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sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Distrito Federal, Luiz Bras

Distrito Federal, Luiz Bras. 280 páginas.Editora Patuá, São Paulo, 2015.

Luiz Bras estreou no restrito ambiente da ficção especulativa literária há menos de dez anos, mas já faz parte dos grandes nomes do gênero no país. Fica fácil entender o por quê quando descobrimos que Bras é clone de Nelson de Oliveira, importante escritor mainstream que se retirou da lida para algum refúgio paradisíaco, para curtir os mimos proporcionados pelos milhões de dólares de seu bem merecido patrimônio. Bras herdou de Oliveira a habilidade com as palavras, que tem aplicado no exercício da ficção especulativa, a qual está empenhado em entender e interagir.
Entre os muitos títulos do autor estão as bem avaliadas coletâneas de contos Paraíso líquido (2010), Máquina Macunaíma (2013) e Pequena coleção de grandes horrores (2014), os romances Sozinho no deserto extremo (2012), Sonho, sombras e super-heróis (2011) e Babel Hotel (2009), a não ficção Muitas peles (2011) e uma porção de antologias, como autor selecionado, como organizador ou ambos.
Um dos traços de Bras é sua busca constante por uma voz particular, que se aproveita de um estilo maduro com traços pós-modernos e poesia concretista abusando de aliterações e pleonasmos, além de propostas narrativas que fogem do padrão convencional sem perder de vista os elementos especulativos, geralmente da ficção científica mas também da fantasia e do horror, com um diálogo próximo ao do estilo que se convencionou chamar de cyberpunk, com o qual o autor parece se identificar. Outra característica de Brás é sua facilidade para lidar com temas nacionais de todos os matizes, desde elementos folclóricos até a política nacional. E é exatamente este o caso de Distrito Federal, romance que o autor nomeou como "rapsódia tupinipunk", que revela muito sobre a forma como o autor a compôs.
Trata-se de um texto experimental, com pendão inegavelmente poético, que retoma ideias testadas em dois contos homônimos vistos em suas antologias anteriores. A história é um vitral formado por pequenas narrativas focadas nas ações e solilóquios de um curupira – o último de sua espécie – que, enlouquecido com a destruição das matas brasileiras, toma o corpo de um jovem humano e passa a assassinar, com requintes de artística crueldade, a população corrupta da capital do país: deputados, senadores, ministros, governadores, prefeitos, secretários, banqueiros, tesoureiros, políticos de forma geral pois, para o curupira, a corrupção fede terrivelmente.
As ações deste improvável anjo vingador, que sempre escapa de qualquer tentativa de captura, faz surgir um exército de imitadores que matam da mesma forma que ele. Há algum conflito quando o curupira encontra, por acaso, o último saci, que também tomou o corpo de alguém e está matando, mas como são inimigos naturais, acabam não se entendendo.
Na medida em que o curupira e o saci promovem sua cruzada sangrenta, a realidade vai sendo sobreposta pela de um popular jogo eletrônico online, justamente chamado de Distrito Federal, que mistura política,  mitologia e muita violência. O surgimento de uma criança especial, que não é nem menino nem menina, exacerba ainda mais os acontecimentos, o que pode levar ao fim da humanidade sobre o planeta.
A leitura do texto é fácil e ligeira, com abundância de frases muito curtas, mas a narrativa fragmentária não dificulta o entendimento do enredo, embora este seja algo secundário na obra. A experiência estética literária é bem mais importante aqui, por isso é recomendável que o leitor esteja aberto à ela.
Distrito Federal é uma publicação da editora paulista Patuá, cujo lema "livros são amuletos" combina perfeitamente com este romance, que tem 280 páginas em papel polem e acabamento luxuoso, encadernado com capas duras e ilustrado por Teo Adorno – outro clone que Nelson de Oliveira deixou para trás.
Uma última observação que se pode fazer sobre Distrito Federal está expressa, de forma clara e absoluta, na última página do volume: "...reunião de ciência & religião, passado, presente & futuro, cultura popular & alta cultura..."; é a receita de Luiz Brás para resolver o histórico impasse entre a ficção de gênero e o mainstream, que tem buscado desde a sua estreia. Desta forma, Distrito Federal é a proposta mais bem acabada do autor para a ficção de gênero brasileira. Resta saber se o fandom e o mainstream, monstros ferozes, cheios de tentáculos e presas afiadas, vão entender isso. Se não entenderem, azar deles. Luiz Bras entendeu muito bem.
Cesar Silva

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

A casa assombrada, John Boyne

A casa assombrada (This house is haunted), John Boyne. Tradução de Henrique de Breia e Szolnoky. 296 páginas. Editora Companhia das Letras, 2015.

O apelo sinistro que um casarão antigo evoca no espírito humano é irresistível e os muitos fenômenos naturais que ocorrem nesse tipo de construção, como ruídos geralmente causados pela acomodação do madeirame, pelo vento assoviando nas frestas e por animais abrigados em suas paredes, e visões causadas pelo reconhecimento de padrões em seus detalhes barrocos, contribuem ainda mais para criar uma aura de mistério e assombro. Não é de admirar, portanto, que algumas das mais assustadores histórias de horror têm em construções assombradas os seus principais protagonistas: A assombração da casa da colina, de Shirley Jackson, A casa sobre o abismo, de William H. Hodgson, A casa das bruxas, de H. P. Lovecraft, O iluminado, de Stephen King, e O castelo de Otranto, de Horace Walpole, são apenas alguns exemplos que demonstram ser este um dos mais bem explorados filões do gênero.
O bem sucedido escritor irlandês John Boyne, que fez enorme sucesso com o premiado drama O menino do pijama listrado – também adaptado para o cinema – decidiu enveredar por esse auspicioso território em A casa assombrada, romance ao estilo gótico que homenageia esse modelo narrativo, publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras.
A história conta como Eliza Caine, jovem londrina de meados do século 19, responde a um anúncio de jornal para o emprego de governanta em Gaudlin Hall, propriedade na área rural da Inglaterra, depois que, com a morte do pai, fica sem recursos de subsistência na capital. O trabalho parece adequado a ela, que tem experiência como professora de crianças, tarefa que será sua principal função nesse emprego. Contudo, muitos mistérios cercam o trabalho, a começar do momento em que Eliza desembarca do trem na pequena estação de Norfolk. A falta de informações sobre suas responsabilidades no trabalho, a ausência de seus empregadores, o estado de decadência do casarão e a estranheza das duas crianças das quais terá de cuidar, Isabella e Eustace, tornam as primeiras horas de Eliza em Gaudlin Hall numa espécie de pesadelo surreal, que não melhora em nada quando, ao deitar para sua primeira noite de sono, sente duas mãos agarrarem suas pernas sob os cobertores.
Contudo, Eliza é uma mulher decidida e resolve enfrentar toda e qualquer adversidade para cuidar das duas crianças inocentes colocadas sob sua responsabilidade. Sua busca por informações na área urbana do condado revela ser ainda mais perturbadora, pois as pessoas a hostilizam de forma evidente. A única fonte confiável de informação parece ser o advogado encarregado de administrar a propriedade, mas ele também a evita e, mesmo quando confrontado diretamente, foge do assunto. Mesmo com tantas dificuldades, agravadas por acidentes graves e bizarros que ocorrem constantemente com ela no interior do casarão, Eliza investiga a história que se esconde atrás das paredes de Gaudlin Hall, que envolve a morte de várias governantas que a antecederam no emprego, e conclui que há um fantasma na casa. Pior, há pelo menos dois.
Embora a história se passe em 1869, o texto de Boyne é moderno e não tenta emular o estilo das narrativas góticas da época, o que tira parte do romantismo que geralmente envolve o gênero. Além do mais, Boyne não é um autor de horror e as poucas tentativas para assustar o leitor são leves e discretas. Cenas de suspense, nas quais um autor especializado no gênero faria o leitor se retorcer em agonia, são rápidas e derivativas, parecendo que o autor ficou com dó dos leitores e decidiu poupá-los de detalhes sórdidos. Um pouco desse efeito é causado pela narrativa em primeira pessoa, com a própria Eliza contando a história. Sendo uma mulher cética e pragmática, não dá muita importância ao sobrenatural e enfrenta os fenômenos como se fossem situações corriqueiras, ainda que mortais.
Ou seja, A casa assombrada acaba por não ser um livro de horror, mas sim um drama familiar de raízes naturalistas com um leve pendão para o espiritismo. Por sorte, o autor evitou habilmente não fazer o romance soar proselitista ou doutrinário, sendo assim uma leitura agradável e positivista, que pode ser lido sem problemas mesmo por leitores que não gostam de histórias de terror. Os fãs de Boyne estão seguros.
Cesar Silva

