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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Xenocídio, Orson Scott Card

Xenocídio (Xenocide), Orson Scott Card. 536 páginas. Tradução de Sylvio Monteiro Deutsch. Capa: Vagner Vargas. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Orson Scott Card está entre os autores estrangeiros mais bem relacionados com o fandom brasileiro de ficção científica, o que é uma grande sorte nossa. Card morou no Brasil durante algum tempo nos anos 1970, como missionário, aprendeu a falar o português com desenvoltura e nutre pelo Brasil um carinho especial. Mesmo depois de sua temporada missionária, ele voltou pelo menos duas vezes ao Brasil, numa delas tivemos a oportunidade de compartilhar sua companhia num encontro de autores e editores em Sumaré*, no interior do Estado de São Paulo.
O autor promoveu então o lançamento de um de seus livros no país, mais exatamente o clássico O jogo do exterminador (Ender's game), publicado em 1990 pela editora Aleph inaugurando a coleção Zenith. Logo também seria publicada a sua sequência, O orador dos mortos (Speaker for the dead, 1990), pela mesma editora. Ambos os romances realizaram o feito de ganhar, por dois anos consecutivos, os mais importantes prêmios da fc mundial, o Hugo (1985 e 1986) e o Nebula (1986 e 1987), sendo o Card o único autor a realizar esse feito.
De Card também foram traduzidos, ainda nos anos 1990, os romances Um planeta chamado Traição (Treason, Record, 1993), A odisseia de Worthing (The Worthing saga, Record, 1994) e a novelização O segredo do abismo (The abyss, Record, 1989), além de diversos contos em revistas e antologias, entre eles o conto que deu origem ao romance O jogo do exterminador, também ganhador do Hugo, publicado pela revista Issac Asimov Magazine. Card ainda colaborou, por muitos anos, com diversos fanzines brasileiros. Contudo, a partir dos anos 1990 o autor ausentou-se do cenário editorial brasileiro, com raríssimas aparições. Até que a editora Devir Livraria decidiu republicar o clássico O jogo do exterminador, em 2006, o que, a princípio, não considerei uma boa ideia. O mercado literário de fc no Brasil estava em baixa e, na minha visão, um livro que havia sido anteriormente publicado em grande tiragem, ainda que estivesse esgotado, poderia não ter uma boa receptividade. Acreditava que, caso a Devir sofresse um revés logo de saída (o título inaugurou sua Coleção Pulsar), poderia não ter interesse de seguir adiante. Estava ainda bem viva na minha memória as críticas dos leitores quando a então editora PECAS (depois batizada Ano-Luz) decidiu publicar, em 1998, o romance Tropas estelares (Starship troopers), de Robert Heinlein que, apesar de inédito no Brasil, tinha uma antiga edição portuguesa, dos anos 1960.
Para sorte de todos, queimei minha língua e a Devir não só republicou em 2007 o segundo volume da saga, O orador dos mortos, mas finalmente, em 2010, traduziu a terceira parte da saga, inédita em língua portuguesa, Xenocídio, um romance aguardado com expectativa desde a publicação de O orador dos mortos em 1990.
Os vinte anos de espera foram longos, mas amplamente recompensados pela excelente edição da Devir, com a ótima tradução de Sylvio Monteiro Deutsch e a bela capa de Vargner Vargas.
Quem leu os primeiros livros sabe que Ender Wiggins, quando criança e sem que ele soubesse, foi treinado exaustivamente numa escola militar para ser usado como o estrategista de uma guerra de extermínio contra uma civilização alienígena, os abelhudos, um tipo de inseto inteligente e de hábitos gregários, que vive em colmeias.
O segundo volume conta o que aconteceu com Ender depois que a guerra acabou. Vagando pela galáxia em velocidades acima da luz, Ender assumiu a tarefa de orador dos mortos e, por isso, teve sua vida relativisticamente estendida. Enquanto a raça humana se espalhava pelo universo em dois mil anos de história, Ender não envelheceu mais do que quarenta anos. Em suas andanças, ele chega ao planeta Lusitânia, onde uma colônia científica formada por brasileiros encontrou uma raça inteligente de seres que são um curioso caso de interação entre animal e planta.
Xenocídio retoma a história da colônia em Lusitânia, onde os cientistas brasileiros tentam encontrar uma cura definitiva para o descolada, vírus nativo do planeta cuja letalidade é tamanha que ninguém que uma vez lá tenha pousado pode sair. Ender constitui família com uma das brasileiras do colônia e, secretamente, estabelece uma colmeia dos abelhudos a partir de um ovo de rainha que ele guardou cuidadosamente ao longo dos anos em que vagou pela galáxia.
As notícias sobre a virulência do descolada assustaram o corrupto Congresso Estelar, que decidiu enviar à Lusitânia uma frota de extermínio armada com o Doutorzinho, uma bomba destruidora de planetas, e garantir de uma vez por todas que a doença nunca saia de Lusitânia. A única forma de evitar que um novo xenocídio tenha lugar é encontrar a cura do descolada e, para ganhar tempo, Ender pede a Jane, uma inteligência artificial que o acompanha há tempos, para interromper todas as comunicações com a frota de extermínio.
Enquanto isso, no planeta Caminho, colonizado por chineses, Han Qing-jao, uma garotinha dotada de uma enorme inteligência é encarregada pelo Congresso de descobrir como e por quê a frota de extermínio desapareceu dos radares, e sua investigação, associada à relação conturbada com seu pai, ambos vítimas de um violento transtorno obsessivo compulsivo, assim como de ambos com a pajem Si Wang-Mu e Jane – a inteligência artificial de Ender – serão a chave da libertação de dois planetas e das três únicas raças alienígenas inteligentes conhecidas. Ou, quem sabe, quatro.
Um dos grande trunfos de Card, contudo, não é de sua lavra. Trata-se do ansível, um aparelho de comunicação subespacial primeiramente citado pela escritora americana Ursula LeGuin, que permite a comunicação instantânea com qualquer ponto da galáxia, independente de sua distância. É o ansível que dá sustentação a toda trama da saga de Ender, que ganha relevos cosmológicos a partir de Xenocídio. E essa discussão cosmológica é um dos grandes méritos do romance, que constrói uma intrincada teoria digna das mais elaboradas hardfictions, com desdobramentos em várias perspectivas, especialmente religiosas. O romance também traz outra grande discussão sobre bioética e ecologia, numa profundidade que só encontra paralelo nos romances da série Duna, de Frank Herbert.
Card é um autor que não evita temas polêmicos e não extirpa a face religiosa de sua ficção, o que desagrada uma ampla parcela de leitores mais afeitos à ficção científica de ação e entretenimento. Não que Card não tenha habilidade para tal. Tanto tem que Xenocídio apresenta vários momentos de ação e violência intensa, mas os melhores momentos da trama são filosóficos, na forma de diálogos tensos entre os muitos protagonistas deste que é, sem dúvida, um dos melhores romances de ficção científica publicado no Brasil em muitos anos. O fato dele não ter repetido o desempenho de suas prequelas no que diz respeito aos prêmios, embora tenha sido indicado para o Hugo e para o Locus, não representa uma queda de qualidade, muito pelo contrário. Todas as discussões travadas no romance são intensas e bem articuladas, e sua riqueza é muito bem explorada pelo autor.
A Devir Livraria publicou, em 2013, o romance Filhos da mente (Children of the mind), quarto e último romance do primeiro arco de histórias, e abre a possibilidade de que, no futuro, além da série completa de Ender – que tem mais quatro romances e uma coletânea –, possamos receber outras bem sucedidas séries que Card publicou nos EUA, como Homecoming e Tales of Alvin Maker, assim como mais de sua ficção curta que é de extrema qualidade.
— Cesar Silva

* Trata-se da I InteriorCon, acontecida em 1990.

domingo, 8 de março de 2015

O livro do cemitério, Neil Gaiman

O livro do cemitério (The graveyard book), Neil Gaiman. 336 páginas. Ilustrações de Dave McKean. Tradução de Ryta Vinagre. Coleção Jovens Leitores, Editora Rocco,  Rio de Janeiro, 2010.

