mae vai muito além do amor – que logo vira ódio – e do sexo. Mae é uma espécie de gatilho que pode desencadear os eventos que permitirão que antigas divindades retomem o senhorio do planeta. Isso seria apenas uma singela história de fadas se a RANU não tivesse uma rigorosa política de repressão religiosa, que não permite que qualquer filosofia gnóstica prospere, controle este que cabia justamente a Justin executar.
Aos poucos, a autora vai revelando as peças que permitem ao leitor ter uma percepção maior desse mundo do futuro, assolado pela desigualdade social e pela carência de recursos, do misterioso histórico de Justin e da importância de Mae dentro desse intrincado plano cósmico.
Como se percebe por este rápido esboço, Tabuleiro dos deuses é muito mais sofisticado que Jogos vorazes, com um conjunto de personagens extremamente bem construídos, ambíguos e imprevisíveis, um ambiente mais rico e plausível, além de uma especulação procedente que une o impacto das tecnologias frente a uma discussão teológica relevante, a partir de um interessante blend de fantasia, cyberpunk e pós-humanismo, repercutindo a ficção científica pós-moderna tão pouco publicada por aqui, com generosas doses de sensualidade sem descambar para o apelativo.
Tabuleiro dos deuses é um livro que agrada ao leitor exigente que busca uma fc emocionalmente invasiva, de traços arrojados e texto maduro, que não opta pelo óbvio e ou pelo convencional. Altamente recomendável.
— Cesar Silva

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A cabeça do santo, Socorro Acioli

A cabeça do santo, Socorro Acioli. 168 páginas. Capa de Elisa von Randow. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Fato: a ficção regional não é um dos temas prediletos dos autores de ficção fantástica brasileira. Os motivos dessa antipatia são inúmeros: passam pelo desinteresse do brasileiro médio por sua própria cultura, pelo velho discurso por um texto de alcance 'internacional', sempre na ponta da língua, e até pelo batido argumento de que cada um faz aquilo que quer. E, sendo o autor brasileiro de ficção fantástica um apaixonado pela ficção anglo-americana, geralmente o que ele quer, com raras e honrosas exceções, é mesmo imitar aquilo que o impressionou. Então tome pastiches e mais pastiches – os conhecidos fanfics – que muitas vezes imitam até o improvável vocabulário das traduções que abundam no mercado.
Por isso, é preciso sempre comemorar e valorizar quando um autor brasileiro abraça suas tradições culturais e realiza um texto tão regionalmente saboroso como é o caso do romance A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado em 2014 pela Editora Companhia das Letras.
Não é surpreendente que o romance seja assinado por uma autora desconhecida da comunidade de autores e leitores de ficção fantástica. Geralmente, os textos mais regionalistas do gênero chegam pelas mãos de autores que não se formaram lendo toneladas de livrinhos baratos de ficção mal traduzida.
Socorro Acioli é uma experiente autora pernambucana de livros infanto-juvenis, premiada com o Jabuti em 2013, jornalista e doutora em literatura pela Universidade Federal Fluminense, que teve a ventura de participar, em Cuba, da oficina Como Contar um Conto, orientada por ninguém menos que o Prêmio Nobel Gabriel García Márquez, recentemente falecido, e para quem a autora dedica o livro, pois o romance em questão foi trabalhado justamente nessa oficina e entusiasmou o mestre, como nos conta a autora nos seus agradecimentos.
A cabeça do santo conta a história do jovem Samuel que, por causa da promessa feita a mãe moribunda, sai à procura do pai que ele nunca conheceu, mas odeia com todas as forças. Depois de uma exaustiva jornada, quase morto, chega à Candeia, cidade decadente na qual vive sua avó paterna, mas é recebido friamente pela anciã que o despacha por uma picada no meio do mato, no fim da qual encontra uma enorme cabeça de cimento – a tal cabeça do santo – cujo corpo decapitado pode ser visto no alto de um morro próximo. Cansado, sedento, ferido e acossado por uma matilha de cães ferozes, Samuel se refugia no oco da cabeça e, para sua surpresa, começa a ouvir rezas e cantilenas de diversas mulheres que pedem pela intercessão do referido santo (no caso, Antônio, aquele) para conquistar o homem amado. Com a ajuda do menino Francisco, flagrado numa situação constrangedora, Samuel usa de suas habilidades como guia de romeiros, atividade que exercia em Juazeiro do Norte antes da morte de sua mãe, para conquistar fama e fortuna junto àquela comunidade quase extinta. O sucesso de seus "milagres" reacende a vida no povoado e incomoda os poderosos do lugar. A situação se complica quando, por intervenção do apresentador de um programa da rádio local, Samuel se torna uma espécie de messias entre a mulherada da região. E não só isso. Os segredos por trás da estranha cabeça decepada, das desgraças que assolam a vida se Samuel, a procura pelo pai desaparecido e pela moça de bela voz que canta todos os dias no oco cabeça, vão levá-lo a confrontar mistérios deste e de outros mundos.
Contudo, mais que a tragicômica história de Samuel, o que torna A cabeça do santo realmente especial é a qualidade narrativa, repleta de detalhes que reconstroem a região e a cultura nordestinas não apenas através de descrições vívidas de seus cenários, mas principalmente pela musicalidade e sintaxe do palavreado da região, o que dá à leitura um dinamismo ágil e sem esforço.
A edição é caprichada, com 168 páginas em papel pólen e uma capa belíssima na qual se vê apenas a foto envolvente de uma caatinga, de autoria de Márcio Vasconcelos. Título, lombada, orelhas e outros detalhes aparecem somente numa sobrecapa, impressa um preto sobre cartão amarelo, emprestando ao volume a estética das revistas de cordel. Também acompanha um marcador de páginas que remete às fitas coloridas que os romeiros geralmente amarram aos pulsos.
Por tudo isso, A cabeça do santo deve estar entre os melhores livros de ficção fantástica publicados no País em 2014, referência para todos aqueles que buscam encontrar o Brasil em sua própria ficção.
— Cesar Silva

