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quinta-feira, 12 de março de 2015

Além do deserto, Érica Bombardi

Além do deserto, Érica Bombardi. 272 páginas. Capa de Vitor Gorino. Edição da autora, Campinas, 2012.

Em junho de 2009, recebi de Érica Bombardi, que então era apenas uma colega de uma lista de discussão literária, um pedido incomum: se eu poderia ler o romance de fantasia que ela havia escrito e fazer observações a respeito para que ela o aperfeiçoasse. Como já havia feito isso para outros autores amigos, aceitei. Logo recebi pelo correio um calhamaço com o manuscrito de um romance chamado Fatum, título que eu confesso não ter gostado muito – e o disse logo para a autora. Tomei o original e, com um lápis à mão, fui lendo, assinalando e escrevendo meus comentários nas laterais das páginas e em emails que trocávamos periodicamente. Algumas semanas depois, devolvi o manuscrito a autora com um longo comentário final. Na época, Érica trabalhava numa editora e eu imaginei que o livro dela seria publicado pela mesma, por isso foi uma surpresa quando vi o nome dela na relação dos selecionado pelo Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo – Proac 2011, com um texto que tinha justamente o nome do primeiro capítulo de Fatum. "Deve ser o próprio", pensei. E era mesmo. Foi uma sensação agradável ver um texto que eu criticara recebendo o financiamento de um concorrido programa cultural. Mais uma vez, pensei comigo mesmo: "agora ela vai achar fácil uma boa editora para publicar o livro". Mas Érica tinha outros planos.
Além do Deserto foi publicado pela própria autora, que fundou uma empresa especialmente para fazê-lo. Com a experiência que havia adquirido em anos de trabalho na editora, Érica queria colocar em prática sua própria política editorial. Em poucos meses, o volume estava pronto, sendo que foi o primeiro livro de 2012 que me chegou às mãos.
Além do Deserto é o início de Fatum, série de alta fantasia sobre um mundo compartilhado por homens e seres mágicos. Neste primeiro romance, o mundo de Fatum está agonizante, arrazado pela guerra entre os homens e as fadas. Tornado num extenso deserto, os sobreviventes desse mundo outrora belo e vigoroso agora habitam os últimos oásis, em torno dos quais ergueram pequenas cidades muradas que também estão em um lento processo de esgotamento. A guerra acabou, mas o sangue dos mortos ainda recobre vastas regiões e demônios poderosos empreendem ataques às cidades, causando muitas baixas.
Mas algo não parece certo nessa tragédia planetária. A guerra foi brutal e efetiva demais. As Sombras, um grande mal desconhecido, é o verdadeiro responsável por toda a destruição e ainda se esconde, a espera do momento certo para o golpe final. Contra ele, só uma pessoa pode ter chance, Thera, uma jovem revoltada que não se interessa pelo destino de Fatum e só se pensa em achar o irmãozinho perdido. Mas ela será levada a agir por um  improvável grupo de humanos e fadas, que acreditam ser ainda possível salvar o seu mundo. Na busca por revelação e esperança, eles são peões nos jogo do maléfico inimigo oculto, que vai manipular os heróis para garantir sua vitória final, que a cada momento parece mais e mais inevitável.
A guerra entre homens e seres mágicos é recorrente nos textos de autores-fãs que, cegos pelo brilho de suas obras de culto, não se abrem para melhores possibilidades criativas. Mas o tema já rendeu histórias surpreendentes nas mãos de profissionais como Bruce Sterling, Glen Cook e João Manuel Barreiros. Érica também encontrou aqui um viés diferenciado e conseguiu construir uma narrativa inusitada que, na maior parte do tempo, escapa das convenções do gênero, embora eventualmente deslise para o usual, o que é natural num trabalho de estreia. Mas o romance revela uma rica palheta de ideias interessantes a serem exploradas, uma fauna variada de animais exóticos e entidades mágicas, uma história milenar a ser resgatada, além de vilões deliciosamente detestáveis, como devem ser em toda boa história de fadas.
O financiamento do Proac não veio por acidente, foi mérito da autora e depõe ao seu favor. A seriedade e o carinho com que Érica tratou a criação e publicação do livro, impresso em papel reciclado e uma linda ilustração nas capas internas, também merece o respeito dos leitores, que podem esperar por mais nos futuros trabalhos da autora, que certamente virão.
— Cesar Silva

A Companhia Negra, Glen Cook

A Companhia Negra (The Black Company), Glen Cook. 308 páginas. Tradução de Edmo Suassuna. Editora Record, Rio de Janeiro, 2012.

Quem viveu os primeiros anos do segundo fandom brasileiro de ficção fantástica, entre nos anos 1980 e 1990, sabe que, naqueles tempos, o que mais havia para ler era ficção científica. O acesso ao gênero era garantido por diversas coleções de grandes editoras, como a José Olimpio, Nova Fronteira, Brasiliense, Hemus e Record, sem falar naquelas que vinham importadas de Portugal, com a nata da Golden Age e da New Wave estrangeiras.
A efervescente atividade dos fanzines e a chegada da edição brasileira do periódico Isaac Asimov Magazine, em 1990, parecia acenar com o estabelecimento definitivo do gênero. Nessa época, os leitores tiveram acesso ao que de melhor se fazia no Brasil e no mundo em matéria de fc. Também havia uma boa e constante oferta de horror, principalmente dos medalhões do gênero, mas a fantasia... ah, a fantasia. A não ser pelos clássicos e uma poucas edições de Marion Zimmer Bradley – bestseller à época –, nada mais havia para ler. Tolkien conhecia apenas uma edição mal distribuída de O senhor dos anéis – pirata, dizem as más línguas. O próprio C. S. Lewis, autor de referência na alta fantasia, era mais conhecido dos leitores brasileiros por seus romances de ficção científica, gênero que também caracterizava o único livro que o escritor americano Glen Cook tinha publicado por aqui: Os herdeiros da Babilônia (The heirs of Babylon, Global), uma surpreendente história de guerra naval pós-holocausto, com o realismo cruel de quem tem experiência no serviço militar – Cook serviu a Marinha.
A Companhia Negra, de longe seu trabalho mais importante, foi originalmente publicado nos EUA em 1984 mas, por ser fantasia, foi preciso que os editores brasileiros esgotassem todas as demais possibilidades para alguém arriscar dar uma chance a esse grande contador de histórias praticamente desconhecido no Brasil. É o primeiro romance de uma série que já conta com pelo menos dez volumes publicados. Trata-se de um relato, em forma de crônicas, escrito por Chagas, codinome do médico da Companhia Negra, um tradicional e respeitado grupo de mercenários que aluga seus serviços especializados a governos de um mundo tão fantástico quanto violento, continuamente mergulhado em guerras entre seus governantes que, geralmente, são muito mais do que homens.
Uma das coisas que mais impressiona ao se iniciar a leitura de A Companha Negra é que a história não tem um início tradicional. Nada de gnomos risonhos a tomar chá enquanto explicam como seu mundo funciona. Por exemplo, veja a seguir os primeiros parágrafos do volume:

"Houve prodígios e maravilhas suficientes, é o que o Caolho diz. Temos de culpar a nós mesmos por interpretá-los mal. A definição do Caolho não prejudica nem um pouco sua admirável capacidade de olhar para trás. 
Relâmpagos num céu limpo atingiram a Colina Necropolitana. Um dos raios acertou a placa de bronze que selava a tumba dos forvalakas, obliterando metade do feitiço de confinamento. Choveu pedras. Estátuas sangraram. Sacerdotes de vários templos relataram vítimas de sacrifício sem corações ou fígados. Uma dessas vítimas escapou depois de ter as tripas abertas, e não foi recapturada. Na Caserna da Forquilha, onde as Coortes Urbanas estavam aquarteladas, a imagem de Teux se virou completamente para trás. Por nove noites seguidas, dez abutres negros circularam o Bastião. Então um deles expulsou a águia que vivia no topo da Torre de Papel."