O autor britânico Neil Gaiman, desde que voltou sua carreira prioritariamente para a literatura – antes ele se dedicava mais aos quadrinhos – vem arrebatando os mais cobiçados prêmios da FC&F internacional, como os Hugo, Nebula e Locus, às vezes com contos, outras com novelas e romances. Por conta disso, Gaiman apareceu no Anuário 2008 com a antologia Coisas frágeis, e no Anuário 2006 com o romance Os filhos de Anansi, ambos publicados no Brasil pela Editora Conrad. Em 2010, a editora Rocco publicou, em sua coleção Jovens Leitores, O livro do cemitério que, em 2009, recebeu o prêmio Hugo de Melhor Romance. A história apareceu primeiro como um conto na antologia M is for magic (2008) e recebeu o prêmio Locus de melhor noveleta.
O livro conta a delicada história de Ninguém Owens, um bebê que, numa noite trágica, escapa de seu berço e gatinha pela rua até ter a atenção atraída por um cemitério antigo. Enquanto o bebê faz sua viagem de exploração, Jack, um assassino implacável e perfeccionista a serviço de uma organização muito misteriosa, chacina seus pais e irmãos. Quando chega ao berço para completar o serviço, o encontra vazio. Furioso, parte para a rua na intenção completar a tarefa.
O espírito recém desencarnado da mãe assassinada, nos poucos momentos de que dispõe, implora aos fantasmas do cemitério que protejam o seu bebê. Ele é escondido e o assassino vai embora frustrado, mas resoluto em terminar o trabalho no futuro.
O pequeno é adotado pelo falecido casal Owen que, como não sabe seu nome, o chama de Ninguém. Silas, um estranho morador da capela do cemitério, que não é fantasma mas também não está exatamente vivo, aceita proteger o menino e é ele quem proporciona, a partir de então, alimento, roupas e outras necessidades básicas da criança. Sua educação, contudo, fica ao cargo da população desencarnada que ali habita, gente de diversas épocas, algumas mortas há centenas de anos. Nin, como é carinhosamente chamado,  vive escondido no cemitério, sem contato com os vivos, pois os fantasmas temem que, caso ele saia, seja atacado pelo assassino. Contra todos os prognósticos, Nin cresce e se desenvolve nas artes fantasmagóricas, adquirindo poderes que geralmente só os fantasmas têm.
Muitos outros personagens intrigantes aparecem na história, entre eles a Sra. Lupescu, membro dos Sabujos de Deus, por quem a princípio Nin não nutre muita simpatia, mas que se revela sua mais dedicada protetora.
As aventuras de Nin dentro do cemitério têm um aspecto épico grandioso. É um mundo à parte, com regras especiais e uma beleza que só mesmo um fantasma pode apreciar. Uma das tumbas, por exemplo, guarda a entrada do mundo dos ghouls, os devoradores de cadáveres, assim como uma estranha e assustadora cripta encravada nas profundezas do cemitério, onde habita uma entidade tão antiga quanto poderosa.
Certo dia, Nin conhece Scalett, uma menina viva que vai brincar no cemitério. Ela não fica por muito tempo, mas Nin desenvolve por ela uma afeição especial e acaba iniciando-a nos mistérios de sua estranha vida. Nem ele, nem ela e nem mesmo os leitores podem imaginar a importância que a garota terá no desfecho desta história.
Os fantasmas tentam, mas não conseguem refrear a curiosidade e a iniciativa do menino quando ele começa a explorar o exterior do cemitério. Sua aparência desgrenhada e roupas estranhas chamam a atenção e logo Jack está de volta para concluir o serviço inacabado.
O Livro do Cemitério tem muitos atributos para agradar o leitor, além da riqueza de seus personagens, todos memoráveis – incluindo Jack – e do enredo movimentado e surpreendente. O maravilhamento emana mais intensamente das coisas que não chegam a ser mostradas e explicadas, como a imensa cidade fortificada dos ghouls, as motivações da estranha corporação que quer Nin morto, a natureza incógnita dos protetores de Nin, além das histórias fascinantes de cada um dos fantasmas daquele cemitério.
Gaiman constrói um ambiente britânico de intenso clima gótico e, espertamente, adota o mesmo artifício que Stephen King e Peter Straub usaram em O talismã, encerrando a história quando o menino atinge a idade em que não será mais um menino, deixando ao leitor a perspectiva de imaginar como seria uma possível sequência. Não sei se Gaiman resistirá em contá-la ele mesmo; King e Straub não conseguiram evitá-lo.
As ilustrações são uma atração à parte. Dave McKean é parceiro histórico de Gaiman desde seu primeiro trabalho americano, a minissérie em quadrinhos Orquídea Negra, depois como capista de todas as edições de Sandman. Seu estilo está intimamente identificado com a arte de Gaiman, de forma que não poderia ter sido uma escolha melhor. McKean trabalhou aqui apenas com nanquim negro, num desenho repleto de contrastes dramáticos que lembram o cinema expressionista alemão.  A presença das ilustrações reforça o objetivo juvenil da edição, porém a história de infância de Nin Owen no cemitério guarda segredos suficientes para causar interesse nos adultos também. E o estilo arrojado de McKean contribui para dar-lhe os contornos visuais adequados.
 Gaiman tem tantas qualidades como contador de histórias que não é de estranhar, portanto, que o livro tenha sido premiado com o Hugo, numa votação popular de fãs de ficção científica. Além do Hugo, O livro do cemitério recebeu a Newbery Medal, a Carnegie Medal e foi indicado ao prêmio Locus de Melhor Novela Juvenil, sendo assim um dos mais premiados trabalhos recentes da fc&f.
Cesar Silva

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mito e Horror em H.P. Lovecraft

A totalidade pelo horror: O mito na obra de Howard Phillips Lovecraft, Caio Alexandre Bezarias. Prefácio de Raul Fiker e apresentação de Marcos César de Paula Soares. 154 páginas. Editora Annablume/Fapesp, 2010.

