terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sagas 5: Revolução

Sagas, Volume 5: Revolução,  Cesar Alcázar e Duda Falcão, orgs. 96 páginas. Editora Argonautas, Porto Alegre, 2014.

Em 2010, a coleção Sagas inaugurou as atividades da Editora Argonautas, fundada pelos escritores Cesar Alcázar e Duda Falcão, em Porto Alegre. Os editores não esconderam sua admiração pela saudosa coleção de livros de bolso Argonauta, da editora portuguesa Livros do Brasil que, por décadas, foi a fonte principal de publicação de ficção científica em língua portuguesa. Como todos os brasileiros que cresceram lendo esses livrinhos, eles também sonharam criar sua própria coleção no país, e a Sagas foi a solução que escolheram para realizar esse sonho.
Sagas é uma série de antologias que, a cada edição, adota um tema base para a seleção dos contos. O primeiro número foi Espada & magia, o segundo, Estranho oeste, o terceiro, Martelo das bruxas, e, o quarto, Odisseia espacial, deixando claro o gênero abordado: fantasia heroica, faroeste, horror e ficção científica, respectivamente. Desde o princípio, os editores deixaram claro que não tinham grandes pretensões literárias para a coleção. A ideia era que Sagas se situasse no nicho das publicações populares, com textos acessíveis e temas instigantes. As capas coloridas e chamativas, ao estilo das histórias em quadrinhos, revelam a intenção pulpesca.
Em 2014, Sagas chegou a sua quinta edição, num volume de 92 páginas subtitulado Revolução. Trata-se do tema mais aberto da coleção até o momento, que não deixa claro ao leitor para que lado a seleção pretende levá-lo. E, de fato, as histórias são bem variadas. O prefácio traz um ensaio assinado por Rafael Hansen Quinsani, mestre em História e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que justifica o valor do tema escolhido, embora deixe transparecer que provavelmente não tenha lido os contos previamente, prática comum nas antologias publicadas no país.
O primeiro conto, "A batalha das Garras Negras", do escritor gaúcho André Cordenonsi, parece ser parte de um projeto maior. No final do texto o autor faz constar o subtítulo "As crônicas de Thandor, Volume 1, Tomo 5", que parece confirmar esta suspeita. A história conta como uma comitiva soldados humanos que pretende negociar um acordo com seus inimigos – uma tribo de lobisomens que habita as florestas – acaba num banho sangue depois de uma traição. Quem foi o traidor é o grande mistério. O texto é ágil e repleto de imagens típicas das histórias de fantasia medieval, ao estilo Guerra dos tronos e O senhor dos anéis. O problema é que tudo acontece muito rápido e não há tempo para o leitor identificar os personagens que, para piorar, têm nomes complicados que dificultam o reconhecimento. É preciso prestar muita atenção para entender quem está matando, quem está morrendo e quem, afinal, é o traidor. Sinal que nem sempre funciona tomar um fragmento de um texto maior como um conto independente.
O segundo trabalho é "Nas nuvens", ficção científica de Fábio Fernandes, tradutor experiente e autor surgido nos fanzines do final do século, no caldeirão que ficou conhecido como Segunda Onda da ficção científica brasileira. Fernandes é autor de alguns textos muito bem avaliados entre os fãs do gênero, mas infelizmente não é o caso deste conto, que não disfarça o tom intolerante e preconceituoso. Narra uma sessão de tortura de um subversivo que, de fato, é um cavalo de Tróia através do qual será implantado um vírus nos computadores do governo, um estado policial formado por fanáticos religiosos. A cena final é tão constrangedora que somente posso tomar este texto como uma piada que não deu certo.
O terceiro conto é "Atrás das muralhas, atrás das cortinas", de Felipe Castilho, autor paulista que está construindo uma obra interessante inspirada na mitologia brasileira, como se vê nos livros Ouro, fogo & megabytes e Prata, terra & Lua cheia. O texto em questão, contudo, escapa desse viés. Trata-se de uma mistura de fantasia que coloca Robin Hood num contexto distópico no qual uma sociedade hedonista despreza e explora as pessoas que não atingem um padrão mínimo de beleza. A história é contada pela ótica de João Pequeno, um faxineiro gordo que, por acaso, tem uma belíssima voz. O envolvimento da música na trama é o melhor ponto do trabalho, lembrando o já clássico "Sonata desacompanhada", do escritor americano Orson Scott Card.
Fecha a edição o conto "Não confie em ninguém quando a revolução vier", da gaúcha Nikelen Witter, o melhor texto do conjunto. Trata-se de uma fantasia de história alternativa situada em algum momento do século 19. Uma espiã a serviço do governo entrega o objeto de sua missão ao seu empregador, uma arma secreta tão poderosa que pode por fim a revolução popular que grassa nas ruas. Mas o que ela não diz é que ter a tal arma nas mãos pode não ser a melhor forma de vencer a guerra. Nikelen é historiadora e, junto com Alcázar, Falcão e outros colaboradores, faz parte da equipe que organiza a Odisseia de Literatura Fantástica de Porto Alegre.
A capa traz uma ilustração de Fred Rubim, que reúne detalhes de cada um dos contos publicados.
Sagas 5: Revolução cumpre o objetivo de entreter o leitor com textos inéditos de bons autores brasileiros.
Cesar Silva

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A Maldição da Casa do Diabo (The Fall of the House of Usher, EUA, 1979)


