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quinta-feira, 16 de abril de 2015

Dieselpunk: Arquivos secretos de uma bela época

Dieselpunk: Arquivos secretos de uma bela época, Gerson Lodi-Ribeiro, org. 384 páginas. Capa: Erick Sama. Editora Draco, São Paulo, 2011.

O hábito de montar seletas de contos e novelas parece mesmo ser um dos grandes prazeres do fãs de fc&f no Brasil. E, curiosamente, temos um critério próprio que permite que essas coletâneas sejam possíveis num mercado que praticamente não publica ficção curta de outra maneira.
De modo geral, antologias são montadas com textos já experimentados em outros veículos, principalmente revistas periódicas. É comum nos Estados Unidos, por exemplo, seletas do tipo “O melhor da nova fc” ou “O melhor do novo horror”, reunindo os textos de autores que estrearam nos últimos meses. No Brasil, isso é obviamente impossível, pois não há nenhum periódico a publicar ficção de espécie alguma. Os contistas não têm onde se exercitar – nem mesmo os fanzines existem mais – e a internet mostrou não ser a salvação da lavoura nesse quesito.
Dessa forma, a dinâmica aqui é abrir editais para que os autores submetam seus textos, inéditos ou não, ao crivo de um ou mais organizadores que vão escolher quais serão os textos adequados ao projeto. Debates quentes rolam cotidianamente nas redes sociais quando um e outro projeto de “antologia” se mostra um pouco mais mercantilista. Contudo, foi essa dinâmica que favoreceu o florescimento de uma indústria de antologias nacionais nos últimos três anos que, tal como os cogumelos, surgem da noite para o dia. Essas seletas são o que tem sustentado a ficção fantástica nacional neste período, mas não permitem que antologias reunindo “os melhores do ano”, por exemplo, sejam realizadas, uma vez que os textos ficam retidos por contrato com as editoras. A exceção são as antologias montadas a partir de material antigo, como aquelas organizadas por Braulio Tavares para a editora Casa da Palavra, e do Roberto de Sousa Causo para a Devir Livraria, algumas delas comentadas neste Almanaque.
Não é o caso de Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, organizada por Gerson Lodi-Ribeiro para a Editora Draco. Seguindo o molde de uma antologia anterior, Vaporpunk: Relatos steampunk publicados por ordem de Suas Majestades, lançada em 2010 pela mesma editora, Dieselpunk também se propõe ser uma seleção de textos de história alternativa. Se em Vaporpunk a tecnologia dominante deveria ser o motor a vapor, em Dieselpunk supõe-se que seja o motor a óleo diesel que vai mover as histórias. Como a tecnologia do diesel ainda está por aí, podemos imaginar que qualquer coisa moderna pode estar enquadrada na premissa. Pelo menos, sempre vejo nos postos de combustível, ao lado das bombas de gasolina, álcool e gás, uma de óleo diesel. Mas a ideia talvez não fosse bem essa, já que a maior parte dos autores selecionados trabalharam temas restritos às primeiras décadas do século XX.*
O texto que abre a seleção é “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, uma aventura de vingador mascarado ambientada nos anos 1930 de um Brasil no qual os princípios da União Socialista Soviética tornaram-se a política predominante. É claro que o Escorpião Azul vai enfrentar os comunistas.
“O grande G” é uma fábula tecnológica escrita por Tibor Moricz, que contrapõe duas metrópoles — uma movida a carvão e outra a diesel — que lutam pelo predomínio econômico. No lado do diesel, um feroz empresário faz uso de todos os instrumentos de que dispõe não só para manter sua cidade na liderança, mas também para satisfazer suas taras e manter o poder em suas próprias mãos. O texto é algo libertino na abordagem, mas de fundo extremamente moralista: “não façam isso em casa, crianças, ou vocês vão se dar mal.”
“O dia em que Virgulino cortou o rabo da cobra sem fim com o choço excomungado”, de Octávio Aragão, explora o confronto entre o bando de Lampião e a Coluna Prestes, que historicamente nunca aconteceu. Mas há mais na noveleta além do encontro destes dois mitos da história brasileira, entre os quais se incluem armas de tecnologias muito avançadas, pós-humanismo, viagens no tempo e um pouco de ufologia, Ou não. Trata-se de um bom trabalho, com muita ação e um final feliz.
“Impávido Colosso”, de Hugo Vera, é um épico ingênuo inspirado nos animes de robôs gigantes para contar como um Brasil monarquista, comandado pelo sucessor de D. Pedro II, enfrenta um infame ataque da Argentina à região sul do país. Enquanto o agressor usa um exército de autômatos mecânicos cedidos pelo Império Britânico, o Brasil defende-se com o experimental Impávido Colosso, um robô gigante projetado pelo engenheiro Rudolf Diesel e tripulado por uma bombshell paraguaia que é uma declarada homenagem à Larissa Riquelme, musa da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, uma entre muitas citações que acabam chamando mais a atenção do leitor do que a história em si.
O único conto não inédito da antologia é “Pais da aviação”, de autoria do próprio organizador, que já havia sido visto na antologia Vinte voltas ao redor do Sol, publicada pelo CLFC em 2005. Numa França em que Jules Verne é o presidente da República, Santos Dumont e os Irmãos Wright disputam a primazia de serem os primeiros homens a alçar voo num aparelho mais pesado que o ar.
O jornalista Antonio Luiz M. C. Costa participa com “Ao perdedor, as baratas”, um suspense político sobre um atentado à vida de um importante candidato a presidência num Brasil subdividido em repúblicas menores, inimigas entre si. A barata do título faz uma pontinha no final da história.
“Auto de extermínio”, do jovem fluminense Cirilo Lemos, é de longe o melhor texto da antologia e, arrisco dizer, um dos melhores contos da fc brasileira em todos os tempos. Bem escrito, com diálogos precisos, cenas empolgantes e personagens muito bem estruturados, a noveleta apresenta recursos mais que suficientes para ser expandida num romance. Até as citações são de uma engenhosidade inspirada e não perturbam a credibilidade da história, que gira em torno de Jerônimo Trovão, assassino de aluguel que se mete numa confusão maior do que pode administrar. A trama de várias frentes revela aos poucos a estrutura do rico universo alternativo que Lemos criou.
Outra noveleta ótima é “Cobra de Fogo”, do experiente roteirista Sidemar de Castro, um dos raros exemplos de ficção desportiva na fc brasileira. É o texto que melhor responde às propostas da antologia, com uma corrida mundial de super locomotivas, sendo M’Boitata, a tal Cobra de Fogo, a representante do Brasil nessa disputa que tem um ligeiro fundo político. Ecos de Esses homens maravilhosos e suas máquinas voadoras, filme de 1965 dirigido por Ken Annakin, reverberam em cada página da noveleta, que tem um sabor Golden Age bem ao gosto do leitor brasileiro.
O texto que fecha o volume é “Só a morte te resgata”, do português Jorge Candeias, único autor estrangeiro da antologia. A primeira metade da história é militar, com uma batalha aérea entre caças e dirigíveis, que depois é completada por um thriller de espionagem, no qual um sobrevivente da batalha narrada anteriormente tenta retornar para casa. Trata-se de uma história dramática, e uma breve notinha final acrescenta-lhe uma profundidade pessoal emocionante.
Graças à experiência e representatividade dos autores selecionados, Dieselpunk resultou numa antologia de qualidade média superior às seletas nacionais publicadas recentemente. Um caminho adequado caso se pretenda construir outras seleções de boa qualidade dentro das limitações do mercado brasileiro.
— Cesar Silva
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* Assim como a antologia anterior, esta reúne histórias de ficção científica recursiva, voltada para o passado.

Conan, o bárbaro, Robert E. Howard

Conan, o bárbaro (Conan, the conqueror), Robert E. Howard. 392 páginas. Tradução de Alexandre Callari. Capa de Alex Alprim. Selo Generale, Editora Évora, São Paulo, 2011.