A narrativa segue nesse mesmo tom, contando uma batalha feroz na qual a Companhia Negra tenta defender, sem muito sucesso, os muros do castelo de seu atual contratante do ataque de uma fera monstruosa, sendo que boa parte da Companhia não sobrevive ao primeiro capítulo.
Entre o sangue e a morte que cercam o cronista, ficamos sabendo que seu mundo está passando por um tipo de revolução, um levante popular conhecido como Rosa Branca, que luta contra o domínio da Dama, soberana que está muito interessada em contratar os serviços da Companhia e, para isso, move seus peões num jogo quase sempre desonroso.
A Dama é uma bruxa com milhares de anos de idade, que tem aos seu serviço um grupo de generais lendários conhecidos como Tomados, magos impiedosos, cada um deles mestre em algum tipo de incomum habilidade sobrenatural. Não que a magia seja exclusiva desses monstros, longe disso. Ela está enraizada nas relações cotidianas desse mundo. Todo o exército que se preze mantém diversos bruxos em suas fileiras, e a Companhia Negra não é diferente. Boa parte das batalhas são travadas – e decididas – pelas força das artes arcanas. Mas um bruxo também pode ser morto, daí o uso ainda bastante útil dos guerreiros e suas espadas. Além das batalhas, o mundo da Companhia Negra está coalhado de monstros poderosos e assustadores, que matam e devoram. Ninguém é completamente confiável e até os protagonistas são arrogantes e traiçoeiros.
De tudo isso, só vamos ter uma noção mais ou menos clara para além de dois terços do romance, porque nada é explicado previamente. O leitor, da mesma forma que o narrador e seus companheiros de armas, na maior parte do tempo não fazem a menor ideia do que está acontecendo e só tentam manter-se vivos e de pé. O cronista não pode contar nada além do que aquilo que vê, o que deixa o leitor perdido no meio de intrigas incompreensíveis e batalhas que não parecem fazer nenhum sentido.
A narrativa é ágil e feroz, montada a partir de episódios frouxamente amarrados entre si. O texto é ríspido, sincopado e desconfortável, o que contribui para uma intensa sensação desamparo, sem espaço para a poesia que geralmente predomina o gênero.
Contrariando os protocolos, Cook lança mão de um grande contingente de personagens populares, gente comum que se vê envolvida pela violência e tem que dar um jeito de sobreviver. Os problemas dos reis, rainhas, príncipes e princesas não são o foco da atenção do autor, que os deixa de lado, recolhidos atrás das paredes de pedra de suas torres.
Como já foi dito, a série conta com nove sequências, sendo que as duas primeiras já foram traduzidas pela Record em 2013 e 2014, respectivamente: Sombras eternas (Shadows linger, 1984), A Rosa Branca (The White Rose, 1985), The silver spike (1989), Shadow games (1989), Dreams of steel (1990), Bleak seasons (1996), She is the darkness (1997), Water sleeps (1999) e Soldiers live (2000), sendo que já foram anunciadas mais duas: A pitiless rain e Port of shadows.
Além de A Companhia Negra, Glen Cook escreveu muitos outros livros igualmente inéditos no Brasil, como os das séries Garrett p.i., Dread Empire, Instrumentalities of the night, Starfishers e Darkwar, além de diversos romances independentes, dos quais conhecemos apenas o já citado Os herdeiros da Babilônia que, de qualquer forma, merece republicação.
Glen Cook é um grande escritor e merece mais atenção tanto dos editores quanto dos leitores. E sendo A Companhia Negra seu livro mais significativo, é obrigatório para todos aqueles que querem conhecer, como diz o personagem de Laurence Fishburne em Matrix, "até onde vai a toca do coelho".
— Cesar Silva

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Trilhas do tempo, Jorge Luiz Calife

Trilhas do tempo, Jorge Luiz Calife. 176 páginas. Capa de Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2012.

Jorge Luiz Calife é um patrimônio da ficção científica brasileira. O nome do autor já se tornou marca de qualidade e sua literatura está entre as mais republicadas do gênero. Desde que a Devir Livraria o contratou, tem sido um dos autores brasileiros mais editados na casa, com uma linha quase que exclusiva para seus romances. A editora parece estar disposta a publicar sua obra completa, já tendo em catálogo a Trilogia padrões de contato (2009), reunindo os romances Padrões de contato, Horizonte de eventos e Linha terminal, mais a “prequência” Angela entre dois mundos (2011) e, publicado no finalzinho de 2012, a coletânea Trilhas do tempo, a segunda do autor. A primeira foi As sereias do espaço, publicada em 2001 pela editora Record.
Trilhas do tempo reúne textos que Calife escreveu para diversas revistas ao longo dos anos 1990, principalmente as masculinas EleEla e Playboy, o que a princípio pressupõe um livro com forte pendão erótico. Contudo, também aparecem textos vistos nas revistas Isaac Asimov Magazine e SciFi News Contos, ambas especializada em fc, e até uma novela inédita exclusiva da edição.
Ao todo são sete ficções, mais um posfácio e um levantamento cronológico para a série Padrões de contato, também escritos por Calife. A seleta é apresentada por Clinton Davisson, autor do romance Hegemonia: O herdeiro de Basten, que confessa ser fã de Calife e o cobre de elogios, como não poderia deixar de ser. Embora não o sejam necessariamente, todos os textos parecem inseridos no universo de Padrões de contato, pois dele guardam as mesmas característica e textura geral.
Abre a coletânea o conto “O primeiro voo para as estrelas”, originalmente publicado na revista EleEla em 1987. Conta a história da primeira viagem a um planeta distante, realizado por uma grande tripulação a bordo uma espaçonave convencional. A viagem é feita em velocidades relativísticas e, quando finalmente chega ao seu destino, encontra o lugar habitado por homens que chegaram lá muito antes deles.
“Trajetória de fuga”, publicado nem 1984 na mesma revista, conta a história de uma jovem e promissora atriz de cinema que, por causa de um defeito numa espécie de simulador de realidade virtual, tem sua alma absorvida por uma espaçonave e, dessa forma, avança imortalizada rumo ao infinito.
“A sereia do espaço”, primeiro publicado em 1992 na extinta Isaac Asimov Magazine, conta a aventura de uma jovem astronauta que, em missão burocrática nas luas de Netuno, tem um inesperado contato imediato com uma entidade alienígena que a modifica definitivamente. Tornada em uma trans-humana imortal, ela volta à Terra para resgatar seu amante e levá-lo em sua companhia para viajar eternamente pelas estrelas.
A história se repete em “A espada de Herschel”, noveleta assumidamente inserida na série Padrões de contato, releitura para o clássico 2001: Uma odisseia no espaço, de Arthur C. Clarke. Conta a aventura de uma adolescente em missão às luas de Saturno a bordo de uma espaçonave movida por bombas atômicas. Chegando lá, a garota, e somente ela, entra em um portal que a leva para mil anos no futuro, de onde volta em seguida para alertar a humanidade contra uma grande catástrofe cósmica que se aproxima. A primeira publicação desta novela aconteceu em 2001 na também extinta SciFi News Contos.
O conto seguinte é “Viagem ao interior do Halley”, que a Playboy publicou em 1985, explorando o interesse pela passagem do famoso cometa. Este é único conto pessimista de toda a antologia e provavelmente de toda a carreira do autor. Conta o destino de uma malfadada missão de salvamento ao Halley, prestes a se fragmentar e desaparecer para sempre. Calife sugere que a tragédia não foi um acidente, mas uma manobra calculada pela inescrupulosa megacorporação Norland (o que mais se aproxima de um vilão na saga de Padrões de contato), tão somente para explorar os recursos minerais do Halley em seu próprio benefício.
“A estrela e o golfinho” é uma noveleta inédita, também inserida na cronologia de Padrões de contato. Enquanto Angela Duncan faz sucesso intergaláctico como cantora de um conjunto musical, a Terra está sendo visitada por uma entidade alienígena que parece manipular a radiação solar. Este texto contrasta asperamente com o anterior, porque Calife parece ter se arrependido ao vilanizar a Norland. Num diálogo final, uma executiva da empresa, que nesta história já não é mais uma simples iniciativa privada, mas o governo central da humanidade, faz um discurso positivista que não soa muito bem.
O último conto do livro é “A derradeira paixão”, uma história quase mística, se é que podemos usar esse termo para descrever um texto de Calife. Publicada em 1984 na EleEla, conta também sobre uma tragédia, esta fortuita, causada pela incapacidade humana de entender completamente o universo – um conceito também pouco comum na ficção do autor. A bordo de uma nave capturada por um buraco negro, um casal de jovens amantes tem sua última relação sexual estendida pela eternidade por conta do efeito relativístico.
Completa o volume o ensaio “Arthur C. Clarke, mulheres nuas e a ficção científica”, no qual Calife contextualiza os textos reunidos na coletânea.
Apesar das tentativas explícitas, os textos de Calife aqui reunidos não são mais eróticos que a ficção científica corrente que lemos em toda parte. As longas e detalhadas descrições das espaçonaves e suas tecnologias, bem como a beleza estonteante dos fenômenos cósmicos frente às recatadas cenas de sexo e nudez feminina, revelam onde está a verdadeira paixão destes textos.
Trilhas do tempo é um tributo de Calife à ciência redentora e à imortalidade que um dia, ele acredita, a tecnologia permitirá de uma forma ou de outra.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A Cidade e as Estrelas, Arthur C. Clarke

A Cidade e as Estrelas (The City and the Stars), Arthur C. Clarke, 278 páginas. Tradução de Hélio Pólvora. Arte de capa: Vagner Vargas. Devir Livraria, Coleção Pulsar, 2012.