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Escuridão Total sem Estrelas

Escuridão Total sem Estrelas (Full Dark, No Stars), Stephen King. 390 páginas. Tradução de Viviane Diniz. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2015.


Quando vi o livro em uma livraria pensei que se tratava de mais uma obra sobre a ausência de luz. Afinal, Escuridão Total sem Estrelas sugere isso, ainda mais pelo design do livro, com capa e contra-capa preta e as folhas pintadas de preto em sua espessura. E o efeito é marcante. Se assim fosse, faria companhia a autores tão bons e diversos como o nosso André Carneiro (1922-2014), o inglês John Wyndham (1903-1969) e o português José Saramago (1922-2010).
Tal impressão me agradou pela perspectiva de ver um autor como King abordar o tema, mas se desfez quando percebi que as quatro histórias – duas novelas e duas noveletas – tratavam, isto sim, da escuridão da alma humana. Nas sombras que habitam em cada um de nós, nos pensamentos escuros, ruins que temos vez por outra, especialmente quando diante de grandes problemas ou dificuldades. Normalmente afastamos rapidamente tais pensamentos – nos reprimindo por tê-los –, mas nas narrativas deste livro, King mostra como tais alternativas más podem, eventualmente, se tornar tentadoras, e aflorarem. Para a ilusão de um alívio imediato que se transforma num pesadelo de proporções inimagináveis.
Este fato é especialmente verdadeiro no caso da primeira história, “1922”. Por causa de uma disputa em torno da herança de uma propriedade, um casal se desentende, pois ele quer incorporar o terreno à fazenda em que já vivem, e ela quer vender para recomeçar a vida na cidade. De saída já sabemos que as coisas tiveram o pior desfecho, já que ele, num quarto de hotel, anos depois escreve uma confissão de como tramou com o filho adolescente a morte da sua esposa e mãe de seu filho. Colocar esta novela como a primeira do livro foi muito arriscado pois é extremamente chocante, tanto pelo ato em si, pela violência desencadeada e, principalmente, pelo que acontece depois na vida do pai e do filho. Confesso que tive de parar a leitura em certos momentos e, embora ficasse com a narrativa remoendo na cabeça durante o dia, me incomodava a perspectiva de enfrentá-la depois, mesmo querendo saber o que iria acontecer. Tudo vai mal para os dois, e a tentativa de escrever a confissão parece sugerir uma certa expiação do pai pelo ato em si e por ter incluído o pobre do fillho. Além de ser uma história pesada e violenta é muito triste. Dos textos mais fortes que li de Stephen King. E olha que li boa parte do que ele já escreveu.
“Gigante do Volante” conta a história de uma escritora que após apresentar uma palestra em uma biblioteca numa cidadezinha do interior do Maine, é surpreendida quando um pneu de seu carro fura na estrada. Até aí nada demais, mas surge um homenzarrão para ajudá-la. Sim, ele troca o pneu, mas não fica só nisso. Ela é estuprada e espancada, e só escapa porque finge estar morta. Para seu horror é colocada dentro de um cano de esgoto num matagal ao lado dos corpos de outras vítimas do monstro. A partir daí ela descobre que existe uma outra persona de si mesma, como se nascesse uma nova, pois o que faz nada tem a ver com a pacata escritora de histórias de suspense adocicado. Mas o mais inacreditável ainda está por vir, na figura da bibliotecária que a havia contratado, e sua ligação com o estuprador. Embora King não defenda que se faça justiça com as próprias mãos é uma história que toma partido da vítima e a justificativa para seus atos.
De certa forma isto ocorre também – e de forma ainda mais terrível – na novela que fecha o volume, “Um Bom Casamento”. Num dia qualquer uma mulher vai até a garagem da casa em busca de um par de pilhas para o controle remoto da TV, e descobre que seu amado e fiel marido é um serial killer. Ela encontra casualmente os documentos de uma das vítimas do famoso assassino que se identifica como Beadie. O que fazer? Esta pergunta a move durante todo o tempo, principalmente depois que o próprio marido descobre que ela soube de seu segredo, e nada faz contra ela. Como que a pedir um pacto em nome do casamento, dos filhos e, claro, pela própria vida dela. A solução encontrada pode ser discutível, mas é amplamente justificada. Principalmente em nome das muitas mulheres que ele estuprou, mutilou e assassinou ao longo de quase quarenta anos.
A terceira narrativa é a única com um elemento sobrenatural. Em “Extensão Justa”, um doente de câncer vê a chance de sobreviver ao fazer um acordo improvável com um camelô à beira da estrada. Ele nota que o vendedor nada vende, apenas fica sentado em uma cadeira e expõe sobre uma mesinha uma plaquinha com os dizeres: “extensão justa” que, no caso, se trata de oferecer um período a mais daquilo que mais se deseja. Pode ser tempo, dinheiro, carreira, amor, saúde. Claro que existe uma contrapartida, e deve haver uma transferência. No caso, alguém deve ser prejudicado, uma pessoa que seja odiada pelo beneficiado. Após uma breve hesitação ele afirma que é seu amigo de infância que deve receber tudo de ruim que paira sobre ele. Afinal, roubou sua primeira namorada e é muito mais bem sucedido economicamente. Com o pacto o câncer vai embora, sua vida financeira melhora, e seu amigo perde a esposa – a mesma antiga namorada – de câncer, um de seus filhos morre num acidente e outro fica seriamente doente, além da vida financeira da família piorar muito. O que espanta nesta história é como o personagem que faz o acordo com o Diabo é insensível a tudo o que acontece com seu amigo, com o qual ele continua convivendo. Ele vai ficando mais saudável e feliz quanto mais desgraças acontecem com o objeto de seu ódio.
Como observa Stephen King no seu ótimo posfácio, a pergunta recorrente que inspirou cada uma destas histórias é a de que ninguém conhece verdadeiramente outra pessoa, por mais presente, íntima ou amada que ela seja. Claro que o desconhecimento não precisa ser sobre algo necessariamente ruim, mas esta é a premissa do livro, quer dizer, mesmo de quem jamais desconfiaríamos coisas muito más podem surgir. É o que descobre a mulher brutalmente morta em “1922”; o que a escritora descobre sobre si mesma após ser violentada; a esposa feliz que, de repente descobre que seu marido é o oposto radical do que acreditava; e o cara que também descobre em si mesmo o bem estar de fazer o mal a alguém que sempre lhe foi bem próximo. Ora, em “1922” o tema motivador das ações é a ganância; em “Gigante do Volante” é a vingança; em “Extensão Justa” é a inveja e em “Um Bom Casamento” estamos diante de uma situação de ilusão, de auto-engano.
Para nossa fortuna Stephen King escreve muito e é profusamente publicado no Brasil. A qualidade de sua obra é acima da média, ou seja, mesmo um King menor muitas vezes é mais interessante do que outros autores no melhor de sua forma. Escuridão Total sem Estrelas recebeu os prêmios Bram Stoker e British Fantasy em 2010 na categoria “melhor coletânea”, e se distingue como um grande momento do autor. As quatro narrativas propõe uma questão fundamental e como cada personagem vai responder de acordo com suas circunstâncias e motivações. Um livro com histórias poderosas, que desestabiliza os personagens, transformando de forma definitiva suas vidas e, sobretudo, incomoda e perturba o leitor. Quantos escritores são capazes disso?

