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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Maria Helena Bandeira (19??-2013)

No início deste ano, deixou o nosso convívio a artista plástica, poeta e escritora de ficção científica e fantasia Maria Helena Cordeiro de Souza Bandeira.
Carioca de nascimento, cuja data foi impossível precisar, era sobrinha-neta do escritor Antônio Bandeira, mas desenvolveu uma carreira independente do antepassado ilustre.
Maria Helena estudou pintura e psicologia, mas formou-se em jornalismo pela PUC/RJ. Era professora de desenho, pintura e história da arte, além de artista plástica, tendo participado de vários Salões Nacionais de Artes Plásticas e da Bienal Nacional, assinando como Maria Bandeira.
Como poetisa, resistia em publicar seus trabalhos. Contudo, seu livro Borboleta no chapéu recebeu uma menção especial no Prêmio Guararapes da União Brasileira de Escritores. Também deixou por publicar a coletânea Unicórnios no jardim.
Assinando como Bárbara Helena, colaborava regularmente com o saite Anjos de Prata, tendo participado das antologias Crônicas dos Anjos de Prata 235, publicadas pelo mesmo.
Sua estreia na ficção científica aconteceu em 1992, nas páginas da revista Isaac Asimov Magazine (Record), com o conto "Eu mesmo". Desde então, manteve uma produção continuada de contos, tendo aparecido em fanzines e revistas como ScariumSomnium Blocos, e nas antologias Paradigmas 1 (Tarja, 2009), Cyberpunk: Histórias de um futuro extraordinário (Tarja, 2010) e Space opera (Draco, 2011), FC do B: Panorama 2006/2007 (Corifeu, 2008), FC do B: Panorama 2008/2009 (Tarja, 2009), Portal Stalker (2009), Portal Fundação (2009), Portal 2001 (2010) e Portal Fahrenheit (2010), Antoloblogue (Portugal), Grageas (Argentina) e O planeta das traseiras (Portugal). Seus trabalhos individuais apareceram exclusivamente no formato virtual: A lei dos seios (Slev, 2004), Talvez, Helena (Slev, 2004) e O Especialista (E-Nigma, 2002), trabalho este indicado ao Prêmio Argos. Também mantinha uma produção significativa na internet, publicando nos saites E-Nigma e Oficina de Escritores.
Maria Helena não resistiu a uma cirurgia para extração de um tumor no intestino e faleceu no dia 6 de janeiro de 2013, deixando por publicar a anunciada mini-série policial Sonho Amazônico.

Quando o sol estiver menos intenso
E eu mais cheia de sombras 
Vou procurar unicórnios no jardim 
E vou achar que a vida tem sentido
Mesmo assim.” 

Maria Helena Bandeira
Unicórnios no jardim

domingo, 18 de janeiro de 2015

Almanaque do terror


Almanaque do terror, 76 páginas. Editora Abril, São Paulo, 2013.

A Coleção Mundo Estranho, da Editora Abril, distribuiu nas bancas o Almanaque do Terror, edição especial dedicada a expor um histórico do gênero através de uma série de listas, ótimas para criar polêmica entre os fãs.
Em suas 76 páginas, o Almanaque olha o gênero sob diversos ângulos, a maior parte do tempo no viés audiovisual, com levantamentos sobre filmes, séries de tv, animes, videogames, seus heróis, vilões e criadores. No meio da predominância óbvia que não convence sequer o fã iniciante, a revista consegue lembra-se de personalidades significativas como Dario Argento, George Romero e até do brasileiro José Mojica Marins, embora não considere nenhum de seus filmes suficientemente assustador para figurar na lista dos melhores que, em seu lugar, apresenta bobagens homéricas como Atividade paranormal e A bruxa de Blair. Também ignorou totalmente o trabalho legendário da Hammer e o moderno e assustador cinema oriental.
Na relação das séries de tv a coisa também é feia. Enquanto a ridícula Goosebumps foi relacionada entre as dez melhores séries de todos os tempos, clássicas como Kolchak e os demônios da noite e Galeria do terror foram solenemente esnobadas.
O que limpa um pouco a barra dos pesquisadores da Mundo Estranho é a seção de livros e quadrinhos, que são geralmente esquecidos nesse tipo de publicação, embora as listas também sejam bastante parciais, seguindo o gosto de algum jornalista muito mal informado quanto aos cânones do gênero, embora alguns bons títulos até apareçam por ali. Sinceramente, por melhor que seja, Bento, de André Vianco, não tem a menor chance de figurar entre os dez melhores livros de terror de todos os tempos. Além do que a relação apela para histórias de suspense e mistério, que comprometeram sua caracterização. Se assim fosse, alguns dos muitos filmes de Alfred Hitchcock deveriam também ter sido lembrados em suas devidas listagens, como Os pássaros e Psicose. O interessante é que, entre os grandes mestres, aparecem – ainda que também isso seja discutível – Neil Gaiman, Clive Barker e Anne Rice, mas nenhum de seus livros foi lembrado.
A lista de quadrinhos também é tendenciosa. Enquanto ousaram relacionar o recente e esquecível álbum nacional Pixu no "Top5" dos quadrinhos de horror, não se lembraram de nenhum dos verdadeiros clássicos da arte, como por exemplo a obrigatória Tales from the Crypt, entre outros títulos da EC Comics que até hoje influenciam os criadores do gênero. A revista Kripta aparece, e é de fato clássica no Brasil, mas não deveria, nunca, ser citada a versão brasileira, e sim a original, Creepy, da Warren, editora americana que também publicou outros títulos fundamentais como Eerie e Vampirella.
Almanaque ainda oferece um pequeno guia turístico com algumas atrações temáticas, entre casas assombradas famosas e parques de diversões.
Almanaque do Terror parece ser uma publicação dirigida a leitores de pouca ou nenhuma vivência com o gênero mas, mesmo assim, seria desejável uma representatividade histórica mais apurada e o didatismo adequado para não tratar este gênero artístico, tradicional e muito respeitável, apenas como uma bizarra atração de circo.
Cesar Silva

Ray Harryhausen (1920-2013)

Neste mês de maio, o mundo perdeu Ray Harryhousen, um dos mais importantes técnicos do cinema de ficção fantástica.
Nascido em Los Angeles, em 29 de junho de 1920, Harryhousen ficou fascinado pelo mundo do cinema aos treze anos de idade, ao ver o clássico King Kong (1933). Os impressionantes efeitos especiais executados por Willis O’Brien, que davam vida ao gorila gigante a partir de uma miniatura animada pelo processo do stop-motion, levaram o jovem Ray a dedicar toda a sua vida ao desenvolvimento dessa arte, que cria a ilusão de movimento a partir da fotografia, quadro a quadro, de miniaturas articuladas.
Harrihousen começou fazendo seus próprios filmes em sua casa, com uma câmera de 16 mm.
Começou a trabalhar profissionalmente em documentários de Frank Capra e nos filmes de George Pal, mas sua grande chance veio quando fez a animação para o filme Mighty Joe Young (1949), de Ernest B. Shoedsack, o mesmo diretor de King Kong, trabalhando ao lado de seu ídolo, Willis O’Brien. Ali ele também ajudou a desenvolver outros efeitos especiais que dominariam a indústria do cinema por muitas décadas, como o rear projection (montagens a partir de projeções) e o matte painting (pinturas realistas em vidro).
Harryhousen também fez os efeitos de vários filmes clássicos, como os dinossauros de The animal world (1956), o Kraken de It came from beneath the sea (1955), o Rhedosaurus de The beast from twenty thousand fathoms (1953), a invasão alienígena de Earth versus the flying saucers (1956) e o impressionante monstro Ymir, de Twenty million miles to Earth (1957). Contudo, Harryhousen costuma ser mais lembrado pelos efeitos que realizou na série de filmes de Simbad o marujo, personagem inspirado nas histórias de As mil e uma noites, com uma pletora de monstros mitológicos, tais como o pássaro Roca, o Grifo e o Ciclope.
Seu momento culminante certamente está nos efeitos especiais realizados para o clássico Jason and the argonauts (1963), com a Hydra, as harpias, os guerreiros-esqueleto e outras visões aterrorizantes dos mitos clássicos. O mais recente trabalho do mestre a impressionar os expectadores foi a primeira versão de Clash of the titans (1981), no qual a técnica do stop-motion atingiu uma qualidade nunca vista anteriormente.
Apesar de sua importância e influência, Harryhousen ganhou apenas um Oscar, justamente por seu primeiro trabalho, Mighty Joe Young, dividido com O'Brien. Em 1992, a Academia reconheceu sua obra com um Oscar honorário e, em 2005, Harryhousen foi incluido no Science Fiction Hall of Fame.
Harryhousen morreu no dia 7 de maio de 2013, aos 92 anos.
Foto: Carl Court/AFP

O Nalladigua, Simone Saueressig

Os sóis da América: O Nalladigua, Simone Saueressig. 160 páginas. Ilustrações e capa de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2013.