Desde a sua morte em 2008 Arthur C. Clarke tem recuperado parte de seu merecido espaço no mercado editorial brasileiro. Seus três livros mais importantes foram relançados no país desde então. A editora Aleph trouxe de volta O Fim da Infância (em 2010) e Encontro com Rama (em 2011), em duas edições caprichadas. E em 2012 foi a vez da Devir também fazer um trabalho editorial de relevo – a começar pela belíssima capa – ao relançar o cultuado A Cidade e as Estrelas.
Talvez o leitor estranhe chamar o livro de cultuado. É que, para além do prestígio que o livro adquiriu quase que imediatamente quando lançado em 1956, tornando-se um clássico nos anos seguintes, eu tenho uma relação pessoal com este livro.
A Cidade e as Estrelas foi o livro que inaugurou minha sequência de leituras regulares de FC, que vem desde o distante ano de 1985, quando tinha os meus 17 anos. É provável que todo leitor de FC tenha aquele livro que o fisgou em definitivo para o gênero. Pense no seu. No meu caso foi justamente A Cidade e as Estrelas.
O relançamento da Devir é oportuno pelo fato da última edição no país ter sido da Abril Cultural, em 1984. Mas para mim também foi interessante porque me permitiu reler o livro e, inevitavelmente, comparar com as impressões que tive quando o li pela primeira vez.
Alguns dizem – não sem razão – que reler um livro de que se gostou na juventude é arriscado, pois o livro pode ter envelhecido, ou mais provavelmente o leitor é que se tornou mais amargo. O que posso dizer é que reler A Cidade e as Estrelas me surpreendeu de novo. Não imaginava sentir o mesmo sense of wonder, mas se tal não foi o caso esteve próximo.
A Cidade e as Estrelas conta a história de Diaspar, uma cidade em forma de cúpula, hipertecnológica, que se isolou do resto da Terra, e do Universo. Criou uma utopia em que viceja o bem-estar material a ponto de abolir a própria morte. A construção desta cidade, governada por um supercomputador, é envolta em mistérios perdidos num tempo suficientemente longo para toda verdade ficar esmaecida: um bilhão de anos no futuro. Os humanos teriam conquistado a galáxia, mas sido expulsos de sua glória estelar por outra raça, chamada de Invasores. Não seríamos destruídos se nos recolhêssemos ao nosso planeta. Diaspar, portanto, seria o resultado desta guerra perdida. O recolhimento pelo medo da extinção, que se tornou o receio do desconhecido, não para além da Terra, mas para além dos próprios limites de Diaspar.
Os habitantes de Diaspar tinham uma vida praticamente imortal, pois depois de centenas de anos “adormeciam” para renascerem em novos corpos a partir dos dados pessoais armazenados por um banco de memórias ativados pelo Computador Central. Os criadores da cidade, contudo, queriam, de tempos em tempos, incutir alguma variação à monotonia da utopia. Programaram, então, o nascimento dos Únicos. Pessoas diferentes, sem passado anterior – pois os demais habitantes lembravam de suas vidas passadas –, que trariam consigo um valor humano esquecido: a curiosidade, o desbravamento do desconhecido. Alvin vem cumprir este papel, tornando-se o único que tirará os habitantes de Diaspar de seu conforto letárgico e os confrontará com verdades incômodas, mas necessárias à sua sobrevivência. Como parte disso, Alvin foge e descobre a pastoral comunidade de Lys, uma outra construção utópica humana na Terra, mas com valores distintos: reina a vida simples, o ciclo normal de vida e morte e a capacidade telepática, talvez o grande trunfo deste outro povo. Contudo, também cultivam a solidão e o medo do desconhecido.
A Cidade e as Estrelas permite muitas leituras. Uma delas é da dicotomia entre dois modos de vida, representados por Diaspar e Lys. No fundo o que Clarke sugere é que as duas utopias não se bastam a si mesmas, mas o que mais lhes falta só pode ser encontrado no seu oposto. Contudo, o centro do romance está na figura de Alvin, um personagem admirável em sua coragem e ingenuidade, representando de forma clara, o sentido de especulação e curiosidade inata da própria ficção científica como forma de expressão artística. Creio que poucos personagens expressaram tão bem o sentido de mudança tão caro ao gênero. Outra interpretação possível é ver em Alvin a figura de um enviado – neste caso seria de alguém programado –, um messias que altera de forma radical e definitiva a vida e os valores de todos.
Este romance de Clarke teve uma versão anterior publicada em 1946 chamada de Anti-Crepúsculo (Against the Fall of Night). Uma novela que Clarke reconhecia carecer de mais contextualização sobre as ideias e tramas que criara. E assim ele o reescreve e transforma, dez anos depois, no romance A Cidade e as Estrelas. De fato uma obra mais bem trabalhada e acabada, tanto em termos narrativos como no desenvolvimento do enredo.
Em A Cidade e as Estrelas, Clarke mostra sua visão de mundo cósmica, de como deverá ser inevitável para o homem – em algum momento de sua história – ter de lidar com o Universo, com todas as possíveis implicações científicas, filosóficas e religiosas. Mas talvez possamos afirmar que esta visão clarkeana da transcendência cósmica do Homem têm um aspecto mais, digamos, luminoso e otimista, do que visto, por exemplo, no romance O Fim da Infância (Childhood´s End, de 1953). Pois neste o homem, prestes a alcançar o espaço, é surpreendido pela chegada dos Senhores Supremos que o impedem de sair da Terra e o tiraniza. Constróem uma outra utopia social, mas esmagam os sonhos humanos de liberdade e exploração  do universo. É curioso que em A Cidade e as Estrelas ocorre o inverso: o homem teria chegado aos confins da galáxia, mas também devido ao contato com uma inteligência alienígena, fora obrigado a se recolher no seu casulo, a Terra.
O sentido mais otimista de Clarke em A Cidade e as Estrelas se dá pelo tom abertamente exploratório do livro, de excitação pela descoberta do desconhecido, a despeito – ou até por causa – da estrutura social contrária solidamente estabelecida há um bilhão de anos. Alvin lidera a Terra à sua redescoberta e, mais que isso, a suas verdades perdidas nas brumas do tempo.
Por contraste, vemos em O Fim da Infância uma visão pessimista do destino do homem. De como nossa instabilidade política e imaturidade social nos renega a saída para o espaço e nos aprisiona para um fim alheio ao nosso livre-arbítrio, nas mãos de civilizações extraterrenas misteriosas e com objetivos obscuros. Em certo sentido o romance (e o filme), 2001, Uma Odisséia no Espaço (ambos de 1968), recupera uma certo sentido de redenção cósmica menos sombria, ainda que não clara sobre o destino final do homem.
Já em A Cidade e as Estrelas, Clarke estava, de fato, muito inspirado, não só em termos filosóficos e cognitivos, mas também em termos narrativos, com algumas passagens absolutamente admiráveis. Como quando Alvin e seu companheiro Hilvar chegam aos Sete Sóis, nos confins da galáxia; quando as verdades ocultas sobre o passado distante são reveladas, pela enigmática mente pura de Vanamonde; em momentos simples, mas líricos como, por exemplo, quando Alvim visualiza a chegada da noite nos limites da cúpula de Diaspar.  Uma epifania. Além disso, Clarke também especula com sagacidade sobre temas como realidade virtual, inteligência artificial, controle climático, imortalidade e telepatia com uma elegância poucas vezes retomada na literatura de FC. Enfim, um livro magnífico.
Alguns críticos o acusam de pender para soluções pulp em algumas passagens, especialmente na conclusão do livro. Pode até ser, pois a história se situa no contexto do tipo de FC padrão que se praticava na época, a Golden Age, possuindo um ritmo de aventura e voluntarismo que soa pouco verossímil em algumas passagens, como quando algumas questões são resolvidas rapidamente, como que para não atrapalhar o ritmo principal do enredo narrado. Mas não creio que isso diminua a obra, pois poucas vezes um livro de FC apresentou tal riqueza de ideias e profusão de soluções interessantes. Clarke estava no auge da criatividade e do seu lirismo como autor. E isto transparece página após página, num processo de crescimento até o clímax.
Se me arrependi de alguma coisa nesta releitura de A Cidade e as Estrelas foi ter ficado tantos anos sem relê-lo. O arrepio na pele que senti ao encerrar a leitura me lembrou o da adolescência, e isso só realça porque, ao menos para mim, este é um dos mais belos livros de ficção científica já escritos. 
Marcello Simão Branco

Escrever com o Coração

O Zen e a Arte da Escrita (Zen in the art of writing), Ray Bradbury. São Paulo: Editora Leya, 166 páginas. Tradução de Adriana de Oliveira.

O lançamento de um autor como Ray Bradbury é um acontecimento sempre especial. Aos 91 anos completados em agosto, é um dos decanos e mais talentosos escritores norte-americanos dedicados à ficção científica e fantasia. Mas este lançamento, em particular, é surpreendente e sui-generis. Não estamos diante de mais uma magnífica coletânea ou de um romance, mas de um volume de ensaios curtos, seguidos ao final por saborosos poemas.
Publicado originalmente em 1990, O Zen e a Arte da Escrita reúne nove textos que celebram sob grande inspiração a literatura, escritos entre os anos de 1961 e 1986. São vinte e cinco anos que cobrem o auge de sua carreira produtiva e que nos legou clássicos como os romances As Crônicas Marcianas (1950) e Fahrenheit 451 (1953), e coletâneas como Os Frutos Dourados do Sol (1953) e O País de Outubro (1955), entre outros.
Além dos temas versarem sobre os objetivos, a prática e as emoções que devem estar implícitas na criação artística literária, os textos também têm em comum a fluência, leveza e descontração, dando a impressão que foram escritos todos de uma vez. De certa forma, este aspecto demonstra a forma como Bradbury se posiciona sobre os assuntos tratados e, principalmente, a segurança de um estilo altamente refinado. E brilhantemente exposto também nos textos de não-ficção.
Os ensaios são escritos de uma maneira tão despojada, agradável, mas não menos vigorosa em seus argumentos argutos e, por vezes, duros, que colocam-se a par com suas histórias ficcionais em termos de prazer de leitura.
Para Bradbury o escritor não deve ser mecânico, objetivo, racional. É preciso deixar a inspiração surgir de onde menos se espera; libertar a mente de fórmulas e esquemas imitativos, trabalhar com o inconsciente, as lembranças – sobretudo da infância –, sonhos e com as associações aparentemente improváveis de palavras, sentenças, frases. Tudo para criar ideias que eventualmente sejam buriladas numa história que tenha a cara do escritor, que seja original no sentido de que só ele possa contá-la desta forma.
É certo que que os caminhos sugeridos e trilhados por Bradbury não são fáceis de serem alcançados por outros escritores. Além de tudo é preciso um certo talento inato, uma espécie de vocação em criar mundos com as palavras. Mas ele mesmo revela que o processo não é fácil e sim doloroso: levou dez anos para escrever sua primeira história publicável, não por coincidência uma de sua muitas obras-primas, o tocante conto “O Lago” (1942).
Para escrever bem é preciso escrever sempre; é preciso ler com regularidade – e de tudo. Mas sobretudo é preciso gostar do que se faz, escrever pelo prazer estimulado por uma espécie de necessidade de expor ao mundo uma visão, uma ansiedade interior. Há alguns anos tenho cobrado dos autores brasileiros de ficção científica da falta, a boa parte deles, do que chamo de “inquietação existencial”. Ora, é o mesmo que Bradbury defende – de uma forma mais convicente e encantadora, é claro –, para um autor se diferenciar dos demais, expor o seu eu particular de enxergar o mundo. Não necessariamente melhor em termos literários, mas com uma singularidade íntima só sua, o que lhe pode garantir alguma originalidade de expressão, mesmo que seja sobre um tipo de história de tema comum.
Bradbury admite que o autor iniciante deve buscar um modelo, imitando seu ídolo literário. Ele se antecipa em dizer que não se esquivou desta prática; mas apenas para dar uma espécie de moldura de estilo, permitindo ao autor desenvolver-se nele até poder impor uma forma e, principalmente, uma voz própria, esta mais importante porque relacionada com as suas inquietações particulares na hora de criar uma história.
Os textos são valiosos tanto para o escritor maduro, quando para o iniciante, pois menos do que lições apresentam exemplos de postura profissional, prática literária e o que deve motivar verdadeiramente um escritor. Não seguir modismos, não priorizar o dinheiro e sucesso rápido. Este é o caminho mais fácil para conseguir de um lado a popularidade fugaz nos fandons da vida mas, ao mesmo tempo, trilhar uma carreira segura em direção à mediocridade e insignificância.
Alguns artigos são simplesmente maravilhosos e chegam a emocionar por evocarem lembranças possíveis da infância do próprio leitor, como uma viagem com os pais, uma descoberta, uma amizade saudosa. Além disso relacionam aspectos da concepção de mundo, livre e jovial de Bradbury, desprovida dos embrutecimentos e cinismos da vida adulta, como principalmente em “Como Manter e Alimentar a Musa” e “Bêbado e no Comando de uma Bicicleta”. E neste último ele afirma:

