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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

As Cavernas de Aço, Isaac Asimov

As Cavernas de Aço (The Caves of Steel), Isaac Asimov. Introdução de Isaac Asimov. 300 páginas. São Paulo: Editora Aleph, 2ª edição, 2014 [2013]. Tradução de Aline Storto Pereira.


    Isaac Asimov (1920-1992) foi um dos mais populares escritores de ficção científica do século XX. Escreveu com consistência a maior parte de sua carreira, com uma larga produção de contos e romances (ele chegou a ser reconhecido como um dos autores mais prolíficos do mundo) concentrada em três ou quatro séries que ele buscou fundir, a partir de 1982.
    As Cavernas de Aço (The Caves of Steel; 1953) e O Sol Desvelado (The Naked Sun; 1957) formam uma unidade dentro da sua série sobre robôs  que inclui as histórias do famoso Eu, robô (1950) –, por terem o mesmo protagonista, o detetive Elijah "Lije" Bailey.
    No texto introdutório à nova edição de As Cavernas de Aço, Asimov comenta que o famoso editor John W. Campbell, Jr. não acreditava que seria possível uma mistura eficiente de ficção científica e mistério (aquele tipo de ficção de crime que gira em torno da descoberta do autor de um assassinato, também conhecida como "who-done-it"). "Campbell tinha dito muitas vezes que um mistério de ficção científica era um contrassenso", Asimov escreveu, "que os avanços da tecnologia poderiam ser usados para tirar os detetives de apuros de um modo injusto e que, portanto, os leitores seriam ludibriados".
    Mas Horace Gold, editor da concorrente de Campbell, a revista Galaxy, pediu a Asimov um romance que apareceria em partes na sua publicação, e lançou a ideia: "Você gosta de mistérios. Coloque um assassino nesse mundo e faça com que um detetive o resolva com um parceiro robô." Asimov topou o duplo desafio - escrever o romance para Gold, e provar que Campbell estava errado. (Nessa altura de sua carreira, era importante para o escritor estar livre de uma associação estrita com Campbell, que havia se envolvido com ideias que Asimov achava serem mais pseudocientíficas do que científicas.)
    No futuro de As Cavernas de Aço, a humanidade encontra-se dividida entre os habitantes da Terra e os dos mundos coloniais (os Siderais). Trata-se de um ponto decisivo na expansão da espécie humana pela galáxia rumo à formação do Império Galáctico que os leitores já tinham visto nas histórias da fabulosa space opera de Asimov, a série Fundação (também disponível no Brasil pela Editora Aleph).
    A Terra desse futuro tem nove bilhões de habitantes, concentrados em grandes cidades subterrâneas que racionalizam os transportes, a produção e o consumo de recursos. A história se passa em Nova York, e a caracterização da vida nessa metrópole futura deixa claro que não existe muita latitude nem mobilidade entre as classes sociais. É uma vida apertada, controlada por um burocrático sistema de classificação profissional (com cada nicho dando acesso a mais recursos e privilégios), e há uma grande má vontade quanto aos Siderais e também quanto aos robôs que, as pessoas sentem, podem expulsar os profissionais dos seus nichos.
    Casado com uma nutróloga chamada Jessie (de "Jezebel"), Elijah Bailey é um detetive de polícia encarregado de investigar um assassinato na segregada instalação de uma representação de Siderais, em Nova York. É a primeira vez que um fato como esse ocorre, e a resolução do crime é importante para a continuidade das relações entre a Terra e os Siderais, algo que o Comissário de Polícia da cidade, Julius Enderby, faz questão de deixar claro ao herói. O fato que causa maior tensão junto ao detetive, porém, é a imposição pelos Siderais de um parceiro que deverá acompanhá-lo  o robô R. Daneel Olivaw.
    Grande parte das peripécias do romance gira em torno da necessidade de manter Olivaw incógnito perante essa população hostil aos robôs  e ao contrário de todos os robôs na Terra, tem a perfeita aparência de um ser humano. Descobre-se, inclusive, que há um grupo secreto de oposição aos robôs seguindo cada passo da dupla. E como o romance faz parte da série Robôs de Asimov, o comportamento de Olivaw em face das famosas Três Leis da Robótica é muito importante. O leitor também fica sabendo que Olivaw foi construído pela vítima do assassinato, o cientista Roj Nemennuh Sarton, que lhe deu a sua aparência. Sarton tinha grandes planos para o futuro do relacionamento dos terranos com os Siderais, envolvendo aquilo que o povo da Terra mais teme, uma aproximação maior com os robôs. Isso dá um potencial fundo político ao crime.
    Asimov lida perfeitamente tanto com a dinâmica particular da série quanto com os elementos do romance de mistério  as pistas, as motivações e as condições do crime. Entre tais condições, está o fato de todas as entradas para as instalações Siderais serem controladas, excetuando as que dão para a superfície. Mas os humanos desse futuro, tendo nascido e crescido nos subterrâneos, não são mais capazes de sair ao ar livre  conceito que mais tarde Robert Silverberg desenvolveria em sua ótima mas pouco lembrada distopia Mundos Fechados (The World Inside), de 1971, um romance sobre sexualidade e superpopulação.
    Além da conhecida habilidade de Asimov para lidar com questões de lógica e o seu talento insuperável para a exposição do assunto, em As Cavernas de Aço ele demonstra muita sensibilidade na caracterização de Elijah Bailey. O personagem é descrito como um policial experiente, mas no início ele mete os pés pelas mãos e sofre um embaraço atrás do outro. Num outro nível, Asimov precisa demonstrar que Bailey é um profissional competente e um marido sensível, sereno diante das ansiedades de Jessie, também elas importantes para a trama. Nessa dinâmica doméstica, bastante simples e verdadeira, metida no cenário futurista e distópico, há igualmente uma sutileza que impressiona. É possível ainda ver algo dessa domesticidade corriqueira inserida num futuro sombrio  e do clima de paranoia  no relacionamento de Rick Deckard e sua mulher em O Caçador de Androides (Do Androids Dream of Electric Sheep?; 1968), de Philip K. Dick (1928-1982), recentemente republicado pela Aleph como Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?
    As peripécias do romance de Asimov incluem uma investigação do próprio Daneel Olivaw personagem que se tornaria importante na fusão da série dos Robôs com a da Fundação , com Bailey trazendo a Nova York o robopsicólogo Hans Falstolfe, para testá-lo (situação que lembra um pouco o exame "Voigt-Kampff" aplicado por Deckard nos androides do romance de Dick). O leitor fica sempre em dúvida se o detetive está no caminho certo desta vez, ou se vai aprontar mais uma trapalhada. Seus tropeços não apenas ajudam a caracterizá-lo, mas retardam o desenvolvimento do enredo para que Asimov possa caracterizar o seu mundo futuro das cidades enclausuradas talvez demonstrando aí um dos problemas da fusão da ficção científica futurista com a ficção de crime: a necessidade de maior espaço para caracterizar as condições sociais e físicas em que o crime e a investigação ocorrem.
    Com um final irônico que lembra aquele do posterior No Calor da Noite (In the Heat of the Night; 1965)  ficção de detetive de John Ball, levado ao cinema em 1967 com Sidney Poitier e Rod Steiger no elenco (e direção de Norman Jewison) , As Cavernas de Aço foi um dos livros mais vendidos de Asimov, e dizem que teria inspirado a série Almost Human (2014), a nova e malfadada aventura de J. J. Abrams na televisão. O romance de Asimov já tinha sido adaptado diretamente em 1964 e 1989 pela BBC, TV e rádio outra certificação de que a história funciona plenamente como um mistério, esse gênero tão britânico.
    Lije Bailey é um homem integrado às rígidas circunstâncias sociais em que está inserido, o que talvez seria conformista demais para um herói de ficção de detetive. As ansiedades familiares e a lembrança da carreira fracassada de seu pai no Departamento de Polícia ajudam o leitor a compreender as razões da sua adesão.  O mais importante porém é que a própria visão de mundo de Bailey se transforma ao longo da narrativa  e a de J. Daneel Olivaw também. Sem fanfarra, Asimov deixa claro que, assinalados por essas mudanças, os dias dos humanos da Terra restritos às suas tocas estão contados. A qualidade de mestre de Asimov se expressa nesse imbricamento pleno mas sutil entre a transformação individual e a mudança das condições históricas.
    Não é à toa que Isaac Asimov é um autor privilegiado dentro do programa de publicação de clássicos da ficção científica, mantido pela Editora Aleph.
Roberto de Sousa Causo