Cumpro agora a promessa que fiz à escritora Simone Saueressig, resenhando aqui o seu novo livro, O Nalladigua, primeiro volume da série Os sóis da América, ousada proposta autoral desta escritora gaúcha que depois de uma vida dedicada a construir uma fantasia familiarizada com a cultura regional brasileira, sobe de nível e investe numa geografia mais abrangente, que pretende – e não duvido que cumprirá – assenhorar-se do continente, numa aventura pela mitologia de toda a América, da Terra do Fogo ao Alasca.
Lançado em abril, durante a 2ª Odisseia de Literatura Fantástica em Porto Alegre, O Nalladigua é uma publicação da própria autora, que decidiu não esperar pela disposição de uma editora estabelecida, embora seja uma escritora experiente e tenha publicado muitos livros profissionalmente, tais como A noite da grande magia branca (1988, Kuarup), O palácio de Ifê (1989, L&PM), A máquina fantabulástica (1997, Scipione), A estrela de Iemanjá (2009, Cortez), e o premiado aurum Domini: O ouro das missões (2010, Artes e Ofícios), entre outros.
O Nalladigua conta a história de Pelume, jovem da tribo d'Os do Fogo, que habita a Caverna Mais Alta do Mundo, numa ilha em algum lugar do círculo polar antártico, terra onde os dias e as noites duram seis meses cada. A vida d'Os do Fogo é dura mas feliz, um cotidiano limitado e familiar que parece estar sob total controle. Mas, uma noite, a vida do Homem Mais Que Velho, o contador de histórias da tribo que vivia há mais tempo que qualquer outro homem sobre o mundo, finalmente chega ao fim. E a aldeia entra em crise, pois eram as histórias do Homem Mais Que Velho que regulavam as atividades da tribo. Sem a sabedoria dele, ninguém sabe quando é hora de fazer o quê. Além do mais, Pelume teme que o dia nunca mais volte, já que o Homem Mais Que Velho era o único que sabia contar a História Para Chamar o Sol. Apavorado com a ideia de nunca mais ver a luz do Sol, Pelume decide sair da ilha e procurar pela História Para Chamar o Sol no longínquo e mítico norte. Ele pretende remar seu barquinho com um galho seco que encontrou na praia, e chegar ao lugar de onde vêm as histórias que o Homem Mais Que Velho contava. Porém, mal havia saído da caverna, uma tempestade fortíssima o derruba do alto de um penhasco e Pelume cai nas costas de uma ave gigante, que vem a ser Furufuhué, o Vento. Penalizada com a história do menino, a ave decide levá-lo até às estepes da Terra do Fogo, às portas da Elelín, a Cidade Errante. Lá, Pelume reencontra os dias e as noites que, naquelas regiões estranhas, não demoram tanto quando em sua terra natal. Ele é bem recebido pelos habitantes de Elelín e logo vai perguntando sobre a História Para Chamar o Sol, mas ninguém parece conhecê-la. Ele é então encaminhado para a casa da Velha das Palavras, a anciã que guarda a sabedoria da cidade. Com ela, Pelume descobre que o seu remo, o galho seco que carrega desde o início da jornada, é na verdade um pedaço da Nalladigua, uma árvore muito antiga e poderosa, embora ela nada mais saiba a respeito. A Velha das Palavras conhece, de fato, algumas histórias sobre o Sol, mas nenhuma delas é a história que Pelume busca, e ele terá de continuar sua jornada para o norte, onde talvez alguém  a conheça. Agora acompanhado de um camahueto – uma espécie de unicórnio – e da despachada menina Misqui, Pelume avança pelos pampas para encontrar a História Para Chamar o Sol. Ao longo de sua jornada rumo ao Velho Norte, Pelume coleciona lendas sobre a origem do Sol e faz amigos valorosos, mas também tem de enfrentar inimigos poderosos, como monstros antropófagos e um perigoso feiticeiro que pretende roubar o chifre encantando do camahueto.
A história de Pelume segue uma tradição na fantasia, que é a narrativa de jornada, história sobre uma longa e atribulada viagem ao longo da qual o protagonista reúne amuletos mágicos, faz amigos e descobre a si mesmo e ao seu destino. O que diferencia esta histórias de tantas outras que seguem o mesmo formato é justamente o fato da autora ter instalado a narrativa nas paisagens de uma América mítica, fazendo uso mais ou menos livre das muitas lendas dos povos que habitaram o continente. Volta e meia surgem cenários familiares ao leitores. Neste primeiro volume, acompanhamos Pelume pelos pampas argentinos, passando pela foz do Prata até às Cataratas do Iguaçu, e encontramos histórias, seres e personagens mitológicos que povoam a imaginação dos povos americanos.
A América de Pelume parece ser pré-colombiana, contudo, algumas pistas levam a pensar que talvez não seja de um tempo tão recuado assim. Por exemplo, a imagem emprestada por Simone ao Anhangá é a de um selvagem garanhão branco. Sabemos que os cavalos só chegaram à América com Cortez, no século 16, e devem ter demorado ainda mais para se tornarem familiares aos povos da região sul do continente. Guaranis trajados de bombacha e tomando chimarrão também remetem a um tempo mais recente, mas vamos ter que aguardar a sequência da história para confirmar essa impressão.
De qualquer forma, O Nalladigua é uma leitura prazerosa e repleta de histórias surpreendentes, mesmo para nós, sul-americanos. As imagens descritas por Simone são poderosas e inspiradoras, e só posso imaginar o quanto elas impressionariam os leitores europeus ou norte-americanos, menos familiarizados com as lendas e cenários destas exóticas latitudes.
O Nalladigua tem ilustrações em preto e branco da estreante Fabiana Girotto Boff, que dão ao volume um aspecto infanto-juvenil, o que não é demérito algum. Os desenhos ainda carecem de segurança, mas acompanham bem a história e contribuem para torná-la mais acessível aos leitores jovens. Outro colaborador foi o revisor Saint-Clair Stocler, escritor identificado com a Terceira Onda da ficção fantástica brasileira, falecido em abril último.
Para encomendar este e outros livros de Simone Saueressig, visite o saite da autora, Porteira da Fantasia.
Cesar Silva

Richard Matheson (1926-2013)

Importante escritor e roteirista norte americano, Richard Burton Matheson nasceu em Allendale, Nova Jérsei, no dia 20 de fevereiro de 1926, em uma família de imigrantes noruegueses. Formou-se em 1943 no Brooklyn Technical School e serviu na infantaria do Exército durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1949, formou-se em Jornalismo na Universidade do Missouri, mudando-se para a Califórnia em 1951, quando já estava publicando seus primeiros textos. Sua estreia editorial foi com o conto de ficção científica "Born of man and woman", publicado em 1950 no Magazine of Fantasy and Science Fiction.
Apesar de muito identificado com a ficção científica, Matheson tem trabalhos importantes em diversos outros gêneros, especialmente fantasia, horror e dramas épicos de guerra e faroeste. Sua produção reúne 25 romances e cerca de uma centena de contos.
Seus trabalhos mais conhecidos são as novelas O incrível homem que encolheu (The shrinking man, 1956) e Eu sou a lenda (I am legend, 1964), ambos adaptados com muito sucesso para o cinema, o segundo três vezes, com Vincent Price, Charlton Heston e Will Smith revezando no papel do protagonista Robert Neville, o último ser humano vivo em uma Terra devastada por uma praga de vampiros.
Matheson dedicou-se ao trabalho de roteirista e tornou-se um profissional respeitado e muito requisitado. Há histórias suas em seriados importantes como Além da imaginação (Twilight zone), Galeria do terror (Night gallery) e Jornada nas estrelas (Star trek). É dele o episódio-piloto de Kolchak e os demônios da noite (Kolchak: The night stalker), além de muitas adaptações das histórias de Edgar Allan Poe para produções de Roger Corman.
Matheson também é autor dos romance de fantasia Em algum lugar do passado (Bid time return, 1975), levado aos cinemas em 1980 com Christopher Reeve no papel principal, e de Amor além da vida (What dreams may come, 1978), filmado em 1988 estrelando Robin Williams. Outro texto importante do autor é Encurralado (Duel, 1971) que chegou ao cinema no mesmo ano, na estreia do então desconhecido diretor Steven Spielberg.
Matheson era um autor de opiniões controvertidas e, sempre que podia, não se furtava em criticar a falta de criatividade na tv e no cinema americanos. Sua ficção envolve principalmente os dilemas morais frente a situações limite, abordando de forma perturbadora questões psicológicas e sociológicas espinhosas, às vezes dramáticas, noutras satíricas, que lhe valeu o respeito de seus pares, sendo citado como referência por autores como Ray Bradbury, Stephen King e Anne Rice. Essa característica está presente, por exemplo, no seu famoso conto "O teste" ("The test", 1954), no qual um senhor idoso de uma sociedade futura tem que se submeter a um exame do governo para receber autorização para continuar vivendo.
No Brasil, o autor foi bem publicado, muito devido ao seu envolvimento com o cinema – um atrativo irresistível para os editores brasileiros – e alguns de seus títulos ainda estão em catálogo, como as antologias Eu sou a lenda e O Incrível homem que encolheu, além do romance de horror Hell houseA casa infernal (Hell house, 1971), todos em edição da Novo Século. Também podem ser encontrados com facilidade os romances Em algum lugar do passado (Bestbolso) e Amor além da vida (Butterfly Editora).
Entre os muitos prêmios que recebeu, estão o World Fantasy Award (1984), o Bram Stoker Award (1991) e a inclusão de seu nome no The Science Fiction Hall of Fame, em 2010. Seu romance mais recente é Other kingdoms, publicado em 2011 e ainda sem tradução no País.
Matheson morreu aos 87 anos, em sua casa, em Calabasas, Califórnia, no dia 23 de junho, de causa não revelada.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Frederik Pohl (1919-2013)