“Todas as minhas atividades, todo o meu desenvolvimento, todos os meus novos trabalhos e novos amores foram causados por esse amor primitivo e original pelas bestas que vi aos cinco anos e continuei amando aos vinte, vinte e nove e trinta anos.” (pág. 76).

No fundo, Bradbury encontrou a sua voz, a sua autencidade reconhecível como escritor menos nos gêneros que aborda (fantasia e ficção científica), ou no seu estilo absurdamente lírico e poético, mas em sua infância: nos monstros ou seres imaginários (bestas, na tradução), no circo – a quem dedicou um romance fascinante e perturbador: Algo Sinistro Vem Por Aí (1962) –, na viagem a Marte e tantos outros sonhos vividos e não abandonados em sua vida adulta por meio de sua literatura.
Embora não seja uma coletânea de artigos estritamente sobre FC&F, certamente é endereçado a estes gêneros também, pois Bradbruy neles se exercita na maior parte de sua carreira, e revela mesmo aspectos curiosos de como criou algumas de suas histórias.
O livro é completado por belos poemas – também voltados à arte de escrever –, tais como cerejas em tão saboroso bolo. Pois mesmo com um título meio dúbio – tirado de um dos artigos reunidos para o livro –, não estamos diante de um guia de auto-ajuda para escritores, em especial iniciantes. É muito mais do que isso, com as opiniões fortes e os exemplos da vivência de um dos grandes escritores vivos.
— Marcello Simão Branco

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

O alienado, Cirilo S. Lemos

O alienado, Cirilo S. Lemos. 240 páginas. Capa de Erick Sama. Editora Draco, São Paulo, 2012.

Cirilo Lemos é um jovem autor carioca, natural de Nova Iguaçu, que vem consistentemente demonstrando qualidade acima da média nos textos que publica. Seus contos têm surpreendido os leitores e este seu primeiro romance, O alienado, não é exceção.
A história relata a vida de um homem chamado Cosmo Kant, também conhecido como paciente AM013, que está preso numa espécie de manicômio onde sofre todo tipo de violência física da parte dos seus carcereiros. Kant teve uma vida trágica, perdendo o pai e o seu melhor amigo num acidente absurdo quando ainda era adolescente. Anos depois, morando na futurista Cidade-Centro, tratou-se com um psicólogo eletrônico, para quem contava a história de um romance que estava escrevendo. Quando os personagens de seu livro começaram a se manifestar no mundo real, num torvelinho de eventos absurdos, isso acaba por levá-lo à internação. Mas esse não é, nem de longe, o fim da história.
Narrado de forma fragmentada, como um quebra-cabeças desmontado, os primeiros capítulos são tão diferentes entre si que sugerem ser uma coletânea de contos pós-modernos. Mas, a partir da página 50, quando o leitor começa a perceber a história de fundo, o romance desabrocha e revela toda a sua profundidade.
Há de tudo um pouco em O alienado: ficção científica, realismo, metalinguagem, absurdismo, mistério, perseguições cinematográficas, ação, brutalismo, romance, erotismo e até um toque de lesbianismo. Em alguns momentos, a história remete aos sofisticados romances de Philip K. Dick, com altas doses de paranoia e correria. Noutros, dialoga com a literatura de Murilo Rubião – especialmente com o conto “A fila”–, quando o desesperado Kant se vê obrigado a passar dias seguidos na fila de uma repartição pública a procura de informações sobre sua irmã gêmea supostamente falecida. Como um todo, a história remete ao clássico universal O processo, de Franz Kafka, a quem o incomum nome do protagonista associa-se de imediato.
Além de tudo, partes da história são narradas em forma de história em quadrinhos, com um estilo despojado que propositalmente lembra o desenho de um adolescente, pois parte desse relato teria sido desenhada por Virgílio, o falecido e problemático amigo de infância de Cosmo.
A leitura de O alienado não é fácil. O autor parece ter feito questão de escolher a forma mais complicada e confusa possível para narrar a história, mas o esforço do leitor em montar esse mosaico desconjuntado é plenamente satisfeito, com surpresas a cada capítulo e um final contundente que, nas mãos de um autor menos capacitado, provavelmente estragaria o romance. Lemos não permite que as revelações finais desqualifiquem a história, ao contrário, elas reforçam o alinhavado frouxo construído a partir das poucas informações fornecidas pela trama, estabelecendo uma relação de cumplicidade entre o autor e o leitor, cada um cumprindo o seu papel na elaboração da obra.
O único senão de todo o livro talvez seja uma derradeira revelação final, ao estilo do seriado de televisão Além da imaginação, que acrescenta mais uma potência no já rebuscado enredo e soa um tanto forçado; mas não compromete tanto assim e, para muitos, pode até mesmo significar a cereja de um bolo bem confeitado.
O alienado é ficção científica de alta octanagem, que exige profunda interação do leitor e pode agradar até aqueles que não gostam do gênero. Na minha opinião pessoal, um dos melhores romances brasileiros de fc já publicados.
Cesar Silva

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O Eternauta, Héctor Oesterheld & Solano López

O Eternauta (El Eternauta), Héctor Oesterheld & Solano López. 360 páginas. Editora Martins Fontes, Rio de Janeiro, 2012.

Em meados dos anos 1980, chegou às minha mãos uma curiosa coleção de quadrinhos argentinos intitulada El Eternauta, antecipando o formato das minisséries que fariam furor entre os leitores brasileiros alguns anos depois. Eu havia aprendido a apreciar o quadrinho argentino através da leitura de algumas edições originais de revista Skorpio; sabia que era extremamente sofisticado e tinha um estilo narrativo próprio, muito dramático e melancólico. Mas havia algo de diferente naquela história em especial.
Não era a qualidade técnica que me impressionava. Ainda que fosse um trabalho artisticamente irretocável, essa característica é comum a todos os quadrinhos publicados na Argentina. Também não foi a boa história de ficção científica, pois naquele tempo eu já era um leitor experiente no gênero e histórias de invasão não eram novidade.
O que realmente me cativou logo nas primeiras páginas da obra foi o vigor da cultura portenha que transbordava em cada quadrinho. Eu estava compartilhando ali o ponto de vista de um típico morador do subúrbio de Buenos Aires. Sem nunca ter saído do Brasil, por algumas horas eu me tornara um argentino, e isso foi uma epifania.
Anos antes do escritor Ivan Carlos Regina publicar o seu "Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira" (1988), que propunha a deglutição da produção angloamericana para gerar uma FC tipicamente brasileira, O Eternauta já me mostrara que, da mesma forma que havia um modo argentino de tratar a FC, deveria haver também um jeito brasileiro de abordar o gênero. Mas como? Desde então, essa tem sido uma das minhas maiores buscas.
Por isso, é com alegria que eu comemoro a publicação de O Eternauta finalmente em sua versão brasileira.
Originalmente publicada em capítulos entre 1957 e 1959 na revista Hora Cero SemanalO Eternauta é a obra máxima do escritor e roteirista Héctor Germán Oesterheld (1919-197?), que se tornou um mito depois que desapareceu nas mãos da ditadura argentina. Também é o ponto culminante da carreira de Francisco Solano López (1928-2011), ilustrador prolífico que, mesmo depois da morte de Oesterheld, deu sequência à saga, tendo completado uma última parte dela pouco antes de seu falecimento, no ano passado.
O Eternauta trata de um homem perdido nas dobras do espaçotempo, que surge repentinamente diante de um roteirista de quadrinhos e começa a contar a ele a sua história. A narrativa inicia quando ele, sua família e alguns amigos, presos numa casa nos arredores de Buenos Aires, esforçaram-se para resistir a uma pesada nevasca tóxica, que se revela um dispositivo de limpeza de terreno aplicado ao planeta por uma força de invasão alienígena.
A primeira parte da história é sensacional e lembra o clássico A noite dos mortos-vivos (1968), longa independente do diretor norteamericano George Romero, no qual um pequeno grupo de pessoas comuns tenta sobreviver ao apocalipse zumbi preso em uma casarão.
Mais adiante, a história muda de dinâmica e assume o enredo de um drama militar de resistência, com os sobreviventes tentando fazer frente à poderosa a aparentemente invencível força invasora. Tudo isso em meio ao cenário portenho muito bem retratado por Solano López. Alguns historiadores pensam que um dos motivos do desaparecimento de Oesterheld foi justamente essa história, que sugeria através da fabulação da ficção científica, a luta armada contra a ditadura.
O Eternauta é uma obra obrigatória pra todos que admiram a arte dos quadrinhos e da ficção científica, e não é arriscado dizer que não será publicado em 2012 no Brasil um trabalho de maior importância que este. O álbum tem 360 páginas, custa R$69,80 e é uma publicação da Editora Martins Fontes.
— Cesar Silva