– Marcello Simão Branco

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

The Hollow (EUA, 2015)


É uma pena que existam tantos filmes que desqualificam o tão fascinante cinema de horror, com roteiros exageradamente ruins, desfile de clichês, previsibilidade e um monstro criado por CGI tão patético que inevitavelmente arremessa o resultado final no limbo das produções que merecem ser esquecidas. É o caso da tranqueira “The Hollow” (2015), com direção do canadense Sheldon Wilson e história dele em parceria com Rick Suvalle. A dupla já havia trabalhado junto em outra porcaria similar, o anterior “Espantalho Assassino” (Scarecrow, 2013).
Três irmãs adolescentes, Sarah (Stephanie Hunt), Marley (Sarah Dugdale) e a caçula Emma (Alisha Newton) vão visitar sua tia Cora (Deborah Kara Unger) numa pequena cidade que fica numa ilha, na época do Halloween. Elas enfrentaram uma tragédia familiar com a morte dos pais num acidente de carro.  Porém, ao chegarem ao local, se deparam com um cenário deserto de mortes e mistérios envolvendo uma lenda de uma criatura sobrenatural da floresta, formada por fogo, ossos e terra, que está em busca de sangue e vingança.
“The Hollow” pode ser resumido rapidamente como uma história banal com ideia central já vista incontáveis vezes, sem absolutamente nada que já não tenha sido explorado à exaustão anteriormente, com os mesmo velhos e muitas vezes entediantes clichês do gênero. As três irmãs ficam o tempo todo correndo de um lado a outro, em encontros e desencontros, perseguições, tiroteios, gritarias e confrontos com um monstro de computação gráfica que não desperta qualquer interesse. Elas eventualmente encontram outros personagens tão patéticos quanto elas, que surgem apenas para serem vítimas da criatura. É o típico filme que nasceu para ser esquecido, premiando com isso a falta de criatividade e preguiça dos realizadores em tentar fazer algo melhor 
(Juvenatrix – 14/10/16)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

O Lago dos Tubarões (Shark Lake, 2015)


Os tubarões são os animais mais maltratados pelos roteiristas no cinema. São tantos os filmes ruins abordando essas feras do mar que uma missão de catalogação é bem difícil. Esses animais foram transformados em fantasmas, zumbis, demônios, monstros geneticamente modificados, criaturas pré-históricas, assassinos que habitam lagos e rios, criaturas que se locomovem através de tornados e avalanches, surgem debaixo da areia, e inúmeras outras coisas absurdas. Quase em sua totalidade, os filmes são patéticos ao extremo, e em alguns poucos e raros casos até proporcionam alguma diversão discreta justamente por suas características bagaceiras.
Não é o caso de “O Lago dos Tubarões” (Shark Lake, 2015), dirigido por Jerry Dugan. Aqui, a regra se mantém como um filme sem atrativos e totalmente descartável, tendo como único diferencial a presença no elenco do ator sueco Dolph Lundgren (das franquias “O Soldado Universal” e “Os Mercenários”), que aparece no cartaz apelativo estampando seu rosto para tentar chamar a atenção dos fãs. Ele que é um ator conhecido pelos filmes de ação com tiroteios, porradas, perseguições e explosões para todos os lados, mas que pertence a um escalão menor, ficando o topo desse gênero do cinema para astros lendários como Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Uma vez precisando de trabalho, Lundgren obviamente aceitou o papel, independente da história ruim e precariedade geral da produção, e teve como resultado apenas mais um filme que não agrega nada em sua carreira.
Ele é o viúvo Clint Gray, que passou cinco anos preso por fazer parte de um esquema de tráfico de animais, deixando sua filha pequena Carly (Lily Brooks O´Briant) para ser cuidada pela policial Meredith Hernandez (Sara Lane), xerife de uma pequena cidade americana no Estado de Nevada. As coisas começam a se complicar quando ocorrem mortes sangrentas misteriosas num lago, creditadas inicialmente e de forma equivocada para um urso. Porém, com a investigação de um professor de oceanografia, Peter Mayes (Michael Aaron Miligan), descobre-se logo que a autoria dos assassinatos brutais no lago é de uma família de tubarões (nem é “spoiler”, pois o título do filme já entrega a revelação). Resta ao herói Clint salvar a cidade da ameaça das feras aquáticas.
A história é carregada de clichês que não despertam interesse. As cenas de mortes não impressionam. Os efeitos em CGI vagabundo não convencem e só contribuem para tornar a produção ainda mais descartável. Tudo é muito óbvio e sem graça, num convite ao sono. Dolph Lundgren nem é o protagonista, ele aparece pouco e sua participação resume-se ao velho clichê de um personagem canastrão metido a durão, e que luta com os tubarões de borracha numa cena tão patética que dá pena. “O Lago dos Tubarões” certamente está entre os piores de todos os filmes ruins com tubarões, mesmo sem exagerar nas ideias absurdas que normalmente o cinema utiliza para ridicularizar essas feras das águas. Mas, a história é tão desinteressante que o resultado foi apenas mais um filme destinado ao limbo dos esquecidos.
(Juvenatrix – 26/07/16)

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Os lançamentos da fcf&h no Brasil em 2015

Está disponível para download gratuito a primeira edição do Almanaque da Arte Fantástica Brasileira, que dá sequência ao trabalho realizado até 2014 pelo Anuário Brasileiro de Arte Fantástica, com uma ampla lista de livros de literatura de ficção científica, fantasia e horror publicados no Brasil em 2015.
A proposta é a mesma do Anuário, de catalogar os lançamentos e relançamentos de fcf&h de autores nacionais e estrangeiros, albergando também as edições virtuais. A edição tem 34 páginas e relaciona 696 títulos, sendo 282 nacionais e 414 estrangeiros.
Apesar de ampla, a pesquisa não é absoluta, pois é praticamente impossível relacionar tudo o que se publica no país, uma vez que muitas edições são lançadas regionalmente e sua divulgação não alcança a pesquisa, mas o levantamento cumpre seus objetivos na medida em que, seguindo os mesmos critérios do Anuário, monta um panorama bastante confiável da publicação do gênero por aqui.
Podemos observar a evolução do mercado na figura abaixo, na qual foram computados, ano a ano desde 2004, os números da publicação de autores brasileiros (em azul), estrangeiros (em vermelho) e o total geral (em verde). Houve um crescimento contínuo e explosivo até 2010, quando a crise começou a se manifestar derrubando fortemente a quantidade de lançamentos do ano seguinte e, ainda que 2012 tenha sido o melhor ano do período estudado, desde então os números têm sofrido quedas sucessivas, especialmente no que se refere a publicação de autores locais, colocando o mercado de 2015 no pior patamar desde 2009.
Também percebemos que a publicação de autores nacionais, que havia superados a de estrangeiros traduzidos entre 2010 e 2013, em 2015 voltou a ficar bem abaixo, como também aconteceu em 2014. Isso é decorrente da recuperação da credibilidade do gênero entre as grandes editoras que, contudo, não se reflete positivamente para os autores nacionais porque elas preferem traduzir estrangeiros.
Mas as notícias não são ruins de todo, pois os lançamentos de 2015 mostram-se estáveis em relação ao ano anterior.
Para os mais curiosos, a última página do Almanaque relata todos os números de 2015, não apenas os totais, mas também os subtotais por formato e gênero. Os levantamentos dos anos anteriores podem ser obtidos nas edições do Anuário, algumas delas disponíveis gratuitamente aqui.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