A ficção científica tem, no Brasil, algumas idiossincrasias curiosas. Uma delas é ter, entre seus os autores mais destacados, escritores que pouco foram publicados aqui. Esse é o caso de um dos mais importantes nomes do gênero, Frederik Pohl.
Frederik George Pohl Jr. nasceu em 26 de novembro de 1919 na cidade de Nova York. Passou a infância morando em diversas regiões do Texas, Califórnia, Novo México e Panamá, até que sua família fixou residência no bairro do Brooklyn, em sua cidade natal. Ainda adolescente, Pohl ajudou a fundar o lendário grupo de fãs de ficção científica Futurians, do qual também fez parte o escritor Isaac Asimov, a quem ajudou no início de sua carreira. Durante a Segunda Guerra Mundial, Pohl serviu no 456º Grupo de Bombardeiros, na Itália.
Pohl trabalhou como agente literário de alguns e seus colegas e foi editor de várias revistas do gênero, sendo premiado diversas vezes pelo seu trabalho à frente das revistas If Galaxy, nos anos 1960. Teve sua própria coleção na Bantan Books, a Frederik Pohl Selections, e dedicou-se intensamente à diversas instituições ligadas à fc.
Como escritor, estreou na Amazing Stories em 1937 com o poema "Elegy to a dead satellite: Luna", publicado sob o psedônimo Elton Andrews. Pohl desenvolveu muitos trabalhos em parceria, principalmente com seu amigo futuriano Cyril M. Kornbluth, também com Jack Williamson, e até concluiu um romance inacabado de Arthur C. Clarke, The last theorem, publicado em 2008. Sua ficção tem características de crítica política e social – reflexo de suas convicções socialistas – e, não raro, de um tom acidamente satírico.
Seus trabalhos mais importantes são os romances Man plus (1976, vencedor do Nebula), Gateway (1977, Hugo e Nebula) e Jem: The making of an utopia (1979, National Book Award); nenhum deles teve edição no Brasil. Tivemos aqui apenas três trabalhos do mestre: Dia milhão (Day million, 1970), Nave escrava (Slave ship, 1956) e Os mercadores do espaço (The space marchanters, 1953, em parceria com Kornbluth), em edições pela José Olympio, Hemus e Edart, respectivamente, todas esgotadas. O que fez de Pohl um autor conhecido no Brasil foram as muitas traduções portuguesas, especialmente pela Coleção Argonauta, que teve aqui inúmeros leitores. Algumas de suas ficções curtas também apareceram em antologias e revistas.
O autor esteve pelo menos duas vezes no Brasil. A primeira, no lendário I Simpósio Internacional de Ficção Cinetífica, realizado em 1969 no Rio de Janeiro em 1989 pelo Instituto Nacional do Cinema, e novamente em 1989, a convite da Editora Aleph. Ao lado da esposa, Elisabeth Anne Hull, e do então editor da Locus Magazine, Charles N. Brown, o autor se encontrou com leitores e fãs em São Paulo e Rio de Janeiro.
Em 1992, Pohl foi nomeado Grande Mestre pela Science Fiction Writers of America e, em 1998, entrou para o Science Fiction Hall of Fame. Seu último trabalho foi a novela All the lives he led, publicada em 2011.
Seu interesse pela ficção científica sempre teve um importante componente de fã e, mesmo como autor consagrado e influente, recebeu em 2012 um prêmio Hugo pelo trabalho de escritor-fã que realizava no blogue The Way the Future Blogs.

Os livros de Frederik Pohl no Brasil

Frederik Pohl morreu na tarde do dia 2 de setembro, aos 93 anos, após uma grave crise de insuficiência respiratória. Sua importante obra ainda está por ser descoberta pelos editores brasileiros e, principalmente, pelos leitores das novas gerações.

Jack Vance (1916-2013)

O escritor norte-americano Jack Vance foi outro gigante da ficção fantástica que nos deixou neste ano, mais exatamente no dia 26 de maio. Desde então, estou devendo aqui a sua biografia. Vou agora pagar essa dívida.
John Holbrook Vance nasceu em 28 de agosto de 1916, em São Francisco, no estado da Califórnia, mas logo mudou-se com sua mãe e irmãos para a fazenda de seus avós, próxima a Oakley, depois que seus pais se separaram. Com a morte dos avós, Vance teve que deixar os estudos para trabalhar e ajudar nas despesas da casa. Mais tarde, estudou engenharia, física e jornalismo na Universidade da Califórnia, quando escreveu sua primeira história de ficção científica para um trabalho no curso de Inglês, e recebeu do professor a sua primeira crítica preconceituosa.
Vance trabalhou como eletricista em Pearl Harbour e deixou o emprego pouco antes do ataque japonês. Não foi aceito nas forças armadas devido a problemas na visão, mas tornou-se marinheiro mercante, profissão da qual herdou o gosto pela navegação marítima, que praticou por toda a vida. Vance também era músico de jazz, tocava banjo, trompete, gaita e muitos outros instrumentos. Tanto a música quanto o mar foram temas constantes em suas histórias.
Vance era amigo pessoal de Frank Herbert e Poul Anderson, a ponto de terem juntos construído um barco, com o qual navegavam nos rios e lagos da região onde moravam. Um pouco por influência desses importantes autores de fc foi que Vance passou a também escrever e publicar no gênero. Sua primeira história foi "The world-thinker", publicada em 1945 na revista Thrilling Wonder Stories, mas ele também escreveu histórias de mistério e fantasia, inclusive três livros sob o famigerado pseudônimo coletivo Ellery Queen. Vance era membro da Swordsmen and Sorcerers' Guild, comunidade de escritores comandada por Lyn Carter, dedicada a promover o gênero Espada & Feitiçaria.
Seus maiores sucessos foram as séries de fantasia The dying Earth, e de ficção científica The demon princes. Foi premiado pelos romances The dragon masters (1963; Hugo) e The last castle (1967; Hugo e Nebula). Também ganhou um Edgar (o Nebula do mistério) por The man in the cage (1961), bem como dois World Fantasy, um em 1963, por Lyonesse: Madouc, e outro, em 1984, pelo conjunto da obra. Entrou para o Science Fiction Hall of Fame em 2001 e ainda ganhou mais um Hugo, em 2010, por sua autobiografia This is me, Jack Vance!
Muitos de seus livros foram publicados no Brasil, entre eles o premiado The dragon masters (O planeta dos dragões). Também foram traduzidos três dos cinco títulos da série The demon princesStar king (The star king), A máquina de matar (The killing machine) e O palácio do amor (The palace of love). Da série The dying Earth foi editado apenas um, A agonia da Terra (The dying Earth); e da série Alastor foi traduzido apenas o segundo volume, Marune: Alastor 933 (Marune: Alastor 933). E ainda, os romances independentes O planeta duplo (Maske: Tahery) e o divertidíssimo Ópera interplanetária (Space opera), bem como uns poucos contos em antologias. Outros títulos também podem ser encontrados em edições portuguesas.
Cego desde 1980, Vance não parou de escrever, sendo seus últimos trabalhos o romance de ficção cientifica Lurulu, publicado em 2004, e a já citada autobiografia, publicada em 2009.
Vance morreu de causas naturais em sua residência, em Oakland, no dia 26 de maio de 2013, aos 96 anos.

As miniaturas, Andréa Del Fuego

As miniaturas, Andréa Del Fuego. 128 pgs. Capa de Kiko Farcas e Thiago Lacaz. Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2013.

No centro de São Paulo, em frente a Praça da Sé, tem e não tem um edifício chamado Midoro Filho. Por falta de definição melhor, uso a do próprio livro: "...ninguém vê este obelisco espelhado, assim como Napoleão não é par ou ímpar porque essa propriedade não é aplicável, o Midoro Filho não é visível ou não visível, isso não é aplicável". Mas este é um detalhe secundário na narrativa insólita que a escritora paulista Andréa Del Fuego imprime às páginas de As miniaturas, novela de ficção fantástica – quase científica –publicada em 2013 pela Editora Companhia das Letras.
Dentro das inúmeras salas do Edifício Midoro Filho, um batalhão de burocratas indefiníveis, conhecidos como oneiros, prestam um serviço valioso à população da cidade. São eles que, armados com miniaturas plásticas e uma técnica exclusiva, sugerem às pessoas o que sonhar. Todos os dias, cada oneiro atende cerca de 30 sonhantes, sonâmbulos que adentram a sala, sentam na cadeira e são conduzidos em sua jornada onírica.
Há muitas regras no importante ofício dos oneiros. Uma delas é que eles não devem se envolver com os sonhantes. Mas, se já é difícil cumprir esse mister, fica impossível para um deles quando, por um erro na burocracia do edifício, percebe que entre seus sonhantes estão mãe e filho, o que desperta nele emoções irreprimíveis e nada aconselháveis para um oneiro honesto.
A mãe, motorista de táxi quarentona abandonada pelo marido, esforça-se para encaminhar na vida o único filho adolescente, arrumando para ele emprego de frentista no posto de gasolina de seu amante. Entre a luta na praça para ganhar a vida e as incertezas do jovem que ainda acredita na volta do pai, o oneiro vai se perdendo. Sua queda logo é detectada pelos administradores do Midoro Filho, desequilibrando a dinâmica de todo o edifício.
Andréa Del Fuego apresenta um quebra-cabeças intrigante porque não entrega todas as peças, visto que não explica o mecanismo desse improvável atendimento tão fundamental ao ser humano. Nem mesmo os próprios oneiros sabem quem ou o quê são. Eles nunca saem do edifício Midoro Filho, não comem nada além de leite instantâneo e tudo que conhecem chega através do semanário Algodão, publicação interna do edifício que informa tudo e apenas o que eles precisam saber.
A estrutura da novela é fragmentada, intercalando capítulos que focalizam ora a mãe, ora o filho, ora o oneiro mas, no geral, segue uma narrativa cronológica linear. Os capítulos são sempre narrados em primeira pessoa e percebe-se que houve uma sincera tentativa de individualizar a voz de cada personagem, embora isso não fique muito claro na simples leitura – o que realmente funciona é a titulação dos capítulos de acordo com seus respectivos narradores.
As miniaturas sugere bons textos com o qual o leitor pode dialogar. Pelos aspectos formais e a problemática urbana – focada numa relação familiar sob intervenção corporativa –, lembramos de Poeira, demônios e maldições, último romance assinado por Nelson de Oliveira, publicado em 2010 pela editora Língua Geral e agraciado com o prêmio Casa de las Americas; enquanto a imagem onipresente e incompreensível do edifício Midoro Filho e seus oneiros reporta à burocracia opressiva de Asilo nas torres, romance de ficção científica de Ruth Bueno publicado em 1979 pela Editora Ática.
Apesar de suas respeitáveis qualidades e origem – Andréa Del Fuego ganhou em 2010 o prêmio Saramago de literatura – As miniaturas não é um livro pedante nem difícil. Lê-se com prazer e em poucas horas, uma vez que se trata de um novela ágil e bastante interessante, sem os exageros que a fantasia brasileira recente tem insistido oferecer.
As miniaturas é herdeira da autêntica linha evolutiva da ficção fantástica brasileira, repleta de atrativos tanto para o leitor que busca uma história com muitos elementos de estranhamento, quanto aquele que deseja um voo sobre os mistérios da natureza humana.
Cesar Silva

Mary, Magno Costa

Mary, Magno Costa. 40 páginas. Balão Editorial, coleção Zug, São José do Rio Preto, 2013.