Depois de quase um século, finalmente as editoras brasileiras parecem ter descoberto os atrativos da Weird Fiction, estilo narrativo desenvolvido em revistas pulp como a Weird Tales, editada em 1923 por J. C. Henneberger, em Chicago, EUA. Em 2011 chegou às livrarias brasileiras, pela Editora Évora, a coletânea Conan, o bárbaro, de Robert E. Howard, a reboque do lançamento da superprodução cinematográfica homônima, dirigida pelo alemão Marcus Nispel, remake do grande sucesso de 1982 estrelado pelo gigante Arnold Schwarzenegger. O livro traz alguns textos inéditos no Brasil deste personagem que é uma bem-sucedida franquia internacional, que se espalha por diversas mídias como o cinema, os quadrinhos, a televisão e os videogames.
Howard nasceu em dezembro de 1906, em Peaster, Texas, e nos breves 30 anos em que viveu, construiu uma saborosa mitologia ancestral, amálgama de histórias de guerras medievais com fantasias das Mil e Uma Noites, que hoje é conhecido como o subgênero Sword and Sorcery (Espada e Magia). Nessa versão delirante do passado da humanidade trafega Conan, guerreiro das montanhas geladas de algum lugar que parece ser o norte da Europa e que, no mundo criado por Howard, chama-se Ciméria. Aliás, Howard redesenhou o mapa do mundo, definindo um continente estranho, no qual se pode identificar versões de diversas culturas recentes, como os turcos, os árabes, os egípcios e até os romanos. A arquitetura descrita também se apoia nas desses povos, com uma boa dose de medievalismo europeu. Depois de bem cosida, Howard fixou essa mixórdia cultural numa época 12.000 anos atrás, 4.000 anos depois do desaparecimento da lendária Atlântida, que chamou de Era Hiboriana. O ambiente é tão rico que permitiu a criação de outros personagens, como o Rei Kull, que governou a Atlântida em seus últimos dias.
Quase todas as histórias de Conan foram escritas entre 1926 e 1930, e publicadas principalmente na Weird Tales. A primeira história impressa foi chamada “A fênix e a espada” (“The phoenix on the sword”),  publicada em 1932. A série original completa conta com apenas 21 textos, três dos quais publicados postumamente. Na década de 1950, o material foi republicado em forma de livro pela Gnome Press, e reeditado em 1966 com belíssimas capas ilustradas por Frank Frazetta, que lhe renderam o sucesso atual. Autores como L. Sprague de Camp e Lin Carter deram sequência às aventuras de Conan, algumas a partir de manuscritos incompletos posteriormente descobertos.
No Brasil, os textos de Howard foram pouco publicados. A primeira tradução que se tem notícia foi do conto “A fênix e a espada”, visto em 1973 no número 7 da revista Planeta (Editora Três), então editada por Ignácio de Loyola Brandão. Outro texto de Howard só iria aparecer em 1990: “O povo do Círculo Negro” (“The people of the Black Circle”), publicado na antologia Isaac Asimov Apresenta: Magos, os Mundo Mágicos da Fantasia (Editora Melhoramentos). Em 1995, a editora Mercuryo, pelo selo Unicórnio Azul, distribuiu nas bancas cinco volumes do periódico Conan: Espada e Magia, com uma seleção de histórias do bárbaro escritas por Howard e seus seguidores. No ano seguinte, a editora Newton Compton Brasil distribuiu, do mesmo modo, um volume com a novela Pregos vermelhos (Red nails), um dos maiores clássicos do personagem. Em 2006, a Editora Conrad publicou dois volumes somente com contos de Conan escritos por Howard, na sua sequência original.
Conan, o Bárbaro apresenta quatro textos: o já anteriormente visto “Os profetas do Círculo Negro”, mais os inéditos “Além do Rio Negro” (“Beyond the Black River”), “As negras noites de Zamboula” (“Shadows in Zamboula”) e “A hora do dragão” (“The hour of the dragon”).
O livro inicia justamente com “A hora do dragão”, que narra um episódio da vida madura de Conan, durante seu reinado na Aquilônia. Três nobres de segunda linha tramam com um feiticeiro para se colocarem no poder dos reinos da região da Aquilônia. Para isso, restauram a vida de Xaltotun, um poderoso mago do extinto reino do Pyton, fazendo uso de um objeto místico chamado Coração de Ahriman. Xaltotum usa seus poderes para tirar Conan do trono, mas seu objetivo é muito mais amplo do que esperam seus capangas: ele pretende restaurar o antigo poder de Pyton e dominar todo o mundo hiboriano. Enquanto os nobres mergulham a região num banho de sangue, o deposto Conan tem que lutar para sobreviver, descobrir uma forma de derrotar o poderoso Xaltotum e assim poder recuperar seu trono. Trata-se do texto mais longo que Howard escreveu com o bárbaro. Considerado como o único “romance” de Conan, “A hora do dragão” é, na verdade, uma novela de narrativa linear centrada no protagonista. A história é cheia de detalhes, com muitos personagens e as costumeiras cenas da batalhas grandiosas típicas das aventuras de Conan.
“Além do Rio Negro” é o texto seguinte, uma noveleta que mostra o herói num período anterior, quando ele ainda era um guerreiro errante. Embrenhado na selva, Conan se envolve em uma guerra de fronteira com os selvagens pictos, raça de homens primitivos e ferozes, liderados por um xamã sedento de vingança. Apesar de curto, é o texto mais denso do volume, com um forte clima claustrofóbico.
“As negras noites de Zamboula” é a narrativa mais curta da coletânea. Depois de escapar de uma armadilha engendrada pelo proprietário da hospedaria onde dormia, Conan conhece uma linda dama que o convence a resgatar seu amante das garras de um feiticeiro. Depois de algumas tribulações, Conan acaba aplicando sua costumeira justiça, inclusive contra o traiçoeiro estalajadeiro que tentara enganá-lo.
“Os profetas do Círculo Negro” fecha o volume, um texto com a mesma carga épica da novela inicial. Conan é o líder de um bando de salteadores das montanhas que tenta negociar com a milícia local a libertação de alguns de seus homens que foram capturados. Mas ele é atacado e, ao fugir, leva a rainha Jasmina de Vendhya refém. Esta, por sua vez, pede a ajuda de Conan para vingar seu irmão morto pelas artes mágicas dos Profetas Negros de Yimsha, necromantes que habitam uma fortaleza mística no alto das montanhas. Levado pelas circunstâncias, Conan não tem outra opção a não ser enfrentar esses seres, para salvar a própria vida e recuperar a liderança de seus homens.
Os textos têm tradução de Alexandre Callari, autor da casa pela qual teve publicado em 2011 o romance Apocalipse zumbi. Callari assina também a apresentação da coletânea, que tem prefácio do roteirista norte-americano Roy Thomas, comentando a adaptação do personagem para os quadrinhos, o que soa um pouco deslocado no contexto de um volume literário, especialmente para aqueles leitores que não acompanham os quadrinhos do personagem.
O livro ainda traz um caderno de oito páginas com imagens em cores do remake e a capa reproduz o cartaz do filme. O grande problema ao associar tão enfaticamente a publicação de um texto clássico como este a uma adaptação cinematográfica é a enorme possibilidade de que o filme seja mal recebido pela crítica e pelo público. E quando um filme não vai bem, seus subprodutos tendem a seguir-lhe a trajetória, o que seria uma pena no caso deste livro, que tem qualidades suficientes para sustentar-se. Afinal, se há um subproduto aqui, ele é o filme.
No momento em que títulos como O senhor dos anéis, Crônicas de Nárnia e A guerra dos tronos estão entre os mais vendidos das livrarias, é um ótima chance para Howard, que foi um daqueles que moldou a forma original da fantasia como gênero.
— Cesar Silva

terça-feira, 3 de março de 2015

A bondade dos estranhos, João Barreiros

A bondade dos estranhos, João Barreiros. 210 páginas. Capa: Verena Peres, sobre ilustração de Marcelo Tonidandel. Adaptação para o português brasileiro por Luiz Marcos da Fonseca. Tarja Editorial, São Paulo, 2011.

Um dos mais bem-vindos fenômenos da Segunda Onda da ficção científica brasileira foi o intercâmbio com os autores portugueses, efetivado inicialmente através dos fanzines brasileiros e robustecida pela presença de representantes brasileiros nos congressos de fc&f realizados em Portugal, eventos estes em tudo mais sofisticados que seus correlatos brasileiros, uma vez que contavam com a presença de ilustres autores anglófonos e até com a publicação de raras antologias bilíngues nas quais alguns autores brasileiros lograram estampar trabalhos. Essa convivência exigiu a criação do termo “ficção lusófona” para se referir aos trabalhos de fc&f em língua portuguesa, não importando a nacionalidade do autor. Hoje, essa convivência já não é tão próxima quanto foi nos anos 1990, mas ainda se observa em algumas antologias nacionais recentes.
De forma geral, a relação só trouxe benefícios para a ficção científica no Brasil, uma vez que os autores portugueses demonstram habilidade e sensibilidade superiores em relação ao trato da língua e do gênero, sendo bons exemplos de criatividade e técnica.
Entre os autores lusitanos que desenvolveram uma relação mais íntima com o fandom brasileiro está João Manuel Barreiros, que teve diversos trabalhos aqui publicados, em fanzines como o Somnium, Megalon e Scarium, alguns deles premiados. Por isso tudo, é surpreendente que tenha demorado tanto tempo para que um editor brasileiro percebesse o valor do texto de Barreiros.
A bondade dos estranhos está com toda a certeza entre os melhores textos de fc já publicados no Brasil, com altas doses de ação, aventura, emoção e maravilhamento, sem esquecer do estilo arrojado característico do autor. O romance foi publicado em Portugal em 2007 pela Escritório Editora e promete ser o primeiro volume de uma trilogia.
A narrativa é voluptuosa e sensual, repleta de um fremir ansioso por mais e mais, numa orgia de violência e escatologia. Mas não há sexo em A bondade dos estranhos. O apelo é muito mais básico: a fome e a gula.
Num futuro em que a Terra foi definitivamente colonizada por diversas raças alienígenas, vive Joana Mendes, uma adolescente que, quando criança, foi selecionada para participar do projeto experimental Candy-Man, que lhe legou uma habilidade empática especial, mas deixou sequelas psicológicas graves. Os danos causados pelo despertar das habilidades de Joana são usados como instrumento de chantagem para convencê-la a cuidar, durante 24 horas, dos filhotes de um dos mais altos dignitários de uma das raças alienígenas que agora dominam o planeta. A tarefa seria fácil, não fossem eles de uma espécie predadora cuja agressividade se manifesta mais abertamente durante a juventude.
O cenário desse futuro também não é dos mais alvissareiros. A Terra está dividida entre três raças alienígenas invasoras que são concorrentes entre si: os angsts e os spleens, ambos absolutamente misteriosos para a percepção humana; e os spiertvick’kaps, um tipo de escorpião gigante, também chamados de helloweens por causa de sua cabeça em forma de abóbora. Apesar das evidentes diferenças físicas e culturais, é a raça alienígena mais identificada com a percepção e psicologia humanas. A presença dessas raças no planeta causa inúmeras e imprevisíveis alterações no ecossistema e na biologia terrestres, suas genéticas interagindo com animais e plantas nativos, transformando o planeta num ambiente em efervescente mutação.
Para não ser ainda mais responsabilizada pela misteriosa tragédia que aconteceu quando do despertar de suas habilidades, Joana aceita o “convite” da embaixadora spiertvick’kap Vielmina Spratzt, que vai ausentar-se para uma conferência e precisa que alguém tome conta de sua ninhada de nada menos que 500 filhotes. Joana vai contar com a orientação e supervisão de Mr. Jeeves, um mordomo robô tão formal quanto rigoroso. Para ele, a jovem humana nada mais é que um grande aborrecimento.
Joana tem que usar toda a sua capacidade empática para se impor frente aos vorazes filhotes, o que por si já não é tarefa fácil. Mas não é tão simples assim. No processo, Joana descobre que nos bastidores da propriedade de Vielmina Prazt prospera algum tipo de conspiração, cuja necessidade é que ela não saia de lá viva, mas Joana está resoluta a não colaborar com o esquema.
O romance tem características cyberpunks óbvias, mas também apresenta contornos New Weird, sendo exemplo bem acabado do que há de mais moderno na ficção científica internacional, um caldo de informações tão abundante e rico que o leitor brasileiro, acostumado a dietas mais leves, pode ficar perturbado.
Não é por acaso. João Barreiros é um especialista em fc, dono de uma biblioteca invejável que parece ter lido integralmente. Além de escritor, é tradutor, editor e crítico, formado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Ganhou dois Prêmios Nova e é autor de alguns dos mais festejados romances de fc em língua portuguesa, como Disney no céu entre os Dumbos (E-nigma Pro, 2001), A verdadeira invasão dos marcianos (Presença, 2004), e o volumoso Terrarium: Um romance em mosaicos (Caminho, 1996), em parceria com o escritor português Luís Filipe Silva. Também publicou as coletâneas O caçador de brinquedos e outras histórias (Caminho, 1994), Duas fábulas tecnocráticas (do autor, 1997) e Se acordar antes de morrer (Gailivro, 2010).
Por tudo isso, A bondade dos estranhos é leitura obrigatória a todos aqueles que querem ter uma verdadeira experiência literária gnóstica e gastronômica. Se é que você me entende.
Cesar Silva