30 Anos do Clube de Leitores de Ficção Científica

Marcello Simão Branco


Nos anos 1960 e 1970 boa parte dos livros de ficção científica que apareceram nas livrarias e bancas de jornal brasileiras eram coleções de bolso. Pequenos, baratos e relativamente perecíveis. Muito semelhantes às revistas pulps publicadas nos Estados Unidos nos anos 1930 e 1940. As coleções eram em sua maioria de origem portuguesa: Antecipação, Argonauta, Europa-América; e brasileiras, como Bruguera, Galáxia e Urânia, entre outras. Leitor e colecionador de todos estes livrinhos, Roberto Cesar do Nascimento resolveu escrever um livro sobre a coleção mais importante destas todas, a Argonauta, publicada pela editora lusitana Livros do Brasil, desde o início dos anos 1950. O livro chamou-se Quem é Quem na Ficção Científica: Volume 1, A Coleção Argonauta (João Scortecci Editor, 1985) e, ambicioso, Nascimento incluiu em seu final uma ficha de inscrição para a criação de uma associação de leitores voltada ao gênero.

Como resultado concreto deste sonho em conhecer outros como ele em seu amor e devoção à ficção científica, foi fundado no dia 15 de dezembro de 1985 o Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), na cidade de São Paulo. Além do Nascimento, outros três são considerados fundadores: Ivan Carlos Regina, Fritz Peter Bendinelli e Walter da Silva Machado. Assinaram a ata, escreveram o estatuto, registraram em cartório e publicaram o número zero do “Boletim do Clube de Leitores de Ficção Científica”. Tudo muito organizado, característica principal do Nascimento.

Previsto para ser mensal, o boletim só ganhou seu nome definitivo em julho de 1986, na sétima edição. Por meio de um concurso promovido entre os sócios, o nome escolhido foi “Somnium”, uma homenagem à história de mesmo nome publicada pelo astrônomo alemão Johannes Keppler (1571-1660), numa sugestão do sócio José dos Santos Fernandes. Desde então o Somnium representou um dos principais centros de divulgação, publicação, debate e crítica da ficção científica realizada no Brasil. Pelo menos nos anos iniciais, sob edição do Nascimento, foi regular, característica que seria abandonada drasticamente nas administrações posteriores. Mesmo assim publicou a incrível marca de 100 edições impressas no ano de 2007, e está atualmente na 111ª. Em termos de qualidade, o fanzine sempre esteve entre os mais importantes e influentes. Venceu o Prêmio Nova de “Melhor Fanzine” em 1987, 1989 (empatado com o Megalon) e 1991; e venceu como “Melhor Publicação Semi-Profissional”, em 1994.

De suas páginas surgiram e/ou se desenvolveram a maior parte dos talentos da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, seja como escritor, crítico, editor, ilustrador: Braulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Ivan Carlos Regina, Roberto Schima, Roberto de Sousa Causo, Fábio Fernandes, Lúcio Manfredi, Carlos Orsi Martinho, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife, Gilberto Schoereder, Carlos Andre Mores, José dos Santos Fernandes, Sylvio Gonçalves, Ataíde Tartari, Cesar Silva, Henrique Flory, Octávio Aragão, Martha Argel, Finisia Fideli, José Carlos Neves, e tantos outros. Tal conjunto fez do Somnium o fanzine que mais teve histórias premiadas: 10 prêmios Nova, um Tapìrài e um Argos. Entre os editores do Somnium, tivemos o já citado Nascimento, Lúcio Manfredi, Christiano de Melo Nunes, Luiz Marcos da Fonseca, Carlos André Mores, Marcello Simão Branco, Alfredo Keppler, Cesar Silva, Matias Perazoli Júnior, Daniel Borba, e Ricardo Guilherme dos Santos. O decano dos autores brasileiros de ficção científica, André Carneiro (1922-2014), manteve por vários anos a coluna “Crônicas do André”, com saborosas passagens de sua vida pessoal e literária. Entre fins dos anos 1980 e início dos 1990, o fanzine tinha tal evidência no fandom, que chegou a ser parodiado, com outro fanzine chamado Zomnium, publicado por sócios do Rio de Janeiro.

Além da publicação principal, o CLFC manteve também por alguns anos o Informativo Mensal CLFC, mais voltado à parte social, com informe de novos sócios, eventos, convocações para reuniões etc. Entre seus editores tivemos nomes como Adriana Simon, Ataíde Tartari e Humberto Fimiani. Em termos de livros, o CLFC publicou dois: o primeiro foi Vinte Voltas ao Redor do Sol, organizado por Alfredo Keppler, em comemoração ao aniversário de 20 anos, no ano de 2005. Uma caudalosa e representativa antologia de 390 páginas com depoimentos e 20 histórias escritas por sócios. Já o segundo foi Brasil Fantástico: Lendas de um País Sobrenatural, organizado por Clinton Davisson, Grazielle de Marco e Goergina de Sousa. Ao contrário do primeiro, que foi publicado com recursos do clube, este saiu com o selo da editora Draco, em 2013. Curiosamente uma antologia com 11 histórias de fantasia e horror.

Talvez a atividade mais tradicional do clube seja os encontros mensais. Desde a fundação, os sócios paulistas têm se reunido no último sábado do mês. Nos primeiros anos era de manhã, na então Livraria Paisagem, na Avenida São Luís, Centro de São Paulo. Nesta época outro ponto de encontro regular era a Livraria Temos Livros, na Avenida São João, também no Centro da capital paulista. Do início dos anos 1990 até o início dos anos 2000 o local foi a sede do sindicato dos engenheiros ferroviários de São Paulo, próximo à Estação Luz do metrô, e desde então tem sido realizada à noite, numa pizzaria no bairro da Aclimação, pertencente à família do sócio Humberto Fimiani. Mais recentemente, no segundo semestre de 2015, além do encontro gastronômico, tem havido a tentativa de retornar as reuniões vespertinas, na sede da Devir Livraria. Os grupos de sócios de outros estados não foram tão regulares, mas por vários anos especialmente os sócios do Rio de Janeiro (na capital) e do Rio Grande do Sul (em Porto Alegre), também realizaram animadas reuniões periódicas. As reuniões chegaram a ser muito aguardadas e concorridas, principalmente porque divulgavam as novidades do clube, novos livros, contatos com entidades do país e do exterior, a chance de conhecer novos fãs e sócios, mostrar e vender livros e fanzines, apresentar novos projetos etc. É importante lembrar que nos anos 1980 e em parte dos 1990 não existia internet e nem TV a cabo, além de existir muita dificuldade em importar livros e revistas, por causa da inflação e da burocracia. Desta maneira uma das principais formas de se informar sobre FC era por meio das reuniões, além dos próprios fanzines. Nos anos iniciais, pelo menos em São Paulo, cada reunião tinha como principal atração uma palestra ministrada por algum sócio que fosse especialista num tema, numa obra ou num autor. Chegavam a aparecer 40, 50 pessoas nas reuniões, verdadeiras mini-convenções que se estendiam pelo dia adentro. Velhos e saudosos tempos.