Todas as histórias em quadrinhos são mudas, porque, afinal não têm som. Mas entre elas, há um tipo muito especial de narrativa, que é aquele que não tem nenhuma palavra escrita, nada que simule a função do "som" que os quadrinhos nunca tiveram. Não são comuns e nem fáceis de achar. O melhor do quadrinho que se lê apenas pelas imagens é sua universalidade, não importa qual língua o leitor fale, a história será plenamente compreendida.
Alguns cartunistas usaram esse modelo narrativo com resultados belíssimos, como os clássicos Pinduca (Henry, no original), de Carl Anderson, e O Reizinho (The Little King) de Otto Soglow, ambos dos anos 1930. Eles demonstram muito bem o fundamento que o grande cartunista Will Einser (1917-2005) batizou como Arte Sequencial, a mais nobre característica dos quadrinhos.
No Brasil, o quadrinho mudo também não é comum, mas tem muitos admiradores, porque sua execução exige maestria e virtuosismo artístico. E é justamente isso que encontramos em Mary, de Magno Costa, um pequeno álbum de apenas 40 páginas publicado dentro da coleção Zug, da Balão Editorial.
A história mostra o drama de uma mulher vitimada pela Inquisição e as consequências funestas desse ato violento. Os desenhos, apenas um por página, são em preto e branco com belos tons de aguada, e têm uma expressividade perturbadora realçada pela esqualidez das personagens. A história não chega a aterrorizar, mas deixa no leitor o gosto amargo da cumplicidade pelo destino daquela gente confusa.
Magno Costa é um autor jovem, mas que já conta com um currículo respeitável. Premiado em 2011 com o HQMix de desenhista revelação, publicou anteriormente dois trabalhos muito bem avaliados pelos leitores: Oeste vermelho e Matinê, ambos em parceria com seu irmão gêmeo, Marcelo.
A Balão Editorial tem um conceito intrigante com a coleção Zug. Com formato semelhante ao de uma caixa de cd, no tamanho 13 x 13 cm, remete a uma situação do jogo de xadrez conhecida como zugzwang. Cada número da coleção é identificado com uma peça do tabuleiro. Todo mundo é feliz, de Mateus Acioli, é o peão branco. Como na quinta série, de DW Ribatski, é o peão preto (que pode – e deve – ser lido onlineaqui). Mary é o terceiro volume, o bispo branco.
O preço acessível, de apenas R$13,00, é amplamente compensado pela qualidade do trabalho, um exemplo raro e didático de até onde uma história em quadrinhos pode ir nas mãos de um artista talentoso.
Cesar Silva

Chico Bento: Pavor espaciar

Chico Bento: Pavor espaciar, Gustavo Duarte. 80 páginas. Editora Panini, coleção Graphic MSP, São Paulo, 2013.

Depois de Astronauta: Magnetar e Turma da Mônica: Laços, é a vez de Chico Bento estrelar uma aventura especiar, quero dizer, especial, no álbum Pavor espaciar, terceira edição da coleção Graphic MSP. E, mais uma vez, trata-se de uma história de ficção científica, algo que, a princípio, parece não combinar muito com o simpático caipirinha de fala engraçada, mas o resultado é muito interessante.
O roteiro e os desenhos ficaram a cargo do premiado quadrinhista Gustavo Duarte, autor das edições independentes Có!TáxiBirds, e do álbum Monstros, publicado em 2012 pela Quadrinhos na Cia.
Pavor espaciar conta o que acontece numa certa noite quando, na ausência dos seus pais, Chico Bento, Zé Lelé, a galinha Giselda e o leitãozinho Torresmo, são abduzidos por um disco voador repleto de alienígenas tão feios quanto cheios de más intenções. Submetidos a experiências na mãos do sinistros ets, a turminha da roça vai depender da iniciativa atabalhoada de Chico Bento e da inteligência de Torresmo – cuja consciência foi trocada com Zé Lelé – para escapar dessa situação bizarra.
Enquanto foge pelos corredores aparentemente sem fim da grande espaçonave, Chico Bento e Zé Lelé, no corpo de Torresmo, passam por coisas insuspeitas, como aviões e navios desaparecidos no Triângulo das Bermudas, a roupa espacial do Astronauta, o esqueleto do Horácio e até um desacordado elefante verde, que vocês devem imaginar quem é, entre outras surpresinhas que vão divertir o leitor.
Diferentemente da versão realista que Danilo Beyruth deu ao Astronauta em Magnetar, Duarte manteve todas as características originais de Chico Bento, só explorando mesmo a concepção gráfica, com um estilo bem diverso do que estamos acostumados, repleto de movimento e amplas cenas panorâmicas. O colorido também é diferenciado, claro e suave, em poucos matizes.
A edição ainda traz extras, com amostras das etapas da produção e da técnica de Duarte, bem como um breve histórico do Chico Bento, com direito à reprodução de um sunday publicado em 1963 no suplemento juvenil do Diário de S. Paulo.
Gustavo Duarte e Maurício de Sousa prestam, assim, uma bela homenagem às histórias de ficção científica ufológica, como Contatos imediatos do terceiro grauSinaisGuerra dos mundos e outras, um gênero também muito praticado entre os autores brasileiros.
Chico Bento: Pavor Espaciar é uma publicação da Panini Comics, tem 80 páginas em cores e pode ser encontrado com capas duras ou em cartão plastificado.
Cesar Silva

Laços de sangue, Richelle Mead


Bloodlines: Laços de sangue (Bloodlines), Richelle Mead. 432 páginas. Tradução de Ana Ban. Editora Companhia das Letras, selo Seguinte. São Paulo, 2013.

Não há dúvida que a grande contribuição de Gengis Khan para a cultura ocidental moderna foi a inspiração para o mito do vampiro. O medo das barbaridades creditadas ao conquistador de "além das florestas" circulava à boca pequena nos saraus e espalhou-se pela sociedade, logo assumindo um caráter mitológico ainda mais assustador, como é comum entre o povo inculto. Se até animais comuns da natureza viram feras antropófagas no imaginário popular, nem é preciso imaginar o que Khan virou: ele foi o protótipo do vampiro, mais tarde trabalhado por artistas que lhe deram feições mais europeias e requintadas, aproveitando outros personagens. O vampiro ficou cheio de charme, embora ainda aterrador.
Contudo, autores modernos esforçaram-se em tirar do mito os seus contornos mais tenebrosos, no que foram muito bem sucedidos diga se de passagem. A atual imagem de memória dos vampiros foi devidamente processada e homogenizada, e não oferece risco maior para os seres viventes do que aqueles que já corremos nas mãos de nossos iguais.
A escritora norte americana Richelle Mead é uma dessas autoras "amantes dos vampiros", como ela mesma nomeia a protagonista no primeiro romance da série BloodlinesLaços de sangue, lançamento recente da editora Companhia das Letras através do selo Seguinte, com tradução de Ana Ban. O romance é sequência direta da série bestseller Academia de vampiros, também publicada no Brasil.
A mitologia vampírica de Richelle Mead baseia-se nas ações de uma sociedade secreta chamada de Alquimistas, cuja função é manter o segredo da existência dos vampiros na sociedade. Tal como 'homens de preto', os Alquimistas limpam a sujeira dos vampiros, divulgando versões plausíveis para explicar o rastro de mortes que eles geralmente deixam.
Os vampiros, por sua vez, são divididos em duas linhagens. Os Morois são suficientemente civilizados para viver em meio a sociedade humana e, apesar de terem alguns poderes sobrenaturais e não sofrerem das tradicionais limitações dos vampiros clássicos – podem sair ao Sol, tomar banho, aparecem nos espelhos e nas fotografias, envelhecem normalmente e podem até se reproduzir sexualmente –, são apresentados como criaturas irresponsáveis e frágeis, que precisam da tutela tantos dos alquimistas quanto dos dampiros, lutadores descendentes do cruzamento entre Morois e humanos, conhecidos como Guardiões.
Por terem um importante valor político, os Morois também precisam ser protegidos dos seus 'primos', os Strigois, raça degenerada, sádica e violenta, que se alimenta tantos de humanos quanto de Morois. Os Strigoi são mais parecidos com o mito tradicional, ferozes, perigosos e imortais.
Sydney Sage é uma jovem alquimista recém saída da adolescência, que é requisitada por seus superiores para fazer a proteção da linda, magra e pálida Jill Mastrano, princesa Moroi que precisa ser mantida a salvo de uma conspiração política que pretende assassiná-la. Para isso, ambas são enviadas incógnitas para um colégio interno em Palm Springs, região ensolarada que deve manter os Strigois relativamente à distância. Junto a elas vai o guardião Eddie Castile, dampiro destemido, hábil e totalmente dedicado à Jill.
Contudo, Palm Springs é a área de vigilância do Alquimista canastrão Keith Darnell, com quem Sidney tem uma relação pouco afetuosa. E a princesa terá que ser levada pelo menos uma vez por semana para se alimentar de sangue humano na residência de uma família Moroi na cidade, onde moram o velho meio gagá Clarence Donahue, seu filho Lee – que tem uma certa queda por Jill – e o misterioso e fútil Adrian Ivashkov.
Enquanto Sidney tenta cumprir o papel de babá de Jill, uma série de eventos suspeitos começam a se revelar, como a moda de tatuagens que dá estranhos poderes aos estudantes do grande colégio, assassinatos sucessivos de garotas Morois e o bulling que Jill começa a sofrer por conta de sua aparência invulgar, entre outros problemas da vida acadêmica.
Richelle Mead monta, assim, o cenário para uma história de aventura tipicamente adolescente, com um pouco de ação, um pouco de romance, um pouco de mistério e absolutamente nada do horror que aparentemente sugere. Os vampiros de Mead são belos, glamourosos, relaxados e positivos, mais até que os próprios humanos com quem Sidney parece ter muita dificuldade de se relacionar. A temida ameaça Strigoi praticamente não se apresenta em Laços de sangue, com apenas uma breve participação no trecho final.
O estilo narrativo é suave e naturalista, sendo a maior parte mostrada em forma de diálogo. Mesmo com pouquíssimas cenas de ação, a história se desenvolve com agilidade e suas 430 páginas podem ser lidas em poucas horas. A apresentação do livro é confortável e elegante, com relevos na capa, corpo do texto amplo no miolo em papel pólen soft, que deixa o volume bem leve, apesar da considerável quantidade de páginas.
Em suma, Laços de Sangue é uma história de vampiros perfeitamente recomendável para leitores jovens e, principalmente, para aqueles não gostam de terror: pesadelos não fazem parte do pacote.
Cesar Silva