O cultuado escritor americano Edgar Allan Poe (1809 / 1849) teve uma grande quantidade de seus contos transformados em filmes. “A Queda da Casa de Usher” é uma das histórias mais filmadas, com diversas versões. Entre as principais temos a produção francesa muda em preto e branco “La chute de la maison Usher”, dirigida por Jean Epstein em 1928, e a preciosidade “A Casa de Usher”, também conhecido por aqui como “O Solar Maldito” (1960), dirigido por Roger Corman e com o lendário Vincent Price. Porém, temos também outra versão, produzida especialmente para a televisão em 1979, fazendo parte do programa “Classics Illustrated”, sobre grandes obras literárias adaptadas para filmes, que recebeu o sonoro nome no Brasil de “A Maldição da Casa do Diabo” (The Fall of the House of Usher) quando lançado em vídeo VHS pela “Alvorada”.
Com direção de James L. Conway, essa versão televisiva apresentava o grande ator Martin Landau, dono de um currículo imenso com quase 180 filmes, no papel de Roderick Usher, um dos últimos remanescentes de uma antiga família proprietária de uma mansão gótica amaldiçoada, localizada numa região inóspita e evitada por todos chamada “Ravenshead Lake”, com um lago de águas podres, sem vida, cercado por uma floresta morta envolta em névoa espessa, transmitindo medo e insegurança constantes.
Com história ambientada em 1839, Roderick Usher é um homem portador de uma doença misteriosa hereditária e incurável que o torna extremamente sensível nos cinco sentidos, enfrentando dolorosas torturas por causa de ruídos e claridades, vivendo a maior parte do tempo enclausurado em seu quarto. Ele vive com sua irmã Madeleine (Dimitra Arliss), também terrivelmente doente e sofrendo de insanidade. A mansão centenária esconde segredos obscuros do passado da família Usher, envolvendo práticas de magia negra, bruxaria, idolatria satânica, rituais demoníacos, torturas e sacrifícios humanos, e suas imensas estruturas de pedra e madeira estão decadentes, mal conservadas, cheias de enormes rachaduras e em constante movimentação, ameaçando cair o tempo todo (daí o título do filme). Além deles, também é morador o mordomo Thaddeus (Ray Walston), que faz de tudo no mausoléu macabro, desde cozinhar até inspecionar as diversas salas e quartos imensos, com direito a passagens e túneis secretos para todos os lados. Seus antepassados sempre serviram a obscura família Usher, e ele sente-se preso ao sinistro lugar.
Para tentar ajudá-lo a impedir a queda da casa, Roderick chama seu único amigo de infância e que se formou em arquitetura e engenharia, Jonathan Cresswell (Robert Hays), que decide visitá-lo juntamente com sua recém esposa Jennifer (Charlene Tilton). Porém, após a chegada do casal as coisas sem complicam, a saúde dos irmãos amaldiçoados piora, a loucura se instaura no ambiente, passando uma atmosfera de horror, e mesmo com as tentativas de reforçar as estruturas da casa, suas paredes tremem assustadoramente, ameaçando a vida de todos.
Só pela história inspirada na obra de Edgar Allan Poe (mesmo já filmada várias vezes) e pela presença do ator Martin Landau, já vale a conferida desse filme que é especialmente indicado para os fãs do cinema de horror gótico, com o clima característico das produções inglesas da “Hammer”. Essa versão de “A Queda da Casa de Usher”, com esse título nacional oportunista envolvendo as palavras “maldição” e “diabo” no nome, não é tão famosa e cultuada quanto principalmente a versão da dupla dinâmica formada pelo cineasta Roger Corman e o ator Vincent Price. Porém, a diversão está garantida com todos os elementos típicos do horror gótico, e pela interessante história de loucura e maldição familiar. Com carruagens, floresta fantasmagórica, aldeões supersticiosos, mansão assombrada, ambientes escuros iluminados por velas, vultos ameaçadores ocultos nas sombras, gemidos agonizantes, mortos que levantam do caixão, instrumentos medievais de tortura usados para matar, e atmosfera sufocante do poder das trevas.  

“Todo ato abominável de degradação e horror, aconteceu aqui neste vil abismo do pecado” – Roderick Usher, sobre uma sala secreta para a prática de magia negra.

(Juvenatrix – 27/02/17)

Distrito Federal

Distrito Federal, Luiz Bras. Capa e ilustrações internas de Teodoro Adorno. 282 páginas. São Paulo: Patuá Editora, 2014.