V.I.S.H.N.U.*

V.I.S.H.N.U.*, Eric Acher, Ronaldo Bressane & Fabio Cobiaco. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia. São Paulo, 2012.

Que o Brasil é um país exótico não há nenhuma dúvida, o mundo sabe disso. Além das inúmeras atrações naturais, acontecem aqui espetáculos sem paralelo, como o carnaval do Rio de Janeiro e o Festival de Parintins, que atraem milhões de turistas. Mesmo sendo um país de terceiro mundo com boa parte de seu povo ainda vivendo a margem da sociedade, o Brasil domina tecnologias de ponta em diversos segmentos e tem uma das maiores concentrações de aparelhos celulares do mundo.
Esse tipo de contradição também de manifesta em outros segmentos. Nos quadrinhos, por exemplo, temos artistas bem sucedidos, premiados e famosos do exterior, que não conseguem publicar aqui. E, apesar de termos um grande mercado que consome ávidamente quadrinhos de origem americana, italiana e japonesa, praticamente inexistem produções nacionais nas bancas para além das onipresentes edições de Maurício de Sousa. Na literatura fantástica ocorre algo similar, com abundância de material traduzido nas livrarias que praticamente não oferecem nenhum título de autor nacional, geralmente relegados às edição alternativas e por demanda.
Portanto, não é de se estranhar que ninguém tenha comentado o surpreendente V.I.S.H.N.U., álbum de quadrinhos de ficção científica de autoria de Eric Acher, Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, publicado em 2012 pela editora Companhia das Letras em seu selo Quadrinhos na Cia.
Trata-se de uma obra de fôlego, como poucas que o gênero já recebeu no País. O livro tem nada menos que 224 páginas no incomum formato de 29x29 cm, com narração autoral e ilustrações ousadas e perturbadoras. Conta a história de dois homens poderosos, ligados a criação de uma inteligência artificial ilegal – chamada de Vishnu. Eles tentam salvar suas carreiras sem sacrificar a criatura que, apesar de estranha e misteriosa, aparenta ter boas intenções para com a humanidade. Mas nem mesmo eles sabem se podem realmente confiar nela. Isso porque, algum tempo antes, o mundo já havia sido assolado até quase a extinção por uma enlouquecida inteligência artificial global e, desde então, esse tipo de pesquisa estava proibido pelo governo mundial. Mesmo assim, esta sociedade futura continua dependente da tecnologia digital em computadores, robôs e androides, que são combatidos por ativistas neoluditas que, apoiados em táticas de guerrilha, tentam convencer governos e população a retornarem a modelos sociais de baixa tecnologia.
Nesse cenário, os dois cientistas são envolvidos por espionagem industrial, intrigas políticas e a iminência de uma guerra mundial, enquanto negociam com Vishnu uma alternativa para o aparentemente inevitável nó que se configura no futuro da humanidade.
V.I.S.H.N.U. tem diversos méritos. A narrativa, argumento do estreante Eric Acher roteirizado pelo experiente escritor Ronaldo Bressane, trafega entre o cyberpunk e o New Weird, uma interessante novidade nos quadrinhos nacionais de fc, geralmente mais conservadores na abordagem. Também ousa no estilo gráfico, com os desenhos de Fabio Cobiaco, em preto e branco de um estilo cambiante que, em muitos momentos, remete a Philippe Druillet e Enki Bilal. Apesar de constante mutabilidade, Cobiaco não deixa que o leitor se perca entre os personagens, sempre claramente caracterizados. A ilustração da capa, única pintura em cores de todo o volume, revela o alto grau de experimentalismo deste artista natural de São Vicente que, desde 1980, publica ilustrações e histórias em diversos jornais e revistas.
A leitura é ágil e não enfada, mas não é dependente da ação, o que pode desencorajar leitores menos experientes. Toda grande obra sempre cobra algum preço, e V.I.S.H.N.U., sem dúvida, é uma grande obra que não pode ser esquecida nos compêndios da ficção científica brasileira.
— Cesar Silva