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Animal

Nos últimos anos, a teledramaturgia brasileira tem investido na produção de séries originais para a tv a cabo. Essas produções geralmente tratam de questões realistas, dramas familiares e sociais, comédias românticas e humor de forma geral. Apesar das inúmeras opções em diversos canais, a ficção fantástica tem sido um gênero ausente.
No passado, testemunhamos ótimas novelas de fc&f na televisão nacional, especialmente nos tempos da saudosa TV Manchete, que entre a sua programação de sucesso teve, por exemplo, as novelas Pantanal A ilha das bruxas. Mais recentemente, fantasia e horror frequentaram a grade de novelas da Globo e da Record, nas novelas O beijo do vampiroBang bangMorde e assopraCordel encantado e Os mutantes, esta última com toques de ficção científica.
Por isso tudo, é de surpreender a ausência do gênero nas séries nacionais, ainda mais considerando-se o sucesso que os enlatados estrangeiros de fantasia, fc e horror fazem junto ao público brasileiro.
Talvez tenha sido esse o motivo que levou a produtora Accorde Filmes, em parceria com a Globo, a realizar os treze episódios da primeira temporada de Animal, série de mistério e horror, criada e dirigida pelo cineasta e produtor gaúcho Paulo Nascimento, que estreou no dia 6 de agosto de 2014 no canal a cabo GNT.
Paulo Nascimento tem ótimas credenciais, contando em seu currículo com o premiado longa Diário de um novo mundo (2005), além de Valsa para Bruno Stein (2007), A casa verde (2008), Em teu nome (2009) e A oeste do fim do mundo (2013).
O primeiro episódio de Animal, chamado "De volta para a toca", introduz a história do biólogo João Paulo Gil (Edson Celulari, de cabelos e barba grisalhos e desgrenhados) que retorna à sua cidade natal, Monte Alegre do Sul, em busca das anotações que seu pai registrou em diários, sobre uma doença incomum e hereditária que o acomete, cujos sintomas mais evidentes se revelam na ampliação de seus sentidos, mas que o leva a periódicos surtos de fúria incontrolável.
Porém, ele não é plenamente bem vindo na comunidade. Seu pai foi assassinado ali quando ele ainda era uma criança, sendo que ele mesmo não foi morto na oportunidade porque sua mãe o levou, fugindo para a cidade grande. Mesmo depois de tantos anos passados, João Paulo se depara com uma comunidade hostil que ainda o quer morto ou, pelo menos, bem longe dali.
Entre os personagens, um leque de figuras exóticas que são charme da história, como o líder de uma seita de virgens vestais, uma cafetina assustadora e um escultor louco – supostamente o assassino de seu pai – que passa a vida recluso em sua fazenda arruinada, entre outros. Há também uma boa quantidade de mistérios, sem falar em alguma nudez.
A série foi filmada em Caçapava do Sul (RS) e conta com um elenco de estrelas da televisão, tais como Nelson Diniz, Fernanda Moro e Cristiana Oliveira, que interpreta a prefeita de Monte Alegre e faz par romântico com Celulari.
Mais informações na página do seriado, aqui.
Cesar Silva

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ataque dos titãs, Hajime Isayama

Ataque dos titãs (Shingeki no kyojin), Hajime Isayama. 192 páginas. Editora Panini, São Paulo, 2014.

Dois meses depois do lançamento oficial, em novembro, chegou às bancas o primeiro número da revista Ataque dos titãs (Shingeki no kyojin), novela gráfica de ficção científica de autoria do jovem artista japonês Hajime Isayama, publicada no Brasil pela editora Panini.
A série faz um sucesso estrondoso no Japão – com mais de 25 milhões de exemplares vendidos – e chegou ao Brasil com grande expectativa, uma vez que a versão em desenho animado já circula pelos saites especializados e conta com inúmeros fãs no País. Tanto que a primeira tiragem foi esgotada apenas pelas reservas feitas nas gibiterias, daí o atraso nas bancas.
Lançada originalmente em 2006 em forma de seriado na revista Weekly Shōnen MagazineAtaque dos titãs conta a história de Eren Jaeger, adolescente que sonha conhecer o mundo. Mas isso é impossível desde que, há cem anos, depois de um devastador ataque planetário de zumbis gigantes – os titãs – o que restou da humanidade é obrigado a viver em uma região cercada e subdividida por muralhas de cinquenta metros de altura, conduzido por um governo militar que treina os soldados em uma tecnologia baseada em espadas elétricas, ganchos e cabos de aço que os faz praticamente voar ao enfrentar os monstros, que só podem ser mortos se forem mutilados no seu único ponto vulnerável: a nuca.
Com o passar dos anos, a vida quase se normalizou dentro dos muros e, exceto pelo medo constante, o povo vive mais ou menos em paz numa condição de baixa tecnologia, uma vez que todos os recursos são destinados à manutenção das tropas e das muralhas, e ao conforto da classe dominante que vive nas áreas mais protegidas.
Até o dia em que surge um titã nunca visto, mais alto que os muros, e com sua força descomunal abre uma brecha na muralha externa, permitindo a invasão em massa dos titãs e obrigando a população a recuar para trás da segunda das três muralhas que cercam a cidade, com muitas mortes no processo. Durante o ataque, Eren testemunha a morte da sua mãe, devorada por um titã, e jura que um dia será um matador de titãs. Mas, para isso, terá de alistar-se e dominar não só o perigoso equipamento militar, mas também seu temperamento explosivo e inconsequente.
Contudo, no porão da antiga casa de Eren, jaz uma informação deixada por seu pai, um cientista desaparecido há anos, que pode revelar o mistério da natureza dos titãs. Mas esse segredo está agora numa zona infestada e, para lá chegar, será necessário fazer o que em cem anos nunca se conseguiu: vencer os gigantes antropófagos.
A história, ágil e emocionante, ecoa conceitos vistos anteriormente no clássico da ficção científica Nausicaa do Vale do Vento, de Hayao Miyazaki, que também parte do fato da civilização ter desmoronado depois de um ataque de gigantes. Repleta de conceitos morais típicos de tempos de guerra, como escolhas difíceis, fome, medo, traição, covardia, amor, sacrifício, confiança, fé, abnegação e coragem, aproxima-se também de outro bom mangá de ficção militarista, Fullmetal alchemist, de Hiromu Arakawa, com a qual compartilha a mistura de ficção científica, fantasia e horror – por vezes escatológico –, mas as semelhanças ficam por aí.
A edição brasileira será bimestral, uma boa decisão da Panini uma vez que o seriado ainda está em publicação no Japão, onde já conta com onze volumes. No passado, outras editoras deixaram os leitores brasileiros na mão ao tentarem maximizar seus lucros publicando afoitamente séries inacabadas, que ficaram pelo meio sem qualquer satisfação. Mas este parece ser um risco que, se não está de todo afastado, vale a pena correr.
Cesar Silva

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Tabuleiro dos deuses, Richelle Mead