Desde que surgiu para o cenário da ficção científica brasileira, no início dos anos 2000, Nelson de Oliveira tem se notabilizado pela ousadia editorial e criatividade literária. Tornou-se mesmo uma liderança intelectual em nosso campo.
Editou a série “Portal”, com contos de ficção científica de autores mais vinculados ao mainstream. Rendeu seis edições e o livro Todos os Portais: Realidades Expandidas, em 2012. Como parte desta intenção de aproximar os autores do mainstream da FC e, com isso, procurar dar mais visibilidade e reconhecimento, organizou para a Record a antologia Futuro Presente, em 2009.
Em termos ficcionais adotou os pseudônimos de Luiz Bras, como escritor, e Teo(doro) Adorno, como ilustrador, para criar novas personas junto à nossa FC, com uma outra identidade, principalmente como escritor. Sua maior realização ainda é a coletânea Paraíso Líquido (2010), notável ao aliar um estilo literário de qualidade incomum para a ficção científica brasileira com a elaboração de temas complexos e de fronteira da pesquisa científica. É, até o momento, o melhor livro brasileiro do gênero neste século XXI.
A despeito disso, Distrito Federal também é uma contribuição ímpar. Principalmente pela moldura adotada. Um livro escrito em forma de rapsódia é incomum não só para a nossa FC – no geral bem conservadora quanto ao estilo – no sentido de uma história, linear ou não que aborda no conjunto alguns assuntos predominantes e recorrentes, que vem e vão ao longo das páginas. Na literatura brasileira uma referência importante neste formato é Macunaíma (1928), de Mário e Andrade (1893-1945).
Em Distrito Federal lê-se um poema, depois outro, lê-se uma, duas, três páginas. E o leitor desfruta, antes de mais nada, de um prazer poético requintado e caprichado. Para quem aprecia, especialmente, poesia, pode-se saborear as estrofes e passagens de maneira quase aleatória. Sim é possível ler o livro de forma solta, sem preocupação com uma linha narrativa. Embora Bras não tenha na poesia a principal fonte de sua expressão literária, é talentoso o suficiente para conduzir a narrativa sem deixar a leitura dispersar. Pois é intenção de Bras conduzir o leitor por uma linha narrativa encadeada, ainda que rapsódica.
O assunto principal do livro, como o próprio título sutilmente sugere é a política. Mas o lado menos virtuoso. Estamos no Distrito Federal, capital da República Federativa do Brasil, e o tópico central do livro é a corrupção. Mal que assola o Brasil desde há muito tempo e que vem ganhando as manchetes de forma crescente e cotidiana nos últimos anos.
O romance rapsódico retrata os vários tipos de subterfúgios e ações para se desviar da lei e do interesse público, ao comentar, de forma indireta, alguns dos vários escândalos dos últimos anos, entre eles os anões do orçamento (1993) e o mensalão (2005).
À parte o tema da corrupção a obra é permeada com algumas reflexões sobre outro grande problema nacional, a dilapidação do nosso ecossistema. Para ilustrar o imaginário em torno da questão o Curupira e o Saci-Pererê assumem mesmo uma tarefa contra o corrupto civilizado, possuindo algumas pessoas como seus instrumentos de vingança.
Pois em Distrito Federal a corrupção é o mal maior, com desdobramentos sobre todos os outros assuntos. Para combatê-lo é preciso ir direto ao ponto, à margem das imperfeições das leis e da morosidade das regras institucionais. Pois neste ambiente civilizado viceja, na verdade, a injustiça e o privilégio. Mas o que é ir direto ao ponto? Simples, partir para a violência, “fazer justiça com as próprias mãos”. Os que defendem os meios legais são chamados de obtusos, cidadãos que tem uma postura entre o ingênuo e conformado e, por isso, cúmplices não intencionais da malversação dos recursos públicos por políticos desonestos e imorais. A violência é defendida e deflagrada com a morte violenta dos corruptos: esquartejamento e decapitação expostos publicamente é o recurso mais utilizado, e passa a ganhar adeptos com a criação de gangues de caçadores de corruptos pelo país afora. Num contexto como este viveríamos a falência do Estado democrático num caminho que levaria ou à anarquia ou a uma ditadura.
É claro que a obra não defende “o olho por olho, dente por dente”, ao realizar mais um expediente de provocação ao leitor e ao mesmo tempo quase que um panfleto de desabafo ante a uma corrupção mostrada como generalizada. Talvez o cerne subjacente da provocação, digamos assim, é uma postura hipócrita de muitos segmentos da sociedade, ao se condenar mais uns do que outros, e relativizar uns atos de corrupção, com outros, a depender, em boa medida, da ideologia de quem o pratica. Mesmo assim incomoda. Primeiro ao circunscrever a corrupção apenas no ambiente da política institucionalizada. Ora, os atos lesivos ao interesse público só se disseminam porque fazem parte de um substrato sociocultural. A corrupção antes de se manifestar na política institucionalizada é praticada em todos os segmentos (privados) da sociedade. Este é um argumento clássico dos estudos sociais brasileiros. Confundimos o interesse público com o privado. Mas o livro passa uma ideia de que o mal estaria na classe política; sem a corrupção no ambiente público, teríamos um país mais próspero, uma sociedade mais civilizada e, por consequência, com cidadãos mais éticos. Impressão certa ou não, não há como concordar com tal reducionismo. Esta solução nos colocaria num contexto policialesco de tons fascistas. Afinal, quem é o senhor do que é certo e o que é errado? Existiria alguém moralmente superior?
O fato é que o Brasil de 2015 para cá, a partir dos escândalos investigados pela Operação Lava Jato, tem depurado, de forma inédita, corruptos graúdos como nunca se viu, mas levou de roldão uma presidente da República honesta e eleita com mais de 54 milhões de votos. Em consequência, temos hoje uma democracia menos robusta e segura do ponto de vista de sua estabilidade.
Como dito, o contexto da rapsódia se alterna entre a crítica ao desmatamento ambiental e a crítica à corrupção política, com prevalência desta última, com uma ficção científica que se manifesta na linguagem tecnológica, pós-humana como se convencionou chamar de uns tempos para cá, neste século XXI. Afora o Distrito Federal como centro político, também temos o Distrito Federal como a representação de um videogame de realidade virtual ultrassofisticado que seria livre, porque gerenciado de forma quase sensiente por uma inteligência artificial. Este ambiente virtual vai, aos poucos, se sobrepondo ao mundo concreto, sem contudo transformar a realidade e seus problemas.
Pois nesta leve moldura de ficção especulativa, o tema da corrupção adquire uma importância algo desmedida, e talvez o livro fosse melhor em termos temáticos, se apresentasse em suas rapsódias outros problemas brasileiros igualmente graves. Exemplo maior seria a desigualdade social historicamente abjeta, praticamente ausente da obra.
O maior problema do Brasil não é a corrupção, mas a desigualdade social. É ela que, inclusive, reproduz as relações desiguais de poder, com os setores histórica e socialmente dominantes agindo em torno de seus interesses, ao explorar e desrespeitar o povo menos favorecido. Um país mais civilizado é mais justo e igualitário, mesmo num sistema de produção capitalista. Não só por existir um Estado mais republicano e socialmente presente, mas também por responder de forma mais equânime as demandas dos mais diferentes setores. Um Estado mais transparente e universalizado em seus objetivos e interesses. Ora, por consequência, menos corrupto. Uma sociedade desigual e com privilégio para poucos reproduz comportamentos mais autoritários e privatistas, menos comprometidos com o coletivo. Este contexto socioeconômico explica mais a corrupção do que a acusação tão senso comum de que existiria um déficit moral, uma “crise ética”. Sim, crise há, mas da reprodução de um modelo de relação Estado-sociedade de caráter patrimonialista, em que o interesse público serve, em grande medida, para reproduzir os privilégios de uma elite descomprometida com as necessidades da população mais carente e com os interesses nacionais.
Já se disse que quem se importa mais com a corrupção é uma certa corrente da classe média, de perfil ideológico mais conservador. Não enxerga que o problema é menos moral e mais político, no sentido de se praticar políticas públicas realmente inclusivas e democratizantes. A corrupção se transforma numa questão moral porque não há interesse em alterar esta sociedade desigual e cheia de privilégios para poucos. Afinal, quem foi que tomou as ruas do país para clamar por “moralidade pública”? Ora, ajudou sim a afastar a presidente Dilma Rousseff e fragilizar o seu partido –, de vinculação socialmente mais progressista, embora envolvido nos esquemas de corrupção com as empreiteiras –, mas tem se mostrado tolerante com os novos (velhos) políticos que assumiram o governo, tão ou mais envolvidos nos mesmos escândalos. Quem seriam os verdadeiros obtusos, então?
Distrito Federal foi escrito antes da Lava Jato, mas parece que vaticinou o ambiente conturbado e polarizado que estava por vir. Seja como for é um livro pertinente por trazer uma discussão tão polêmica e contemporânea no contexto da FC, e apresentar uma tentativa bem-sucedida do ponto de vista estético e literário. Acho que dificilmente teremos outra experiência de romance em rapsódia na FC brasileira. Algum outro autor se arrisca?