Garoto zigue-zague, David Grossman

Garoto zigue-zague (Yesh yeladin zigzag), David Grossman. 418 páginas. Tradução de George Schlesinger. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Algumas crianças são quadradas, outras são redondas, e até triangulares, por que não? Mas uma poucas, bem poucas, podem ser zigue-zague. Assim é Nono, ou melhor, Amnon Feierberg, garoto de 13 anos extremamente inteligente e irrequieto.
Uma coisa que não se pode dizer sobre Nono é que ele seja um garoto normal, porque isso ele não é mesmo. Órfão de mãe, ele vive em Jerusalém com o pai Iacov – que é investigador da polícia de Israel – e com Gabi, secretária do Departamento de Investigações. Gabi cuida de Nono desde que ele era um bebezinho e até se parece um pouco com uma mãe, mas não é. Gabi tem seu próprio jeito de cuidar de Nono e ele realmente gosta da forma como ela o faz. Gosta tanto que queria muito que ela e seu pai ficassem juntos para sempre, mas as coisas não vão muito bem entre eles. E quando o dia de seu 14º aniversário está chegando – idade em que todos os meninos judeus comemoram o bar mitzvah, a chegada a maioridade – Nono é enviado numa viagem de trem para passar uns dias em Haifa com o tio Shmuel, o mais chato de todos os tios sobre a face da Terra, um pedagogo empedernido com o qual Nono já teve experiências amargas. Nono não conheceu sua mãe, da qual só sabe o nome – Zohara – e o que aconteceu com ela é um mistério que seu pai nunca revelou.
Sozinho e deprimido na cabine do trem, a caminho do que ele espera sejam os piores dias de sua vida, o menino desconfia que, na verdade, sua viagem é uma desculpa para que Gabi e seu pai se separem de vez. Mas, repentinamente, a situação muda. Um policial, algemado a um prisioneiro com cara de perigoso, entram na cabine e a situação fica muito bizarra. Quando o par finalmente se retira, algum tempo depois, o menino assutado encontra um envelope sobre o banco, no qual está uma carta escrita por Gabi e Iacov, oferecendo a Nono uma viagem de sonhos. Ele só precisa ir até outra cabine e dizer a pessoa certa a frase "Quem sou eu?" Animado, Nono segue as instruções, mas acaba entrando em outra cabine, onde um senhor distinto e simpático o recebe com atenção e boa vontade incomuns. Nono vai descobrir que esse homem é Felix Glick, famoso vigarista internacional do qual Gabi nunca se cansava de falar. E mais: ele sabe exatamente quem é Amnon Feierberg, e Nono decide fazer a pergunta a ele. Maravilhado, o menino conclui que Felix foi contratado por Gabi e seu pai para conduzi-lo a essa grande aventura. Afinal, sendo seu pai um policial de renome que o tem treinado desde muito jovem nas técnicas da investigação, Nono está certo que o objetivo dessa viagem é fazer com que ele aprenda na prática como pensa e age um criminoso, para saber o que fazer quando precisar capturar um deles.
Felix conduz Nono até à locomotiva e, com toda a sua lábia de vigarista, convence o maquinista a permitir que o menino a pilote, o que, por si só, já valeria aturar todos os sermões do tio Shmuel. Mas isso é só o começo, pois tudo fica imprevisível quando Felix saca uma pistola e obriga o maquinista a parar o trem. Nono e Felix saltam no meio do nada e embarcam em um moderno e carísssimo automóvel superesportivo que os aguardava na beira da linha, em direção aos dias mais empolgantes de sua vida nada tediosa, como iremos descobrir pelas palavras do próprio Nono.
Felix mostra-se extremamente seguro e meticuloso em seu trabalho de cicerone. Mas, aos poucos, o que Felix faz e diz, apesara de divertido e emocionante, faz Nono desconfiar que tudo o que está acontecendo pode não ser exatamente o que Gabi e seu pai planejaram para seu presente de aniversário. Muito mais que proporcionar a Nono alguns dias de entretenimento, Felix vai levar o menino para uma viagem de revelações e descobrimentos pelas ruas de Tel Aviv, para fazê-lo descobrir, por si mesmo, quem realmente ele é.
Garoto zigue-zague (Yesh yeladin zigzag) é um romance divertido e emotivo, de autoria do escritor israelense David Grossman, publicado originalmente em 1994 e lançado no Brasil em 2014 pela editora Companhia das Letras, traduzido do hebraico por George Schlesinger. David Grossman, nascido em Jerusalém em 1954, é um dos maiores escritores israelenses vivos. Entre seus grandes sucesso estão DueloVer: amorFora do tempoA mulher foge, entre outros. Ao lado de Amós Oz, Grossman é grande defensor de uma solução pacífica para o conflito entre judeus e palestinos.
A história não é claramente fantástica, mas tampouco é realista. A fantasia está amalgamada à narrativa, seja pela visão romântica e imaginativa de Nono, que vive num mundo todo especial, seja pelas situações inusitadas as quais Felix leva o garoto, uma sucessão de aventuras que vão de missões secretíssimas nas quais Nono tem que usar de toda a sua experiência como policial mirim, até a primeira tourada em solo judeu.
Garoto zigue-zague é um daqueles livros com inúmeras camadas de interpretação, que fala muito bem ao leitor jovem – para o qual evidentemente foi escrito – mas que não deixa de satisfazer plenamente ao leitor experiente.
O romance tem muitas qualidades narrativas, tal como um ritmo suave, imagens saborosas e personagens redondos com idiossincrasias e sotaques que ficarão na memória do leitor para o resto da vida. A peregrinação de descobrimento de Nono ressoa de tal forma no espírito que é impossível impedir que as lágrimas surjam em diversos momentos. Quando menos se espera, Grossman lança a frase perfeita que faz desmoronar toda a resistência, e é melhor estar preparado.
Garoto zigue-zague foi adaptado para o cinema em 2012 na produção holandesa Nono, het zigzag kind, com direção de Vincent Bal, com a italiana Isabella Rosellini no papel de Lola Ciperola, estrela do teatro por quem Nono nutre uma admiração toda especial.
Para resumir Garoto zigue-zague, é possível dizer que se trata de um conto de fadas sobre o final da infância. Mas isso, de forma alguma, abarca todas as características desta sensível história, que merece atenção de todos os que tiveram infância um dia.
— Cesar Silva