O mercado internacional de literatura fantástica é uma bem-vinda novidade no Brasil. Como colônia cultural, o País sempre recebeu os produtos dessa indústria de forma irregular, em descompasso com os mercados estrangeiros melhor estabelecidos. Os romances chegavam por aqui com décadas de atraso, se chegavam, de forma que não se notavam suas peculiaridades sazonais de modo tão evidente quanto hoje.
Diferente da tradição local, em que o sucesso editorial depende apenas do carisma da pessoa do autor, a indústria editorial internacional pulsa ao ritmo dos bestsellers.
Quando o grande sucesso mundial era uma história de fantasia infantil (a série Harry Potter), surgiram dezenas de versões genéricas de maior ou menor qualidade. Nenhuma delas ombreou esse campeão de vendas, mas faturaram bem ou, pelo menos, o suficiente para justificar os investimentos das editoras. Em seguida, testemunhamos, já em primeira mão, o fenômeno da chiclit vampírica (a saga Crepúsculo), que detonou uma nova onda de lançamentos similares que, depois de algum tempo, acabou derivando para a chiclit erótica, afastando-se do mercado de fc&f.
O que se percebe é que existe uma corrida constante em busca do novo fenômeno comercial das livrarias. Atualmente, experimentamos o frenesi editorial pela ficção dita distópica, colocada em foco a partir do sucesso da série Jogos vorazes.
Cabe aqui um parêntesis. Apesar do sucesso de Jogos vorazes, o termo "ficção científica", gênero ao qual o romance inegavelmente pertence, foi desprezado em favor de "ficção distópica", que tem textura de novidade, "só que não", como dizem os jovens. Desde as suas origens, a ficção científica é movida pela tensão entre os polos utopia-distopia; este é o motor do gênero. Praticamente toda a produção do gênero pode ser dividida entre esses dois polos, com um avassalador predomínio da distopia, é claro, que é muito mais dramática e divertida. Dessa forma, que me perdoem os fãs, não vou evitar aqui o termo ficção científica, porque isso não faz nenhum sentido. Queiram ou não, ficção distópica nada mais é que um modo esnobe de dizer ficção científica. Fecha parêntesis.
Aos poucos, surgem no Brasil mais e mais títulos explorando a ficção científica, que andava em crise desde os anos 1980. Em 2012, a fc mostrou sinais de recuperação e voltou a crescer em 2013, assumindo a segunda posição na tríade 'fantasia-fc-horror'. Dentre os muitos romances surgidos no nicho, destaco Tabuleiro dos deuses, lançamento da Editora Companhia das Letras através do selo Paralela, primeiro volume da série A era de X, de autoria da norte-americana Richelle Mead, bastante conhecida entre os fãs de horror pela extensiva e bem sucedida série Academia dos vampiros. Temos aqui um bom exemplo de uma seguidora que superou a referência original.
A história de Tabuleiro dos deuses gira em torno da investigação de uma série de assassinatos de características ritualistas que assolam a República da América do Norte Unida (RANU), estado fechado e supertecnológico, ilha de progresso e conforto em meio ao caos econômico e climático que se abateu sobre o mundo. O governo da RANU praticamente aboliu a criminalidade a partir do controle genético e da implementação de um estado policial extremamente controlador. Contudo, ao perceber-se incapaz de identificar os criminosos, o governo decide convocar um de seus cidadão mais inteligentes, Justin March, que há quatro anos fora expulso do país por motivos misteriosos. Desde então, Justin reside no Panamá, lugar decadente e violento como é, enfim, qualquer lugar fora da RANU.
Para repatriá-lo, é convocada a pretoriana Mae Koskinen, supersoldado federal que, equipada com o mais avançado conjunto de recursos biotecnológicos de combate, é praticamente uma arma viva, característica que faz os pretorianos temidos por todos os cidadãos do mundo. Apesar dos implantes e do rigoroso treinamento, Mae está psicologicamente abalada pela morte de seu antigo amante, o que a torna especialmente vulnerável aos encantos de Justin, um canalha viciado em entorpecentes lícitos e ilícitos, com o histórico de manipular as pessoas para obter o que deseja.
Contudo, o que ninguém sabe é que Justin não é apenas inteligente, observador e desprezível. Ele está em contato direto com entidades sobrenaturais, os Corvos, seres incorpóreos que com ele dialogam mentalmente todo o tempo. E que a relação entre Justin e Mae vai muito além do amor – que logo vira ódio – e do sexo. Mae é uma espécie de gatilho que pode desencadear os eventos que permitirão que antigas divindades retomem o senhorio do planeta. Isso seria apenas uma singela história de fadas se a RANU não tivesse uma rigorosa política de repressão religiosa, que não permite que qualquer filosofia gnóstica prospere, controle este que cabia justamente a Justin executar.
Aos poucos, a autora vai revelando as peças que permitem ao leitor ter uma percepção maior desse mundo do futuro, assolado pela desigualdade social e pela carência de recursos, do misterioso histórico de Justin e da importância de Mae dentro desse intrincado plano cósmico.
Como se percebe por este rápido esboço, Tabuleiro dos deuses é muito mais sofisticado que Jogos vorazes, com um conjunto de personagens extremamente bem construídos, ambíguos e imprevisíveis, um ambiente mais rico e plausível, além de uma especulação procedente que une o impacto das tecnologias frente a uma discussão teológica relevante, a partir de um interessante blend de fantasia, cyberpunk e pós-humanismo, repercutindo a ficção científica pós-moderna tão pouco publicada por aqui, com generosas doses de sensualidade sem descambar para o apelativo.
Tabuleiro dos deuses é um livro que agrada ao leitor exigente que busca uma fc emocionalmente invasiva, de traços arrojados e texto maduro, que não opta pelo óbvio e ou pelo convencional. Altamente recomendável.
— Cesar Silva

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

A cabeça do santo, Socorro Acioli

A cabeça do santo, Socorro Acioli. 168 páginas. Capa de Elisa von Randow. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Fato: a ficção regional não é um dos temas prediletos dos autores de ficção fantástica brasileira. Os motivos dessa antipatia são inúmeros: passam pelo desinteresse do brasileiro médio por sua própria cultura, pelo velho discurso por um texto de alcance 'internacional', sempre na ponta da língua, e até pelo batido argumento de que cada um faz aquilo que quer. E, sendo o autor brasileiro de ficção fantástica um apaixonado pela ficção anglo-americana, geralmente o que ele quer, com raras e honrosas exceções, é mesmo imitar aquilo que o impressionou. Então tome pastiches e mais pastiches – os conhecidos fanfics – que muitas vezes imitam até o improvável vocabulário das traduções que abundam no mercado.
Por isso, é preciso sempre comemorar e valorizar quando um autor brasileiro abraça suas tradições culturais e realiza um texto tão regionalmente saboroso como é o caso do romance A cabeça do santo, de Socorro Acioli, publicado em 2014 pela Editora Companhia das Letras.
Não é surpreendente que o romance seja assinado por uma autora desconhecida da comunidade de autores e leitores de ficção fantástica. Geralmente, os textos mais regionalistas do gênero chegam pelas mãos de autores que não se formaram lendo toneladas de livrinhos baratos de ficção mal traduzida.
Socorro Acioli é uma experiente autora pernambucana de livros infanto-juvenis, premiada com o Jabuti em 2013, jornalista e doutora em literatura pela Universidade Federal Fluminense, que teve a ventura de participar, em Cuba, da oficina Como Contar um Conto, orientada por ninguém menos que o Prêmio Nobel Gabriel García Márquez, recentemente falecido, e para quem a autora dedica o livro, pois o romance em questão foi trabalhado justamente nessa oficina e entusiasmou o mestre, como nos conta a autora nos seus agradecimentos.
A cabeça do santo conta a história do jovem Samuel que, por causa da promessa feita a mãe moribunda, sai à procura do pai que ele nunca conheceu, mas odeia com todas as forças. Depois de uma exaustiva jornada, quase morto, chega à Candeia, cidade decadente na qual vive sua avó paterna, mas é recebido friamente pela anciã que o despacha por uma picada no meio do mato, no fim da qual encontra uma enorme cabeça de cimento – a tal cabeça do santo – cujo corpo decapitado pode ser visto no alto de um morro próximo. Cansado, sedento, ferido e acossado por uma matilha de cães ferozes, Samuel se refugia no oco da cabeça e, para sua surpresa, começa a ouvir rezas e cantilenas de diversas mulheres que pedem pela intercessão do referido santo (no caso, Antônio, aquele) para conquistar o homem amado. Com a ajuda do menino Francisco, flagrado numa situação constrangedora, Samuel usa de suas habilidades como guia de romeiros, atividade que exercia em Juazeiro do Norte antes da morte de sua mãe, para conquistar fama e fortuna junto àquela comunidade quase extinta. O sucesso de seus "milagres" reacende a vida no povoado e incomoda os poderosos do lugar. A situação se complica quando, por intervenção do apresentador de um programa da rádio local, Samuel se torna uma espécie de messias entre a mulherada da região. E não só isso. Os segredos por trás da estranha cabeça decepada, das desgraças que assolam a vida se Samuel, a procura pelo pai desaparecido e pela moça de bela voz que canta todos os dias no oco cabeça, vão levá-lo a confrontar mistérios deste e de outros mundos.
Contudo, mais que a tragicômica história de Samuel, o que torna A cabeça do santo realmente especial é a qualidade narrativa, repleta de detalhes que reconstroem a região e a cultura nordestinas não apenas através de descrições vívidas de seus cenários, mas principalmente pela musicalidade e sintaxe do palavreado da região, o que dá à leitura um dinamismo ágil e sem esforço.
A edição é caprichada, com 168 páginas em papel pólen e uma capa belíssima na qual se vê apenas a foto envolvente de uma caatinga, de autoria de Márcio Vasconcelos. Título, lombada, orelhas e outros detalhes aparecem somente numa sobrecapa, impressa um preto sobre cartão amarelo, emprestando ao volume a estética das revistas de cordel. Também acompanha um marcador de páginas que remete às fitas coloridas que os romeiros geralmente amarram aos pulsos.
Por tudo isso, A cabeça do santo deve estar entre os melhores livros de ficção fantástica publicados no País em 2014, referência para todos aqueles que buscam encontrar o Brasil em sua própria ficção.
— Cesar Silva