– Marcello Simão Branco

domingo, 26 de fevereiro de 2017

A Hora do Terror (Witchcraft 7: Judgement Hour, EUA, 1995)


Na época do mercado de vídeo VHS no Brasil foram lançadas muitas porcarias em nossas locadoras. Uma delas foi o sétimo filme de uma extensa série de tranqueiras cujo nome nos Estados Unidos é “Witchcraft”. Com o subtítulo original de “Judgement Hour”, aqui recebeu o título de “A Hora do Terror” (1995), um fato que apenas reforça a incrível a falta de criatividade dos responsáveis pela escolha dos nomes para distribuição no Brasil, contribuindo para confundir e dificultar um trabalho de catalogação ou a pesquisa dos colecionadores de filmes de horror. Cuidado para não se enganar com outro filme lançado por aqui com o mesmo nome, “The Midnight Hour” (1985).
Dirigido por Michael Paul Girard, que também fez a parte 9 da série (1997), temos uma história básica sobre vampirismo, totalmente inexpressiva, com clichês cansativos, previsibilidade, piadas idiotas, efeitos toscos e muitas cenas com mulheres peladas, que é a principal característica da imensa série. Poderíamos até interpretar que “Witchcraft” é uma série de filmes eróticos com elementos de horror.
Um obscuro empresário romeno tem a intenção de tomar o controle dos bancos de sangue nos Estados Unidos, enquanto belas mulheres são assassinadas apresentando estranhas marcas no pescoço. As misteriosas mortes despertam a atenção de um advogado, Will Spanner (David Byrnes) e de uma dupla de policiais de Los Angeles, os detetives Lutz (Alisa Christensen) e Garner (John Cragen), que partem para uma investigação, descobrindo as atividades de um antigo vampiro.
Nada se salva nesse filme, que é o exemplo típico de tranqueira descartável que não diverte e somente consegue depreciar ainda mais o gênero. O cinema de horror é tão maltratado com filmes ruins e a série “Witchcraft” contribui significativamente para denegrir essa imagem. O mais importante para uma chance mínima de sucesso num filme é a existência de um bom roteiro. Em “A Hora do Terror”, a história é péssima e os atores são inexpressivos. É apenas um filme com belas mulheres sem roupas. E talvez, citaríamos o vampiro transformado numa criatura tosca no ato final, devido exclusivamente aos efeitos extremamente bagaceiros.
Curiosamente, a série “Witchcraft” tem treze filmes produzidos pela “Vista Street Entertainment” e foi anunciado o lançamento de mais outros três. Alguns deles foram distribuídos pela “Troma”. O personagem Will Spanner aparece em quase todos eles, interpretado por vários atores diferentes. A parte 5 foi lançada em DVD no Brasil com o título “Dançando Com o Mal” (Witchcraft V: Dance With the Devil, 1993), que saiu em 2004 num DVD lançado em bancas de jornais e revistas num mesmo disco, junto com outro filme, “A Lenda da Múmia” (The Legend of the Mummy, 1997).
(Juvenatrix – 26/02/17)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

A Estranha Ficção Científica de Ursula K. Le Guin

A Mão Esquerda da Escuridão (The Left Hand of Darkness), Ursula K. Le Guin. Editora Aleph, São Paulo, 2014 (segunda edição). Tradução de Susana L. de Alexandria. Capa: Pedro Inoue.
                      
            Utilizei no título o adjetivo “estranha” porque o presente romance parece muito mais uma narrativa moderna de fantasia que de ficção científica. Em outras palavras, parece mais próximo de Tolkien, Lewis (Carrol ou C.S.), Rowling, Zimmer Bradley, que de Asimov, Van Vogt, Clarke ou Heinlein. Toda a logística da história passada no planeta Gethen segue um clima de fantasia, e o elemento FC se define mais pela origem do protagonista Genly Ai, como emissário da federação galática conhecida como Ekumen, da qual a Terra faz parte.
            Gethen é um mundo gelado, sem mamíferos, e os seres humanos que aí vivem, em diversos países, não possuem aparelhos voadores nem tecnologia avançada. Além disso possuem uma condição sexual insólita: na maior parte do tempo são assexuados e no restante podem adquirir um ou outro sexo, como hermafroditas. Esta fase mais curta é chamada de “kemmer”, o que tem alguma semelhança com o cio dos animais. Uma civilização de humanos-caracóis... detalhe que influencia toda a vida. Le Guin porém evita entrar em detalhes grosseiros ou lascivos, tecendo a narrativa com elegância e segurança. Ainda bem, porque o romance em questão não é de leitura facil.
            Realmente, não é fácil construir todo um universo ficcional, dar coerência à sua estrutura. No caso, a autora precisou criar a infra-estrutura de toda uma civilização planetária sem esquecer detalhes climáticos e geológicos, em descrições feitas com grande naturalidade. Nada mais irritante que certos autores de FC que se demoram em longas explicações didáticas dirigidas diretamente aos leitores, quebrando de todo a chamada “suspensão da incredulidade”. Numa boa narrativa de ficção científica e/ou fantasia, as coisas devem ir se explicando por si mesmas, à proporção que a trama se desenrola. E Ursula consegue esse efeito com facilidade.
            Vejamos alguns respigos da narrativa de Le Guin e a maneira como ela introduz os conceitos através do texto:
            “Quando falou, peguei-me acreditando que de fato iríamos chegar a Karhide, cruzando 1.300 quilômetros de montanha, ravina, fenda, vulcão, geleira, lençol de gelo, pântano congelado ou baía congelada, tudo desolado, sem abrigo e sem vida, sob as tempestades de inverno no meio de uma Era Glacial.” (cap. 15)
            Veja-se a habilidade com que ela define em poucas palavras todo o cenário que em sua jornada os dois personagens (Genly Ai e Estraven) têm de atravessar.
            “Durante o mês de Kus, vivi na costa leste, num Clã-Lar chamado Gorinhering, uma casa-cidade-forte-fazenda construída numa colina, acima das brumas eternas do Oceano Hodomin. Cerca de quinhentas pessoas viviam ali. Há quatro mil anos, eu teria encontrado seus ancestrais vivendo no mesmo lugar, no mesmo tipo de casa. Ao longo desses quatro milênios o motor elétrico foi desenvolvido, rádios e teares elétricos, veículos elétricos, maquinaria agrícola e outros equipamentos começaram a ser utilizados, e uma Idade da Máquina foi surgindo aos poucos, sem revolução industrial, sem revolução de espécie alguma.” (cap. 8)
            Este trecho, típico de uma narração feita sem precipitação (outro vício de tantos autores) justifica-se plenamente por se tratar de um relatório na primeira pessoa, e o autor fictício (isto é o protagonista-narrador) dirige-se à sua própria civilização, explicando fatos de uma civilização estranha. Mesmo assim, explica com uma grande naturalidade.
            Tudo o que Genly deseja é que aquele mundo entre para o Ekumen, ou seja a federação de povos galáticos. O Ekumen, porém, tem o critério de enviar um único representante, com a cara e a coragem, para negociar com os povos locais de cada mundo habitado por humanos e ainda exterior à federação. Uma nave fica esperando em órbita, que Genly a chame quando tiver certeza de que o acordo será feito. Mas em meio a intrigas políticas e ciúmes nacionais, Genly verá que a sua missão não é tão simples assim e que ele correrá perigo de vida, pois representa mudanças que trarão consequências imprevisíveis áqueles povos. Para início de conversa ele nem sequer é acreditado, sendo mesmo tido como um farsante. Uma sucessão de dissabores espera por ele, inclusive uma longa jornada por regiões gélidas e hostis à vida, em companhia de Estraven, único personagem a apoiá-lo na situação mais extrema.
            Como eu disse, não é uma leitura fácil, não é um livro linear (o protagonista-narrador inclusive intercala, ao seu próprio depoimento, o de Estraven e algumas lendas locais), ainda que Ursula K. Le Guin seja uma autora de fato categorizada. É livro para ler com paciência e atenção.
— Miguel Carqueija

