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domingo, 24 de junho de 2018

O caminho do Louco, Alex Mandarino

Guerras do Tarot, Volume 1: O caminho do Louco, Alex Mandarino. 296 páginas. Avec Editora, Porto Alegre, 2016.

Um tema bastante explorado pela ficção de mistério são as sociedades secretas. Elas têm um carisma irresistível tanto entre autores quanto entre leitores, que fantasiam sobre o que acontece por trás das portas fechadas e das cortinas cerradas. Sinais secretos, roupas exóticas, divindades bizarras, rituais macabros, poderes insuspeitos e por aí vai. Uma aventura de James Bond não seria a mesma sem uma sociedade secreta.
Em O caminho do Louco, primeiro volume da série Guerras do Tarot, publicado em 2016 pela Avec Editora, o jornalista e tradutor carioca Alexandre Mandarino apresenta o conflito entre duas dessas sociedades, cada qual dotada de poderes sobrenaturais através dos quais pretendem controlar o mundo.
A história gira em torno de um documento misterioso, cuja simples leitura atrai a atenção de uma horda de assassinos sem alma que perseguem sem descanso o desavisado leitor, até matá-lo. Esses assassinos tenebrosos são tão ferozes quanto invisíveis, pois têm uma aparência de tal forma comum que passam despercebidos da atenção pública. Logo nas primeiras páginas, testemunhamos a ação de um deles quando encontra a sua presa, um padre que leu o que não devia. Mas o documento não estava mais com ele pois, minutos antes de ser atacado numa estação de trem na França, o encaminhara por correio a um importante bispo seu conhecido que, sem saber, vai se tornar o próximo alvo da horda assassina.
Enquanto um casal de ladrões com equipamentos de alta tecnologia invade uma empresa em Munique em busca de um certo documento, e um grupo de homens dotados de poderes sobre humanos rouba uma fortuna em ouro do banco do Vaticano, André Moire, jornalista brasileiro em crise existencial, abandona sua vida regrada e segura para embarcar num mochilão sem destino. Ele não sabe, mas está dando os primeiros passos no Caminho do Louco, que se insinua a ele em sonhos e visões enquanto caminha pelos sertões América. O mistério começa a se revelar quando André é finalmente confrontado, na cidade do México, por um agente do Tarot, sociedade secreta de objetivos incertos que afirma ser ele o novo Louco, o representante vivo desse arcano no baralho adivinhatório. Contudo, para ganhar seus poderes e assumir seu lugar na grande malha que sustenta a realidade, ele terá de cumprir uma peregrinação mística, visitando os avatares de cada um dos demais vinte e um arcanos maiores do Tarot espalhados pelo mundo. Ao longo de uma jornada sem muita convicção, instruído pelos arcanos O Mago, A Sacerdotisa, A Imperatriz e O Imperador, o Louco toma contato com os primeiros segredos dessa sociedade e tentar entender por que ele é tão importante nos planos dela.
Não faltam à história muitas cenas de ação com enfrentamentos violentos, incluindo lutas mortais com mestres em kung fu, parkour nos telhados de Paris e até perseguições de carros a quinhentos quilômetros por hora, tudo temperado com pitadas de super heróis e conspirações religiosas.
Mandarino, que atua como autor de contos desde os anos 1990, ficou mais conhecido no fandom a partir de suas contribuições à franquia Intempol, sendo que seu texto “O rabo da serpente” obteve boa classificação no Prêmio Argos de 2003. Mais recentemente, publicou nas antologias Sherlock Holmes: Aventuras secretas (2012, Draco) e Caminhos do fantástico (2012, Terracota), conto com o qual foi finalista no Argos 2013. Mandarino também foi editor da sofisticada revista eletrônica literária Hyperpulp, publicada entre 2011 e 2012. A redação de O caminho do Louco consumiu muitos anos de trabalho, pois Mandarino revelou que os primeiros esboços da história foram redigidos em 2001.
O autor demonstra grande domínio sobre as cenas de ação, com descrições vívidas e impactantes, próprias de quem vê a narrativa como um filme de cinema, com muitas explosões, correrias e lutas sangrentas, e os capítulos curtos dão bom ritmo à leitura. Há um grande número de personagens em diversas narrativas paralelas, que colabora para uma ampla percepção do mundo criado pelo autor. Contudo, o final do livro é inconclusivo pois, desde o princípio, fica clara a intenção do autor em escrever uma série. Para o bem ou para o mal, fica a garantia ao leitor ser impossível dar spoilers nesta resenha.
Cesar Silva

sábado, 12 de maio de 2018

Gigantes adormecidos, Sylvain Neuvel

Gigantes adormecidos (Sleeping giants), Sylvain Neuvel. 308 páginas. Tradução de Michel Teixeira. Editora Companhia das Letras, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016.