A lei de Canon

A lei de Canon (Canon Law!), Mark Millar, Kek-W & Chris Weston. Editora Mythos, São Paulo, 2014.

Ainda pode ser encontrado nas bancas este surpreendente lançamento da Editora Mythos, que reúne em uma única edição de 100 páginas, totalmente em cores, duas histórias completas deste personagem que faz parte do universo da revista britânica 2000 AD, a mesma que publica o sempre interessante Judge Dredd.
Com roteiros de Mark Millar e Kek-W e a arte exuberante de Chris Weston, A lei de Canon – Canon Law!, no original – conta a história de um violento e casca-grossa padre inquisidor que pune os pecadores mais ou menos da mesma forma que Dredd faz com os criminosos. Contudo, Canon não vive no mundo futurista de Dredd, mas numa realidade alternativa na qual o dia do juízo final chegou, todos os mortos ressuscitaram mas Deus não apareceu para julgar a humanidade. Um ano depois, enquanto os ressurretos aguardam a definição de suas sentenças, o mundo tornou-se um lugar caótico, super populoso, no qual convivem anônimos e famosos de todas as épocas. Na primeira aventura, Shelock Holmes e seu arqui-inimigo Moriarty suicidam-se juntos para ir ao céu matar Deus. Canon, com a ajuda de Watson e do gênio psicopata Microft, irmão de Sherlock, seguem-nos através de um portal místico para evitar que eles cumpram seu intento. Mas o céu se revela um lugar bem pouco hospitaleiro para o grupo.
Na segunda história, um Canon em crise de fé depois de uma operação mal-sucedida, é convocado por um velho conhecido para ir a outro plano da existência, o Inconsciente Coletivo, e impedir que o irresistível monstro da maldade humana assuma o controle da realidade. Com a ajuda do Diácono Blue – um colega de Canon tão irascível quanto o próprio – e os ressuscitados Sigmund Freud, Albert Eisntein e Júlio Verne, Canon terá de enfrentar algo virtualmente invencível: sua própria maldade.
A ousadia do argumento, apresentada por um roteiro econômico que deixa milhões de perguntas no ar, só é superada pelos espetaculares desenhos de Weston, de um realismo que beira o doentio. A estética trafega entre a dark fantasy, o steampunk e o New Weird, e as imagens, repletas de referências da cultura pop, são um show pirotécnico delirante como uma viagem de ácido. O contexto das aventuras de Canon Law! é instigante e é uma pena que não haja mais histórias: tudo o que foi criado para o personagem está nesta edição.
Nas páginas centrais, a publicação encarta um poster de duas faces com imagens de cada uma das aventuras que, provavelmente, foram capas de suas edições originais. Uma delas, de fato, ilustra a capa da edição brasileira.
Uma obra de leitura obrigatória para os apreciadores do bom quadrinho e uma edição de luxo, em capa dura, estaria mais de acordo com sua singularidade artística. Mas, enquanto ela não vem, o preço camarada de R$16,40 vale cada centavo, com folga. Dificilmente 2014 verá outro lançamento com tanta originalidade e conteúdo.
— Cesar Silva