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Demônio, O Rei das Trevas (Prime Evil, EUA, 1988)


Tranqueira americana que recebeu o manjado e totalmente sem criatividade título nacional “Demônio, O Rei das Trevas” (Prime Evil, 1988), esse filme obscuro dirigido por Roberta Findlay foi lançado no Brasil em VHS pela “Alvorada”, numa época que nossas locadoras de vídeo eram infestadas de inúmeras bagaceiras descartáveis realizadas por desconhecidos e com elencos inexpressivos.
Durante a peste negra que arrasou a humanidade no século XIV, uma ordem medieval de monges renegados da Igreja Católica, uma vez revoltados contra Deus, criou uma seita satânica que realizava rituais de sacrifícios humanos de parentes de sangue em troca de longevidade e bens materiais. O culto demoníaco se manteve por séculos e as ações se voltam para o tempo presente (final da década de 80, época de produção do filme) na cidade de Nova York, liderado pelo sinistro padre Thomas Seaton (William Beckwith).
Um dos membros da seita é George Parkman (Max Jacobs), que precisa manter seu pacto com o diabo de longevidade e riquezas, além de interesses pessoais no controle do poder no culto. Ele planeja oferecer em sacrifício sua neta Alexandra (Christine Moore), que trabalha num abrigo para jovens delinquentes. Porém, mortes violentas de pessoas próximas dela despertam a atenção da polícia, sob a investigação do detetive Dann Carr (Gary Warner), e também de seu noivo Bill King (Tim Gail), que tenta protegê-la da conspiração demoníaca. Em paralelo, uma jovem freira, Irmã Angela (Mavis Harris), se oferece para ajudar a igreja se infiltrando na seita para tentar destruí-la.
O filme é uma tranqueira produzida diretamente para o limbo dos esquecidos. O roteiro é ruim, com uma história óbvia de seita satânica e sacrifícios humanos, apostando unicamente em velhos clichês do gênero. Como todo filme de horror bagaceiro, temos elementos que merecem citação como a presença de belas mulheres nuas oferecidas ao “rei das trevas” (do patético título nacional), algumas mortes com discretas doses de sangue (numa época sem os efeitos vagabundos de computação gráfica dos tempos modernos), e ainda a aparição rápida do próprio demônio em efeitos extremamente toscos, e por isso garantindo algum divertimento rápido. Tem também aquela atmosfera característica dos saudosos anos 80 que inevitavelmente torna o filme datado. De resto, o excesso de clichês, os atores medíocres e a história desinteressante fazem de “Demônio, O Rei das Trevas” apenas mais um filme descartável, que curiosamente foi lançado por aqui na saudosa época do mercado de home vídeo.
(Juvenatrix – 19/02/17)

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Espíritos do Demônio (Evil Spirits, EUA, 1990)


Lançado no Brasil em VHS pela “NCA”, “Espíritos do Demônio” (Evil Spirits, 1990) é um típico filme do saudoso período entre as décadas de 80 e 90 do século passado, uma época infestada de produções situadas no sub-gênero “slasher”, com mortes violentas creditadas às ações de um assassino misterioso.
Com direção de Gary Graver, é apenas mais um filme mediano perdido numa imensidão de similares e esquecido no limbo, mas que tem uma vantagem significativa através de uma homenagem ao gênero na escolha de um elenco repleto de nomes nostálgicos como Karen Black, Michael Berryman, Virginia Mayo, Martine Beswick, Robert Quarry e Yvette Vickers, entre outros, que foram rostos conhecidos em diversas pérolas do cinema fantástico bagaceiro.
A misteriosa Sra. Ella Purdy (Karen Black, de “A Mansão Macabra”, 1976), é proprietária de uma pensão onde vivem beneficiários da Previdência Social, cujos cheques pagos pelo governo americano são depositados mensalmente em sua conta bancária. Entre os pensionistas estranhos, temos o escritor Sr. Balzac (Michael Berryman, de “Quadrilha de Sádicos”, 1977), um homem bizarro que gosta de observar os quartos vizinhos por orifícios secretos nas paredes; a sensitiva Vanya (Martine Beswick, de “Mulheres Pré-Históricas”, 1967), que gosta de realizar sessões espíritas; e o bêbado inveterado Willie (Mikel Angel, que também é o roteirista do filme), que é o responsável por algumas situações cômicas por causa do excesso de consumo de álcool. Temos ainda a bela jovem Tina (Debra Lamb), que é muda e fica dançando o tempo todo mostrando seu corpo escultural, e o casal de idosos recém chegados, John e Janet Wilson (Bert Remsen e Virginia Mayo, respectivamente), que logo se sentem desconfortáveis na nova moradia.
Os problemas se iniciam na ocorrência de assassinatos sangrentos na pensão, com os cadáveres sendo enterrados no quintal, exalando um odor pútrido que desperta a atenção de uma vizinha interpretada pela veterana Yvette Vickers (de bagaceiras divertidas dos anos 50 como “A Mulher de 15 Metros” e “O Ataque das Sanguessugas Gigantes”). O desaparecimento dos pensionistas também intriga o fiscal da previdência social Lester Potts (Arte Johnson), que decide fazer uma investigação particular.
“Espíritos do Demônio” é somente outro filme comum com mortes misteriosas e razoáveis doses de sangue com olhos perfurados, gargantas dilaceradas e golpes de machado na cabeça. A história não tem novidades e pelo contrário, está repleta de clichês e previsibilidade, características que inevitavelmente condenam o filme ao esquecimento. Porém, existe um diferencial que é o elenco de veteranos, pois além dos já citados na sinopse, ainda conta com nomes como Robert Quarry, que esteve em vários filmes preciosos como “Conde Yorga, Vampiro” (1970), “A Câmara de Horrores do Abominável Dr. Phibes” (1972) e “A Casa do Terror” (1974). E Anthony Eisley, que fez apenas uma ponta como um detetive da polícia, e esteve nas divertidas tranqueiras “A Mulher Vespa” (1959), “Os Monstros da Noite” (1966), “Jornada ao Centro do Tempo” (1967) e “Dracula vs. Frankenstein” (1971).
(Juvenatrix – 18/02/17)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Diário da Guerra de São Paulo

Diário da guerra de São Paulo, Fernando Bonassi. Fotos de João Wainer. 104 páginas. São Paulo: Publifolha. Lançado em 2007.