Doris Lessing (1919-2013)

A ficção científica não convive mais com uma de suas autoras mais ilustres. No dia 17 de novembro de 2013 morreu Doris Lessing, escritora e poetisa britânica cuja obra foi reconhecida com o Prêmio Nobel em 2007.
Tive um caso de amor profundo com Doris Lessing no início dos anos 1990. Comecei com Shikasta, primeiro de cinco volumes da série de ficção científica Canopus in Argos: Archives, que conta, através de uma mosaico de pequenas narrativas nem sempre fáceis de interpretar, a tragédia humana sob o olhar de um grupo de observadores alienígenas que, ao longo da história, aqui realizam experimentos nem sempre benfazejos. Através desse olhar "externo", a autora desnuda detalhes perturbadores da natureza humana e sua doentia relação com a natureza e com seus semelhantes, de uma forma que somente ela poderia realmente fazer.
Doris Lessing, batizada Doris May Tayler, nasceu em 29 de outubro de 1919 em Kermanshah, no Curdistão iraniano, que então era parte da Pérsia. Sua naturalidade britânica foi herança dos pais, Alfred e Emily Tayler, nascidos na Inglaterra. Quando Doris estava com seis anos, a família mudou-se para a Rodésia do Sul, atual Zimbábue, indo morar na fazenda de milho e tabaco adquirida por seu pai. Ela frequentou uma escola de freiras que abandonou aos 13 anos, completando os estudos como autoditada. Interessada em literatura, começou a escrever aos 15 anos, mas as coisas não foram muito bem na fazenda e a vida difícil levou a jovem até a se prostituir para sustentar a mãe.
Entre 1939 e 1943, Doris foi casada com Frank Charles Wisdom, a quem deu um casal de filhos, criados pelo pai. Foi mais uma vez casada, entre 1945 e 1949, com Gottfried Lessing, alemão comunista que, mais tarde, viria a ser embaixador da RDA em Uganda. Doris teve mais um filho, Peter, que levou consigo para a Londres, onde iniciaria sua carreira como escritora. Seu primeiro livro foi The grass is singing, publicado em 1949.
Suas públicas opiniões políticas contra o apartheid e a favor do feminismo e do desarmamento nuclear a tornariam uma personalidade conhecida, a ponto de ser banida da África do Sul e da Rodésia. Doris recusou o título de Dama, mas aceitou diversos outros méritos do Governo britânico, e em 2007, aos 87 anos, tornou-se a pessoa mais idosa a receber um Prêmio Nobel de Literatura.
Apesar de ser autora de muitos romances importantes, tais como The golden notebook (1962), Briefing for a descent into hell (1971) e The good terrorist (1985), que tratam de temas espinhosos como política, psicologia e feminismo – termo que ela rejeitava veementemente –, aqueles que Lessing dizia mais apreciar eram justamente os seus textos de ficção científica, gênero que ela classificou como a "melhor ficção social dos nossos tempos". São eles: Shikasta (1979), The marriages between Zones Three, Four and Five (1980), The sirian experiments (1980), The making of the representative for Planet 8 (1982), The sentimental agents in the Volyen Empire (1983), nos quais a autora desenvolve uma cosmologia inspirada no sufismo para mergulhar na natureza humana e sua relação com o universo. Além destes livros, Lessing tem pelo menos mais um romance que flerta com o gênero, Memoirs of a survivor (1974), no qual uma senhora observa o progressivo esvaziamento de sua cidade a partir da janela do apartamento, trabalho que se instala nas franjas da escatologia, ao lado de "The Ones Who Walk Away from Omelas", de Ursula K. Le Guin, Earth abides, de George R. Stewart, e The road, de Cormac McCarty.
Nem seria preciso dizer que a crítica mainstream detesta a ficção científica de Doris Lessing, pois deixou isso bem claro em diversas resenhas. Contudo, neste aspecto, ela não está sozinha. Com raríssimas exceções, a crítica especializada no gênero também não elogia o trabalho da autora, que considera desconexo e demasiadamente depressivo, características evitadas pelas revistas pulp que estabeleceram os protocolos de um gênero geralmente mais interessado em entreter consumidores.
Doris viria a lamentar o Nobel que recebeu, por ele ter causado uma tal demanda por entrevistas e aparições públicas que literalmente a impediram de continuar escrevendo.
Seu último livro, Alfred and Emily, foi publicado em 2008.

A procura de Chã dos Esquecidos, Carmelo Ribeiro

A procura de Chã dos Esquecidos, Carmelo Ribeiro. 176 páginas. Capa de Camila Gonçalves. Editora Schoba, Salto, 2013.

Há um lugar, em meio a floresta brasileira do inexplorado Planalto Central, em que os homens bons e tementes a Deus podem viver em paz e segurança, sem dor ou doenças, e em abundância de alimentos da melhor qualidade. Esse paraíso terrestre, não o Édem mas muito parecido, é o Chã dos Esquecidos. Para lá, o beato Boaventura pretendia conduzir uma peregrinação, que anunciou ao povo mais pobre da Capitania da Paraíba do Norte, que se encontrava assolada pela seca, pela fome e pela violência nos idos de 1791. Os sermões bem feitos mais convenceram que converteram a plebe inculta que ansiava por uma alternativa à vida miserável que levava. Mas a pregação também despertou a ira do governador do lugar, o fidalgo português Jerônimo José de Melo e Castro, que logo solicitou ao governador geral da Capitania de Pernambuco, José Cesar de Menezes, a qual era subordinado, providências para controlar a população à beira de uma convulsão, bem como prender o beato Boaventura, para que parasse de fomentar ideias perigosas e subversivas entre ela. Mas, devido às rusgas pessoais entre os dois políticos, as providências não são tomadas e, depois que a violência explode nas ruas, tem início a peregrinação floresta adentro.
Esta é a história que nos conta o escritor Carmelo Ribeiro em seu romance A procura de Chã dos Esquecidos, publicado em 2013 pela Editora Schoba, cuja publicação anunciei aqui há alguns meses.
O autor dispõe de bons recursos técnicos para convencer o leitor da plausibilidade de sua história, com um estilo rebuscado que remete ao período histórico focalizado e uma estrutura formal criativa dividida em três partes distintas, cada qual com um estilo diferente. Na primeira parte, chamada "Os bem aventurados", a história é contada através da correspondência oficial entre os dois governadores, em que se percebe a profunda animosidade que existe entre eles. A segunda parte, chamada "Os sermões", é formada pelos sete últimos discursos exortativos de Boaventura, que antecederam a violência final e a partida dos peregrinos. A terceira parte, chamada "O caminho", é um diário de viagem escrito por um dos principais seguidores do beato, o comerciante Afonso de Vila Nova Portugal, conhecido como Afonso-sem-razão.
A narrativa não chega a ser fantástica, uma vez que não há um elemento sobrenatural efetivo em ação, mas o clima geral, composto pela tensão entre a fé e a desesperança, faz a história caminhar numa zona mítica crepuscular, tal como em João Guimarães Rosa, que leva a aceitar sua classificação pelo menos no ambiente do realismo mágico, uma vez que não se trata de uma história real.
Este é o terceiro livro de Carmelo Ribeiro que, em 2011, publicou a coletânea poética A fúria e a mágoa (Ed. Livronovo) e o romance Paxolino dos adoradores de Cristo nas terras da cafraria, também pela Editora Schoba. Antes disso, Ribeiro, que é professor de História e Geografia, publicou contos nas antologias Moedas para um barqueiro (2010, Andross), Bandeira negra (2010, Multifoco) e Espectra (2011, Literata).
A procura de Chã dos Esquecidos tem 176 páginas e a produção gráfica, incluindo da capa, é creditada a Camila Gonçalves.
Cesar Silva

A Flauta Condor, Simone Saueressig

Os sóis da América: A Flauta Condor, Simone Saueressig. 152 páginas. Ilustrações e capa de Fabiana Girotto Boff. Edição da autora, Novo Hamburgo, 2013.