Garoto zigue-zague, David Grossman

Garoto zigue-zague (Yesh yeladin zigzag), David Grossman. 418 páginas. Tradução de George Schlesinger. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Algumas crianças são quadradas, outras são redondas, e até triangulares, por que não? Mas uma poucas, bem poucas, podem ser zigue-zague. Assim é Nono, ou melhor, Amnon Feierberg, garoto de 13 anos extremamente inteligente e irrequieto.
Uma coisa que não se pode dizer sobre Nono é que ele seja um garoto normal, porque isso ele não é mesmo. Órfão de mãe, ele vive em Jerusalém com o pai Iacov – que é investigador da polícia de Israel – e com Gabi, secretária do Departamento de Investigações. Gabi cuida de Nono desde que ele era um bebezinho e até se parece um pouco com uma mãe, mas não é. Gabi tem seu próprio jeito de cuidar de Nono e ele realmente gosta da forma como ela o faz. Gosta tanto que queria muito que ela e seu pai ficassem juntos para sempre, mas as coisas não vão muito bem entre eles. E quando o dia de seu 14º aniversário está chegando – idade em que todos os meninos judeus comemoram o bar mitzvah, a chegada a maioridade – Nono é enviado numa viagem de trem para passar uns dias em Haifa com o tio Shmuel, o mais chato de todos os tios sobre a face da Terra, um pedagogo empedernido com o qual Nono já teve experiências amargas. Nono não conheceu sua mãe, da qual só sabe o nome – Zohara – e o que aconteceu com ela é um mistério que seu pai nunca revelou.
Sozinho e deprimido na cabine do trem, a caminho do que ele espera sejam os piores dias de sua vida, o menino desconfia que, na verdade, sua viagem é uma desculpa para que Gabi e seu pai se separem de vez. Mas, repentinamente, a situação muda. Um policial, algemado a um prisioneiro com cara de perigoso, entram na cabine e a situação fica muito bizarra. Quando o par finalmente se retira, algum tempo depois, o menino assutado encontra um envelope sobre o banco, no qual está uma carta escrita por Gabi e Iacov, oferecendo a Nono uma viagem de sonhos. Ele só precisa ir até outra cabine e dizer a pessoa certa a frase "Quem sou eu?" Animado, Nono segue as instruções, mas acaba entrando em outra cabine, onde um senhor distinto e simpático o recebe com atenção e boa vontade incomuns. Nono vai descobrir que esse homem é Felix Glick, famoso vigarista internacional do qual Gabi nunca se cansava de falar. E mais: ele sabe exatamente quem é Amnon Feierberg, e Nono decide fazer a pergunta a ele. Maravilhado, o menino conclui que Felix foi contratado por Gabi e seu pai para conduzi-lo a essa grande aventura. Afinal, sendo seu pai um policial de renome que o tem treinado desde muito jovem nas técnicas da investigação, Nono está certo que o objetivo dessa viagem é fazer com que ele aprenda na prática como pensa e age um criminoso, para saber o que fazer quando precisar capturar um deles.
Felix conduz Nono até à locomotiva e, com toda a sua lábia de vigarista, convence o maquinista a permitir que o menino a pilote, o que, por si só, já valeria aturar todos os sermões do tio Shmuel. Mas isso é só o começo, pois tudo fica imprevisível quando Felix saca uma pistola e obriga o maquinista a parar o trem. Nono e Felix saltam no meio do nada e embarcam em um moderno e carísssimo automóvel superesportivo que os aguardava na beira da linha, em direção aos dias mais empolgantes de sua vida nada tediosa, como iremos descobrir pelas palavras do próprio Nono.
Felix mostra-se extremamente seguro e meticuloso em seu trabalho de cicerone. Mas, aos poucos, o que Felix faz e diz, apesara de divertido e emocionante, faz Nono desconfiar que tudo o que está acontecendo pode não ser exatamente o que Gabi e seu pai planejaram para seu presente de aniversário. Muito mais que proporcionar a Nono alguns dias de entretenimento, Felix vai levar o menino para uma viagem de revelações e descobrimentos pelas ruas de Tel Aviv, para fazê-lo descobrir, por si mesmo, quem realmente ele é.
Garoto zigue-zague (Yesh yeladin zigzag) é um romance divertido e emotivo, de autoria do escritor israelense David Grossman, publicado originalmente em 1994 e lançado no Brasil em 2014 pela editora Companhia das Letras, traduzido do hebraico por George Schlesinger. David Grossman, nascido em Jerusalém em 1954, é um dos maiores escritores israelenses vivos. Entre seus grandes sucesso estão DueloVer: amorFora do tempoA mulher foge, entre outros. Ao lado de Amós Oz, Grossman é grande defensor de uma solução pacífica para o conflito entre judeus e palestinos.
A história não é claramente fantástica, mas tampouco é realista. A fantasia está amalgamada à narrativa, seja pela visão romântica e imaginativa de Nono, que vive num mundo todo especial, seja pelas situações inusitadas as quais Felix leva o garoto, uma sucessão de aventuras que vão de missões secretíssimas nas quais Nono tem que usar de toda a sua experiência como policial mirim, até a primeira tourada em solo judeu.
Garoto zigue-zague é um daqueles livros com inúmeras camadas de interpretação, que fala muito bem ao leitor jovem – para o qual evidentemente foi escrito – mas que não deixa de satisfazer plenamente ao leitor experiente.
O romance tem muitas qualidades narrativas, tal como um ritmo suave, imagens saborosas e personagens redondos com idiossincrasias e sotaques que ficarão na memória do leitor para o resto da vida. A peregrinação de descobrimento de Nono ressoa de tal forma no espírito que é impossível impedir que as lágrimas surjam em diversos momentos. Quando menos se espera, Grossman lança a frase perfeita que faz desmoronar toda a resistência, e é melhor estar preparado.
Garoto zigue-zague foi adaptado para o cinema em 2012 na produção holandesa Nono, het zigzag kind, com direção de Vincent Bal, com a italiana Isabella Rosellini no papel de Lola Ciperola, estrela do teatro por quem Nono nutre uma admiração toda especial.
Para resumir Garoto zigue-zague, é possível dizer que se trata de um conto de fadas sobre o final da infância. Mas isso, de forma alguma, abarca todas as características desta sensível história, que merece atenção de todos os que tiveram infância um dia.
— Cesar Silva

Voos e sinos e misteriosos destinos, Emma Trevayne

Voos e sinos e misteriosos destinos (Flights an chimes and mysterious times), Emma Trevayne. 306 páginas. Ilustrações e capa de Glenn Thomas. Tradução de Álvaro Hattnher. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte. São Paulo, 2014.

Posso dizer que este é um livro que me pegou pela capa. Quando a vi, sabia que tinha que lê-lo. A sinopse, divulgada pela Seguinte – um dos selos da editora Companhia das Letras, responsável pela publicação – contando uma interessante trama steampunk infantojuvenil, deu ainda mais certeza. E não me arrependi.
Com tradução de Álvaro Hattnher, Voos e sinos e misteriosos destinos (no original, Flights an chimes and mysterious times), da escritora norte americana Emma Trevayne, conta, em 306 páginas, a história de Jack Foster, garotinho mimado da alta classe londrina vitoriana que, ao mesmo tempo em que tem a vida controlada por uma governanta severa, vive distante de seu pai, um industrial ocupadíssimo de quem certamente herdará a fábrica quando adulto, e também da mãe, que passa os dias em recepções e jantares luxuosos às quais Jack não tem acesso. Entediado, ele espiona uma dessas reuniões e fica fascinado pelos truques de Lorcan Havelock, um estranho mágico que lá se apresentou.
Jack tem um talento natural para construir engenhocas a partir de peças de relógios e, acreditando que pode aprender alguns bons truques com aquele mágico, ele o segue, assim que surge a oportunidade, para tentar uma aproximação. Jack segue o homem por uma passagem mágica na base do Big Ben, mas perde-se na escuridão e, quando finalmente consegue sair, se depara com uma visão familiar mas, ao mesmo tenho, diferente. O ar está poluído por uma densa fumaça oleosa, todas as pessoas têm estranhos implantes metálicos e, para onde se olhe, há fadinhas mecânicas, constituídas de engrenagens e cordas minúsculas e finíssimas, fazendo estripulias com os transeuntes.
Assustado e arrependido de sua ousadia, Jack tenta voltar para casa, mas descobre que ela não está mais no lugar onde devia. Ele tenta falar com uma menina que ele encontra num parque, mas ela está paralisada, e só começa a falar depois que ele aciona uma chave em forma de borboleta que ela tem no pescoço. A menina mecânica se chama Beth, e conta a Jack que eles estão em Londinium, capital do grande Império das Nuvens, governado pela linda, imortal e poderosa Senhora, de quem ela mesma já foi um dia o brinquedo favorito. Beth conduz Jack para a casa de seu pai, o Dr. Cataplasma, mecânico genial que a construiu e a considera sua criação mais perfeita. Cataplasma recebe Jack bem, mas se preocupa depois que o menino conta que chegou a Londinium seguindo Lorcan Havelock. Ele sabe que se Jack não voltar urgentemente ao seu próprio mundo, todos ficarão na mira do malicioso Lorcan, que não é um mágico, mas sim o general de todos os exércitos de Londinium e está ansioso para mover uma guerra contra as colônias britânicas separatistas.
Enquanto Cataplasma pensa num modo de levar Jack de volta para seu mundo de origem, Lorcan é severamente pressionado pela Senhora, que exige um jovem perfeito para ser seu filho de carne e osso que é, obviamente, Jack. No passado, Lorcan também foi o amado filho perfeito da Senhora, mas ela se desinteressou dele depois que ficou mais velho. Lorcan tem ciúmes de Jack, mas não lhe resta outra opção a não ser cumprir a ordem da soberana. Sabedor que Jack o seguiu e está escondido em Londinium, decide executar alguns cidadãos em praça pública, fazendo disso uma enorme propaganda de forma a convencer o menino a se entregar para ele. E o plano funciona a perfeição.
Sentindo-se culpado pela morte dos inocentes cidadãos de Londinium, Jack se entrega para Lorcan e, finalmente, é levado à presença da Senhora, que o recebe com toda pompa e circunstância, que irrita ainda mais o enciumado Lorcan.
O que vai acontecer daí em diante é uma montanha russa de acontecimentos dramáticos, que envolvem as maquinações de Lorcan para se livrar de Jack, voltar às graças da Senhora e, finalmente, receber dela a autorização para atacar as colônias. Por seu lado, o inocente Jack vai sofrer, no corpo e na mente, os efeitos dos planos maquiavélicos de Lorcan mas, com a ajuda de alguns amigos e a utilização de seus raros talentos, ele pode vir a ser a chave para a redenção desse mundo poluído à beira de uma guerra, e das tragédias de sua própria vida infeliz.
Embora seja americana, Emma Trevayne escolheu o cenário londrino para caracterizar o modelo steampunk da história de Jack, que soa como uma releitura modernizada de Alice no País da Maravilhas. Contudo, a falta de um envolvimento emocional com a cidade deixa a narrativa menos expressiva do que poderia ser. Sendo Londres uma personagem tão importante à história quanto Jack e Lorcan, era de se esperar maior detalhamento desse cenário, o que autores britânicos nativos, como Neil Gaiman por exemplo, sabem fazer muito bem. Mas isso não interfere no enredo, que é dinâmico e envolvente, numa narrativa que se lê com prazer e rapidez.
O livro traz belas ilustrações de Glenn Thomas, de contrastes fortes que, em alguns momentos, lembram xilogravuras, embora não o sejam. Thomas também é autor da ilustração da capa que me chamou a atenção, realizada no mesmo estilo sombrio das ilustrações internas, mas em cores e com algumas colagens que remetem ao estilo do ilustrador inglês Dave McKean.
Para quem gosta e deseja desfrutar de uma boa aventura, Voos e sinos e misteriosos destinos é uma opção interessante. Também pode ser uma excelente introdução ao gênero da ficção científica para os leitores que vêm da fantasia que, neste momento, tem muito mais público. Contudo, leitores maduros que saibam apreciar as muitas qualidades dos textos infantojuvenis também não vão se decepcionar com esta movimentada aventura que guarda para eles algumas boas surpresas.
— Cesar Silva