      


Já em seus primeiros anos o CLFC procurou divulgar o clube e a FC junto à sociedade em geral. Realizou duas mostras no Sesc Pompéia, em 1986 e no Sesc Carmo, em 1988. Dois eventos que trouxeram prestígio à associação. Em 1988 organizou uma “Semana de FC”, na então Livraria Belas Artes, na Avenida Paulista, com debates e exposições sobre itens de FC. Já em meados dos anos 1990, realizou dois encontros “FC e Universidade” em São Paulo, com debates entre sócios, acadêmicos e personalidades ligadas à cultura. Num deles esteve presente o indigenista Orlando Villas Boas (1914-2002). Nos anos posteriores, o CLFC esteve presente como entidade convidada ou associada de vários eventos, como a RhodanCon – Convenção Brasileira sobre Perry Rhodan, em 1994, a Convenção Brasileira de FC, em 1995 – ambas realizadas em São Paulo –, as InteriorCons: Convenções de Ficção Científica do Interior de São Paulo, realizadas de 1990 a 1997 pelo sócio Roberto de Sousa Causo, na cidade de Sumaré e, mais recentemente, o clube tem participado de eventos como as JediCons, de iniciativa dos fãs de Star Wars, em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Além dos eventos, especialmente nos seus primeiros anos, o CLFC foi bastante divulgado na imprensa de São Paulo, em jornais como O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e na revista Veja. Eu mesmo conheci o clube em 1986 através de uma destas reportagens, publicada no Jornal da Tarde.
Ao longo dos anos foi possível acompanhar uma verdadeira troca de gerações no comando e na liderança do clube. Os primeiros presidentes participaram da chamada Primeira Onda, dos anos 1960, seja como fãs, leitores, colecionadores, escritores ou editores. O Nascimento, o Luiz Marcos da Fonseca e o Gumercindo Rocha Dorea. De meados dos anos 1990 em diante, uma nova geração assumiu a entidade: primeiro de sócios surgidos na Segunda Onda nos primórdios do clube: Gerson Lodi-Ribeiro, Humberto Fimiani e Alfredo Keppler; depois os mais identificados com os anos recentes: Ana Cristina Rodrigues, Eduardo Torres – este não em termos de idade, mas de participação –, e o atual presidente Clinton Davisson. Outros nomes que assumiram cargos de diretoria incluem, entre outros, Ivan Carlos Regina, Sérgio Roberto Lins da Costa, Fritz Peter Bendinelli, Daniela Bittencourt, Marcello Simão Branco, Cesar Silva, Matias Perazoli Júnior, Ataíde Tartari, Adriana Simon, Gabriel Bozano, Paulo Elache.
O CLFC não foi o marco inicial da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira. Antes dele, foi fundado o Clube de Ficção Científica Antares (CFCA), de Porto Alegre, e a Sociedade Astronômica Star Trek (SAST), de São Paulo, ambos de 1982 – os dois misturavam entre seus interesses ficção científica e astronomia. Além deles, tivemos ao menos dois fanzines importantes, como o Boletim Antares, do CFCA, e o Hiperespaço, editado por Cesar Silva, José Carlos Neves e Mário Mastrotti, ambos também de 1982.
Mas o CLFC foi o ponto central de convergência de atividades e resultados de toda a Segunda Onda. Especialmente de 1985 a 1995 é possível afirmar que o clube esteve à frente da maior parte das atividades e polêmicas em torno do gênero no país. Nesta época o clube chegou a ser consultado para a publicação de livros de FC, uma espécie de consultoria informal, em algumas editoras. Sócios de destaque divulgaram, publicaram e participaram da revista Isaac Asimov Magazine, publicada pela Editora Record, entre 1990 e 1993, em suas 25 edições. Um exemplo disso foi a composição do júri do “Concurso Jerônymo Monteiro”, no qual dois dos três integrantes pertenciam aos quadros do CLFC. Como parte deste prestígio, o clube torna-se uma das poucas associações de fãs do gênero em todo o mundo a ser aceito como membro da Science Fiction and Fantasy Writers of America (SFWA).
A queda da importância, uma verdadeira decadência, começa a vigorar em meados dos anos 1990 devido a uma série de motivos. Entre eles, problemas sucessórios e administrativos, um conflito de gerações entre sócios mais colecionadores e outros mais produtores, e como parte disso pela busca por objetivos mais individuais de sócios que despontaram como artistas com chances de êxito profissional, além da queda brutal no número de livros do gênero lançados no país, o que causou certa depressão no fandom como um todo, especialmente depois do fim da Isaac Asimov Magazine. Já nos anos 2000, a falta de relevância foi aprofundada com a segmentação social provocada pela internet – que trouxe também novas maneiras de articular a divulgação e produção de FC –, além de uma nova geração de talentos sem participação prévia na história da associação, e o afastamento de vários sócios dos primeiros anos.
Houve, contudo, algumas formas de resistência contra a crescente perda de importância. Em 2000 foi criado o Prêmio Argos. Durou quatro edições e nas duas primeiras remunerou os vencedores na tentativa de chamar a atenção da mídia. Não deu certo. Mas em 2012 o prêmio voltou a ser organizado, e conta já com mais quatro edições. Neste segunda fase, o Argos têm tido uma boa participação eleitoral dos sócios.
Também aconteceram algumas iniciativas editoriais. Em 2001 o clube firmou uma parceria editorial com editora Meia-Sete, para indicar contos para a revista Sci-Fi News Contos. Mas a revista durou só duas edições. E, como já citado, dois livros foram publicados, ainda que de alcance restrito às fileiras do fandom.
Nestes 30 anos conhecer a trajetória do CLFC é importante para a compreensão da história recente da FC brasileira e dos seus rumos possíveis. Porém, mais que isso, embora sem pretender alcançar a relevância dos seus primeiros anos, o clube pode voltar a ser uma entidade útil para a divulgação, articulação de atividades e promoção de talentos nos dias de hoje. Um pólo informal de atração e identificação do gênero no Brasil, num momento de tantas atividades, mas de certa desarticulação entre elas.
  