De forma involuntária e inesperada tive a fortuna de achar este Diário da Guerra de São Paulo, na livraria Temos Livros, ponto tradicional dos antigos fãs de ficção científica, no Centro da capital paulista, em 2007. E só lá, não vi em mais nenhum outro ponto de venda.
Logo no início o autor alerta: “Aviso aos chatos. Livros como este são escritos para que histórias como estas não aconteçam.” É um tipo de desculpa aos seus leitores e convivas pela ousadia de escrever uma história de ficção científica? Seja como for, anuncia sua premissa de como encara o gênero, numa linha que segue os passos de Ray Bradbury, para quem cabe ao gênero evitar os nossos possíveis erros no futuro.
Como anuncia o título a novela trata de São Paulo, aqui chamada de “ex-cidade”. Num futuro incerto, mas não muito distante lemos o diário de um adolescente, um “neutro” que ainda não tomou partido entre os adultos ou as crianças, a grande clivagem social deste mundo. É que em uma cidade sitiada e em ruínas, existem várias guerrilhas de crianças abandonadas, fortemente armadas e com um apetite voraz em matar – e eventualmente também comer – os adultos, a quem culpam por abortarem os seus futuros.
São Paulo, metrópole que virou uma “ex-cidade” nas palavras do nosso confessor sem nome, é um caos completo, sem sistema de transporte, com boa parte de suas ruas e pontes destruídas e com comunicações apenas clandestinas feitas por grupos particulares. Há extrema falta de alimentos, roupas e remédios. E talvez o mais dramático seja as variações de temperatura, que se situam entre 72o C de dia a -112o C à noite. Uma amplitude térmica semelhante à encontrada em Marte. Chove frequentemente também, mas cai mais ácido do que água. E quando há um tempo aberto, o perigo é a da radiação solar. Colocar os pés na rua é um risco de morte iminente, em meio a tiroteios inesperados, assaltos, sequestros e  balas perdidas.
Nos arredores do que sobrou de São Paulo, existem cidades que ainda são minimamente viáveis. Só que elas construíram barreiras para impedir o acesso dos refugiados. Muitos tentam entrar e são rechaçados ou então se alojam em barracas em suas cercanias. Para entrar numa dessas cidades e ser aceito é preciso que seja convidado por alguém que já mora em uma delas. Os pais do narrador temtam, desesperadamente, contactar um parente para poder sair do inferno paulistano.
É curioso que também os nomes dos bairros, avenidas, praças etc de São Paulo não são nomeados, mas apenas como uma referência indireta é que se sabe que o “Centro Exato” é a Praça da Sé e o “Planalto” é a região da Avenida Paulista, por exemplo. No fim do livro, inclusive, há uma mapa em duas páginas que dão uma idéia do que como foi renomeada a “ex-cidade”.
Um trecho do clima angustiante da história e a citação de uma das partes conhecidas da cidade é ilustrado neste trecho:

“Na região dos túneis soterrados sob a grande artéria oeste-centro, o asfalto derretido avança sobre as calçadas esburacadas, formando esculturas de ondas secas. Entulho e sucata cobrem o passeio, bloqueando a passagem pelo meio dele, me obrigando a abandonar as marquises, ziguezagueando pelas carcaças dos veículos abandonados amontoados, me expondo às ‘brincadeiras’ dos atiradores drogados ou apenas malucos nas janelas dos edifícios.
“Rajadas de balas me seguiram a maior parte do tempo.
“Pausa para descanso. Dois tabletes químicos de leite e meio litro de água filtrada.” (página 69).

A esta altura o adolescente está à procura de Ana C. uma garota por que está apaixonado. Ela é de fato a única luz que brilha em sua vida e por meio da união dos dois irá frutificar uma esperança ao final da história.
É uma história interessante e que vale ser conhecida pelos leitores de ficção científica. Claro que para quem está acostumado com o tema, talvez não acrescente muito. Mas o que importa é a perspectiva de acompanhar uma São Paulo devastada que, ao que parece, caiu sozinha numa espécie de guerra civil. Não fica claro, pois Bonassi não revela o que teria acontecido, o que faz sentido se pensarmos que quem narra os acontecimentos é, afinal, alguém que está imerso neste mundo e, só conheceu ele, já que quando nasceu o mundo já era deste jeito.
Este é mais um exemplo de uma ficção científica com pendor de crítica social. Parte de um viés infanto-juvenil, ilustrado pelo discurso final em que o adolescente justifica aos pais porque não quer ir morar com eles e deseja ficar com sua garota. Mas este aspecto é secundário, vale é o desenvolvimento do tema e a reflexão sobre as mazelas que vivemos nos dias de hoje e que pode, eventualmente, nos levar a uma situação no mínimo próxima ao relatado pelo diário. Para dar uma carga realista ainda maior o texto é ilustrado com excelentes fotos de página inteira em preto e branco, de João Wainer. Algumas se encaixam bem, inclusive, com os trechos da narrativa, trazendo mais impacto ao drama relatado.
Fernando Bonassi, um conhecido e prestigioso escritor de prosas urbanas, na literatura, no teatro e também no cinema, escreve com desenvoltura, com estilo ora seco, ora com floreios poéticos. Não há espaço para um tom dramático, num ritmo veloz e objetivo, como num relato mesmo de um diário. Algumas opções me estranharam, como escrever “um” como “1”, com o número mesmo. O que é isso? Uma referência a um jeito adolescente de escrever nestes tempos de internet? Se em termos de ficção científica o melhor que podemos dizer é que a opção pela forma é a sua maior virtude, a história não desagrada e ainda provoca a reflexão sobre o que pode vir a acontecer mas, mais importante, sobre problemas que vivemos já, nos dias de hoje, como a desigualdade social e a inviabilidade estrutural de uma metrópole.
– Marcello Simão Branco

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Solarium 3

Solarium 3, Frodo Oliveira, org. 220 páginas, capa de Natalia Caruso. Editora Multifoco, selo Anthology, Rio de Janeiro, 2014.