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política

Assembleia estelar: Histórias de ficção científica política, Marcello Simão Branco org. 408 páginas. Capa Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2011.

Depois de quase dois anos de trabalho entre os primeiros convites aos autores e o lançamento do volume, a antologia Assembleia estelar chegou bem mais parruda do que se imaginava a princípio, com quatorze textos, entre contos e noveletas, incluindo trabalhos dos importantes autores norte-americanos, Bruce Sterling, Orson Scott Card e Ursula K. Le Guin.
A ideia nasceu do envolvimento do organizador com a política, uma vez que Marcello Simão Branco, além de respeitado estudioso de ficção científica, é doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo e professor na Unifesp nessa disciplina. Nada mais natural, portanto, que se lançasse à tarefa de aproximar suas duas paixões. Branco editou por muitos anos o prestigioso fanzine de ficção científica e horror Megalon e organizou uma das mais importantes antologias temáticas brasileiras, Outras copas outros mundos, publicada em 1998 pela Editora Ano-Luz. Desde a suspensão do Megalon, em 2004, Branco vinha se dedicando exclusivamente ao Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, do qual é um dos autores, e sua volta à atividade editorial criou muita expectativa.
Política é um tema que sempre recebeu interesse dos autores de fc. Obras clássicas e maiúsculas no gênero, como Tropas estelares (Starship troopers, 1959) e Estranho numa terra estranha (Stranger in a strange land, 1961) de Robert A. Heinlein, O mundo de Zero-a (The world of Null-a, 1948), de A. E. van Voght, Admirável mundo novo (Brave new world, 1932) de Aldous Huxley, 1984 (Nineteen eighty-four, 1949) de George Orwell, A muralha verde (We, 1920), de Evgeny Zamiátin, e Os despossuídos (The dispossessed: An ambiguous utopia, 1974), de Ursula Le Guin, entre outros, atestam o vigor que o tema detém dentro do gênero. Contudo, no Brasil, há poucos exemplos nessa linha, e os que existem pertencem à produção de autores do mainstream, que o abordaram de maneira transversal e alegórica, como Zanzalá (1936), de Afonso Schmidt, Não verás país nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, Fazenda Modelo (1974), de Chico Buarque de Holanda, e Sombras de reis barbudos (1972), de José J. Veiga. Faltava mesmo que alguém demonstrasse que o tempo da censura e das perseguições políticas passou e podemos voltar a falar abertamente sobre política no Brasil, especialmente dentro do ambiente especulativo, que permite um leque amplo de abordagens criativas.
Além dos estrangeiros já citados, aos quais também se une o escritor português Luiz Filipe Silva, Branco selecionou textos de autores brasileiros cujos nomes já são bastante associados ao gênero, como André Carneiro e Daniel Fresnot. Contudo, a maior novidade da antologia é um texto do autor mainstream Fernando Bonassi, um verdadeiro achado do antologista.
O volume abre com um longo ensaio “Afinidades eletivas entre ficção científica e política”, do organizador, contextualizando a proposta e detalhando exemplos históricos na literatura estrangeira e nacional.
O primeiro conto é “A queda de roma, antes da telenovela”, de Luís Filipe Silva, um dos grandes nomes da fc lusitana, numa história sobre o ocaso do último político “à moda antiga”, ou seja, que atua num sistema representativo, uma vez que a atividade política se transferiu para uma nova tecnologia, não exatamente melhor conforme o ponto de vista.
Em seguida temos o excelente “Anauê”, de Roberval Barcellos, provavelmente o autor brasileiro mais politizado de sua geração. É uma história alternativa de um Brasil governado por uma ditadura nacionalista, visto através de um burocrata do Partido Integralista que tem de optar entre manter o seu status quo ou sua integridade moral frente a um terrível programa de higiene social.
“Gabinete blindado”, do veterano autor da Primeira Onda, André Carneiro, é o melhor texto da antologia. Com um estilo elegante e surpreendente, que muitos ainda acreditam não ser possível usar nos gêneros especulativos, Carneiro revive os Anos de Chumbo da ditadura militar, na história dos integrantes de um aparelho de guerrilha em plena operação.
“Trunfo de campanha”, de Roberto de Sousa Causo, é um texto do ciclo de Jonas Peregrino, space opera que o autor vem desenvolvendo em episódios espalhados por diversas publicações.  Aqui, Jonas tem que enfrentar as intrigas políticas de um figurão que quer se aproveitar de sua imagem de herói de guerra, numa história se assemelha às aventuras de espionagem ao estilo James Bond, porém com raios laser.
“Diário do cerco de Nova York”, do franco-brasileiro Daniel Fresnot, já é um clássico, visto na coletânea O cerco de Nova York e outras histórias (Alfa-Ômega, 1984). Conta a história de um escritor francês que tenta sobreviver em meio ao fogo cruzado da uma nova guerra civil nos Estados Unidos, que eclodiu depois que o prefeito da cidade de Nova York, apoiado por seus eleitores, decide descumprir ordens que recebe da União. A cidade é cercada por forças federais e atacada de forma avassaladora, o que a transforma numa reedição do gueto de Varsóvia.
Ataíde Tartari constrói uma alegoria às eleições majoritárias brasileiras de 2010 em “Saara Gardens”, na qual uma grande empresa tenta destruir o prestígio de uma candidata ambientalista que pode ser um grande problema, caso seja eleita.
Miguel Carqueija se apresenta com o curtinho “Era de aquário”, que não foge a seu estilo humorístico e irônico, sobre um tempo em que o esporte nacional brasileiro é assassinar políticos em atentados públicos.
Em “A evolução dos homens sem pernas”, Fernando Bonassi também investe na ironia e no humor para descrever os motivos que levaram os homens do futuro a desenvolverem mutações bizarras, mas talvez esses homens já estejam aqui, agora mesmo.
Assembleia estelar traz para os novos leitores a nova versão da noveleta “A pedra que canta”, de Henrique Flory, originalmente visto na coletânea de mesmo nome publicada pela Editora GRD em 1991. Trata-se da história de um jovem que recebeu um implante especial e pode literalmente fazer a “pedra cantar” numa ação que vai acabar com a guerra entre o Brasil e a Argentina.
Em “O dia antes da revolução”, Ursula K. Le Guin volta ao universo de seu romance Os despossuídos com uma prequela que mostra os últimos dias de Laia Odo, pensadora política que construiu o sonho anarquista de Anarres. Tal como o romance, este conto foi premiado com Hugo e Nebula, e é certamente o texto mais importante desta antologia. O conto foi originalmente visto em 1974 na revista Galaxy e recebeu tradução de Roberto de Sousa Causo.
A Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira está aqui representada por “O grande rio”, do autor mineiro Flávio Medeiros Jr, que elaborou uma ucronia intrincada para contar sua versão do assassinato do presidente John F. Kennedy.
O texto mais longo da antologia é a novela “O originista”, de Orson Scott Card, que também investe numa prequela, porém não de um romance próprio como fez Le Guin, mas ao clássico Fundação, de Isaac Asimov. O texto fez parte da antologia Foundations friends, organizada em 1989 por Martin H. Greenberg. Conta, de forma muito íntima, como o intelectual Hari Seldon, criador da Fundação e da Psico-História, desenvolveu o plano secreto de resistência ao governo totalitário do Império Galáctico a partir de um gigantesco mecanismo de pesquisa eletrônica que se parece muito com o Google moderno. A tradução é de Carlos Angelo.
“Questão de sobrevivência”, um dos textos mais publicados do escritor jundiaiense Carlos Orsi, também se insere no conflito entre um grupo de resistência e um governo totalitário.
A chave de ouro que fecha a antologia é “Vemos as coisas de modo diferente”, conto do papa cyberpunk Bruce Sterling, originalmente publicado em 1989 na coletânea Semiotext[e] sf.  A história faz uma extrapolação do conflito ocidente-oriente contando sobre um jornalista de um próspero mundo árabe que vem aos Estados Unidos – que está mergulhado em uma profunda crise econômica – para entrevistar um superstar do rock. A tradução é de Roberto de Sousa Causo.
Como se vê, trata-se de um livro de peso, tanto pelos autores quanto pelos textos reunidos, sendo uma das mais importantes antologias de ficção científica publicadas no Brasil nos últimos anos.
Cesar Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

B9, Simone Saueressig

B9, Simone Saueressig. 314 páginas. Novo Hamburgo: Editora Clube de Autores, 2011.