-- Marcello Simão Branco é o sócio n. 83, desde maio de 1987.

domingo, 13 de setembro de 2015

Tubarões Zumbis (Zombie Shark, EUA, 2015)


Os tubarões estão entre os animais mais explorados pelo cinema. Depois que Steven Spielberg concebeu seu clássico “Tubarão” (Jaws) em 1975, a quantidade de filmes utilizando esses temíveis predadores dos mares é imensa, com a grande maioria sendo produções bagaceiras com roteiros com excesso de clichês e principalmente ideias bizarras ao extremo. Tem tubarões viajando em tornados, em avalanches de neve, aparecendo em pântanos, tornando-se fantasmas, mutantes diversos, gigantescos, pré-históricos, geneticamente modificados, e até zumbis. Isso mesmo, tubarões mortos que atacam outros de sua própria espécie e os humanos, transferindo uma infecção que transforma todos em mortos-vivos.
Tubarões Zumbis” (Zombie Shark) é apresentado pelo canal de TV “SyFy”, produzido pela “Active Entertainment” e tem direção de Misty Talley, que foi o editor de outros filmes tranqueiras como “Terremoto Aracnídeo” (2012), “A Cápsula do Tempo” (2012) e “O Tubarão Fantasma” (2013). O roteiro horrível de tão ruim é de Greg Mitchell, o responsável pela porcaria colossal “SnakeHead Swamp” (2014).
Um grupo de quatro jovens descerebrados vai até um hotel fuleiro numa ilha. Jenner Branton (Ross Britz) é o único homem, que está levando sua namorada Amber Steele (Cassie Steele), a irmã dela Sophie (Sloane Coe) e a fútil Bridgette (Becky Andrews), todas garçonetes de um bar. Lá chegando, depois de descobrirem que o hotel não tem nem estrelas de tão ruim, e é administrado apenas por uma pessoa, Lester (Roger J. Timber), eles ainda tem que enfrentar a fúria de ataques de tubarões que estão mortos, mas mordem e destroçam suas vítimas. E quem é infectado transforma-se em zumbi. O líder dos tubarões, chamado de Bruce, é inteligente e fugiu de uma base militar científica próxima da praia que supostamente estava abandonada. Ele é o resultado de experiências lideradas pela cientista Dra. Diane Palmer (Laura Cayouette) com regeneração de tecidos mortos para utilizar em soldados feridos em combate. O chefe de Segurança da base, Sargento Maxwell Cage (Jason London) está caçando o tubarão e tenta ajudar os jovens turistas recém chegados à ilha, que estão desprotegidos por causa de uma tempestade no continente que impede a comunicação com a polícia ou guarda costeira.
No meio de tanta porcaria lançada aos montes para todos os lados, situada dentro do cinema fantástico bagaceiro do século XXI, alguns filmes até divertem pela precariedade da produção e honestidade em apresentar um roteiro absurdo que brinca com os próprios clichês. Mas, tem também os filmes ruins com excesso de defeitos que somente conseguem entediar o espectador com overdoses de bobagens nas histórias e amadorismo de seus realizadores. “Tubarões Zumbis” faz parte deste último grupo, onde nada funciona, desde a história cheia de furos e com notável falta de empenho do roteirista, passando pelo elenco inexpressivo que contribui para torcermos pelas mortes violentas das personagens, e culminando com um trabalho tosco com CGI vagabundo, com péssimos efeitos que não convencem e ainda estragam qualquer tentativa de tornar alguma cena tensa. É o tipo de filme para ser ver uma vez apenas por curiosidade, e se esquecer logo em seguida, mandando-o para o limbo das produções que não acrescentam nada ao gênero. 
(Juvenatrix – 13/09/15)

domingo, 6 de setembro de 2015

Lavalantula (EUA, 2015)


A produção é da “Cinetel Films”, de bagaceiras como “A Queda da Terra”, a distribuição é do canal de TV a cabo “SyFy”, o apoiador oficial do cinema fantástico bagaceiro do século 21, e a direção é de Mike Mendez, de outras tranqueiras como “Maldita Aranha Gigante!” (2013). A história é sobre aranhas do tamanho de homens que cospem fogo pela boca, oriundas de uma erupção vulcânica em Los Angeles, nos Estados Unidos, e no elenco temos a liderança das ações por Steve Guttenberg, mais conhecido pela participação na popular e cultuada franquia de humor “Loucademia de Polícia”, dos anos 80 e 90 do século passado. O resultado disso tudo tem um nome: “Lavalantula”, a contração das palavras lava com tarântula.
Colton West (Steve Guttenberg) é um astro do cinema de ação dos anos 90, conhecido por atuar como o “Foguete Rubro”, um super-herói vestido numa armadura que voa. Casado com a bela Olivia (Nia Peeples), que luta kickbox, e pai do adolescente Wyatt (Noah Hunt), ele está no momento trabalhando num filme bagaceiro sobre baratas gigantes (num divertido exercício de metalinguagem, onde os realizadores estão brincando com os seus próprios clichês). Quando decide sair do set de filmagens para encontrar o filho, se depara com uma explosão nas montanhas de Santa Monica, causando terremotos e o pior de tudo, uma invasão de aranhas enormes incendiárias. Encarnando o verdadeiro herói americano, ele se junta com um fã patético, Chris (Patrick Renna), que encontra num ônibus de turismo, e parte para combater as aranhas, tentando encontrar a esposa e o filho no meio do desastre, ao mesmo tempo em que defende a cidade, procurando uma forma de deter as aranhas, principalmente uma imensa rainha.
Em “Lavalantula” tudo é exagerado, desde o roteiro carregado de forma proposital com elementos absurdos até os efeitos dos monstros aracnídeos em CGI vagabundo. Para não enrolar o espectador, já em menos de dez minutos de projeção, ocorre uma erupção vulcânica que liberta as enormes aranhas que cospem lava pela boca. Tem muitas homenagens e brincadeiras com o próprio cinema fantástico bagaceiro em que o filme se situa. Não falta nem o tradicional discurso padrão do herói convocando nesse caso os funcionários do estúdio de cinema para se motivarem na batalha contra as criaturas de oito patas. Dentro desse ponto de vista, podemos dizer que existe claramente uma intenção honesta dos realizadores em produzir e oferecer ao público uma porcaria colossal sem pretensão de mostrar uma história séria, e por isso mesmo, consegue o objetivo maior que é exclusivamente a diversão simples e sem compromisso com a lógica. O espectador não é enganado, pois sabe com antecedência que verá um filme ruim, que quer apenas divertir debochando dos próprios clichês e situações estrambólicas.    
Entre as várias curiosidades, temos a participação de quatro atores da franquia “Loucademia de Polícia”, pois além de Steve Guttenberg, ainda temos Michael Winslow, Marion Ramsey e Leslie Easterbrook no meio do ataque das tarântulas vulcânicas, numa interessante homenagem. O roteirista Leigh Whannell, criador da série de filmes “Sobrenatural”, aparece numa ponta logo no início, interpretando justamente um diretor de cinema. O ator Ian Ziering, principal nome na cultuada franquia “Sharknado”, aparece rapidamente no meio do caos com a invasão dos aracnídeos pré-históricos, encontrando Colton West no tumulto. Após cumprimentá-lo, ele diz para o colega de profissão que “adoraria ajudá-lo, mas estou com problemas com tubarões”, numa brincadeira muito divertida com a série de filmes de ataques de tubarões nas grandes cidades americanas, usando os tornados como meio de transporte. Na dublagem brasileira, o termo “lavalantula”, utilizado como título do filme e mencionado várias vezes na história, é pronunciado como “lavantula”, numa decisão acertada e mais apropriada. E por último, e especiamente para os brasileiros, em determinado momento, durante a confusão no ataque das aranhas, aparece um poste de identificação de uma praça na “Hollywood Boulevard” com a placa indicando “Carmen Miranda Square”, referindo-se à famosa cantora luso-brasileira.
Para concluir esse texto, vale registrar que antes mesmo dos produtores avaliarem o retorno do lançamento de “Lavalantula”, já foi anunciada uma sequência para 2016 com o nome “2 Lava 2 Lantula!”, cujo gancho enorme foi revelado no desfecho com a pergunta: “Esse é o fim das lavalantulas?”. Parece que não... 
(Juvenatrix – 06/09/15)

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A Queda da Terra (Earth Fall, EUA, 2015)