A partir desta primeira década do século XXI o ambiente universitário brasileiro passou a conviver com uma nova tendência: a de trabalhos acadêmicos sobre temas e autores alternativos ou marginais ao cânone literário. Claro que é uma tendência minoritária, mas com certa regularidade. Provavelmente deve ter sido efeito primeiro do surgimento de uma nova geração de estudantes e pesquisadores, que buscaram refletir sobre os seus interesses mais próximos e influentes; e em segundo lugar, pela aposentadoria de uma geração de acadêmicos, tradição literária mais conservadora. Dentro deste contexto, um dos trabalhos mais representativos e interessantes é A totalidade pelo horror: O mito na obra de Howard Phillips Lovecraft, originalmente uma dissertação de mestrado defendida no Departamento de Letras, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, em 2006, e que em 2010 finalmente foi publicada como livro.
É emblemático também que esta obra aborde justamente um dos maiores outsiders da literatura do século XX, um sujeito tão admirado por seus escritos quanto incompreendido por sua personalidade, num dos casos mais contundentes de confusão entre estes limites. Claro, estamos falando de H.P. Lovecraft (1890-1937).
Lovecraft viveu toda a sua vida numa área restrita do Nordeste dos EUA, descendente de duas famílias que teriam sido originárias dos primeiros imigrantes que vieram para a Nova Inglaterra, puritanos religiosos e homogêneos social e culturalmente. O autor nunca escondeu a nostalgia dos seus antepassados e seu estilo de vida que em tudo diferia do momento histórico que ele presenciou: a transformação radical do modo de vida rural para o urbano, com uma enorme e rápida industrialização, além de uma intensa imigração, como parte deste processo de desenvolvimento econômico, que trouxe para o país pessoas das mais diferentes paragens e costumes estranhos. E esta nostalgia foi aprofundada pelas dificuldades econômicas e familiares que o autor enfrentou, tornando-se quase que um recluso que passava a maior parte do tempo escrevendo rodeado por dezenas de gatos.
Estas peculiaridades de sua vida tornaram-se um ingrediente a mais para a compreensão de sua obra, tão diferente, original e recheada de polêmicas e muita influência em fãs e autores que o cultuam e imitam até hoje, inclusive no Brasil.
Nesse sentido é que a obra de Caio Bezarias se destaca do ponto de vista do conteúdo. Pois analisa o autor e a criação de seu mito – as histórias do ciclo de Cthulhu – de uma perspectiva desmistificadora tanto com respeito à personalidade do homem, como de sua obra. Mostra sim que ambas estão intimamente imbricadas, mas procura interpretá-las com mais sofisticação e refinamento do que a que encontramos costumeiramente.
Colin Wilson na excelente introdução ao seu romance neo-lovecraftiano, Parasitas da mente (1977), argumenta que o fascínio que Lovecraft exerce advém de sua obsseção pelo terror e pelo repulsivo, explícito tanto pela intensidade imagética quanto pelo estilo adjetivado e barroco do seu texto. Para além do reconhecimento de um outsider de seu tempo, a exemplo de outros em outras épocas, o romântico Lovecraft levou às últimas consequências criativas sua rejeição e desajuste ao mundo que vivia.
A esta moldura social e literária construída por Wilson podemos contrapor a visão mítico e histórica de Bezarias, que inicia seu trabalho com a vinculação de Cthulhu e os outros deuses dos Grandes Antigos através da ideia do mito original e fundador. Os tempos imemoriais, antiquísssimos e muito antes do surgimento da humanidade seriam cosmogônicos. Este seria o mais profundo, pois daria origem e conformação aos demais e teria uma explicação fundante das raízes do mundo. Bezarias mostra, com exemplos do próprio Lovecraft e de autores que estudaram os mitos, como Cthulhu é um mito deste tipo e porque isso ajuda a entender suas características fatalistas e niilistas, entre outras.
Por tudo o que se sabe, o mundo ideal para Lovecraft era o dos colonos norte-americanos, com suas fazendas e modo de vida puritano – mas não religioso no seu caso, já que ele era racionalista e ateu –, e composto por seus iguais em termos culturais: brancos e falantes da língua inglesa. Tudo o que destoasse deste quadro sócio-cultural seria desagregador e ameaçador. O livro analisa de forma instigante como este mundo idealizado foi desafiado e modificado pela transformação dos EUA numa potência industrial, e de como sua profunda negação rendeu os frutos literários de sua obra de reação ao status quo. Cthulhu e Os Grandes Antigos, descobertos por infelizes pesquisadores que defendiam o modo de vida puritano, representam esta desordem industrial e cultural, horrenda ao ponto de significar o fim da própria humanidade. Se podemos entender as características da obra de Lovecraft através de sua identidade, outro caminho seria a dos efeitos da pobreza em sua vida. Wilson percorre com mais atenção esta seara.
Como sublinha Bezarias, a despeito desta crítica ao mundo em transformação sugerir, em tese, uma prosa de estilo mais modernista, duvidando mesmo das certezas racionais que este mundo sugere, em termos literários Lovecraft conservava uma forma bastante conservadora, realista, não modernista. Ou seja: ele usava um estilo tradicional que, numa primeira visão, se prestaria a uma concordância com a realidade, para rejeitá-la radicalmente. Certamente um paradoxo que ajuda a tornar os escritos de Lovecraft ao mesmo tempo mais regressivos, críticos e libertadores de qualquer tendência: seja ela artística, seja ela social. Por esta linha, Bezarias recompõem em outro nível a crítica muitas vezes apressada ao estilo adjetivado e em primeira pessoa de Lovecraft, que seria pura e simplesmente deficiente. Pois ele poderia ser visto como parte desta rejeição, explicitando subjetivamente a incompreensão, o desconforto e o medo, através dos personagens.
A análise de Bezarias sobre a função utópica das histórias do ciclo também é muito interessante, ao mostrar que a volta dos Grandes Antigos de seu sono eterno, representaria a desordem suprema, o caos em seu sentido mais absoluto, destruindo a civilização. Seria a confirmação em estado mais acabado das rejeições que Lovecraft tanto aponta: o horror representado pela industrialização, urbanização e miscigenação cultural. Para Bezarias estaríamos diante de uma distopia: este mundo rejeitado por Lovecraft já seria distópico, mas o seu limite seria niilista, pois levaria o retorno de Cthulhu e seu panteão, trazendo o caos, ao fim da humanidade ou da civilização.
Em seu conjunto, A totalidade pelo horror é um título adequado, pois expressa a intenção da obra: a tentativa de compreender a realidade por uma lógica que a rejeita e por isso é mais bem expressa pelo horror. Nesse sentido, no delírio criativo de Lovecraft vislumbra-se o potencial de suas virtudes críticas e os limites niilistas e reacionários de sua visão de mundo.
Nesta análise de cunho acadêmico e no âmbito dos estudos culturais, Bezarias traz uma contribuição relevante tanto para o ambiente acadêmico, como para a comunidade de leitores e escritores de ficção científica e horror do país, ainda tão carentes de boas obras de não-ficção, em especial a que trate de estudos de autores e aspectos de sua obra. Mas se o mito de Cthulhu é, por assim dizer, dissecado e de forma coerente com o objetivo proposto, acaba por transparecer uma espécie de “deshorrorização” do primeiro plano da obra de Lovecraft, a do horror e mais especificamente do “horror cósmico” em si, por seus efeitos próprios de estilo e seus significados de ameaça oculta e irresistível ao mundo cotidiano. Como observou Wilson, tais características são as grandes responsáveis pelo inegável fascínio que a obra de Lovecraft continua a transmitir através de gerações de leitores e aficcionados.
Marcello Simão Branco

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Paraíso Líquido, Luiz Bras

Paraíso líquido, Luiz Bras. 303 páginas. Texto da orelha de Rebecca O´Brien. Terracota Editora, 2010.