O acaso levou a pequena Rose a encontrar, numa cratera na mata, um artefato intrigante: uma enorme mão de metal. Passado o susto, a menina seguiu sua vida e tornou-se uma cientista destacada, enquanto a mão gigante foi levada para os porões do governo americano e acabou esquecida, até que uma agência tão secreta que nem se sabe nome dela, comandada por um homem tão misterioso quanto poderoso, volta a se debruçar sobre a escultura. Convocada para prestar esclarecimentos, a agora Dra. Rose Franklin, Ph.D., cientista sênior do Instituto Enrico Fermi da Universidade de Chicago, é convidada para coordenar os trabalhos de pesquisa a respeito do artefato, o que ela acaba aceitando. Além da Dra. Rose, também são recrutados a irascível piloto de helicópteros Kara Resnik, o circunspecto militar Ryan Mitchell e o gênio universitário Vincent Coulture. Juntos, eles passam a estudar profundamente o artefato, assim como outros que são posteriormente encontrados espalhados pelo mundo, que parecem ser partes de uma mesma máquina: um robô gigante em forma de mulher, abandonado na Terra por uma civilização antiga.
É claro que eles vão montar o robô e também que ele vai funcionar. Mas a falta de informações adequadas sobre seus controles, bem como as dificuldades anatômicas para pilotar a máquina, vão causar toda a sorte de tragédias, sem falar nos problemas políticos que a simples existência de tal dispositivo passa a suscitar em todo o mundo. Acrescente-se a receita um perturbado triangulo amoroso, e temos uma bomba muito pior que a atômica prestes a por fogo no mundo.
Esta é a história do romance Gigantes adormecidos, livro de estreia do escritor canadense Sylvain Neuvel, Ph.D, em Linguística pela Universidade de Chicago, que chamou a atenção do fandom americano quando de sua publicação, em abril de 2016. O livro chegou aos brasileiros poucos meses depois, com tradução de Michel Teixeira, pela editora Companhia das Letras no selo Suma das Letras.
Fica claro, já pelo título, que se trata do primeiro episódio de uma série: se são "gigantes adormecidos", certamente há mais de um desses colossos. O outro, ou outros, ficaram para as sequências. Além do mais, a ficha catalográfica revela que se trata do "Livro 1 dos arquivos Têmis", seja lá o que isso for. Ou seja, vem mais por aí.
Apesar de não ser conclusiva, a história deste primeiro volume é bastante movimentada, com fugas e perseguições, resgates perigosos, conflitos internacionais, dramas amorosos e até algum sexo.
Mas o melhor mesmo, que dá sabor à leitura, é o estilo narrativo em forma de entrevistas e depoimentos em que se alternam os personagens, com grandes lapsos entre um e outro, de modo que o leitor tem que estabelecer, por sua própria conta, as relações de causa e consequência entre um e outro capítulos. Mas não há grandes dificuldades de entendimento, pois a história é linear e bastante simples. E não deixe de ler  até a última linha, pois lá está o instigante gancho para a segunda parte, Waking gods, cuja publicação nos EUA está prevista para abril de 2017.
Por hora, vale degustar este Gigantes adormecidos, que recoloca o Brasil na rota dos lançamentos recentes da fc norte americana.
Cesar Silva

domingo, 15 de abril de 2018

Magda, Rafa Campos Rocha

Magda, Rafa Campos Rocha. 144 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia, São Paulo, 2016.

Por muito tempo restrita ao ambiente amador, publicada em fanzines e edições de autor, a ficção científica agora ocupa espaços bem mais evidentes, em editoras de porte com boa distribuição nas livrarias. Outra prova que o gênero deixou de ser o patinho feio do mercado é a frequência com que o gênero tem sido abordado pelas histórias em quadrinhos, com produções de porte sendo oferecidas com alguma regularidade, inclusive por autores brasileiros, o que há alguns anos era impensável. Isso é decorrente do crescimento do interesse pela arte, mas também do desenvolvimento de uma consciência do gênero entre os autores da nova geração, mais acostumados à tecnologia e aos apelos da cultura pop.
É por isso que temos a chance de ter publicado Magda, de Rafa Campos Rocha, pela editora Companhia das Letras, no selo Quadrinhos na Cia, novela gráfica de ficção científica de grande impacto visual, que trafega também pelas sendas do horror splatter, que é aquele que espirra sangue e vísceras para todos os lados.
Tudo começou quando cientistas brasileiros desenterraram uma rocha, que pensavam ser um meteorito. Ao partirem a pedra, libertaram um vírus poderoso do longínquo passado do planeta que, antes que se dessem conta, escapou do complexo e contaminou a sociedade, transformando pessoas em assassinos furiosos descerebrados literalmente sedentos de sangue humano. Rio de Janeiro e São Paulo se transformam em áreas de contenção, bombardeadas continuamente para evitar que a praga se alastre.
Contudo, não foi apenas o vírus que saiu daquele ovo. Ali também hibernava uma entidade que, ao ser despertada, invadiu o corpo de uma das cientistas - Magda - e com ela estabeleceu uma relação simbiótica. Magda passou a partilhar sua consciência com a invasora, a qual chama de Máquina, que lhe deu uma séria de poderes, mas cobra um preço alto por isso: a fome por sangue e carne humanos.
A história começa num campo de sobreviventes em algum lugar no interior do país, onde a praga dos transformados ainda não se estabeleceu. Os poucos transformados que ali aparecem tornam-se alimento de Magda, que mantém sua condição mutagênica em segredo dos membros da comunidade. Porém, a ausência de incidentes com os transformados chama atenção das forças armadas, que para lá enviam uma força de ocupação que pretende investigar o fenômeno. Instigada pela Máquina, Magda retorna para o local em que as coisas começaram, e o caminho será repleto de confrontos violentos, carnificina e desmembramentos.
Há ecos aqui de várias obras do cinema e da tv, como se pode perceber. A mais evidente é o seriado The walking dead, sucesso dos quadrinhos e da tv, que conta a história de um grupo de sobreviventes depois do apocalipse zumbi, mas também é forte a influência da franquia  de videogame e cinema Resident evil, e mais particularmente do filme de cinema Species  (A experiência, 2001). Apesar disso, Magda consegue sustentar independência autoral, na medida em que se apoia em cenários e maneirismos brasileiros (como não poderia deixar de ser), no estilo despojado, quase amador, dos traços do autor - que continuamente roubam do leitor a suspensão da incredibilidade - e o também evidente diálogo com "A metamorfose", de Franz Kafka: a máquina tem a aparência de uma barata enorme que muitas vezes assume a forma física da personagem.
Por trás dessa trama por si só subversiva, acontece o drama familiar entre Magda, sua amante e uma jovem que ambas têm como filha, e a velha falácia da maldição hereditária que vai dar tom humano à essa narrativa fantástica e grotesca.
O paulistano Rafa Campos Rocha é um artista experiente, professor de História da Arte, cenógrafo e artista plástico, publicou na PiauíFolha de S. Paulo, e Vice, entre outros. Magda é seu segundo álbum pela Quadrinhos na Cia; o primeiro foi Deus essa gostosa, de 2012.

sábado, 17 de março de 2018

A guerra de mundos, H. G. Wells

A guerra dos mundos (The war of the worlds), H. G. Wells. Ilustrações de Henrique Alvim Corrêa. Tradução de Thelma Médici Nóbrega. Editora Companhia das Letras/Objetiva, selo Suma das Letras, São Paulo, 2016. (Edição original de 1898).