Dirigido por Steven Daniels e escrito por Colin Reese, em seus primeiros trabalhos, “A Queda da Terra” é mais um daqueles filmes sobre catástrofes naturais exibidos pelo canal de TV a cabo “SyFy”. Representando o moderno cinema fantástico bagaceiro do início do século XXI e produzido pela “Cinetel Films”, estúdio responsável por uma infinidade de outras tranqueiras similares, o filme traz os esperados elementos que devem relegar sua existência inevitavelmente ao limbo, ou seja, um elenco inexpressivo num roteiro óbvio, previsível e cheio de clichês, além de efeitos de CGI vagabundos.
Um corpo celeste imenso em alta velocidade passa próximo da Terra criando um magnetismo intergaláctico que ocasiona a inclinação do eixo do planeta em noventa graus. Outro efeito desse evento foi que a Terra passou a ser atraída por ele, se afastando do Sol. E uma vez vagando sem rumo pelo espaço, nosso planeta ficou no caminho de uma chuva de meteoros, numa provável rota de colisão. Para completar o cenário apocalíptico, ainda temos a ocorrência devastadora de tempestades de fogo e gelo, arrasando as cidades e dizimando milhões de pessoas.
Em meio ao caos, uma típica família americana tenta se reagrupar. Uma vez que o pai, o escritor Steven Lannon (Joe Lando), a mãe, uma cientista trabalhando para o governo, Nancy (Michelle Stafford), e a filha adolescente Rachel (Denyse Tontz), que estava num evento de música numa cidade do interior, estão todos separados quando se inicia a tragédia com a Terra saindo de seu eixo. Paralelamente, o governo dos Estados Unidos, o país que sempre salva o mundo, tenta encontrar uma solução para o problema, com o objetivo de recolocar o planeta na posição original e impedir a extinção da humanidade.
“A Queda da Terra” apenas colabora ainda mais com a “queda da qualidade” desses filmes de catástrofes com elementos de ficção científica que são produzidos em grande quantidade nos Estados Unidos e exibidos na televisão pela “SyFy”. Tudo é muito previsível na história, não fugindo do trivial. Algo ameaça destruir o planeta (nesse caso, um corpo celeste que tirou a Terra de seu eixo). Algo passa a ser o foco das atenções para justificar os 90 minutos de projeção (uma família separada tentando se unir novamente no meio da destruição global). E algo surge como uma tentativa desesperada de salvação para o fim iminente (o governo tenta colocar em prática um plano para reverter o processo de desestabilização do planeta, envolvendo armamento nuclear e uma colossal reserva de gás natural).
Se o espectador desligar o cérebro, e estiver disposto a ver uma história de catástrofe natural repleta dos mesmos velhos clichês, talvez até consiga alguma diversão discreta. Caso contrário, provavelmente o tédio virá à tona. 
(Juvenatrix – 24/08/15)

domingo, 23 de agosto de 2015

Guerras na Estrada (Road Wars, EUA, 2015)


Exibido pelo canal de TV a cabo “SyFy” e produzido pela “The Asylum”, “Guerras na Estrada” é o mockbuster de “Mad Max: Estrada da Fúria” (2015). A direção e roteiro são de Mark Atkins, que já fez várias tranqueiras para a mesma produtora como “A Batalha de Los Angeles” (2011), “Jack: O Matador de Gigantes” (2013) e “Android Cop” (2014), entre outros, com todos sendo cópias baratas de similares com distribuição nos cinemas.
Num futuro pós-apocalíptico, grupos de sobreviventes vagam em carros estranhos pelos desertos de um planeta com escassez de água, e tomado por uma contaminação de um vírus que transforma as pessoas em vampiros sedentos por sangue. O líder de um dos grupos é Dalas (John Freeman), que tenta manter sua equipe reunida à procura de artefatos que possam auxiliar na construção de armas e munições, além de equipamentos médicos para tentar encontrar a cura para a epidemia. Nesse cenário de desolação, o desafio é sobreviver contra os ataques de infectados conhecidos como “corredores da noite”, e outros chamados de “andarilhos do dia”, que não são sensíveis à luz, além das gangues rivais. Entre os sobreviventes desse mundo caótico, temos o misterioso Thorne (Cole Parker), que foi encontrado sem memória vagando sem rumo pelo deserto, e a guerreira Nakada (Chloe Farnworth), que vive com o dilema entre matar seu namorado Kevin (Phillip Andre Botello) depois que foi mordido por um infectado, ou mantê-lo vivo até conseguir encontrar uma cura para a doença.
Em “Guerras na Estrada” temos alguns elementos que nos remetem ao universo ficcional de “Mad Max”, com seu violento mundo pós-apocalíptico e o desafio de sobreviver em meio ao caos. Mas, como uma cópia reconhecida de baixo orçamento produzida pela “The Asylum”, que tenta aproveitar o movimento em torno de um filme popular com apelo comercial como “Mad Max: Estrada da Fúria”, comprovamos aquilo que já era esperado: um exmplo de cinema ruim ao extremo. Uma vez apresentado como um filme de ação com elementos de ficção científica e horror, o resultado final é lento, chato e com pouca ação, indo na contra mão do entretenimento mínimo esperado num filme desses. E ainda com uma mistura no roteiro, incluindo as manjadas temáticas de contaminação e vampirismo, num conjunto de clichês dispensáveis. É o cinema bagaceiro do século XXI. Porém, que mais aborrece do que diverte.  
(Juvenatrix – 23/08/15)

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Sobrenatural: A Origem (Insidious: Chapter 3, EUA / Canadá, 2015)


Quando você chama um morto, todos os outros podem ouvi-lo.
Em 30/07/15 entrou em cartaz nos cinemas brasileiros o terceiro filme da franquia “Sobrenatural”, que explora o sub-gênero do horror com assombrações e fantasmas. “Sobrenatural: A Origem” (Insidious: Chapter 3) tem agora direção de Leigh Whannell, o criador das personagens e também conhecido pela história de outra franquia bem sucedida, “Jogos Mortais” (Saw).
O roteiro apresenta agora eventos anteriores aos primeiros dois filmes, que tiveram o foco nas assombrações perturbadoras envolvendo a família Lambert e as ações da sensitiva veterana Elise Rainier (Lin Shaye) na tentativa de ajudá-los a enfrentar a ameaça de seres atormentados que povoam o obscuro mundo dos mortos. Dessa vez, como o próprio título nacional anuncia, trata-se de uma pré-sequência, que concentra as atenções na figura da adolescente Quinn Brenner (Stefanie Scott), que quer se comunicar com a mãe falecida. Ela pede ajuda para a experiente médium, mas o contato com o mundo “mais além” permite que a garota seja perseguida por uma entidade sobrenatural maléfica conhecida como “o homem que não pode respirar” (Michael Reid MacKay).
Já é fato estabelecido que a franquia “Sobrenatural” tem despertado o interesse de boa parte dos fãs, tanto que a série tem três filmes. Porém, exceto pela carismática e veterana atriz Lin Shaye, que interpreta uma sensitiva com poderes para transitar por uma dimensão habitada por espíritos perturbados, a história esbarra inevitavelmente nos tradicionais clichês do gênero, com os manjados sustos fáceis e um desfecho previsível, com direito na cena final para uma “surpresa que não surpreende”.
Até temos a impressão de uma tentativa honesta dos realizadores em apresentar elementos de horror que satisfaçam a diversão dos apreciadores do cinema de horror, mas com um sub-gênero tão saturado, fica extremamente árdua a tarefa de fugir dos clichês. Dentro dessa ideia, a franquia “Sobrenatural” é apenas levemente acima da média, mas o bom retorno das bilheterias tem impulsionado a consolidação de seu universo ficcional.
(Juvenatrix – 13/08/15)