Uma das grandes novidades da ficção científica brasileira dos últimos anos foi a aproximação do renomado escritor Nelson de Oliveira. Primeiro com artigos provocadores e em seguida com a organização do projeto Portal, com seis antologias, e o livro Futuro presente (2009), que reuniu alguns dos mais expressivos nomes da fc e do mainstream brasileiro. Se tantas atividades já seriam suficiente para lhe colocar numa posição de destaque, neste ano de 2010, ele publicou nada menos do que três livros! Tudo isso o colocou na condição de “Personalidade do Ano de 2010”, merecendo uma longa entrevista nesta edição.
Talvez para se desvencilhar de sua persona no mainstream, Oliveira assumiu o pseudônimo de Luiz Bras para se exercitar na seara da fc. Mesmo assim, dos três livros publicados, um deles ainda conserva o seu nome de batismo. É Poeira, demônios e maldições, um romance de fantástico literário levemente inspirado em Borges, que também está resenhado nesta edição.
Luiz Bras escreveu uma novela infanto-juvenil de fc Babel Hotel, que explora a ideia de repetição e prisão dentro de um mesmo dia, numa sequência aparentemente inexplicável e impossível de fugir. Um texto que foi finalista do Prêmio Jabuti 2010.
Finalmente, o terceiro livro é este Paraíso líquido. Publicado com o apoio do governo do Estado de São Paulo, dentro do Programa de Ação Cultural (proac), traz uma reunião de sua produção curta recente que o aproximou do campo da fc de meados de 2007 para cá. Em termos de proposta temática e interesse intelectual é, possivelmente, o livro mais importante. A maioria das histórias foi publicada antes nas antologias de sua própria iniciativa ou em outras que ele também colaborou, como Contos imediatos (2009) ou Cartas do fim do mundo (2009).
Todos os textos são reconhecidamente de ficção científica. Mas engana-se quem supõe que esta aproximação seja tranquila ou realizada nos termos tradicionais dos escritos e temas do gênero. As treze histórias do livro primam pelo desconcerto e por certo desconforto, não necessariamente desagradável, mas instigante. Assim como nas antologias por ele organizadas, a intenção é sacudir os lugares-comuns e suas zonas de conforto medíocres, seja dos autores mainstream – principalmente, desconfio –, seja dos de fc. Nesse sentido, Paraíso líquido é a voz mais elaborada e profunda do autor, sinalizando novas possibilidades, principalmente de estilo e linguagem, mas também de temas na maneira como podem ser trabalhados. Ainda que, por vezes, falte mais intimidade com os temas do gênero.
Como aponta a autora da orelha Rebecca O´Brien, há uma linha narrativa e temática identificável na sequência das histórias, embora elas sejam muito específicas e voltadas a si mesmas, numa leitura independente. O fio que tece a linha temática de Bras situa-se na incerteza e na dúvida, no estranhamento e mal estar dos personagens com situações em que eles, gradativa ou abruptamente, perdem todo o seu controle racional e emocional. E parte significativa advém do que poderíamos chamar de uma desconstrução da realidade. Mas não em termos filosóficos, mas literários.
Os resultados nem sempre são bem sucedidos, mas vale a tentativa e percebe-se que quando isso ocorre nenhuma das histórias está deslocada de um projeto que se fortalece em conjunto. Isso porque os textos estão elaborados numa estrutura narrativa e estilística que aprofunda a sensação de estranhamento e que se acentua de história para história. E não só para o leitor, mas também aos personagens, como que presos numa teia enrredada pela imaginação experimental do autor.
Como em toda coletânea, alguns textos são mais felizes do que outros. Dentro de uma perspectiva que leve em conta o prazer da leitura e o impacto dramático, as histórias mais bem realizadas são “Primeiro Contato”, “Daimons”, “Dèjá-vu”, “Cruzada” e “Singularidade nua”. Em “Daimons”, por exemplo, crianças são manipuladas por brinquedos para que envenenem seus pais. Com um ritmo quebradiço, e súbitas mudanças que desconcertam o leitor e os personagens, é dos textos mais pungentes sobre o universo infantil – nem tão infantil assim. A melhor história do livro talvez seja aquela que mais próxima esteja da fc em stritu sensu: “Déjá-vu”, pois é uma narrativa sobre uma máquina do tempo. Mas o que a torna tão inusitada e interessante é que o tema está retratado a partir da estrutura narrativa, pois lido do começo ao fim vai ao passado e do fim para o começo avança para o futuro. Brilhante.
Há textos mais complexos e de leitura algo dificil, como a novela delirante e perturbadora “Paraíso líquido”, o agudo exercício de especulação político-existencial de “Futuro presente” ou histórias que exploram com coragem temas como os da paranoia e esquizofrenia em chave de fc, como “”Nuvens de cães-cavalos”, “Memórias” e “Aço contra osso”.
Percebe-se que a perspectiva de Bras vai na linha da exploração das incertezas, ou melhor, dos limites do que entedemos por realidade, a partir das insuficiências e contradições do ser humano, aproximando-se aqui de um Philip K. Dick, mesmo que de forma aparentemente não intencional. Contudo, o melhor ainda oferecido por Bras é o seu texto literário. O refinamento de sua linguagem, rara na fc brasileira em particular. Como ilustrado acima em “Dejà-vú”, estamos diante de um autor talentoso e com pleno domínio da técnica literária, a ponto de explorá-la sem medo e com desenvoltura. Por esse aspecto, Bras se coloca como uma voz literária no campo da fc brasileira, ocupando um espaço que em algum momento Ivan Carlos Regina e Braulio Tavares preencheram durante os anos 80 e 90 do século passado, embora estes com mais intimidade com o gênero em si. Nesse sentido, a bem-vinda chegada de Luiz Bras à fc brasileira traz um salto de qualidade de estilo e que, espero, possa influenciar positivamente para que textos com mais elaboração e estilos mais arrojados melhorem a qualidade média da fc escrita no país, em boa parte com uma qualidade temática interessante e promissora, mas que, em geral, ainda deixa a desejar em termos formais.
Marcello Simão Branco

Obra completa, Murilo Rubião

Obra completa, Murilo Rubião. 232 páginas. Capa: Jeff Fisher. Coleção Companhia de Bolso, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2010.

Sempre que alguém decide relacionar os mais significativos fantasistas da literatura brasileira, o nome do mineiro Murilo Rubião (1916-1991) é um dos primeiros a serem lembrados. E é surpreendente que seja assim, considerando que é um autor pouco lido, cuja obra é reduzida, limitando-se a apenas 33 contos publicados entre 1947 e 1991.
O fato de Rubião ser tão lembrado talvez seja efeito direto da força de seus textos, emotivos, perturbadores e extremamente bem escritos. Era um perfeccionista que nunca dava um texto por terminado. A cada republicação – suas coletâneas sempre traziam republicações ao lado de inéditos – ele os revisava como um joalheiro caprichoso.
Seu primeiro livro foi O ex-mágico, publicado em 1947. Depois vieram A estrela vermelha (1953), Os dragões e outros contos (1965), O pirotécnico Zacarias e O convidado (ambos de 1974). Antes de sua morte, ainda publicou A casa do girassol vermelho e O homem do boné cinzento, em 1991. Seus livros foram traduzidos para o inglês, alemão, espanhol, tcheco e publicados em diversos países.
O fantástico de Rubião é muito pessoal. O absurdo surge de forma natural, sendo aceito placidamente pelos personagens, como nas histórias de Franz Kafka (1833-1924). Não se trata exatamente de uma ficção de gênero e é de difícil classificação. Tal como os textos de outro importante fantasista brasileiro contemporâneo, o goiano José J. Veiga (1915-1999), Rubião não segue protocolos específicos. Há um amálgama de ficção científica, fantasia, horror e realismo mágico, num naturalismo muitas vezes desconcertante e, quase sempre, exasperante.
Rubião afirmava ter sido influenciado pela leitura de Machado de Assis e da Bíblia Sagrada. Tanto que, cada um de seus contos traz uma epígrafe bíblica que dialoga intimamente com o contexto, as vezes sendo eles mesmos a chave do entendimento da história ou da ampliação desse entendimento para outras interpretações.
Obra completa, publicado na coleção de bolso da Companhia das Letras, apresenta num único volume todos os 33 contos que Rubião publicou em vida (ele deixou alguns trabalhos inéditos), pintando o mais amplo panorama da obra desse escritor.
Destaco aqui alguns daqueles que mais me impressionaram, embora nenhum dos 33 possa ser preterido. Cada conto de Rubião encerra um universo completo a ser explorado e supera qualquer escala de avaliação que eu possa um dia ter sonhado estabelecer.
"O pirotécnico Zacarias" abre a coletânea  e é provavelmente o seu conto mais conhecido. Um homem morre atropelado na beira de uma estrada, mas ressuscita e segue sua existência, mantendo as mesmas atividades de quando ainda vivia.
Em "O ex- mágico da Taberna Minhota" um homem ressente-se da sua habilidade natural de realizar magia verdadeira e vive infeliz por não conseguir ter uma vida normal. Busca desesperadamente pelo anonimato, sempre fracassando, uma vez que não tem controle sobre seus poderes. Um dia, porém, a magia acaba.
"Bárbara" narra o martírio de um homem que faz de tudo para satisfazer os pedidos absurdos de sua esposa. E quanto mais ele a adula, mais ela engorda.
Em "A cidade", um caixeiro viajante chega de trem a uma cidade estranha e, quando pede uma informação banal, é preso, porque a polícia estava na captura de um homem perigoso cuja única identificação era que ele fazia perguntas. Desesperado, o homem vê que fica cada vez mais difícil explicar sua inocência, pois cada pergunta reforça sua culpa.
"Os dragões" conta a história de um homem que adota dois filhotes de dragão e os cria como se fosse seus filhos, passando por muitos problemas na educação dos mesmos.
"Teleco, o Coelhinho" é um dos textos mais bizarros da coletânea. Um homem recolhe em sua casa um estranho ser metamorfo, que muda de aparência conforme seu estado de espírito. A princípio a relação é divertida, mas deteriora-se ao longo do tempo até que a vida em comum se torna insuportável.
"O edifício" conta como é executado um ousado projeto arquitetônico: um edifício com centenas de andares. Depois de séculos de trabalho, quando o prédio já atinge 900 andares, o projeto entra em colapso financeiro, desestabilizando a vida de toda a sociedade.
"A fila" é o melhor texto do livro. Um homem do interior vai à cidade grande levando para um industrial importante uma mensagem que só pode ser entregue pessoalmente. Mas a fila de atendimento nunca acaba e sua vida vira um verdadeiro inferno.
Em "O bloqueio" um homem recentemente separado da esposa dominadora, esconde-se no apartamento de um prédio que parece estar sendo demolido.
"A diáspora" conta a história de um grupo de trabalhadores que chega a uma pequena cidade onde se pretende construir uma ponte, mas a população local se recusa a permitir que a obra seja executada.
"Epidólia" tem um componente lovecraftiano perturbador. Conta a história de um homem que persegue obsessivamente a mulher que o abandonou. A busca o leva a um lugar cuja geografia tem um comportamento bizarro, onde ele obtém estranhas revelações sobre a vida da moça.
"O convidado" é um texto que o autor afirma ter passado vinte anos escrevendo. Um homem vai a uma recepção misteriosa, feita em homenagem a um convidado desconhecido. Aborrecido com as pessoas dali, ele tenta ir embora, mas simplesmente não consegue afastar-se do lugar.
Um conceito similar envolve "Os comensais", texto que fecha a coletânea. Um homem faz suas refeições num restaurante em que todos os demais frequentadores estão imóveis. Dia após dia, ele percebe que os rostos mudam, embora ele nunca veja ninguém entrando ou saindo do lugar. Garçons trocam os pratos continuamente, mas apenas ele come o que é servido. Perturbado, ele tenta racionalizar o que acontece, mas quanto mais se envolve na questão, menos sentido encontra.
Como se pode perceber, a obra de Murilo Rubião é vultosa em significados, um amplo cabedal de ideias ainda a ser estudado. Um monumento praticamente desconhecido tanto do grande público quanto do fandom brasileiro, apesar do nome do autor estar na ponta da língua dos comentaristas.
Rubião é, certamente, um dos melhores modelos para uma ficção fantástica brasileira, que ainda se debate em busca de sua fisionomia.
Cesar Silva