Em 2016 comemoram-se os 150 anos do nascimento do escritror britânico Herbert George Wells (1866-1946), mais conhecido com H. G. Wells, considerado o pai de ficção científica, autor de grandes clássicos do gênero, como A máquina do tempo (1895), O homem invisível (1897) e A ilha do Dr. Moreau (1896), entre muitos outros. Mas seu romance mais importante é, sem dúvida, A guerra dos mundos (The war of the worlds, 1898), que recebeu das editoras Companhia das Letras/Objetiva em seu selo Suma das Letras, uma edição comemorativa extremamente bem cuidada, com tradução de Thelma Médici Nóbrega.
O luxuoso tratamento gráfico e editorial, a começar da capa dura com laminação fosca, relevo seco e papel pólen nas 312 páginas do miolo, revela sua natureza realmente especial no conteúdo, que traz um prefácio assinado por Braulio Tavares (parte dele pode ser lido no Blog da Cia das Letras), com um levantamento histórico e bibliográfico do autor, repleto de informações pitorescas, bem como a longa e igualmente instigante introdução de autoria do também britânico Brain Aldiss, outra sumidade do gênero. Mas não fica nisso. O grande diferencial da edição são os cerca de 30 desenhos de Henrique Alvim Corrêa, artista brasileiro que produziu estas artes para a primeira edição belga do romance, publicada em 1906. A edição brasileira não mantém a mesma qualidade na definição das imagens originais (que podem ser apreciadas em diversos saites na internet, basta pesquisar) mas, mesmo assim, é um privilégio poder apreciá-las na forma similar a que foram apresentadas originalmente aos leitores.
A história é bastante conhecida. Depois de esgotarem os recursos naturais de seu planeta natal, a civilização marciana empreende uma migração em massa para a Terra, com objetivo de aqui se estabelecer. Dotada de grande avanço científico e tecnológico, os invasores facilmente dominam o planeta e iniciam a transformação do ambiente para seus próprios padrões, eliminando o incômodo humano no processo. A narrativa parte do ponto de vista de um cidadão comum, morador de Winchester, na Inglaterra, que, no ano de 1894, ao lado de outros moradores locais, testemunha a aterrissagem de uma das primeiras espaçonaves marcianas, a partir de onde todo o horror começa.
Não se trata de uma história convencional dentro do subgênero das invasões que ela mesma inaugurou. É uma narrativa de horror, repleta de descrições vívidas e muita desesperança. Wells não estava ali propondo apenas uma obra de ficção para entreter adolescentes. Na época em que escreveu, esse objetivo não existia no gênero*. Tinha sim um alvo maduro e evidente, que era a política colonialista que o império britânico imprimia ao mundo de seu tempo, algo similar ao que fazem hoje os impérios neocoloniais, impondo sua presença em territórios estrangeiros à força de poder bélico superior. Do mesmo modo que as populações invadidas de hoje reagem com ações que o ocidente convencionou chamar de "terrorismo", em A guerra dos mundos a humanidade tenta, com seus parcos e insignificantes recursos, resistir à presença alienígena, sem qualquer efeito. A invasão é completa e irresistível, e a humanidade parece viver seus últimos dias. O que vai decretar o desfecho da história é inesperado, algo sob o qual nem homens nem marcianos detêm qualquer controle. Mais uma vez, Wells estava coberto de razão.
A edição ainda traz, em suas páginas finais, uma entrevista com o autor e o cineasta Orson Welles – cuja adaptação da obra para o rádio 1938 causou pânico nos EUA. Welles certamente ajudou a construir a fama que A guerra dos mundos tem hoje, que depois recebeu adaptações para diversas mídias, e pelos menos duas grandes produções cinematográficas em Hollywood, uma de 1953 e outra de 2005, cada qual com uma leitura própria da obra vista a partir do território americano. Na verdade, A guerra dos mundos já assume o formato de um universo compartilhado, pois há dezenas de obras que dão versões em cores locais à invasão marciana de Wells, com fatos ocorridos em paralelo ou na seuência, como na ótima noveleta "A vitória dos minúsculos", em que o escritor brasileiro Roberto de Sousa Causo narra, em estilo machadiano, a chegada dos marcianos ao Rio de Janeiro, e na novela "Não estamos divertidos", na qual o escritor português João Manuel Barreiros conta uma missão de contra-ataque da Terra a colônia marciana na Lua, que sobreviveu ao holocausto.
Ou seja, ainda que seja um clássico obrigatório, nunca foi tão oportuno adquirir, ler e reler esta que é, sem dúvida, o que se pode chamar de uma edição definitiva para A guerra dos mundos.
Cesar Silva

* O conceito de literatura segmentada só viria a ser instalado na fc no período da normatização editorial das literaturas de gênero, promovida pelo editores pulp, nos anos 1930/1940, nos EUA, com objetivos unicamente comerciais.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Dois anos, oito meses e 28 noites, Salman Rushdie

Dois anos, oito meses e 28 noites (Two years eight months and twenty-eight nights), Salman Rushdie. Tradução de Donaldson Garschagen. 336 páginas. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2016.