André Carneiro (1922-2014)

É sempre difícil dizer adeus a um amigo e, mais ainda, quando esse amigo é mestre justamente no tipo de arte que escolhemos para estudar e amar.
André Carneiro é, sem dúvida nenhuma, o mais importante nome brasileiro no que se refere à ficção científica. Autor de textos sofisticados e perturbadores, de abordagens raras e estilo sempre inovador, Carneiro não evitava temas polêmicos, pelo contrário, os perseguia com afinco. Tanto em prosa, na qual é o autor mais lembrado pelos leitores dentro e fora do País – especialmente pela novela "A escuridão" –, mas também em verso, sendo um dos poucos poetas brasileiros que não teve receio de versejar ficção científica. Carneiro também se destacou na elaboração de estudos sobre o gênero, com seu obrigatório ensaio Introdução ao estudo da 'science fiction', publicado em 1967 que, ainda hoje, é importante fonte de referência acadêmica.
André Granja Carneiro nasceu 9 de maio de 1922 em Atibaia, cidade do interior paulista. Formou-se em jornalismo e foi fundador do importante jornal literário Tentativa, publicado entre 1949 e 1951, um dos mais completos registros do grupo de poetas que ficou conhecido como Geração 45, do qual o próprio Carneiro faz parte.
Seu primeiro livro foi a antologia poética Ângulo & face, publicada em 1949. O envolvimento com a literatura especulativa iniciou-se na Antologia brasileira de ficção científica, organizada pelo editor Gumercindo Rocha Dorea em 1961, com o conto "O começo do fim". No mesmo ano teve publicado, pelo mesmo editor, o conto "A organização do Dr. Labuzze", na antologia Histórias do acontecerá. Seu primeiro livro solo no gênero viria a ser Diário da nave perdida, coletânea publicada em 1963 pela editora Edart, na qual aparece pela primeira vez o famoso conto "A escuridão". Também a sua segunda coletânea, O homem que adivinhava, foi publicada pela Edart, em 1966.
Carneiro participou ativamente do lendário Simpósio de Ficção Científica, realizado no Rio de Janeiro em 1969, no qual cumpriu a função de chair-man a convite de José Sanz, organizador geral do evento.
Por iniciativa do tradutor e agente literário Leo Barrow que "A escuridão" foi publicado no mercado norte-americano, assim como mais de duas dezenas de outros textos. A primeira publicação em inglês de "The darkness" foi na antologia Best SF 1972, organizada por Harry Harrison e Brian Aldiss. Mais tarde, este o outros textos de Carneiro seriam publicados em diversas outras línguas, tornando-se a obra da fc brasileira mais conhecida no exterior.
Carneiro tinha muitos interesses além da literatura. Foi artista plástico, fotógrafo, cineasta e dedicou muita atenção a arte do hipnotismo, assunto sobre o qual também escreveu diversos livros. Sendo um intelectual em plena atividade, foi perseguido pelas forças militares do golpe de 1964. Carneiro gostava de contar sobre a sala secreta que tinha em sua chácara, de sua participação em grupos de guerrilha e da operação que roubou o famoso "cofre do Adhemar". Apesar da militância, nunca foi preso, mas as experiências que viveu serviram de combustível poderoso para sua ficção.
Uma das temas mais recorrentes da obra de André Carneiro é o feminismo e a revolução sexual. Muitos de seus trabalhos curtos tratam desse tema em maior ou menor grau, mas foi na ficção longa que Carneiro ousou mais, em seus romances Piscina livre (1980) e Amorquia (1991).
Por causa de problemas de saúde, Carneiro transferiu-se para Curitiba em 1999, para ficar próximo a seus filhos, Maurício e Henrique. Mesmo assim, continuou ativo, realizando diversas oficinas literárias e contribuindo para a formação de um núcleo de autores de fc&f na capital paranaense. Um problema progressivo nos olhos dificultou ainda mais a vida de André Carneiro mas, mesmo com menos de dez por cento da visão, continuou a escrever contos e poemas. São dessa fase a coletânea de contos Confissões do inexplicável e a coletânea poética Quânticos da incerteza, ambas de 2007. Seu último livro publicado foi André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas (2009), mas o autor deixou prontas pelo menos uma coletânea de contos inéditos e uma coletânea de crônicas que, talvez, ainda sejam, editadas.
André Carneiro nos deixou no dia 4 de novembro de 2014, aos 92 anos, vitimado por problemas cardiorrespiratórios. Seu corpo foi cremado e as cinzas depositadas ao pé de uma árvore.

Os livros do mestre
Ângulo & face. São Paulo: Edart, 1949. Poesia.
Diário da nave perdida. São Paulo: Edart, 1963. Contos.
Espaçopleno. São Paulo: Clube de Poesia, 1963. Poesia.
O homem que adivinhava. São Paulo: Edart, 1966. Contos.
O mundo misterioso do hipnotismo. São Paulo: Edart, 1963. Não-ficção.
Introdução ao estudo da 'science fiction'. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1967. Não-ficção.
Manual de hipnose. São Paulo: Editora Resenha Universitária, 1978. Não-ficção.
Piscina livre. São Paulo: Editora Moderna, 1980. Romance.
Pássaros florescem. São Paulo: Editora Scipione, 1988. Poesia.
Amorquia. São Paulo: Editora Aleph, 1991. Romance.
A máquina de Hyerônimus e outras histórias. São Carlos: Universidade Federal de São Carlos, 1997. Contos.
Sem memória. São Bernardo do Campo: Edições Hiperespaço, 2005.
Confissões do inexplicável. São Paulo: Editora Devir, 2007. Contos.
Quânticos da incerteza. Atibaia: Redijo, 2007. Poesia.
André Carneiro: Fotografias achadas, perdidas e construídas. São Paulo: Pantemporâneo, 2009.

O Círculo, Dave Eggers

O Círculo (The Circle), Dave Eggers. 522 páginas. Tradução de Rubens Figueiredo. Capa de Jessica Hische. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2014.