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Anjos, mutantes e dragões, Ivanir Calado

Anjos, mutantes e dragões, Ivanir Calado. 296 páginas. Capa: Benson Chin. Introdução de Sylvio Gonçalves. Coleção Pulsar, Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Ivanir Calado, escritor carioca de Nova Friburgo, é dono de um trabalho significativo dentro dos gêneros fantásticos. Estreou em 1985, com os romances infantojuvenis O grilo do grilo e A salamandra de jade.
Em 1990 publicou A mãe do sonho, jornada de horror ao estilo de Stephen King, com mitologia indígena em doses generosas. Em 1992, publicou a novela juvenil O lago da memória e o romance histórico A imperatriz do fim do mundo que, embora seja pouco lembrado dentro do fandom, teve boa acolhida no mainstream e serviu de referência para a minissérie global O quinto dos infernos.
Depois de um período de dez anos sem um novo livro, Calado publicou em 2002 o romance de fantasia A caverna dos titãs e mais cinco anos depois, O mundo das sombras: O nascimento do vampiro. Os longos intervalos entre os livros foram ocupados com a publicação muitos contos publicados em diversas antologias.
Anjos, mutantes e dragões é resultado da reunião desses contos em um único volume. O livro, publicado pela Devir Livraria em sua Coleção Pulsar, foi dividido pelo organizador Roberto de Sousa Causo, em cinco capítulos distintos, cada um voltado para um momento específico do trabalho do autor.
O primeiro comporta um único conto, o perturbador "Paradoxo de Narciso", publicado originalmente em 1991 no extinto periódico Isaac Asimov Magazine. O texto narra um encontro muito íntimo de um viajante do tempo consigo mesmo.
A segunda parte apresenta três noveletas, que foram publicadas em 1994 na coleção Fatos e Relatos, da Ediouro. Os contos foram escritos por encomenda a partir de sugestões da organizadora da coleção, Helena Rodarte. "O refém" parte de uma premissa algo convencional na literatura moderna, a violência urbana e a marginalidade. Uma dupla de delinquentes invade um apartamento e faz um garoto como refém. Assustado, o menino tem sua mente perturbada por uma aventura imaginária na qual ele é o piloto de uma espaçonave sendo sequestrado por alienígenas beligerantes. As duas narrativas vão se sobrepondo até o leitor ter dúvidas sobre qual delas é a real.
"Tia Moira" é mais lírica, mas não deixa de guardar uma certa familiaridade com o naturalismo mainstream. Conta o drama de uma família de classe média que se vê agitada pelas previsões de Moira, uma tia solteirona viciada em telenovelas. O imponderável surge quando um dos filhos nota que as previsões da Tia Moira sobre uma telenovela estão se manifestando em sua própria vida. A ideia não é inédita na fc, mas é realizada com muita classe e identidade, sendo um dos pontos altos do volume.
Em "O anjo", Calado volta ao tema das viagens no tempo, contando a história do principal líder da sociedade de um Rio de Janeiro futuro e utópico, que acredita que seu sucesso é fruto das desgraças passadas de sua vida. O dilema se impõe quando chega a ele um artefato revolucionário que pode permitir que evite suas tragédias pessoais, arriscando porém a integridade do futuro positivista que ajudou a construir. Tal como em "O refém", o leitor será parte importante no desfecho da narrativa.
A terceira parte da antologia é composta por sete contos curtos dedicados a cada um dos pecados capitais. Os textos também foram resultado da encomenda de Helena Rodarte, e publicados em 1995 na coleção Eles são sete, da Ediouro. Quatro contos acontecem no mesmo universo. "Bobo (A ira)" é uma história pungente, sobre uma civilização alienígena dominada por um governo totalitário em que uma casta de humoristas propositalmente deformada apresenta um espetáculo autorizado de crítica ao governo. "O dia do dragão (Preguiça)" é quase uma releitura de O hobitt, de J. R. R. Tolkien. Numa aldeia escravizada por um dragão, um jovem é escolhido para ser a oferenda anual que vai alimentar o monstro. Decidido a não morrer sem luta, resolve atacar o dragão de surpresa e matá-lo. Em "Kilumbo (Orgulho)" e "A volta do dragão (Avareza)", um ancião de uma raça alienígena conta ao neto histórias de seu passado. São estas duas narrativas que amarram as quatro num único contexto cenográfico.
As outras três histórias são independentes. Em "Operação Lobo (A gula)" ex-espiões da guerra fria trocam confidências numa mesa de bar e um deles conta uma de suas aventuras mais secretas. "Não é por inveja (Inveja)" é uma narrativa em primeira pessoa, na qual um estudante e seu melhor amigo passam pela vida acadêmica numa relação de amor e ódio que, por falta de sinceridade, pode culminar em tragédia. "Avthar (Luxúria)" fecha o capítulo como o melhor conto dessa série. Um menino chega a puberdade e desenvolve o poder de restaurar a vida animal e vegetal a sua volta quando tem orgasmos. Porém, os sacerdotes do lugar não concordam com o valor de seus milagres e o banem para uma ilha deserta até que ele consiga purificar seu poder.
A quarta parte da antologia traz dois contos publicados em 2000 na coleção Aventura no tempo, da Editora Record, em referência aos 500 anos do descobrimento do Brasil. "Foi assim (Talvez)" é uma interessante reconstrução do Brasil pré-cabralino e romantiza o encontro dos hoje extintos Homens do Sambaqui com uma desconhecida raça de índios mais forte e melhor equipada. O segundo conto é "A carta do filho da puta", uma narrativa epistolar na qual um grumete analfabeto escreve uma carta imaginária a sua mãe, igualmente analfabeta, contando seus sofrimentos, dissabores e alegrias vividos durante a viagem da esquadra de Cabral ao Brasil, em 1500, da qual ele fazia parte.
A quinta e última parte apresenta dois textos, sendo o primeiro o único texto inédito da antologia, o conto "Eleanor Rigby", inspirado numa canção da banda britânica The Beatles, originalmente escrita para compor uma antologia temática de autores fãs nos anos 1980, que nunca foi publicada. O texto destaca-se também por ser o único no qual o autor fez experiências formais, com frases inacabadas e períodos truncados.
Fecha o volume a notável novela cyberpunk "O altar dos nossos corações", publicado originalmente na antologia lusófona O Atlântico tem duas margens (Caminho, 1993), que consagrou Ivanir entre os grande nomes da fc&f nacional.  A história fala sobre a corrupção do governo brasileiro, as trapaças, armações, acordos escusos e o controle da verdade pela mídia, em meio a uma sociedade desonesta e violenta controlada pelo crime organizado. Escrita há duas décadas, a novela continua atual e impactante.
Ivanir Calado que, além de escritor, é músico, compositor, tradutor e diretor de teatro, confirma nesta antologia todas as qualidades autorais demonstradas em seus romances. Um trabalho que agrada tanto aos jovens quanto aos veteranos leitores de fc&f, pois navega em todos os gêneros com desenvoltura e qualidade. Um volume que certamente vai satisfazer até aos leitores mais exigentes.
Cesar Silva

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

O jogo no tabuleiro, Simone Saueressig

O jogo no tabuleiro, Simone Saueressig. 350 páginas. Editora Clube de Autores, Novo Hamburgo, 2010.