Simone Saueressig é uma das mais ativas e bem-sucedidas autoras brasileiras de ficção científica e fantasia. Vencedora de prêmios literários de prestígio, como o Nestlé em 1988, publica seus livros regularmente ano após ano, a maioria deles por editoras do seu estado de origem e residência, o Rio Grande do Sul. O Anuário já resenhou outras de suas obras em edições anteriores e este livro apresenta algumas diferenças em relação aos outros. É, salvo engano, o seu trabalho mais longo, um romance, e é de FC, além de ter sido publicado primeiramente em capítulos num blog na internet para só depois aparecer impresso e de maneira praticamente independente.
Mas talvez a principal característica de sua obra mantenha-se: é uma história endereçada ao seu público preferencial: os jovens. Mas, como em outros de seus escritos, não se destina exclusivamente a eles; é rico e complexo o suficiente para ser lida com seriedade e prazer por pessoas de qualquer idade.
Mais desenvolta e prolífica em histórias de fantasia de recorte brasileiro e, vez por outra, com elementos sobrenaturais, a autora com b9 inverte essa orientação ao apresentar uma história de moldura clássica de ficção científica. O romance mostra uma nave de gerações chamada nca 4468 em missão à estrela Gliese 581, onde um planeta em órbita deverá ser colonizado. Pouco antes de chegar ao destino, porém, a nave é atingida por um cinturão de asteroides inesperado e, avariada, é conduzida à órbita da estrela mais próxima, um sistema binário. Mas o detalhe nem um pouco insignificante é que a estrela principal é, na verdade, um buraco negro que, num breve espaço de tempo, deverá tragar a nave em suas entranhas.
O palco para um bom romance hard de fc já estaria bem armado, mas o foco da autora é outro. O verdadeiro drama no interior da nave não é apenas tirar a nave do perigo, mas contar a história de b9. Mas quem é b9? Depois do acidente, o pai de duas crianças morre e quem passa a cuidar delas é o avô, o comandante da nave, Oliver Carges. Só que o sujeito está longe do padrão de retidão moral e liderança carismática tão comum em histórias do gênero. Carges é autoritário e sexualmente pervertido, praticando orgias e não poupando nem seus netos. Engravida a neta Sofia e estupra o neto Douglas. Com medo e vergonha, o menino foge para o interior semi-abandonado da nave. E recomeça sua vida de forma anônima, simulando mesmo que esteja morto. E assim nasce b9, o nome tirado de uma jaqueta que antes pertencia a um homem que o ajudou e veio a falecer.
Devido a um problema no sistema de comando da nave, o comandante Oliver não é mais reconhecido pelo computador central para poder pilotar a nca para fora do buraco negro. E o segundo em comando é justamente b9, o seu neto. Começa, então, uma busca por seu paradeiro. Tanto pelo comandante, como por sua irmã, que deseja saber, antes de mais nada, se Douglas está vivo e é possível tentar resgatá-lo.
O romance é intenso e com muita ação. De saída chama a atenção em suas primeiras páginas a objetividade e poder de concisão em sintetizar o enredo. Admirável. Mas é só o começo de um livro protagonizado por personagens jovens, mas que discute de forma profunda temas delicados e polêmicos: a violência covarde contra os frágeis, e ainda perpetrada por aqueles que deveriam servir de modelo moral e provedores de segurança.
Simone é habil em conduzir a história de ritmo ágil, ao mesmo tempo em que insere estas questões como leitmotifs da narrativa. E nisso a figura de Douglas Carges/ b9 serve como condutora, na própria dúvida existencial do menino violentado e do jovem que luta por uma nova identidade que apague sua dor e vergonha, mas sem que ele tenha noção integral do que vai se tornar quando amadurecer, se é que vai.
O cenário temático é de ficção científica, mas as questões realmente discutidas no livro são de interesse para qualquer cidadão ou pai de família cioso de como é importante proteger crianças e jovens de violências provocadas por adultos: estupradores e pedófilos que permeiam a sociedade e podem estar mais perto do que imaginamos.
Apesar do enfoque estar centrado na busca do paradeiro de Douglas, e das questões subjacentes embutidas na violência que ele e sua irmã sofreram, Saueressig não descuida do ambiente em que a história é contada, e este é, de fato, um dos raros livros brasileiros de fc ambientados inteiramente dentro de uma astronave. Assim, de maneira não muito detalhada, mas não descuidada, é narrado como a nave produz alimento, água e oxigênio, além de seu sistema de higienização. Elementos que só funcionam bem próximo da ponte de comando, pois à medida que se afasta, a situação geral vai se deteriorando. E é lá, nos chamados arrabaldes, que Douglas torna-se o incógnito adolescente b9, que vive de bicos, arrumando sistemas elétricos avariados.
A tripulação precisa de b9, Sofia também e até o seu avô. Todos por motivos diferentes, o que só entremeia os dramas e demandas pessoais particulares num cruzamento com os próprios dramas de b9. Assim, a narrativa é conduzida como que rumo à realização dos desejos de cada um, em que, claro, b9 será o ponto principal da resolução do romance. Mas tudo isso só será possível — se é que é — como parte da construção da identidade do próprio Douglas, da sua redenção depois da violência que sofreu. Nesta busca interna e particular do protagonista é que o romance ganha sua maior relevância.
Talvez a trama tenha se centrado em demasia nos dramas de cada personagem e deixado de lado um componente vital: a própria sobrevivência da nave. Ficou a impressão de que tudo seria resolvido apenas pela volta de Douglas, mas isso não soa muito verossímil. Podíamos esperar mais de uma tripulação de nave estelar para resolver um problema técnico de sobrevivência, sem depender em demasia de um só personagem.
No início do romance, informa-se que a nave orbita 14 dias pela estrela secundária e dois pelo buraco negro. Neste período de total escuridão, as pessoas passam a compartilhar os sonhos quando adormecem, num fenômeno onírico não explicado. Esta peculiaridade poderia ser mais explorada, embora ela seja citada como parte das experiências dos personagens ao longo da história.
Talvez por ter sido publicado de forma independente, o livro ressente-se de uma boa revisão. Em várias páginas trechos ficam truncados pela falta de uma preposição, ausência de pontuação ou por palavras grafadas de forma incorreta. Não atrapalha a leitura, já que ela é absorvente, mas exatamente por isso o texto merecia um trabalho mais profissional de revisão.
Se em termos de qualidade, a ficção científica brasileira se notabiliza mais pela ficção curta (contos e noveletas), b9 candidata-se, desde já, a estar entre os bons romances do gênero escritos no país. Pois Simone nos apresenta uma obra madura em suas especulações e segura em sua construção narrativa. E ainda mais importante, é uma história que pode interessar não apenas ao leitor de fc, mas por qualquer pessoa, por abordar de forma hábil um tema polêmico e necessário.
— Marcello Simão Branco

domingo, 25 de janeiro de 2015

Os melhores romances brasileiros da fc

Há algumas semanas, conversando com meu colega de Anuário, Marcello Branco, discutimos a respeito dos melhores romances da ficção científica brasileira. Esta é uma daquelas discussões difíceis, porque passa por muitas definições nem sempre possíveis, especialmente em se tratando de ficção científica, além da definição de romance que, no Brasil, tem a ver com a forma narrativa e, nos EUA, com o tamanho físico do texto. Como me importo muito pouco essas definições, vou fazer aqui um levantamento do que, na minha opinião, está entre o melhor que os autores brasileiros de ficção fantástica já produziram.

Por uma questão de pioneirismo, inicio a lista com O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emilio Zaluar, embora não seja ficção científica na minha opinião – pelo menos não mais do que A volta ao mundo em 80 dias, de Julio Verne. O romance, resenhado no Anuário 2007, conta sobre uma expedição científica ao planalto central, movida por um intelectual do Rio de Janeiro em busca da prova da habitabilidade do Sol, que acaba acontecendo apenas numa visão do protagonista depois de avistar a queda de um meteoro. O mais interessante da história toda é a descrição da natureza da região central do Brasil que, se não é exata, pelo menos é inspiradora.
Ainda que muita gente torça o nariz, eu não tenho nenhum pudor em relacionar a novela "O alienista" (1882), de Machado de Assis, como uma das mais importantes obras da ficção científica brasileira. Muito antes da New Wave, Machado já especulava sobre as ciências humanas - no caso, a psicologia, que só seria tema da FC internacional mais de 50 anos depois dele. Resenhada no Anuário 2008, em homenagem ao centenário da morte do autor, a novela conta sobre a decisão de um respeitado médico psiquiatra em compreender a mente humana e extirpar dela toda e qualquer loucura. Para isso, instala uma clínica numa pequena cidade interiorana e começa a realizar seus estudos com a população local. Os considerados loucos eram imediatamente trancafiados e submetidos ao tratamento experimental do médico. Aos poucos, toda a população da cidade acaba aprisionada no manicômio.