Em 2009, Frodo Oliveira organizou para a Editora Multifoco o primeiro volume da coleção Solarium, uma antologia de contos de ficção científica com textos de autores novos e algumas boas revelações. A parceria já rendeu três sequências, a mais recente delas é o volume quatro, publicada em 2016. O objeto desta resenha é o volume três, de 2014.
Solarium 3 manteve a proposta de apresentar autores novos no panorama da fc brasileira. O próprio organizador assina um dos 29 textos da edição, que também tem Aldo Costas, Anderson Dias Cardoso, Andrei Miterhofer Cutini, Bruno Eleres, Cesar Bravo, Cristiano Gonçalves, Daniel I. Dutra, Davi M. Gonzales, David Machado Santos Filho, Demetrios Miculis, Edgard Santos, Eduardo Alvares, Emerson D. E. Pimenta, Fabiana Guaranho, Fabio Baptista, Fernando Aires, Giovane Santos, Gutemberg Fernandes, Helil Neves, Ítalo Poscai, Jowilton Amaral da Costa, Lucas Félix, Marcelo Sant'Anna, B. B. Jenitez, Patrick Brock, Ricardo Guilherme dos Santos, Sheila Schildt e Thiago Lucarini.
Não seria produtivo comentar conto a conto aqui, pois a maior parte é amadora e carece de um desenvolvimento mais apurado mas, como sempre acontece em antologias, alguns textos se destacam e merecem ser observados mais detidamente.
"Olhos de Cronos", de Andrei Miterhofer Cutini, é uma ucronia sobre um homem ferido e sem memória que desperta nos arredores de um povoado arruinado pela guerra e habitado por aleijados e moribundos assolados por ladrões de órgãos. Em seus bolsos, alguns itens estranhos que vão se revelar as chaves da salvação do seu mundo. Fica patente a influência da obra de Philip K. Dick, especialmente do conto "O pagamento" (em Realidades adaptadas, Philip K. Dick, Aleph, 2012), mas Cutini demonstra habilidade na condução do enredo, sem replicar os maneirismos do autor americano.
"Contato secreto: Operação Forget", de Cristiano Gonçalves, é uma bem elaborada ficção ufológica na linha do seriado de televisão Arquivo X. Militar desmemoriado desperta no hospital depois de participar de uma ação secreta que o deixou em coma por alguns dias. Disposto a entender o que se passou, inicia uma investigação que irá levá-lo a uma evidente conspiração governamental.
"O agricultor", de David Machado Campos Filho, vai a um futuro no qual comer carne se tornou um crime. A engenharia genética desenvolveu, então, uma nova espécie de vegetais híbridos que replicam tecidos comestíveis para substituir a proteína animal na mesa dos consumidores. Entre simulacros de aves, boi, porco e até mesmo leite e ovos, a próxima aposta do agricultor é um novo tipo de carne que pode se tornar um grande negócio no futuro. Humor negro absurdista apresentado em detalhes instigantes e um desfecho surpresa bem construído – coisa rara –, este bom texto critica os extremos da moda do veganismo.
"Ogum S. A.", de Patrick Brock, é uma divertida space opera apresentada em forma de diário de um pouco honesto empreendedor do ramo dos transportes interplanetários, que relata os dramas e alegrias, sucessos e fracassos de sua vida atribulada. Um dos melhores textos do volume que, junto ao conto comentado no parágrafo anterior, usa de um protagonista sem caráter, típico da literatura brasileira, para especular sobre a nossa cultura e atitudes frente a vida.
"Só", de Ricardo Guilherme dos Santos – autor cujos préstimos me fez chegar às mãos este volume – também investe numa space opera na qual a inteligência artificial de uma espaçonave de gerações relata a história dramática do povo que a construiu e usou através dos séculos, em sua viagem em direção à eternidade. A personalização de espaçonaves e computadores, que é um dos temas recorrentes da ficção científica, tem aqui um exemplo de contornos poéticos que obteria resultados mais expressivos se o autor tivesse elaborado uma voz própria para a sua I.A., uma linguagem de máquina, digamos assim – perseguida por William Gibson e Bruce Sterling em A máquina diferencial, totalmente perdida na tradução brasileira, diga-se de passagem –, que daria ao texto um aspecto literário mais expressivo. Exemplo de construção de vozes próprias bem sucedidas na fc&f brasileira estão no conto "Meu nome é Go", de André Carneiro, publicado na coletânea A máquina de Hyerônimus e outras histórias (UFSCar, 1997), e nos textos da série A saga de Tajarê, de Roberto de Sousa Causo, vistos em A sombra dos homens (Devir, 2004), mas como não são especificamente vozes de máquinas, este é aparentemente um desafio ainda por realizar na fc brasileira.
Há potencial nos demais textos apresentados na antologia, que renderiam ótimas peças se tivessem uma orientação técnica especializada, mas é preciso ter em mente que, tal como suas edições anteriores, Solarium 3 é uma antologia de autores novos, muitos deles estreantes. A proposta da seleção não é publicar o melhor da fc nacional, mas abrir espaço ao exercício do gênero no país, uma missão legítima e digna geralmente feita por revistas e fanzines, pouco publicados neste momento. Encarado como um periódico literário, Solarium 3 não decepciona e, como tal, é uma iniciativa que deve ser valorizada.
Solarim 3 – bem como os demais volumes da série – pode ser encontrado no saite da Editora Multifoco, aqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Fantasma de Frankenstein (The Ghost of Frankenstein, EUA, 1942)


A produtora americana “Universal”, assim como toda empresa que precisa lucrar para manter e continuar suas atividades, aproveitou a boa receptividade do público com a história do monstro de Frankenstein (criado pela escritora Mary Shelley em 1818) e explorou a ideia o máximo possível. “O Fantasma de Frankenstein” (1942) é o quarto filme da série, após “Frankenstein” (1931), “A Noiva de Frankenstein” (1935) e “O Filho de Frankenstein” (1939), sendo que nestes três filmes a criatura foi interpretada pelo lendário Boris Karloff (1887 / 1968), que não repetiu mais o papel. Em seu lugar foi escalado então outro ícone do cinema de horror, Lon Chaney Jr. (1906 / 1973), mais conhecido como o “lobisomem” no clássico de 1941.
Em “O Fantasma de Frankenstein”, dirigido por Erle C. Keaton, a história segue a partir dos acontecimentos do filme anterior, e o monstro estaria supostamente destruído, soterrado numa mina de enxofre debaixo da torre do cientista Frankenstein, e o ajudante Ygor, interpretado pelo húngaro Bela Lugosi (1886 / 1956), o eterno “Drácula” depois de surgir no filme homônimo de 1931, havia sido cravejado de balas. Porém, os aldeões do vilarejo estão descontentes com o declínio da região, alegando influência da maldição de Frankenstein. Nada prospera no local e então eles conseguem autorização das autoridades para explodir o castelo do “cientista louco”. Para a surpresa geral, encontram o manco Ygor ainda vivo e ele, depois da destruição do imenso casarão de pedras, localiza o monstro no subsolo, preservado pelo enxofre.
Ygor consegue resgatar seu companheiro e juntos fogem para a cidade de Visaria para procurar o outro filho de Frankenstein, o médico Ludwig (Cedric Hardwicke), especialista em doenças mentais. Após uma série de incidentes entre a criatura e os moradores da cidade, envolvendo também o promotor Erick Ernst (Ralph Bellamy), namorado de Elsa (Evelyn Ankers, filha de Ludwig Frankenstein), Ygor consegue convencer o também cientista e seu assistente ressentido Dr. Theodore Bohmer (Lionel Atwill), a realizarem novas experiências com o monstro, tentando trocar seu cérebro maligno. O Dr. Ludwig recebe também a influência de uma aparição do fantasma de seu pai, que aconselha não destruir a criatura feita de restos de cadáveres humanos. 
      