O jogo no tabuleiro é um romance de alta fantasia que consegue, de forma criativa e surpreendente, trazer um gênero iminentemente angloamericano para o dia-a-dia brasileiro, sem parecer forçado.
A história conta o que acontece a um grupo de jovens amigos, moradores de uma cidade pequena, quando um deles desaparece misteriosamente depois de participar de um novo tipo de jogo. Dias depois, a turma traumatizada recebe a visita de um personagem desconhecido que lhes traz um recado do amigo desaparecido, pedindo ajuda e dando um endereço. Apreensivos e sem avisar ninguém, os jovens deslocam-se até o local que revela ser uma apenas uma casa comum, onde uma senhora simpática mantém um espaço lúdico com um jogo de tabuleiro que ela mesma construiu. Ao aceitarem experimentá-lo, finalmente descobrem o que aconteceu com o colega desaparecido e o tamanho das dificuldades para fazer o caminho de volta.
Simone é uma autora experiente, com diversos títulos de fantasia publicados por editoras importantes, como O palácio de Ifê (L&PM, 1989), A fortaleza de cristal (L&PM, 1993), A máquina fantabulástica (Scipione, 1997) e Receita para um dragão (Scipione, 1999), livros comercialmente identificados como infanto-juvenis e recomendados como leitura paradidática. Porém, Simone vai além da maioria dos autores dessa espécie de texto. Todos os seus romances têm níveis mais profundos de interpretação e satisfazem totalmente aos leitores mais exigentes.
A autora investiu todo o seu potencial autoral em O jogo no tabuleiro. Por causa de seu volume avantajado, a autora teve dificuldades em encontrar uma editora para ele. Depois de anos de buscas, resolveu em 2009, publicá-lo em seu site Porteira da fantasia, dividido em em três volumes: O afilhado das fadas, A falcoeira e O Nemthru, reunidos depois em um único volume também publicado pela autora em 2010 através do Clube de Autores.
Quem gosta de fantasia vai se deliciar com O jogo no tabuleiro. E mesmo quem não sabe se gosta, vale a pena arriscar: O jogo no tabuleiro é, sem dúvida, o melhor romance de fantasia já escrito por um autor brasileiro.
Cesar Silva

Walter Martins (1932-2010)


Escritor da Primeira Onda da Ficção Científica Brasileira, José Walter Martins era formado em Engenharia Química pela USP (1958), Mestre em Ciências pela Universidade de Illinois (1963) e Doutor em Ciências pela UNICAMP (1974), foi professor na Unicamp por mas de vinte e cinco anos, aposentando-se em 1995.
Participou da comissão organizadora da I Convenção Brasileira de Ficção Científica, ocorrida entre 12 e 18 de setembro de 1965, no Auditório das "Folhas" em São Paulo, evento em que foi fundada a Associação Brasileira de Ficção Científica, a primeira agremiação formal do gênero no Brasil. Também esteve presente no Simpósio de FC de 1969, no Rio de Janeiro, até hoje o maior evento do gênero realizado no país.
Martins ainda compareceu à V InteriorCon, realizada em 1997 em Sumaré/SP, num encontro de autores do qual também praticiparam Nilson Martello e André Carneiro.
Entre seus textos de fc&f, o destaque é o clássico "Tuj", noveleta publicada na antologia Além do tempo e do espaço (1965, Edart). Martins também publicou "A volta de Adalbeu" no Magazine de Ficção Científica da Editora Globo (1970) e, mais recentemente, "De trufas e fanfruinhas" no Terra Magazine (2009). Walter Martins faleceu em 12 de janeiro de 2010, de embolia pulmonar, aos 77 anos.

Frank Frazetta (1928-2010)

Na segunda feira, 10 de maio de 2010, o mundo da fantasia perdeu um de seus mais expressivos talentos. Frank Frazetta mostrou a pelo menos quatro gerações como enxergar o gênero a partir de uma interpretação selvagem, romântica e surrealista.

Frazetta nasceu em Nova York em 9 de fevereiro de 1948 e iniciou sua carreira aos 16 anos como assistente no estúdio de John Giunta e Bernard Bailey. Fez muitos quadrinhos de humor com desenhos caricatos, mas se especializou em um estilo realista, de contornos precisos e contrastes dramáticos. Nos quadrinhos, desenhou histórias de romance, ficção científica e aventura, sendo famosas as suas pranchas para Shining Knight, White Indian, Buck Rogers e Johnny Comet, este último de sua criação.
Antes da fama, Frazetta foi ghost de Dan Barry nas tiras de jornais de Flash Gordon, e trabalhou no estúdio do lendário cartunista All Capp, desenhando as histórias de Li'l Abner (Ferdinando). Nos anos 1960 trabalhou com a editora Warren, fazendo capas para as revistas Eerie e Creepy, que lhe abriram as portas para o mercado editorial.
Suas ilustrações passaram a ser requisitadas para capas livros de fantasia, como as edições de Edgar Rice Burrougs e Robert E. Howard, entre outras. Frazetta também fazia belíssimos bicos de pena para ilustrar páginas internas, num estilo despojado e expressionista. Todos esses originais são hoje muito valorizados no mercado de arte.
Aprendi a gostar de Frazetta ainda garoto, nos anos 1970, nos portfólios importados que chegavam ao Brasil a peso de ouro. Gostaria de dizer que seu traço elegante e detalhista me influenciou, mas eu acho que o que aproveitei dele não foi o estilo de desenho, mas sim os temas e enfoques, de cenários épicos, poses heróicas, mulheres voluptuosas e grandes animais ferozes e elegantes. Seu traço mais visível eram as fisionomias algo orientais das mulheres e a delicadeza na composição das cores.
As imagens de Frazetta foram também adotadas por algumas bandas de heavy metal e apareceram nas capas de vários álbuns. Ainda guardo na minha estante, por saudosismo, uns poucos LPs em vinil, entre eles está o primeiro disco do Mollyhatchet, Flirting' with disaster, com uma de suas ilustrações mais conhecidas.
Um pouco de sua arte pode ser apreciada na deliciosa animação Fire and Ice (1983), de Ralph Bakshy, uma das melhores transposições da arte do mestre em formato audiovisual. Um documentário raro sobre suas técnicas é Frazetta: Paintig with fire (2003).
Frazeta estava com 82 anos, debilitado depois de vários derrames, sendo também um AVC a causa de sua morte. Seu legado é, além das milhares de pranchas e telas que estarão para sempre associadas a construção do imaginário de FC&F, a forte influência sobre as gerações seguintes de artistas que certamente vão continuar explorando as trilhas abertas pelo mestre.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Al Williamson (1931-2010)

Alphonsus Williamson, ilustrador cujo estilo claro-escuro perfeito influenciou mais de uma geração de ilustradores, nasceu em 21 de março de 1931, em Nova York. Filho de pai colombiano e mãe americana, passou sua juventude em Bogotá, onde aprendeu a gostar dos comics americanos, especialmente de Flash Gordon e de seu ilustrador mais expressivo, Alex Raymond. Em 1943, transferiu-se para os EUA, onde estudou desenho na escola de Burne Hoggart. Trabalhou com grandes artistas, como Frank Frazetta, Roy Krenkel e Wallace Wood, e com personagens importantes, como Tarzan, Flash Gordon e Phil Corrigan. Esteve entre a equipe de colaboradores da legendária editora EC Comics, realizando histórias de ficção científica e terror para as revistas Weird Fantasy e Weird Science, e também da editora Warren, para as revistas Eerie e Creepy.
Seu estilo hiperrealista, com uma sofisticada técnica volumes definidos em alto-contraste, fizeram dele um artista muito identificado com a ficção científica. Quando George Lucas procurou um grande artista para adaptar O império contra-ataca para os quadrinhos, foi Williamsom que ele escolheu. As versões em quadrinhos para os filmes da saga estão entre as edições mais valorizadas do gênero. Williamson também deu extrema dignidade às tiras de jornal de Star Wars (publicadas em São Paulo pela extinta Folha da Tarde) e para algumas das mais valiosas edições da versão em gibi, pela Marvel Comics. Também realizou uma notável adaptação em quadrinhos para o "cultmovie" Blade Runner, uma edição rara e de altíssima qualidade.
Ganhou vários prêmios Harvey e National Cartoonists Society e Eisner, do qual faz parte do Hall da Fama.
Nos últimos anos, Williamson esteve envolvido com os quadrinhos de super-heróis, principalmente como artefinalista, um desperdício para um profissional desse quilate.
Al Williamson morreu neste domingo, dia 13 de junho, em sua cidade natal, aos 79 anos, e deixa para a posteridade uma obra de extremo valor que merece ser continuamente recuperada.