Outro romance a ser registrado é o excelente A Amazônia misteriosa (1925), de Gastão Crulz, que li há poucas semanas e será resenhado no Anuário 2010. Em muitos apectos, parece-se com o romance de Zaluar, com amplo destaque para a descrição da natureza amazônica, especialmente sua geografia, que o autor executa com maestria. Contudo, Crulz avança vigorosamente na ficção científica ao instalar, no meio da selva, uma aldeia na qual vive um importante cientista europeu que ali desenvolve um trabalho secreto, no qual utiliza os animais e a população nativa da região. Qualquer semelhança com A ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, não deve ser coincidência.

O escritor modernista Menotti Del Picchia emplaca dois títulos nesta lista. A filha do inca (1930) e Kalum (1940), ambos passados mais ou menos no mesmo universo. Também são histórias que ocorrem em meio à floresta tropical da região centro-oeste, porém Del Picchia não se dedica com tanto afinco a descrever o ambiente e investe mais e melhor nos personagens e nas situações de ação. Em A filha do inca, os sobreviventes de uma expedição científico-militar dizimada por um ataque indígena, descobrem uma cidadela perdida onde habita uma civilização de robôs, descendente de antigos navegadores fenícios que chegaram à América centenas de anos antes de Colombo.

Em Kalum, novamente às voltas com uma tribo agressiva de índios, o sobrevivente de uma equipe de filmagens acaba por encontrar uma civilização de homens minúsculos vivendo nas profundezas de uma caverna. Ambos os livros foram comentados no Anuário 2005.

Por ser o mais polêmico romance de toda a FCB, O presidente negro (1926), de Monteiro Lobato, tem que ser lembrado. É racista, mas é relevante. Conta a história de um jovem escriturário meio boçal que, depois de uma acidente automobilístico, é socorrido por uma jovem cientista que está pesquisando a história do futuro através de um equipamento chamado porviroscópio, inventado por seu pai, um cientista de renome. Nesse futuro, os EUA elegem o primeiro presidente negro, criando um grande problema político para a civilização. O livro foi resenhado no Anuário 2006.

Uma das obras primas da ficção científica brasileira é Zanzalá (1936), de Afonso Schmidt, FC de primeira linha, com tudo o que o gênero tem direito: futuro distante, tecnologia extrapolada, utopia e um movimentado conflito militar. Conta a história de um casal que se muda para um povoado utópico encravado nas encostas da Serra do Mar. Ali, vivem em perfeito idílio e comunhão total com a natureza e com seus semelhantes. Porém, a felicidade desse povo não é vista com bons olhos pelos povos bárbaros no norte que, a certa altura, atacam o povoado com toda a sua potência bélica. Sem dúvida, uma obra de fôlego que merece ser lembrada. O romance foi resenhado no Anuário 2006.
Li O homem que viu o disco voador (1958), de Rubens Teixeira Scavone, quando ainda era muito jovem, mas ainda me lembro de um conjunto de impressões muito fortes. Trata-se de um romance poderoso, que investe nos mistérios da ufologia que, na época em que o livro foi escrito, ainda não havia se tornado a paraciência que é hoje. Scavone era um autor sofisticado, senhor de um estilo erudito, por isso ao publicar o romance pela primeira vez, assinou como Senbur Enovacs, um segredo de polichinelo, pois trata-se apenas do seu próprio nome escrito ao contrário, mas resultou. O livro foi bem recebido e todos ficaram curiosos sobre a origem do autor, que se acredita ser possivelmente tcheco. Mais tarde, quando o livro foi republicado – e o foi diversas vezes – passou a assinar com seu verdadeiro nome. O tema da ufologia não é muito caro à ficção científica, há inclusive algum preconceito, mas no Brasil trata-se de um tema recorrente e muito produtivo, do qual este romance é seu mais importante representante. O homem que viu o disco voador foi resenhado no Anuário 2008. Contudo, este não é o mais significativo trabalho do mestre.

Sua obra prima é O 31º peregrino (1993), uma novela também com viés ufológico, que se apropria do estilo de Os contos de Canterbury, obra do século XV do escritor inglês Geoffrey Chaucer. Scavone insere um 31º personagem a peregrinação à Catedral de Cantuária, uma mulher grávida e amaldiçoada que desequilibra o grupo. Ela sofre um destino trágico depois que testemunha o aparecimento de uma estranha luz no céu. A novela é forte e impactante, certamente uma das melhores obras da FC em língua portuguesa, resenhada no Anuário 2007.

Jerônimo Monteiro foi certamente a personagem principal daquela que chamamos a Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira. Monteiro organizou toda a sua carreira em torno da ficção fantástica, como autor e editor, e entre seus muitos escritos importantes está o romance Fuga para parte alguma (1961), que conta a história do fim da civilização, vitimada pelo avanço de um outro ser vivo, melhor preparado para ocupar o ecossistema terrestre: a formiga. Suas imensas cidades subterrâneas, construídas sob as cidades humanas, acabam por destruir toda a infraestrutura da superfície, obrigando os humanos a saírem delas e procurar por lugares onde os vorazes insetos não possam chegar, o que parece impossível. Uma autêntica ficção científica aos moldes daquela praticada nos EUA, que ainda hoje é uma leitura perturbadora.
Um dos mais expressivos autores da fantasia brasileira foi, sem dúvida alguma, o goiano José J. Veiga. Suas histórias invariavelmente seguiam os caminhos do mistério e das coisas estranhas e não explicadas. Para Veiga, a fantasia era um modo de desnudar a alma de suas personagens, revelando os aspectos sombrios e insuspeitos das relações humanas.

Praticamente todos os seus romances são clássicos da fantasia e, entre eles, temos alguma FC, talvez um tanto alegórica para o gosto dos fãs mais empedernidos, mas nem por isso menos ficção científica do que se pode desejar. A hora dos ruminantes (1966), resenhado no Anuário 2006, conta a história de um pequeno povoado que, certo dia, percebe que uma grande operação está sendo realizada em suas redondezas. Muitos caminhões e trabalhadores chegam ao local, mas não há interação com os moradores, que ficam cada vez mais curiosos. Não se sabe o que se trata a tal operação, mas ela traz consequências dramáticas para a cidade, coisas das quais nunca mais poderão ser esquecidas.

Outro romance poderoso de Veiga é Sombras de reis barbudos (1972), a história mais FC do mestre. Trata-se de uma distopia política, aos moldes de 1984, de George Orwell, em que as pessoas de uma determinada comunidade são encarceradas em suas casas por altos muros e uma polícia política tão implacável quanto sem objetivo.

Veiga não esteve associado a nenhum grupo de FC&F, mas produziu alguns dos melhores textos do gênero e chegou a flertar com a história alternativa antes que qualquer outro brasileiro tivesse pensado em fazê-lo. Em A casca da serpente (1989), Veiga traça uma linha histórica alternativa para a Guerra de Canudos, na qual Antônio Conselheiro não morre. Uma premissa muito instigante, com certeza.

Outra história de ficção científica alegórica e perturbadora é Asilo nas torres (1979), de Ruth Bueno. Resenhada no Anuário 2009, é uma novela com um criativo tratamento formal. Conta a história de duas mulheres em tudo opostas, que vivem à sombra de três altíssimas torres que abrigam uma repartição pública industrial, onde praticamente todos trabalham. Não há, aparentemente, mais nada na vida das pessoas além do que as próprias torres, e todos vivem em função delas. Aos poucos, as duas mulheres vão sendo confrontadas, com um final poético e redentor.

Dentre os grandes autores da primeira onda da ficção científica brasileira, um dos poucos que ainda está vivo é André Carneiro. Como todos os outros, a obra de Carneiro é mais retumbante na ficção curta, mas ele tem pelo menos um romance muito significativo, Piscina Livre (1980), resenhado no Anuário 2005. A história fala de uma utopia sexual futurista, na qual os tabus foram superados e as mulheres usam livremente os serviços da Piscina Livre, uma espécie de prostíbulo masculino onde as mulheres podem gozar momentos de satisfação com andróides especialmente desenvolvidos para esse fim. Mas nem tudo é perfeito nesse futuro de total liberdade sexual. Um romance importante que resume perfeitamente as ideias deste que é o mais feminista autor da FC brasileira.

Na minha opinião, o melhor de todos os romances da ficção científica em língua portuguesa é o incisivo Não verás pais nenhum (1981), de Ignácio de Loyola Brandão, extensamente comentado no Anuário 2006. Parte de um projeto do autor, iniciado com o romance Zero (1975), Não verás país nenhum é uma distopia que acompanha os descaminhos políticos e econômicos de um país em que a ditadura militar se perpetua, cometendo absurdos sobre absurdos, tudo testemunhado por um protagonista impotente que tenta sobreviver me meio ao caos. Deveria ser leitura obrigatória para o vestibular. Infelizmente, é o único romance de FC de Brandão, que tem alguns contos muito bons também.
Padrões de contato (1985), de Jorge Luiz Calife, é a nossa melhor hard fiction já publicada. Comentado no Anuário 2005, o romance narra a história de uma jovem que, depois de contatada por uma entidade alienígena, torna-se imortal, e dessa forma, testemunha toda a história do futuro, na qual a humanidade se lança às estrelas. O romance teve duas sequências, Horizonte de eventos e Linha terminal que, em 2009, foram reunidas num único volume pela editora Devir Livraria, uma ótima oportunidade para os leitores experimentarem a totalidade dessa que é a mais vultosa obra da ficção científica brasileira, que muitos especialistas consideram a pedra fundamental da Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira.