Houve um tempo em que a ficção científica era um gênero considerado escapista e alienado, porque suas histórias geralmente se passavam séculos ou até milênios no futuro, no espaço sideral ou em planetas distantes, nos quais sociedades absurdas discutiam problemas de uma forma tão extrapolada que eram fantasias de sonho, valendo-se apenas das correrias dos heróis para salvar mocinhas indefesas das garras de alienígenas mal intencionados. No meio dessa ficção de gosto duvidoso, que fazia sucesso entre os adolescentes, alguns autores logravam oferecer enredos um tanto mais densos. 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, A laranja mecânica, de Anthony Burgess, Nós, de Yevgeny Zamyatin, Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, A beira do fim, de Harry Harrison, entre outros, surpreendiam com os horrores reais de opressões que grassavam, e ainda acontecem, em várias partes do mundo. Eram as chamadas distopias – o inverso de utopias – um tipo de especulação político-social que antecipava os descaminhos da sociedade.
Atualmente, as distopias tornaram-se um bom mercado. Desenvolvidas a partir de mundos de alta fantasia, séries como Jogos vorazes, de Suzanne Collins, e Divergente, de Veronica Roth, têm atraído grande número de leitores jovens. Ainda que estejam distantes, em impacto e relevância, daquelas distopias clássicas, numa coisa são semelhantes: ainda que aterradoras, parecem distantes e, certamente, evitáveis.
Esta não é o caso de O Círculo, romance de ficção científica do jornalista americano Dave Eggers, recentemente publicado no Brasil pela Editora Companhia das Letras, com tradução de Rubens Figueiredo.
A princípio, parece um exagero tratar O Círculo como um romance distópico. Isso porque a história de Eggers acontece praticamente em nosso próprio tempo, um ou dois anos no futuro, no máximo. As coisas que vemos na maior parte da narrativa já fazem parte do nosso dia a dia e não seria de estranhar que muita gente rejeitasse a classificação de ficção científica para ele.
O Círculo é uma empresa de tecnologia, luxuosa e sofisticada, sucessora das atuais redes sociais que, através do uso sistemático dos programas de busca, construiu um enorme e centralizado banco de dados capaz de oferecer um leque inesgotável de oportunidades para jovens empreendedores. Além disso, o Círculo é uma megarrede social, fusão do Google com o Facebook e o Twitter, o maior vício de uma comunidade global entusiasmada com o poder de se meter na vida uns dos outros. É lá que vai trabalhar a irrequieta e um tanto insegura Mae. Recém-saída da universidade, ela recebeu uma proposta de trabalho no Círculo de Annie, uma bem posicionada executiva da empresa que foi sua colega de dormitório no campus. Mae inicia sua carreira no Círculo no departamento de atendimento ao cliente e, como vamos perceber, a invasão da tecnologia é avassaladora nesse ambiente de trabalho.
A princípio, Mae parece não se adaptar bem ao modelo exigido dos empregados no Círculo. Seus pais vivem numa pequena cidade a 200 quilômetros da sede da empresa, para onde ela viaja periodicamente para visitar o pai, que sofre de um tipo de esclerose progressiva, quando ela também aproveita para praticar um esporte solitário do qual gosta muito, a canoagem. Suas ausências, ainda que fora do horário de trabalho, não são bem recebidas por seus superiores, que passam a pressioná-la para adotar um estilo de vida mais "transparente", o que significa compartilhar a maior quantidade possível de dados pessoais na grande rede administrada pela empresa. Preocupada em perder o emprego, Mae torna-se uma praticante exageradamente entusiasmada desse novo modo de vida, ao ponto de forjar as máximas que passam a nortear as ações do Círculo "Segredos são mentiras", "Compartilhar é cuidar" e "Privacidade é roubo", criadas num processo que, não por acaso, lembra o duplipensar orwelliano.
Porém, há um estranho no Círculo: Kalden, homem que ninguém parece conhecer e não tem sequer um registro na onipresente, onisciente e quase onipotente rede. Mae se envolve com Kalden, que tenta demovê-la da doutrina do Círculo. Dividida entre a paixão por Kalden e a lealdade ao Círculo, o dilema levará Mae às franjas do apocalipse, quando o Círculo – cujo logotipo é uma letra C – passa a almejar a "completude", que seria fechá-lo num círculo perfeito, e isso é bem mais do que uma figura ilustrativa. As coisas vão se complicar ainda mais quando Mae decide convencer Mercer, seu ex-namorado ludita, e os próprios pais a submeterem-se ao Círculo, e nem mesmo as mais trágicas consequências abalam Mae: o vício pela tecnologia a transformou numa máquina faminta de atenção e sucesso.
Eggers também investe na forma narrativa. Seu texto, apoiado principalmente em diálogos, não faz uso de travessões e todas as falas são grafadas entre aspas. Também não há capítulos, com o texto se alongando como uma tortura chinesa, contudo, impossível de largar. A única concessão do autor foi a divisão do texto em três partes estranhamente irregulares. A primeira parte tem cerca de 320 páginas e narra os primeiros dias de Mae no Círculo. O Livro II tem pouco menos de 200 páginas e acompanha a transformação inconsciente e gradativa de Mae numa alucinada entidade pós-humana. A última parte, o Livro III, tem apenas quatro páginas, mas é a que vai levar leitor a nocaute; um gancho tão forte que nos faz perder as meias. Tudo porque, apesar do evidentes descaminhos, o Círculo parece representar exatamente aquilo que vemos de mais positivo na revolução digital; ela precisa estar certa e compactuamos com isso. Seus anseios são legítimos, os resultados são favoráveis e positivos, e cada pequena vitória de Mae e do Círculo parecem ser a vitória do bem e do bom senso em direção a uma humanidade melhor, progressista e sadia. Contudo...
A leitura de O Círculo deve causar um poderoso efeito sobre os usuários das redes sociais, especialmente aqueles dedicados a influir na sociedade para torná-la mais justa. Porque, mesmo sob a melhor das intenções, quando isso se torna uma impostura, a utopia inevitavelmente atravessa a linha tênue que a separa da distopia.
O desfecho do romance é avassalador e deixa uma sensação quase insuportável de urgência e inevitabilidade semelhante a que experimentamos na leitura de 1984, do qual O Círculo é herdeiro legítimo.
— Cesar Silva

Bom de briga, Paul Pope

Bom de briga (Battling boy), Paul Pope. 204 páginas. Editora Companhia das Letras, selo Quadrinhos na Cia, São Paulo, 2014.