José Saramago (1922-2010)

Em 2010, a língua portuguesa perdeu um de seus mais expressivos escritores, o português José de Sousa Saramago, ganhador do Nobel de Literatura de 1988.
Saramago é autor de alguns dos mais surpreendentes textos da moderna literatura mundial, entre os quais o seminal Ensaio sobre a cegueira (1995), filmado em 2008 por Fernando Meirelles. Um perturbador mergulho na natureza humana que pode perfeitamente ser lido como um texto de ficção científica.
Além deste, outros títulos do autor navegam na ficção fantástica, como A jangada de pedra (1986), Ensaio sobre a lucidez (2004), As intermitências da morte (2005) e História do cerco à Lisboa (1989), entre outros.
O estilo genial e inusitado de Saramago, com longos parágrafos sem pontuação, diálogos embutidos, e ainda assim perfeitamente compreensível, desmonta todas as teorias literárias conhecidas.
Saramago foi um crítico ferrenho do catolicismo e seu último livro, Cain (2009), foi recebido com muita antipatia pela igreja Católica Romana.
Apesar de Saramago ter sido o maior representante vivo da ficção portuguesa, com uma boa quantidade de títulos claramente instalados em gêneros fantásticos, nunca aceitou o rótulo de escritor de ficção fantástica e talvez por isso o fandom português de FC&F não teve com ele uma relação próxima. Mas isso não desqualifica em nada a sua obra maiúscula, que merece ser conhecida e, por que não, imitada pelos autores jovens.
Saramago faleceu nesta sexta-feira, 18 de junho, aos 87 anos, em sua casa em Lazanrote, vítima de leucemia crônica.

sábado, 24 de janeiro de 2015

O incrível homem que encolheu, Richard Matheson

O incrível homem que encolheu (The shrinking man), Richard Matheson. 344 páginas. Tradução de Jaqueline Valpassos. Capa de Rodrigo Valpassos. Editora Novo Século, Barueri, 2010.

2010 foi um ano especial no que se refere a edição de livros de FC&F no Brasil. Há muito tempo que não se via tantos e tão bons volumes publicados, sem contar no enorme volume de estreias que chegaram às livrarias, por uma quantidade recorde de editoras, algumas fundadas nesse mesmo ano.
Entre as editoras mais ativas esteve a Novo Século, que há alguns anos sustenta a publicação de livros de FC&F de autores novos na Coleção Novos Talentos da Literatura Brasileira, mas, além dela, tem editado títulos de autores estrangeiros importantes, entre eles o norteamericano Richard Matheson. Em 2010, traduziu O incrível homem que encolheu (The shrinking man), coletânea na qual se destaca a novela título. Na minha opinião, este foi o melhor livro de FC publicado no ano no Brasil.
O incrível homem que encolheu entrou na minha seletíssima lista de histórias que só é possível ler uma vez, ao lado de Planeta 8: Operação salvamento, de Doris Lessing e 1984, de George Orwell. Especialmente por conta da dita novela, que toma dois terços do volume e conta a história de Scott, um homem que, depois de ser atingido por uma estranha névoa durante um passeio de barco, começa a diminuir lentamente, ao ritmo de alguns milímetros por dia.

Matheson constrói uma personalidade redonda para Scott que, mesmo antes do fenômeno, era inseguro e não encontrara seu lugar no mundo. Orgulhoso, não aceita a sua condição bizarra, não se deixa ajudar e foge das poucas alternativas que lhe restaram. Humilhado, ele se empenha em sustentar o orgulho apenas para ser humilhado ainda mais.
A narrativa salta entre os últimos dias de Scott, com um centímetro de altura e diminuindo, com fome, sede, doente, ferido, aprisionado num porão infecto e assediado por uma aranha viúva negra, e os inúmeros incidentes que enfrentou enquanto ia encolhendo, que vem a ser as partes mais pungentes da história. Sua relação cada vez mais deteriorada com a esposa e com um mundo do qual ele não pode mais se defender.
A novela foi levada ao cinema em 1957, dirigido por Jack Arnold. Apesar de ser um dos grandes clássicos da FC cinematográfica, a adaptação audiovisual não guarda o mesmo impacto de sua versão literária.

Além da poderosa novela título, contos como "Encurralado" e "Xô, mosca!" também são textos para se ler só uma vez. O cenário de inadequação e inutilidade dos personagens contamina a gente, em experiências que não queremos repetir. "Encurralado" foi adaptado para o cinema em 1971, sendo o longa de estreia de Steven Spielberg na telona. O filme consegue ser ainda mais angustiante que o texto original.
"Xô, mosca!" é uma história exasperante na qual um homem perde o controle emocional pressionado por seus problemas pessoais e por uma mosca que o perturba no escritório.
"O homem dos feriados" também é um conto incômodo e um dos raríssimos exemplos em que um final surpresa se justifica.
O conto mais bizarro da antologia é "O distribuidor", em que um o novo morador de uma rua de classe média, através de mentiras e intrigas remove, camada após camada, o verniz de civilização de seus moradores, levando desespero, crime e morte à toda a comunidade.

Contudo, o melhor conto do livro é "O teste". Poucos autores têm coragem de tratar do preconceito contra os idosos e este, nas mãos de Matheson, é uma obra prima emotiva e corajosa, na qual um ancião reveste-se de toda a sua dignidade para enfrentar um exame que se vai avaliar sua capacidade produtiva. Não passar é uma sentença de morte, literalmente.
"Pesadelo a 20.000 pés", "Montagem", "Apenas com hora marcada" e "A caixa" são os contos mais convencionais do livro. Lembram episódios do seriado Além da imaginação. Aliás, "Pesadelo..." é, de fato, uma das quatro histórias que compõem o longa No limite da realidade (Twilight zone), de 1983, dirigida por George Miller. Os demais segmentos do filme foram dirigidos por Joe Dante, John Landis e Steven Spielberg.
A quem só gosta de histórias de entretenimento, recomendo que passe longe desta antologia de Matheson, porque ela certamente não é destinada a esse fim. Mas quem aprecia uma experiência literária forte, como se alguém estivesse apertando o seu coração e remexendo suas tripas, é o livro ideal.
Cesar Silva

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Zeladores, Nathan Cornes & Mr. Guache


Zeladores, Nathan Cornes & Mr. Guache. 64 páginas. Devir Livraria, São Paulo, 2010.