Blecaute (1986), de Marcelo Rubens Paiva, também é um título que merece estar nesta lista. A prosa naturalista e cheia de estilo de Paiva contribui para o estranhamento da história de três jovens espeleólogos que, ao voltarem de sua última exploração subterrânea, encontram a cidade de São Paulo completamente paralizada, com todas as pessoas congeladas como manequins. Trata-se de um dos maiores sucessos editoriais da ficção científica nacional.

Mais ousado que Paiva, o escritor franco-brasileiro Daniel Fresnot foi extremamente feliz ao escrever A terceira expedição, de 1987 (republicado em 2013 pela Devir Livraria), com toda a certeza, o melhor romance de toda a Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, comentado no Anuário 2007, quando completou vinte anos de publicação. Fresnot conta a aventura de um grupo de moradores do interior de São Paulo, sobreviventes de uma hecatombe mundial, que realizam uma expedição às ruínas da capital do estado. As descrições que Fresnot faz das regiões metropolitanas em total abandono são fortes e emocionantes, especialmente para quem conhece a cidade.

O escritor mineiro Luis Giffoni, que tem sua obra mais vinculada ao mainstream, brindou os leitores com seu intrigante Infinito em pó (2004), uma história sobre uma espaçonave gigante numa jornada de décadas rumo a uma estrela distante. Os tripulantes têm uma relação tensa e complicada, com uma verdadeira espada de Dâmocles sobre suas cabeças: uma mini buraco negro, que é a fonte de energia da espaçonave, mas que também pode destruí-la. Giffoni não faz conceções para uma narrativa fácil: o primeiro diálogo do romance via acontecer apenas por volta da página 100. Mas vale a pena acompanhar a história até o final, pois é um dos raros exemplos de um romance brasileiro sobre uma espaçonave de gerações. O trabalho foi resenhado no Anuário 2004.

Quintessência (2004), de Flávio Medeiros Jr., foi uma grata surpresa e foi resenhado no Anuário daquele ano. Estreia literária do escritor, é um movimentado tecnotriller com elementos de ficção científica muito bem posicionados. Medeiros aproveitou sua origem mineira e instalou a história em uma Belo Horizonte da segunda metade do século XXI. Depois de um atentado fatal num shopping center, o detetive que investiga a ação é arrolado como mandante, e isso vai levá-lo a um torvelinho de situações, com fugas e perseguições dignas de um filme hollywoodiano.

Domingos Pellegrini é outro autor mainstream que se aventurou na ficção científica com ótimos resultados. Não somos humanos (2005), comentado no Anuário 2005, é um romance sobre a escravidão, desta vez a de pessoas geneticamente manipuladas para esse fim. Um jovem casal de escravos foge da fazenda de seus proprietários e, depois de muita luta, encontram uma espécie de quilombo em meio às montanhas. Ainda que a vida ali não fosse fácil, era bem melhor que aquela que eles levavam na fazenda, e eles resolvem ficar por ali. Contudo, como os senhores mantém seus capitães do mato em ação, a comunidade de escravos fugidos vai ter que se envolver mais efetivamente com um movimento de libertação que de desenvolve nos bastidores das grandes cidades.

A ira da águia (2006), do médico carioca Humberto Loureiro, também foi uma boa surpresa. Trata-se de um romance ousado, com vários níveis narrativos, que conta a história de um físico brasileiro que cria uma arma tão poderosa que pode colocar o Brasil na liderança política mundial. Quando um pequeno navio brasileiro põe a pique uma poderosa força-tarefa norte americana, o serviço secreto dos EUA convence-se de que é fundamental conseguir os segredos dessa arma misteriosa, custe o que custar, pois está em jogo o seu predomínio no mundo. O livro foi resenhado no Anuário 2006.

Autor formado durante a Segunda Onda da Ficção Científica Brasileira, Roberto de Sousa Causo exercitou-se um bocado nos fanzines ao longo dos anos 1980 e 1990. Contudo, apesar dessa longa experiência com o gênero, sua literatura tem crescido ainda mais depois que começou a publicar regularmente no mercado editorial. O par: Uma novela amazônica (2008), é um de seus trabalhos mais maduros e intensos, foco de vários de seus temas preferidos, especialmente a vida militar, alienígenas e as profundas matas da Amazônia. Neste romance, um soldado desertor experimenta um contato imediato com um ovni e a partir disso desenvolve um abscesso na perna esquerda, de onde, depois de algum tempo, surge uma jovem que lembra a sua antiga esposa. Juntos, eles continuam a fuga e vão encontrar um acampamento de contrabandistas que pode ser o final de sua jornada. O romance venceu o concurso Projeto Nascente 11, promovido pela Universidade de São Paulo em 2001.
A excelente escritora gaúcha Simone Saueressig publicou em 2011, pela editora Clube de Autores, o interessantíssimo romance B9 (anteriormente desenvolvido em forma de folhetim na internet), que conta os dramas de um grupo de jovens tripulantes de uma espaçonave encalhada na órbita de um buraco negro, um trabalho detalhado e denso, avaliado pelo Anuário como o melhor livro de fc naquele ano.
Encerro aqui este artigo, porém sem fechar a lista. Há ainda muitos livros que não li e que merecem ser citados; a cada ano, renovo a esperança por um novo grande trabalho da ficção científica brasileira. E, geralmente, não me frustro.
Cesar Silva

Lobato e a eugenia

Ao longo do mês de novembro [de 2011], uma polêmica esdrúxula inundou as redes de relacionamento, quando o CNE - Conselho Nacional de Educação, decidiu recomendar que Caçadas de Pedrinho, livro do ciclo do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, originalmente publicado em 1933, fosse melhor contextualizado nas escolas públicas devido ao seu conteúdo etnicamente incorreto.
Sem problemas, não é a primeira vez que isso acontece com esse mesmo título, que anteriormente havia sido classificado como ecologicamente incorreto, e o mesmo já aconteceu com muitos outros títulos ao longo do tempo.

Lobato é sabidamente um autor polêmico devido a suas crenças eugenistas, mais declaradas no romance O presidente negro, de 1926. Como naquela época não era crime ser racista, Lobato nunca sentiu qualquer pudor em inserir esses valores – discutíveis é certo – em sua literatura, de forma mais ou menos explícita. Não há dúvida que esse conteúdo deve ser cuidadosamente avaliado pelos educadores nos dias de hoje, e é isso que o CNE sugeriu.
Mas parece que a sociedade brasileira é muito sensível quando se trata de qualquer coisa que lembre censura, por motivos óbvios, ou que envolva Monteiro Lobato, que é uma espécie de herói nacional. Talvez seja por causa das séries de tv, já que a juventude moderna prefere guloseimas mais confeitadas, como Harry Potter e Crepúsculo.
O CNE foi achincalhado de todo lado, acusado de censura – o que é no mínimo um exagero – e de tentar denegrir a memória do autor, o que de forma alguma foi o caso. Foi o próprio Lobato que o fez a si mesmo quando usou a literatura infantil como ferramenta doutrinária.
Ninguém deixa de reconhecer o valor de Lobato como um dos principais incentivadores do hábito da leitura no Brasil, e ele merece todo o mérito por isso. Mas ele não era perfeito. Vamos com calma, pessoal. As vezes, os morcegos tem que ser espantados do sótão.

Na verdade, o CNE elabora um estudo sobre os livros escolares e emite recomendações que servem de parâmetro para o MEC - Ministério da Educação e Cultura, definir os títulos que vai incluir no pacote de compras a ser distribuído às escolas e bibliotecas públicas em todo o país. Muita gente falou que devia ter mais gente nesse pacote, sugeriram nomes etc, mas quase ninguém se incomodou em saber quais são os títulos que o MEC tem efetivamente comprado.
A escritora Ana Cristina Rodrigues, através de um bem vindo email a uma lista de discussão, informou links em que se pode ver as listas de livros do programa Biblioteca da Escola para 2011.

Vejam só, entre clássicos da FC&F como Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, 1984, de George Orwell, Frankenstein, de Mary Shelley, A máquina do tempo, de H. G. Wells e Cidades invisíveis, de Italo Calvino, estão títulos moderninhos como O ladrão de raios, de Rick Riordan, Ponte para Terabítia, de Leslie Burke e Jesse Aarons, e Para sempre, de Alyson Noel.

E entre os autores brasileiros, ao lado de O pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião, aparecem lançamentos novíssimos como Sangue de lobo, de Rosana Rios e Helena Gomes, Histórias de arrepiar, de Regina Drummond e Babel Hotel, de Luis Brás. Na minha opinião, mesmo sem Lobato, é uma boa seleção para a garotada ler. Todo ano a lista muda, de forma que as bibliotecas podem ser continuamente abastecidas com novidades.
Portanto, pelo menos para mim, parece que toda a discussão foi uma grande bolha de opiniões que sequer aconteceria se elas fossem melhor embasadas. Sinal que a maior parte dos leitores conhece muito mal a obra de Lobato e ainda menos a respeito das estruturas técnicas que regem a pedagogia no Brasil. E nem quer conhecer.
Cesar Silva

sábado, 24 de janeiro de 2015

O peregrino, Tibor Moricz


O peregrino: Em busca das crianças perdidas, Tibor Moricz. 196 páginas. Capa de Ericksama. Editora Draco, São Paulo, 2011.