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Jean Giraud (1938-2012)

A Nona Arte perdeu um de seus maiores nomes. No dia 10 de março de 2012, depois de um longo período de dificuldades com a saúde, morreu ao 73 anos o genial ilustrador Jean Giraud, o Moebius.  
Jean Henri Gaston Giraud, o Gir, foi um dos mais completos artistas do traço da segunda metade do século 20. Nascido em 1938 em Nogent-sur-Marne, subúrbio de Paris, Giraud foi criado pelos avós depois que seus pais se divorciaram. Cumpriu serviço militar na Argélia e estudou sozinho a arte do desenho. Começou a trabalhar com quadrinhos aos 18 anos, fazendo a série de tiras Frank et Jeremie para a revista Far West. Em 1961 tornou-se aprendiz do cartunista belga Jijé (Jerry Spring). No ano seguinte, Gir iniciou uma frutuosa parceria com o roteirista Jean Michel Charlier na tira de faroeste Fort Navajo, na qual surgiria seu personagem de maior sucesso, Tenente Blueberry.
Em 1963, Gir criou o pseudônimo Moebius para assinar trabalhos de fantasia e ficção científica na revista Hara-Kiri. Abandonado por alguns anos, Moebius voltaria em 1974 na revista Metal Hurlant, publicada pela Les Humanoides Associes, editora criada por ele mesmo ao lado dos também quadrinhistas Jean-Pierre Dionnet, Philippe Druillet e Bernard Farkas. A garagem hermética e Arzach, publicados na Metal Hurlant, tornaram o artista uma verdadeira franquia dos quadrinhos. As histórias de enredo caótico e fragmentado, bem como os desenhos exaustivamente detalhados, foram creditados à influência de alucinógenos que o Gir teria experimentado em uma viagem ao México, mas o fato é que esse estilo de narrativa e traço influenciou artistas no mundo inteiro.
Em 1981, mais um grande sucesso: com roteiro do escritor chileno Alejandro Jodorowsky, Moebius lançou o álbum O Incal Negro, que seria a gênese de um rico universo de fantasia científica.  Em 1988, seu incomparável estilo de desenhar foi incorporado ao universo dos comics na grafic novel Surfista Prateado, da Marvel Comics, com roteiro de Stan Lee.
Além dos quadrinhos, Moebius esteve diversas vezes envolvido com o cinema. Primeiro, ao trabalhar na pré-produção de um filme de Jodorowsky pretendia fazer para o mega romance de ficção científica Duna, de Frank Herbert, que pode ser considerado o mais influente filme de cinema jamais produzido. Algumas das ideias de Moebius para esse projeto seriam finalmente aproveitadas no filme realizado por David Linch em 1984, com produção de Dino di Laurentis.
Moebius esteve na equipe de Alien (1979), de Ridley Scott, e a HQ The long tomorrow (com roteiro de Dan O'Bannon) forneceu o visual para Blade Runner (1982) também de Scott, baseado em um romance de Philip K. Dick. O longa O quinto elemento (1997), de Luc Besson, também usou e abusou das concepções visuais de Moebius nessa mesma história. Moebius também teve participação nos filmes O segredo do abismo (1989, James Cameron), Tron (1981, Steven Lisberger) e Willow (1988, Ron Howard).

 Nos desenhos animados, Moebius trabalhou intensamente em Heavy Metal: Universo em fantasia (1981, Gerald Potterton) e no fenomenal O garoto do espaço (1982) de Rene Laloux, baseado em um romance de Stephan Wull, entre outros.
A série Incal está disponível integralmente pela Devir Livraria, e a editora Nemo publicou recentemente dois álbuns luxuosos (Arzach Absoluten Calfeutrail e outras historias) com algumas das primeiras histórias de Moebius. Contudo, a maior parte da obra de Giraud, seja como Gir ou como Moebius, está indisponível no Brasil. Sua maior obra, a série de 28 volumes de O Tenente Blueberry, continua quase toda inédita no Brasil.

Ralph McQuarrie (1929-2012)

Enquanto pesquisava os obituários da FC&F para o Anuário 2011, esbarrei a notícia triste do passamento do talentosíssimo ilustrador americano Raph McQuarrie, o idealizador da linguagem visual da saga espacial Star Wars, de George Lucas, que teve grande influências obre mim.
McQuarrie trabalhou intensamente na trilogia original e foi responsável pela criação de alguns dos mais icônicos personagens da história do cinema, como Darth Vader, R2D2, C3P0 e Chewbacca, além da concepção da maior parte das naves e veículos vistos nos filmes.
Ralph Angus McQuarrie nasceu em 13 de junho de 1929, em Gary, no estado norte-americano de Indiana. Motivado por seu avô e sua mãe, estudou desenho e pintura durante o colégio e trabalhou para a Kaiser Grafics nos anos 1950. Prestou serviço militar durante a guerra da Coréia, trabalhou como desenhista na indústria de aviação Boing e, em 1965, mudou-se para a Califórnia, onde passou a fazer ilustrações para cartazes de cinema. Seu trabalho tornou-se conhecido nos EUA nos anos 1970 por conta das lindas concepções artísticas que ele produziu para as missões lunares Apolo, da Nasa.
Já era um ilustrador prestigiado quando foi chamado por Lucas em 1975, para desenvolver a concepção de cenas de Star WarsO Império contra-ataca e O retorno de Jedi. O artista também trabalhou na pré-produção de E.T.Jurassic Park e Cocoon, filme pelo qual recebeu um Oscar de efeitos visuais.
Entre as publicações mais desejadas pelos colecionadores estão os lindos portfólios da saga Star Wars publicados pela Ballantine Books, com pôsteres enormes reproduzindo as pinturas de concepção por ele criadas.
McQuarrie faleceu em Berkeley, na Califórnia, no dia 3 de março de 2012, aos 82 anos, em decorrência de complicações do Mal de Parkinson.

Ray Bradbury (1920-2012)

Numa terça feira, dia 5 de junho de 2012, aos 91 anos de idade, deixou a nossa convivência o influente escritor norte americano Ray Bradbury, um dos maiores autores de ficção fantástica que já existiram.
Bradbury compõe a trindade dos escritores de ficção científica na opinião dos brasileiros. Ao lado de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, forma o "ABC" do gênero, como é chamado pelos seus inúmeros leitores. Contudo, Bradbury é um estranho no ninho, pois não se conformava com as orientações impostas pelo mercado. Sua ficção científica, por exemplo, não é científica em quase nada, uma vez que lhe importava muito mais as pessoas do que a ciência. Bradbury também era mais versátil que seus colegas de gênero, enveredando com igual desenvoltura por terrenos tão pantanosos como o terror, a fantasia, o mistério e até o realismo, sem esquecer da poesia em prosa e verso.
Nascido em 22 de agosto de 1920 em Waukegan, Illinois, estado do meio-oeste americano, Ray Douglas Bradbury tinha tudo para ser um legítimo redneck. O que alterou sua caminhada foram as histórias em quadrinhos de Buck Rogers que, quando criança, colecionava recortando cuidadosamente dos jornais. Também era leitor ávido dos livros de Júlio Verne e H. G. Wells, das novelas de Edgar Rice Burrougs, Clark Ashton Smith e H. Ride Haggard, e fascinado com as maravilhas de seu mundo, especialmente parques de diversão itinerantes, circos, mágicos, trens, dinossauros e uma pletora de coisas simples que não era importante para mais ninguém.
Aos oito anos de idade, pressionado pelos colegas de escola que exigiam dele um comportamento mais "normal", o pequeno Ray rasgou toda a sua coleção de quadrinhos. Mas isso só serviu para que ficasse perdido num mundo que ele não compreendia e entendeu ali que o seu destino não era ter uma vida "normal". Voltou avidamente à sua coleção e decidiu que seria um escritor. Em 1938, publicou seus primeiros contos no personalzine Futuria Fantasia, e em 1941, chegou ao primeiro conto profissional na revista Super Science Stories. Seu primeiro texto a fazer sucesso foi "O lago" ("The lake", 1942).
Bradbury tornou-se um dos maiores escritores americanos, com uma produção de qualidade reconhecida pelo mainstream, apesar de instalada no que se chama de ficção de gênero que, de forma geral, é desprezada pela crítica. Entre seus grandes livros está o romance Fahrenheit 541 (1953), alegoria sobre a censura que conta a história de um homem apaixonado pelos livros cujo trabalho é justamente destruí-los. Levado ao cinema em 1966 pelo importante cineasta francês François Truffaut, tornou Bradbury uma personalidade conhecida no mundo inteiro.
Outros livros importantes de Bradbury são Crônicas marcianas (Martian chronicles, 1950), Algo sinistro vem por aí (Somethig wicked this way comes, 1952) e O vinho da alegria (Dandelion wine, 1957), além das coletâneas Os frutos dourados do Sol (The golden apples of the sun, 1953), O homem ilustrado (The illustrated man, 1951) e O país de outubro (The october country, 1955). Vários de seus contos estão entre os mais significativos da literatura mundial, devido a sua poética incomparável.
Suas histórias foram adaptadas para inúmeras outras mídias, principalmente o teatro, o cinema e a televisão. A melhor versão para os quadrinhos aconteceu nos anos 1950 pela lendária editora EC Comics de William Gaynes. Al Feldstein adaptou vários de seus contos, que foram ilustrados por grandes mestres como Frank Frazetta e Wallace Wood. Algumas dessas HQs foram publicadas no Brasil no início dos anos 1990 pela editora L&PM nos álbuns O papa-defuntos e O pequeno assassino.
O primeiro de seus livros aqui publicados foi O país de outubro, traduzido em dois volumes pela Editora GRD em 1963 e 1966, antologia que reúne alguns de seus contos mais destacados. Praticamente toda a sua obra foi traduzida no Brasil, sempre ficando em catálogo.
Bradbury tem creditado em seu nome cerca de 60 romances e mais de 600 contos, traduzidos no mundo inteiro. Recebeu diversos prêmios e homenagens, entre os quais estão o National Medal of Arts Award, World Fantasy Award, Prometheus Award, Stoker Award, SFWA Grand Master, Emmy Award e Sir Arthur Clarke Awards. Seu nome foi emprestado ao Science Fiction and Fantasy Writers of America para os prêmios da categoria Roteiro, e o autor ainda ganhou uma estrela na Calçada da Fama de Hollywood e uma citação especial ao Prêmio Pulitzer, em 2007.
Bradbury não foi um escritor convencional. Ele partia do princípio que o verdadeiro escritor não é aquele que escreve para viver, mas o que vive para escrever, como algo vital, necessário, terapêutico até. E isso é algo que não dá para ensinar como fazer, como se pode ver na coletânea de ensaios O zen e a arte da escrita (Zen in the art of Writing, 1990), publicado no Brasil em 2011 pela Editora Leya, em que o mestre resume a sua técnica criativa em uma frase brilhante: "Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é a sua vez. Pule!"