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O Ataque do Tubarão de 3 Cabeças (3 Headed Shark Attack, EUA, 2015)


Mais um filme picareta da produtora “The Asylum”, conhecida pela incontável lista de tranqueiras com elementos de ficção científica, horror e catástrofes, com apresentação do canal de TV a cabo “SyFy”, que também gosta de apoiar essas bagaceiras. O tubarão provavelmente seja o animal mais utilizado pelo cinema fantástico na produção de filmes ruins. São tantas porcarias que torna extremamente árduo um trabalho de catalogação dos títulos. O renomado cineasta Steven Spielberg, criador do clássico “Tubarão” (Jaws, 1975) jamais imaginaria que seu filme seria o precursor de uma infindável lista de produções toscas envolvendo esse temível predador dos mares, tão maltratado pelos roteiristas.
Com o sonoro título de “O Ataque do Tubarão de 3 Cabeças” (3 Headed Shark Attack, 2015), de Christopher Ray, o mesmo diretor de outras bagaceiras similares como “Megaconda” (2010) e “Mega Shark vs. Kolossus” (2015), já é possível imaginar a tranqueira absurda que será apresentada. E que curiosamente tem a participação rápida do cultuado ator veterano Danny Trejo (de “Machete”) e é uma sequência de “O Ataque do Tubarão Mutante” (2 Headed Shark Attack, 2012), do mesmo diretor e com um tubarão com duas cabeças.
Na história, temos um grupo de cientistas e estudantes que estão numa estação de pesquisa de biologia marinha. O local é atacado e destruído por um imenso tubarão mutante de três cabeças, transformado pela ingestão de lixo e poluição nos mares causando graves anomalias nos peixes. Entre os sobreviventes do ataque estão os cientistas Maggie Peterson (Karrueche Tran), o Dr. Nelson (Jaason Simmons) e a Professora Laura Thomas (Jena Sims), entre outros, que tentam fugir num barco e são perseguidos pelo monstro marinho. Na fuga desesperada pela salvação, eles encontram pelo caminho outro barco maior cheio de passageiros se divertindo numa festa, com as pessoas servindo de cardápio para a bizarra criatura carnívora. Nesse momento junta-se ao grupo Stanley (Rob Van Dam), e eles conseguem contato por rádio com Mike Burns (Danny Trejo), que está numa lancha nas proximidades e tenta ajudar os jovens. Mas, a fúria do tubarão de três cabeças deixa um rastro por onde passa com manchas vermelhas na água do sangue de suas vítimas.
O comentário mais adequado que posso registrar até já se transformou num clichê repetitivo quando o assunto são filmes com o selo da parceria entre o canal de TV “SyFy” e a produtora “The Asylum”. Ou seja, uma combinação entre história incrivelmente ruim e inverossímil, com atores amadores (exceto por Danny Trejo, que deve ter aceitado o papel apenas para ser divertir um pouco) e CGI vagabundo. “O Ataque do Tubarão de 3 Cabeças” tenta se sustentar apostando unicamente na presença do tal monstro aquático mutante comendo gente, em cenas artificiais que não convencem. A maior parte do elenco está no filme apenas para servir de alimento ao bicho. A pequena participação do personagem de Danny Trejo se resume quase na totalidade em tomadas onde ele está dirigindo sua lancha, proferindo palavras de espanto e surpresa ao se deparar com um tubarão imenso com três cabeças, culminando inevitavelmente no esperado confronto com o monstro. Ele tem dois ajudantes insignificantes que praticamente falaram uma única frase e cuja função é apenas alvejarem o tubarão com disparos de armas de fogo e depois preencher o estômago do animal com suas carnes. Aliás, o enorme peixe cabeçudo é um perigoso predador também fora da água, pois salta como um ágil golfinho para abocanhar suas vítimas.
Por outro lado, parece existir uma intenção até honesta por parte dos realizadores desses filmes tranqueiras, ao oferecerem um produto despretensioso e assumidamente ruim. A ideia deles não é enganar o público, ficando claro que não há preocupação com um bom roteiro, elenco profissional e efeitos de qualidade. Vendo por este lado, é só desligar o cérebro, tentar entrar no clima da bizarrice do cinema fantástico bagaceiro do século 21, e se divertir um pouco.   
(Juvenatrix – 05/08/15)

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

A Forca (The Gallows, EUA, 2015)


Em 1999 o filme “A Bruxa de Blair” utilizou uma bem sucedida campanha de marketing pela internet para promover seu roteiro no estilo “found footage”, ou seja, com imagens gravadas em câmeras e encontradas posteriormente, cujas evidências registradas seriam tratadas como supostamente “reais” e poderiam esclarecer algum mistério envolvendo a história. Não foi o primeiro filme a usar esse recurso, pois em 1980 o italiano “Holocausto Canibal”, de Ruggero Deodato, já tinha causado polêmicas com uma história violenta de canibalismo com imagens encontradas em fitas revelando o destino trágico de uma equipe de filmagens que se aventurou pela floresta e encontrou índios comedores de carne humana. Mas, “A Bruxa de Blair” incentivou a produção de inúmeros filmes utilizando a mesma técnica, com imagens tremidas e correrias dos personagens segurando câmeras. Foram tantas histórias que depois de quinze anos esse sub-gênero do cinema fantástico tornou-se extremamente saturado.
Porém, para os produtores da indústria do entretenimento, sempre existirão oportunidades de lucros, não se importando com a qualidade dos resultados. “A Forca” (The Gallows), dirigido e escrito por Travis Cluff e Chris Lofing, também utilizou uma campanha de marketing pela internet que obteve êxito, com as pessoas brincando com um jogo de evocar o espírito perturbado de Charlie, que morreu enforcado num acidente durante a encenação de uma peça escolar de teatro. Esse marketing viral tornou-se mais interessante que o próprio filme.
A história de “A Forca” é bem simples e pouca atrativa. Um grupo de estudantes está ensaiando uma peça de teatro para homenagear o aniversário de 20 anos da apresentação original que ocorreu na escola no início dos anos 90 e que foi marcada por uma tragédia, quando num acidente fatal um jovem chamado Charlie morreu enforcado. Seu papel original era o de carrasco, mas ele teve que assumir na última hora o posto do galã depois que um dos atores não compareceu, e o roteiro da peça reservaria um destino trágico para esse personagem, fato que ocorreu na realidade. Muitos anos depois, os jovens Reese Mishler (Reese Houser), que tem um interesse romântico com Pfeifer Brown (Pfeifer Ross), e o casal de namorados Ryan Shoos (Ryan Shoos) e Cassidy Gifford (Cassidy Spilker), ficam presos na sala de teatro durante a noite, e são perseguidos e atacados misteriosamente por um fantasma vingativo.
O filme é curto, com apenas 81 minutos, e a badalada campanha de marketing não se justifica de modo algum, pois não passa de mais uma história trivial que se junta às dezenas que são produzidas o tempo todo, fadada certamente ao limbo em pouco tempo, por não apresentar nenhuma atração que mereça algum destaque ou lembrança posterior, num imenso e cansativo clichê. Aliás, o filme deverá ser lembrado unicamente pela campanha de marketing, que também não é grande coisa, mas que conseguiu chamar a atenção. Em “A Forca” você encontrará sustos fáceis com a já manjada técnica dos “jump scares” e algumas poucas mortes violentas, mas sem sangue ou tensão, tudo muito previsível e óbvio. E num dos únicos momentos com um interesse maior, a cena é entregue totalmente na exibição dos trailers de divulgação, revelando o destino de um dos estudantes em pânico.
(Juvenatrix – 03/08/15)