No século 12, tempo em que os mouros dominavam a península ibérica, viveu em Córdoba um filósofo chamado Ibn Rushd, que tinha ideias um tanto perturbadoras para uma sociedade teocrática dominada pelos conceitos de outro filósofo, o já falecido Gazhali de Tus. As ideias transgressoras de Rushd o levam ao exílio e à proibição de lecionar sua filosofia. Destituído de sua autoridade, o sábio passa a viver de pequenos negócios. É quando conhece uma bela jovenzinha chamada Dunia que bate a sua porta em busca de abrigo, e acaba por tornar-se sua amante e mãe de uma legião de filhos. Ocorre que essa jovem não era exatamente uma mulher, mas sim um djin, mais exatamente uma djínia (djin feminino) que, em períodos específicos, pode vir ao mundo dos homens.  Dunia se encantou com o amor e tudo faz para experimentá-lo, apesar de sua condição de djin, em que o amor não tem lugar. Sua dedicação ao sábio caído torna-se uma ternura que irá atravessar os séculos e perdurar muito além de sua morte.
Oitocentos anos depois, os descendentes de Dunia e Rushd estão espalhados pelo mundo. A única característica que os identifica é a falta do lóbulo na orelha, coisa que quase ninguém percebe e é ignorada inclusive por eles mesmos. Mas, como sempre acontece nas história em que dois mundos se chocam, mais uma vez as brechas entre o Peristão – o mundo dos djins –  e mundo dos homens voltam a se abrir, e coisas bizarras começam a acontecer por toda parte. A mais importante delas para o relato em questão é o que acontece com o já idoso jardineiro Geronimo Manezes que, depois de uma tempestade de três dias arrasar a cidade, percebe que seus pés não tocam mais o chão e, a cada dia, a distância entre eles e o solo aumenta um pouco mais. Mas não só: um bebê abandonado na sala da prefeita demonstra ter o poder de revelar a corrupção naqueles que a tocam, surgem uma infinidade de moléstias desconhecidas, pessoas desenvolvem superpoderes, outras ainda morrem esmagadas por um súbito aumento da força da gravidade sobre elas, e o mundo torna-se uma confusão ainda maior quando quatro poderosos djins das trevas, que causam perturbações até no Peristão, vêm ao mundo dos homens para exercitar suas maldades. Estas poderosas entidades não odeiam os humanos, na verdade não têm nenhum sentimento especial por nós além do desprezo, mas pretendem divertir-se um pouco por aqui. É quando Dunia retorna para despertar seus descendentes, cujos poderes adormecidos podem ajudar a salvar ambos os mundos da sanha dos gênios do mal. Quando encontra Geronimo, que é de fato um de seus descendentes, Dunia reconhece nele a mesma aparência do velho Ibn Rushd, por ele se apaixona e o leva para o Peristão, onde vai despertar sua natureza djin para a luta que seguirá.
Salman Rushdie é um prestigiado escritor indiano, nascido em 1947 em Bombaim e radicado na Inglaterra desde a adolescência. Formou-se em História em Cambridge, trabalhou como ator e tornou-se escritor em período integral em 1971. Ganhou prêmios importantes como o Booker Prize, o Booker of Booker e o Best of the Booker com o romance fantástico Os filhos da meia-noite (Midnight's children), que guarda muitas similaridades com Dois anos, oito meses e 28 noites. Mas seu romance mais conhecido é Os versos satânicos (The satanic verses), que lhe legou o prêmio Whitbread e uma sentença de morte pelo então líder espiritual do Irã, aiatolá Khomeini.
Dois anos, oito meses e 28 noites é uma fábula filosófica sobre o conflito das forças que regem o mundo, o embate das visões místico-religiosa e acadêmico-científica. O longo título faz referência ao clássico As mil e uma noites (que somam exatamente dois anos, oito meses e 28 noites) que, na mitologia do romance, é um período cíclico de transformações em que o véu que separa os dois mundos se rompe e a magia se manifesta também no mundo dos homens.
O texto de Rushdie é leve e contemporâneo, e sua formação multicultural dá à narrativa um colorido ímpar nas letras britânicas, com referências à várias culturas, especialmente da Índia, seu país da nascença, mas também às de outras regiões, incluindo a África e até o Brasil, que é citado algumas vezes no romance.
Ainda que haja condições para uma leitura aventuresca para esta história de amor e fúria, na maior parte do tempo, o autor trabalha questões profundas, não apenas sobre o conflito filosófico que fundamenta a narrativa, mas muitas outras como, por exemplo, sobre a polêmica que surgiu há alguns meses no ambiente literário, quando Kazui Ishiguro, também ele um escritor britânico, fez comentários aparentemente preconceituosos sobre o gênero da fantasia.  Diz Rushdie na página 245:

"... contar uma coisa ocorrida antigamente é falar do presente. Narrar contos imaginários, fantasias, é também uma forma de contar uma história sobre a atualidade. Se isso não fosse verdade, contar histórias seria inútil, e em nossa vida cotidiana procuramos, ao máximo possível, evitar inutilidades. A pergunta que nos fazemos ao narrar nossa história é a seguinte: como foi que chegamos aqui, vindo de lá?". 

Apesar da aparente similaridade, Dunia não é Jeanie (personagem de um popular seriado de tv dos anos 1960, interpretada por Barbara Eden). Apesar de igualmente apaixonada, Dunia não é serva de ninguém, ela é senhora, protagonista que define os rumos de sua própria história. Uma ideia bastante atual num mundo ainda dominado pelo machismo, que vê as mulheres como um acessório pouco mais que decorativo. Neste romance, as condições se invertem e a mulher enfrenta com ousadia os desafios da condição feminina, mesmo sendo uma djínia pois, também no mundo dos djins, as coisas não são muito diferentes no fim das contas.
Cesar Silva

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Max Mallmann (1968-2016)