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Joe Kubert (1926-2012)

Todo mundo tem seus heróis. Alguns são astros de cinema, como Tom Mix e John Wayne, outros são personagens, como Superman e Batman. Mas os meus heróis sempre foram os desenhistas de quadrinhos. Os primeiros que elegi como modelos de excelência foram Russ Manning, Neal Adams e Gil Kane, artistas americanos que me mostraram como pode ser emocionante o trabalho linear. Mas foi com Joe Kubert que eu aprendi a admirar o estilo volumétrico, de traços relaxados e cheios de movimento e expressão. Passei a buscar por todos os trabalhos dele, como TarzanSargento RockGavião NegroTor Tomahawk, do qual ele fazia as maravilhosas capas. Chegou, afinal, a vez de dar o definitivo adeus a este talentoso e produtivo artista.
Joseph Kubert nasceu em 18 de setembro de 1926, na Polônia, em Jezierzany (atualmente em território ucraniano), filho de Etta e Jacob Kubert, que emigraram para os Estados Unidos ainda no mesmo ano, levando o pequeno Joe com apenas dois meses de idade. Kubert começou a desenhar ainda na infância, com o apoio dos pais.
Estudou na Manhattan's High School of Music and Art, onde conheceu muitos editores e colegas de traço. Conseguiu seu primeiro trabalho como desenhista aos 11 anos de idade e logo estava artefinalizando Archie, de Bob Montana. Começou a desenhar para a DC Comics em 1943, produzindo histórias para várias revistas da editora, especialmente o Gavião Negro, com o qual trabalhou por muitos anos. Foi um dos primeiros artistas a produzir hqs no processo 3D, em 1953. No mesmo ano, estreou seu próprio personagem, o homem pré-histórico Tor, escrito por Norman Maurer, e também produziu histórias avulsas para a Eclipse e a Marvel. A partir de 1955, fez para a DC histórias para O Príncipe VikingSargento Rock e O Tanque Assombrado.
Entre 1967 e 1976, ganhou grande notoriedade ao revitalizar para a DC o personagem Tarzan, criado nos livros por Edgar Rice Burrougs, que anos antes havia tido grande sucesso nos traços de Hal Foster e Brune Hoggart. Ainda nos anos 1960, fundou a The Kubert School, em Dover, New Jersey, onde instruiu seus filhos David, Danny, Lisa, Adam e Andy na arte do desenho. Adam e Andy tornaram-se também nomes importantes no campo dos quadrinhos. Por sua escola também passaram muitos artistas importantes, com Frank Thorne, Stephen Bissette, Thomas Yeates e Rick Veitch, entre outros.
Nos últimos anos, Kubert dedicou-se a trabalhos autorais, como Fax from Sarajevo (1996), ganhador dos prêmios Eisner e Harvey, Yossel: April 19, 1943 (2003), Jew Gangster (2005) e especial boneliano Tex: The Lonesome Rider, com roteiro de Claudio Nizzi, publicado com 2005.
Em 2006, voltou a trabalhar com Sargento Rock na minissérie Sgt. Rock: The Prophecy, escrita por Brian Azarello, e na minissérie Tor: A prehistoric Odyssey, publicada em 2008 pela DC. Também ilustrou, em 2001, o volume referente a Batman na minssérie Just Imagine, em que o gênio da Marvel, Stan Lee, recriou os personagens da DC.
Kubert esteve no Brasil pelo menos uma vez, em 1994, participando da Super-Hero ComicCon, um evento acadêmico em São Paulo, acompanhado de vários artistas dos quadrinhos, como Will Eisner e Howard Chaykin, entre outros.
Joe Kubert faleceu no dia 12 de agosto de 2012, aos 85 anos, em decorrência de um mieloma múltiplo.

Harry Harrison (1925-2012)

Henry Maxwell Harrison nasceu em 12 de março de 1925 na cidade de Stamford, Connecticut, EUA. Serviu na Força Aérea durante a Segunda Guerra e, quando foi dispensado, decidiu que queria ser ilustrador. Estudou com artistas importantes como John Blomshield e Burne Hogarth, fez amizade com Wallace Wood e com ele montou um estúdio de ilustrações e histórias em quadrinhos.
Harrison publicou em revistas como Weird Fantasy Weird Science, da EC Comics, e entre suas criações está a série Rick Random Space Detective. Certo dia em que não conseguia desenhar por causa de uma gripe, sentou-se à máquina de escrever e redigiu seu primeiro conto, “Rock diver”, que acabou por ser publicado na revista Worlds Beyond, em 1951. Começava ali sua bem sucedida carreira de escritor. Contudo, Harrison continuou a fazer quadrinhos e chegou a ser o principal roteirista das tiras de Flash Gordon ao longo dos anos 1960.
Seu romance de estréia foi Deathworld (1960), que se tornaria uma trilogia. Seus maiores sucessos foram a série de aventuras iniciada com o romance The stainless steel rat (1961), o romance West of Eden (1984), que teve duas seqüências, e a distopia Make room! Make room! (1966), que foi base para o longa metragem No mundo de 2020 (Soylente green, 1973), de Richard Fleischer, filme ganhador dos Prêmios Nebula e Saturn.
Em sua carreira como autor e editor, Harrison usou vários pseudônimos, como Felix Boyd, Leslie Cárteres, Hank Dempsey, Wade Kaempfert e Philip St. John, e manteve uma produtiva parceria com Brian Aldiss, com quem organizou diversas antologias importantes. Em 2009, Harrison recebeu o título de Grande Mestre da Science Fiction and Fantasy Writers of America.
Foi somente graças às editoras lusitanas que pudemos apreciar alguns dos livros de Harrison em português, pois no Brasil o autor teve apenas um único título traduzido, o romance Bill, o herói galáctico (Bill, the galactic hero, 1965), uma rasgada sátira ao subgênero space opera. Fora isso, teve alguns contos em antologias e revistas, principalmente no Magazine de Ficção Científica, da editora Globo, de Porto Alegre. Muito pouco para um autor que esteve entre os principais convidados do pioneiro Simpósio de FC realizado em 1969 no Rio de Janeiro.
Harrison morreu no dia último dia 15 de agosto, em sua residência, em Brighton, Inglaterra. Seu último livro foi The stainless steel rat returns, publicado em 2010.