Voos e sinos e misteriosos destinos, Emma Trevayne

Voos e sinos e misteriosos destinos (Flights an chimes and mysterious times), Emma Trevayne. 306 páginas. Ilustrações e capa de Glenn Thomas. Tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte. São Paulo, 2014.

Posso dizer que este é um livro que me pegou pela capa. Quando a vi, sabia que tinha que lê-lo. A sinopse, divulgada pela Seguinte – um dos selos da editora Companhia das Letras, responsável pela publicação – contando uma interessante trama steampunk infantojuvenil, deu ainda mais certeza. E não me arrependi.
Com tradução de Álvaro Hattnher, Voos e sinos e misteriosos destinos (no original, Flights an chimes and mysterious times), da escritora norte americana Emma Trevayne, conta, em 306 páginas, a história de Jack Foster, garotinho mimado da alta classe londrina vitoriana que, ao mesmo tempo em que tem a vida controlada por uma governanta severa, vive distante de seu pai, um industrial ocupadíssimo de quem certamente herdará a fábrica quando adulto, e também da mãe, que passa os dias em recepções e jantares luxuosos às quais Jack não tem acesso. Entediado, ele espiona uma dessas reuniões e fica fascinado pelos truques de Lorcan Havelock, um estranho mágico que lá se apresentou.
Jack tem um talento natural para construir engenhocas a partir de peças de relógios e, acreditando que pode aprender alguns bons truques com aquele mágico, ele o segue, assim que surge a oportunidade, para tentar uma aproximação. Jack segue o homem por uma passagem mágica na base do Big Ben, mas perde-se na escuridão e, quando finalmente consegue sair, se depara com uma visão familiar mas, ao mesmo tenho, diferente. O ar está poluído por uma densa fumaça oleosa, todas as pessoas têm estranhos implantes metálicos e, para onde se olhe, há fadinhas mecânicas, constituídas de engrenagens e cordas minúsculas e finíssimas, fazendo estripulias com os transeuntes.
Assustado e arrependido de sua ousadia, Jack tenta voltar para casa, mas descobre que ela não está mais no lugar onde devia. Ele tenta falar com uma menina que ele encontra num parque, mas ela está paralisada, e só começa a falar depois que ele aciona uma chave em forma de borboleta que ela tem no pescoço. A menina mecânica se chama Beth, e conta a Jack que eles estão em Londinium, capital do grande Império das Nuvens, governado pela linda, imortal e poderosa Senhora, de quem ela mesma já foi um dia o brinquedo favorito. Beth conduz Jack para a casa de seu pai, o Dr. Cataplasma, mecânico genial que a construiu e a considera sua criação mais perfeita. Cataplasma recebe Jack bem, mas se preocupa depois que o menino conta que chegou a Londinium seguindo Lorcan Havelock. Ele sabe que se Jack não voltar urgentemente ao seu próprio mundo, todos ficarão na mira do malicioso Lorcan, que não é um mágico, mas sim o general de todos os exércitos de Londinium e está ansioso para mover uma guerra contra as colônias britânicas separatistas.
Enquanto Cataplasma pensa num modo de levar Jack de volta para seu mundo de origem, Lorcan é severamente pressionado pela Senhora, que exige um jovem perfeito para ser seu filho de carne e osso que é, obviamente, Jack. No passado, Lorcan também foi o amado filho perfeito da Senhora, mas ela se desinteressou dele depois que ficou mais velho. Lorcan tem ciúmes de Jack, mas não lhe resta outra opção a não ser cumprir a ordem da soberana. Sabedor que Jack o seguiu e está escondido em Londinium, decide executar alguns cidadãos em praça pública, fazendo disso uma enorme propaganda de forma a convencer o menino a se entregar para ele. E o plano funciona a perfeição.
Sentindo-se culpado pela morte dos inocentes cidadãos de Londinium, Jack se entrega para Lorcan e, finalmente, é levado à presença da Senhora, que o recebe com toda pompa e circunstância, que irrita ainda mais o enciumado Lorcan.
O que vai acontecer daí em diante é uma montanha russa de acontecimentos dramáticos, que envolvem as maquinações de Lorcan para se livrar de Jack, voltar às graças da Senhora e, finalmente, receber dela a autorização para atacar as colônias. Por seu lado, o inocente Jack vai sofrer, no corpo e na mente, os efeitos dos planos maquiavélicos de Lorcan mas, com a ajuda de alguns amigos e a utilização de seus raros talentos, ele pode vir a ser a chave para a redenção desse mundo poluído à beira de uma guerra, e das tragédias de sua própria vida infeliz.
Embora seja americana, Emma Trevayne escolheu o cenário londrino para caracterizar o modelo steampunk da história de Jack, que soa como uma releitura modernizada de Alice no País da Maravilhas. Contudo, a falta de um envolvimento emocional com a cidade deixa a narrativa menos expressiva do que poderia ser. Sendo Londres uma personagem tão importante à história quanto Jack e Lorcan, era de se esperar maior detalhamento desse cenário, o que autores britânicos nativos, como Neil Gaiman por exemplo, sabem fazer muito bem. Mas isso não interfere no enredo, que é dinâmico e envolvente, numa narrativa que se lê com prazer e rapidez.
O livro traz belas ilustrações de Glenn Thomas, de contrastes fortes que, em alguns momentos, lembram xilogravuras, embora não o sejam. Thomas também é autor da ilustração da capa que me chamou a atenção, realizada no mesmo estilo sombrio das ilustrações internas, mas em cores e com algumas colagens que remetem ao estilo do ilustrador inglês Dave McKean.
Para quem gosta e deseja desfrutar de uma boa aventura, Voos e sinos e misteriosos destinos é uma opção interessante. Também pode ser uma excelente introdução ao gênero da ficção científica para os leitores que vêm da fantasia que, neste momento, tem muito mais público. Contudo, leitores maduros que saibam apreciar as muitas qualidades dos textos infantojuvenis também não vão se decepcionar com esta movimentada aventura que guarda para eles algumas boas surpresas.
— Cesar Silva