Segundo volume da série Os sóis da AméricaA Flauta Condor dá continuidade às aventuras do menino Pelume em peregrinação pelas terras de uma América mítica em busca da história para chamar o Sol, que pode salvar seu povo do que ele acredita ser a extinção certa.
No primeiro volume, O Nalladigua (também publicado em 2013), Pelume abandona sua terra natal, uma ilha no oceano antártico e, literalmente, voando nas asas do vento – que na sua tradição do povo Do Fogo é um pássaro chamado Furufuhué –, chega às terras meridionais do continente, onde conhece a menina Misqui que o acompanha em sua caminhada para o norte. Depois de enfrentar muitos perigos e tristezas, mas também vitórias, os jovens chegam às cataratas do rio Iguaçu e, de lá, embarcam novamente nas costas de Furufuhué em direção à coluna vertebral da América, a Espinha Branca.
A Flauta Condor inicia com Pelume, Misqui e Nimbó, garoto guarani que se uniu aos peregrinos, voando sobre o coração do continente a bordo de uma canoa equilibrada nas costas do Urubu-Rei, uma das muitas formas que Furufuhué assume entre os povos americanos. Mas, sendo vento, Furufuhué é sensível aos processos climáticos e, quando ele se transforma numa violenta tempestade, tem que deixar os garotos no chão para mantê-los a salvo, e a viagem é interrompida antes que a gigantesca cordilheira seja alcançada: os jovens terão de concluir a jornada a pé.
Caminhando por uma terra árida, exaustos e famintos, os jovens encontram um casebre calcinado pelo sol inclemente da região. Ali encontrar mais dois adolescentes, Taki e Sisa, filhos de nobres incas que até ali foram levados por um servo depois que sua casa foi atacada por revoltosos que mataram seus pais.
Auxiliados pelos espíritos da natureza Pombero e Coquena, os cinco jovens seguem viagem em busca das raízes da cordilheira. Ao atravessarem uma floresta encantada, o galho da Nalladigua – que Pelume carrega desde o início de sua jornada e na qual amarra suas lembranças – começa a revelar seus poderes, que ainda não são entendidos pelo garoto.
Quando, enfim, chegam à cidade inca de Potosi, encontram Uturunku, um antigo amigo da família real, que diz também estar sendo perseguido pelos revoltosos. Ele e seu filho Sonkoy passam a proteger os jovens herdeiros, que precisam escapar dos rebeldes e chegar à Cuzco, onde poderão ser protegidos pelas forças leias do império. Com os soldados em seus calcanhares, Uturunku guia os jovens pelo labirinto de túneis escuros das minas de prata de Potosi. Um dos perseguidores os alcança e, na mortal luta que se segue, Pelume consegue tirar dele um pequeno instrumento, a Flauta Condor, que tem o poder de transportar as pessoas instantaneamente para outros locais. Uma das notas pode levar à Cuzco, mas até que encontrem a nota certa, perigos ainda maiores esperam por Pelume, Misqui, Nimbó, Taki, Sisa, Uturunku e Sonkoy, incluindo a traição de quem menos se espera e o destino trágico para de um dos caminheiros.
Geralmente, as histórias de continuação costumam perder um pouco do fôlego nos volumes intermediários, uma vez que se tratam de "histórias de miolo", que ligam o início, em que os personagens e as situações se apresentam, e a conclusão, no volume final. Mas a experiente escritora Simone Saueressig, autora de livros como A máquina fantabulástica (Scipone) e A estrela de Iemanjá (Cortez), não permitiu que isso acontecesse em A Flauta Condor. A história é movimentada e ainda mais dramática que a do volume inicial, com muitos personagens novos interessantes que serão muito bem-vindos se retornarem à aventura mais adiante. Outras lendas sobre a origem do Sol são relatadas pela autora que vai, assim, construindo um atlas mitológico da América, com histórias colhidas em diversas culturas nativas.
Na resenha ao primeiro volume, citei o fato que numa América pré-colombiana não poderia existir a imagem do cavalo, usada para representar anhangá, uma vez que o animal só veio a ser conhecido por aqui com a chegada das caravelas europeias. Mas a autora contestou essa opinião dizendo que a América de sua história não é a nossa, mas uma outra, de um universo alternativo em que os animais mitológicos realmente existem e a história humana se passou de forma diferente. Portanto, também podem aparecer animais de outras partes do mundo. E, novamente em A Flauta Condor, a autora usa esse recurso ao descrever o guardião do Eldorado, uma enorme espécie de dinossauro que sobrevive nas regiões perdidas da floresta amazônica e é chamado pelos personagens de lagarto-tigre. Como a licença poética de tomar um dinossauro – que não existe em parte alguma – talvez seja ainda mais ousada do que citar um tigre – animal nativo da Ásia que não existe naturalmente na América real – cito aqui o fato só para antecipar ao leitor que na América de Simone Saueressig tudo pode acontecer, inclusive a presença das plantas antropófagas que estrelam o momento mais dramático do volume.
A ilustradora Fabiana Girotto Boff, que fez a capa e ilustrações internas do primeiro volume, retorna em A Flauta Condor, com desenhos mais detalhados e adequados à narrativa. A produção gráfica e editorial é da própria autora, num volume de 152 páginas com capa em cartão plastificado, com orelhas. Um marcador de páginas personalizado acompanha cada exemplar, com um útil glossário de termos incomuns citados na história, o que facilita bastante a busca uma vez que o marcador está sempre à mão. Na página final do volume está anunciado o título de Os sóis da América, Volume 3: O coração de jade, que deve ser lançado em 2014.
Mais informações sobre a saga de Pelume podem ser encontradas no blogue da série, aqui.
Cesar Silva

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O livro das lendas, Shoham Smith


O livro das lendas, Shoham Smith. 128 páginas. Ilustrações de Vali Mintzi. Editora Companhia das Letras, selo Companhia das Letrinhas. São Paulo, 2013.

Há um grande interesse da pedagogia moderna pela pesquisa de lendas vindas de todas as culturas. Não é incomum que me cheguem às mãos livrinhos, publicados pelas mais variadas editoras para serem distribuídos nas escolas públicas, com histórias da tradição chinesa, japonesa, indiana, árabe, africana etc. Mas ainda não tinha encontrado nenhum sobre as lendas judaicas. Talvez porque pareça, aos olhos ocidentais, que todas as histórias judaicas já estão narradas na Bíblia Sagrada. Mas é claro que não é assim. Ainda que a Bíblia contenha, de fato, grande parte da tradição oral judaica e tenha sido, por muito tempo, o livro maior da sua estante, há muito mais que a ela não registra. É não estou falando dos evangelhos apócrifos que fazem tanto sucesso por aí, uma vez que os evangelhos não fazem parte da tradição judaica em questão, que se limita, de fato, aos livros do Antigo Testamento, mas sim das histórias de sabedoria popular.
Shoham Smit é uma escritora de Jerusalém, especialista no campo e conta, na apresentação de O livro das lendas – publicado há poucos meses pela Companhia das Letrinhas com tradução de Paulo Geiger –, que também sentia falta de um compêndio que apresentasse às novas gerações as lendas e costumes judaicos numa linguagem acessível, sem perder a beleza literária dos textos tradicionais.
Inspirada pelo trabalho feito no início do século vinte pelos pesquisadores Bialik e Ravnitzki, da Ucrânia, que então publicaram um compêndio de lendas hebraicas para os jovens, conhecido como Sefer haagadá, ou O livro da lenda, ela decidiu seguir o mesmo caminho. Selecionou histórias diretamente do Talmude e as recontou, auxiliada pelos belos e coloridos desenhos da ilustradora romena Vali Mintzi. O resultado é um atlas cultural com um panorama belíssimo da tradição judaica a través de suas lendas e fábulas milenares.
O livro, que tem 128 paginas, está dividido em três partes principais. Em "Histórias da Bíblia", são contadas lendas de personagens e fatos bíblicos, tais como a Criação, Caim e Abel, Noé e a arca, o dilúvio, a torre de Babel, Abraão, Moisés e Salomão. Não são as histórias que estão na Biblia, mas lendas que falam sobre os interstícios delas como, por exemplo, o que comiam os animais na arca de Noé, como surgiram vários provérbios famosos, por que Moisés era gago, o confronto de sabedoria entre Salomão e a Rainha de Sabá, e muitas outras, algumas delas realmente emocionantes.
Em "Lendas de sábios", a autora vai buscar as histórias de personagens do período do segundo templo, como Choni, Hilel, Chanina ben Dosa, Iehoshua ben Chanina e Ravi Akiva. São narrativas divertidas e curiosas, algumas nitidamente fantasiosas mas, ainda assim, ricas de significados.
A parte final, "Fábulas", conta histórias de sabedoria com homens e animais, algumas delas antecessoras de fábulas europeias mais famosas. Tudo é ainda comentado em notas laterais tão interessantes quanto os textos a qual se referem.
A edição original de O livro das lendas é de 2011, que garante o frescor estilístico de um texto leve e confortável para leitores de todas as idades. Altamente recomendado.
Cesar Silva

Marien Calixte (1935-2013)

As comemorações natalinas ficarão para sempre marcadas com um fato triste para os fãs da ficção científica brasileira. No último dia 25 de dezembro, aos 78 anos, deixou-nos o escritor e jornalista Marien Calixte, conhecido como o inovador da imprensa capixaba.
Filho de uma professora primária e de um jardineiro francês, Calixte nasceu no dia 20 de outubro de 1935, no bairro do Méier, no Rio de Janeiro. Aos dez anos de idade, mudou-se para o estado do Espírito Santo, onde passou toda a vida.
Autodidata, iniciou-se profissionalmente nos anos 1950, como radialista na Rádio Espírito Santo, apresentando o programa Cinelândia Capixaba, sobre cinema e trilhas sonoras, mas seu programa mais conhecido foi O Som do Jazz, que comandou por mais de cinquenta anos.
Em 1955, um contrato no periódico A Tribuna inaugurou sua carreira no jornalismo. Atuou também nos jornais O Diário A Gazeta, onde chegou a ser diretor de Redação, e foi correspondente do Jornal do Brasil e das revistas SenhorO Cruzeiro e Visão. Também desenvolveu trabalhos como publicitário e tinha interesse especial pelas artes, que praticou intensamente. Foi poeta, diretor de teatro, músico, pintor e escritor. Publicou dezenas de livros, entre biografias, poemas e prosa. Nos anos 1970, ao lados dos escritores Milson Henriques e Celso Mathias, criou uma coleção de livros infantis para a editora Sem Fronteiras. No final dos anos 1960, ocupou a cadeira de Secretário de Turismo de Vitória, durante a gestão de Setembrino Pelissari.
Interessado por ficção científica, venceu um concurso literário com o conto "O visitante", depois publicado a revista Ficção e na sua primeira coletânea Alguma coisa no céu – originalmente publicada em 1985 pela editora Riomarket. A respeito dela, disse o escritor Renato José Costa Pacheco no prefácio à sua primeira edição: "vejo que seus textos têm duas notas comuns: a presença dos chamados OVNI e, pela primeira vez em nossa literatura, a paisagem capixaba – nossas praias, o interior, Meaípe, Manguinhos, Rio Novo do Sul e Cachoiero do Itapemirim. Todos de uma leitura agradável de enredo simples, prontos a conquistar a afeição da maioria dos leitores, que buscam num livro suas horas de prazer, mais que um profundo diálogo filosófico-telúrico." Dez anos depois, a coletânea recebeu uma segunda edição pela editora GRD. Apesar de ser o único livro de Calixte inequivocamente ligado a ficção científica, o autor escreveu pelo menos mais um livro de textos fantásticos: Contos desiguais, publicado em 2003.
Teve alguns de seus contos traduzidos para o alemão e o italiano, e recebeu a atenção também no seu país, aparecendo nas antologias Estranhos contatos (1998) e Melhores contos brasileiros de ficção científica (2010).
Vítima do Mal de Parkinson, Calixte faleceu devido a um súbito agravamento da doença. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Jardim da Paz, no município de Serra, no Espírito Santo.
Mais sobre a vida e a obra do autor no blogue Memória Marien Calixte.