Edmundo Rodrigues (1935-2012)

Infelizmente, 2012 nos obriga a dizer o último adeus a mais um dos mestres do quadrinho brasileiro, Edmundo Rodrigues, que ficou famoso por ilustrar a versão gráfica do popular personagem do rádio, Jerônimo, O Herói do Sertão.
Paraense nascido em 10 de janeiro de 1935, Manuel Edmundo Botelho Rodrigues iniciou sua carreira logo aos 14 anos de idade, no histórico semanário O Tico-Tico, e logo estava publicando também nas revistas Sesinho Vida Juvenil.
Mas foi na Editora Rio Gráfica, a partir de 1954, que seu nome se tornou conhecido, quando iniciou a produção dos quadrinhos de Jerônimo, O Herói do Sertão, criação de Moisés Weltman para histórias radiofônicas, numa série que teve mais de 60 edições.
Rodrigues também ilustrou muitos outros títulos da mídia, como Falcão Negro, de Péricles Leal, e 22-2000: Cidade Aberta, além de Antar O Vingador.
Ao longo dos anos 1960 e 1970, Rodrigues desenhou de tudo um pouco, como o faroeste O Máscara de Prata e o policial O Carrasco. Na ficção fantástica, fez Maja, a Mulher Vampiro e Irina, a Bruxa, ambas no gênero do horror, e a ficção científica Fantar, além de uma bem realizada adaptação do romance de Júlio Verne, 20.000 léguas submarinas. Também produziu muitas histórias de super-heróis, mistério e guerra para as principais editoras de quadrinhos da época, tais como Taika, O Livreiro e GEP.
Durante a breve passagem dos personagens Marvel pela Bloch, no final dos anos 1970, Edmundo Rodrigues foi contratado pela editora como diretor de arte, prosseguindo com quadrinhos nacionais depois que os enlatados americanos foram para outras editoras, publicando histórias de Julio Shimamoto, Flavio Colin, Eduardo Ofeliano, Eugênio Colonnese, Antonino Homobono e muitos outros, nas revistas DráculaAventuras de DidiHistorias Reais de LobisomemSpectremanCapitão MistérioMestre KimSexta-Feira 13 e Clássicos de Pavor, entre outras.
Com o fim da Bloch, em 1993, Rodrigues abandonou os quadrinhos e continuou trabalhando com ilustração editorial e publicitária, mas manteve o contato com seus muitos fãs, inclusive pelas modernas redes sociais.
Edmundo Rodrigues faleceu no dia 10 de setembro, ao 77 anos de idade.
Fontes: Universo HQ e Tudo Variado.

O incrível Cabeça de Parafuso e outros objetos curiosos, Mike Mignola

O incrível Cabeça de Parafuso e outros objetos curiosos, (The amazing Screw-On Head and other curious objects). Mike Mignola. 104 páginas. Editora Nemo, São Paulo, 2012.

O humor na ficção fantástica é um tema incômodo. De fato, o humor não é comum no ambiente literário, embora a situação seja bem diferente em outras artes, como o cinema, que está repleto de títulos que tratam os gêneros fantásticos com bom humor, indo da paródia escrachada à ironia tão sofisticada que muita gente sequer a entende. Na televisão não é incomum que a ficção científica, o humor e a fantasia sejam tratados de forma divertida. Nas histórias em quadrinhos o assunto também não é raro, embora seja desconfortável para certos leitores encararem seus personagens preferidos em situações cômicas, mesmo que de leve.
Por isso é tão interessante a leitura de O incrível Cabeça de Parafuso e outros objetos curiosos (The amazing Screw-On Head and other curious objects), obra autoral de Mike Mignola publicada no Brasil pela Editora Nemo.
O álbum reúne histórias curtas que Mignola produziu para publicações diversas, junto com algumas peças feitas especialmente para a edição. Os trabalhos têm o mesmo clima gótico e selvagem das histórias de Hellboy, mas o personagem de maior sucesso do autor não comparece em nenhuma delas.
E não é que Mignola é um hábil manipulador do humor? O que já podia ser vislumbrado nas histórias de Hellboy, aparece aqui com toda a sua criatividade, agregado ao já rico caldo de mistura de gêneros com o humor nonsense que, por falta de uma definição melhor, vamos classificar como humor negro.
A primeira história, que dá nome ao álbum, conta uma aventura – a única que Mignola fez até hoje – do agente secreto Cabeça de Parafuso, uma espécie de robô que troca de corpo conforme a necessidade da missão. Ele é convocado pelo presidente Abrahan Lincoln para recuperar o antigo Fragmento do Kalakistão, intraduzível manuscrito de Gung o Magnífico, roubado pelo Imperador Zumbi, gênio morto-vivo que almeja dominar o mundo, é claro. Esta história, publicada em edição única, ganhou o prêmio Eisner de Melhor Publicação de Humor em 2003.
A segunda peça da seleção é "Abu Gung e o pé de feijão", uma narrativa da juventude de Gung o Magnífico, releitura macabra do conto de fadas "João e o pé de feijão", originalmente publicada em 1998 na antologia Scatterbrain, da Dark Horse, especialmente redesenhada para esta publicação.
Em seguida, temos "O mágico e a cobra", curiosa adaptação para os quadrinhos que Mignola fez a partir de uma história criada por sua filha aos sete anos de idade. Conta sobre um mago, sua cobra e três sólidos simples. A história, também ganhadora do prêmio Eisner 2003 de Melhor História Curta, foi publicada originalmente em 2002 no álbum Happy endings.
 "A bruxa e sua alma" é a história curta de dois marionetes criados por uma velha bruxa que são amaldiçoados pelo demônio.
Em "O prisioneiro de Marte", a mais divertida de todas as histórias do volume, um homem relata animadamente aos amigos sua experiência com a morte e consequente viagem ao planeta Marte, onde frustrou os preparativos dos traiçoeiros alienígenas para uma invasão à Terra – citação óbvia ao clássico Guerra dos mundos, de H. G. Wells.
Completa a coletânea "A capela dos objetos curiosos", um tour visual por uma macabra exposição que reforça a tessitura intertextual dos contos publicados.
Além de tudo, o álbum traz um caderno de 11 páginas com esboços do autor, desenhos de concepção das histórias tão divertidos de olhar quanto as próprias hqs.
O incrível Cabeça de Parafuso e outros objetos curiosos tem 104 páginas em cores, encadernação em capa dura e preço sugerido de R$49,00. Uma obra de arte para quem gosta de humor incomum e principalmente para aqueles que são fãs do traço deste que é um dos maiores quadrinhistas da atualidade.
Cesar Silva

Astronauta: Magnetar, Danilo Beyruth


Astronauta: MagnetarDanilo Beyruth. 80 páginas. Cores de Cris Peter. Editora Panini, coleção Graphic MSP, São Paulo, 2012.

Astronauta: Magnetar é uma novela gráfica escrita e ilustrada pelo premiado quadrinhista Danilo Beyruth, releitura adulta para o conhecido personagem infantil Astronauta, criado por Maurício de Sousa.
Nessa história, o Astronauta está literalmente perdido no espaço, próximo a uma estrela de nêutrons, quando sua mente começa a lhe pregar peças, um perigo mortal para alguém que está a milhões de anos-luz do seu planeta natal.
Fruto direto dos experimentalismos autorizados por Sousa nos vários álbuns comemorativos aos seus 50 anos de carreira, Astronauta: Magnetar inaugura o selo Graphic MSP, publicado pela editora Panini Comics.
Que se pese o talento de Beyruth, reconhecido pelos seus trabalhos anteriores, Necronauta Bando de dois, o que realmente atrai a atenção neste trabalho é a chancela de Maurício de Sousa, empresário que tem prestigio de sobra para garantir o sucesso de tudo aquilo em que toca. Porque, ao fim e ao cabo, o que Beyruth nos apresenta é uma boa história de ficção científica, como muitas outras que já tivemos por aí e nunca interessaram a  ninguém para além dos mais atentos fãs do gênero. Leitores esses que vão perceber claramente a forte influência da espetacular série francobelga Valerian, de Pierre Christin e Jean-Claude Mézières que, sintomaticamente, nunca esteve na pauta dos editores brasileiros.
Além da aventura principal, o álbum traz um caderno de esboços de Beyruth e a primeira hq do personagem, produzida pelo próprio Maurício de Sousa. É, provavelmente, o mais significativo lançamento dos quadrinhos brasileiros em 2012.
Cesar Silva

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Artigo: Essencial 2012

Essencial 2012: Literatura
2012 terminando, acredito que dificilmente vai aparecer algum novo grande lançamento antes da virada do ano. Então, arrisco o balanço do que se publicou de essencial no Brasil em matéria de fc&f neste ano.
No que se refere à literatura estrangeira, relevância para A Companhia Negra, de Glen Cook (Record), com uma versão barra-pesada para a geralmente solene fantasia heróica a qual estamos habituados, e A máquina diferencial, de Willian Gibson & Bruce Sterling (Aleph), obra seminal da ficção científica que inaugurou a estética steampunk.
Também vale destacar 1Q84, de Haruki Murakami (Alfaguara), e Contra o dia, de Thomas Pynchon (Companhia das Letras), fantasias científicas pós-modernas com muitos apreciadores dentro e fora do fandom.
O ano foi fraco para as antologias estrangeiras mas, para não dizer que não falei delas, Ruas estranhas, de George Martin & Gardner Dozois (Casa da Palavra), que fica a meio caminho da chiclit, e ainda Realidades adaptadas, de Philip K. Dick (Aleph), que reúne os contos do autor que foram transpostos para o cinema, todos já vistos em outras traduções mas, ainda assim, bacanudos.
Na literatura brasileira, a lista essencial de 2012 tem os romances O alienado, de Cirilo Lemos (Draco) e Sozinho no deserto extremo, de Luiz Bras (Prumo), dois grandes livros de ficção científica com o melhor que o gênero tem a oferecer, de narrativas movimentadas e estilos maduros e incomuns.
Entre os romances de horror aparece Kaori e o samurai sem braço, de Giulia Moon (Giz), terceiro volume com a vampira preferida de uma escritora que tem provado ser a maior revelação do gênero no pais neste século. E entre os muitos romances de fantasia, gênero que predomina no ambiente editorial de fc&f, destaque para Além do deserto, de Erica Bombardi, trabalho de estreia publicado pela própria autora com recursos do Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo – Proac.
Entre as coletâneas, Trilhas do tempo, de Jorge Calife (Devir) coletânea de contos de ficção científica  publicados em revistas masculinas nos anos 1990, bem como a abrangente e provocativa Geração subzero, organizada por Filipe Pena (Record), reunindo contos de jovens autores brasileiros que agrega o mérito de ter veiculado o melhor conto publicado no ano: "A invenção do cânone", de autoria do próprio organizador.
Em não-ficção, vale dar uma olhada em Edgard Alan Poe: O mago do terror, de Jaenette Rozsas (Melhoramentos), uma biografia romanceada do poeta de "O Corvo", repleta de atrativos.