O Círculo, Dave Eggers

O Círculo (The Circle), Dave Eggers. 522 páginas. Tradução de Rubens Figueiredo. Capa de Jessica Hische. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Houve um tempo em que a ficção científica era um gênero considerado escapista e alienado, porque suas histórias geralmente se passavam séculos ou até milênios no futuro, no espaço sideral ou em planetas distantes, nos quais sociedades absurdas discutiam problemas de uma forma tão extrapolada que eram fantasias de sonho, valendo-se apenas das correrias dos heróis para salvar mocinhas indefesas das garras de alienígenas mal intencionados. No meio dessa ficção de gosto duvidoso, que fazia sucesso entre os adolescentes, alguns autores logravam oferecer enredos um tanto mais densos. 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, A laranja mecânica, de Anthony Burgess, Nós, de Yevgeny Zamyatin, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, A beira do fim, de Harry Harrison, entre outros, surpreendiam com os horrores reais de opressões que grassavam, e ainda acontecem, em várias partes do mundo. Eram as chamadas distopias – o inverso de utopias – um tipo de especulação político-social que antecipava os descaminhos da sociedade.
Atualmente, as distopias tornaram-se um bom mercado. Desenvolvidas a partir de mundos de alta fantasia, séries como Jogos vorazes, de Suzanne Collins, e Divergente, de Veronica Roth, têm atraído grande número de leitores jovens. Ainda que estejam distantes, em impacto e relevância, daquelas distopias clássicas, numa coisa são semelhantes: ainda que aterradoras, parecem distantes e, certamente, evitáveis.
Esta não é o caso de O Círculo, romance de ficção científica do jornalista americano Dave Eggers, recentemente publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras, com tradução de Rubens Figueiredo.
A princípio, parece um exagero tratar O Círculo como um romance distópico. Isso porque a história de Eggers acontece praticamente em nosso próprio tempo, um ou dois anos no futuro, no máximo. As coisas que vemos na maior parte da narrativa já fazem parte do nosso dia a dia e não seria de estranhar que muita gente rejeitasse a classificação de ficção científica para ele.
O Círculo é uma empresa de tecnologia, luxuosa e sofisticada, sucessora das atuais redes sociais que, através do uso sistemático dos programas de busca, construiu um enorme e centralizado banco de dados capaz de oferecer um leque inesgotável de oportunidades para jovens empreendedores. Além disso, o Círculo é uma megarrede social, fusão do Google com o Facebook e o Twitter, o maior vício de uma comunidade global entusiasmada com o poder de se meter na vida uns dos outros. É lá que vai trabalhar a irrequieta e um tanto insegura Mae. Recém-saída da universidade, ela recebeu uma proposta de trabalho no Círculo de Annie, uma bem posicionada executiva da empresa que foi sua colega de dormitório no campus. Mae inicia sua carreira no Círculo no departamento de atendimento ao cliente e, como vamos perceber, a invasão da tecnologia é avassaladora nesse ambiente de trabalho.