Um homem sem memória desperta no interior de uma caverna no deserto. Ao seu lado, um revólver Colt do século XIX. Esfarrapado e sedento, o homem mata com um tiro certeiro o primeiro cavaleiro que vê a distância, para dele roubar as roupas, as botas e, principalmente, o cavalo. E, para sua surpresa, todas as seis balas do Colt continuam no tambor.
Assim inicia a jornada deste pistoleiro impiedoso em busca de seu lugar num mundo enlouquecido que, aparentemente, tem apenas três cidades habitadas: Downtown, o vilarejo dos explorados, Middletown, a cidade das máquinas, e Uptown, a fonte de toda a opressão, um lugar proibido onde apenas o peregrino pode entrar.
Depois de uma breve refrega num posto comercial próximo a Downtown, John Doe, um jovem de 12 anos de vida tão absurda quanto seu nome, segue o desconhecido pistoleiro, num misto de admiração, medo e ódio. A cada parada, mais tiros e mortes. E a cada partida, um crescente contingente de seguidores, esperançosos das mudanças que a jornada do peregrino anuncia.
Este é o enredo de O peregrino: Em busca das crianças perdidas, do escritor Tibor Moroicz, autor de Síndrome de Cérbero (2007) e Fome (2008), uma história instalada num cenário de faroeste, com fortes toques de fantasia e ficção científica.
Imediatamente salta aos olhos a identificação com a saga de A Torre Negra, de Stephen King, que parece ter realmente inspirado o autor. Mas os objetivos de Moricz são bem mais modestos que aqueles do escritor americano. Seu pistoleiro não busca restaurar o mundo e nem pretende recrutar ajudantes. Contudo, o formato de jornada também está presente, uma espécie de road novel, típico do gênero.
Mas então, por que caminha o peregrino? Ele pensa estar em busca de riquezas. E seus seguidores pensam que ele trará de volta seus filhos, que, em algum momento no passado, foram levados para Uptown.
Sonhos estranhos povoam a mente do peregrino, reconstruindo de forma invertida parte das memórias perdidas, nos quais ele se vê ora como prisioneiro dos índios, ora como um rico investidor de uma ferrovia.
Coisas estranhas como as balas do Colt que nunca acabam, homens e animais ciborgues e uma montanha consciente que caminha pelo deserto, tornam aceitável a falta de fome do protagonista, que apesar da sede, só bebe bourbon e não faz uma única refeição o livro todo. Contudo, ele faz o que quase nenhum cowboy do século XIX gostava: toma banhos.
Na primeira parte da história, centrada na vila de Downtown, o estilo da narrativa é de faroeste clássico. Em Middletown, contudo, o cenário assume aspectos de steampunk, com muitas máquinas estranhas.
Apesar do predominante ambiente de faroeste, com saloons, índios, xerifes e tiroteios, Tibor não faz uma história previsível. Seu desfecho surpreende, com a narrativa deslocando-se do naturalismo típico dos westerns para um plano onírico em que as leis naturais deixam de se aplicar e tudo pode acontecer. É quando a figura de um mestre de cerimônias, quase um alter ego do autor, se manifesta e revela o destino fatalista e predestinado, um quase deus ex machina que faz a história encerrar-se abruptamente sem que o pistoleiro alcance a sua redenção. É um efeito claramente estruturado, talvez até demais, revelando o controle rígido de Moricz sobre a sua história.
Ainda que não seja intencional, O peregrino dialoga de várias formas com outro romance de faroeste da FC&F brasileira recente: Areia nos dentes, de Antônio Xerxenesky, publicado em 2008 pela Não Editora, e republicado em 2010 pela Editora Rocco. Porém, enquanto os zumbis de Xerxenesky se voltam para os leitores de horror, os ciborgues de Moricz escolhem especificamente os fãs de ficção científica.
De minha parte, fiquei curioso sobre os motivos desses autores terem escolhido o faroeste para contar suas histórias, que seriam igualmente possíveis em cenários mais à mão dos brasileiros, como os pampas e seus gaúchos ou a caatinga e os cangaceiros. Eu deveria ser o último a reclamar disso, pois sou leitor de faroestes, mas não percebi muita autenticidade em nenhum dos dois romances, que soam a maior parte do tempo como faroeste espaguete.
Mas, uma vez que as histórias estão escritas e são o que são, cabe aproveitar o que elas têm a oferecer. No caso de O peregrino, o maior mérito é o entretenimento com uma leve fisgada existencial exótica, que lembra vagamente o longametragem O estranho sem nome (High plains drifter, 1973), dirigido por Clint Eastwood, o faroeste mais “david-lynchiano” da filmografia americana, deixando abertas ao leitor várias interpretações possíveis. E isso é mais do que a maioria da ficção fantástica brasileira tem conseguido.
Cesar Silva

Alain Voss (1946-2011)

Mais um dos grandes nomes da HQB se vai. Depois da maior parte dos nossos veteranos ter subido para o andar de cima, é a vez da geração de artistas surgidos nos anos 1970 começar a dependurar os pincéis.
Ao lado de Sérgio Macedo e Leo, Voss era um dos brasileiros mais bem sucedidos no mercado internacional de quadrinhos, tendo seu trabalho ombreado pela crítica a nomes como como Robert Crumb, Paulo Caruso, e Angeli.
Nascido em 1946, na França, veio ainda criança para o Brasil. Nos anos 1960, já estava trabalhando como ilustrador e chegou a desenhar capas para discos de Os Mutantes, de Rita Lee, Sérgio e Arnaldo Batista.

Em 1972, Voss retornou a seu país natal e começou a publicar quadrinhos na importante Metal Hurlant, revista de grande prestígio que mudou o estado da arte das HQs no mundo. Ali, Voss publicou uma série de trabalhos de traço expressivo e sensual, como HeilmanKar WarTobiazeParodiesLokyiaZodiaque Adrénaline, HQ de FC que lhe valeu o Grand Prix do Festival d'Aix-en-Provence.

Voltou ao Brasil em 1981 e se envolveu com o quadrinho nacional, publicando em revistas alternativas de pouca repercussão, como Monga Inter Quadrinhos. É dessa época seu trabalho de ilustração para o livro de FC Silicone XXI, de Alfredo Sirkis, publicado pelo Círculo do Livro em 1985. Contudo, da mesma forma com que quase todos os artistas nacionais, Voss não foi valorizado nem pelos editores, nem pelos leitores brasileiros. Praticamente nenhum de seus álbuns foi traduzido e seus poucos trabalhos publicados aqui, como O Careca e O Loco, não são conhecidos. Mesmo assim, recebeu um prêmio HQ Mix em 1988.

Com problemas de saúde advindos de um AVC sofrido em 2008, Voss mudou-se em 2010 para Lisboa, onde realizava trabalhos para publicidade. Sua saúde sofreu uma piora súbita e, internado num hospital público, o talentoso ilustrador deu adeus a vida no dia 13 de maio, às 18 horas, aos 65 anos de idade.
É triste ver talentos verdadeiros como Voss esquecidos aqui enquanto tranqueiras abissais como A Turma da Monica Jovem são tão badalados.
De Gaulle tinha toda a razão: este não é um país sério.
Bon voyage, Alain!

Gene Colan (1926-2011)


No dia 23 de junho, aos 84 anos, o grande Gene Colan completou sua carreira.
Colan é conhecido por ter sido, nos anos 1960, um dos ilustradores das primeiras revistas da Marvel Comics, ao lado de Jack Kirby e Steve Ditko. Entre eles, Colan era quem tinha o estilo mais realista, com traços perfeitos que davam um movimento fluido, expressivo e muito elegante aos personagens, ajudando a construir o estilo gráfico da editora que influenciaria ilustradores no mundo inteiro.
Gene Colan nasceu em Nova York em 1926, e desde muito jovem demonstrou talento para o desenho. Serviu nas Filipinas durante a Segunda Guerra, onde publicou seus primeiros trabalhos. Voltou para os EUA em 1946 e trabalhou para as editoras Timely, National e Atlas, ilustrando principalmente histórias de guerra, sem ser creditado. Nos anos 1960, transferiu-se para a recém fundada Marvel Comics e encarregou-se das histórias do Iron Man, na melhor fase do personagem. Também ilustrou as revistas Sub-MarinerDoctor StrangeDaredevilCaptain Marvel e Captain America, para o qual criou Falcon, um dos primeiros heróis negros da editora, refletindo o movimento popular pelos direitos civis dos negros americanos. Mais tarde, outro personagem afro-americano de sua lavra se tornaria destaque da Marvel: Blade, um caçador de vampiros que era coadjuvante na revista The Tomb of Dracula. Colan também ajudou a criar um dos mais politicamente incorretos heróis da Marvel, Howard the Duck.
Nos anos 1980, na DC, Colan ilustrou Batman Wonder Woman, e adaptou para os quadrinhos o premiado romance Nightwings, de Robert Silverberg, na coleção DC Science Fiction Graphic Novel. Tanto o romance quanto a adaptação de Colan são inéditos no Brasil.
A esta altura, Colan já era considerado um mestre, mas somente em 2005 sua importância foi reconhecida pela indústria de quadrinhos americana, que lhe conferiu o Will Eisner Comic Book Hall of Fame.
Colan manteve-se ativo até 2009, quando foi obrigado a interromper o trabalho por conta da saúde debilitada.
Gene Colan foi premiado com um Shazam Award em 1974, dois Eagle Award em 1977 e 1979), e um Eisner Award em 2010.