No entanto, quase resolvi um problema que tem confundido o ser humano desde tempos imemoriais: o segredo da vida criada artificialmente” – fantasma do Barão Henry Frankenstein

Com fotografia em preto e branco e duração de apenas 67 minutos (era comum naquela época os filmes serem curtos), “O Fantasma de Frankenstein” desperta interesse quase que exclusivamente pela atmosfera gótica e pelos atores (Lon Chaney Jr. e Bela Lugosi sempre tiveram grande relação com o Horror). Enquanto Chaney continua fazendo do monstro de Frankenstein uma aberração assustadora, numa decisão acertada em manter os mesmos aspectos visuais da criatura dos filmes anteriores interpretada por Karloff, o sinistro Ygor de Bela Lugosi também continua convincente e de extrema importância para os rumos da história.
Por outro lado, o roteiro pouco contribuiu para esse universo ficcional já bastante explorado, mesmo em 1942. A necessidade de obtenção de lucros pelos realizadores pressionou os roteiristas, que por sua vez enfrentaram uma escassez de criação. Eles reciclavam as mesmas ideias, contando histórias similares com os descendentes do cientista, ressuscitando o monstro e outros personagens, e utilizando as mesmas motivações e elementos que caracterizaram os filmes anteriores. O ápice dessa falta de originalidade resultou em vários filmes “crossover” produzidos em seguida, misturando os monstros “Drácula”, “Lobisomem” e “Criatura de Frankenstein” numa mesma história, abandonando ainda mais qualquer regra de coerência. 
Por curiosidade, o filme recebeu primeiramente o título nacional “A Alma de Frankenstein” e depois também ganhou o mais apropriado “O Fantasma de Frankenstein”. Foi lançado em DVD tanto pela “Universal” quanto “Dark Side” num programa duplo com o filme anterior da série, “O Filho de Frankenstein”. E também sozinho, pela “Continental”.
(Juvenatrix – 05/02/17)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

A Criatura da Mão Azul (Creature With the Blue Hand / Die blaue Hand, Alemanha Ocidental, 1967)


A Criatura da Mão Azul” é mais um filme que surpreendentemente foi lançado no mercado brasileiro de vídeo VHS, distribuído pela obscura “MBA Home Vídeo”. Trata-se de uma produção da Alemanha Ocidental (na época conturbada dos anos 60 a Alemanha era dividida por questões políticas e a unificação somente ocorreu em 1990), com uma típica história de detetive com sutis elementos de horror nas ações de um assassino misterioso usando uma luva de ferro com dedos pontudos em lâminas afiadas para penetrar na carne de suas vítimas. Na Alemanha, esse sub-gênero de suspense policial é conhecido como “krimi”, equivalente aos “giallos” italianos”.
Essa arma conhecida como “mão azul” (do título), fazia parte de uma armadura medieval de guerra.  Curiosamente, podemos considerar essa ideia como precursora ou inspiração para a luva de facas do popular psicopata Freddy Krueger, criado pelo cineasta Wes Craven para a cultuada franquia “A Hora do Pesadelo”.
Com direção de Alfred Vohrer e Samuel M. Sherman (este não creditado), o roteiro foi baseado em história do escritor inglês Edgar Wallace (1875 / 1932), especialista em argumentos policiais e de mistério, e conhecido pela ideia conceitual do popular “King Kong”, o macaco gigantesco que apareceu em inúmeros filmes. Em “A Criatura da Mão Azul”, ambientado em Londres, Inglaterra, temos um homem condenado à prisão por assassinato, David Donald Emerson (Klaus Kinski), que alega inocência. Misteriosamente, ele é ajudado a fugir do manicômio judiciário dirigido pelo suspeito Dr. Albert Mangrove (Carl Lange), e retorna para a mansão sinistra de sua família rica, que fica nas proximidades do presídio.
Lá chegando, ele encontra seu irmão gêmeo Richard, que desaparece, assumindo seu lugar. Paralelamente, começa a ocorrer mortes misteriosas no interior do imenso casarão com estilo gótico, que é repleto de portas escondidas e passagens secretas para ambientes ocultos, com a identidade do assassino escondida por debaixo de um manto preto e utilizando a luva de pontas. Assustando seus moradores, como o aristocrático e igualmente enigmático mordomo Anthony (Albert Bessler) e os membros da família como a matriarca Lady Emerson (Ilse Steppat), e os irmãos do presidiário fugitivo, Robert e Charles (Peter Parten e Thomas Danneberg, respectivamente), além da jovem irmã Myrna (Diana Korner). As mortes em série despertam a atenção da polícia, sob a liderança das investigações pelo Inspetor Craig (Harald Leipnitz), da Scotland Yard, que recebe o auxílio esporádico de Sir John (Siegfried Schurenberg).
O filme tem um ritmo bastante ágil, com ações praticamente ininterruptas alternando momentos entre os ataques do maníaco e os assassinatos, com a condução das investigações da polícia, especulando a ideia de uma conspiração com vários suspeitos e a tentativa de surpresa na revelação da identidade da “criatura da mão azul”. Mas, tem algumas tentativas de humor que poderiam ser evitadas e a trilha sonora escolhida nas cenas de perseguição é muita estranha, minimizando a atmosfera de tensão. O grande nome do elenco, o polonês Klaus Kinski (1926 / 1991) poderia ser mais aproveitado, com maior presença apenas na primeira metade do filme.  
Curiosamente, recebeu outro nome alternativo, “The Bloody Dead”, que é um título exagerado e que seria mais apropriado para um filme de horror sangrento, que não é o caso aqui. Esse outro nome foi escolhido para o mercado americano de vídeo, numa versão com diferenças como cortes e também acréscimos de cenas adicionais, com redução na metragem final passando de 87 para 74 minutos (P.S.: aliás, essa versão reduzida é a que eu assisti).
(Juvenatrix – 02/02/17)