A princípio, Mae parece não se adaptar bem ao modelo exigido dos empregados no Círculo. Seus pais vivem numa pequena cidade a 200 quilômetros da sede da empresa, para onde ela viaja periodicamente para visitar o pai, que sofre de um tipo de esclerose progressiva, quando ela também aproveita para praticar um esporte solitário do qual gosta muito, a canoagem. Suas ausências, ainda que fora do horário de trabalho, não são bem recebidas por seus superiores, que passam a pressioná-la para adotar um estilo de vida mais "transparente", o que significa compartilhar a maior quantidade possível de dados pessoais na grande rede administrada pela empresa. Preocupada em perder o emprego, Mae torna-se uma praticante exageradamente entusiasmada desse novo modo de vida, ao ponto de forjar as máximas que passam a nortear as ações do Círculo "Segredos são mentiras", "Compartilhar é cuidar" e "Privacidade é roubo", criadas num processo que, não por acaso, lembra o duplipensar orwelliano.
Porém, há um estranho no Círculo: Kalden, homem que ninguém parece conhecer e não tem sequer um registro na onipresente, onisciente e quase onipotente rede. Mae se envolve com Kalden, que tenta demovê-la da doutrina do Círculo. Dividida entre a paixão por Kalden e a lealdade ao Círculo, o dilema levará Mae às franjas do apocalipse, quando o Círculo – cujo logotipo é uma letra C – passa a almejar a "completude", que seria fechá-lo num círculo perfeito, e isso é bem mais do que uma figura ilustrativa. As coisas vão se complicar ainda mais quando Mae decide convencer Mercer, seu ex-namorado ludita, e os próprios pais a submeterem-se ao Círculo, e nem mesmo as mais trágicas consequências abalam Mae: o vício pela tecnologia a transformou numa máquina faminta de atenção e sucesso.
Eggers também investe na forma narrativa. Seu texto, apoiado principalmente em diálogos, não faz uso de travessões e todas as falas são grafadas entre aspas. Também não há capítulos, com o texto se alongando como uma tortura chinesa, contudo, impossível de largar. A única concessão do autor foi a divisão do texto em três partes estranhamente irregulares. A primeira parte tem cerca de 320 páginas e narra os primeiros dias de Mae no Círculo. O Livro II tem pouco menos de 200 páginas e acompanha a transformação inconsciente e gradativa de Mae numa alucinada entidade pós-humana. A última parte, o Livro III, tem apenas quatro páginas, mas é a que vai levar leitor a nocaute; um gancho tão forte que nos faz perder as meias. Tudo porque, apesar do evidentes descaminhos, o Círculo parece representar exatamente aquilo que vemos de mais positivo na revolução digital; ela precisa estar certa e compactuamos com isso. Seus anseios são legítimos, os resultados são favoráveis e positivos, e cada pequena vitória de Mae e do Círculo parecem ser a vitória do bem e do bom senso em direção a uma humanidade melhor, progressista e sadia. Contudo...
A leitura de O Círculo deve causar um poderoso efeito sobre os usuários das redes sociais, especialmente aqueles dedicados a influir na sociedade para torná-la mais justa. Porque, mesmo sob a melhor das intenções, quando isso se torna uma impostura, a utopia inevitavelmente atravessa a linha tênue que a separa da distopia.
O desfecho do romance é avassalador e deixa uma sensação quase insuportável de urgência e inevitabilidade semelhante a que experimentamos na leitura de 1984, do qual O Círculo é herdeiro legítimo.
— Cesar Silva

Bom de briga, Paul Pope

Bom de briga (Battling boy), Paul Pope. 204 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia, São Paulo, 2014.