No dia 4 de novembro de 2016, aos 48 anos, perdemos o escritor e roteirista brasileiro Max Mallmann Souto-Pereira, uma das gratas revelações do final da Segunda Onda da ficção científica brasileira.
Mallmann era gaúcho de Porto Alegre e estreou em 1989 com o livro de realismo fantástico Confissão do minotauro, publicado pelo Instituto Estadual do Livro. Seu segundo romance foi o vencedor do Prêmio Açorianos Mundo bizarro (1996, editora Mercado Aberto), também na linha do realismo fantástico e com o qual ele foi definitivamente integrado ao fandom nacional da literatura de gênero.
No final dos anos 1990, Mallman iniciou seu trabalho como roteirista na TV Globo, onde atuou  em importantes seriados e novelas, tais como Malhação, A grande família e Carga pesada, mas não abandonou o ofício de escritor. Em 2000 publicou pela editora Rocco a novela Síndrome de quimera, finalista do Prêmio Jabuti e ganhadora do Prêmio Argos. Seus livros seguintes, também pela Rocco,  foram Zigurate: Uma fábula babélica (2003) e a ficção histórica  O centésimo de Roma (2010), e sua sequência, As mil mortes de César (2014). Seu último trabalho publicado foi Tomai e bebei, uma pequena novela sobre vampiros lançada em 2015 pela editora Aquario.
Dono de uma prosa agradável e divertida, Mallmann não abria mão do humor e da ironia em doses generosas, que eram também características de seu comportamento social, sendo assim um autor querido por seus colegas e leitores.
Sua morte foi decorrência do agravamento de um câncer de pulmão com o qual lutava desde 2015. O corpo foi cremado no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro, e as cinzas levadas para sua cidade natal.


terça-feira, 5 de setembro de 2017

Almanaque da Arte Fantástica Brasileira 2016

Está disponível aqui, para leitura e download gratuitos, a lista de lançamentos e relançamentos literários de fantasia, fc e horror no Brasil em 2016, que é um suplemento do blogue Almanaque da Arte Fantástica Brasileira.
Há alguns meses, publiquei aqui um estudo elaborado como tarefa acadêmica no curso Bacharelado de Ciências e Humanidades da Universidade Federal do ABC, com algumas conclusões estatísticas sobre essa lista. Contudo, como prossigo com a pesquisa dos títulos até mais ou menos o meio do ano, foram acrescentados títulos à relação que serviu de base ao estudo e alguns números foram ligeiramente ampliados, mas não em quantidade que desqualifique as conclusões obtidas nele. Também publiquei aqui, no início deste ano, um artigo comentando os títulos que considero mais relevantes dessa produção. Ambos merecem a leitura de quem tiver interesse pelo assunto, então agora vou apenas comparar os números finais de 2016 com os de 2015, cuja relação também está disponível aqui.
Foi interessante observar que, apesar da crise moral, política e financeira que assola o país, o campo da literatura fantástica brasileira cresceu. Isso não é incomum. Em tempos de crise, a busca pelo gênero fantástico – dito escapista – tende a aumentar. E, desta vez, o fenômeno não ficou restrito às mídias audiovisuais e chegou também aos livros.
No total, foram publicados em 2016, 321 títulos de autores brasileiros, contra 282 em 2015, um crescimento até bastante razoável. A fantasia segue sendo o gênero mais praticado, com a fc em segundo e o horror em terceiro, e os três gêneros apresentaram crescimento em relação a 2015. Na categoria romance, por exemplo, a fantasia subiu de 105 para 142 títulos, a fc foi de 49 para 53, e o horror, de 37 para 43.
No que se refere a ficção traduzida, os números caíram: foram publicados 339 livros em 2016 contra 414 em 2015. Ainda que a fantasia também predomine aqui, sofreu uma redução de 129 para 93 títulos publicados na categoria romance. Também a fc caiu de 140 para 127, e o horror, de 50 para 32, nessa categoria.
Isso leva a crer que a crise está ajudando os autores locais a obterem espaço, embora muito desse crescimento seja enganoso em termos de tiragem absoluta: os livros de autores nacionais continuam a ser muito menos distribuídos que dos estrangeiros e são poucos os que ganham tiragem superior a uma centena de unidades. Por isso, a plataforma virtual tem sido cada vez mais utilizada pelos autores e até algumas editoras.
As ferramentas tecnológicas vieram para ficar, assim como a globalização. Se isso é bom, ainda não é possível saber. É cada vez mais difícil fazer este levantamento devido a miríade de nanoeditoras atuando no mercado. A quantidade de títulos aumenta, mas decerto que o público não inflaciona na mesma medida. E com mais autores disputando o mesmo mercado restrito, favorece-se o seletivismo, que eleva a qualidade a médio prazo. O que não deixa de ser interessante. 

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Medo de Palhaço (2016)


O site de Horror “Boca do Inferno” foi criado em 2001 por Marcelo Milici e é uma importante fonte de informações gerais e resenhas, principalmente de cinema. Um monstro eletrônico que, assim como a criatura alienígena “A Bolha” (The Blob) do filme “B” clássico de 1958, está sempre se alimentando, devorando cada vez mais conteúdos sobre o gênero fantástico, especialmente o Horror, crescendo de forma exponencial. Para se ter uma ideia, seu catálogo de resenhas possui a expressiva quantidade de aproximadamente 2650 filmes analisados, com os números cada vez aumentando mais, num colossal banco de análises sem paralelo na internet brasileira.
  Parte de sua equipe de redatores juntou esforços e como resultado foi lançado no final de 2016 o primeiro livro representante do “Boca do Inferno”. “Medo de Palhaço” publicado pela “Editora Évora” (São Paulo/SP), é uma enciclopédia definitiva sobre palhaços assustadores na cultura pop, falando sobre a coulrofobia (o nome técnico para o medo de palhaço) e abrangendo todas as mídias passando por cinema (principalmente) e televisão, além da literatura e dos quadrinhos (com textos especiais sobre os vilões “Coringa” e “Violador”).  
O livro é resultado de um trabalho extenso e de grande qualidade sobre o assunto abordado. Os destaques certamente ficam por conta das resenhas de cinema, a maior especialidade do site, com dezenas de análises muito bem escritas e informativas. Com seções especiais para os filmes mais lembrados dentro do tema, “Palhaços Assassinos do Espaço Sideral” (1988) e “It: Uma Obra-Prima do Medo” (1990). A produção geral do livro também é ótima, com uma bela capa chamativa, formato grande e acabamento caprichado.
Porém, uma falha é a falta de créditos da maior parte dos textos e de todas as resenhas, as quais deveriam ser identificadas por seus respectivos autores, utilizando-se uma legenda com as iniciais dos nomes, uma vez que o livro foi escrito por cinco pessoas.
O capítulo sobre o assassino em série John Wayne Gacy, um americano que gostava de atuar como palhaço e foi condenado pela morte de muitos jovens, possui logicamente um interesse e importância dentro do tema, mas o texto é extenso demais com excesso de informações cansativas sobre sua vida e os processos que enfrentou na justiça, até ser condenado e executado no corredor da morte por injeção letal. O capítulo poderia ser menor e mais dinâmico, eliminando muitos detalhes sem relevância.
Tem um pequeno erro de informação na resenha sobre “Slasher House” (2012), dizendo que o músico Blaze Bayley, que fez a voz de um demônio, foi o primeiro vocalista da banda inglesa de heavy metal “Iron Maiden”, porém tiveram outros vocalistas antes dele como Paul Di´Anno e até mesmo Bruce Dickinson, que saiu em 1993 dando seu lugar para Bayley, e que depois retornou em 1999 permanecendo até os dias atuais.
Outra pequena oportunidade de melhoria seria a menção do país de produção dos filmes analisados, logo na pequena ficha que inicia as resenhas. Além do fato de que algumas delas caíram na armadilha de citar datas futuras para eventuais lançamentos ou informações similares, e que já se tornaram passado no lançamento do livro. Sabemos que impedir que um texto torne-se datado é uma tarefa difícil, e talvez não registrar datas seja a solução.
Entretanto, independente dessas pequenas observações, o livro é uma referência de valor inestimável para qualquer tipo de pesquisa, estudo e catalogação sobre a origem, história e participação dos palhaços na cultura pop, em especial o cinema. Agregando imenso valor ao tema e ajudando a evidenciar a alta qualidade do conteúdo do portal de Horror “Boca do Inferno”, responsável pelo projeto, em parceria com a “Editora Évora”.
Que sejam bem-vindos mais títulos similares abordando outras fobias igualmente interessantes.