Todos os leitores de quadrinhos sabem o quanto é raro que surja uma nova boa ideia em meio às centenas que lhe são oferecidas diariamente, em especial o gênero dos super-heróis, que está em crise criativa há pelo menos duas décadas. A maior parte do material dito 'novo' não passa de derivação: a mesma história de sempre com um desenho diferente, às vezes nem mesmo isso. Os grandes artistas do segmento já morreram e, atualmente, os personagens são reféns de suas próprias franquias e os artistas não podem interferir na sua estrutura. Além do mais, é raro que surjam novos personagens, porque as editoras maiores saturam o mercado e sufocam qualquer possível concorrência em seu nascedouro, geralmente cooptando o artista para trabalhar em suas próprias franquias.
Mesmo passando por todo esse processo, o quadrinhista americano Paul Pope segue resistindo com seu trabalho autoral. Chegou a ser utilizado pela DC na produção de Batman: Ano 100 e nas minisséries de ficção científica 100% e Heavy Liquid, ambas da linha Vertigo, entre outros trabalhos. Pope é um dos raros artistas ocidentais a ter publicado na prestigiosa editora japonesa Kodansha. Sua vivência com tantas fontes de influência, que vão dos comics americanos aos quadrinhos japoneses e europeus, tornaram sua arte um cardápio rico e impactante, já reconhecida por três prêmios Eisner Award, em 2006 e 2007. Seu desenho algo relaxado investe no volume, no movimento e numa expressividade inusitados.
Essas qualidades estão todas presentes no álbum Bom de Briga (Battling Boy), originalmente editado em 2013 pela editora First Second Books, e publicado no Brasil em 2014 pela Editora Companhia da Letras em seu selo Quadrinhos na Cia.
Trata-se de uma história na linha New Weird, amálgama de ficção científica, fantasia e horror com uma ambientação realista. Bom de Briga é o nome de um garotinho de doze anos que acaba de chegar à cidade de Arcopolis, que se encontra sitiada pelo ataque de uma horda monstros de todos os tipos e tamanhos. O herói da cidade, o vigilante mascarado Haggard West, caiu numa emboscada e agora a cidade está completamente desprotegida. A chegada de Bom de Briga não é um acaso, pois ele tem uma missão: proteger Arcopolis. Isso porque, apesar de muito jovem, Bom de Briga não é um garoto qualquer. Ele é um semideus, vindo diretamente da cidade celestial, enviado por sua própria família divina para defender o lugar como uma espécie de rito de passagem para a divindade plena. Bom de Briga é poderoso e imortal, mas isso não torna a tarefa fácil. Logo de cara, ele tem que enfrentar Humbaba, um gigantesco monstro devorador de metal que está prestes a derrubar as defesas da cidade. E entra em ação com a confiança de um deus, mas falta de experiência é um sério obstáculo ao sucesso do garoto, que num momento de fraqueza e indecisão, acaba pedindo socorro ao pai, que o ajuda à distância, pois ele também está envolvido em seus próprios combates. Mas ele o adverte: "Não se fie em minha cômoda intervenção! Você deve repensar suas estratégias!" Ou seja, Bom de Briga terá de se virar sozinho dali em diante.
Exibida na tv, a luta de Bom de Briga e Humbaba torna o garoto no novo herói da cidade, recebido pelo governo com honras de estado e mimos, mas ele também o teme. Afinal, quem é esse Bom de Briga? Podemos confiar nele? A jovem Aurora, filha, assistente a agora órfã do falecido Haggard West, tenta assumir o posto do pai com a certeza que Bom de Briga não é digno dessa confiança. Enquanto isso, os monstros que, até então, agiam de forma desarticulada, começam a se organizar. Eles também não sabem quem é o menino que derrotou Humbaba tão facilmente, mas de uma coisa todos têm certeza: Bom de Briga precisa morrer.
A narrativa de Pope, somada a uma pletora de personagens instigantes, demonstra a mesma força das grandes sagas cósmicas criadas pelo ilustrador americano Jack Kirby (1917-1994), com um desenho agressivo e movimentado que reporta ao mangá e ao quadrinho europeu.
Bom de Briga tem 204 páginas em papel cuchê totalmente em cores, encadernação costurada e capa em cartão com laminação brilhante. Está, com certeza, entre as mais importantes publicações de quadrinhos no país em 2014.
Altamente recomendável.
— Cesar Silva

Mundo novo, Chris Weitz

Mundo novo (The young world), Chris Weitz. 324 páginas. Tradução de Álvaro Hattnher. Capa: kakofonia.com. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte, São Paulo, 2014.

Não há dúvida que a ficção científica, mesmo no século 21, continua a atrair a atenção dos leitores e autores. Em algum momento ao longo dos anos 1990, temia-se que a chegada do 'futuro' tornasse o gênero um exercício frívolo e sem utilidade, pois a realidade o superaria. Mas o que se observa é que o interesse pelo exercício especulativo a respeito do impacto da tecnologia na vida das pessoas, seja no futuro distante, seja no próximo, segue surpreendendo.

Mundo novo (The young word), publicado no Brasil em 2014 pela editora Companhia das Letras pelo selo Seguinte, com tradução de Álvaro Hattnher, é o primeiro romance de Chris Weitz, novaiorquino nascido em 1969 e formado em literatura inglesa pelo Trinity College. Weitz é mais conhecido por seu trabalho no cinema: o roteiro de seu longa About a boy (2002), dirigido por ele ao lado do irmão Paul, foi indicado ao Oscar. Além disso, Weitz dirigiu dois grandes sucessos do cinema de fantasia, A bússola de ouro (2007) e Lua nova (2009).
Trata-se de uma ficção apocalíptica, na mesma linha de uma série de produtos recentes da mídia que discutem a mortalidade, como os seriados de tv The walking deadHelix The last ship. O tema é bastante recorrente também na literatura do gênero, que tem clássicos como Só a terra permanece, de George Stewart, Eu sou a lenda, de Richard Matheson e Um cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr.
Mundo novo conta o que acontece ao planeta quando uma virose agressiva e desconhecida dizima a população adulta e infantil, deixando vivos apenas os adolescentes, que morrem tão logo completam 18 anos. Sozinhos e sem referências, os jovens tentam sobreviver a sua maneira ao colapso da civilização organizando-se em grupos para procurarem por alimentos e outros recursos necessários que coletam nas ruínas das cidades, e se protegerem de gangues rivais que ali disputam o poder.
A história é contada a partir do ponto de vista de dois personagens: Donna, uma adolescente típica do século 21, e Jefferson, filho de cientistas de ascendência japonesa, que é extremamente compenetrado de suas obrigações. Amigos desde a infância, fazem parte de um grupo de sobreviventes na região de Washington Square, em Nova York. O grupo acabou de perder seu líder, Wash, irmão mais velho de Jeff que completou 18 anos e morreu devido à infecção.
Crânio, um outro membro do grupo e fenômeno mirim da ciência, surge com a proposta de pesquisar um certo artigo científico numa revista que pode estar arquivada na grande biblioteca pública da cidade. Triste com a perda do irmão, Jeff acaba concordando em ajudá-lo, mais para sentir que está fazendo alguma coisa a respeito da doença que acabará por levar a todos, mais cedo ou mais tarde. Aos dois garotos associam-se Donna – que não acredita na possibilidade de que Crânio possa fazer o que os cientistas do mundo todo não puderam – e Peter, negro alto e forte que não esconde sua condição homossexual. A eles, mais tarde, vai se unir Minifu, sino-americana com um grande talento em lutas corpo a corpo.
A jornada inicia a bordo de uma caminhonete, que prova ser muito útil para chegar até a biblioteca, mas não mais do que isso. Contudo, esse é apenas o início de uma jornada repleta de perigos mortais como gangues inimigas, uma comunidade de canibais, matilhas de cães ferozes, animais selvagens sobreviventes do zoológico, muito tiroteio e correrias. Amarrando a peregrinação, que vai passar por diversos pontos turísticos dessa Nova York arruinada, o drama íntimo de Jeff, que não consegue declarar seu amor por Donna, uma história que só vai se definir nas páginas finais.
A narrativa é linear, mas a alternância de narrador lhe acrescenta tempero especial, porque Weitz maneja muito bem as duas vozes. O feito é o de ler dois diários que contam a mesma história em estilos bem diferentes. O texto de Jeff é escorreito e segue a norma culta da língua, o que combina com a personalidade séria do garoto. Já a narração de Donna é indisciplinada e errática, repleta de soluções improvisadas, com o uso exagerado de gírias e de estruturas típicas do roteiro de teatro, com os nomes dos personagens antes de suas falas. A editora também ajudou, definindo uma tipologia específica para cada narrador, de forma que percebemos a variação não apenas pela leitura, mas também no visual das páginas.
Outro mérito de Weitz são as alfinetadas que ele distribui a vontade contra o ambiente acadêmico. Por exemplo, quando Jeff e Crânio discutem a extinta prática da publicação de artigos acadêmicos. Jeff diz:
"Na superfície, parece ser um artigo de opinião, ou mesmo um ensaio sobre ética científica, mas me parece o tipo e coisa com que meus pais tinham de lidar. Chamavam de defesa de interesses pessoais." (página 121).
O autor também insere muitas referências à cultura pop e não evita revelar suas influências mais imediatas, tais como o romance O senhor das moscas (Lord of the flies), de William Golding, e Os arquivos confusos da sra. Basil E. Frankweiler (From the mixed-up files of Mrs. Basil E. Frankweiler) de E. L. Konigsburg, citados pelos personagens, entre outros.
Mundo novo é um romance divertido e adequado ao público jovem-adulto ao qual foi dirigido, mas que não abandona o leitor experiente, oferecendo discussões éticas e morais que podem levar a reflexões bastante profundas.
— Cesar Silva