Todos os leitores de quadrinhos sabem o quanto é raro que surja uma nova boa ideia em meio às centenas que lhe são oferecidas diariamente, em especial o gênero dos super-heróis, que está em crise criativa há pelo menos duas décadas. A maior parte do material dito 'novo' não passa de derivação: a mesma história de sempre com um desenho diferente, às vezes nem mesmo isso. Os grandes artistas do segmento já morreram e, atualmente, os personagens são reféns de suas próprias franquias e os artistas não podem interferir na sua estrutura. Além do mais, é raro que surjam novos personagens, porque as editoras maiores saturam o mercado e sufocam qualquer possível concorrência em seu nascedouro, geralmente cooptando o artista para trabalhar em suas próprias franquias.
Mesmo passando por todo esse processo, o quadrinhista americano Paul Pope segue resistindo com seu trabalho autoral. Chegou a ser utilizado pela DC na produção de Batman: Ano 100 e nas minisséries de ficção científica 100% e Heavy Liquid, ambas da linha Vertigo, entre outros trabalhos. Pope é um dos raros artistas ocidentais a ter publicado na prestigiosa editora japonesa Kodansha. Sua vivência com tantas fontes de influência, que vão dos comics americanos aos quadrinhos japoneses e europeus, tornaram sua arte um cardápio rico e impactante, já reconhecida por três prêmios Eisner Award, em 2006 e 2007. Seu desenho algo relaxado investe no volume, no movimento e numa expressividade inusitados.
Essas qualidades estão todas presentes no álbum Bom de Briga (Battling Boy), originalmente editado em 2013 pela editora First Second Books, e publicado no Brasil em 2014 pela Editora Companhia da Letras em seu selo Quadrinhos na Cia.
Trata-se de uma história na linha New Weird, amálgama de ficção científica, fantasia e horror com uma ambientação realista. Bom de Briga é o nome de um garotinho de doze anos que acaba de chegar à cidade de Arcopolis, que se encontra sitiada pelo ataque de uma horda monstros de todos os tipos e tamanhos. O herói da cidade, o vigilante mascarado Haggard West, caiu numa emboscada e agora a cidade está completamente desprotegida. A chegada de Bom de Briga não é um acaso, pois ele tem uma missão: proteger Arcopolis. Isso porque, apesar de muito jovem, Bom de Briga não é um garoto qualquer. Ele é um semideus, vindo diretamente da cidade celestial, enviado por sua própria família divina para defender o lugar como uma espécie de rito de passagem para a divindade plena. Bom de Briga é poderoso e imortal, mas isso não torna a tarefa fácil. Logo de cara, ele tem que enfrentar Humbaba, um gigantesco monstro devorador de metal que está prestes a derrubar as defesas da cidade. E entra em ação com a confiança de um deus, mas falta de experiência é um sério obstáculo ao sucesso do garoto, que num momento de fraqueza e indecisão, acaba pedindo socorro ao pai, que o ajuda à distância, pois ele também está envolvido em seus próprios combates. Mas ele o adverte: "Não se fie em minha cômoda intervenção! Você deve repensar suas estratégias!" Ou seja, Bom de Briga terá de se virar sozinho dali em diante.
Exibida na tv, a luta de Bom de Briga e Humbaba torna o garoto no novo herói da cidade, recebido pelo governo com honras de estado e mimos, mas ele também o teme. Afinal, quem é esse Bom de Briga? Podemos confiar nele? A jovem Aurora, filha, assistente a agora órfã do falecido Haggard West, tenta assumir o posto do pai com a certeza que Bom de Briga não é digno dessa confiança. Enquanto isso, os monstros que, até então, agiam de forma desarticulada, começam a se organizar. Eles também não sabem quem é o menino que derrotou Humbaba tão facilmente, mas de uma coisa todos têm certeza: Bom de Briga precisa morrer.
A narrativa de Pope, somada a uma pletora de personagens instigantes, demonstra a mesma força das grandes sagas cósmicas criadas pelo ilustrador americano Jack Kirby (1917-1994), com um desenho agressivo e movimentado que reporta ao mangá e ao quadrinho europeu.
Bom de Briga tem 204 páginas em papel cuchê totalmente em cores, encadernação costurada e capa em cartão com laminação brilhante. Está, com certeza, entre as mais importantes publicações de quadrinhos no país em 2014.
Altamente recomendável.
— Cesar Silva

Mundo novo, Chris Weitz

Mundo novo (The young world), Chris Weitz. 324 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Capa: kakofonia.com. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte, São Paulo, 2014.

Não há dúvida que a ficção científica, mesmo no século 21, continua a atrair a atenção dos leitores e autores. Em algum momento ao longo dos anos 1990, temia-se que a chegada do 'futuro' tornasse o gênero um exercício frívolo e sem utilidade, pois a realidade o superaria. Mas o que se observa é que o interesse pelo exercício especulativo a respeito do impacto da tecnologia na vida das pessoas, seja no futuro distante, seja no próximo, segue surpreendendo.