Medo de Palhaço” (2016)
Organizado por Marcelo Milici, com textos diversos e resenhas de Filipe Falcão, Gabriel Paixão, Matheus Ferraz, Rodrigo Ramos e Marcelo Milici (equipe do site de Horror “Boca do Inferno” – www.bocadoinferno.com.br
Editora Évora (São Paulo/SP)
Formato: 210 x 280 mm
270 páginas

(Juvenatrix - 28/07/17)


segunda-feira, 17 de abril de 2017

As Crônicas de Medusa

As Crônicas de Medusa (The Medusa Chronicles), Stephen Baxter e Alastair Reynolds. Tradução de Ronaldo Sérgio de Biasil. 432 páginas. Rio de Janeiro: Editora Record, 2016.

Quando Arthur C. Clarke (1917-2008) escreveu “Encontro com Medusa” ele estava no auge de seu prestígio e popularidade. Vinha do êxito do filme 2001: Uma Odisséia no Espaço, de 1968, em que ele foi co-responsável pelo roteiro e autor de um excelente romance. A novela foi publicada em dezembro de 1971 na edição norte-americana da revista Playboy, e venceria o Prêmio Nebula em 1972 e o Prêmio Hugo em 1973, os dois mais importantes da ficção científica.
“Encontro com Medusa” foi publicado no Brasil na coletânea O Vento Solar: Histórias da Era Espacial (Globo, 1973), e é provavelmente seu último trabalho de relevância na ficção curta. O enredo narra uma missão ao interior de Júpiter, e a descoberta de surpreendentes formas de vida que flutuam na atmosfera gasosa do gigantesco planeta. As descrições acuradas das etapas da missão e do encontro com as tais medusas são um primor de equilíbrio entre criatividade e verossimilhança científica. Quem conduz a missão é Howard Falcon, que anos antes sofrera um grave acidente no comando do dirigível Queen Elisabeth IV, e fora cobaia de uma experiência medicinal de fronteira, pois ele foi quase totalmente reconstruído com componentes artificiais. Falcon tornou-se um ciborgue, meio homem e meio máquina, e por isso o único capaz de mergulhar no interior de um planeta hostil à vida humana, com temperaturas e pressões na casa dos milhares de graus e atmosferas.
Já ao final de “Encontro com Medusa”, após o êxito da missão, Falcon havia se tornado uma espécie de pária. Respeitado sim, mas com reservas, pois se intuia que como um ciborque ele sinalizava o possível passo evolutivo da humanidade. Um pós-humano. Cerca de dez anos depois, reencontramos Howard Falcon no romance As Crônicas de Medusa, escrito pela dupla de autores britânicos Stephen Baxter e Alastair Reynolds.
O livro cobre um período de tempo de quase mil anos, e mostra como um ser praticamente imortal serve de elo entre a humanidade e as máquinas que, após adquirirem inteligencia e autonomia, se desprendem dos seus criadores e passam a competir com eles sobre o predomínio dos corpos celestes do Sistema Solar e seus recursos naturais. Falcon, que manteve a sua patente de comandante da Marinha Imperial da Terra, é chamado, de forma intermitente, para agir como uma espécie de embaixador da humanidade nos contatos cada vez mais complexos com as máquinas. Desta forma o livro apresenta uma série de eventos em que Falcon assume a tarefa – meio a contragosto – de representar os interesses humanos frente ao dos robôs. Só que sua ligação com os últimos torna-se próxima o suficiente para que sua lealdade seja posta em xeque.
Numa atividade industrial de extração de recursos energéticos num asteróide transplutoniano, ocorre um acidente que destroi vários robôs. Adam, o líder, para os trabalhos e Falcon é enviado para descobrir o que aconteceu. Descobre que Adam sentia tristeza pela perda dos companheiros e questionava como que os humanos os haviam colocado numa missão perigosa, e sem a segurança necessária. Ao descobrir que Adam tinha sentimentos, Falcon não apaga suas memórias, como era recomendado, mas faz um acordo com ele para que voltasse aos trabalhos, até conseguirem construir uma nave para zarparem do Sistema Solar. Centenas de anos depois, Adam anuncia o retorno da agora civilização artificial, e com um últimato: os humanos teriam 500 anos para sairem da Terra, pois seria ocupada pelas máquinas. Com isso humanos e máquinas entram definitivamente em conflito pela supremacia política e tecnológica dos planetas do Sistema Solar, numa ação de certa forma iniciada por Falcon em sua missão ao asteróide.