Um dos derradeiros recursos dos quadrinhos no Brasil é o financiamento estatal. Já não é de hoje que as Secretarias de Cultura de diversos Estados dedicam recursos públicos para socorrer a cada vez menor publicação de quadrinhos brasileiros. Em São Paulo, o programa mais em voga é o Proac que, a cada ano, seleciona através de um burocrático edital, um punhado de projetos que julga merecedores da verba, que atrai o interesse das editoras.
Foi o caso do álbum Zeladores, publicado em 2010 pela Devir Livraria, baseado numa série publicada na internet, disponível  aqui.
O desenho de Mr. Guache (Anderson Almeida) é moderno e de cores vibrantes, com uma estilização forte e angulosa. O argumento, do espanhol Nathan Cornes, tem contornos míticos e cosmológicos de textura lovecraftiana, lembrando imediatamente Hellboy, personagem de aventuras tenebrosas do norte americano Mike Mignola, com elementos dramáticos que também remetem aos romances do britânico Neil Gaiman, Os filhos de Anansi (Conrad, 2006) e Deuses americanos (Conrad, 2002).
O herói da história é a entidade sobrenatural Zé Pilintra, protetor da cidade de São Paolo (com "o" mesmo). Pilintra detém uma bengala que lhe dá força espiritual para cuidar da cidade.
Ramalho, um ex-traficante de escravos que adquiriu a imortalidade e, para variar, quer dominar o mundo, pretende libertar o deus Anhagá, aprisionado em um lugar desconhecido. Para localizá-lo e libertá-lo, Ramalho precisa da bengala. Ele já teve a bengala uma vez, quando conseguiu a façanha de matar Zé Pilintra, e agora ambos terão de se confrontar novamente para um tirateima.
Um aspecto que enfraquece a história é que o teoricamente astuto Zé Pilintra demonstra não ter força e habilidade suficientes para enfrentar o medíocre e falastrão Ramalho, e até precisa da ajuda de outras entidades para não morrer outra vez.
A história até começa bem e assim vai até mais ou menos a metade, quando a narrativa perde o fôlego. Falta-lhe o aspecto humano: o leitor não se identifica com qualquer dos personagens, todos entidades sobrenaturais impiedosas, verdadeiros monstros. Também falha na tentativa de fazer humor negro, descambando para a paródia e comprometendo a frágil credibilidade da trama.
O que resgata o trabalho do simples pastiche são as citações à mitologia brasileira de fundo africano e indígena, que deve ser o que garantiu a simpatia da Secretaria da Cultura para aprovar o financiamento da obra. Mas poderia ser melhor.
Cesar Silva

sábado, 17 de janeiro de 2015

Metrópolis, Osamu Tezuka


Metrópolis, Osamu Tezuka. 168 páginas. Editora New Pop. São Paulo, 2010.

Osamu Tezuka (1928-1989), um dos mais influentes quadrinhistas japoneses, é considerado o pai do mangá moderno. Isso porque ele transformou a arte dos quadrinhos no Japão, dando-lhe identidade cultural e tornando-a um verdadeiro fenômeno de massa.
Contudo, Tezuka não atingiu esses objetivos através de uma proposta nacionalista, ao contrário. Ele abraçou com vontade as características do quadrinho ocidental, especialmente o norte-americano, que era extremamente influente no seu país nos anos pós-guerra.
E isso fica muito claro na leitura de um de seus clássicos, Metrópolis, publicado originalmente em 1949, traduzido no Brasil em 2010 pela editora New Pop.
Metrópolis foi confessamente inspirado no filme homônimo de Fritz Lang, de 1927, mas Tezuka conta, no posfácio da edição brasileira, que não tinha visto o filme, mas apenas uma imagem estática da cena em que Maria, a robô, é criada. Tezuka ainda conta que queria realmente mudar o panorama do mangá japonês, então dominado pelo que ele chama de "akahon", a literatura juvenil masculina. Para isso, investiu numa longa saga de ficção científica com uma personagem feminina, ou quase isso: Michi é um androide andrógino, criado a partir de moléculas artificiais de proteína sensibilizadas pela radiação de um raro fenômeno solar. Dr Lawton, o cientista que criou Michi, o fez a mando de uma corporação criminosa internacional controlada pelo mafioso Duque Red, que domina a tecnologia dos robôs e os escraviza em suas fábricas secretas, mas anseia pela criação do super-homem, um passo adiante na tecnologia robótica. Contudo, no último momento, Lawton engana Red incendiando o laboratório e dizendo que o protótipo fora destruído no acidente mas, na verdade, o leva em segredo e passa a cuidar dele como um filho, sem lhe revelar a origem artificial. Anos depois, Red vai descobrir que foi enganado por Lawton e fará de tudo para retomar o controle sobre Michi.
Em meio à história, há referências a outras obras clássicas ocidentais, como a pobre vendedora de flores, inspirada no romance Os miseráveis, de Victor Hugo, a ilha em que Red promove experiências genéticas, que reporta a Ilha do Dr. Moreau, de H. G. Wells, e A ilha misteriosa, de Júlio Verne, assim como a revolta final dos robôs, que vimos primeiro na novela R.U.R, de Karel Capek, e no próprio Metropolis de Fritz Lang.
Além disso, fica patente a forte influência ocidental na estética dos desenhos de Tezuka, especialmente do trabalho de Walt Disney, de quem Tezuka emprestou Mickey Mouse sem a menor cerimônia, numa legítima sequência de antropofagia modernista. É verdade, portanto, o que o mestre falava sobre os grandes olhos dos personagens dos mangás – sua mais importante herança na arte – terem sido inspirados nos estilo da Disney.
No roteiro também percebemos a influência do quadrinho ocidental, desenvolvido em espasmos narrativos, como nas tiras dos jornais. Sem esquecer que Metrópolis adianta alguns dos temas que se tornariam frequentes na arte de Tezuka, como a troca de identidades e da luta pela liberdade.
Metrópolis atinge assim o status de um verdadeiro 'elo-perdido' na história da evolução do mangá e também do quadrinho moderno em todo o mundo, na medida em que o Japão agora realimenta a arte com sua própria estética. É Osamu Tezuka, vivo e influente.
Cesar Silva

domingo, 4 de janeiro de 2015

Apresentação do Anuário 2010

"No ano de 2010, os gêneros fantasia, ficção científica e horror no Brasil viveram um momento intenso, com muitas atividades e publicações. Conforme o leitor poderá acompanhar nas páginas desta edição, foi o melhor ano desde que começamos este levantamento em 2004. Cerca de 900 livros de literatura fantástica foram publicados, um número absolutamente incrível e muito distante dos verificados nos anos anteriores, que também já registravam um crescimento centenário e contínuo. Esta é uma indicação segura de que caminhamos (ou já vivemos) um processo de consolidação editorial para os gêneros fantásticos no país. Para quem viveu nos anos 1990 as penúrias e angústias sobre o futuro dos gêneros — em especial da ficção científica — , não poderia haver um momento melhor para celebração e otimismo. Todos os lançamentos tradicionais estão listados com as devidas análises e estatísticas sobre o mercado editorial, além de levar em consideração também os chamados “trabalhos de fronteira”, isto é, o fantástico abordado a partir da perspectiva do mainstream literário.
Apesar destes números superlativos as características da estrutura do mercado editorial pouco se alterou, com um equilíbrio entre os lançamentos de autores nacionais e estrangeiros, a liderança da fantasia, as grandes manias do vampiro romantizado no horror e do retrofuturismo na ficção científica. Talvez a maior novidade tenha sido a grande quantidade de livros virtuais publicados.
Resenhamos 20 livros, sendo 16 deles lançados e/ou relançados em 2010, num grande esforço para acompanhar criticamente uma parte do desempenho dos autores nacionais e estrangeiros. Entre eles, Nelson de Oliveira ganha um destaque especial. Ele publicou três livros em 2010, além de organizar duas antologias de contos. Entre eles, livros como a ótima coletânea Paraíso Líquido — resenhado nesta edição —, e o romance Poeira: Demônios e Maldições, que lhe valeu o prestigioso prêmio Casa de las Americas. Este conjunto de atividades e virtudes a elas associadas lhe valeu a condição de “Personalidade do Ano” de 2010 — resultando em mais uma de nossas longas e produtivas entrevistas. Na condição de militantes veteranos do movimento literário em torno dos gêneros fantásticos no país, a publicação deste Anuário pelo sétimo ano consecutivo — e o segundo pela Devir Livraria, em um claro sinal de amadurecimento editorial da publicação —, nos dá mais do que um testemunho e sim uma contribuição, dentro de nossas possibilidades, do processo de grande expansão editorial vivida pelos gêneros fantásticos no Brasil neste início de século XXI.
Boa leitura e que tenhamos ainda mais fc&f em 2011."
Os autores