Ruby F. Medeiros (1924-2011)


No dia 31 de agosto de 2011 deixou-nos um dos mais destacados fãs e colecionadores de livros de ficção científica no Brasil, o Dr. Ruby Felisbino Medeiros. Nascido no mssmo dia 31 de agosto, do ano de 1924, em Caxias do Sul, Medeiros era formado em Ciências Contábeis e medicina (UFRGS), e desde a infância interessou-se pela fc. Ao longo de sua vida construiu uma das maiores biblioteca do gênero no Brasil, que incluía livros em diversas línguas.
Medeiros residia em Porto Alegre e, junto com sua esposa Norma, falecida em 2002, fundou o Laboratório Escola de Ficção Científica Robert A. Heinlein, através do qual promovia encontros com fãs e escritores da região.
Medeiros era um fã de espírito conservador e recusava-se a usar computadores na produção de seu fanzine Notícias... do Fim do Nada, que produziu com uma máquina de escrever de 1992 até 2009, quando lançou a derradeira edição número 82.
Contudo, sua principal contribuição foi o Acervo bibliográfico em língua portuguesa de ficção científica de Ruby F. Medeiros, trabalho de pesquisa único no gênero, que relaciona, por autor, a ficção curta publicada nas muitas antologias, revistas e fanzines brasileiros e portugueses. Não é completo e está desatualizado, emsmo assim é um volume de referência valioso.
Dr. Ruby faleceu em Porto Alegre, na manhã de seu aniversário, aos 87 anos, em decorrência de complicações causadas por um AVC.
A foto que ilustra este artigo foi publicada originalmente na Revista ZH, em 12/03/1995 e reproduzida no fanzine Notícias do Fim do Nada 59, de onde foi capturada.

Francisco Solano López (1928-2011)


No dia 12 de agosto de 2011, chegou ao fim a longa e produtiva carreira de Francisco Solano López, quadrinhista argentino que, entre outras obras importantes, foi ilustrador da espetacular série El Eternauta, escrita por Héctor Germán Oesterheld (1919-1977) e publicada entre 1957 e 1959 na revista Hora Cero Semanal.
El Eternauta é uma das mais importantes obras da história dos quadrinhos, uma ficção científica de profundas implicações políticas.
López estava internado por causa de um AVC e, ao tentar levantar-se do leito, caiu e bateu a cabeça. O acidente casou hemorragia cerebral e agravou o seu já delicado estado de saúde, vindo a falecer poucos dias depois, aos 83 anos.
López participou de um trabalho recente no Brasil, o álbum em quadrinhos Sangue Bom, ao lado dos brasileiros Carlos Patati e Allan Alex.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

O zen e a arte da escrita, Ray Bradbury

O zen e a arte da escrita (Zen in the art of writing), Ray Bradbury. 166 páginas. Tradução de Adriana Oliveira. Capa de Ana Carolina Mesquita. Editora Leya, São Paulo, 2011.

Há muitos livros publicados para autores novos com conselhos e receitas de como escrever bem. Alguns são técnicos e observam aspectos estruturais do enredo e da narrativa, outros investem na gramática e na sintaxe, e outros ainda ensinam como se preparar um texto para agradar os leitores ou ser aceito mais facilmente pelas editoras. Alguns são realmente úteis, outros são pretensiosos e pedantes, mas isso ocorre com todo o tipo de literatura.
Nada disso vai ser encontrado em O zen e a arte da escrita, seleta de ensaios do importante autor norte americano Ray Bradbury, escritos entre 1965 e 1985, alguns deles publicados como introduções ou prefácios. Apesar do distanciamento temporal entre os textos, o conceito que os alinhava é tão sólido e coerente que dá a impressão de terem sido escritos juntos, como parte de um mesmo trabalho.
O livro foi publicado no Brasil pela poderosa editora Leya, fundada em Portugal em 2008 e recentemente instalada no país. É tradução de Zen in the art of writing (1990) e, sendo um Bradbury, era de se esperar uma abordagem no mínimo surpreendente. A começar pelo título que o autor declara, no próprio livro, ter adotado apenas para atrair a atenção dos leitores, ainda que lá no fundo, suas propostas tenham de fato algo de zen.
Onze ensaios compõe o livro: "A alegria da escrita", "Corra, pare, ou a coisa no topo da escada, ou novos fantasmas de mentes antigas", "Como manter e alimentar a Musa", "Bêbado e no comando de uma bicicleta", "Investindo moedas: Fahrenheit 451", "Apenas este lado de Bizâncio: O vinho da alegria", "Sobre os ombros de gigantes", "Crepúsculo nos museus de robô: o renascimento da imaginação", "A mente secreta", "O zen e arte da escrita" e "Sobre criatividade", este último um conjunto de sete poemas sobre as características da personalidade criativa valorizadas pelo autor.
Bradbury não é um teórico convencional. Ele parte do princípio que o verdadeiro escritor não é aquele que escreve para viver, mas o que vive para escrever, como algo vital, necessário, terapêutico até. Por isso usa suas experiências pessoais, principalmente seus fracassos, para demonstrar que vale a pena ser autêntico e escrever com o coração. E isso é algo que não dá para ensinar como fazer: é um caminho solitário e doloroso. Uma frase deste mestre da fantasia resume sua ideologia criativa: "Toda manhã, pulo da cama e piso num campo minado. O campo minado sou eu. Depois da explosão, passo o resto do dia juntando os pedaços. Agora é a sua vez. Pule!"
Difícil de entender? Talvez conhecer um pouco da carreira de Bradbury ajude. A propósito, o livro é quase uma autobiografia, pois R.B., como ele mesmo às vezes se refere no livro, toma a sua vida como parâmetro para explicar e ilustrar seu método criativo.
Nascido em 1920 em Waukegan, Illinois, estado do meio-oeste americano, Ray Douglas Bradbury tinha tudo para ser um legítimo redneck. O que alterou sua caminhada foram as histórias em quadrinhos de Buck Rogers que, quando criança, ele colecionava recortando cuidadosamente dos jornais. Também era leitor ávido dos livros de Júlio Verne e H. G. Wells, das novelas de Edgar Rice Burrougs, Clark Ashton Smith e H. Ride Haggard, e era fascinado com as maravilhas de seu mundo, especialmente parques de diversão itinerantes, circos, mágicos, trens, dinossauros e uma pletora de coisas simples que não era importante para mais ninguém.
Aos oito anos de idade, uma experiência traumática iria determinar a trajetória de sua vida. Pressionado pelos colegas de escola que exigiam dele um comportamento mais "normal", o pequeno Ray rasgou toda a sua coleção de quadrinhos. Mas isso só serviu para que ficasse perdido num mundo que ele não compreendia e entendeu ali que o seu destino não era ter uma vida "normal". Voltou avidamente à sua coleção e decidiu que seria um escritor.
Nos ensaios presentes nesta coletânea, Bradbury conta todos os detalhes dessa história. Ele chegou a publicação de seu primeiro conto em 1941, na revista Super Science Stories, embora tivesse publicado antes em um fanzine editado por ele mesmo em 1938, o Futuria Fantasia. Também conta como sofreu para entender o que significava escrever como Ray Bradbury, já que antes dele ninguém escrevia assim. A princípio, ele seguiu os manuais, mantendo uma produção diária e enviando seus contos para todas as revistas que conhecia, mas com a consciência de que seus textos não eram bons. Mesmo quando escreveu seu primeiro clássico, um conto chamado "The lake", não sabia por quê havia obtido sucesso. Somente anos depois ele iria descobrir e essa busca é que torna O zen e a arte da escrita uma leitura emocionante.
Bradbury tornou-se um dos maiores escritores americanos, com uma produção de qualidade reconhecida pelo mainstream, apesar de instalada no que se chama de ficção de gênero que, de forma geral, é desprezada pela crítica.
Entre seus grandes livros está o romance Fahrenheit 451 (1953), alegoria sobre a censura que conta a história de um homem apaixonado pelos livros cujo trabalho é justamente destruí-los. Levado ao cinema em 1966 pelo importante cineasta francês François Truffaut, tornou Bradbury uma personalidade conhecida no mundo inteiro.
Outros livros importantes de Bradbury são Martian chronicles (1950), Somethig wicked this way comes (1952) e Dandelion wine (1957), além das antologias The golden apples of the Sun (1953), The illustrated man (1951) e The october country (1955). Vários de seus contos estão entre os mais significativos da literatura mundial, devido a sua poética incomparável.
Suas histórias foram adaptadas para inúmeras outras mídias, principalmente o teatro, o cinema e a televisão. A melhor versão para os quadrinhos aconteceu nos anos 1950 pela lendária editora EC Comics de William Gaynes. Al Feldstein adaptou vários de seus contos, que foram ilustrados por grandes mestres como Frank Frazetta e Wallace Wood. Algumas dessas HQs foram publicadas no Brasil no início dos anos 1990 pela editora L&PM nos álbuns O papa-defuntos e O pequeno assassino.
O primeiro de seus livros aqui publicados foi O país de outubro, traduzido em dois volumes pela Editora GRD em 1963 e 1966, antologia que reúne alguns de seus contos mais destacados. Praticamente toda a sua obra foi traduzida no Brasil, sempre ficando em catálogo.
Bradbury compõe a trindade dos mais bem sucedidos escritores de ficção científica na opinião dos brasileiros. Ao lado de Isaac Asimov e Arthur C. Clarke, forma o "ABC" do gênero, como é chamado pelos seus inúmeros leitores. Contudo, R.B. é um estranho no ninho, pois não se conforma com as orientações impostas pelo mercado. Sua ficção científica, por exemplo, não é científica em quase nada, uma vez que lhe importa muito mais as pessoas do que a ciência. Bradbury também é mais versátil que seus colegas de gênero, enveredando com igual desenvoltura por terrenos tão pantanosos como o terror, a fantasia, o mistério e até o realismo, sem esquecer da poesia em prosa e verso.
O zen e a arte da escrita, mais que um manual para escritores iniciantes, é um manual para a vida. A criatividade bradburiana pode servir a todo mundo, para todo tipo de artista ou profissional. Não seria de estranhar caso se tornasse o livro de cabeceira dos executivos. E como seria bom para o mundo se isso realmente acontecesse.
Cesar Silva