As Crônicas de Medusa é um romance épico que mostra como ocorre o relacionamento entre criadores e criaturas, retomando um tema dos mais tradicionais da ficção científica, agora em escala espacial. Na verdade, Baxter e Reynolds especulam sobre o que pode acontecer se as máquinas adquirirem uma autoconsciência e se tornarem muitíssimo mais inteligentes e capazes que a humanidade. Segue os argumentos da chamada singularidade, que poderia estar por acontecer ainda no século XXI. Mesmo que seja pouco provável que isto aconteça, ao menos em nosso tempo histórico, quais poderiam ser os possíveis desdobramentos? Uma nova espécie inteligente se contentaria a servir apenas aos seus criadores? Ou passaria a questionar sua condição subalterna e se rebelaria, lutando por direitos, liberdade e buscando seus próprios objetivos? Como ficaria a humanidade à mercê de uma espécie muito mais inteligente, capaz e praticamente imortal? Todas estas perguntas já foram feitas e mostradas em muitas histórias do gênero, e Baxter e Reynolds não almejam originalidade, embora coloquem a questão numa contextualização contemporânea, com aquilo que temos de mais recente em termos de pesquisa científica.
Mas o leitor pode estar se perguntando: E as Medusas? Sim, Falcon cultiva um carinho especial por estes seres enormes que flutuam no meio da atmosfera gasosa de Júpiter. De tempos em tempos, ele voltará a encontrá-las. E são nestas sequências que temos os momentos mais belos de especulação e fantasia nos mergulhos cada vez mais profundos do imenso planeta. Poucas vezes presenciei a descrição de cenas tão inspiradas sobre os mistérios de um planeta tão diferente e fascinante. Tanto do ponto de vista de como ele pode ser em termos naturais, como das eventuais formas de vida que ele pode abrigar. Pois poderá vir justamente das entranhas de Júpiter a chance eventual de reaproximação entre os homens e as máquinas, tendo, mais uma vez, Howard Falcon como uma figura central nos acontecimentos.
O desafio de escrever um romance que ocorre num intervalo de séculos é que possa segurar o interesse e não se torne uma espécie de colcha de retalhos de diferentes eventos que se justapõe. Pois Baxter e Reynolds são competentes ao amarrarem os diferentes acontecimentos dentro de um contexto maior e tendo um personagem principal a servir como elo da narrativa. Mesmo assim, pode-se ponderar que paira sobre a história um drama frio e distanciado. Alguns dos eventos cataclísmicos que ocorrem não recebem uma carga emocional condizente. Os personagens não são muito densos e desenvolvidos do ponto de vista psicológico, mesmo Howard Falcon, um sujeito que atravessa as eras praticamente sozinho, pois perde seus amigos, não tem família e apenas a sua médica é o que mais se pode considerar como uma pessoa íntima – mas ela também é humana. Contudo, pode fazer sentido, pois afinal ele, conforme o tempo passa, tona-se cada vez menos humano e mais próximo das máquinas. Virtualmente imortal como elas.
As Crônicas de Medusa foi listada como “leitura recomendada” dos melhores do ano da revista Locus: The Magazine of the Science Fiction & Fantasy Field, a mais prestigiosa da FC, embora não tenha sido finalista do Hugo e Nebula.  E é surpreendente que tenha sido traduzida e publicada tão rapidamente no Brasil pois, afinal, o livro é de 2016. Talvez tenha a ver com o fato de Ronaldo Sérgio de Biasi ser o tradutor, uma figura importante na ficção científica brasileira no início dos anos 1990, quando editou as 25 edições da Isaac Asimov Magazine (1990-1993) – versão brasileira da Asimov´s Science Fiction. Biasi nunca escondeu que prefere a vertente hard da FC, e talvez tenha influenciado a editora a publicar este romance. Acertou em cheio.
Quando imaginamos que As Crônicas de Medusa seja uma homenagem a Arthur C. Clarke, já seria louvável, embora pudesse não acrescentar muita coisa aos autores, dois expoentes da FC hard desde, pelo menos, os anos 1990. Mas a obra vai além e se ombreia na melhor tradição da corrente temática mais tradicional do gênero.
Num momento em que parte expressiva da FC se repete de maneira desanimadora com histórias sobre temas distópicos, tornando o gênero mais pobre, As Crônicas de Medusa é um sopro de criatividade. Na melhor tradição de uma literatura de ideias, apresenta vários insights especulativos e reflexões sobre os possíveis efeitos complexos da convivência entre duas civilizações inteligentes. Mostra que a FC ainda pode ser capaz de obras no qual é possível especular de forma despojada, e em que o sense of wonder não só é desejável, como necessário. E que uma obra como esta tenha sido inspirada numa história de Arthur C. Clarke não é mera coincidência.


– Marcello Simão Branco

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Dia dos Independentes (Independents´ Day, EUA, 2016)