Piteco: Ingá, Shiko.

Piteco: Ingá, Shiko. 82 páginas. Editora Panini, coleção Graphic MSP, São Paulo, 2013.

Desde que surgiram as primeiras divulgações dos títulos que comporiam a coleção Graphic MSP, formada por adaptações mais ou menos livres dos personagens de Maurício de Sousa por outros artistas do traço, o que mais me entusiasmou foi o do Piteco. Isso porque o personagem sempre foi um dos que mais me cativaram dentro de sua produção, além de ser um dos menos explorados. Também porque Piteco remete ao Brucutu (Alley Oop), personagem clássico de V. T. Hamlin que sempre teve histórias incríveis, sinal do potencial de Piteco caso ousasse também se aproximar da ficção científica.
Outro detalhe que me animou foi saber que o artista convidado para realizar o trabalho era o incrível Shiko, quadrinhista paraibano atualmente domiciliado na Itália, revelado nos fanzines no início do século, cujos trabalhos tive a honra de publicar em algumas das últimas edições do Hiperespaço.
E, de fato, não me decepcionei. Piteco: Ingá, quarto volume da coleção, é o melhor até o momento. As ideias ousadas e os desenhos sensuais e soberbamente coloridos de Shiko caíram muito bem nesta versão realista, que parece receber influências de importantes obras da ficção científica antropológica como A guerra do fogo, de J.-H. Rosny, e O clã da caverna do urso, de Jean Auel.
A história conta como a tribo de Lem, onde vivem Piteco e seus amigos, tem que superar as diferenças com seus inimigos para conseguir sobreviver a uma seca que devasta o seu território. Mas, antes disso, o herói terá de empreender uma longa jornada em busca de Thuga, a sacerdotisa da aldeia, que foi raptada pelos temíveis homens-tigre. Acompanhado de Beleléu e Ogra, Piteco confronta diversas entidades mitológicas brasileiras, como o boitatá e o curupira, além de animais extintos como as aves do terror e o anhanguera, entre outros, em concepções tão elegantes quanto assustadoras.
Impressionam as belas versões de Shiko para Thuga e Ogra, carregadas de uma sensualidade primitiva, tal como as valentes guerreiras das histórias de espada e feitiçaria de Robert E. Howard. A aventura também faz referência à Pedra do Ingá, importante petróglifo localizado na Paraíba, no qual estão gravadas inscrições rupestres com milhares de anos.
Como Shiko não se incomodou em ser rigoroso nas referências científicas, não podemos dizer que Piteco: Ingá seja ficção científica. De fato, a obra se enquadra mais como fantasia, num universo em que animais extintos de diversas eras, seres mágicos, animais de outras regiões e homens de culturas e traços afro-mediterrâneos habitam a América do Sul de pelo menos cinco mil anos atrás. Mesmo assim, contribui de maneira importante para com a discussão de uma fantasia tipicamente brasileira, revelando pontos de convergência com trabalhos literários recentes de Simone Saueressig (Os sóis da América), Roberto de Sousa Causo (A sombra dos homens) e Christopher Kastensmidt (A bandeira do elefante e da arara).
A edição tem 84 páginas em cores, incluindo as capas, e ainda traz um caderno com desenhos de pré-produção comentados, além de um histórico do personagem original, criado em 1963. Altamente recomendada.
Cesar Silva

José Ortiz (1932-2013)

A cada ano que passa, a arte das histórias em quadrinhos fica mais empobrecida de seus grandes expoentes. 2013 foi especialmente triste para os amantes da Nona Arte, que perdeu Moebius, Joe Kubert, Sérgio Topi e, no finalzinho do ano, o espanhol José Ortiz, um dos principais nomes ligados à arte dos quadrinhos dos gêneros fantásticos.
Dono de um traço personalíssmo e expressivo, Ortiz ficou conhecido no Brasil nos anos 1970, quando por aqui foi publicada a revista Kripta, com histórias de horror traduzidas da editora americana Warren. Algumas das histórias mais lembradas pelos leitores foram ilustradas por ele, como, por exemplo, a quadrilogia do Apocalipse ("Fome", "Peste", "Guerra" e "Morte"), e as séries "Jackass" e "Coffin".
José Ortiz Moya nasceu em 1 de setembro de 1932, em Cartagena, e começou a publicar muito jovem, depois de vencer, aos 16 anos, um concurso de arte da revista Chicos. Nos anos 1950, já publicava tanto em seu país como em jornais ingleses, principalmente histórias de guerra.
Em 1974, iniciou a carreira na já citada Warrren – a primeira editora americana a se aproveitar do abrandamento do famigerado código de ética – produzindo histórias de horror de alto impacto artístico, principalmente para as revistas CreepyEerie e Vampirella.
Com o encerramento da Warren, Ortiz voltou para a Europa e iniciou, em 1981, uma produtiva parceria com o roteirista espanhol Antonio Segura, com quem realizou seus maiores sucesso autorais, como as séries de ficção científica "Hombre" e "Burton & Cyb", entre outras. Para a revista britânica 2000 AD, produziu histórias para as séries "Rogue Trooper" e "Juiz Dredd".
Em 1982, unido a outros artistas dos quadrinhos, ajudou a fundar a editora Metropol, pela qual publicou as revistas MetropolMocambo e K.O. Comics.
Nos últimos anos, Ortiz foi colaborador frequente da editora italiana Sergio Bonelli, onde demonstrou todo o seu virtuosismo plástico fazendo histórias para a série de faroeste Tex, em várias edições especiais e um dos primeiros volumes da prestigiada coleção Tex Gigante. Também ilustrou histórias de Ken Parker e Mágico Vento, da mesma editora.
Apesar de seu trabalho exuberante, Ortiz nunca foi reconhecido pelos maiores prêmios da indústria dos quadrinhos, tendo recebido apenas o Grande Prêmio do Salão de Quadrinhos de Barcelona, em 2012.
Vitimado por um problema cardíaco, Ortiz faleceu aos 81 anos, em Valência, no dia 23 de dezembro de 2013.

Máquina Macunaíma, Luiz Bras

Máquina Macunaíma, Luiz Bras. 224 páginas. Capa de Teo Adorno & Tereza Yamashima. Editora Ragnarok, São Paulo, 2013.