Mundo novo (The young word), publicado no Brasil em 2014 pela editora Companhia das Letras pelo selo Seguinte, com tradução de Álvaro Hattnher, é o primeiro romance de Chris Weitz, novaiorquino nascido em 1969 e formado em literatura inglesa pelo Trinity College. Weitz é mais conhecido por seu trabalho no cinema: o roteiro de seu longa About a boy (2002), dirigido por ele ao lado do irmão Paul, foi indicado ao Oscar. Além disso, Weitz dirigiu dois grandes sucessos do cinema de fantasia, A bússola de ouro (2007) e Lua nova (2009).
Trata-se de uma ficção apocalíptica, na mesma linha de uma série de produtos recentes da mídia que discutem a mortalidade, como os seriados de tv The walking deadHelix The last ship. O tema é bastante recorrente também na literatura do gênero, que tem clássicos como Só a terra permanece, de George Stewart, Eu sou a lenda, de Richard Matheson e Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.
Mundo novo conta o que acontece ao planeta quando uma virose agressiva e desconhecida dizima a população adulta e infantil, deixando vivos apenas os adolescentes, que morrem tão logo completam 18 anos. Sozinhos e sem referências, os jovens tentam sobreviver a sua maneira ao colapso da civilização organizando-se em grupos para procurarem por alimentos e outros recursos necessários que coletam nas ruínas das cidades, e se protegerem de gangues rivais que ali disputam o poder.
A história é contada a partir do ponto de vista de dois personagens: Donna, uma adolescente típica do século 21, e Jefferson, filho de cientistas de ascendência japonesa, que é extremamente compenetrado de suas obrigações. Amigos desde a infância, fazem parte de um grupo de sobreviventes na região de Washington Square, em Nova York. O grupo acabou de perder seu líder, Wash, irmão mais velho de Jeff que completou 18 anos e morreu devido à infecção.
Crânio, um outro membro do grupo e fenômeno mirim da ciência, surge com a proposta de pesquisar um certo artigo científico numa revista que pode estar arquivada na grande biblioteca pública da cidade. Triste com a perda do irmão, Jeff acaba concordando em ajudá-lo, mais para sentir que está fazendo alguma coisa a respeito da doença que acabará por levar a todos, mais cedo ou mais tarde. Aos dois garotos associam-se Donna – que não acredita na possibilidade de que Crânio possa fazer o que os cientistas do mundo todo não puderam – e Peter, negro alto e forte que não esconde sua condição homossexual. A eles, mais tarde, vai se unir Minifu, sino-americana com um grande talento em lutas corpo a corpo.
A jornada inicia a bordo de uma caminhonete, que prova ser muito útil para chegar até a biblioteca, mas não mais do que isso. Contudo, esse é apenas o início de uma jornada repleta de perigos mortais como gangues inimigas, uma comunidade de canibais, matilhas de cães ferozes, animais selvagens sobreviventes do zoológico, muito tiroteio e correrias. Amarrando a peregrinação, que vai passar por diversos pontos turísticos dessa Nova York arruinada, o drama íntimo de Jeff, que não consegue declarar seu amor por Donna, uma história que só vai se definir nas páginas finais.
A narrativa é linear, mas a alternância de narrador lhe acrescenta tempero especial, porque Weitz maneja muito bem as duas vozes. O feito é o de ler dois diários que contam a mesma história em estilos bem diferentes. O texto de Jeff é escorreito e segue a norma culta da língua, o que combina com a personalidade séria do garoto. Já a narração de Donna é indisciplinada e errática, repleta de soluções improvisadas, com o uso exagerado de gírias e de estruturas típicas do roteiro de teatro, com os nomes dos personagens antes de suas falas. A editora também ajudou, definindo uma tipologia específica para cada narrador, de forma que percebemos a variação não apenas pela leitura, mas também no visual das páginas.
Outro mérito de Weitz são as alfinetadas que ele distribui a vontade contra o ambiente acadêmico. Por exemplo, quando Jeff e Crânio discutem a extinta prática da publicação de artigos acadêmicos. Jeff diz:
"Na superfície, parece ser um artigo de opinião, ou mesmo um ensaio sobre ética científica, mas me parece o tipo e coisa com que meus pais tinham de lidar. Chamavam de defesa de interesses pessoais." (página 121).
O autor também insere muitas referências à cultura pop e não evita revelar suas influências mais imediatas, tais como o romance O senhor das moscas (Lord of the flies), de William Golding, e Os arquivos confusos da sra. Basil E. Frankweiler (From the mixed-up files of Mrs. Basil E. Frankweiler) de E. L. Konigsburg, citados pelos personagens, entre outros.
Mundo novo é um romance divertido e adequado ao público jovem-adulto ao qual foi dirigido, mas que não abandona o leitor experiente, oferecendo discussões éticas e morais que podem levar a reflexões bastante profundas.
— Cesar Silva