A produtora “The Asylum” costuma lançar cópias porcarias de filmes feitos com orçamentos milionários nos cinemas, sendo o destino o mercado de televisão e vídeo. São os chamados “mockbusters”, filmes apenas oportunistas e muito ruins, principalmente os elencos e roteiros.
Em resposta a “Independence Day – O Ressurgimento”, continuação do filme de 1996 sobre invasão alienígena, a produtora lançou “Dia dos Independentes” (que também recebeu o nome por aqui de “O Ultimato” quando exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy”). A direção inexpressiva é de Laura Beth Love, mais conhecida pela fotografia de uma infinidade de tranqueiras modernas como as partes 3 e 4 da franquia “Sharknado”, onde tubarões se locomovem através de tornados e atacam as grandes cidades americanas.
A história é tão ruim que nem merece uma sinopse detalhada, e sim apenas uma abordagem bem superficial. O filme já começa com imensas naves espaciais surgindo em vários locais do mundo. Não sabendo se as intenções dos visitantes são pacíficas ou não, o exército americano tenta uma comunicação através de uma equipe liderada pela vice-presidente Raney (Fay Gauthier). Ela é auxiliada pelo General Roundtree (Sal Landi, creditado como Salvatore Garriola), o Capitão Goddard (Johnny Rey Diaz, creditado como Jonathan Ortiz), o Senador Randall Rayne (Jon Edwin Wright, creditado como Jon Wright), que é o marido da presidente, e pelo agente Taylor (Jude Lanston).
Eles tentam negociar com os alienígenas invasores, que querem a evacuação do planeta oferecendo de forma suspeita naves de transporte para a retirada da humanidade. Porém, uma milícia armada chamada “Terra Primeiro” oferece uma resistência gerando um confronto sangrento com os invasores do espaço.
Pela falta de criatividade onde o que interessa é copiar, temos aqui a já conhecida cena da Casa Branca sendo destruída pelos alienígenas, matando o presidente americano, obrigando a vice a assumir o cargo. E temos também aquelas frases banais e ridículas que só depreciam ainda mais o filme, como “é hora de explodir mais alguns ET´s, a gente vai resistir até a morte” e “esses desgraçados de alienígenas mexeram com o planeta errado”. Nada mais patético do que evidenciar o heroísmo americano como salvador da Terra e a única esperança da humanidade.
O elenco é desconhecido e é difícil imaginar como os atores encontram algum tipo de motivação para participar da realização de algo tão inexpressivo. O filho da presidente, Bobby (Mathew Poalillo), é um personagem extremamente irritante e chorão, e o ator medíocre ainda consegue tornar as coisas ainda piores. Sabemos que os efeitos de CGI são necessários em filmes de invasão alienígena, com naves rasgando o céu e tiroteios para todos os lados, e então podemos até tolerar essa questão em “Dia dos Independentes”, mas o grande problema mesmo é a história reciclada e totalmente previsível, que não desperta interesse.
Os filmes bagaceiros dos anos 50 do século passado, com suas histórias absurdas e muitas delas ingênuas, são eternamente mais divertidos justamente pelas características toscas de um cinema produzido dezenas de anos atrás. Mas, esses filmes do início do novo século produzidos pela “The Asylum” são difíceis de digerir até mesmo para os apreciadores do cinema fantástico bagaceiro, principalmente pelos roteiros de péssima qualidade. Se essas porcarias um dia se tornarão cultuadas só o tempo dirá, mas o que é certo é que o espectador precisa ter muita tolerância para conseguir assistir um filme desses até o fim, sabendo antecipadamente que será um desperdício de tempo.
Imediatamente após seu lançamento, o filme já faz parte do limbo dos esquecidos e dispensáveis, e está no cemitério das tranqueiras que não agregam nada ao gênero. Passe longe ou tente assistir apenas para conhecer as bagaceiras da produtora “The Asylum”. 
(Juvenatrix – 19/09/16)

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Tubarões de Gelo (Ice Sharks, EUA, 2016)


Como a moda é lançar filmes ridículos com ataques de tubarões, numa espécie de sub-gênero do cinema fantástico bagaceiro do início do século XXI, a parceria entre a produtora “The Asylum” e o canal de TV a cabo “SyFy”, conhecidos pelos filmes ruins, resultou em outra tranqueira chamada “Tubarões de Gelo” (Ice Sharks, 2016). A direção e o roteiro são de Emile Edwin Smith, que têm muitos trabalhos na área de efeitos visuais (como na franquia “Sharknado”), e dirigiu a tranqueira “Mega Shark vs. Mecha Shark” (2014).
As histórias são sempre as mesmas, e o objetivo é encontrar um meio de colocar tubarões atacando as pessoas, não importando como, onde ou os motivos. No Ártico, uma pequena estação de pesquisas chamada “Oásis” está trabalhando para identificar as razões do derretimento do gelo na região. Entre os técnicos e pesquisadores temos o casal David (Edward DeRuiter) e Tracy (Jenna Parker). Ao investigarem o misterioso desaparecimento de vários caçadores, eles descobrem que tubarões vindos da Groenlândia evoluíram e tornaram-se mais ágeis e violentos, atacando animais e pessoas rompendo facilmente as finas camadas de gelo enfraquecidas pelo derretimento. Os animais conseguem isolar a estação de pesquisas, que primeiramente flutua à deriva no mar, e depois afunda sem controle, obrigando seus ocupantes a lutarem pela vida combatendo os tubarões ávidos por suas carnes, enquanto esperam a possibilidade de resgate por um navio quebra gelo.
Trata-se de apenas mais um filme com história ruim e elenco inexpressivo, utilizando tubarões em efeitos vagabundos de computação gráfica. Tem algumas mortes sangrentas bem artificiais e cenas que tentam passar sem sucesso a tensão e claustrofobia de um ambiente fechado atacado pelas criaturas aquáticas assassinas. Mas, até os tubarões, que obviamente são os elementos principais da trama, aparecem pouco quando em comparação com outros filmes similares, e então temos menos cenas ridículas do que o habitual visto nas dezenas de produções genéricas do tema. O filme tenta ser sério, sem apelar para o tradicional “pastelão” que vemos na maioria dos filmes de tubarão, mas ainda assim não funcionou. Percebemos que o diretor preferiu investir mais num suspense com a luta dos pesquisadores para sobreviver ao ataque dos tubarões, mas o convite ao tédio é inevitável. O espectador, mesmo com muito esforço, não consegue estabelecer qualquer tipo de empatia com os personagens, não se importando com suas mortes. Se, até eles próprios não demonstram nenhuma reação convincente em relação à perda violenta dos amigos, é praticamente impossível para quem está assistindo também se importar com eles.
Seria ótimo se os realizadores parassem de explorar esses animais e os deixassem em paz nos oceanos.  
(Juvenatrix – 01/08/16)