Desde que Luiz Bras surgiu no panorama da ficção brasileira, a partir das antologias Portal (seis volumes publicados entre 2008 a 2010) experimentamos um período especial nessa arte literária. Herdeiro estilístico do premiado autor mainstream Nelson de Oliveira, Bras trouxe para a ficção de gênero não apenas uma respeitabilidade incontestável, mas um novo paradigma autoral que, antes dele, poucos praticavam. Surgido, ele também, no mainstream, Bras agregou à ficção científica, gênero que elegeu para ser plataforma de sua obra, um discurso artisticamente avançado em ousadia técnica e temática que foi além daqueles que antes o praticaram, como André Carneiro e Braulio Tavares, por exemplo.
Isso já podia ser percebido na sua primeira coletânea, Paraíso líquido, publicada em 2010 pela Terracota e premiada com o financiamento do Proac. Desde então, Brás tem se destacado como um dos principais proponentes estilísticos da ficção científica brasileira, explorando em sua produção os limites da arte que, praticada no Brasil principalmente por fãs, demonstra grande dificuldade em romper devido a décadas de influência da literatura pulpesca anglo-americana.
Em sua mais nova coletânea, Máquina Macunaíma, publicada em 2013 pela editora Ragnarok, Bras reuniu trabalhos inéditos e contos já vistos em publicações anteriores, apresentando um viés inovador em sua proposta. Ainda que os contos mantenham a ficção científica como base, estão mesclados, em proporções variáveis, com a fantasia e, principalmente, com o horror, num flerte que sinaliza que o autor não é resistente a novas influências. Justamente por este aspecto, vale a pena comentar individualmente os doze textos que compõe esta coletânea.
"Virtuais", o conto que abre a seleção, é provavelmente a narrativa mais convencional do conjunto, reportando ao modelo de histórias que acostumamos ver no seriado de tv Além da Imaginação (Twilight Zone). Mostra a situação bizarra de um jovem viciado em redes sociais quando, na área de alimentação de um shopping, recebe uma mensagem de socorro de uma garota que diz estar literalmente sozinha no mundo. Contudo, ela também afirma estar no mesmo ambiente que ele. Uma história que discute o quanto as coisas estão mudando para todos nós.
"Heidegard não voltará jamais" desmonta o confortável modelo do texto anterior. Completamente diferente em ritmo, estilo e dotado de um fino senso de humor, conta a história de um casal de gêmeos, ambos delegados de polícia em uma realidade pós-humana, com vilões de nomes inspirados em figurões da história. Eles vão confrontar revelações terríveis ao investigar um crime que exige visitas pessoais ao céu e ao inferno.
"Onde vivem os monstros" retorna a um modelo narrativo mais simples, mas avança para o ambiente da fantasia e do horror na história de uma jovem escultora que foge de casa à noite e decide morar escondida no museu de arte da mítica cidade de Cobra Norato. Hábil no léxico de vegetais e minerais, a garota 'ouve' as esculturas e isso vai levá-la a uma realidade que trará consequências radicais em sua vida.
"Impostor" é uma space opera de nítido contorno político-revolucionário. Um investigador da polícia da Terra, acompanhado de seu pai - o narrador da história, com quem tem uma relação ambígua - chegam a um luxuoso iate espacial para recuperar um artefato roubado que pode estar sendo contrabandeado à bordo. A administração da espaçonave deixa bem claro que não está disposta a colaborar com a investigação, e ambos são mantidos à distância dos passageiros, a maior parte deles magnatas em cruzeiro de férias. Enquanto enfrentam dificuldades nas investigações, surge no quarto que lhes foi designado, na área de serviços, um pequeno objeto circular que flutua e gira, um anel aparentemente inofensivo mas que vai provar ser uma ameaça cósmica que pode causar não apenas a destruição da espaçonave, mas de todo o universo.
"Mecanismos precários" pode ser descrito como um poema-catástrofe ao colocar, frente a frente, dois gigantes de metal em luta furiosa e demolidora. Contudo, pilotando os ferozes titãs, estão um homem e uma mulher discutindo a sua relação.
“O índio do abismo sou eu” conta a história de uma mulher que, sofrendo de uma doença terminal, é congelada até que a cura seja descoberta. Quando volta à consciência, muitos anos no futuro, é sequestrada por um grupo de ativistas que pretende retirar dela todos os órgãos para suprir transplantes em pessoas carentes. A narrativa salta continuamente entre o tempo objetivo natural e um tempo subjetivo virtual, que acontece apenas na mente da protagonista. O conto foi anteriormente visto na antologia Geração sub-zero (Record, 2012).
"Coisas que a gente não vê todo dia" é sobre uma estudante dotada de poderes paranormais que não aceita, pois acredita na ciência. Contudo, os poderes começam a se manifestar espontaneamente, causando constrangimento à menina que já é bastante tímida.
A bruxaria continua, em tom de fábula, em "Humana, demasiado humana", com uma menina que, apaixonada pela ciência e pela natureza, sente-se deslocada em uma família de bruxos e bruxas com a qual vive numa casa no meio da floresta. Um dia, aparecem três artistas-bruxos à caminho de um festival e ali fazem uma das incríveis apresentações musicais que os fizeram famosos. O problema é que a menina sabe que cada vez que o poder de um bruxo é usado, uma estrela se apaga o céu. Por causa disso, ela irá finalmente descobrir o seu real papel no universo. Um conto incomum, divertido e delicado, que lembra algumas das melhores histórias de Ray Bradbury em O país de outubro.
"Distrito Federal" evoca elementos da ficção científica, fantasia e horror para contar a história de uma jovem moradora das ruas de Cobra Norato que terá de enfrentar uma espécie de apocalipse zumbi na cidade quando os personagens do popular jogo online Distrito Federal, no qual os usuários assumem papéis de políticos, começam a se manifestar fora do jogo. E o horror não vem apenas do fato de ter que encarar perigosos deputados e senadores, mas também uma legião de criaturas mitológicas que se incorporaram ao jogo. É o conto mais nonsense da coletânea, com um fino humor negro muito raro na ficção fantástica.
"Olhos de gato" é mais um dos textos não-inéditos da coletânea, visto primeiro na antologia Portal Fahrenheit. Conta a história de uma jovem cadete do exército das mulheres que, há anos, luta contra os homens. Depois de passar por um rigoroso treinamento doutrinário, ela está prestes a graduar-se e, para isso, em uma macabra cerimônia pública, terá de arrancar os olhos de seu gato de estimação. Contudo, desta vez o evento terá um detalhe imprevisto que pode acabar com a guerra definitivamente.
"Galáxia" é uma espécie de poema em prosa, com vários episódios de uma realidade na qual os homens convivem com inteligências artificiais e, repentinamente, experimenta uma queda catastrófica da rede de dados. Isso faz pessoas reais e digitais confrontarem a mutante e imprevisível natureza do universo e faz pensar se este pós-humano imerso no ciberespaço ainda somos nós.
Fechando a coletânea temos "Primeiro de Abril: Corpus Christi", texto já visto nas antologias Portal 2001 e Cidades indizíveis (2011, Llyr). Conta o drama de uma cidade futurista controlada por uma inteligência artificial, que entrou em uma grave convulsão tecnológica. Evacuada de seus habitantes humanos, a megalópole está prestes a ser bombardeada por um míssil nucelar. A ação é caótica e intensa, misturando violência, ciborgues e máquinas inteligentes em um contexto no qual o estilo e as imagens falam mais alto que a história. Trata-se de uma das peças literárias mais expressivas da ficção científica brasileira, uma experiência sensorial surpreendente que transcende as dimensões do conto e desafia o resenhista. Melhor ser experimentado diretamente.
Por motivos autorais, Máquina Macunaíma foi publicado em tiragem muito limitada distribuída diretamente pelo autor, não sendo possível encontrá-lo nos pontos de venda convencionais. Portanto, se acaso conseguir encontrá-lo por aí, não deixe escapar. Trata-se de um dos melhores livros da ficção fantástica brasileira recente.
Cesar Silva

Ditadura do prazer, Ramiro Giroldo

Ditadura do prazer: Sobre ficção científica e utopia, Ramiro Giroldo. 108 páginas. Capa de João Franco Lima Júnior. Editora UFMS, Campo Grande, 2013.

Desde que a geração chamada como Segunda Onda da ficção científica brasileira chegou às universidades, temos conhecido um bom número de trabalhos acadêmicos sobre o gênero. Até o final do século 20, eram poucos os casos e ainda mais raros os que chegavam a ser publicados em maior tiragem, por isso a grande importância que os estudiosos da literatura de gênero dão aos ensaios Introdução ao estudo da "science-fiction", de André Carneiro, Ficção científica, de Gilberto Schoereder, Ficção científica: Ficção, ciência ou uma épica de época, de Raul Fiker, e "Ficção científica no Brasil: Um planeta quase desabitado", de Fausto Cunha, citados em praticamente todos os estudos sérios sobre o gênero no Brasil.
Ainda que se possa levantar mais alguns bons títulos na bibliografia de referência do século passado, a maior parte dela era mesmo traduzida. O próprio ensaio de Cunha, citado acima, foi prefácio para um livro traduzido: No mundo da ficção científica, de L. David Allen.
Até a virada do século, a principal plataforma de discussão estava estruturada nos fanzines, que dedicavam muito espaço para abrigar ensaios e debates. Algumas dessas discussões realmente impactaram a produção nacional, mas praticamente não saíram dos muros do fandom.
Essa mudança de paradigma para os estudos de não-ficção no Brasil é de todo bem vinda, pois está finalmente ampliando o alcance do tema a pesquisadores de outras áreas e construindo uma bibliografia de referência que leva em conta o material produzido no País e o impacto que ela causa em nossa sociedade, numa discussão em primeira-mão. Há que se festejar também a variedade dos temas de pesquisa, que têm avançado para além de estudos genéricos, definindo recortes interessantes que abrem janelas para discussões ainda mais especializadas. Este é o caso de Ditadura do prazer: Sobre ficção científica e utopia, primeiro livro de Ramiro Giroldo, Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que lhe publicou o livro.
O autor explica, na introdução do ensaio, que se trata de um livro "calcado na dissertação de mestrado 'A ditadura do prazer: Ficção científica e literatura utópica em Amorquia, de André Carneiro', defendida em 2008 no Programa de Pós-Gradução (DLE-CCHS/UFMS) – Mestrado em Estudos de Linguagens", trabalho este que foi bastante comentado a época.
O livro está dividido em três partes: "Sobre ficção cientifica", "Sobre utopia" e "A ditadura de prazer". Na primeira parte, o autor levanta as origens do gênero e da expressão science fiction, creditada ao editor norte-americano Hugo Gernsback, bem como o termo abrasileirado e concensualizado, 'ficção científica'. Ainda hoje se discute a validade e abrangência do termo e não são poucos os que não gostam dele – tanto lá como cá –, mas nenhum outro se estabeleceu tão solidamente no mercado editorial e no imaginários dos leitores.
Giroldo evoca os estudos de Darko Suvin, acadêmico de origem croata, professor da McGill University de Montreal, que no ensaio Pour une poétique de la science fiction tem uma forma bastante técnica de definir o alcance do termo, baseado nos aspectos cognitivo e não-cognitivo da questão. Também invoca o conceito freudiano de unheimlich (algo como 'estranhamento') que, articulado às proposições de Zuvin, servirá de linha mestra à análise de Giroldo sobre o tema principal do seu ensaio: a utopia.
Na segunda parte, o autor busca por Tomas More e seu trabalho seminal, Utopia, amplamente estudada por diversos pesquisadores, para identificar seus aspectos originais. Quase sempre, ouvimos dizer que "utopia" significa "lugar nenhum" (ou-topos), mas Giroldo comenta que também pode ser "lugar bom" (eu-topos), o que já é suficiente para gerar uma ótima discussão.
Outro foco interessante do estudo de Giroldo é o confronto dos aspectos positivos e negativos das utopias de forma geral – como a falta de liberdade individual –, de forma que toda a utopia aciona imediatamente uma distopia, conforme o ponto de vista adotado, pois perfeição utópica implica na perda da liberdade e na formatação do ser humano num estado homogêneo sem expectativas. Para isso, Giroldo toma exemplos de importantes textos da ficção científica, como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, Nós, de Ivanovitch Zamiatin, A cidade e as estrelas, de Arthur C. Clarke, Fazenda Modelo, de Chico Buarque, A adaptação do funcionário Ruam, de Mauro Chaves, Piscina livre e Amorquia, ambos de André Carneiro, além de citar diversas outras obras igualmente relevantes.
Discussões sobre as já citadas ideias de Freud e More voltam a pautar a terço final do ensaio, com uma discussão ainda mais aprofundada sobre a busca pelo desprazer, agregando ao estudo os livros de 1984, de George Orwell, Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, Os amantes do ano 3050, de Philip Jose Farmer, e a novela "Diário da nave perdida", de André Carneiro.
Em um texto breve, o autor faz suas considerações finais, colocando na balança as definições de bem e mal frente a visão da utopia e da distopia, que me fez pensar se existe de fato alguma fronteira entre a utopia, a distopia e a ficção científica como um todo, ideia esta que gerou um interessante debate com Giroldo pelas redes sociais. Sem dúvida, esta é uma discussão que está apenas começando.
— Cesar Silva