Essencial 2012: Quadrinhos
2012 foi bom para os quadrinhos estrangeiros de fc&f no Brasil. O destaque, vai para o memorável O Eternauta, de Héctor G. Oesterheld e Solano Lopez (Martins Fontes), obra-prima da ficção científica portenha que chegou ao Brasil mais de 50 anos depois de sua publicação original.
Também merecem destaque Pínóquio, de Winshluss (Globo), O incrível Cabeça de Parafuso e outros objetos curiosos, de Mike Mignola (Nemo), e Animal'z, de Enki Bilal (Nemo). Honra ao mérito para os encadernados Incal Integral, de Moebius (Devir) e Trilogia Nikopol, de Bilal (Nemo).
Quanto aos quadrinhos nacionais, a produção de 2012 foi apenas razoável. Mas vale comemorar o lançamento de Noites na taverna, de Reinaldo Seriacopi (Ática), ilustrado por um ótimo time de veteranos, adaptando o clássico romance de Alvares de Azevedo. E Astronauta: Magnetar, de Danilo Beyruth (Panini), com uma releitura dramática do conhecido personagem de Maurício de Sousa.
No finalzinho do ano, veio a notícia da publicação de V.I.S.H.N.U., novela de fc repleta de intenções, com roteiro do jornalista Ronaldo Bressane e desenhos de Fábio Cobiaco (Quadrinhos na Cia), que vale a pena ser destacada.
A medalha de Honra ao Mérito vai para o primeiro volume encadernado do 'mangaijin' Holy Avenger, de Marcelo Cassaro e Érika Awano (Jambô), compilação de uma série de histórias publicadas em revista própria nos anos 1990.
Percebe-se, nesta amostragem, que os quadrinhos deixaram definitivamente de ser um produto popular. Quase não há mais publicações voltadas às bancas e, quando o material é de qualidade reconhecida, a publicação é luxuosa e elitista. É possível afirmar que o mercado editorial de fc&f reduziu de tamanho em 2012, registrando uma queda de cerca de 50% na quantidade de lançamentos em relação a 2011, tanto no que se refere aos quadrinhos quando na literatura. Contudo, ainda é cedo para afirmar que isso seja uma tendência, pois é natural que ocorra um certo movimento de maré nos números de um ano para outro. 2013 já faz promessas e, como o mundo não acabou no temido apocalipse maia, podemos ter esperanças. Quem viver, verá.

Vaca profana: Encruzilhadas, Rogério Amaral de Vasconcellos


Vaca profana: EncruzilhadasRogério Amaral de Vasconcellos. 82 páginas. Prefácio de André Carneiro. Coleção Slev, Fase 1, nº zero.
Edição do autor, Rio de Janeiro, 2005.

O projeto Slev é conhecido pelos leitores brasileiros de ficção científica, pois é o projeto literário mais extensivo do escritor-fã carioca Rogério Amaral de Vasconcellos, colaborador frequente dos principais fanzines brasileiros de ficção científica e fantasia. Vasconcellos é formado em física e estreou em 2000 com o romance Campus de Guerra, pela Editora Writers.
A princípio, a sigla Slev significou "Suruba Literária Experimental Virtual", uma oficina de literatura criativa com foco de ação na internet, a partir de um saite que aglutinava vários escritores amadores. Em 2001, o projeto publicou seu primeiro livro, Idade da decadência: Inferno em Khallah, um romance em edição por demanda assinado por Vasconcellos e mais quatro autores, cujos manuscritos foram discutidos em conjunto dentro do projeto.
Depois disso, a Slev foi rebatizada para "Sistema Literário Experimental Virtual" e, também a partir da internet, iniciou outra fase de criação, propondo aos seus autores filiados um universo compartilhado com viagens no tempo e no espaço. Os resultados dessa atividade foram publicados pela Slev a partir de 2003, com nada menos que trinta volumes em edição virtual ­– os conhecidos e-books –­ sendo que os dois últimos saíram no início de 2005.
Vaca profana: Encruzilhadas, é o primeiro título dessa coleção a ganhar edição física convencional, em papel. Junto com o segundo título ­Vaca profana: A nave – só disponível em formato virtual – ­ forma a introdução básica que foi primariamente apresentada aos autores do projeto e que definiu personagens e parâmetros com os quais todos deveriam trabalhar. Nessa introdução, Vasconcellos apresenta doze personagens principais que apareceram sozinhos ou em grupo nas histórias que foram escritas posteriormente, sendo que em Vaca profana: Encruzilhadas, são apresentados seis deles.
O primeiro é Benedito Raimundo Alves da Silva, um bem sucedido corrupto brasileiro que, ao perceber que seu esquema está prestes a ser desmontado pela Polícia Federal, embarca num voo só de ida para Miami. Porém, no meio da viagem, percebe que algo estranho aconteceu com os demais passageiros: não são mais os mesmos que embarcaram com ele e o próprio avião é diferente. Num jornal ele descobre que não está mais em 2000, mas um ano adiante, mais exatamente no mês de setembro de 2001. Com a aeromoça ele se informa que o voo, um avião da American Airlines, não vai mais para Miami. Na verdade, ele não irá para parte alguma...
Depois conhecemos Nahed Al-Shamalia, indiano, navegador estelar comissionado na espaçonave Altamira em 2285, em missão no espaço profundo, que passa a ser acometido por delírios em torno de seu pênis, numa fantasia erótica de proporções cosmológicas.
Também somos levados ao planeta Giron'dha, no sistema Epsilon-Eridani. Ali vive uma raça de sencientes vegetais, entre os quais destaca-se a fêmea plebéia Zandra de Harboor, chefe de um projeto científico importante, que desperta a inveja do grão-duque Alguroom de Refroom. Este planeja e põe em prática um esquema maquiavélico para livrar-se dela e, ao mesmo tempo, herdar seu prestígio e poder.
Finalmente, conhecemos o criacionista russo Dimitri Diogovitch Rosenkovski e o evolucionista grego Andreas Nikolos Papandriou, arqueólogos rivais que discutem calorosamente durante uma escavação no deserto de Gobi, na Mongólia, em 1866. Eles mal têm tempo de reagir quando percebem-se atacados por uma manada de animais desconhecidos, verdadeiros elos perdidos na escala da evolução. As feras são predadoras e estão famintas...
Os fragmentos não chegam a se concluir e são alinhavados frouxamente por um interlúdio final que nos apresenta o Barqueiro e o Zelador, seres de origem desconhecida que cuidam das celas em que os abduzidos estão confinados. Onde, para quê e por quê não se esclarece neste volume, o que parece ser uma estratégia do autor para motivar a criatividade dos colaboradores do projeto Slev.
Como se vê, Vaca profana:­ Encruzilhadas tem ideias boas e o texto de Rogério Amaral Vasconcellos apresenta correção técnica e algum estilo, entretanto é pesado e difícil de ler. A narrativa sincopada repleta de derivações, que também caracteriza outras obras do autor, exige muito do leitor, tornando a leitura lenta e sem variações de ritmo. Esse estilo é muito utilizado por autores introspectivos e funciona bem em narrativas estáticas com solilóquios ou monólogos, mas prejudica as cenas de ação, que Vasconcellos usa com frequência.
Vaca profana:­ Encruzilhadas foi publicado ainda no primeiro semestre de 2005 e, desde então, Rogério Amaral de Vasconcellos não anunciou mais nenhum outro título da coleção no formato convencional, mas sabe-se que há interesse do autor em levar às livrarias todos os trinta volumes publicados virtualmente.
Cesar Silva

As horas claras, Alonso Alvarez


As horas claras, Alonso Alvarez. 224 páginas. Capa de Marcelo Cipis. Editora Ficções, São Paulo, 2012.

Um livro a se destacar entre os muitos lançamentos de 2012 é As horas claras, romance de fantasia juvenil do escritor paulistano Alonso Alvarez, sequência de O encanto da Lua Nova (2007, Ficções). Conta a história de cinco jovens amigos que moram no mesmo edifício e, a caminho da escola, percebem terem perdido suas sombras. Também é o primeiro dia de aula de Clara, uma nova aluna da classe dos garotos que acabou de mudar para o prédio deles, e logo vai se interessar pelo misterioso 11º andar, que não existe mas abriga uma porção de hóspedes fantásticos, como a feiticeira Annabel, os escritores Edgar Alan Poe, Rimbaud, Fernando Pessoa e Emily Dickinson, e os novos inquilinos, os cientistas Galileu, Ptolomeu e Newton, entre outros. Em busca de suas sombras, os meninos vão descobrir que esse mistério e muito mais complicado do que parecia a princípio.
Alonso Alvarez tem uma longa e bonita história na atividade editorial, foi livreiro, editor premiado, ilustrador e, finalmente autor, sendo que o já citado O encanto da Lua Nova foi selecionado para a 43º Bologna Children’s Book Fair. Também é autor de A paixão de A e Z: Uma história de amor no alfabeto (2010, Peirópolis) e Era uma vez duas linhas (2012, Iluminuras).
As horas claras tem 224 páginas e foi publicado pela editora Ficções com recursos do Proac 2011 - Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo.
Cesar Silva